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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Sei o que fizeste o 26 de fevereiro passado

Andei o mês todo a pensar nisto e até fui ver o e-mail da reserva do avião para descobrir o dia certo em que tínhamos chegado a Bruxelas.

Reparei hoje que faz um ano que nos mudámos para Bruxelas. 

É a primeira vez, desde que começámos a morar juntos, que paramos um ano no mesmo sítio. E eu que estava tão convencida que seria Londres a quebrar a marca... 

Não temos intenções de sair daqui tão cedo mas muito menos de ficar aqui muitos anos. Vai-se deixando andar, num misto de ir-se com a corrente do dia-a-dia e ter-se umas imagens esboçadas sobre onde se quer estar no futuro próximo.

Agora, com o ciclo anual fechado, e à medida que os próximos meses se desenrolam, começam as comparações inevitáveis - especialmente com o tempo que faz e o que fez o ano passado. E com o que se estava a fazer há um ano, e onde fomos passear, e com quem estávamos e o que sabíamos, e o francês que falávamos e percebíamos. 

Esta cidade de vez em quando frustra-me, dá-me algumas dores de cabeça, mas também foi ela que me deu o meu primeiro emprego a sério, a possibilidade de me deslocar a pé para o trabalho e a facilidade em lhe escapar quase todos os meses devido à sua centralidade. Por isso as minhas queixas são relativas.






S.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Descubra as diferenças


Fotos do Parc Cinquantenaire, tiradas com apenas um mês de intervalo, à mesma hora da matina:


   




Continua frio, é verdade. Mas o frio é muito relativo, e 1 ou 2 graus, após terem estado -8º, até parece aceitável. E temos sido brindados com este céu limpo e sol maravilhosos, de maneira que uma pessoa anda é feliz com toda a luminosidade extra e esquece-se de ter frio. No outro dia até saí de casa sem luvas! E os dias estão a crescer a um ritmo alucinante, a caminho da luz às 11 da noite que se espera lá para junho. 

Assim dá gosto levantar de manhã.



S.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A dança do bilião

Quando, há umas semanas, o D. me diz: "Dia 14 vou ver o Benfica a Leverkusen", a minha primeira reação foi "Está bem." Mas depois lembrei-me: "Espera lá, dia 14 é Dia dos..."





"A sério? Vais ao estádio no dia dos namorados? Numa saída de amigos? Quão cliché é isso, pá?"

Mas depois lembrei-me das minhas raízes feministas, e que mais cliché do que ir ver bola com os amigos no Dia dos Namorados é ser a namorada que fica aborrecida com isso, por isso esta foi a minha verdadeira reação:






Entretanto, andava a matutar sobre que iria fazer no Dia da Mulher que se aproxima. Há um ano, graças ao estágio no PE, estava em lugar privilegiado para assistir a todas as conferências e mais alguma sobre o tema. Precisamente no Dia da Mulher, tive a oportunidade de assistir a um debate muito interessante sobre a igualdade salarial entre homens e mulheres na UE. Por isso, e como sei que a as instituições europeias são devotas à igualdade de género, a primeira coisa que me ocorreu foi ir pesquisar o que o Parlamento Europeu tinha agendado para este ano.

Em caminho descobri a campanha do One Billion Rising. O título baseia-se na estimativa de que uma em cada três mulheres será, algures durante a sua vida, violentada, abusada ou violada.

Uma em três.

Isto traduzido em números dá 1 bilião. Não sei o que dá melhor compreensão da extensão do flagelo da violência contra as mulheres, se o número 1 bilião ou se a fração 1 em 3. Uma coisa é certa: são demasiadas.

Pelo que consegui saber, o Lóbi Europeu de Mulheres - aka o meu sonho de emprego - estava a organizar uma flashmob no dia 14 de fevereiro ao fim da tarde em Bruxelas como parte desta campanha mundial contra a violência contra as mulheres. Havia ensaios de coreografia e tudo, e todo um código de vestimenta para participar nessa mobilização.

Quatro coisas conspiraram para que eu considerasse que essa flashmob puderia ser o serão perfeito para o meu Dia de S. Valentim:

1. Estava de folga àquela hora naquele dia;

2. Assim como assim iria estar sozinha em casa sem nada de especial para fazer;

3. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa nesta cidade, porque só assim me consigo integrar;

4. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa no que diz respeito aos direitos das mulheres, porque só assim  consigo conhecer pessoas que partilham a minha visão e os meus interesses e os desenvolvo. A Beauvoir é boa companhia mas também preciso de conviver com gente viva.


Uma coisa conspirou para que a flashmob ao ar livre se tornasse uma má ideia:

1. O tempo.


Depois da hora do almoço começou a chover e no meu boletim meteorológico habitual até figurou um novo tipo de tempo: freezing rain. E que é freezing rain? Portanto, não é neve, não é chuva normal, também não é granizo... O que é? Pode-se sempre contar com Bruxelas para inovar no que aos códigos de meteorologia diz respeito. Comecei a temer que a chuva estragasse os meus planos de manifesto feminista.

Decidi ir. Está a chover, que se lixe. Se não fizer nada porque está a chover bem que posso ficar todos os dias em casa. E se está 1 grau, veste-se mais um casaco e siga.

Quando cheguei à Place Monnaie, o ponto de encontro da campanha e onde iria acontecer a dança, fiquei surpreendida com a quantidade de pessoas. Não estava à espera de ver a sala tão composta:




A minha postura demasiado auto-consciente e mais passiva do que gosto de admitir, levou-me a instintivamente procurar um lugar de observadora, e por isso fugi lá do meio e fui-me posicionar estrategicamente entre as colunas do edifício (também queria estar numa posição privilegiada para fotografar e filmar, confesso).

Entretanto, a música começa e o pessoal começa a coreografar:




Não conhecia os passos, mas a beleza das multidões é que se apanha o ritmo instintivamente, e começa a tornar-se impossível ter os pés quietos. Isso e o frio; não há nada como tirar o pé do chão para evitar que um membro nos caia, de dormente que está.

Foi muito inspirador. E superou as minhas expectativas. Não tanto pela música e pela flashmob propriamente dita, os pretextos para o ajuntamento e o grito de revolta, mas pelos pequenos detalhes que vi: as amigas que vieram juntas e que gritaram mais que todos os outros; os cartazes contra a violência; a mãe que levou a filha de um ano e que encorajava a bebé a dançar ao meu lado, e que foi bem sucedida (mais uma prova de que o ritmo de multidões a dançar é contagiante) e que me trouxe lágrimas aos olhos, porque sim senhora, de pequenino é que se torce o pepino, e assim é que é, educar a filha a ter orgulho em ser mulher, sem ser apenas no mais banal da aparência; na velhota de fartos caracóis loiros que entretanto apareceu lá no meio a bambolear e a curtir a música como as raparigas de 20 anos, e que me levou a um grito interno de "Quando eu for grande quero ser assim!"; os homens que apareceram e que se juntaram ao protesto, numa posição de respeito pelas mulheres da sua vida.

Entretanto a flashmob acabou, começou música para animar e aquecer o pessoal ("Vous êtes CHAUDS?" Então não estamos, senhora apresentadora...) e eu decidi sair do meu poleiro e ir mirar as barraquinhas com informação sobre a campanha. Uma senhora entregou-me isto:




Nada mais nada menos que um panfleto sobre aulas de defesa pessoal, defesa verbal, e grupos de auto-ajuda e aconselhamento sobre como as mulheres se podem sentir mais seguras. Quão bad ass, meu deus!

Isto fez-me lembrar um argumento que a Beauvoir faz n'O Segundo Sexo, sobre a relação entre a passividade a que são devotadas as mulheres e o seu sentimento de fragilidade e insegurança. Segundo ela, é necessário que as mulheres participem em atividades físicas, não lhes seja travado o impulso de subir às árvores em criança, de correr, de saltar, de puxar o limite dos seus corpos. Só experimentando o corpo, mexendo-se e raspando joelhos é que a mulher, tal como o homem, ganha consciência do que é capaz, e que as suas conquistas físicas e a boa relação com o seu corpo lhe dão a auto-estima necessária para dizer na sua vida: "Eu sou capaz" e a colocar-se a si própria objetivos mais altos. Eu vou desconfiando que ela tem razão.

Sem saber muito bem como nem porquê, dei por mim no meio da multidão, e a mexer o pé devagarinho. Passados cinco minutos era ver-me aos saltos como uma maluca, a dançar como raramente aproveito, e com um sentimento de irmandade a invadir-me os sentidos. Fala-se tanto da rivalidade entre mulheres, e como as amizades entre raparigas são sempre tão cheias de intrigas, e como é tão difícil trabalhar com mulheres porque são umas cabras umas para as outras, que foi mesmo bom sentir e presenciar a refutação desse mito: o que ali vi foi mulheres a partilharem a felicidade genuína e o sorriso fácil que vem da dança e do mexer o corpo sem qualquer propósito que não o da diversão: sem o propósito de agradar, sem o propósito de seduzir ou sequer rivalizar. Mexer ritmadamente e ao som de música dançante simplesmente porque é divertido.

Fiquei parva comigo mesma; estava a gostar genuinamente de estar ali a dançar!... De notar que eu fujo da discoteca e da noitada como o diabo da cruz. Fez-se mais uma vez a flashmob e eu entrei rapidamente na coreografia, no meio da multidão e sem qualquer preocupação no mundo.

A sessão de anti-self-consciousness fez-me definitivamente bem à alma.

Agora estou aqui sentada no sofá, no quentinho e no silêncio do lar, de pernas dormentes porque levaram dose puxada de abuso hoje - para além da caminhada habitual de commuting de uma hora, ainda me levaram até à Place Monnaie e aguentaram uma hora a pular como se não houvesse amanhã. Mas estou satisfeita, de sorriso nos lábios e com vontade de me envolver em mais coisas destas. Que venha o dia 8 de março!







S.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Passatempo favorito: Brussels-bashing

Após acordar estremunhada, olhar pela janela e ver inesperadamente os passeios cobertos de neve, apeteceu-me mandar as bicicletas e as caminhadas à merd@ e dirigi-me ao tram que me levaria ao metro que me levaria ao outro metro que me levaria ao trabalho. Estou sem paciência para ter frio nos olhos e pés congelados.

Mas o metro bruxelense acha por bem ter a regularidade de  dez-em-dez-minutos em plena hora de ponta e portanto foi a resmungar entredentes que esperei por ele na estação apinhada. Os dez minutos passados e a luta para entrar na carruagem que é customeira. Nunca ninguém ensinou os bruxelenses que primeiro se deixa as pessoas sair dos comboios e só depois se entra, assim como nunca ninguém os ensinou que numa escada rolante, quem está parado encosta-se à direita. Oh, ordem londrina.

Na estação o metro esvai-se em pessoas, uma corrente de indivíduos que não acaba e o motorista sente que já está ali há tempo demais e portanto toca a fechar as portas no meio da corrente humana. O sistema mecânico destes metros de há cinquenta anos atrás dita que estes não tenham sistema de deteção de coisas entre as portas e é preciso muitos pares de mãos a segurar as portas para que ninguém fique entalado. Desisto de entrar no comboio do demo e fito as portas de olhos arregalados, incrédula com a estupidez que se acabou de passar ali.

As portas acabam por se fechar, menos uma. Após várias tentativas, vejo o motorista a sair da sala das máquinas, a mandar dois pontapés na porta e a regressar com ar de enfado ao seu posto. O comboio arranca pouco depois.

Após mais dez minutos de espera na estação onde faço o transbordo, a mais nojenta e incrivelmente desfeita do metropolitano bruxelense, de certo, só rivalizando com a de Schuman que tem a desculpa de estar em obras (há dois anos). Na dita cuja, subo os seis ou sete lanços de degraus de pedra por polir/acabar, maldizendo Bruxelas por não ter consideração nenhuma por pessoas idosas, deficientes ou simplesmente que ali apanham o autocarro direto para o aeroporto, e portanto têm que alombar com 20 kg às costas e é se querem. Saio para a rua e está a cair aquela chuva miudinha que não é chuva nem é neve, está frio, e eu estou quinze minutos atrasada. Tivesse caminhado, chegava a tempo, tivesse pedalado, teria chegado 10-15 minutos antes.

No dia em que tiver que abandonar esta cidade, não vou sentir um pingo de tristeza.






S.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Branco sujo

Oh Deus, está a nevar outra vez.



Por muito que me custe admitir (porque ando há dois anos a venerar neve), estava a gostar de ter sete graus de máxima...



S.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Tempo belga: 2 D.S.: 0

Meu querido chapéu azul das doze estrelas amarelas:

Vivemos um ano muito feliz, eu e tu. Acompanhaste-me sempre na mala, todos os dias, a fornecer-me a força e confiança necessária para caminhar debaixo de chuva interminável. Foste-me oferecido com muito carinho e no auge da minha paixão por todas as coisas união-europeanas. Ao início até andava cheia de tristeza por o inverno lisboeta de 2011-2012 ter sido tão seco e nunca me dar oportunidade de te usar. Por isso foi com muita alegria que vim viver para o paraíso do aguaceiro. 

A tua flexibilidade sempre me maravilhou. Cabías na minha mala mais pequena mas não eras como os outros chapéus desdobráveis; não senhora. Eras resistente, abanavas muito essas varetas mas nunca nenhuma se partia e, entretanto, eu também aprendi a jogar ao chapéu-de-chuva-e-vento.  Afastaste água, neve e granizo, incluindo aquele temporal de pedras de gelo que nunca mais vou esquecer e que até deu ao céu uma cor meio roxa, muito assustador. Nunca mais fechaste muito bem, mas isso estou em crer que se devia à tua felicidade em me proteger da chuva, mais do que ao teu historial de lutas contra a ventania bruxelense e contra a precipitação do demo. Foste um fiel companheiro nas viagens deste ano louco, e mais do que uma vez voltei atrás para te salvar de um esquecimento que quase era completo.

Mas ontem a ventania foi forte demais. Nem o melhor do chapéus rijos aguentaria aquilo, e tu eras melhor que muitos desses. Eras o melhor dos chapéus. Sei que parei no meio do passeio  porque o vento nos impediu de progredir e agarrei-me com força a ti, na esperança que fosses também o mais bravo dos chapéus e te aguentasses, mas depressa descobri que era em vão. Saltou-te uma vareta, saltou-te duas, e eu pensei "Olha, já foi", enquanto continuava de pé fincado e a fazer força para não ser arrastada para o meio da estrada. Ainda te tentei abrir, como se nada fosse, mas tinhas a asa partida. Tentei concertar-te, mas estava para lá de arranjo. Despedi-me de ti.

Foste um bom chapéu. Só quero que o teu sucessor tenha metade da tua força e aguente metade do que tu aguentaste. Conseguindo-o, já será um grande chapéu.

Um adeus do fundo do meu coração partido,

S. 






P.S. - Isto foi para eu não me armar em esperta a gozar com a queda do Napoleão. Ninguém goza com o tempo belga e sai impune.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Ele há coisas... #29

Numa das nossas deambulações por Bruxelas, encontrámos isto:




Estava mesmo convencida que aquela imagem do senhor de óculos, chapéu e bigode era do Fernando Pessoa, mas não. Lembro-me que na lista figura o Camus, o Twain, o Nietzche e a Woolf (pintada na porta) mas nenhum português. 

A parede da livraria fica numa rua onde costumamos passar várias vezes, não sei porque é que ainda nunca tínhamos reparado nesta parede. Ou foi porque mudámos de passeio ou porque a livraria é mesmo recente... De qualquer forma, foi um bonito achado.



S.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A marcha dos pinguins

Pronto. Já nevou, já há neve no chão há cerca de uma semana, já visitei um lago congelado, já brincámos com a neve, já percorri uns 3 km sempre com neve fofa debaixo dos pés, já vi xixi congelado, já atirei bolas de neve (e já levei com outras tantas), já vi o Cinquantenaire branco como nunca imaginei, já vi pessoas a limpar a neve dos passeios com pás, já senti o sal grosso a crocar debaixo dos pés. Já me sinto realizada e a sentir plenamente que vale a pena viver num país onde no inverno por vezes as máximas não chegam ao 0.

Só que... Não ando de bicicleta há mais de uma semana. Demoro mais 10-15 minutos a chegar ao trabalho (tempo equivalente a menos na cama). O meu calçado é invariavelmente o mesmo todos os dias e não é especialmente quente; mas ou é o calor ou é o conseguir caminhar a direito, não se pode ter tudo. E nunca pensei eu que uns botins que comprei num capricho de tartã se fossem tornar imprescindíveis. As estradas e as passadeiras estão cobertas de uma nhanha castanha que é o cruzamento entre lama e neve, que só não aborrece mais, lá está, graças ao meu mal-amado botim. 

Mas ainda com a bota apropriada, uma pessoa tem que aprender todo um novo estilo de caminhar: o de não arrastar os pés. Eu sei que isto assim soa mal; não é que eu arraste os pés normalmente a andar. É simplesmente a maneira habitual que os seres humanos andam, encostam o pé ao chão e para se locomoverem dão um leve empurrão no chão que ficou para trás. Só reparei neste sublime gesto quando ele de repente começou a trazer-me problemas. Porque ao empurrar o chão, er... escapava-se-me o pé. Porque a neve, como é óbvio, não dá a luta que o chão dá; se se dá este empurrãozinho, ela cede e lá vai o pé atrás. Apercebi-me disto tudo quando, muito sabiamente, decidi ontem levar as botas quentes em vez das de tração de quatro rodas, e fui o caminho todo até ao trabalho às escorregadelas e a dar passinhos de bebé, em marcha, porque qualquer movimento locomotor normal me deixava a fazer a espargata no meio da rua. E, atenção, não sou a única. Hoje, do alto dos meus botins super aderentes e nada escorregadios, comecei a reparar com atenção nas pessoas que seguiam à minha frente e foi uma desgraça; era só escorreganços camuflados, especialmente os homens de sapato engraxado e sem rasto nenhum.

Amanhã vou voltar à bicicleta. Não tem nevado, as estradas estão praticamente desimpedidas e a neve acumula-se apenas junto aos passeios, de maneiras que já é relativamente seguro. E com máximas a continuar abaixo dos zero até onde a meteorologia consegue prever não dá para esperar; se não é amanhã bem que posso continuar mariquinhas até ao fim do inverno.





S.

domingo, 13 de janeiro de 2013

C'est la neige!

Várias coisas conspiram, até agora, para que eu ache o facto de esta semana a temperatura máxima ser de -1º de uma comicidade extraordinária:

- os gritos e risos de pessoas lá fora a brincar com a neve;

- o quarto de hora que ainda há uns minutos o carro estacionado demorou até conseguir arrancar;

- aparentemente aqui só poder estar céu limpo e sol quando estão -4º;

- ainda não ter que ter pegado na bicicleta e pedalar sob temperaturas negativas permanentes (gulp) e portanto estar aqui em casa, de roupa fininha, a aplaudir todos os pontos acima.

Hoje já saí à rua, atenção. E para ir ao ginásio (nunca na minha vida pensei vir a ser capaz de fazer isto - e não me custar). Fui em modo boneco de neve, sem um centímetro de pele destapado e sem conseguir encostar os braços ao corpo, tipo culturista, por todas as camadas de roupa que levava. Lembrei-me do que descobri há dois anos, sobre ter frio nos olhos, o que só acontece quando o termómetro desce abaixo dos zero graus. 

Não será amanhã nem terça que experimentarei o pedalanço a menos de zero, uma vez que estarei a trabalhar por outras bandas, mas o frio cá me espera na quarta-feira e passarei por cá para relatar a experiência. Veremos se é para repetir...






S.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Ele há coisas... #24

Fiquei na dúvida se o Parlamento Europeu já está em meados de fevereiro ou se teve uma crise de identidade...



Num olhar mais atento, descubro que esta é apenas uma homenagem a um artista plástico checo, e que o coração néon foi originalmente feito por ele e colocado em Praga para celebrar a queda do regime totalitário comunista. Celebra-se agora 20 anos desde que o senhor ergueu o coração na capital checa.







Noutra nota, o PE decidiu celebrar o prémio Nobel da Paz colocando nos placards a toda a volta da entrada principal as fases da paz europeia. Bem no centro, e por cima do reflexo sêxtuplo do coração, está o contributo português para uma Europa melhor: a Revolução dos Cravos.






Pedacinhos de casa que vou encontrando...



S.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

The closest thing to London

Costumava fazer-me espécie as pessoas que emigravam e no seu pais de acolhimento se isolavam com os seus compatriotas. Só falarem português, instalarem a Meo em casa e só verem telejornais e programas portugueses, só terem amigos portugueses, só frequentarem cafés e restaurantes geridos por outros portugueses, só comerem comida portuguesa. Como se vivessem num gueto cultural. Que interessa então viver noutro país?

Hoje, após ter viajado mais de duas horas para ir comprar a porcaria de uma lata de chocolate quente, percebo que não passo de uma hipócrata. Pior; uma hipócrata patética porque estas pessoas pelo menos refugiam-se no que sempre conheceram, na cultura onde viveram imersas desde que nasceram. Eu corro atrás de produtos de um estilo de vida que tive durante nove meses pensando que são o auge da coolicidade e que não consigo viver sem eles. Sou uma hipócrata wannabe, portanto.

Dito isto, vou falar um bocadinho de Stonemanor.

Desde maio sensivelmente que andava cheia de comichões por a lata de chocolate quente que senhor meu parceiro trouxe de Londres estar a acabar e não haver substituto à vista. Procurei em tudo o que era grande superfície e média superfície e nada. Nunca compreendi como é que o Carrefour de cá, que tem a maior seleção de chás Twinings que já vi - excluíndo a própria loja da marca mas não por muito - não podia ter também o tão afamado chocolate em pó. Procurei, também em vão, o da Nestlé, já que também se tolera, mas só via era Ovomaltines (ia cuspindo quando provei; chocolate o tanas, aquilo sabe a cereais) e uma marca muito duvidosa chamada cécemel, e que além de chocolate contém - surpresa! - mel.

Perguntei nos grupos do Facebook de imigrantes em Bruxelas, diziam que o melhor que tinha a fazer era cruzar o Canal da Mancha e dar um pulinho a Dover. Obrigada pelo conselho, realmente... Estava convencida que a minha viagem a Manchester seria frutífera no que ao chcolate em pó diz respeito mas enganei-me; corremos uns três ou quatro supermercados diferentes e nada. Em Edimburgo, pura e simplesmente esqueci-me (já vivia privada do doce há demasiado tempo).

Mas depois vêm os graus negativos e uma pessoa volta a ansiar. O chá aquece a barriga mas não aconchega, não mata a fome. Começa o périplo pelas chocolaterias sem fim desta terra na esperança de encontrar o chocolate dos deuses mas em pó. Nada.

Durante a minha pesquisa incessante pelos grupos de Facebook, alguém sugeriu uma loja britânica que existe em Bruxelas mas... que fica a uns 30 km da cidade. Mas depois de pesquisas online pelas Amazons do costume e ver que os portes custavam o preço de duas latas, e após emails e mensagens no mural do FB da loja a confessar o meu forte desejo por chocolate quente e a implorar que me dissessem se tinham, e confirmarem, bati o pé e disse "É amanhã." (assim, sem ponto de exclamação nem dada, toda resoluta).

Devia ter sido um "É hoje" mas eu para andar de autocarro suburbano em Bruxelas preciso de horas de preparação. Especialmente porque os subúrbios de Bruxelas são, er... flamengos. E depois do trauma da encomenda do demo, decidi não arriscar.

Após muita pesquisa de Google Maps, de apontar o número do autocarro e do nome das quase 40 paragens até ao destino, lá fui. 

Começou logo mal porque ao que parece os autocarros não dão troco de 20 euros. Mas a motorista foi surpreendentemente generosa e perdoou-me o euro que faltava após contar as moedinhas todas que me restavam. Ao passar por cada paragem, verificava o nome e ia seguindo pela minha lista. Brilhante, e cerca de uma hora depois chegava a Stonemanor, na pequena vila flamenga de Everberg.



Aquilo é um tanto estranho, já que parece uma vivenda e não uma loja.



A loja é bem grande, ao jeito de um supermercado médio e com carrinhos à porta. Tem também dois andares com coisas de Natal, que vão desde bancas enormes de postais até a todas as decorações que se possa imaginar. Faz-me desconfiar que haja muito britânico que faz ali as suas compras semanais...


Sorriso rasgado quando o encontrei. E meia-gargalhada quando me deparei com o meu amigo haggis:



Assim não é realmente muito convidativo...

Até tive direito a um saco todo catita que dá sempre jeito nas compras daqui (em Bruxelas, todos os sacos em todas os supermercados são pagos. Sem exceção. Há toda uma alteração de hábitos e as pessoas aprendem o valor de economizar sacos. E o ser humano, inventivo que é, adapta qualquer mochila, carrinho, cesto de bicicleta ou até caixa de cartão como meio de transporte das mercadorias. Perguntei duas vezes ao senhor da caixa em Stonemanor se não tinha mesmo que pagar por este. Fui brindada com o segundo gesto de generosidade do dia :) ).




Já bebi a minha caneca de chocolate quente e já estou aconchegada no sofá. Agora vou fazer a minha sopa de feijão bem portuguesa para equilibrar o meu wannabeismo com a minha hipocrisia. Haha!



S.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A precipitação indecisa

Ontem, quando vi na meteorologia que davam sol/nuvens/chuva/chuviscos/granizo/neve, revirei os olhos e pensei: "Típico. Assim também eu sou meteorologista. Não sabem, não metam nada, agora meter os fenómenos climatéricos todos é ridículo."

Guess what...

No meu caminho para casa apanhei chuva, está certo, mas também granizo e neve com força. Sendo que às vezes caíam os três ao mesmo tempo... Mas mais em ciclo (às vezes não percebia se estava a chover ou a cair neve).

Está um tempo indeciso, portanto. Se bem que a máxima de -5 graus que o fim de semana trará cheira-me que vai esclarecer o tipo de precipitação que aí vem...




Espero que nos -5º ela já acumule no chão...



S.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Coisas a evitar num classificado de imóvel #3

Ou, neste caso, após uma visita de potenciais arrendatários.

Estávamos nós a descer as escadas após mais uma vista imobiliária, tentando decidir seriamente se valia a pena ou não, o que nos parecia a casa, o que nos parecia a rua, o que nos parecia a zona, quando a vizinha tomou a decisão por nós, sem o saber:

"Não deixem a porta aberta, hã! Eu cheguei aqui e ela estava no trinco, não pode ser, certifiquem-se que a fecham como deve ser, especialmente à noite, sim porque esta zona não é muito segura." Arregalámos logo os olhos perante inesperada confissão, quando ela lança a bomba:

"Non. En fait, la máfia s'a installé dans notre rue. Oui, c'est vrai."

...

...

...

A oficina do lado não me enganou.

...

A senhora não estava a brincar. A expressão séria e a insistência em fechar a porta deu para ter a certeza.

A primeira coisa que eu pensei foi que se calhar o que ela não queria era vizinhos novos no 2º andar, ou tinha alguma querela com a inquilina atual e queria impedi-la de conseguir arrendar o apartamento (na Bélgica, os contratos mínimos são de 3 anos e, no caso de a pessoa querer sair antes, tem que procurar novo inquilino para a substituir e não pagar a multa de saída antecipada.)

Pelo sim, pelo não, pusémos de lado mais uma casa vista. "Ah, nem iamos poupar assim tanto dinheiro... A nossa casa até é boazinha... E depois ter que mudar para outro sítio... Fica longe do ginásio... Não tem transportes..."

Desculpas para quê, a palavra máfia é universal. E, mais uma vez, fica provado que os belgas não dominam a arte do agente imobiliário.






S.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O inverno não tarda aí, e eu mortinha

Nada me podia ter aquecido melhor o coração (e a barriga, especialmente a barriga) do que isto, após uma semana particularmente esgotante e eventful, e de um dia inteirinho de formação em contabilidade na língua dos gauleses:


Que maravilha! Um chocolate quente que sabe mesmo a chocolate derretido, e não a leite com chocolate, que é só o que eu sei fazer. Com o copinho a escaldar entre as mãos geladas, com a previsão de neve para este fim-de-semana a pairar na minha mente e o mercado de Natal bruxelense que se avizinha, deixei de arrastar os pés cansada e foi quase com saltos de alegria que entrei em casa.

Os mercados de Natal alemães bem que podem ficar para outro ano. Agora tenho é que aproveitar enquanto a prospetiva de uma Bruxelas natalícia ainda é uma fonte de grande entusiasmo e surpresa para mim.



S. 

sábado, 10 de novembro de 2012

Nas margens do rio Main

Apesar de um início de viagem atribulado (seis da manhã é demasiado cedo para ouvir berros de um alemão lunático que acha que as câmaras de gás deviam voltar a ser abertas para os ciganos - não estou a brincar, ouvi isto dito tal e qual...), a day-trip a Frankfurt correu muito bem.

A expectativa de que Frankfurt seria só escritórios e uns arranha-céus e pouco mais desvaneceu-se em pouco tempo, especialmente durante o passeio nas margens ajardinadas do rio Main.



Por entre o rio que me fez lembrar fortemente o Tamisa, com as múltiplas pontes transversáveis a pé, o núcleo de arranha-céus como a City, intervalado com praças centenárias, ruelas e lojas deliciosas, sem esquecer os grandes armazéns comerciais e as marcas multinacionais, mas nem tão-pouco um mercado de rua com coisas alimentares tradicionais (ainda não foi desta que provei o mulled wine), os inúmeros ciclistas que me fizeram ansiar por pegar também numa bicicleta e pedalar e pedalar, como em Bruxelas, e a língua tão misteriosa e estranha mas tão familiar ao mesmo tempo (um dia conquistá-la-ei até ao fim, juro aqui), fiquei muito contente por voltar a sentir-me numa cidade, numa verdadeira cidade.

Depois de provar a tradicional salsicha no pão (que não é o mesmo que o hot dog comum, percebi-o), de encontrar a maior loja de chás que já tinha visto na vida e de não ter apanhado uma gota de chuva, cheguei à conclusão que podia ser feliz na Alemanha...



O D. olhou-me com um misto de impaciência e resignação quando lhe confessei tal coisa. "Tá quieta...", diz ele. Eu limito-me a sorrir e a esfregar as mãos como quem diz "We'll see..." Mas sem gargalhada maléfica no fim. Não o quero assustar.

Acabei por trazer dois chás, que mais podia ter eu escolhido, pff. Especialmente depois de ter tropeçado na loja gigante.



O da esquerda é um chá de inverno, meio natalício, e que por cheirar a canela apaixonei-me instantaneamente. O outro é chá vermelho com caramelo, do qual também gostei do cheiro. (Amo quando as lojas tem testers para se cheirar os chás. Se não conheço o nome e não o posso provar na altura, é óbvio que vou lá pelo cheiro. É ver-me nos supermercados a agitar as caixas seladas na esperança que trespasse algum odor, por entre sobrancelhas levantas de transeuntes que questionam a minha sanidade mental. Por isso, lojas que me poupem a estes esforços infrutíferos ganham uma montanha de pontos na minha consideração). Ainda não os provei mas estou esperançosa.



S. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O fresquinho

Vantagens de estarem 3º:

- voltar a usar gorro;

- felicidade e energia redobrada perante a perspetiva de uma subida de bicicleta; 

- botas peludas;

- bicicletas disponíveis com fartura porque pedalar próximo de zero graus não é para meninos;

- beber quatro canecas de chá por dia deixa de ser esquisito.


Desvantagens de estarem 3º:

- o alívio das descidas de bicicleta torna-se num amaldiçoar constante (merdamerdamerdamerdamerdatáfriotáfriotáfiotáfrio).


Pesando o inverno* na balança dos prós e contras, acho que ele sai a ganhar.




*Mentira. Sei perfeitamente que vem aí pior.



S. 

sábado, 3 de novembro de 2012

Comédia à francesa

Depois de muito debate e de muita hesitação, hoje decidimos ir ao cinema. Foi a primeira vez que o fizemos cá, e, como explanarei de seguida, não foi uma decisão fácil.

A ideia começou a pairar com mais intensidade quando estreou o novo Astérix. Dos poucos filmes que vimos em francês - e gostámos - seria sempre mais um que iríamos ver de qualquer forma. Decidimos que seria o filme ideal para nos estrearmos num cinema belga.

Várias coisas constituem um problema em ir ao cinema em Bruxelas. As que já sabíamos:

- som francês: o problema mais óbvio de todos. Nenhum dos dois entende francês tão bem que consiga acompanhar uma história do princípio ao fim, perceber todos os detalhes e piadas como se se tivesse a ver um filme em português ou inglês. Aqui há também a mania de dobrar os filmes americanos, e, ainda que se se procurar bem dê para encontrar versão original, não é fácil. 

- legenda neerlandesa: ah, legendas; as nossas melhores as amigas. NOT. Filme dobrado em francês com legenda em neerlandês é ouro sobre azul, sem dúvida. Não basta uma pessoa estar a esforçar-se para ouvir e perceber um filme numa língua à qual não está habituada a ter numa sala de cinema, como ainda quando aparece o guia visual da tradução, está numa língua ainda mais impercetível para dois pobres portugueses. Há que fazer um esforço consciente para ignorar o palavreado com que somos bombardeados na parte inferior do ecrã.

- o preço: cinema equivale a luxo nestes países do norte e uma pessoa chora internamente enquanto paga vinte euros por dois bilhetes. Ainda que já tenha pago 26 libras.

Foi por isso com um misto de ansiedade e excitação que entrámos hoje na sala de cinema e nos sentámos à espera dos trailers e do filme que sabíamos não poder esperar entender perfeitamente. Por entre risos combinámos que pelo menos isto era um filme de comédia, e portanto saberíamos que os pontos altos das piadas seria quando ouvíssemos gargalhadas do resto da sala, que era só imitar.

Chegaram os trailers e eu fiquei logo com uma dor de cabeça enorme. Uns eram em francês sem legendas, outros em inglês com legendas em francês, outros em francês com legendas em neerlandês. Um houve cujo som era italiano e portanto tinha legendas duplas em francês e neerlandês, a correr em simultâneo. Começou a apetecer-me bater com a cabeça no banco da frente. 

Depois começou o filme e começa-se a ouvir a versão original francesa. A legenda aparece e os olhos descem inconsciente e instintivamente para a ler, mas lá vem a linguagem dos flamengos e uma pessoa respira fundo enquanto se mentaliza que tem que se apoiar apenas nos ouvidos para entender o filme que aí vem.

É um bocadinho triste. Aquela gente fala muito rápido e se há variação de tom, como um murmúrio, lá vai o entendimento para o galheto. E depois começa tudo a rir na sala e nós não captámos a piada e olhamos um para o outro como que a perguntar "...Percebeste?...". Uma pessoa sente-se excluída. Mas ainda assim não foi tão mau. A comédia é uma faca de dois gumes nesta coisa da linguagem: por um lado as ações, sentimentos, etc são muito mais exagerados e portanto chega-se lá facilmente pela linguagem corporal dos atores, ainda que não pelas palavras exatas; por outro lado é feita de piadas e é permeável a trocadilhos, a que só se chega verdadeiramente se se entender a língua muito bem. Por isto mesmo conseguimos perceber muita coisa, definitivamente entendemos a história, apenas algumas cenas cómicas se perderam.

O sentido de humor destes filmes, cheio de nonsense e atravessado de anacronismos conscientes é um que eu prezo muito e muito bem-vindo por ser tão diferente do habitual hollywoodesco, e distinto também do humor britânico (se bem que este filme era sobre aventuras do Astérix na Grã-Bretanha por isso houve uma espécie de mix entre os dois e, claro, festa de estereótipos :D).

Fazía-nos bem ter TV local. É a conclusão que me ocorre tirar.





S.