sexta-feira, 27 de julho de 2012

Tempo belga: 1 - D.S.: 0

Chegámos à praia, uma hora depois começa a chuviscar. Acabei por ter de me vestir, casaco incluído.

...




É preciso dizer mais alguma coisa sobre o tempo belga?


S.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Corrida ao fato-de-banho

Bruxelas tem estado luminosa e quente como ainda nunca a tinha visto. Fora um ou dois dias em junho, o termómetro ainda não tinha passado a barreira dos 25 graus, sendo que tem insistido em manter-se abaixo dos 19. E a chuva de que já me queixei repetidamente. 

No entanto, parece que esta semana é para se manter nos 28-29. Não há uma nuvenzinha à vista, o céu está todo azul, o ar está quente e, há pouco, quando vi o termómetro de uma farmácia anunciar "30º" quase me deu um fanico. É uma alegria mal-contida, verdade seja dita. 

Ora, acontece que sexta-feira é um dia especial para os pombinhos aqui d'Ixelles (o aniversário número sete tem uma mística qualquer, é um número bonito, ainda que nada redondinho) e tenho andado a olhar para os vários restaurantes aqui da zona com outra atenção. Um jantarzinho romântico à luz das velas, no único dia do ano em que me (nos) permito a extravagância verdadeira de jantar fora com pinta, parece-me muito bem. 

Pois, parecia-me! Os planos de aperaltamento, comida boa e refeição a meia-luz deram uma grande cambalhota quando uma única palavra começou a invadir a mente de ambos, não deixando espaço para mais nada: PRAIA. Eu. Quero. PRAIA. Uma porção de água para banhar.

Timidamente consultámos o meteo.be, ontem, novamente hoje (e consultaremos novamente amanhã) para certificarmo-nos que o pedacinho de costa belga continua com previsões de temperaturas a rondar os 25. Confirma-se. Os dedos não estão cruzados em figas mas a esperança está cá de que este tempo continue até sexta. Só até sexta, vá lá! Porque sabe-se que isto é sol de pouca dura, literalmente, e, de facto, no sábado já preveem chuva e máximas de 18-19.

Mas porque, tal como em Londres, nunca me passou pela cabeça enfiar fatos de banho ou toalhas de praia na mala, coisas remotamente balneares é algo que não mora nesta casa. De maneiras que tivemos que dar um saltinho aos saldos e agarrar os primeiros fato-de-banho (sim, pela primeira vez em 15 anos, rendi-me a um fato-de-banho) e calções de praia que se arranjou. E o protetor solar mais elevado que conseguimos achar, porque isto de não fazer praia há dois verões habitua mal a pele alva destes dois senhores (ou habitua bem, consoante a perspetiva).

Por isso, estamos aqui numa de alguma expectativa e a pedir a todas as partículas de Higgs (são de Deus, deve dar) que o tempo belga colabore só mais dois diazinhos, que depois pode chover tudo o que lhe apetecer (e considerando que não chove há 3 dias, tenho medo do que aí virá).


... a quantidade de pára-ventos não me está a inspirar muita confiança...



S.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Apenas moderadamente melancólica, vá

O que impede a melancolia de se instalar é o facto de estarem 26 graus lá fora. Quem é que se pode dar ao luxo de estar triste num dia assim - que, como bem se sabe, deve ser irrepetível em 2012?

 Agora é aproveitar o facto de poder andar de pernas e braços destapados e absorver Vitamina D como se não houvesse amanhã. Porque provavelmente, soalheiro, não haverá.





S.

Vou ali, já venho, PE

Hoje é o meu último dia.

Daqui a pouco vou entregar o relatório de estágio e não me apetece. E vou ter que arrumar a secretária e também não me apetece. Mandar papéis fora, devolver canetas, arrumar os saquinhos de chá que entretanto sobraram, lavar a caneca, apagar as minhas pastas deste computador.

Últimos dias são sempre merdosos. Especialmente quando se parte para umas férias indefinidamente longas.

Mas estou confiante. Consegui que a minha supervisora me desse um abraço de despedida, o que, sendo ela alemã, considero um feito e acho que era coisa que devia constar no meu CV ou assim.







S.

domingo, 22 de julho de 2012

As mal-disfarçadas saudades de Inglaterra

Diz muito sobre a cidade onde vivo o facto de chegar a um pub inglês e salivar por tudo o que encontro na ementa, incluindo quando me apresentam isto:


Os preços - tudo abaixo das cinco libras e portanto metade do normal aqui em Bruxelas para qualquer refeição fora - quase acrescentaram lágrimas de felicidade aos pensamentos de vegetable and chicken pies, English breakfasts, seafood paellas, e outras bombas calóricas semelhantes.

E água engarrafada que não sabe a água da torneira.

E carros a circular pela esquerda.

E libras e pennies na carteira.

E sotaque cerrado Manchurian.

E adaptadores para tomadas novamente precisos (mas que ficaram em casa).

E chá servido com leite.

E Boots, Primarks, Tescos, Sainsburies, River Islands, Topshops, lojas da Disney, Debenhams...

E estações chamadas Piccadilly e Victoria.

E autocarros vermelhos de primeiro andar.

E maçanetas que rodam para a esquerda para abrir portas.

E chocolate quente do Costa.

E hotéis e pubs alcatifados até à entrada da casa de banho, onde dá para ir de pantufas até à receção.

E chuva e 14 graus de máxima em pleno julho, ansiando por um cachecol.

E uma viagem de regresso de céu incrivelmente limpo que me permitiu atravessar o Canal da Mancha e ver, pequeninas mas distinguíveis lá embaixo, as White Cliffs of Dover.

E saber, porque vi com estes dois que a terra há-de comer (adoro a expressão) quão perto estamos mas quão claramente separada a ilha está da Europa-mãe.



Inglaterra, como me fazias falta!



S.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O mundo louco da interpretação

Há muito tempo que me intrigavam os intérpretes simultâneos nas cabines das conferências. Foi um dos meus maiores maravilhamentos quando aqui cheguei: o facto de descobrir que o multilinguismo, no Parlamento Europeu, é uma realidade. E constatá-lo todas as vezes em que tinha conferências e reuniões de comissão para assistir.

Hoje, tive a oportunidade de experimentar como era. Numa espécie de palestra organizada pelo serviço de interpretação, e numa tentativa de atrair estagiários das instituições europeias para a carreira linguística, pudemos constatar que línguas mais fazem falta à UE (nativos eslovenos, malteses, romenos e búlgaros), que espécie de treino e educação é preciso obter para ingressar nessa carreira, e as gratificações e frustrações que se obtém quando se interpreta para ganhar a vida.

No final, veio a parte divertida: subir às cabines e fazermos nós próprios a interpretação de um discurso em inglês para a nossa língua nativa.


É... Esquisito. Estávamos três pessoas em cada cabine; ao meu lado tinha a minha amiga M. nativa de esloveno, e do outro lado um nativo de francês. Pusemos os auscultadores, ajeitámos o micro, e esperámos. Assim que o discurso começou ficámos uns 30 segundos sem reação: é suposto começarmos a debitar palavreado agora? Acho que estávamos envergonhados por começar a falar numa língua que nenhum dos outros compreendia e que, por estar ali mesmo ao lado, teria de ouvir. Mas assim que um de nós tomou coragem (não me lembro quem deu o primeiro passo, acho que eu não fui, ainda que estivesse mortinha por começar!), os outros foram atrás e em segundos, além de ouvir a minha voz em português e o discurso original em inglês, havia mais duas línguas faladas naquela cabine.

Falhei várias partes de frases, especialmente porque ao início esperava demasiado até começar a traduzir a frase para português; não se pode. Tem que se ir andando, num verdadeiro exercício de multi-tasking que consiste em ouvir, processar a informação, transformá-la em português, e dizê-la em voz alta. Isto tudo repetidamente, sem parar. 

A mulher da palestra tinha razão: aquilo dá uma adrenalina do caraças. Mesmo ali, a brincar e sem ninguém verdadeiramente a ouvir (com três pessoas a interpretar ao mesmo tempo por cabine torna-se impossível sintonizar num canal e apenas ouvir uma voz!), é um exercício de antecipação que cria um stress daqueles positivos. É como se um novelo estivesse a rolar pelo chão continuamente e nós a tentar apanhar a ponta, que continua a ser conduzida para fora do nosso alcance.

Primeiro estranha-se e depois entranha-se. É sem dúvida uma habilidade que se ganha e se treina. Ao início eu não conseguia acabar as frases mas no segundo ou terceiro discurso já conseguia deixar pouco por traduzir. Fiquei desiludida porque pensava que também conseguia traduzir do francês, por ser tão semelhante a estrutura gramatical e as próprias palavras, mas a minha compreensão auditiva francesa ainda não é ágil e rápida o suficiente para conseguir interpretar simultaneamente para português (no discurso alemão, também não, mas nem sequer tentei). Ainda assim, foi uma experiência única e muito divertida.

Fui-me informar sobre as condições que eles exigem aos portugueses nativos - já que o número de línguas pedido a um candidato depende da sua proveniência linguística e do facto de haver muitos ou poucos candidatos dessa língua. Parece que ficam contentes com duas línguas, sendo que uma delas tem que ser o inglês ou o alemão, e a outra uma qualquer das 23 oficiais (em breve 24, com o croata). O curso recomendado é o da FLUL, de interpretação, que dura um ano. Namorei alguns minutos a ideia de me por nesta aventura... Mas depois deixei-me disso: teria que voltar para Portugal durante um ano, para estudar, e além disso temo não ter personalidade para isto. É preciso ter capacidades comunicativas orais altamente desenvolvidas. Eu é mais escrever, tenho pena.



S.


domingo, 15 de julho de 2012

O guia xenófobo sobre os portugueses #2

Como disse no último post sobre o fantástico livrinho xenófobo, é verdade que o autor afirma várias coisas sobre os portugueses que eu não faço ideia onde foi buscar. Mas por isso mesmo vou partilhá-las; pode ser o meu conhecimento sobre os meus compatriotas que tem lacunas.

"Algumas lojas portuguesas ainda fecham para almoço e embrulham as nossas compras em papel e fio."

?? Não faço ideia onde este senhor inglês andou às compras aquando da sua pesquisa para o livro, mas o facto é que eu não me lembro, em toda a minha vida, de ter comprado alguma coisas e trazê-la embrulhada em papel e enrolada com um cordel. Inclusive, tenho vívidas memórias de infância da loja onde a minha mãe trabalhou durante anos e nunca a vi fazer isso. E nós vivíamos numa aldeia.

Outra:

"Em 1974, quando o exército português se rebelou contra as ordens do regime para subjugar os movimentos de independência nas colónias portuguesas, a música do cantor de folk e fado José "Zeca" Afonso foi o despoletador do que ficou conhecido como a "Revolução dos Cravos" ..."

O Zeca Afonso foi um fadista?? Sinceramente nunca me apercebi. Mas isto posso ser só eu...

Mas o que realmente mereceu um esgar de outraje da minha parte foi o seguinte:

"Apoiar uma equipa de futebol em Portugal é um assunto complexo. Se fores de Coimbra, serás com certeza um apoiante do Académica. A não ser quando o Benfica joga contra a Académica, pois nesse caso torcerás pelo Benfica. Ou podes ser apoiante da outra equipa mais operária de Lisboa, o Sporting."

Equipa operária?!?!?! Mas que confusões vem a ser estas?!?!?! A equipa operária da capital é o Benfica; que eu saiba o Sporting nasceu precisamente como equipa da elite! Aliás, não faltam entre nós portugueses as piadinhas entre a origem social de quem apoia as duas equipas. Ainda que hoje em dia já não haja a correlação entre equipa e classe social, é completamente errado afirmar que o Sporting é a "equipa mais operária" da capital. 

Enfim, deixo aqui provas empíricas para suportarem o meu argumento:






Como diz o Raminhos, no fundo vai tudo dar ao mesmo. ;)



S.


P.S. Já agora, os programas do Rui Sinel de Cordes, Gente da minha terra, e Gente da minha terra - Europa, são praticamente versões em vídeo destes guias xenófobos sobre diferentes nacionalidades e regiões do nosso país. Garantido, o humor negro e por vezes mórbido do apresentador determina que ele não agradará a todos e terá alguns problemas em Portugal (como teve). Mas a meu ver, é simplesmente certeiro e mordaz. À moda de um Frankie Boyle, quase.

sábado, 14 de julho de 2012

Igualdade de género em Manchester

No meu mestrado, não tive a oportunidade de defender a minha dissertação em prova pública. O facto de terem sido apenas dez mil palavras, em vez das normais trinta mil em Portugal, deve ter sido tomado em consideração pelos ingleses quando decidiram que nas suas universidades apenas doutoramentos merecem esse trabalho.

Quando descobri, há cerca de ano e meio, que não ia enfrentar um painel de avaliadores, fez muito para desfazer os meus pânicos e incertezas quanto à minha capacidade de completar uma dissertação de mestrado. Foi como se tivessem tirado um peso do peito. Mas quando comecei a investigar a sério para a dita-cuja e a escrever, a amar realmente o que fazia, e a entusiasmar-me com o que ia descobrindo e com as páginas que, pouco a pouco, ia preenchendo com uma modesta mas original contribuição para a compreensão do que é a igualdade de género na Europa, comecei a ter pena. Ter pena de não me ser dada a oportunidade de preparar uma apresentação oral, de explicar as minhas conclusões perante um painel de avaliadores e qualquer outra pessoa que quisesse assistir, de por os meus argumentos à prova perante possíveis perguntas dos júris. Seria nervoseira da certa, semelhante à que borbulha no meu estômago enquanto espero a minha vez no consultório do dentista, ou que a enfermeira chame o meu nome para tirar sangue. Mas a seguir, sei-o, seria a explosão de adrenalina característica de quando se faz o que era esperado de nós e se conquista um dos nossos medos.

Pois agora, cerca de um ano após ter começado a escrever a dissertação, consegui essa oportunidade de ver estrelinhas e não conseguir manter nada no estômago mais descarga de adrenalina meia hora depois. Numa qualquer sala em Manchester, vou pela primeira vez partilhar o meu trabalho de vários meses com uma (espero) pequena audiência. Intitulada qualquer coisa como "A face humana da legislação da UE: humana o suficiente?", esta vai ser a minha primeira conferência como oradora. 

Neste momento no meu sofá e computador voltam a versar licenças de maternidade, legislação da UE e igualdade de oportunidades. E eu voltei a ler a minha tese, sublinhá-la, sempre com o olhar impiedoso e extremamente auto-crítico de alguém que sente que, um ano depois, teria feito algumas coisas diferentes. Mas estou muito feliz. Feliz porque vou ter a oportunidade de ver como me dou nestas andanças académicas sem ser como aluna, feliz porque tenho cada vez mais a certeza que é a igualdade de género que realmente me estimula o intelecto e a paixão, feliz porque vou voltar a território britânico e a ter libras na carteira mais uma vez. Ainda que seja só por dois dias.

As borboletas vão-me assaltar duplamente o estômago já na quinta-feira, uma vez que além da apresentação voltarei a andar de avião, coisa que desgosto cada vez mais. Mas sei que não se compararão à sensação de "missão cumprida" logo a seguir, que espero ser justamente merecida.






S.   

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Encomendas, autocarros e tudo o que fica pelo meio

A Bélgica tem o sistema de correios mais aleatório com que já lidei. A sério.

As cartas escapam a esta observação, já que aí ainda não tive problemas de maior. Mas no que toca a encomendas, há que fazer um esforço grande para não desatar a arrancar cabelos.

Quatro encomendas que já recebi aqui, todas vindas de Portugal. Os correios belgas conseguiram a proeza de dar quatro destinos diferentes a essas encomendas. Da primeira vez, chegou o carteiro e, como não estava ninguém em casa, deixou o normal papelinho para ir levantar aos correios mais próximos. Sim, senhora. O facto de os correios aqui, tal como em Londres, estarem abertos ao sábado, facilita muito as coisas para pessoas que tem um horário das 9h às 17h (no meu caso é das 8h30 às 17h30 mas vai dar ao mesmo).

Da segunda vez, Jesus! Tentaram entregar em casa, falharam, fui obrigada a telefonar para a DHL. "Ah e tal, a senhora vai ter que vir buscar aos nossos armazéns." Que ficam SÓ A UMA HORA DO CENTRO DE BRUXELAS. Senão larga 30 euros e já te vão entregar a casa. Comecei a mal-dizer a hora em que fui na cantiga da Wook e dos portes internacionais grátis...

Da terceira vez, DHL novamente, mas com mais sofisticação. Tentam entregar, falham, enviam mensagem e e-mail a avisar para telefonar e agendar nova entrega. Assim que a carrinha da DHL parou em frente à nossa janela no dia combinado, já estava eu à porta para receber a encomenda. O estafeta olhou-me com o respeito devido a alguém que possui poderes telepáticos e eu respirei de alívio por me entregarem em mãos uma coisa pela qual paguei dez euros de portes.

Quarta vez: recebo novo papelinho para ir levantar aos correios a encomenda cuja entrega - surpresa! - falhou, mas qual não é o meu espanto quando olho a morada e não era o mesmo posto de correios da primeira encomenda. Suspiro gigante. Vejo o caminho no Google, mas porque envolvia autocarros, perdi-me, andei às voltas durante uma hora, lá cheguei à rua certa, suspiro gigante, desta vez de alívio. Qual não é o meu espanto quando descubro que o posto de correios não era um posto de correios mas uma comum papelaria onde carteiros vão meter encomendas cujas entregas falharam. Eeeer... Tudo bem.

Mas voltando à segunda encomenda e aos armazéns da DHL. Como hoje tive tarde livre e já me tinha perdido durante a hora do almoço quando fui buscar a quarta encomenda, decidi aventurar-me e ir reclamar o que era meu. Vi o trajeto no Google maps, como é óbvio, e fiquei surpresa por ver que só precisava de apanhar um tram e um autocarro e que não havia transferências. Ou seja, nada de ter que andar para a rua seguinte ou procurar armazéns um bocadinho mais à frente porque era tudo muito certinho: chegar, trocar, chegar, porta dos armazéns a 40 metros. Aponto na mesma os nomes das paragens, direções dos transportes a tomar e números. O que é que podia correr mal, certo?

Basicamente, tudo o que podia correr mal, correu. Começou logo nos tempos de espera de tram e autocarro, que esqueço-me que não tem a regularidade de um metro, com o bónus de este autocarro ser suburbano e portanto apenas de quarenta em quarenta minutos. Não tinha aqueles painéis jeitosos a dizer quais as paragens seguintes, nem uma voz a avisar "próxima estação: X". Comecei logo a panicar. Sabia que eram cerca de 16 paragens até ao destino, mas ele não pára em todas e portanto a partir da terceira ou quarta já não fazia ideia quantas tinham ficado para trás. "Pergunto ao condutor? Não pergunto?", a viagem toda com esta pergunta a moer-me a consciência. Começámos a entrar numa terra que tinha o nome precisamente da paragem onde eu tinha que parar, mas os nomes que lia de relance nas paragens não se aproximavam do tal. Foi só quando vi uma grande placa com BRUXELLES - BRUSSEL e um risco vermelho por cima, e quando tudo de repente aparece escrito em flamengo, é que eu começo realmente a panicar e decido-me a ir perguntar ao motorista se faltava muito para Diegem. O ar de "pffuuuu!..." dele não me descansou. Estávamos a cinco quilómetros, mas porque já tínhamos passado! De notar que estávamos perto do aeroporto, aqueles locais de ninguém com vias-rápidas largas e cheios de armazéns de carga (e nenhum o da DHL, porra!) que tornam a perspetiva de ter que esperar mais meia hora pelo autocarro de volta e chegar a casa de mãos a abanar nada atrativa. O senhor lá foi muito simpático e disse o que eu tinha que fazer: sair, apanhar autocarro até ao aeroporto e lá esperar pelo 272 que me levaria perto do armazém.

Saio, espero, chega o autocarro para o aeroporto. Entro e pergunto se vai para o aeroporto já que dizia:  Zaventem - Vertrek (que agora sei querer dizer "Partidas e Chegadas"). "Isjngfisuengucht", "Pardon?", "Isjngfisuengucht", volta o motorista a dizer, com um aceno afirmativo da cabeça. Ainda pensei "Epá, este senhor tem um francês mesmo cerrado..." Qual francês! Estava a falar comigo em neerlandês! E acho mesmo que levou a mal eu me dirigir a ele em na língua da Valónia... Única passageira. Só me ocorre um "Isto 'tá bonito..." Só quando começo a ver aviões baixinhos e tabuletas a indicar o aeroporto é que me permito respirar um bocadinho.

No aeroporto, só pensava em voltar para casa. Já tinham passado mais de duas horas, já devia estar a voltar, segundo as contas do Google, mas em vez disso estava ali, com indicações obsoletas num papel, sem fazer ideia onde era o armazém, apenas com a indicação do número de um autocarro, sem fazer ideia de como depois ía voltar (não me apetecia voltar outra vez para o aeroporto; seria pelo menos mais uma hora até casa) e rodeada de palavras escritas somente em neerlandês e de pessoas que olham com má cara quem lhes dirige uma palavra em francês e insistem em continuar palavreado na mesma língua. Eu sei que eu é que estou no país deles, eu que me lixe. Mas é assustador ir-se no mesmo autocarro, passar-se um sinal com BRUXELAS e risco por cima e parecer que se está noutro país porque a língua francesa sumiu. Tive mais 40 minutos para matutar sobre isto.

Finalmente, o 272. Desta vez, de morada do maldito armazém em punho, decidi não cair no mesmo erro e perguntei logo ao início se aquele autocarro passava na DHL e onde tinha de parar. "Não sei.", foi a resposta (pediu-me se podia falar comigo em inglês. Oh meu amigo, faça favor! Menos esforço francófono aqui para a menina!) Ah, e tal, que não fazia ideia porque a DHL tinha inúmeros armazéns na zona circundante ao aeroporto, que a rua que estava no meu papel tinha vários quilómetros de comprimento e que ele não fazia ideia se passaria no número 151. Mas porque eu tinha perguntado uns minutos antes no autocarro errado pelos armazéns da DHL e a motorista indicou-me o autocarro correto e até a paragem lá perto, e quando eu disse o som da paragem houve reconhecimento da parte do motorista (a mim soou-me a "Cánádie", afinal era "Kennedy". Nem comento.) decidi arriscar. Mas o meu passe não dava porque já não estávamos em Bruxelas. Depois de muito rabuscar na mala, reparo que tinha deixado o porta-moedas em casa. A sério que quase desatei a chorar. Mas afinal os autocarros suburbanos belgas tem um sistema muito útil que dá para pagar bilhetes através de SMS, e por sorte uma das redes era precisamente a que eu uso. Ai, a sortezinha.

Lembro-me de ele dizer "Kennedy!" e de eu ser largada na paragem sem fazer ideia nem de onde estava nem onde poderiam ser os armazéns da DHL. A esta altura já eu respirava fundo, conscientemente, numa tentativa de me acalmar: "Sossega, S., o pior que pode acontecer é teres de voltar para a paragem, esperar mais 40 minutos e fazer o caminho inverso até ao aeroporto, relaxa, no máximo daqui a três horas estás em casa."

Quando chego à tal rua com muitos quilómetros e assim que vejo que o armazém em frente era o 141 (o meu papel indicava que a DHL ficava situada no 151), quase desatei num pranto. A correr tenho a certeza que desatei. Largo todo o ar que tinha nos pulmões e vou finalmente buscar os tão inatingíveis livros.

Por um acaso qualquer ou instinto ou que seja, apanhei um autocarro diferente de volta a Bruxelas. Descobri que este é que era o certo. E que me levou exatamente até onde tinha que apanhar o tram para casa.

Conclusão: Não volto a confiar no Google.

Conclusão 2: Vou parar de andar de autocarro. A sério. Já começa a ser ridículo.








S.   

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Ele há coisas.. #20

Já cá fazia falta a observação aleatória. Desta vez, um desenho em tamanho real:




A eterna menina estudiosa que só liga aos livros e descura a depilação e demais embelezamentos hahahaha, olha parece eu!. :D



S.