Quem é que no seu juízo perfeito começa um anúncio de arrendamento com a seguinte frase:
"Situé entre la Place Brugmann et la prison de Saint Gilles"?
Há que louvar a honestidade, mas era mesmo necessário referirem tal aspeto? Uma pessoa podia nem notar quando visitasse o apartamento... Definitivamente este proprietário não quer alugar a sua propriedade. Pode ser até o seu inconsciente a travá-lo.
Há uma passagem num dos filmes dos Monty Python - The Life of Brian - em que uns judeus da Galileia se tentam rebelar contra os romanos.
Para instigar a revolta, o líder pergunta retoricamente o que é que os romanos alguma vez haviam feito pela gente da Galileia. Alguém, muito timidamente, levanta o bracito e diz: "O aqueduto". Aos poucos, começam a surgir mais sugestões: "Podemos andar nas ruas à noite em segurança", "O vinho", "As boas estradas", etc. E o instigador da rebelião começar a ficar cada vez mais irritado: "Sim, mas para além disso tudo, o que é que os romanos alguma vez fizeram por nós?"
A minha amiga e colega E. mostrou-me uma adaptação desta cena que alguém fez para responder aos eurocéticos britânicos e cujo mote é "O que é que a UE alguma vez fez por nós?". No fundo para explicar para que é que a União Europeia serve.
Achei que merecia a pena ser partilhado.
Obrigada, E.! :)
S.
P.S. Foi a primeira vez que escrevi a palavra "eurocéticos". Ainda que seja a favor do novo Acordo Ortográfico e escreva de acordo com ele há mais de um ano, tenho de admitir que pareceu demasiado esquisita sem o "p"...
Gostava de saber - porque nunca alcancei o brilhantismo da ideia - por que se cansam as empresas a enviar cartas para casa a dizer que NÃO ficámos com determinado emprego.
A sério.
"Ah, e tal, porque é simpático e cheio de consideração." Não é... Não é. É a mesma coisa que oferecerem-nos uma prenda, uma pessoa desembrulhar cheia de expectativa, e lá dentro estar um papel a dizer "Afinal não há prenda, não". Mandem a porcaria de um e-mail. A consideração é a mesma e de caminho poupa-se a vida a uma árvore.
Já não é a primeira vez, daí que desta não me tenham apanhado desprevenida. Mas é sempre um momento estúpido, aquele em que se fica a olhar para um papel "cheio de consideração" mas no qual constam as palavras "we regret to inform you that..." que os meus olhos já procuram instintivamente.
Por isso, senhores empregadores, se é para mandar barra, mandem por e-mail. Custa menos, tanto a (não-)empregado como a empregador.
Minha cara hoje, sem tirar nem por.
S.
P.S. Pai e mãe, esta não é a outra. Dessa não vão ficar a saber pelo blog, seja que resposta for.
Sempre que as pessoas perguntam o que é que eu faço no meu estágio aqui no Parlamento tenho alguma dificuldade em explicar em apenas duas ou três frases curtas. Acabo sempre por dizer "Então... Faço pesquisa relacionada com os direitos das mulheres na Europa." Normalmente as pessoas olham com um misto de admiração, estranheza e incredulidade: "O quê, direitos das mulheres?? Na Europa??". Um ou outro mais curioso persiste e eu então vejo-me à rasca para especificar sem entrar em detalhes infinitamente aborrecidos de como o Parlamento está dividido em comissões temáticas, como para além dessas comissões existem secretariados e departamentos de diferentes políticas, e ainda as famílias políticas que englobam diferentes partidos políticos nacionais.
Felizmente, há aí um grupo qualquer de géniozinhos brilhantes e mordazes em Bruxelas que decidiu resolver o meu problema e criar uma série a satirizar este mundo eurocrata que gira em torno das instituições europeias aqui na capital belga.
E eu já chorei a rir (e as filmagens ainda nem começaram). Porque aquela porcaria é mesmo certeira.
O nome é EUROBUBBLE e pretende entrar no mundo das instituições da UE através da pele de várias personagens-tipo: o estagiário, o policy officer, o assistente do deputado europeu, o lobbyista, etc.
Neste momento encontram-se no processo de casting para preencher estas personagens, e por isso têm no website dedicado à série satírica uma descrição de cada personagem-tipo que pretendem figurar. Assim temos o policy officer, francês, entre os 25 e os 30 anos com um estágio na Embaixada do não-sei-quê e experiência numa consultoria; o Daniel, alemão, que trabalha numa consultoria para tentar conseguir um emprego na Eurobubble, sempre muito diligente, típico germânico; a Svetlana, rapariga eslovena que frequentou todos os cursos e mais algum, trabalha que se desunha, e é assistente de um eurodeputado.
O trailer não revela muito - as descrições das personagens e situações é que dão para antever que aquilo vai ser de uma espirituosidade brilhante - mas aqui fica:
Para culminar em beleza, estes senhores produtores deram-se ao trabalho de compilar um gráfico que exemplifica de forma assustadoramente certeira em que consiste a vida de um típico estagiário das instituições europeias:
Para a próxima, quando me perguntarem em que consiste o meu trabalho, já vou saber que:
- 40% passo a drafting stuff
- 10% em Excel stuff
- 10% em random committee meetings
- 10% em complaining not having enough work
(E claro, a parte também importante do visiting cities)
Mas foi esta frase que me conquistou:
"As pessoas na Bolha usam 'Stagiaire' e outras palavras francesas aqui e ali para agradar aos franceses e para os fazer sentir que a língua deles ainda é utilizada, para os manter calados e para dar um certo toque exótico à Bolha.Charmant, não?"
Há o sério risco de eu perder a cabeça e ir participar nas filmagens desta coisa para pura diversão, pá...
A Comissão Europeia lançou uma nova campanha. E eu, que me cheirou a igualdade de género, fui espreitar o lançamento.
Nas minhas pesquisas em trabalho já me tinha deparado com a abolição de um mito que pervade o dito senso comum e que é um dos grandes culpados por haver tão pouco mulherio em áreas científicas (vulgo Agrupamento 1):
- As raparigas são tão boas em Matemática (em alguns países, até melhores) quanto os rapazes.
Quando descobri, primeiro arregalei os olhos de espanto e logo a seguir enfureci-me. Contra o meu professor de Matemática do 9º ano que dizia cheio de desprezo que Humanidades era para meninas, contra o estereótipo do cientista louco homem de meia idade de cabelo branco, contra a afirmação - pelos vistos - estupidamente idiota tão frequente na boca de toda a gente que o cérebro dos rapazes é melhor a fazer contas do que o de quem tem mamas.
Parece que a Comissão também se enfureceu. Vai daí e lançou então esta campanha para tentar atrair raparigas adolescentes para áreas tecnológicas, científicas, mecânicas. E para a investigação.
Maneira escolhida: provar que a ciência pode ser feminina. Ainda não decidi se esta é a melhor abordagem mas, hey, whatever works...
Foi engraçado ver raparigas naquele lançamento com batôns com o logótipo da campanha, pequeninos boiões de creme, sacolas. Mas o mais interessante aqui, e essa é a base de toda a campanha, são as role-models. Mulheres que trabalham em profissões de ciências naturais, engenharia mecânica, em laboratórios, informática, a explicar o que fazem, como fizeram para chegar ali, como a ciência não tem de ser masculina. Se tivermos em conta que 1/4 das raparigas britânicas de 11 anos almejam ser strippers (Sexualisation of Young People Report - google it!), parece-me um bom exemplo.
Fico contente. Muito. Quase me faz arrepender ter mudado de Agrupamento no 10º ano...
De há uns meses para cá tenho andado com uma vontade incomodativa e persistente de aprender alemão. É uma espécie de moínha, que está lá sempre no cérebro a aborrecer, que não me traz dramas existenciais mas que incomoda. O que é estúpido, já que a vozinha que me devia andar a moer a cabeça devia ser francófona e não germânica. Ou quando muito flamenga.
Não é que esteja uma falante de francês de alto nível - nem sequer médio, para moderada frustração minha - mas uma vez que convivo com o francês diariamente, acho que tenho a secreta esperança que vá escorrendo qualquer coisa para dentro do meu cérebro (ainda que o francês com o qual convivo se limite na maior parte das vezes a "Bonjour"s e "Bon journé"s). Ainda assim, é inevitável que vá entrando qualquer coisa. Mas seria expectável querer aperfeiçoá-lo, vivendo onde vivo e tendo todas as intenções de ficar indefinidamente.
Mas... Não. Definitivamente a voz que me aborrece e me espicaça a curiosidade neste momento é a alemã. É uma das três línguas de trabalho da União Europeia, verdade, mas não é essa a razão que me faz querer entendê-la. Sei que não é uma língua nada glamourosa ou particularmente atrativa ou sequer fácil (declinações, oh alegria!), e o que está na berra neste momento é ser contra tudo o que é alemão por princípio, mas há qualquer coisa de masoquismo fascinante no alemão falado e escrito que me atrai. Há demasiadas coisas boas escritas em alemão para me parecer uma grande pena não as conseguir apanhar na sua origem, muito pensador germânico fundamental, muita revista interessante, muita cultura e história entre as quais eu e elas existe a barreira aterradora da língua.
É certo que tive 9 meses de aulas de alemão há dois anos. Envolveu muita paciência, persistência e disciplina (eram aulas através de uma plataforma online do Goethe, tinha exercícios, uma tutora e textos mensais para entregar, fácil de resvalar para a ronha) mas não foi, nem de longe nem de perto, suficiente. Recortei e desenhei objetos em flashcards para aprender vocabulário e os géneros (porque os alemães têm o "neutro", além do feminino e masculino, oh, alegria!...), até comprei um livro de histórias da Disney em alemão para começar a ler! Normalmente só percebia "Bambi", "Simba", "Ariel" mas às vezes, com muito esforço e dicionário ao lado, lá compreendia uma ou outra frase. Ganhava o dia nessas alturas.
Mas infelizmente não consigo manter nem uma simples conversa em alemão, lendo apenas apanho palavras soltas e não entendo alemão falado. E tudo isto me parece um grande desperdício: já que se começou, acabe-se!
Sei perfeitamente o que custa aprender uma língua e chegar a um nível em que nos possamos orgulhar. Sei o ingrediente principal - muita auto-disciplina - e o que é preciso para poder pelo menos chegar um nível aceitável de conhecimento da língua: rodearmo-nos o mais possível dela (ouvir música alemã para afinar o ouvido aos sons guturais, começar a tentar ler livros, de preferência contos infantis ou histórias que se conheça de trás para a frente, ouvir e ver telejornais alemães, os tais flashcards para aprender e treinar vocabulário, etc). Claro que teria de voltar a ter aulas; a língua alemã é-me demasiado desconhecida e gramaticalmente difícil para poder pegar onde a deixei. Mas as aulas não são o suficiente - nunca o foram em nenhuma língua - e daí a importância de todos os outros extras que têm de ser encarados como passatempos e ocupação de tempos livres.
Vou ver até onde vai esta ambição do aprender alemão. Se daqui a umas semanitas a voz germânica continuar a chatear, vou ter de começar a procurar aulas de alemão em Bruxelas (francês? Não... flamengo? Não. É mesmo alemão. Caprichos aleatórios, vá se lá entender...). E tentar arranjar espaço na minha vida para mais uma dedicação.