terça-feira, 31 de julho de 2012

Sobre o Kobo

Agora que passou um mês e meio desde a sua compra bastante ansiada e atribulada q.b., está na altura de fazer uma review sobre o meu e-reader Kobo. No fundo, dizer o que gosto e o que me aborrece neste novo mundo dos livros digitais.

Posso dizer que quando fui a Manchester, roí-me toda de inveja por ver que aquela gente tem Kindles à sua disposição para compra por tudo o que é loja de eletrónica. Porquê, oh porquê que eu não aproveitei quando lá vivia...! Mas a minha inveja tornou-se em sobranceria quando reparei que, lado a lado com Kindles estão Kobos, e que estes lhes custam para cima de 150 libras, e eu comprei o meu por 99 euros. Toma lá.

Duas coisas fazem-me preferir o Kobo ao Kindle: o ecrã tátil do primeiro, e o facto de não estar escravo da Amazon (ou no caso do Kobo, nem da Fnac que é a sua loja-mãe). O facto de eu poder virar páginas com um toquezinho do dedo torna a experiência de leitura muito mais intuitiva do que se o fizesse num botão. Mas o mais agradável é poder tocar numa palavra qualquer de um livro e ver instantaneamente o seu significado. Mas já lá vamos a esta última.

Toca a dividir isto por temas, para se tornar um guia útil para alguém que esteja a pesar prós e contras quanto a aquisição de um destes meninos:


Vantagens em relação aos livros de papel:

- o peso e a finura: consigo facilmente ler no Kobo com uma só mão a segurá-lo, não preciso de estar a forçar com as duas mãos para ler no meio dos livros ou segurar páginas, e apoio-o facilmente no colo ou nos joelhos. Resumindo: dá mais jeito para se segurar enquanto se lê;

- o armazenamento: acho mesmo que este deve ser uma das, se não a maior vantagem destes aparelhos. Mas tem o valor que lhe quisermos dar. Para mim, que abomino ter coisas, fisicamente, coisas que ocupam espaço em casa e em malas quando se muda de casa, é perfeito. Diria que 95% dos livros que leio não lhes mexo novamente; então para quê tê-los a ganhar pó em casa? Grande, grande ponto a favor. Não faço ideia quantos consegue armazenar - depende do tamanho dos mesmos - mas centenas cabem ali à vontade. A página principal mostra sempre os cinco últimos livros em que mexemos, portanto não há o perigo de nos perdermos na imensidão da biblioteca digital;

- o dicionário: o inglês, por razões profissionais, académicas e mesmo de interesse pessoal, substituiu há alguns anos o português no top das línguas em que mais leio. É uma coisa que tento contrariar conscientemente, e há autores portugueses que amo de paixão, como Saramago e os romances históricos da Stilwell, mas os meus interesses literários são muitas vezes anglófonos. E recuso-me terminantemente a ler traduções quando consigo ler o original. Isto tudo para dizer que é frequente aparecerem palavras cujo significado seja mais dúbio, e que compreenda o que o autor quer dizer, mas que quero saber exatamente como e onde se utilizam. Num livro normal, estas são palavras que nunca na vida me ia dar ao trabalho de procurar no dicionário ou no Google. Mas o Kobo tem uma maravilha de aplicação que é um dicionário incorporado: está-se a ler um livro, toca-se numa palavra durante dois segundos e puf, aparece a definição da mesma. Útil, útil, útil.

- a instantaneadade (?): ter o livro na hora, no fundo. Apetece-me ler uma obra qualquer, pesquiso-a no Google para ver se há em formato livre, procuro na Amazon para saber se vale a pena comprar. Se valer, pago-a e tenho-a no meu computador para descarregar na hora. Nada de esperar alguns dias até chegar pelo correio, e potencialmente ir levantar a encomenda ao posto de correios mais próximo (ou não) até poder ler o dito cujo;

- clássicos gratuitos: literatura da boa, incluindo praticamente todas as obras mais aclamadas desta arte, estão disponíveis online para download grátis. Acho que tem qualquer coisa que ver com o direitos de autor expirados ou assim (os do Saramago não se encontra, por exemplo), e isto tem me feito experimentar ler coisas que, se tivesse que investir numa compra, não o teria feito. 



Coisas que me aborrecem no Kobo

- o dicionário: não é o dicionário em si, é mais a falta de dicionários que não seja o inglês. No outro dia estava a tentar ler um livro em francês e tinha-me dado muito mais jeito o dicionário incorporado que me conseguisse dar as definições de palavras na língua francófona. Fui à net pesquisei e descobri que há muita gente chateada como eu, e que, ah e tal, os fabricantes do Kobo estão a trabalhar para arranjar dicionários em mais línguas brevemente. Fiquei levemente frustrada por ver as minhas tentativas de melhoramento do meu francês saírem furadas;

- o preço dos e-livros: é inexplicável e completamente ridículo que um livro que esteja para sair na Amazon tenha um preço duas libras mais caro na sua versão eletrónica no que na sua versão capa-mole. Ridículo! Um livro eletrónico não gasta papel, não tem que ser transportado, não tem custos de impressão. Não tem custos de nada, diria! Apenas os da propriedade intelectual. Mas esses também o livro de capa-mole tem. Ainda há um caminho a percorrer nisto dos livros eletrónicos e cartéis para demolir (a UE já lhe cheirou a price-fixing ilegal, é favor castigar essa gente, que eu quero livros eletrónicos a preços justos). Até lá vai-se sendo compensado pelos clássicos grátis;

- fraca disponibilidade em português: pois é, o mercados dos livros eletrónicos em português está ainda na sua infância. Isto faz com que poucos sejam os que consigo encontrar, mesmo comprando, em formato digital. O que significa que ainda não pude abdicar do papel completamente.



Coisas que, não me aborrecendo, podem aborrecer outrém

- a fácil maleabilidade: o facto de podermos ter num só aparelhinho centenas de livros significa que é mais fácil saltar entre uns e outros e não haver focagem. Dei por mim a desistir de dois livros porque simplesmente não me estavam a prender a atenção nem a suscitar curiosidade e a partir para outro. Uma vez que não gastei dinheiro nos mesmos, nem me ocupam espaço numa prateleira, nem tive que esperar por eles, faz com que tenha muito menos pachorra e espírito de sacrifício na sua leitura. Também pode acontecer a pessoa não querer largar de todo o livro que está a ler, mas ter a curiosidade de começar outro simultaneamente. Para quem se distrai com facilidade, o Kobo pode não ser uma coisa boa.


Outros

- o Kobo tem uma funcionalidade que é a de sublinhar coisas. Com o dedo dá para arrastar uma espécie de marcador sobre a frase que se quer e guardar esse sublinhado. Dá jeito;

- este e-reader não é de todo uma espécie de computador (como eu temia), que demora algum tempo a ligar. É mais comparável a um telemóvel ou a um iPad. Tem um botãozinho em cima que se desloca e nos dá imediatamente a página do livro onde estávamos a ler. Mesmo que se troque entre livros, o Kobo guarda sempre a última página onde se esteve, o que também é útil.

- já li num parque, com luz do meio-dia, já li em casa, já li na cama com luz fraca. Não parece que estou a ler num ecrã, a luminosidade é sempre a mesma e equivalente a uma folha de papel. Bem diferente de ler num computador ou num iPad.


Acho que é isto. Espero ter ajudado a esclarecer alguém que esteja em dúvida quanto a comprar um e-reader. Na minha opinião, valem muito a pena. Noto que tenho lido mais pela conveniência que o Kobo me traz (ainda que não tanto como gostaria, mas o coitado não tem culpa das minhas deambulações internautas) e isso para mim é a prova mais óbvia de que ele me é útil.





S.

Meu interregno mês de agosto

É surpreendente o quão bem me adaptei à rotina nova que será a minha pelo menos durante o mês de agosto. 

Desconfio que o grande responsável tem sido o ginásio, que me dá um propósito para me levantar, sair de casa, e de ter metas a alcançar. Com os Jogos Olímpicos a passar nas múltiplas televisões de lá, é fácil uma pessoa ser encorajada a pedalar mais um minuto, ou a mexer-se com mais vigor na elíptica. Ainda no outro dia estava eu a caminhar na passadeira quando começa aquele desporto das cambalhotas e pinos e mortais no tapete. Eu olhava fascinada o que o corpo humano consegue fazer, a força com que os braços daqueles atletas os sustentavam de cabeça para baixo e tal só me deu mais vontade de acelerar o passo e melhorar a minha própria resistência.

Fico contente por me aperceber que a minha forma física está razoável, e que faço com menos esforço o que fazia da última vez que frequentei um ginásio (há quanto tempo foi isto, senhores!). Sei que devo isto às caminhadas diárias de quatro quilómetros entre trabalho e casa que fiz durante estes últimos cinco meses, e portanto posso dizer com convicção que funcionou a minha estratégia de poupança financeira em passes + exercício gratuito.

Mais uma vez dou graças por morar a 300 metros do ginásio, 100 de dois supermercados (o que significa que tenho baguettes frescas todas as manhãs), a um quilómetro do Lidl, a 100 metros de uma lavandaria, a 700 de uma zona de lojas e a 600 de uns correios. O que se torna bastante conveniente porque agora, sem a desculpa do emprego, tenho de tomar a minha parte do trabalho doméstico que eu tanto adoro. Se bem que, quando uma pessoa tem todo o tempo do mundo, ele até nem é tão mau.  

Continuo entretida a editar a revista online que tantas dores de cabeça quantos sentimentos de dever cumprido já me deu (Next Europe, que um bocadinho de publicidade nunca fez mal a ninguém), a entrevistar o pessoal empreendedor (idem) e a candidatar com força para vagas de emprego, enquanto penso no que quero fazer da vida a curto-prazo (ahem, doutoramento?). Nada disto é pago, mas note-se que eu pertenço à geração dos escravos bem-qualificados, portanto até aqui nada de extraordinário.

Estou a encarar o mês de agosto como um mês de férias - ao invés de desemprego, que é o que ele é na verdade (sem bem que, pode-se ser desempregado sem nunca ter tido um emprego a sério?) - e a permitir-me saboreá-lo, ainda que seja um agosto sem sol e sem temperaturas acima dos 20 graus nem migrações soalheiras à vista. Pode bem ser o último mês completo de férias que gozo em 40 anos. Por isso o melhor mesmo é aproveitá-lo.




S.

 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O significado de "Norte" em "Mar do Norte"

A verdade é que já suspeitava que isto pudesse acontecer. A mudança da onda de calor para os normais 19 de máxima estava demasiado perto para me deixar acreditar que a costa estaria realmente soalheira. Mas uma pessoa fica triste à mesma, claro está.

Vem o suspiro do lado, o pingo de chuva no lombo ainda descoberto, a aragem que sopra do Mar do Norte (sendo que aqui a palavra-chave é mesmo Norte), eu que inalo continuamente o meu Vicks porque me constipei quando faziam 30 graus em Bruxelas, a frustração em forma de riso-grito, os entre-olhares cheios de "eu já sabia", a desilusão espelhada na cara do outro, o conformar e o arrumar de toalhas e o encaminhamento para a estação e o comboio que nos levará de volta.

Mas depois um de nós exclama "Ah, que belo dia de praia!", entre-olhares sabedores novamente, desatamos a rir a bandeiras despregadas - porque, sinceramente, o que se pode fazer mais para além de rir? - e começamos, entre risos, a ter genuína pena de quem espera um ano inteiro para ir passar férias de uma ou duas semanas naquela terra e não poder sequer tirar a t-shirt nem sentir o sol na pele, e, entre suspiros meio a sério meio a brincar, afirmas que lá para outubro estás com uma depressão em cima porque não apanhaste sol como deve ser um único dia no verão, mas que ficas muito feliz por mim por eu estar bem, já que sou a pessoa europeia do sul mais avessa ao sol e calor que conheces, uma vez que, não obstante Bruxelas ser o que é, só nos levo é mais para norte, incluindo Manchesters e Oostendes e sonho com viagens à Escócia e a Londres em vez de Marselhas ou mesmo Lisboas e Faros. E eu rio - porque, sinceramente, o que posso fazer mais além de rir? -, e rio, rio, rio por um momento quase à beira da loucura, porque andámos a ansiar este dia de praia toda a semana (todo o verão?) e chegou-se ali e foi o que se viu, e pagámos pela viagem, e demorámos duas horas a chegar, e fomos comprar toalha, fatos de banho e protetor solar (grande LOL neste último) quando podíamos ter era ido jantar à luz das velas ou mesmo gozado os 30 graus que se fizeram sentir hoje em Bruxelas num parque qualquer. E continuo a rir porque sinceramente ainda bem que foi assim e que os planos saíram furados, e houve improviso e continuamos sem raio de sol a tocar-nos a pele, porque é destes grandes flops que nos lembraremos mais tarde, daqui a 7 anos, daqui a 17, daqui a 27, daqui a 37, daqui a 47, daqui a 57, daqui a 67, daqui a 77, e é esta a diferença entre os filmes maus e a vida: um mau dia de praia, o único deste verão e no nosso dia especial.

E rio ainda mais um bocado porque estou exatamente onde quero estar, no ponto da vida onde quero estar, com a única pessoa do mundo que queria ao meu lado, a visitar exatamente o que queremos visitar, com os exatos constrangimentos que se quer e as frustrações que fazem o que realmente interessa ter valor, e sem exatamente nada que eu quisesse mudar. Tal como este post, que está confuso e caótico como é devido da loucura que ainda sobra do falhanço deste dia, que falhou tão espetacularmente - e este é o meu ponto - como eu quero que muitos dos nossos dias falhem. Já que são deles que reza sempre a memória.




Na minha opinião, as fotos que marcaram o nosso dia.



S.    

Tempo belga: 1 - D.S.: 0

Chegámos à praia, uma hora depois começa a chuviscar. Acabei por ter de me vestir, casaco incluído.

...




É preciso dizer mais alguma coisa sobre o tempo belga?


S.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Corrida ao fato-de-banho

Bruxelas tem estado luminosa e quente como ainda nunca a tinha visto. Fora um ou dois dias em junho, o termómetro ainda não tinha passado a barreira dos 25 graus, sendo que tem insistido em manter-se abaixo dos 19. E a chuva de que já me queixei repetidamente. 

No entanto, parece que esta semana é para se manter nos 28-29. Não há uma nuvenzinha à vista, o céu está todo azul, o ar está quente e, há pouco, quando vi o termómetro de uma farmácia anunciar "30º" quase me deu um fanico. É uma alegria mal-contida, verdade seja dita. 

Ora, acontece que sexta-feira é um dia especial para os pombinhos aqui d'Ixelles (o aniversário número sete tem uma mística qualquer, é um número bonito, ainda que nada redondinho) e tenho andado a olhar para os vários restaurantes aqui da zona com outra atenção. Um jantarzinho romântico à luz das velas, no único dia do ano em que me (nos) permito a extravagância verdadeira de jantar fora com pinta, parece-me muito bem. 

Pois, parecia-me! Os planos de aperaltamento, comida boa e refeição a meia-luz deram uma grande cambalhota quando uma única palavra começou a invadir a mente de ambos, não deixando espaço para mais nada: PRAIA. Eu. Quero. PRAIA. Uma porção de água para banhar.

Timidamente consultámos o meteo.be, ontem, novamente hoje (e consultaremos novamente amanhã) para certificarmo-nos que o pedacinho de costa belga continua com previsões de temperaturas a rondar os 25. Confirma-se. Os dedos não estão cruzados em figas mas a esperança está cá de que este tempo continue até sexta. Só até sexta, vá lá! Porque sabe-se que isto é sol de pouca dura, literalmente, e, de facto, no sábado já preveem chuva e máximas de 18-19.

Mas porque, tal como em Londres, nunca me passou pela cabeça enfiar fatos de banho ou toalhas de praia na mala, coisas remotamente balneares é algo que não mora nesta casa. De maneiras que tivemos que dar um saltinho aos saldos e agarrar os primeiros fato-de-banho (sim, pela primeira vez em 15 anos, rendi-me a um fato-de-banho) e calções de praia que se arranjou. E o protetor solar mais elevado que conseguimos achar, porque isto de não fazer praia há dois verões habitua mal a pele alva destes dois senhores (ou habitua bem, consoante a perspetiva).

Por isso, estamos aqui numa de alguma expectativa e a pedir a todas as partículas de Higgs (são de Deus, deve dar) que o tempo belga colabore só mais dois diazinhos, que depois pode chover tudo o que lhe apetecer (e considerando que não chove há 3 dias, tenho medo do que aí virá).


... a quantidade de pára-ventos não me está a inspirar muita confiança...



S.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Apenas moderadamente melancólica, vá

O que impede a melancolia de se instalar é o facto de estarem 26 graus lá fora. Quem é que se pode dar ao luxo de estar triste num dia assim - que, como bem se sabe, deve ser irrepetível em 2012?

 Agora é aproveitar o facto de poder andar de pernas e braços destapados e absorver Vitamina D como se não houvesse amanhã. Porque provavelmente, soalheiro, não haverá.





S.

Vou ali, já venho, PE

Hoje é o meu último dia.

Daqui a pouco vou entregar o relatório de estágio e não me apetece. E vou ter que arrumar a secretária e também não me apetece. Mandar papéis fora, devolver canetas, arrumar os saquinhos de chá que entretanto sobraram, lavar a caneca, apagar as minhas pastas deste computador.

Últimos dias são sempre merdosos. Especialmente quando se parte para umas férias indefinidamente longas.

Mas estou confiante. Consegui que a minha supervisora me desse um abraço de despedida, o que, sendo ela alemã, considero um feito e acho que era coisa que devia constar no meu CV ou assim.







S.

domingo, 22 de julho de 2012

As mal-disfarçadas saudades de Inglaterra

Diz muito sobre a cidade onde vivo o facto de chegar a um pub inglês e salivar por tudo o que encontro na ementa, incluindo quando me apresentam isto:


Os preços - tudo abaixo das cinco libras e portanto metade do normal aqui em Bruxelas para qualquer refeição fora - quase acrescentaram lágrimas de felicidade aos pensamentos de vegetable and chicken pies, English breakfasts, seafood paellas, e outras bombas calóricas semelhantes.

E água engarrafada que não sabe a água da torneira.

E carros a circular pela esquerda.

E libras e pennies na carteira.

E sotaque cerrado Manchurian.

E adaptadores para tomadas novamente precisos (mas que ficaram em casa).

E chá servido com leite.

E Boots, Primarks, Tescos, Sainsburies, River Islands, Topshops, lojas da Disney, Debenhams...

E estações chamadas Piccadilly e Victoria.

E autocarros vermelhos de primeiro andar.

E maçanetas que rodam para a esquerda para abrir portas.

E chocolate quente do Costa.

E hotéis e pubs alcatifados até à entrada da casa de banho, onde dá para ir de pantufas até à receção.

E chuva e 14 graus de máxima em pleno julho, ansiando por um cachecol.

E uma viagem de regresso de céu incrivelmente limpo que me permitiu atravessar o Canal da Mancha e ver, pequeninas mas distinguíveis lá embaixo, as White Cliffs of Dover.

E saber, porque vi com estes dois que a terra há-de comer (adoro a expressão) quão perto estamos mas quão claramente separada a ilha está da Europa-mãe.



Inglaterra, como me fazias falta!



S.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O mundo louco da interpretação

Há muito tempo que me intrigavam os intérpretes simultâneos nas cabines das conferências. Foi um dos meus maiores maravilhamentos quando aqui cheguei: o facto de descobrir que o multilinguismo, no Parlamento Europeu, é uma realidade. E constatá-lo todas as vezes em que tinha conferências e reuniões de comissão para assistir.

Hoje, tive a oportunidade de experimentar como era. Numa espécie de palestra organizada pelo serviço de interpretação, e numa tentativa de atrair estagiários das instituições europeias para a carreira linguística, pudemos constatar que línguas mais fazem falta à UE (nativos eslovenos, malteses, romenos e búlgaros), que espécie de treino e educação é preciso obter para ingressar nessa carreira, e as gratificações e frustrações que se obtém quando se interpreta para ganhar a vida.

No final, veio a parte divertida: subir às cabines e fazermos nós próprios a interpretação de um discurso em inglês para a nossa língua nativa.


É... Esquisito. Estávamos três pessoas em cada cabine; ao meu lado tinha a minha amiga M. nativa de esloveno, e do outro lado um nativo de francês. Pusemos os auscultadores, ajeitámos o micro, e esperámos. Assim que o discurso começou ficámos uns 30 segundos sem reação: é suposto começarmos a debitar palavreado agora? Acho que estávamos envergonhados por começar a falar numa língua que nenhum dos outros compreendia e que, por estar ali mesmo ao lado, teria de ouvir. Mas assim que um de nós tomou coragem (não me lembro quem deu o primeiro passo, acho que eu não fui, ainda que estivesse mortinha por começar!), os outros foram atrás e em segundos, além de ouvir a minha voz em português e o discurso original em inglês, havia mais duas línguas faladas naquela cabine.

Falhei várias partes de frases, especialmente porque ao início esperava demasiado até começar a traduzir a frase para português; não se pode. Tem que se ir andando, num verdadeiro exercício de multi-tasking que consiste em ouvir, processar a informação, transformá-la em português, e dizê-la em voz alta. Isto tudo repetidamente, sem parar. 

A mulher da palestra tinha razão: aquilo dá uma adrenalina do caraças. Mesmo ali, a brincar e sem ninguém verdadeiramente a ouvir (com três pessoas a interpretar ao mesmo tempo por cabine torna-se impossível sintonizar num canal e apenas ouvir uma voz!), é um exercício de antecipação que cria um stress daqueles positivos. É como se um novelo estivesse a rolar pelo chão continuamente e nós a tentar apanhar a ponta, que continua a ser conduzida para fora do nosso alcance.

Primeiro estranha-se e depois entranha-se. É sem dúvida uma habilidade que se ganha e se treina. Ao início eu não conseguia acabar as frases mas no segundo ou terceiro discurso já conseguia deixar pouco por traduzir. Fiquei desiludida porque pensava que também conseguia traduzir do francês, por ser tão semelhante a estrutura gramatical e as próprias palavras, mas a minha compreensão auditiva francesa ainda não é ágil e rápida o suficiente para conseguir interpretar simultaneamente para português (no discurso alemão, também não, mas nem sequer tentei). Ainda assim, foi uma experiência única e muito divertida.

Fui-me informar sobre as condições que eles exigem aos portugueses nativos - já que o número de línguas pedido a um candidato depende da sua proveniência linguística e do facto de haver muitos ou poucos candidatos dessa língua. Parece que ficam contentes com duas línguas, sendo que uma delas tem que ser o inglês ou o alemão, e a outra uma qualquer das 23 oficiais (em breve 24, com o croata). O curso recomendado é o da FLUL, de interpretação, que dura um ano. Namorei alguns minutos a ideia de me por nesta aventura... Mas depois deixei-me disso: teria que voltar para Portugal durante um ano, para estudar, e além disso temo não ter personalidade para isto. É preciso ter capacidades comunicativas orais altamente desenvolvidas. Eu é mais escrever, tenho pena.



S.


domingo, 15 de julho de 2012

O guia xenófobo sobre os portugueses #2

Como disse no último post sobre o fantástico livrinho xenófobo, é verdade que o autor afirma várias coisas sobre os portugueses que eu não faço ideia onde foi buscar. Mas por isso mesmo vou partilhá-las; pode ser o meu conhecimento sobre os meus compatriotas que tem lacunas.

"Algumas lojas portuguesas ainda fecham para almoço e embrulham as nossas compras em papel e fio."

?? Não faço ideia onde este senhor inglês andou às compras aquando da sua pesquisa para o livro, mas o facto é que eu não me lembro, em toda a minha vida, de ter comprado alguma coisas e trazê-la embrulhada em papel e enrolada com um cordel. Inclusive, tenho vívidas memórias de infância da loja onde a minha mãe trabalhou durante anos e nunca a vi fazer isso. E nós vivíamos numa aldeia.

Outra:

"Em 1974, quando o exército português se rebelou contra as ordens do regime para subjugar os movimentos de independência nas colónias portuguesas, a música do cantor de folk e fado José "Zeca" Afonso foi o despoletador do que ficou conhecido como a "Revolução dos Cravos" ..."

O Zeca Afonso foi um fadista?? Sinceramente nunca me apercebi. Mas isto posso ser só eu...

Mas o que realmente mereceu um esgar de outraje da minha parte foi o seguinte:

"Apoiar uma equipa de futebol em Portugal é um assunto complexo. Se fores de Coimbra, serás com certeza um apoiante do Académica. A não ser quando o Benfica joga contra a Académica, pois nesse caso torcerás pelo Benfica. Ou podes ser apoiante da outra equipa mais operária de Lisboa, o Sporting."

Equipa operária?!?!?! Mas que confusões vem a ser estas?!?!?! A equipa operária da capital é o Benfica; que eu saiba o Sporting nasceu precisamente como equipa da elite! Aliás, não faltam entre nós portugueses as piadinhas entre a origem social de quem apoia as duas equipas. Ainda que hoje em dia já não haja a correlação entre equipa e classe social, é completamente errado afirmar que o Sporting é a "equipa mais operária" da capital. 

Enfim, deixo aqui provas empíricas para suportarem o meu argumento:






Como diz o Raminhos, no fundo vai tudo dar ao mesmo. ;)



S.


P.S. Já agora, os programas do Rui Sinel de Cordes, Gente da minha terra, e Gente da minha terra - Europa, são praticamente versões em vídeo destes guias xenófobos sobre diferentes nacionalidades e regiões do nosso país. Garantido, o humor negro e por vezes mórbido do apresentador determina que ele não agradará a todos e terá alguns problemas em Portugal (como teve). Mas a meu ver, é simplesmente certeiro e mordaz. À moda de um Frankie Boyle, quase.