terça-feira, 13 de março de 2012

Emigra de curta duração

Outra data que podia ir para a cronologia: 13 março 2012, primeiro e-mail enviado a anúncio de emprego em Bruxelas.

Aguentei 13 dias, nada mau. Hoje, ao conhecer o presente de amigas que acabaram agora o estágio no PE e ao visionar nele o meu próprio futuro, entrei em pânico e fui atualizar o currículo e escrever a carta de apresentação modelo. Foi com o peito um bocadinho apertado que premi o botão "Enviar".

5 meses é demasiado pouco. É demasiado pouco tempo para poder sentar no escritório de passe de "Stagiaire" ao peito e suspirar de alívio. E, desta vez, gostava mesmo muito de não me sentir obrigada a voltar a Portugal.





S.

O mundo é um lugar pequeno - e Bruxelas também

Hoje, terça-feira 13 de março de 2012, larguei o meu vício de sedentarismo entranhado há muito, abandonei o banco do autocarro e fui a pé de casa ao trabalho. É um acontecimento digno da cronologia do Facebook, note-se. Nunca na minha vida fiz commuting a pé. Nunca na minha vida vivi a 2-3 km do trabalho/escola, é certo (excetuando na Primária), mas ainda assim, caminhar 5 km por dia, para uma pessoa que foge de ginásios, desportos e tudo o que acelere a respiração no geral como da peste, é obra. Será que é para manter? Vou esperar incrédula para ver.

Entretanto, deixo-me maravilhar por uma qualidade de vida que não estava à espera. Demorar 30 min do trabalho a casa - a pé, não me canso de frisar! - fazer as compras semanais em supermercados que ficam a poucos quarteirões daqui, deslocar-me a pé para qualquer lado da cidade ou, em alternativa, pegar um dos tipos de transportes que abundam nesta cidade são tudo coisas que sempre invejei na vida de centro de cidade mas que ainda não tinha experimentado verdadeiramente.

Em Londres, apesar de ter todos os serviços e lojas necessárias a dois passos de casa, o que se pudesse considerar minimamente centro da cidade ficava a pelo menos 30 min do lar. A deslocação era algo que só não pesava mais porque feita obrigatoriamente apenas 3 vezes por semana e a horas decentes. Em Lisboa, tinha a vida de subúrbio, fácil somente nas horas de ponta quando os transportes abundam, mas carro-dependente em todas as outras.

Parece que a dimensão de Bruxelas, que ao início me fazia torcer o nariz, está afinal a revelar-se uma grande vantagem.


como gosto de me imaginar a caminhar


eu a caminhar na realidade


S.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Bom enchimento de almofada


Isto é assim. Quando se vive a dois e se está longe de tudo e de todos, e só nos temos um ao outro... Mentira, o que não faltam aí são cabeleireiros, só a dois quarteirões daqui conto uns seis ou sete. Mas ser emigra e jovem é contar os tostõezinhos, que a crise persegue os pobres portugueses até para fora das fronteiras do Portugal.

Não sou especialmente dotada como cabeleireira - o cabelo fica sempre com as marcas da máquina, tipo relva aparada - e tremo de cada vez que a máquina faz um trrrrrreeeee mais puxado, mas tirando isso dá-me um gozo enorme ver os tufos de cabelo a cair no chão. Começa mesmo a surgir um sorriso maníaco na minha cara, um esgar maquiavélico de estar a estragar qualquer coisa, quando o cabelo está meio curto meio comprido então é o auge, já ninguém pára aquela máquina, muhahahahahahaha!

Ficou razoavelmente bem cortado, acho que foi o meu melhor até agora. Fica a esperança de um dia destes ele me deixar cortar à máquina zero.






S.

sábado, 10 de março de 2012

A ponte dos cadeados

Um dos meus programas favoritos de TV é o Portugueses pelo Mundo. Fascina-me conhecer o que é que outros portugueses andam a fazer pelo mundo fora, os seus percursos, como foram parar ao Perú ou a Marrocos ou à Singapura e que tipo de coisas fazem nesses países. E o facto de estes programas fazerem uma espécie de visita guiada pelas cidades, com relatos e comentários dos portugueses que lá vivem, faz com que o interesse seja muito maior do que um simples documentário de viagem pela cidade em questão.

Há umas semanas a RTP2 estava a repetir os episódios todas as noites e calhou vermos o de Paris. E descobrimos uma curiosidade muito engraçada. A senhora que vivia lá já há uns anos foi mostrar uma ponte no Sena que estava cheia de cadeados presos à rede que casais apaixonados tinham aí colocado. Ora, segundo consta, alguém se tinha lembrado de fazer isso em 2007 ou 2008 e a moda pegou. Parece que os pombinhos íam lá à ponte, colocavam um cadeado com os nomes dos dois e votos de amor eterno, fechavam-no e deitavam a chave ao rio. Só que aquilo começou a tomar tais proporções que a Câmara Municipal tinha-se visto obrigada a ir lá retirar os cadeados que todos os dias brotavam que nem cogumelos e que entretanto começaram a espalhar-se por outras pontes da cidade. Não sei se foram os protestos ou a insistência das pessoas, mas o que é certo é que ao fim de algum tempo as autoridades parisienses limitaram-se a encolher os ombros e a deixar os cadeados onde estavam.

No dia em que fomos a Paris, na correria entre escalas, tivemos de ir espreitar a tal ponte.


E lá estavam os cadeados todos pregados à Pont des Arts, de todos os tamanhos e feitios, com as inscrições dos amantes.




Eu bem espreitei lá para baixo para o rio, na esperança vã de vislumbrar alguma chavita lançada ao rio. Mas parece que o metal não flutua e um rio de cidade não é propriamente translúcido... Mas fiquei contente por ter testemunhado esta curiosidade que apanhei nos Portugueses pelo Mundo por acaso, e que de outra forma não iria encontrar ou saber o que significava.



S.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Conferências Parte II

Hoje foi dia de nova conferência, a conferência MASTER relacionada com os direitos das mulheres (o dia escolhido não foi coincidência).



desta vez há foto!

Desta vez havia português. Aliás, havia todas as línguas, menos "malti" e "gaeilge". Foi com borboletas no estômago que ouvi uma intervenção em português, num hemiciclo do Parlamento Europeu cheio de gente, gente essa, como não podia deixar de ser, com os auscultadores postos. Eu fiz questão de tirar os meus e pousá-los com muito orgulho ao meu lado, enquanto a senhora debitava palavreado na minha língua.




Se eu ontem pensava que tinha havido muita pluralidade linguística, hoje foi o auge. Segui quase tudo em português, mas às tantas começou-me a fazer impressão uma coisa: só havia dois intérpretes portugueses. Ou seja, nas cerca de dez línguas que se falaram ali, estas duas pessoas partilharam entre si a interpretação para português. Como é possível...! Que me lembre, o homem interpretou de alemão, polaco, grego e outra qualquer. A mulher interpretou de italiano, espanhol, inglês, húngaro e sueco. Poliglota, disse eu?...

E porque é o dia que é e tem tudo a ver, aqui vai:




Com imagens atinge-se uma compreensão maior que com milhões de palavras.

S.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Frankie Boyle a ser o Frankie Boyle


Porque os britânicos ganham aos pontos em humor negro. Mas de longe. E este senhor é particularmente virulento.



S.

Aqui não há más línguas

Uma das minhas paixões de sempre são as línguas. Língua, linguagem, linguística sempre foram para mim fontes de grande interesse. Amo dissecar gramáticas, perceber as regras que regem diferentes línguas, sou uma nazi da ortografia. Mas sobretudo, fascina-me o mistério que encerra uma linguagem que não se conhece e o processo de se passar a perceber, o desvendar desse mistério. É a sensação de se ter achado qualquer coisa.

A minha opinião sobre as línguas tem-se alterado com o tempo. Um dos meus objetivos de vida, desde muito cedo, era o de chegar ao nível do inglês dos nativos, uma obsessão que persegui com muito prazer. A minha língua materna foi durante muito tempo desprezada por mim, não com descuido porque sempre me fez espécie português assassinado ortografica e gramaticalmente, mas porque a considerava de segundo grau. Hoje atingi o nível de inglês que sempre quis mas entendo que não é o de nativo, é apenas o de equivalente-a-nativo, o que faz toda a diferença. Hoje entendo que a língua materna é única, e que a nossa ligação com ela não pode nunca ser destronada por nenhuma outra; é uma ligação demasiado entranhada na pele e na mente, visceral porque foi a partir dela que se expressaram pensamentos, emoções, a vida, no fundo.

Ainda assim, línguas no geral e línguas europeias em particular continuam a fascinar-me e um dos meus objetivos de vida é tornar-me fluente em mais duas ou três. Tornar-me uma verdadeira poliglota.

O multilinguismo no Parlamento Europeu atinge um nível inimaginável. Foi aqui que eu me deparei com o que é realmente ser poliglota. E serviu para me aperceber que estou muito longe disso. Muito mesmo. Para minha grande satisfação - e mortificação, ao mesmo tempo - o francês é a verdadeira língua de trabalho. O inglês tem o estatuto cliché que se sabe, língua internacional e não sei quê, e como não podia deixar de ser é muito utilizada. Toda a gente o fala. Até aqui nada de novo. Mas o francês compete fortemente com ele. As pessoas não se dirigem a nós em inglês, como seria de esperar; dirigem-se em francês. É muito frequente a conversa resvalar para inglês, mas ainda assim, o facto de a língua de primeira escolha ser o francês diz muito sobre a importância desta língua.

Ontem assisti a uma reunião do meu departamento que foi conduzida em francês. Segundo o chefe do departamento, era costume. Uma hora e meia de francês meio formal meio informal, dito por várias pessoas, em vários sotaques. Mas invariavelmente fluente. Foi um bom exercício para as minhas competências linguísticas de compreensão auditiva. De repente ouvia alemão entre um par de pessoas, ou esloveno entre outro par. Termos ingleses surgiam aqui e ali na conversa. A linguista que há em mim olhava e ouvia fascinada. Mas lá está, nativa só lá estava uma. Descobri-a facilmente, mesmo que só tenha entendido uns 40% de toda a conversa.

Hoje fui à minha primeira conferência cá, sobre igualdade de género, como não podia deixar de ser. Mais fascínio para cima. As salas de conferências/reuniões são dispostas em hemiciclos, e na parte de cima das salas, a toda a volta, estão 23 cabines. Cada uma para uma língua oficial da UE. Estão lá, os nomes da língua e um número à frente.

Ora e o que é que se passa normalmente. Cada orador fala na língua que bem lhe apetecer, frequentemente na sua língua materna. Em cada lugar existem uns auscultadores ligados a um transmissor, e é só escolher o canal referente à língua que se quer ouvir. Hoje foi maioritariamente sueco. Devo dizer que durante a apresentação em francês me aguentei estoicamente sem ir a correr buscar a interpretação inglesa (a cabine portuguesa não estava ativa para esta conferência), mas quando começou o sueco fui a correr enfiar os auscultadores nos ouvidos e mudar para o canal "English".

Nunca tinha assistido a interpretação simultânea. Que mind-fuck. Como a cabine do inglês estava mesmo à minha frente, eu não sabia para quem olhar, se para a senhora sueca que estava a falar, se para a senhora inglesa que gesticulava dentro da cabine e cuja voz se sobrepunha ao sueco ininteligível da outra senhora. Depois foram perguntas em inglês e respostas em sueco; tira auscultador, põe auscultador. Houve ainda uma apresentação que foi recitada metade em húngaro, metade em inglês.

Claro que não resisti a fazer zapping pelos outros canais linguísticos. Os oradores estavam a ser interpretados para alemão, inglês, francês, italiano, espanhol, húngaro, e mais outra que não me lembro. A cabine do português estava vazia, mesmo atrás de mim.

Eu sabia que isto era assim, juro que sabia. Sabia da tradução de pelo menos toda a legislação europeia para as 23 línguas oficiais, e que havia interpretação simultânea também. Mas ver - ouvir! - no terreno é completamente diferente. A UE faz tudo o que está ao seu alcance para mitigar a barreira que é talvez a mais penosa entre os povos europeus: a língua, tratando todas as línguas como iguais. O facto de uma pessoa que vai falar poder expressar-se na sua própria língua e ser traduzida para todas as outras 22 - virtualmente, nem sempre estão disponíveis as interpretações simultâneas de todas para todas - é simplesmente fascinante. E muito cosmopolita.

Custa dinheiro? Custa. E dá muito trabalho. Mas há coisas que não têm valor. E o respeito pela característica mais fundamental da nossa identidade - a língua - é um deles.



Esta foi a imagem que encontrei onde se veem melhor as cabines de interpretação. Sim, porque passadas duas semanas eu continuo a ter uma única foto de Bruxelas. Já começa a roçar o ridículo.



S.

terça-feira, 6 de março de 2012

Se calhar o inverno é isto

Qual não foi a minha surpresa ontem quando caminhava pela rua em direção ao trabalho, de guarda-chuva em punho porque a chuvinha molha-patos é aquela coisa irritante que se sabe, e começam a cair farripas branquinhas do céu em vez de água. O sorriso de orelha a orelha foi instantâneo, acontecimento raro àquela hora da manhã. Quando chego ao escritório e olho pela janela, as farripas brancas tinham-se transformado em verdadeiros flocos de neve, a cair profusamente como eu nunca tinha visto.

Que maravilhosa surpresa! Que sensação de Natal em pleno março! Não foi suficiente para acumular no chão mas contando que me tinha aventurado a ir de salto-alto, ainda bem. À tarde, de cada vez que passava por um carro estacionado cheio de neve no pára-brisas, o meu coraçãozinho dava um pulo e o sorriso regressava.

Hoje, quando voltava para casa, vi o céu azul (?) pela primeira vez. Foi uma supresa bem-vinda, para contrastar com o cinzento carregado que já era uma constante, mas tinha-me esquecido da palidez do céu do norte da Europa. O azul do céu lisboeta, mesmo durante o inverno, é único.




S.

sábado, 3 de março de 2012

Quase lá(r)

Já temos uma morada. Com direito a número de porta, nomes na campainha e na caixa de correio (nota mental para lá os colocar) e chaves.

Para minha grande surpresa, fui informada ontem que é obrigatório por lei belga uma pessoa registar-se na Comuna onde vive, sob pena de ser multada. Uma vez feito o registo, o polícia da zona vai ver se o nome que está na campainha corresponde ao que está registado, e é frequente tocarem à campainha para indagar sobre os residentes. Raio de controlo...

Agora, é tornar a casa em lar: desfazer as malas, arrumar tudo direitinho, compras de primeiro abastecimento, dispor os móveis ao nosso gosto. E devagarinho ir acrescentando uma coisinha ou outra à decoração e funcionalidade da dita cuja. O único senão é a incerteza sobre a duração da estadia, que impede  o investimento emocional e monetário que a casa merecia.

Ainda assim e até agora, estou bastante feliz com o resultado.



S.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Eram 27, agora são 28

Mentira. Disse ontem que ainda não tínhamos tirado nenhuma foto de Bruxelas, mas afinal há uma.




Esta, que na minha histeria UE-induzida não pude deixar de tirar. Mostra que já adicionaram um 28º mastro para a Croácia que aí vem (julho de 2013), em frente do edifício da Comissão. Neste momento só lá está a bandeira da Croácia, há-de tornar-se uma bandeira azulinha da UE como as outras.

A primeira coisa que me lembrei foi a de ter estado ali há uns bons meses e comentar com a minha prima, por entre gargalhadas, que já não havia mais espaço para adicionar mais postes para bandeiras. Daí que a UE não podia absolutamente alargar para mais ninguém: não há espaço à frente do Berlaymont, não há, azar.

Mas afinal parece que há sempre espaço para mais um, fisica e simbolicamente. :)



p.s. não é que eu seja rapariga de me importar muito com tempos e climas, mas só para referência, ainda não vi uma pontinha de sol desde que cheguei. E depois é Londres que tem a fama de cinzenta, tss, tss.



S.