sexta-feira, 13 de abril de 2012

Ele ouve-se coisas... (ou "não vás estudar francês que não é preciso!")

Quando regressava do trabalho, oiço uma voz de menina muito entusiasmada que gritava "Le CHÁ! Le CHÁ! Le CHÁ!" enquanto apontava para um muro. Assim que ouvi a palavra virei-me (gosto mesmo muito de chá) e pensei "Chá? Aonde?"

Era um gato.







S.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Conversa de lixo - ou lixo de conversa

Nunca percebi as vantagens dos sistemas de recolha de lixo porta-a-porta.

Dá mau aspeto às ruas das cidades, ocupa espaço nos passeios e os homens do lixo, em vez de pararem em meia dúzia de locais têm de percorrer cada rua e parar de 10 em 10 metros.
 


A única vantagem é mesmo para as pessoas, que escusam de se deslocar ao contentor mais próximo (não há) porque é só mandar o saco do lixo porta fora. Mas claro que ninguém gosta de ver lixo à porta de casa. No dia em que tivemos sem luz - e no qual portanto as distrações não abundaram - ficámos a apreciar da janela uma senhora que mandava pontapés no saco do lixo ao longo do passeio para ficar o mais longe possível da sua residência.

Aqui, a reciclagem é obrigatória por lei. Existem assim os sacos brancos, como os das fotos, para o lixo regular, que é recolhido duas vezes por semana, os sacos amarelos para o papel e os sacos azuis para embalagens/latas, recolhidos uma vez por semana. Uma coisa curiosa é que quando eles dizem "embalagens/latas" é mesmo só isso, embalagens ou latas. Ou seja, não é plástico e metal, uma vez que sacos de plástico, por exemplo, não são admitidos no saco azul e têm de ser deitados no lixo geral - o que ainda me faz muita confusão.



Cada rua tem dias específicos de recolha, por isso o nosso prédio tem uns folhetos que indicam os dias para cada tipo de sacos, no nosso caso: às quartas-feiras são os sacos todos, aos sábados o lixo geral.



Quanto ao vidro... Não faço a mínima ideia. Temos aí umas 3 ou 4 garrafas às quais não sabemos o que fazer. Parece-me sacrilégio mandar vidro junto com lixo geral, por isso continuam aí arrumadinhas até descobrirmos como e onde se reciclam garrafas.

Na minha opinião, o sistema de recolha do lixo é bem mais acertado em Portugal do que em Bruxelas ou Londres. Cada vez que apanho as ruas cheias de sacos de lixo nos passeios não resisto a revirar os olhos com impaciência e pensar "Está visto que hoje é dia de recolher o lixo". Não é uma vista agradável.



S.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Ele há coisas... #3


Isto intriga-me. Diariamente.

Quem urinar ali tem defesa? Pode-se urinar ali? Não deveria ser qualquer coisa do género "Aggression pour uriner"?

Desde que vi um homem a aliviar-se contra uma parede de uma estação de metro, em pleno dia e à plena vista de toda a gente, nada me espanta.



S.

Embutilhagem em Bruxelas

Quarto dia sem transportes públicos. Ainda assim, o primeiro dia de trabalho oficial, que foi o que valeu à cidade. Apenas um dia de grande confusão, em vez de quatro.


Enquanto caminhava até ao trabalho esta manhã, lembro-me de pensar "Esta cidade é mesmo esquisita..." Isto porque apesar de saber que os transportes públicos estavam suspensos e que hoje era dia de trabalho normal para os bruxelenses em geral, a cidade estava deserta! Estava à espera de mais pessoas a andar pelas ruas ou a deslocarem-se de bicicleta, muito carro na estrada, filas e confusão de tráfego.

Nada. As duas escolas por onde passo permanecem fechadas, o caminho que faço tem portanto uns menos 90% de gente. Mas e ninguém trabalha? Não seria de esperar mais confusão à hora de ponta, em vez de esta cidade-a-meio-gás-digna-da-semana-passada? Cheguei a pensar que por causa da suspensão dos transportes a maior parte das pessoas tivesse apenas encolhido os ombros e tirado este dia de folga para se poupar à chatice (afinal nem toda a gente tem um carro ou vive a uma distância razoável do emprego para poder ir a pé).

Mas isto foi antes de ter experienciado a hora de ponta ao fim da tarde. Aí sim, a confusão nas estradas foi bem visível. A somar a isto o dia de chuva sem parar, parece que houve mesmo um grande aumento no número de acidentes na cidade.

Ao que parece, os sindicatos resolveram re-abrir a rede de transportes amanhã de manhã. Um alívio de certo para muita gente e uma cidade que volta a funcionar em pleno novamente. Pela parte que me toca, só digo isto: abençoado o dia em que tomei esta resolução.



S.  

Ursinhos de goma

A semana passada acabei com o stock de ursinhos de gomas do Parlamento. Desde então não voltaram a repor. Digam-me agora se tenho condições para trabalhar.




S.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Onde está o tram?

No sábado, quando por acaso fui parar ao site da rede de transportes de Bruxelas, reparei num aviso que informava que devido à agressão violenta de um dos seus funcionários na linha de comboio, os transportes estavam completamente suspensos durante todo o dia. Na altura não percebi bem se seria um suicídio, o que justificaria a decisão de suspender a rede de transportes (ainda que os autocarros também, provavelmente já seria exceder o razoável...)

Ontem e hoje, enquanto andámos pela rua não vimos um único transporte público. Ontem, justificámos com o ser Páscoa, normal já que todas as lojas e restaurantes estavam fechados. Hoje, apesar de ser ainda feriado e a grande maioria dos serviços estar ainda a meio-gás, pensámos "Isto já começa a ser ridículo, então não há transportes públicos aos feriados??"

Mas hoje, após dois dias sem eletricidade e de um corte forçado com o mundo, resolvemos finalmente o mistério.

"Suite à l'agression dramatique d'un de nos collaborateurs samedi matin sur le réseau de surface, la direction de la STIB à décidé de suspendre l'exploitation du réseau de métro, tram et bus et de ne pas reprendre avant la réunion avec les autorités fédérales ce lundi."


A minha primeira reação foi incredulidade. O quê?! Mas há três dias que a rede toda dos transportes está suspensa? Onde é que isto já se viu? Sinceramente, a história do empregado que morreu à pancada é dramática  e macabra o suficiente - o senhor tinha sido chamado para inspecionar um pequeno acidente entre um autocarro e um automóvel quando foi atacado e morto - mas parar todo o tipo de transportes de uma capital? Como é que é suposto as pessoas se deslocarem? Eu sei que disse que Bruxelas era uma cidade pequena, mas pequena na mesma medida em que Lisboa é pequena - o que ainda é tamanho considerável para percorrê-la a pé.

Amanhã retoma-se o trabalho e as caminhadas. Cheira-me que a mim se vão juntar muitos bruxelenses.





S.

sábado, 7 de abril de 2012

O túnel da Mancha

Este assunto, que é ainda uma continuação do post anterior, merece um post à parte. Isto porque tem que ver com algo que há muito brinca com a minha imaginação.

Ora bem, já sabia algumas coisas sobre o túnel do Canal da Mancha antes da passagem do D. por lá, mas havia muita coisa que era ainda nebulosidade no meu conhecimento:

- Sabia que é um túnel que liga a parte mais estreitinha de mar entre França, ou a Europa continental, ao Reino Unido, mais ou menos Calais-Dover;

- Sabia que tinha sido inaugurado em 1994 (!! menos de 20 anos!) e que é tão novinho devido às desconfianças que os britânicos mantiveram durante muito tempo em relação a ter uma ligação terrestre com a Europa continental - assim seriam muito mais fáceis de atacar militarmente. Tendo em conta que foi o facto de serem uma ilha que os livrou de uma invasão Nazi e de uma invasão Napoleónica, e que é uma ilha que não é conquistada por ninguém desde 1066, percebe-se as reticências;


- Sabia que aquilo tem dois túneis, um para passarem comboios - o Eurostar - e outro para passar o trânsito rodoviário.

Mas outras coisas faziam-me coceguinhas no pensamento: será que é tudo escuro? Será que demora muito tempo a atravessar? Será que se veem as famosas White Cliffs of Dover, como quando se atravessa no ferry Calais-Dover (uma das viagens que me ficou encravada por não ter feito)? Por isso chateei as pessoas que conheço que já atravessaram o túnel com a pergunta "Mas o que é que se ?" Ninguém me soube dar uma resposta satisfatória.

Claro que desta vez com o D. a ir a Londres de expresso a oportunidade era boa demais para me escapar. Bombardeei-o com perguntas até a minha curiosidade estar satisfeita, tanto durante a sua viagem como quando cá chegou (sem nenhuma foto, a blasfémia!).

Há um controlo de fronteira, essa foi a primeira coisa. A minha surpresa tornou-se num revirar de olhos impaciente quando me lembrei que os britânicos não estão no espaço Schengen, o espaço europeu onde se pode viajar de um lado para o outro sem controlos de fronteiras. Ali, há, e a espera que se gera para fazer o "check-in" não é pouca.

Mas a grande surpresa veio depois. Parece que a espera é ainda mais demorada porque os carros/autocarros/camiões entram para dentro de contentores sobre carris (!!!) que transportam os veículos do continente para a ilha e vice-versa.



Ou seja, não há estrada, apenas carris. Os veículos vão muito bem sossegadinhos dentro destes contentores que demoram 40 minutos a atravessar o túnel.




Dado o meu grande interesse neste túnel, não faço ideia porque é que nunca me dei ao trabalho de o ir pesquisar no Google. Mas ainda bem que não. O sistema dos contentores foi bem mais interessante e surpreendente - com direito a olhinhos esbugalhados e brilhantes e boca aberta de surpresa - quando explicados por quem já o experimentou.

Se bem que a ausência de fotos ainda não perdoei completamente... Se não fosse o chocolate quente estava lixada.



S.

O chocolate quente da Twinnings

Entretanto ele voltou das Terras da Rainha e eu voltei a ter pennies na mesa da cozinha, um Oyster e um folheto sobre London Bus Tours.

Depois de o ter bombardeado com perguntas - que se podem resumir nesta "Então, Londres está no mesmo sítio onde a deixámos?" - lá desencantou da mala o meu presente:




E em boa hora o fez, porque já só tinha para mais uma dose (se esta conversa da "dose" não me alerta para o facto de estar irremediavelmente viciada neste chocolate quente não sei o que alertará...).



S.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

É Páscoa ou é Natal?

Não sei muito bem porque é que tenho o álbum de Natal do Bublé em modo aleatório no iTunes...

Um viva às incoerências desta vida.





S. 

A solidão é solitária

Já não sei estar sozinha. Acho que lhe perdi o jeito.

Em Londres eu sabia muito bem estar sozinha. O meu horário reduzido de aulas e o trabalho exigente do D. fizeram com que eu passasse muito tempo em casa, contente de volta das tarefas domésticas que eram minha obrigação pela primeira vez, a dar um pulinho à High Street, ir ao banco, ir ao supermercado, ir à Primark bater palminhas aos preços impossivelmente baratos. Palmilhar a cidade na companhia exclusiva de mim mesma. Ao final da tarde, ele chegava a casa, e o sentimento de lar instalava-se; as horas solitárias do dia eram agradáveis porque temporárias. E porque eu sempre gostei muito da minha companhia.

Em Portugal tinha o contrário, horário a rebentar pelas costuras, tempo passado a trabalhar em vários sítios diferentes com pessoas diferentes, sempre com companhia. À noite e aos fins-de-semana lá estávamos nós dois, e se não estávamos, a proximidade dos pais, avós e um Luky a dormir ao tapete nunca deixava espaço para solidões.

Aqui, tenho permanente companhia: no escritório com colegas, ao fim da tarde e fins-de-semana o D. 

Não admira pois que uma solidão, ainda que de poucos dias, me pareça estranha. À boa moda do Luky, eu aproximo-me dela, cheiro-a e torço o nariz por não a achar familiar. Ainda que tenha por ela uma espécie de amor-ódio. Enquanto caminhava para casa depois do trabalho (sim, estou-me a aguentar estoicamente neste meu novo hábito, quem diria...) ía enumerando entusiasmada todas as coisas que podia aproveitar para fazer em casa estando sozinha: aproveitar o silêncio para me embrenhar a fundo na leitura, ver episódios de Downton Abbey em modo contínuo, limpar a casa de alto abaixo, estudar muito muito muito para o exame que se aproxima...

Mas depois uma pessoa chega a casa e não está cá ninguém. Os estores estão corridos e a sala está na penumbra. Silêncio. Nenhum movimento fora o meu. Ninguém com quem dividir a baguete quentinha acabadinha de comprar.

Ainda por cima a cidade está meio deserta, já a hibernar para o fim-de-semana prolongado de Páscoa. A caminho para o trabalho quase não vislumbrei vivalma; as duas escolas por onde passo estão fechadas para férias. Menos gente na rua, no trabalho, menos carros. A minha colega de escritório doente e a minha supervisora de férias. Cidade e Parlamento a meio gás.

Ao que a tudo isto se soma a ansiedade a borbulhar cá dentro quando sei que ele está em viagem. A transitar de um lado para o outro. Eu juro que não era assim; não me lembro de momento em que ganhei esta paranóia estúpida e irracional de entes queridos em viagem. Sei que há cerca de dois anos, quando o D. embarcou para Londres uns meses antes de mim, eu passei o dia todo agitada. Estava no meu trabalho de verão e lembro-me perfeitamente de ter aberto um site daqueles que mostram o percurso dos aviões em direto e estar constantemente de olhos presos na figurinha minúscula do avião por cima do mapa imenso da Europa. Desta vez não deu porque a viagem foi de expresso. Ainda que a possibilidade de mandar mensagem de vez em quando tenha atenuado a paranóia.

Dei o desconto de na altura ser por causa da grande mudança, do lançamento um bocado às cegas que foi a ida dele para lá, a incerteza de se tudo iria correr bem. Mas ele depois veio (foi! não é veio... por mais mudanças o compasso geográfico nunca muda, caraças) a Portugal. E eu passei outro dia com o nervosismo a borbulhar no peito, daquele chato porque não dá para acalmar visto não ter razão lógica. Ainda pensei que tivesse que ver com aviões - tenho uma irritação e nó no estômago cada vez maior quando preciso de utilizá-los - mas hoje veio confirmar que não. Também se aplica a autocarros. Se bem que hoje foi misto de ansiedade com excitação a fazer as contas mentalmente tentando imaginar quando é que ele passaria o Túnel da Mancha. Parecia uma criança: "Já chegaste? Já chegaste? Já chegaste?" Quando me informou que já estava em solo londrino abri um sorriso do tamanho do mundo, de alívio misturado com alegria por tê-lo a ele em Londres - devo pensar que estas coisas se transferem por osmose...

Por isso concluo: estar sozinha num lado qualquer é aborrecido. Desamparador. Tenho muita mania de achar que amo a vida de emigrante, que me abre o espírito e me desperta os sentidos mudar de cidade e de país, mas a verdade é que eu não aguentava aqui sozinha uma semana. E que portanto a companhia, o apoio emocional nas banalidades do dia-a-dia, a partilha da descoberta de novos lugares e as duas escovas de dentes na casa de banho não são para ser tomados como garantidos ou trivializados; se não fossem eles sei perfeitamente que não estaria aqui.




S.