sexta-feira, 30 de março de 2012

O teste da compreensão numérica (sim, é tão mau quanto soa)

A uma semana de ir fazer o exame de admissão à função pública da UE, e depois de algumas horas de volta de exercícios de racionalidade numérica (medo... ou terror!) compreendo perfeitamente o que há uns posts atrás mencionei: por mais que nos tornemos excelentes numa segunda língua, nunca atingiremos o nível da nossa língua materna.

Sim, compreensão numérica ou problemas cheios de números, gráficos, tabelas e percentagens são uma porcaria. Mas são uma porcaria maior em inglês. E isto porquê... Porque eu não aprendi matemática em inglês, aprendi-a em português. O raciocínio matemático, o que subiu, o que decresceu, a percentagem do não-sei-quê, são tudo coisas tão viscerais e tão primárias que não se trata simplesmente de traduzir na nossa cabeça. É sempre possível traduzir, mas para o raciocínio rápido que se precisa nestes casos - que envolve compreender exatamente o que nos pedem - não é útil. Até a simples contagem! Já não é a primeira vez que observo a minha supervisora, que fala impecavelmente e do pé para a mão francês e inglês, a contar baixinho as colunas de uma tabela em alemão, a sua língua nativa.

Os números e as relações entre eles são algo demasiado primário e que muito raramente temos a oportunidade de treinar a fundo noutra língua, por mais que nos aproximemos do nível dos nativos. É isto que eu digo a mim mesma nas vezes mais que muitas em que nem com a solução e a explicação de como chegar àquele resultado eu percebo o problema. É um esforço quase físico - juro que consigo sentir o cérebro a aquecer! É excesso de trabalho em neurónios que não estão habituados a correr desde há muito, muito tempo.

Tenho o pequenino conforto de ter escolhido fazer o exame em português para não largar num pranto.





S.

terça-feira, 27 de março de 2012

O motoqueiro ateísta

Para quebrar o meu ciclo de conferências/reuniões/pesquisa/trabalho sobre temas relacionados com igualdade de género, lá fui eu hoje assistir a uma reunião sobre separação entre Estado (neste caso, União Europeia) e religião. O vulgo secularismo.

Chego lá, sento-me, fico sossegadita à espera que o resto das pessoas entrem e que aquilo comece. Entrei no meu modo "observação-piloto". E que gente interessante que começou a chegar: ele foi um padre, um - suspeito eu - rabi, entre outros. Mas foi quando entrou um senhor de meia-idade com aspeto de motoqueiro e uma t-shirt preta a dizer ATHEIST que os meus olhos se arregalaram e eu pensei "Ui, isto promete".

Basicamente aquilo foi uma conferência organizada pela Plataforma Europeia pelo Secularismo, constituída por gente muito diversa (ateístas, católicos, judeus, humanistas) que queriam certificar-se que o novo Presidente do Parlamento Europeu vai dar a mesma atenção a todas estas organizações sem favorecer religiões que têm um aparelho administrativo dantesco, como é o caso da Igreja Católica.

Foi um bocado fraquinho. Não houve grande debate nem posições corajosas, sinceramente o falatório do Presidente desiludiu-me e foi um bocado para o diluído e confuso. Se não tivesse sido a intervenção do senhor motoqueiro ateísta no final a exigir uma revisão dos tratados para impedir as organizações religiosas de contactarem com a UE não sei como tinha aguentado o aborrecimento.

P.S. O Arcebispo de Canterbury tem um representante em Bruxelas. !!!






Coisas Com Que Me Deparei Na Minha Demanda Por Imagens Que Ilustrassem Este Post





 



S.

sábado, 24 de março de 2012

Bruxelas, a soalheira

Oh Bruxelas, andas-me a habituar mal.


Manga-curta em março, a sério?

Entretanto, adquirimos um hábito novo: preguiçar num espaço verde qualquer da cidade.

Leva-se a marmita com as sandes, o sumo, a toalha para estender na relva, o iPod e o The Economist. E ala estender na relva, longe de Facebooks, de e-mails, de blogs e de televisão. É um hábito saudável e para ser repetido sempre que o tempo belga deixar.

Tenho de admitir que só ali percebi o quão online-ó-dependente estou. É uma espécie de doença obsessiva-compulsiva (o precisar de verificar as notificações do Facebook, o atualizar a página do e-mail, o pensar em qualquer coisa para pesquisar no Google só pelo vício de abrir uma nova página de Internet - é por isso que não me permito ter um telemóvel com ligação à Internet, preciso de momentos offline obrigatórios). Mas correu bem e aguentámos duas horas estendidos na relva, sem fazer nada de especial, só com o sol a bater nos pés descalços e a conversa sobre tudo e sobre nada (tens essa capacidade que sempre admirei de fazer conversa a partir do nada, por ti nunca havemos de esgotar temas, uma das razões por que te amo) com sumo de laranja a acompanhar.

O sol como gosto dele, brilhante no céu mas sem queimar; sentia-o a bater, estava bem de manga-curta mas nenhuma parte do corpo a escaldar.




Que maravilha de início de primavera!



S.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Parabéns a alguém

Hoje alguém fez anos no meu andar.

Não faço ideia de quem tenha sido, apenas descobri um pratinho cheio de bombons Kinder e chocolates Merci. E quando abri o frigorífico estavam lá fatias de bolo de anos.

Alguém fez anos, portanto.

Eu agradeci mentalmente os bombons, mas, como disse, não faço ideia a quem.

Fazem falta lugares para as pessoas conviverem, ali. Não há uma mesita para quem quiser trazer comida de casa e comer ali na copa. Onde as pessoas possam fazer um intervalo e beberem um café/chá sem ser na solidão do seu escritório. Claro que existem vários cafés, esplanadas e a enorme cantina - mas isso fica no edifício principal. Não se faz uma pequena pausa para café nesses sítios, quando se tem que apanhar 3 elevadores e andar pelo menos 5 minutos por intermináveis corredores. Para almoçar, sim, mas mesmo assim é simpático - e amigo da carteira, não há como disfarçar - trazer a nossa própria comida de casa e comer no conforto do nosso departamento, sem termos que nos misturar com centenas de pessoas.

Mas isto sou eu, que fiquei mal habituada com o calor humano dos portugueses e com o ambiente caloroso e mais-amigável-é-impossível da organização onde estagiei estes últimos meses. Se calhar estou mesmo mal habituada.





S.

terça-feira, 20 de março de 2012

A missão americana

Durante grande parte da minha adolescência padeci de uma condição muito grave chamada "obsessão pela América".

Era muito semelhante a uma doença, juro, eu vivia para o dia em que atingi-se a maioridade e pudesse mudar-me para lá, pesquisei universidades para estudar, investiguei tudo o que havia para investigar sobre vistos, greencards e imigração, e a emoção toldou-me os olhos e as palavras quando pus pé em solo americano pela primeira vez, aos 15 anos. Cheguei a trazer comigo uma revista de imobiliário, que apanhei no metro por acaso, e sobre a qual passei horas e horas debruçada, de olhos sonhadores, a imaginar o dia em que teria a minha própria casa de madeira branca, com relvado à frente e sem gradeamentos à volta. A paixão pelo inglês esteve durante muito tempo entrelaçada com esta paixão pela América e as duas alimentavam-se mutuamente. O 11 de setembro é um dia que nunca vou esquecer, não pelo cliché (ainda que verdadeiro) de que mudou o mundo mas porque lembro-me perfeitamente que mudou o meu mundo, o mundo a preto e branco, muito simples, de uma rapariga de 13 anos que tinha já uma obsessiva admiração por esse país do outro lado do Atlântico e que não conseguia, de maneira nenhuma, entender como é que alguém podia querer magoar a América! Esse dia em 2001 só tornou a minha obsessão mais profunda.

Até que... cresci. Aprendi e aprofundei o conhecimento da História do séc. XX e comecei a desconfiar que afinal as coisas não eram bem como eu idealizava. Aquilo não era o paraíso que os filmes e as séries de Hollywood me impingiam e que eu, maravilhada, assimilava. O sotaque americano começou a aborrecer-me. E um dia dei por mim a torcer o nariz à perspetiva de ir viver para os EUA. O que toda a gente me dizia que iria acabar por acontecer - e contra o qual eu batia o pé determinada, exclamando "Vocês nunca vão perceber!", cheia de raiva adolescente e pena de mim mesma - aconteceu. A obsessão acabou.

Questiono-me muitas vezes se a minha paixão pela UE não surgiu para preencher o vazio deixado pela América. É algo novo para idolatrar. Tal como os EUA, tem um sonho nobre na sua incepção - a paz - mas ao contrário dos EUA não tem exército para invadir países nem se dá a manifestações de poderio militar. (Entretanto, há uns aninhos, apaixonei-me pela Britain, um bocado inconveniente face à simultânea paixão pela UE mas se formos a ver fica a meio caminho EUA-UE, e olha que giro, nunca tinha pensado nisto; não sei se hei-de ficar contente ou temente...)  Mas quero acreditar que a UE é uma paixão muito mais comedida, um pouco mais crítica e provavelmente mais saudável do que a anterior. E confio que só pelo facto de eu ter consciência que tem o seu quê de idolatria, impede que esta seja cega. A Europa tornou-se o meu sonho, o meu compasso, a minha ambição, a minha casa.

Mas ultimamente, e muito por insistência sugestiva do D., a América voltou a apresentar-se como um destino possível na minha (nossa) vida. E apesar das minhas recusas galhofeiras e da consciência da dificuldade acrescida que é emigrar para fora da UE, é certo que a América voltou a passear livremente pela minha mente. E eu dei por mim a pôr os EUA como hipótese mais vezes do que pensei voltar a ser possível. "E se... Não, não, não, está quieta, já sabes do que é que aquela casa gasta. Mas e se... Mau, voltamos ao mesmo? Era só uma ideia. Afinal, a América continua a ser tão interessante..."

Assim sendo, os nossos destinos de futuro estão sempre em aberto. Sabia que o futuro passaria por Bruxelas necessariamente - e está a passar - mas não sei por quanto tempo. Pode voltar a passar por Londres, hipótese provável. Ou por Lisboa - idem, mas hipótese muito deprimente para mim. Também pode passar por Paris, Berlim, Florença, Frankfurt. Ou Estados Unidos. Quem sabe.

Foi com esta mentalidade de futuro em aberto que hoje me dirigi, após muita luta interna ("mas o que é que vou lá fazer, aquilo nem é bem uma conferência, ainda por cima vão servir sandes, e se eu não gosto, faço figura de parva, metem sempre alface e tomate, bandidos... vou ter que sair do edifício do Parlamento, o que só por si é atividade extenuante, depois ainda andar até lá...") à Missão dos Estados Unidos junto da União Europeia. AKA, Embaixada dos EUA na UE. Ía ser um almoço de apresentação da Missão, organizado pelos estagiários nessa instituição destinado a estagiários do Parlamento. E como eu estava com uma grande curiosidade sobre o que iria ver e ouvir, e porque tenho compreendido o poder do networking para descolar carreiras, e porque queria ouvir americanos envolvidos em assuntos da UE a falar, lá fui eu.

O edifício em si não foi difícil de descortinar. Mesmo se não fossem as bandeiras americanas a ondular no jardim, as barreiras para impedir carros de estacionar e os vários guardas à porta teriam facilmente denunciado que ali estava um pedaço de solo americano. Aliás, eu ainda nem tinha chegado à porta da Missão, estava apenas a andar pelo passeio, quando sou barrada por um dos guardas com um "May I help you, Madam?". Eeeerr... "Juro que não sou terrorista!" É o que apetece dizer, enquanto se mete as mãos no ar.

Depois de explicar o que ali vinha fazer lá me deixou continuar a andar, na rua, até à porta da Missão. Lá dentro, segurança digna de aeroporto. Aliás, pior, porque no avião ainda nos deixam levar a mala connosco - ali a mala, o casaco e o B.I. ficaram reféns à entrada até à minha saída do edifício, e o telemóvel teve de ficar desligado. Jesus, paranóia, much?

Conduzida pelos corredores levava os olhinhos esbugalhados para absorverem todos os pormenores do interior: os brasões dos departamentos de Estado dos EUA, os quadros com as fotografias do Obama e antigos presidentes, a bandeira americana muito digna na sala onde entrámos, as paredes e teto trabalhados dando a entender que aquele edifício foi em tempos um palacete aristocrata qualquer.

Não vou entrar em pormenores sobre a apresentação propriamente dita, referir apenas que a atitude muito típica americana, um misto de arrogância honesta com ingenuidade e franco otimismo, esteve lá. Não me surpreendeu, também não levei a mal, mas descobri que estou mais cínica do que antes. Ainda assim, sinto que fiz as pazes com a América; a minha relação tempestiva de amor-ódio acalmou e hoje consigo olhar de frente para ela, encolher os ombros e pensar "A América não é boa, não é má, é assim como é".

No entanto, tenho de confessar que quando vi os guardanapos de papel engravados com o selo americano, aquela águia com as palavras United States of America engravadas a toda a volta em círculo, me deu um impulso de roubar um. E podia ter levado o meu, porque não. Mas o pensamento de ser apanhada a guardar na mala um guardanapo usado e o ridículo da situação deixou-me estar quieta.


cortesia Google Street View; puxar de máquinas fotográficas ao pé de security-freaks nunca foi boa ideia e eu ainda assim dou valor à vida e à minha liberdade



S.

domingo, 18 de março de 2012

Se não fosse o Skype


O Luky acabaria por esquecer-se do som da minha voz. Havendo Skype, vou certificar-me que isso não acontece.



S.

O poder (de compra) dos M&Ms

As compras semanais de mercearia são uma das grandes preocupações de emigra. Quais são os supermercados existentes no novo país? Onde será que é mais barato? Que tipo de carne existe? Será que existe peixe fresco disponível e a preços razoáveis? Quanto é que se gastará em média por semana/mês?

Apesar de as minhas experiências terem sido todas na Europa, e, logo, sem grandes diferenças em termos de produtos, a verdade é que os preços médios das compras de mercearia divergem bastante entre Londres, Lisboa e Bruxelas. Sendo que Londres é o mais barato (apesar da libra). E Bruxelas o mais caro.

Ía-me dando uma coisinha má quando fomos ao supermercado cá pela primeira vez e gastei mais de 100 euros para uma semana (e a comida não chegou até 4a feira). Mas entretanto descobri que estava a ir aos supermercados express, que eram os mais caros porque apenas para desenrascar aos domingos à tarde quando tudo o resto está fechado, e que as pessoas íam a outros, bem mais baratos e melhores. Quando a conta voltou a rondar os 60 euros semanais, eu voltei a respirar de alívio.

Sempre teimei - porque foi o primeiro produto que quando regressei a Lisboa fui a correr comparar o preço - que o pacote de M&Ms seria o meu produto de referência do custo de vida. Não existem indicadores mundiais que tomam o preço de um cheeseburger do McDonald's como referência do poder de compra? Pois o meu é o pacote de M&Ms. E posso dizer que fiquei feliz quando vi que aqui é mais barato do que em Lisboa - €3.09 contra €3.59. Descobri também que existem uns pacotes de M&Ms azuis, para além dos corriqueiros castanhos e amarelos, mas que ainda não descobri a diferença. Se não tiverem amendoim, perdem toda a graça, isso é garantido.

Ainda assim, a nostalgia aperta forte quando penso na libra e cinquenta que eu pagava pelo mesmo pacote de M&Ms em Londres - isso, sim! uma verdadeira pechincha.






S.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Boo-hoo

Pensamento do dia:

"Constant whining characterises losers".

É que caracteriza mesmo. "Aaaai, nunca mais chega a 6a feira", "Aaaaai, a 2a feira chegou tão depressa", "Aaaai, esta chuva que não pára", "Aaaai, com este calor nem apetece trabalhar", "Aaaai, que nunca mais tenho férias", "Aaaai, que o trabalho está já aí à porta".

A sério, não há paciência nenhuma para queixumes constantes e rotineiros, previsíveis como o calendário. É infantil, demonstra fraqueza e incapacidade de controlar a própria vida. Quem está mal, mude-se; se não pode, que pare de chamar a atenção para a vida chatinha que tem.








Pelo menos que haja criatividade nas lamúrias.





S.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Verdura Citadina - versão Bruxelloise

As coisas que uma pessoa descobre quando anda a pé e se perde.


Parc Léopold, acho eu. Sabia que havia um parque por detrás do Parlamento, mas ainda não tinha passado por ali e a verdura inesperada mais o laguinho foram uma boa surpresa.




Cidade com parques destes é uma cidade que ganha muitos pontos em qualidade de vida. São uma característica fundamental de boa cidade.


Pronto, só não tinha esquilos, mas vou começar a pensar neles como característica única dos parques britânicos. A relva tem a mesma tonalidade de verde, pelo menos.



S.