sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Tenham um bom Natal

Mais de três meses antes, encontramo-nos a pesquisar viagens de Natal, na esperança de não nos tornarmos pelintras apenas pelo nosso desejo de passar as festividades com a família. 

Sinto-me um bocado ridícula, estar a pensar em prendas e árvores de Natal no último dia de verão.




... Só não me sinto mais ridícula porque aqui já está frio e já se usa cachecol. 

S.

domingo, 16 de setembro de 2012

Bruxelas sem carros

Hoje foi o Domingo Sem Carros aqui em Bruxelas. Um dia espantoso de sol e calor fez com que milhares de pessoas saíssem às ruas e tornassem a cidade em algo que eu ainda nunca tinha visto.


À hora do almoço, quando vinha do ginásio, reparei que a praça do Châtelain estava transformada num mercado de coisas em segunda mão. Fui a casa devorar o comerzinho e voltei ali para dar a atenção merecida às bancas de roupa, livros, sapatos, brinquedos, acessórios para a casa e etc.


Nem às quartas-feiras, dia de mercado de legumes e frutas, eu havia alguma vez visto tanta gente! Ainda trouxe algumas peças para casa, a preços de chorar por mais.

Resolvi depois deambular mais um bocado pela cidade para experimentá-la sem o barulho infernal do trânsito e sem a preocupação da segurança rodoviária. Sabia que no centro havia vários eventos e portanto lá fui eu até à Grand Place.

Entretanto fiquei sem bateria na máquina fotográfica, de maneira que as próximas fotos são roubadas ao Google. Mas fazem jus ao que vi hoje.


Aqui, no Mont des Arts, uma das vistas mais bonitas sobre a cidade, completamente livre de carros (o que vem lá atrás é um táxi. Hoje os transportes públicos não foram impedidos de circular, e os táxis idem)



A praça em frente ao Palácio Real



Piqueniques em frente à Bolsa



Uma das avenidas mais movimentadas da cidade, frente ao Parc Cinquantenaire, completamente irreconhecível



De notar que a quantidade de ciclistas na rua foi brutal, e Bruxelas fez-me lembrar Amesterdão. E tal como em Amesterdão, há cagaços com bicicletas que fazem travagens bruscas mesmo em cima de nós ou que se desviam no último centímetro. Mas pronto, faz parte, e mais vale levar com uma bicicleta desgovernada do que com um carro...

Para casa vim um pedaço de bicicleta, para completar a minha experiência do Domingo Sem Carros. 

É realmente pena ser apenas um dia por ano. A cidade ganha um ar completamente diferente - literalmente - e as pessoas ganham uma qualidade de vida incomparável. Só o facto de não se ouvir motores de carros é mindblowing... E o mais estranho foi que eu apenas reparei que não se ouvia nenhum carro quando, de vez em quando, passava algum autocarro. Aí é que eu pensava para mim "Realmente, está aqui um silêncio esquisito..." Bem-vinda ao futuro! (esperemos que ele se pareça com isto)



S.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Preparava-me para desancar na burocracia portuguesa mas depois saiu-me isto

Parece que agora sou uma contribuinte belga e, portanto, estes primeiros dias da rentrée tem sido passados a tentar encaixar tudo o que é inscrição nisto e naquilo para me tornar oficialmente parte do sistema. 

Primeiro foi a inscrição na comuna, já bastante atrasada, mas só agora com sentido para nós. O sistema varia consoante a comuna, e no caso de Ixelles é bem esquisito. Há que telefonar para um determinado número entre as 8h e as 10h da manhã (que raio de horário é este...?), dar nome (mais um bocadinho de soletramento), nacionalidade, morada, data de nascimento. E... pronto. Depois a polícia vem cá verificar o nome na campainha e caixa do correio (???? e apanhar criminosos, não?) e deixa um papel com a data em que temos que ir à comuna entregar comprovativos de residência, identificação, fotos e mais não sei o quê. E o que é que isto nos dá direito? A votar nas europeias e nas locais e a pagar um imposto municipal anual (que felicidade :') ...). Deve estar quase...

Depois, foi o seguro de saúde. Ao que parece, na Bélgica, do ordenado é descontado uma percentagem para a segurança social mas para ter direito a ela é preciso filiar num seguro de saúde e pagar um extra. Segundo consta, é os seguros são todos a mesma coisa, e os serviços básicos cobertos, bem como a mensalidade, pouco variam. De maneira que foi um bocado um-dó-li-tá, a escolha.

Mas o passo que eu mais temia era a mudança de morada fiscal para aqui para a Bélgica. Quando comecei a pesquisar na net como se fazia, só encontrei histórias de terror de pessoas que tinham perdido horas e horas em repartições de finanças para lhes dizerem que era impossível, que tinham que manter a morada em Portugal e pagar impostos no país à beira mar plantado, ainda que não trabalhem nem residam lá, e um que tinha tido que recorrer ao parecer do tribunal europeu para provar aos gajos das finanças que não, que cada cidadão paga imposto onde trabalha e vive. Parece mesmo que o Estado português foi multado pela União Europeia por ter instaurado a idiota figura do "representante legal junto das finanças" de todo o português que mude a sua morada fiscal para o estrangeiro. Que violava o princípio fundamental da livre circulação de pessoas e capital.

Eu comecei a suar suores frios e a preparar discursos e reclamações inflamadas caso me dissessem que tinha que pagar impostos em Portugal e aqui, preparada para invocar os santos princípios do espaço comum europeu, se me dissessem que não seria possível cortar esta raiz com as finanças portuguesas e chimpar dinheiro duplamente.

Como descobri rapidamente, não é possível alterar a morada no Portal das Finanças para o estrangeiro, devido à obrigação de meter lá um código postal português. Decidi então enviar e-mail às finanças, esperando o pior.

Passado um dia, responderam. Mas mais do que isso, disseram que eu podia alterar por e-mail. Era só enviar o meu NIF e a minha morada nova e o senhor alterava logo ali. ... O meu nariz estava mais torcido do que o rabo de um porco... "Só assim, e já está?! Naaah...". Passados quinze minutos de ter enviado os meus dados, recebo resposta a dizer que já estava. Torci o nariz ainda mais um bocadinho - "Será?!..." - impedindo-me de me iludir tão rapidamente.

Há pouco, consultei o Portal das Finanças e lá estava ela: Rue não-sei-quê-não-sei-quê, Bélgica. 

:O 

Não queria acreditar. Então e o outro senhor que teve que pedir o parecer ao tribunal, que teve que telefonar tanta vez zangado, e esperou não sei quantos anos pela alteração? Achei que estava perante o super-funcionário-público. Agradeci-lhe efusivamente, porque é profundamente aliviante quando as coisas burocráticas são feitas num estalar de dedos, e ver que no meio da tão vilipendiada administração pública portuguesa, há coisas que correm bem.



E agora vou bater na madeira porque ainda vou ter que me registar no consulado português, por isso nunca se sabe...



S.


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Para a frente é que se pedala

Depois de ter passado cinco meses a caminhar todos os dias para o trabalho, estava um bocado ansiosa sobre:

1º - se ia arranjar emprego;

2º - onde iria ser esse emprego e se poderia continuar a deslocar-me a pé.

Pensei sempre para comigo que iria ser sorte a mais conseguir um emprego a menos de meia hora de casa, como tinha sido o caso até aqui. E, de facto, não me enganei. A nova morada profissional não me era desconhecida - a rotunda de Schuman é o centro da colmeia dos eurocratas - mas de facto ficava a bem mais de meia hora de casa, num caminho não tão linear, e por isso foi com resignação que, na véspera do primeiro dia, lá estava eu a estudar o mapa dos transportes.

Depressa concluí, como já desconfiava, que não tinha transporte direto. Ou andava 500 metros para apanhar o metro e tinha que mudar de linha, ou andava uns 700 para apanhar um autocarro que, a somar ao meu azar rodoviário, consta que não são muito de confiar aqui em Bruxelas. Conclusão: mais de meia hora iria sempre gastar em commuting e uma parte deles seria a andar de qualquer das formas.

Na véspera do primeiro dia bati o pé e decidi que ia experimentar ir sustentada a perninhas apenas. "Só amanhã, para ver se custa muito ou não."

Deixei 45 minutos para a travessia e cheguei com quase dez minutos de antecedência. Alegria! :D Na primeira semana, fiz o caminho com entusiasmo, se bem que com mais custo por ser mais longe e ter subidas e descidas.

Entretanto, comecei a pensar "O que era mesmo fixe era eu ter um transporte que me levasse de casa ao trabalho, sem ter de esperar nem cumprir horários, e à minha inteira e única disponibilidade..." E comecei a namorar bicicletas.

Ora, Bruxelas tem um sistema muito catita de aluguer de biclas (semelhante ao de Londres, aliás) e que sempre me suscitou a curiosidade. Há uns dias, decidi investigar.


E o que descobri  deixou-me boquiaberta. Por uns míseros 32 euros anuais, uma pessoa usa estas bicicletas as vezes que quiser, a partir de onde e para onde quiser. A única regra é que cada viagem tem de durar menos de meia hora, caso contrário começa-se a pagar 50 cêntimos por cada excerto de tempo excedente.

Aquilo tem um sistema muito bom de se poder utilizar o passe urbano de transportes em vez de ter um diferente, e usá-lo para desbloquear a bicicleta que se quer utilizar.

No sábado, porque tinha uns recados para tratar e era pertinho, estreei-me neste transporte tão catita.

Foi um desastre, a estreia.

Estava nervosa, porque já não andava de bicicleta seguramente há mais de um ano, nunca andei no centro de uma cidade, e era uma experiência nova. Começou logo pelo facto de não saber mudar as mudanças daquilo (e ainda não sei... :/ ). A bicicleta estava no mais leve e eu comecei logo por uma descida. Depois, deu-se o facto de eu, simplesmente, nunca ter conduzido no meio do trânsito. Foi algo que me deixou muito nervosa, já que eu, por um lado não quero estorvar os carros, então vou muito perto do passeio ou dos carros estacionados, e por outro sinto-me um peão que vai a andar ali no meio da estrada feito maluco. São demasiados anos condicionada pelas regras do bem-circular na estrada enquanto peão...

A somar a isto, uma das estradas pelas quais tive que passar era de calçada e a bicicleta, por estar demasiado leve, ia-me cuspindo do assento. Quando uma das rodas entrou por um carril de tram dentro, perdi o controlo da bicicleta e tive que levar os pés ao chão para não bater no táxi do lado. De coraçãozinho a tremer, lá fiz o resto do caminho que faltava, depositei a bicicleta no seu parque, e saí dali quase a correr. "Como, oh meu deus, como vou eu adotar a bicicleta como meio de transporte se só em cinco minutos ia morrendo umas três vezes...!" (sou muito dramática e mariquinhas nestas experiências fora da minha zona de conforto. Que ainda por cima é muito estrita).

Mas no domingo, e porque andava com a pulga atrás da orelha sobre o Bois de la Cambre há meses, e aquilo era só ir pela avenida abaixo, sempre a direito e com espaço, lá me aventurei eu novamente em cima do selim. Isso e a minha extrema abjeção a desperdiçar dinheiro. "Pagaste 30 euros agora hás de andar todos os dias...

Já correu melhor. Encorajada pelos outros (muitos!) ciclistas que agora observo atentamente, comecei a ganhar a noção de que a bicicleta é tão transporte como o carro, e portanto não tenho que estar aflita se o carro passa por mim ou não; se tiver espaço suficiente, passa, se não tiver, que vá atrás de mim. Isto parece demasiado despreocupado mas é mesmo assim que no site do Villo aconselham a que os ciclistas façam. E como vejo sempre os outros ciclistas a fazer.

E o que é certo é que, agora que reparo com nova atenção, muitas ruas bruxelenses têm espaço para bicicletas (ainda que não possa dizer que na grande maioria dos casos seja uma verdadeira faixa. Mas que há espaço, há).



Posso dizer também que, pela parte que me toca, Bruxelas está bem servida destas estações de estacionamento de bicicletas. Tenho uma a 50 metros da porta de casa, outra a uns 200, e mais umas a distância a pé. Ao pé do trabalho, tenho também umas duas. Esta é uma possível desvantagem: estas bicicletas não me levam à porta dos sítios onde quero ir; sempre que se quer utilizar este serviço, há que pesquisar no mapa onde as há de onde se quer partir, e onde as há até onde se quer ir. E os meus olhos agora já ligaram radar no que toca a procurar o sinal circular laranja com a palavra Villo! escrita. 

Já me deparei com alguns contratempos:

- estação vazia hoje de manhã, quando queria estrear o caminho para o trabalho neste novo modo de transporte;

- ontem, agarrei numa bicicleta com o pneu furado (ainda comecei a andar e lá ia eu perdendo o controlo outra vez...);

- hoje, quando queria voltar, não conseguia destrancar a única bicicleta disponível naquela estação. Frustração transformou-se em energia nas patas (remédio!);

- as inclinações e ligeiras subidas dão cabo de mim, mesmo aquelas que não dão quando caminhava apenas. Em contrapartida, nas descidas estou no paraíso :D ("olha para mim tão rápida a chegar lá abaixo!");

- ainda não me sei colocar como deve ser no sinal vermelho... Aconselham a que nos posicionemos sempre à frente do primeiro carro, para sermos os primeiros a arrancar, e é isso que vejo os outros ciclistas a fazer. Mas muitas vezes não há espaço suficiente para navegar a bicicleta até lá, e não tenho ainda a confiança necessária para me embrenhar aos ziguezagues pela fila, como todos os outros ciclistas fazem. Em contrapartida, a minha sinalética dos braços é efusiva, porque quero que o carro que vai atrás de mim não tenha dúvida que eu vou virar à esquerda (às vezes quase me apetece gritar "EU VOU VIRAR À ESQUERDA, CUIDADO!");

- acho que vou ter que arranjar um capacete. Não é de todo obrigatório, coisa que me choca um bocado, pois aqui há mesmo muita gente a usar a bicicleta como meio de transporte principal, e por isso deve haver acidentes, mas é recomendável. Vou ter que tratar disso.

A minha grande ambição na vida neste momento é saber mudar as mudanças daquilo. Pego sempre em bicicletas que estão no "1", e não encontro o manípulo que costuma existir no lado direito da rodazinha das mudanças. Há que ganhar coragem e perguntar a alguém que esteja a alugar uma bicicleta na mesma altura que eu...



Basicamente, é isto. Ganhei um novo meio de transporte, disponível quando quero, movido a energia de S. e que me leva menos tempo do que se apanhasse metros ou autocarros. A prova final será quando começar a chuva e o frio...



S.


P.S. Por falar em bicicletas movidas a energia de S., ando completamente parva com o exercício todo que tenho feito, quase sem querer. Ele é ginásio dia sim dia não, caminhadas a pé de 40 minutos até ao trabalho, bicicleta... Acho que qualquer dia o meu corpo curto-circuita-se com tanto movimento saudável... "Eu não fui criado para isto!", temo eu que ele me diga um dia destes, e decida fazer greve. Enquanto esse dia não chega, nem a neve, já agora, há que aproveitar :) . 

domingo, 9 de setembro de 2012

Verdura Citadina - versão bruxelloise II

Esta crónica tem andado esquecida e sem razão; Bruxelas merece mais crédito do que lhe estou a dar relativamente a espaços verdes.

À primeira impressão, Bruxelas não é uma cidade que nos pareça particularmente verde ou com parques enormes e famosos, como Londres o é. Mas um olhar atento sobre um mapa da cidade revela logo que essa impressão é infundada; Bruxelas é rodeada por muito verde a norte, este e sul. E algumas zonas verdes podem ser descortinadas no centro da cidade.

Hoje, trago um desses grandes espaços verdes à baila: o Bois de la Cambre (ou, o Bosque da Curvatura).


Porque fica mesmo ao fundo da nossa artéria orientadora, a Avenue Louise, e porque calhou passarmos ali perto logo na primeira semana, há vários meses que andava com uma grande vontade de a explorar. Hoje, e porque Bruxelas nos anda a agraciar com dias maravilhosos, de céu limpo e calor (sim, calor do verdadeiro!), decidi que não esperava mais um dia.

Por isso, peguei numa bicicleta (depois explico) e lá fui eu avenida abaixo até à Cambre

Como me pareceu quando a vi de relance - e como o nome indica, já agora - aquilo é mesmo um bosque. Selvagem, com muitas árvores que nalgumas partes quase tapam a luz do sol, caminhos de terra batida e de uma enormidade desconcertante.





Eu... fui andando. Sem rumo certo, não me querendo afastar muito da parte por onde tinha entrado para não me perder, fui deixando os pés pisar a terra e os pulmões absorverem o ar fresco da floresta. Às tantas começo a pensar "Mas isto é só árvores?!", porque geralmente os parques têm grandes relvados onde as pessoas se sentam a ler, deitam a apanhar sol e deixam as crianças correr livres. Mas aqui, tudo isto demasiado selvagem, estava a começar a pensar que era exceção. Até que virei uma esquina:


Um grande morro relvado (ou "ervado") onde finalmente encontrei todas as pessoas que suspeitava estivessem a desfrutar daquele bosque. Tudo a gozar o sol que se teme que fuja não tarda muito, mas que está melhor agora do que durante junho, julho ou agosto. Sentei-me à sombra, a mirar o que se passava à volta, e a ler umas páginas do Kobo que havia levado comigo já nessa expectativa.

Entretanto alguém tinha atado uma enorme corda de um lado ao outro desta espécie de vale e ensaiava o truque de andar por cima do arame. 

Aqui está a corda mais pequena onde os mais inexperientes treinavam.


A verdade é que não consegui ficar muito tempo ali parada e decidi dar uma volta por outro lado, para ver melhor um arco que tinha visto de relance.



Pareceu-me algo bastante antigo... Com uma pontinha de esperança, pensei que pudesse ser romano. Na ausência de qualquer placa a indicar do que se tratava, fico com a minha imaginação.

É realmente um parque diferente do que estou habituada. Isto deve-se provavelmente ao facto de não ser um parque... mas sim um bosque. Gostei muito de o visitar mas teria gostado mais se tivesse chegado ao lago. Verduras citadinas que contêm água pelo meio ganham muitos pontos. Fica para a próxima.



S. 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Ele há coisas... #21

Em outubro, Bruxelas vai ter eleições comunais para se escolher o governo de cada comuna. Um bocadinho como as eleições municipais portuguesas.

A cidade anda cheia de posters com diferentes candidatos, que variam também de comuna para comuna. É muito útil para delinear onde começa e acaba cada uma destas porções territoriais, já que, como é óbvio, as fronteiras não são físicas.

O que é interessante saber é que eles permitem a todos os residentes registados na sua comuna votar, mesmo sendo estrangeiros. Nós seríamos eleitores em outubro se nos tivéssemos registado até dia 31 de julho. O que não foi o caso.

Ainda assim, é engraçado dar uma vista de olhos nos panfletos que todas as semanas nos chegam invariavelmente à caixa do correio. A semana passada, foi este:



Quando lhe peguei não percebi do que se tratava, e o facto de que era um dos candidatos a Ixelles não me passou logo pela cabeça. Mas a conversa do "votar" (vinda de um cão!...) garantiu-me que sim.

É deveras... Diferente. Temos, portanto, um aspirante a presidente da câmara com um cão ao colo, cão esse com ar extremamente aborrecido, que nos pede "Votem no nº 18, é o meu papá".

... Que dizer? Dizer que o senhor podia ter escolhido um cão mais fofinho, tipo o do papel higiénico, que se é para acarretar o conselho de um cão ao menos que se tenha a desculpa do "deixei-me levar pela emoção".

Uma coisa que me intriga: não sei porque é que o senhor insiste em esconder a cara. 


Cá está ele novamente, no reverso do panfleto, a correr com uma cambada de putos, mas de cara aos quadradinhos. Terá alguma coisa a esconder? É para o suspense? Será testemunha de algum crime manhoso? Tem vergonha da sua aparência? Tantas possibilidades...

Começo a achar que os belgas devem ter um sentido de humor a que eu não ando a dar o devido valor... Já os programas da TV belga, aqueles da tarde de encher chouriços, são sempre todos de comédia stand up ou concursos de improvisos (que apanho sempre que vou ao gym. É bom porque lá as televisões estão no mute e passam as legendas do que as pessoas estão a dizer, boa prática de francês). Este pode ser mais um exemplo desse humor que eles parecem tanto prezar.

Não deixa de ser estranho para mim, portuguesa, habituada a pensar nos políticos como gente sisuda, de fato e gravata, e que se leva extremamente, ridicularmente, a sério.




S.

domingo, 2 de setembro de 2012

Coisas a evitar num classificado de imóvel #2

Este começava assim:

"En pleine coeur du cimetière d'Ixelles..."

Como disse? Em pleno coração do cemitério?!

*suspiro*

Claramente, as gentes desta terra tem noções básicas de marketing ainda a aprender...



Se bem que, tal como a prisão de St. Gilles, este é todo nice e parecendo que não a vizinhança não incomoda... E após esta imagem já ganhei novo sítio turístico para visitar.



S.

sábado, 1 de setembro de 2012

O presente oferecido por Bruxelas

Hoje, Bruxelas ofereceu-me este presente:


Um céu azul - azul forte, como é raro - toda a tarde.

Numa altura em que o verão já brinca às escondidas com Bruxelas, sei que este foi um presente especial e para ser valorizado.

Obrigada, cidade!



S.


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Nacionalidades e racionalidades

Porque veio mesmo a calhar, relativo ao meu último post, para calar as minhas preocupações sobre conhecimento de gente local:

A minha supervisora, no meu novo emprego, é belga.

Fiquei muito contente, porque assim já tenho alguém com quem bombardear com perguntas sobre as maiores e mais pequenas idiossincrasias deste meu país hospedeiro.

Já comecei com as relacionadas com as línguas e os aparentes - ou não? - desentendimentos e ressentimentos entre valões e flamengos, fonte de enorme interesse da minha parte. A essência de um país vai sendo descortinada através de pequenas peças que vamos juntando aos pouquinhos e ao longo do tempo, coisas que em si mesmas são irrisórias, mas que todas juntas constituem o caráter de um povo e de um país. 

A minha precisa ideia sobre a Bélgica e sobre o povo belga é precisamente a ausência de essência. Ou melhor, é uma essência que se caracteriza por desentendimento e tensões entre as duas comunidades linguísticas; um flamengo é capaz de ter mais que ver com um holandês do que com um valão. Apesar de o primeiro e o último terem o mesmo passaporte.

É por isto mesmo que a nacionalidade vale o que vale, e que tanto pode ser muito como rigorosamente nada. Da mesma forma, e precisamente por ser relativa, não deve servir de medida para nada. Tal como a raça, o género ou qualquer outra coisa aleatória e fora do controlo da pessoa.

...

E depois deste filosofar profundo vou dar às pernas para não ser só o cérebro a cansar-se.  




S.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A 1ª belga e o combate ao desperdício

Hoje, por ocasião de uma venda de roupa em segunda mão, conheci uma rapariga belga muito simpática. Mas apercebi-me que, em seis meses, foi a primeira pessoa local que conheci. 

Ora, não sei bem o que isto diz de mim (bicho anti-social, será?), sobre o meu local de trabalho até agora (no PE conheci gente de muito país europeu mas nenhuma belga, curiosamente), ou sobre esta capital, onde um terço dos seus habitantes são imigrantes. 

A rapariga em questão, a quem cheguei através do grupo Brussels Expats do Facebook, delirou quando soube que eu era portuguesa, porque ama Portugal de paixão (afirma ser um dos seus países favoritos...) e anda a estudar as diferenças entre a língua portuguesa e o galego. A visita foi de negócio mas aqueceu o coração, claro está. :)


...


Agora, sobre as vendas em segunda mão. 

Aventurei-me pela primeira vez nisto do já-usado há quase dois anos, quando comprei o meu computador e o iphone do D. pelo eBay porque não queria dar por eles o dinheiro que custam novinhos em folha. Cheguei a vender também. Correu tudo às mil maravilhas (exceto uma tentativa de venda da minha parte, mas isso é outra história). Mais recentemente, uma blogger que eu seguia regularmente abriu outro blog para vender roupas/acessórios/sapatos que já não usava e eu, vendo uma coisita que me agradava, decidi comprar.

Entretanto descobri o maravilhoso mundo dos expats bruxelenses, grupos facebookianos onde pessoal faz perguntas e lhes respondem, sobre tudo o que se possa imaginar sobre a vida cá, e põem móveis, roupa, eletrodomésticos à venda porque vão voltar para a terra. E eu rendi-me ao culto do aproveitamento e do combate ao desperdício. Em forma de pechinchas.

Aqui há uns tempos, precisava de uma impressora, puseram uma impressora à venda (por menos de metade do preço!). Lá fui eu, de trolley de compras atrás para trazer a bicha, a pé, até à casa da rapariga que a anunciou (que por acaso era portuguesa!). Hoje, foi a vez de ir buscar um colar, um lenço e um chapéu à anos 60 (acho que nunca me apaixonei tanto por uma peça de roupa como com esta... e acho que nem na Primark conseguiria tão barato), à casa da rapariga belga, que tinha virado a sala em atelier de roupa em segunda mão.

De caminho para casa, passei na loja da Oxfam e olhei com outros olhos para as roupas que ali se vendem. E descobri que, indo de olho bem aberto, se encontram coisas muito boas a preços irrisórios. E ali há o benefício de se estar a contribuir para uma boa causa.

Já pensei seriamente em me tornar vendedora e livrar-me eu também de coisas que já não uso e que podem ser interessantes para outras pessoas. Mas a verdade é que, na nossa vinda para Bruxelas, a triagem do que não se gosta/usa/veste já foi feita, e só cá estão coisas úteis... Cheira-me que terei de esperar algum tempo até ter material para venda.




S.