segunda-feira, 2 de julho de 2012

Networking-fobia ou "Porque é que eu nunca irei a lado nenhum"

No geral, não gosto de pessoas. Ou melhor, gosto de observar pessoas, mas desde que elas não queiram interagir e falar comigo e assim.

Pronto. Podia parar por aqui que estas duas frases resumem a minha natureza anti-social. Mas permitam-me elaborar na matéria, até porque hoje foi dia de conferência de empregos para estagiários do PE e a culpa moe-me um bocadinho por dentro. E nada melhor do que uma historieta para ilustrar a primeira afirmação deste post.

O trabalho aqui em Bruxelas mostrou-me, por experiências alheias, que desenvolver uma rede de contactos é crucial para uma pessoa ir a algum lado. Podemos ter o talento e o mérito todo do mundo, mas se ninguém nos conhecer, se não fizermos um esforço por nos promovermos, pouco vale esse talento.

Muitos estagiários levam isto muito a sério e aproveitam cada oportunidade que podem para falarem com pessoas, especialistas, etc, que trabalham nas áreas do seu interesse e ligadas a matérias nas quais gostariam de trabalhar e formar carreira. Muitos têm cartões de visita (literalmente, aqueles business cards com uma espécie de slogan e os contactos da pessoa), outros têm assinatura personalizada nos e-mails. No final das conferências não hesitam em apertar a mão aos experts, apresentam-se com um grande sorriso e sacam do tal business card com um "call me" inscrito na postura e no olhar.

Sim senhora, gente que faz pela vida e não espera que as coisas lhe caíam no colo. (Eu sei que há uma linha ténue entre o networking e a muito familiar e portuguesa cunha, mas para o caso vamos imaginar que isto é tudo legítimo, até porque eu sei que a grande maioria destas pessoas de quem falo não lhes falta mérito académico, linguístico e até profissional.)

Ora, eu vejo estas coisas todas com um misto de surpresa, descrédito e uma pontinha de inveja pela lata que é preciso e que me falta em grande dose. Porque a verdade é que eu sou das pessoas mais socially awkward que conheço. A sério. Odeio conversa de circunstância, tenha brancas com palavras, sou introvertida, ergo uma espécie de barreira invisível à minha volta sempre que conheço pessoas novas e a máxima do "se não tens nada de jeito para dizer mais vale estares calada" é uma espécie de mantra da minha vida. Odeio falar de mim (o blog não conta porque é escrito e não há interação direta). Logo se deduz que o networking seja uma espécie de inferno para uma social misfit como eu.

E no outro dia tive a prova.

Em trabalho, fui assistir a uma conferência aqui ao lado no Comité Económico e Social. Uma coisa muito bem organizada, muito mais populada do que o costume e onde a cada pessoa foi dado um cartão para por ao peito e um papel para meter na ranhura da mesa à nossa frente. Porque, como estão presentes muitas ONGs e outras organizações interessadas, estas conferências funcionam muito como plataformas de ligação para pessoas com os mesmos interesses e a trabalharem nos mesmos assuntos se encontrarem e colaborarem umas com as outras. Para networking, enfim.

Cheguei lá com a minha supervisora e, enquanto esperávamos pelo início, ela meteu conversa com as pessoas da mesa da frente. Em menos de dois minutos, e sem saber bem como, tinha eu três cartões de visita na mão e a outra vazia sem nada para devolver. "Eu sou só estagiária, senhores, parem de olhar para mim como quem espera receber um cartão pomposo de volta!", apetecia-me desabafar. Hoje um dos apresentadores na conferência de empregos ralhou connosco para nunca nos apresentarmos como estagiários, nunca. Que um funcionário também nunca se apresenta como "Estou no grau 86847 e trabalho na Comissão de Justiça". Culpa, culpinha...

À tarde, durante as pausas para café, o networking da sala desenvolvia-se a olhos vistos. Eu, que de manhã tinha apanhado uma crise de fome desgraçada, porque tinha comido às sete da manhã e esta gente acha por bem fazer conferências de cinco horas seguidas sem nenhuns cinco minutos de pausa, decidi aproveitar para sacar da mala e da bolacha e ficar sossegadinha no meu lugar a mirar a míriade de participantes na conferência.

Estava eu a apreciar a minha primeira bolacha, agarradinha à mala e a apaziguar a minha barriga que já gritava "Tu não me faças isto outra vez!... Hipoglicemia não te diz nada, minha menina? Olha que eu digo ao cérebro para se apagar e tu dás um tralho dessa cadeira que nunca mais vais esquecer...", quando um senhor se aproximou da minha mesa e exclama um simpático "Bom dia!".

Juro que tentei não saltar da cadeira e não arregalar muito os olhos de surpresa. Não tenho a certeza que tenha funcionado. Eu repliquei um "Boa tarde" ainda meio surpreso, ao que se seguiu as perguntas da praxe "O que faz aqui em Bruxelas?", "Trabalha para o quê?", etc. No fundo, este senhor viu o meu nome escrito no papel à minha frente, nome portuguezinho da silva, e ficou curioso por saber o que faria uma compatriota naquela conferência.

Ali estava eu, de mala no colo e bolacha na mão, sem saber se me levantava (mala a estorvar), se apertava a mão ao senhor (bolacha na mão, não dá) e a tentar esconder o ar de surpresa por alguém se ter dirigido a mim, ainda mais em português, enquanto respondia às perguntas de introdução a mastigar ainda a primeira dentada da bolacha. Após duas ou três perguntas introdutórias, sem grande seguimento da minha parte, o senhor lá se despediu e foi para o seu lugar. Eu pude acabar a bolacha que entretanto estava a ganhar pó na minha mão e matutar no que se tinha acabado de passar.

No fundo, sou tão má no networking que tem que ser o networking a vir a mim. E ainda assim eu enxoto-o. Sou uma espécie de cúmulo do anti-networking

O à-vontade e a "lata social" são coisas que se treinam. Eu sei disso. Já fui ainda pior e começo a acreditar firmemente que se estivesse mais uns meses aqui no Parlamento desemborrava-se-me a língua a pouco e pouco. No outro dia fiz uma pergunta numa conferência! Está bem que demorei dez minutos até decidir a por o dedo no ar e só estavam umas vinte pessoas na sala, mas o que interessa é que atraí as atenções sobre mim onde elas não foram pedidas, e isso é o mais difícil, como qualquer introvertido sabe.

Próximo passo será uma apresentação de investigação perante plateia de especialistas, quase a chegar. Mas essa será uma hiperventilação para próximo post.







 S.



P.S. Agora é só esperar que o meu futuro empregador, seja ele qual for, não dê de caras com o meu blogue, não perceba um chavelho de português e ignore a existência do Google translate...   

sábado, 30 de junho de 2012

Coisas a evitar num classificado de imóvel #1

Quem é que no seu juízo perfeito começa um anúncio de arrendamento com a seguinte frase: 

"Situé entre la Place Brugmann et la prison de Saint Gilles"?

Há que louvar a honestidade, mas era mesmo necessário referirem tal aspeto? Uma pessoa podia nem notar quando visitasse o apartamento... Definitivamente este proprietário não quer alugar a sua propriedade. Pode ser até o seu inconsciente a travá-lo.


Se bem que esta é uma prisão toda catita...



S.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O aqueduto dos Monty Python

Há uma passagem num dos filmes dos Monty Python - The Life of Brian - em que uns judeus da Galileia se tentam rebelar contra os romanos. 



Para instigar a revolta, o líder pergunta retoricamente o que é que os romanos alguma vez haviam feito pela gente da Galileia. Alguém, muito timidamente, levanta o bracito e diz: "O aqueduto". Aos poucos, começam a surgir mais sugestões: "Podemos andar nas ruas à noite em segurança", "O vinho", "As boas estradas", etc. E o instigador da rebelião começar a ficar cada vez mais irritado: "Sim, mas para além disso tudo, o que é que os romanos alguma vez fizeram por nós?"

A minha amiga e colega E. mostrou-me uma adaptação desta cena que alguém fez para responder aos eurocéticos britânicos e cujo mote é "O que é que a UE alguma vez fez por nós?". No fundo para explicar para que é que a União Europeia serve.



Achei que merecia a pena ser partilhado.

Obrigada, E.! :)



S.




P.S. Foi a primeira vez que escrevi a palavra "eurocéticos". Ainda que seja a favor do novo Acordo Ortográfico e escreva de acordo com ele há mais de um ano, tenho de admitir que pareceu demasiado esquisita sem o "p"...

Parabéns ao Luky (ou, como quem diz, neste blog não se fala de futebol)

...

Entretanto o Luky faz um aninho. Está grande, o bicho. Grande e lindão.

Que seja o primeiro de muita felicidade canina. E humana, também.





S.


Há dez minutos que não sei do D.. Temo que se esteja a tentar afogar no lavatório, ou assim. Já volto.

terça-feira, 26 de junho de 2012

As agruras de quem procura 1º emprego

Gostava de saber - porque nunca alcancei o brilhantismo da ideia - por que se cansam as empresas a enviar cartas para casa a dizer que NÃO ficámos com determinado emprego.

A sério.

"Ah, e tal, porque é simpático e cheio de consideração." Não é... Não é. É a mesma coisa que oferecerem-nos uma prenda, uma pessoa desembrulhar cheia de expectativa, e lá dentro estar um papel a dizer "Afinal não há prenda, não". Mandem a porcaria de um e-mail. A consideração é a mesma e de caminho poupa-se a vida a uma árvore.

Já não é a primeira vez, daí que desta não me tenham apanhado desprevenida. Mas é sempre um momento estúpido, aquele em que se fica a olhar para um papel "cheio de consideração" mas no qual constam as palavras "we regret to inform you that..." que os meus olhos já procuram instintivamente.

Por isso, senhores empregadores, se é para mandar barra, mandem por e-mail. Custa menos, tanto a (não-)empregado como a empregador.

Minha cara hoje, sem tirar nem por.


S.


P.S. Pai e mãe, esta não é a outra. Dessa não vão ficar a saber pelo blog, seja que resposta for.

Ele há coisas... #19

Na rua, a caminho de casa, mal dou por ele.




Amor autoritário nas paredes de Bruxelas, é o que isto é.



S.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A bolha eurocrata

Sempre que as pessoas perguntam o que é que eu faço no meu estágio aqui no Parlamento tenho alguma dificuldade em explicar em apenas duas ou três frases curtas. Acabo sempre por dizer "Então... Faço pesquisa relacionada com os direitos das mulheres na Europa." Normalmente as pessoas olham com um misto de admiração, estranheza e incredulidade: "O quê, direitos das mulheres?? Na Europa??". Um ou outro mais curioso persiste e eu então vejo-me à rasca para especificar sem entrar em detalhes infinitamente aborrecidos de como o Parlamento está dividido em comissões temáticas, como para além dessas comissões existem secretariados e departamentos de diferentes políticas, e ainda as famílias políticas que englobam diferentes partidos políticos nacionais.

Felizmente, há aí um grupo qualquer de géniozinhos brilhantes e mordazes em Bruxelas que decidiu resolver o meu problema e criar uma série a satirizar este mundo eurocrata que gira em torno das instituições europeias aqui na capital belga. 

E eu já chorei a rir (e as filmagens ainda nem começaram). Porque aquela porcaria é mesmo certeira.

O nome é EUROBUBBLE e pretende entrar no mundo das instituições da UE através da pele de várias personagens-tipo: o estagiário, o policy officer, o assistente do deputado europeu, o lobbyista, etc.

Neste momento encontram-se no processo de casting para preencher estas personagens, e por isso têm no website dedicado à série satírica uma descrição de cada personagem-tipo que pretendem figurar. Assim temos o policy officer, francês, entre os 25 e os 30 anos com um estágio na Embaixada do não-sei-quê e experiência numa consultoria; o Daniel, alemão, que trabalha numa consultoria para tentar conseguir um emprego na Eurobubble, sempre muito diligente, típico germânico; a Svetlana, rapariga eslovena que frequentou todos os cursos e mais algum, trabalha que se desunha, e é assistente de um eurodeputado. 

O trailer não revela muito - as descrições das personagens e situações é que dão para antever que aquilo vai ser de uma espirituosidade brilhante - mas aqui fica:


Para culminar em beleza, estes senhores produtores deram-se ao trabalho de compilar um gráfico que exemplifica de forma assustadoramente certeira em que consiste a vida de um típico estagiário das instituições europeias:



Para a próxima, quando me perguntarem em que consiste o meu trabalho, já vou saber que:

- 40% passo a drafting stuff
- 10% em Excel stuff
- 10% em random committee meetings
- 10% em complaining not having enough work

(E claro, a parte também importante do visiting cities)

Mas foi esta frase que me conquistou:

"As pessoas na Bolha usam 'Stagiaire' e outras palavras francesas aqui e ali para agradar aos franceses e para os fazer sentir que a língua deles ainda é utilizada, para os manter calados e para dar um certo toque exótico à Bolha. Charmant, não?"

Há o sério risco de eu perder a cabeça e ir participar nas filmagens desta coisa para pura diversão, pá...



S.

domingo, 24 de junho de 2012

Os espanhóis andarem aí... (e o sol também)

Na última sexta-feira, às 11 horas da "noite":

           

 Se isto é assim no verão, não quero imaginar a ausência de luz no inverno... 


Hoje, descobri que temos vizinhos espanhóis:

          

 Ai querem pirraça? Olhem que nós também temos uma bandeira... E é das grandes.



  S.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

This is why I love the EU - parte II

A Comissão Europeia lançou uma nova campanha. E eu, que me cheirou a igualdade de género, fui espreitar o lançamento.


Nas minhas pesquisas em trabalho já me tinha deparado com a abolição de um mito que pervade o dito senso comum e que é um dos grandes culpados por haver tão pouco mulherio em áreas científicas (vulgo Agrupamento 1):

- As raparigas são tão boas em Matemática (em alguns países, até melhores) quanto os rapazes.

Quando descobri, primeiro arregalei os olhos de espanto e logo a seguir enfureci-me. Contra o meu professor de Matemática do 9º ano que dizia cheio de desprezo que Humanidades era para meninas, contra o estereótipo do cientista louco homem de meia idade de cabelo branco, contra a afirmação - pelos vistos - estupidamente idiota tão frequente na boca de toda a gente que o cérebro dos rapazes é melhor a fazer contas do que o de quem tem mamas. 

Parece que a Comissão também se enfureceu. Vai daí e lançou então esta campanha para tentar atrair raparigas adolescentes para áreas tecnológicas, científicas, mecânicas. E para a investigação.

Maneira escolhida: provar que a ciência pode ser feminina. Ainda não decidi se esta é a melhor abordagem mas, hey, whatever works...

Foi engraçado ver raparigas naquele lançamento com batôns com o logótipo da campanha, pequeninos boiões de creme, sacolas. Mas o mais interessante aqui, e essa é a base de toda a campanha, são as role-models. Mulheres que trabalham em profissões de ciências naturais, engenharia mecânica, em laboratórios, informática, a explicar o que fazem, como fizeram para chegar ali, como a ciência não tem de ser masculina. Se tivermos em conta que 1/4 das raparigas britânicas de 11 anos almejam ser strippers (Sexualisation of Young People Report - google it!), parece-me um bom exemplo.

Fico contente. Muito. Quase me faz arrepender ter mudado de Agrupamento no 10º ano...



S.


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Ele há coisas... #18

Nunca tinha visto uma Salsa fora de Portugal. Não sabia sequer que estava em expansão internacional.


Uma vista inesperada e um sorriso instantâneo nas minhas deambulações estrasburguianas. :)



S.