terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Blasfémia, heresia, palavrão



Só para deixar aqui registado, porque ainda foi há pouco tempo e por isso ainda tenho a certeza que é verdade: os pastéis de Belém da Fábrica dos Pastéis de Belém não foram os melhores pastéis de nata que comi na vida.




S.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Um dia de um homem numa sociedade matriarcal

Uma autora francesa criou um vídeo sobre um dia na vida de um homem se vivêssemos numa sociedade matriarcal. Uma sociedade com os mesmos vícios para um dos géneros como a em que vivemos, mas ao contrário. Está muito interessante, especialmente nos detalhes:




Pode ser que mudando a personagem se mude a perspetiva sobre o problema.
 
(O vídeo com legendas em inglês, que por alguma razão insondável não consegui incorporar, está AQUI.)


S.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

"Who made these rules anyway?"

Desde 2010 que penso muito sobre o que é isto de "casa". Quanto tempo demora a estabelecer uma, do que é ela depende, se podemos ter várias? Se tem que ser sempre onde moramos, se é onde vive quem amamos, se é imutavelmente o sítio onde crescemos ou se é onde ansiamos estar. A sabedoria cibernauta nunca me conseguiu esclarecer -  que choque, não é verdade.
 
Temos então:

 
O meu telemóvel liga automaticamente em vários sítios, nomeadamente na minha morada oficial, no meu trabalho, no aeroporto de Varsóvia, no Workshop Café, em casa dos meus pais, no autocarro do aeroporto em Edimburgo, na lavandaria do bairro. Não me parece que isto os classifique como "minha casa".
 
 

Não gosto de vinho. E também não acho que o supermercado da esquina se classifique como casa.




Eeeeeh... Eu queria perguntar em que sentido? mas tenho medo...

 

Outro... Bom, este vou interpretar no sentido mais light. Sim, é onde estamos mais à vontade, é onde podemos saltar por isso das convenções da vida em sociedade e ser os animais que na verdade somos. Tudo bem. Mas isto é mais quando estamos sozinhos em casa, não apenas quando estamos em casa.
 
 

Nah. Isso é a casa dos meus pais, é a casa da minha infância, é onde mora a minha família. :) A minha casa terá que ser outra coisa qualquer. Senão nunca se criavam casas novas, era sempre a da mãe...
 


Não tenho cão :( . Só o que está em casa dos meus pais. Mas esse não é meu, lá está, é dos meus pais, nunca foi meu porque eu estava lá mas depois já não estava e o bicho é 100% de coração da minha mãe. Quer dizer, ele faz uma grande festa sempre que me vê, nem consegue acreditar que eu voltei, não sei se pensa que eu moro ali à mesma, se entende que eu pertenço à matilha dele, mas acho que não, ele não sofre quando eu me vou embora, não fica a ganir baixinho quando desapareço, ou à chuva sentado de olhos presos no portão por onde saí, como faz com a minha mãe. Por isso, não, não tenho cão realmente. 




Sim, está bem, mas, er... explicação demasiado escatológica.
 


...

Esta nem faz sentido.




Ah, assim está bem. É onde quisermos, é onde a construirmos, está bem. Mas isso significa que pode ser em muitos lados? Mas, e também, o que é realmente preciso para ela ser casa, mesmo "casa" (recuso-me a empregar a palavra "lar", que odeio)? Dá para se tornar casa num instante, só porque eu quero?
 
A sabedoria cibernauta não foi capaz de me satisfazer.
 
Acabei por voltar à sabedoria popular.



Ah, porra. Este é mais complicado.
 
O meu coração está em muitos lugares. Está em todos os sítios onde eu já fui feliz, está no passado ligado às memórias da minha infância, mas também está no futuro, demasiadas vezes no futuro, em coisas que anseio fazer, em pessoas em abstrato que ainda não conheci. Está em sítios que eu nunca vi mas que sinto que conheço, está em sítios que nem existem mas que, segundo a minha cabeça, podiam muito bem existir. Estamos antes a falar de pessoas? Bom, isso aí eleva ainda mais o grau de  complicação. Pode a nossa casa ser uma pessoa? É que as pessoas movem-se. E são muitas, como escolher.
 
Uma amiga, bem mais experiente do que eu nisto das emigrações (aos 26 anos já tinha vivido em 7 países diferentes), disse-me uma vez que a maldição de qualquer emigrante era nunca mais voltar a ter a alma inteira, esteja onde estiver. Se estou em Bruxelas sinto falta da minha família e amigos em Lisboa, se estou em Lisboa sinto falta dos meus amigos de Bruxelas, em Londres deixei uma grande amiga, outra fugiu para a Dinamarca. Para onde quer que um emigrante se mude, vai sentir sempre falta de alguém. Ela disse mais: onde quer que esteja nunca vai conseguir reunir todas as pessoas que ama no mesmo sítio. Seja para festejar os anos, seja numa graduation, seja num casamento. E isto é assustadoramente verdade e irremediavelmente cruel.

Só se... for uma pessoa mesmo muito especial.
 
Eu voltei sem o D. em janeiro. Não estava planeado, mas é temporário, não houve drama. Motivos estritamente profissionais. Eu estou contente por estar de volta a Bruxelas, ansiava pela minha rotina, pelas minhas coisas, voltar aos meus percursos familiares de corrida, estar sossegada no meu canto. Por isso acho que esta é a minha casa. Mas é também a nossa casa e por isso há qualquer coisa estranha no ar, um silêncio que é um bocadinho maior do que eu estar aqui sozinha simplesmente. Parece que está qualquer coisa partida. Não me interpretem mal, eu sou uma criatura que se sente muito bem sossegadinha, quieta no seu canto, que fica feliz por ouvir e ver pessoas à sua volta por aí e se contenta com isso. Os grupos esgotam-me emocionalmente. Mas a minha casa está esquisita. Ainda no outro dia dei por mim a pensar como é que fazem as pessoas que vivem sozinhas e longe da família, por exemplo, para aguentar a falta de carinho físico (não é desse, vá, seriedade), os abraços ou as festinhas de quem nos quer mesmo bem. Depois até arregalei os olhos um bocado horrorizada a pensar que devia estar a começar a bater mesmo mal para pensar naquilo porque eu sou uma pessoa que gosta de guardar as distâncias físicas, mesmo de quem gosto mesmo, mesmo muito. Sou um bocado como aqueles bebés que fogem dos beijos ou limpam a cara a seguir, com a diferença que eu tenho mais vinte e tal anos em cima, por isso sou um coração de pedra. Mas a verdade é que aquilo continuou a preocupar-me durante dez ou vinte minutos. Parece então que há uma parte do meu coração que não está aqui, tente eu racionalizar isto como queira.
 
Porque a verdade é que eu contei os dias todos mentalmente desde que entrei no avião numa Lisboa chuvosa até chegar ao aeroporto da Portela novamente. E eram só 26. Mas passaram um a um, vagarosamente, de uma maneira que não costumam passar. E eu depois nem conseguia ver Family Guy, não achava piada nenhuma aquilo, e não conseguia comer crepes porque era o que fazíamos todos os sábados ao fim da tarde, nem conseguia sentar no pufe porque era o lugar dele. Eram coisas simples que eu evitava, sem grande drama, mas só porque me pareciam desconcertantes. Já está um pouquinho melhor, vi-o há pouco tempo, já não faz mal sentar no pufe.
 
Vi-o, fui radiosamente feliz, mas não estava em casa, mesmo estando com ele em Portugal. A sensação é sempre a do temporário, estou só de passagem, é pena não vires para casa comigo... Esta casa. Daqui. Que é nossa por alguma razão que eu ainda não consegui descortinar completamente e que continua a ser a minha casa mas que está meio errada. É que é possível, claro que é, mas eu não sei construir casas sozinha. Nunca construí sem ele. Por isso casa não é onde quer que ele esteja, mas definitivamente que ele tem que estar lá. É qualquer coisa que construímos os dois de raiz, onde temos rotinas tão aborrecidamente corriqueiras como beber chá a seguir ao jantar nas nossas canecas castanhas do Ikea, ou irmos dobrar e buscar a roupa seca à lavandaria, ou ver o New Girl com um crepe de chocolate no colo (o teu é com açucar. Branco, não mascavado, mesmo à gulosão).
 
Não sei muito bem agora como concluir isto porque eu não gosto de dramatizar. E esta falta de casa é temporária, vamo-nos ver tão regularmente para duas pessoas que estão a dois mil quilómetros uma da outra. E daqui a uns meses vamos construir outra casa de raiz, noutro sítio diferente de Bruxelas, diferente de Lisboa, diferente de Londres, talvez A casa, será? Não vale a pena gritar saudade aos quatro ventos, as coisas são como são e há quem esteja tão pior de saudades do que nós. Ainda assim, percebo agora o que a Helena uma vez disse, de como a pessoa que inventou o estrangeiro devia morrer.



S.


O Lisbon V-Day (e porque hoje é Dia Internacional para o Fim da Mutilação Genital Feminina)



Só para avisar que a dança já tem lugar marcado. O Lisbon V-Day vai ser no Largo do Carmo, em Lisboa. 14 de fevereiro às 18h30.

Ide, por favor.



S.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A grande viagem (ou, como quem diz, já não há juízo entre nós)

Há uns meses valentes, dizia-me o D. assim: "Eh, 'bora de Bruxelas a Portugal de bicicleta!" Eu acho que na altura não disse nada porque fiquei muito ocupada agarrada à barriga a rir. Mas nos tempos seguintes comecei a ponderar, a admirar a coisa de diversos ângulos e a magicar maneiras de a tornar possível. Como acontece aliás sempre que ele vomita uma ideia estrombólica deste tipo (cofvamosviverparalondrescof). Depois a coisa já era "Eu hei-de ir a Portugal de bicicleta..." E eu tornei-me condescendente: "Hmm-hum, claro que vais, se nem em Bruxelas andas, deves ir." Mas a ideia, na sua teoria, vá, até era fixe e seria uma mega conquista e uma oportunidade perfeita para palmilhar, quase literalmente, um bom pedaço da Europa, e eu até ia todos os dias para o trabalho de bicicleta e tal, comecei a dar algum crédito à coisa. Seria difícil mas não impossível e inesquecível decerto. Depois até descobri a rede EuroVelo e fiquei fascinada com a prospetiva de uma Europa toda ciclável e ganhei balanço. Chegámos a estimar dias e quilómetros, se faríamos pela costa francesa e espanhola ou cortando caminho pelo interior (eu dizia-lhe: "Há PIRINÉUS pelo meio" mas ele não queria saber), estivemos quase a comprar bicicletas para começar a visitar cidades belgas aos fins-de-semana (sempre Waterloo...), chegámos a sonhar visitar uma cidade de cada país aqui à volta só para dizer "Eu fui a [inserir país vizinho da Bélgica] de bicicleta e voltei!", eu sempre a insistir em irmos a Londres dando ao pedal e quase morrendo de desgosto por saber que o ferry de Calais-Dover ou Ostende-Southampton só transporta carros (sempre a Inglaterra...).

Entretanto a nossa partida definitiva da Bélgica chegou mais abruptamente do que o previsto e a ideia foi posta de parte. No final de junho iremos para Portugal, em setembro este blog voltará para o sítio que lhe deu o nome. A univ/cidade ainda não está escolhida mas a volta para a ilha já é uma certeza.

Mas... Mas. Há outra coisa. Surgiu a ideia (ou ressurgiu, nem sei com certeza), tão repentina mas tão avassaladora - e as melhores ideias surgem assim, já percebi - de uma volta a Portugal em bicicleta. "Se não dá a viagem maior, faça-se esta por Portugal, já que vamos ter umas férias mais alargadas do que o previsto", disse-me ele. E eu, contra todo o meu instinto dos "mas" e "se"s compulsivos disse: "'Está bem." É que, entendam, depois de termos passado meses e meses a considerar distâncias de 2000 e tal quilómetros e ver como enfiar aquilo em três semanas, olhar para o mapa do litoral português e ver que de cima a baixo são 700, a coisa parece uma brincadeira de crianças. E eu agora até corro fixe e tal, há-de dar, pensei eu. É a confiança de que o meu corpo é imparável e os seus limites serão apenas os que eu lhe impuser. Ou isto é uma revelação extremamente sábia ou a corrida queimou-me o cérebro todo, ainda não sei dizer.

Assim, e porque já sei que é certo e já temos um percurso (em rascunho), as datas alinhavadas e as linhas gerais de logística traçadas, eu posso dizer, com certeza, que o próximo julho será passado numa bicicleta (duas). Iremos de Viana do Castelo a Vila Real de Santo António, em 29 dias, sempre pela costa portuguesa (os emigrantes querem é praia e sol, of course). O entusiasmo é enorme, a antecipação também, o nervoso miudinho é que nem por isso. E isto é estranho. Tenho assim novo objetivo para lá da Meia-Maratona/Corrida dos Sinos: convencer as minhas pernas que pedalar 50 km por dia durante um mês é very nice.

Escusado será dizer que este blog em julho vai estar a abarrotar irritantemente de descrições de quilómetros feitos, dores nas pernas, escaldões no pescoço e outros pormenores que provavelmente só a nós interessarão. Escusado será também dizer que todas as dicas, experiências, conselhos e coiso serão extremamente bem acolhidos por estes dois jovens amadores que não têm nenhuma experiência com viagens de bicicleta, só uma pancada muito grande nestas duas cacholas.



Era para ser uma destas mas eu sou fraca demais para puxar pelos dois e control-freak demais para me deixar ser puxada.



S.

Ele há coisas... #41

Eu já sabia que os políticos belgas eram esquisitos. Desde que recebi um panfleto durante a campanha para as eleições comunais com um homem com um cão ao colo que exclamava "Votez nº 18, c'est mon papa" que não tenho ilusões sobre a sanidade mental dessa classe neste país. Ainda assim, não estava preparada para a carta que recebi.

O mestre do burgo (não consigo expressar o quanto amo esta expressão) da minha nova comuna enviou-me uma carta a convidar para uma sessão de esclarecimento sobre a comuna de St. Gilles para novos residentes. Na medida em que sou realmente uma nova residente, nada de estranho até aqui. A carta personalizada também foi um toque de cortesia. Uma pessoa sente-se sempre melhor ao ser enderaçada pelo seu nome do que por "Chèr/e habitant/e" ou coisa parecida. Mas o endereçamento pessoal passa de cortês a duvidoso quando se lê que a sessão de esclarecimento inclui a partilha do "verre de l'amitié". O copo da amizade.

Quê?! Partilhar o quê? Eu não quero partilhar nada nem com vizinhos St. Gillianos nem com bourgmestres. Muito menos amizades, ainda menos copos potenciais albergadores de micróbios. Juro que ao princípio ainda pensei estar a ler mal ou ter traduzido mal na minha cabeça (o meu francês ainda está longe de me fazer sentir orgulhosa). Mas as palavras "verre de l'amitié" lá estavam, e querem dizer exatamente o que eu pensava que queriam dizer. Só me faz lembrar índios sentados no chão em círculo, de pernas cruzadas e cachimbos da paz. Ou aquilo que se fazia nas missas por volta do Natal de beijar o menino Jesus, em que as pessoas faziam fila para depositar um beijinho no bonequinho de loiça e que me dava sempre tanto nojo quando era pequenina (o pano com que o padre limpava o sítio dos beijos nunca me inspirou confiança nas suas propriedades desinfetantes). 

A tentativa de envolver e informar os cidadãos no governo local é de louvar, sim senhora, mas guardem-se as devidas distâncias.





S.      

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Motins, viagens-sonho e leões

Acho que o meu corpo - e, desta vez, o meu espírito por arrasto - ficou traumatizado com os 15k de domingo. Não foi assim tão mau, acho eu, mas se calhar só afirmando em retrospetiva. Isto porque eu estive a tentar convencer-me, ao corpo e ao espírito, (já somos três, não sei quem é este terceiro, talvez a consciência), até hoje, que tínhamos que nos fazer à estrada novamente. Foi a semana toda nisto:




A consciência lá acabou por ganhar, depois de ter mandado um murro na mesa e exclamado: "Mas qu'ésta merda, afinal quem é que manda aqui?! E tu 'tás-te a preparar para uma meia-maratona ou não, minha menina?? Olha que já só faltam 6 semanas, aquilo vai ser para acabar ou para fazer figura triste e desistir? Calça-me esses ténis e vam'embora, vá!"

Corri pouco mais que uns míseros 6 km porque percebi que as minhas pernas não estavam para ali viradas.



Ainda tiveram o desplante de me mandar este sorriso cínico do "eu bem te avisei". Estúpidas.

Sou agora uma pessoa muito infeliz depois de ter constatado que são as minhas pernas a parte fraca disto tudo. Muito infeliz. Às vezes correm três quilómetros sempre a chorar, canelas a parecer que se abrem, enquanto pulmões e coração olham atónitos, para aquela mariquice toda, e confusos pela dificuldade que estão a presenciar mas que não sentem. Quem é que percebe que às vezes corram 15 km e outras mal 6 aguentem? Bipolaridade física, ou caraças.

Ora, o que acontece então é que tenho que esperar impacientemente que o esforço acumulado se vá embora das patas antes de voltar a fazer-me à estrada, mas sem saber exatamente quanto tempo posso esperar sem que comece a perder resistência. É um equilíbrio tão delicado que me põe nervosa, às portas da prova dos 21.

Anseio que passe a Meia-Maratona e a Corrida dos Sinos para poder voltar a correr sem pressões durante os treinos de quilómetros a conquistar. Apetece-me voltar a correr na minha zona de conforto, durante um tempinho, para depois me começar a concentrar na velocidade em vez de na distância. Porque a chatice com as distâncias é a longa duração do passeio e o auto-entretermo-nos enquanto vamos em esforço. Costuma ser esse o papel da música mas começo a ficar farta da minha playlist e um álbum de Arctic Monkeys já não chega para os passeios mais longos. E estava a começar a estragar as músicas por associá-las ao esforço, muito ao jeito do cãozinho do Pavlov. De maneiras que hoje parti sem phones nos ouvidos, pela primeira vez. Não me aborreci. Mas foi pouco mais de meia-hora...

Um dia destes vou a Waterloo. É a minha viagem-corrida de sonho. Fica a 14 km da minha casa e desde que cheguei à Bélgica que lá quero ir, mesmo, mesmo muito. Palmilhar o caminho a patas deve elevar a experiência ao quadrado. Terei que me embrenhar na Fôret de Soignes para lá chegar, já que a estrada até lá não tem sempre passeio (sim, já andei a stalkar o caminho no Street View. À séria. É o quanto quero ir lá). Nunca corri pelo meio de florestas daí que estes 14 km ganhem outra dimensão dantesca. A parte do vir para cá é que é pior... Se me inspirar no Napoleão não consigo. Haha.

Vou lá dar um beijinho ao leão e volto.


Hahaha, ou então não. Escalar uma rampa daquelas após arrastar-me durante hora e meia?? Não me parece. Mando cá de baixo.



S.

E você, já mostrou a sua dose de indignação hoje?

Por falar em manifestações:


O projeto de lei do governo espanhol sobre a interrupção voluntária da gravidez está a provocar reações um pouco por toda a Europa.

Esta quarta-feira, cerca de duas mil pessoas, na maioria mulheres, vindas de toda a Europa, participaram numa marcha que começou junto à embaixada espanhola em Bruxelas e terminou junto ao Parlamento Europeu:

“Esta lei não respeita um mínimo de direitos de outras leis na Europa, porque trata as mulheres como se fossem menores”, diz uma manifestante espanhola.

Um cidadão belga explica:
“Pedimos ao governo espanhol que reveja o projeto de lei que tenciona aprovar, para garantir que o direito ao aborto não é restringido como está previsto na proposta de lei”.

Para os manifestantes, o assunto não diz respeito só a Espanha. Uma cidadã lituana fala da situação no seu país:

“Estou aqui porque temos uma situação semelhante na Lituânia, com uma lei que está no parlamento prestes a ser votada”.

No dia 1 de fevereiro está também prevista uma manifestação junto da embaixada de Espanha, em Paris.

O governo espanhol apresentou um projeto de lei que só autoriza o aborto em caso de risco fisico ou psicológico para a mulher ou violação, se tiver sido apresentada queixa."

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Segui o meu próprio argumento do "não fazes lá falta mas se todos pensarem assim ninguém vai" e fui lá marcar presença.

Algumas mulheres levaram cartazes ("Take your rosaries off of my ovaries"; "Church and state, you don't own my body"; "Free women give birth to free sons"; "Procreation is not an obligation"; "Mère quand je veux, si je le veux"; "Droits de l'homme pour les femmes aussi"), algumas levaram chapéus de bruxa (na Idade Média, quem abortava era as gentes que tinham pactos com o diabo). Vi bandeiras do Bloco de Esquerda português, vi a eurodeputada Marisa Matias e a Edite Estrela, cujo relatório sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres na Europa foi chumbado no Parlamento Europeu há umas semanas (mesmo não sendo vinculativo, certos governos europeus têm um medo que se pelam deste assunto. E a tendência, como se vê pelo exemplo da Espanha e da Lituânia, é para regredir.) 




S.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

As 6 sombras da persuasão e a Dança do Bilião

Andei alguns dias a remoer este post porque eu queria falar sobre isto, convencer mesmo alguém a ir, mas não sabia por onde começar. Por aqui vê-se logo que não tenho curso de marketing, publicidade ou comunicação, no geral. Fez-me falta conhecer as técnicas para convencer alguém. Não tenho jeito, não me é natural, e acabo por nunca ter paciência nem perserverança suficientes, mesmo em debates. O que é bastante infeliz numa pessoa que se intitula feminista, mas bom, cada um faz o que pode. Ainda assim, ocorreram-me várias maneiras de começar:

Persuasão através da instigação da culpa:

Ler e acenar com a cabeça que sim, coitadinhas, é muito fácil. Meter um like num post indignado, também. Partilhar uma notícia sobre o assunto no Facebook, apesar de envolver um nisquinho mais de compromisso, continua a ser 99,9% de conforto, 0,1% de eficácia. Levantar o rabo do sofá/carro/escritório ao fim de uma tarde de pleno inverno, já não é assim tão fácil. Por isso prova o quanto nos indigna, enoja e o quanto queremos ser parte da solução. Ide ao Lisboa V-Day, mulheres desse Portugal. E homens desse Portugal, ide por quem amam. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da responsabilidade moral:

É por uma causa nobre. Desejar que o flagelo da violência de género tenha fim. Eu sei que causas nobres há muitas, e nós somos e sentimo-nos pequeninos individualmente. Não temos a capacidade de fazer tudo o que é nobre, ou de lutar por tudo aquilo em que acreditamos. Mas isto afeta muita gente, demasiada gente, por todo o mundo. É pela segurança e bem-estar de potencialmente metade da população humana, pelo menos um terço dessa metade. Como ficar indiferente, se toca a tanta gente? Ide mostrar que não são indiferentes. Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da chantagem emocional:

É que é um bilião. Um terço de todas as mulheres do mundo. Uma em três. Isto significa que pelo menos uma mulher próxima de vós (mesmo se forem parcos nos sentimentos e anti-sociais como eu, entre irmã, mãe, avó, cara-metade, haverá sempre três. Se forem mulheres, como eu, podem mesmo ser vós) será agredida ou violada durante a vida. Isto está bem assim? Não vos causa horror, abjeção, sentimento de injustiça? Ide mostrar a vossa indignação. Ide ao Lisboa V-Day, mulheres desse Portugal. E homens desse Portugal, ide por quem amam. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através do testemunho pessoal:

O ano passado, quando a ideia do One Billion Rising surgiu, eu participei na minha primeira manifestação. Bichinho avesso às confusões, aos gritos, aos ajuntamentos e a pessoas a fazerem coisas estranhas, amante das ideias e teorias mas pouco afoito na ação, enfiei-me no meu casaco mais quente e saí para a rua, a temperatura a roçar o zero. Timidamente, encostei-me às colunas da praça a sondar aquela coisa estranha, em que centenas de mulheres e muitos homens cantavam e dançavam pelo fim da violência contra as mulheres no mundo. Acabei a tarde com o nariz a pingar mas com olhos brilhantes e um grande sorriso na cara (os olhos brilhantes podia ser do frio, mas bom, o sorriso não era). Foi a coisa mais sensacional que já fiz fora da minha zona de conforto. O que, tenho noção, não é dizer assiiim tanto. Também tenho a noção que se eu não tivesse lá estado não fazia falta, era só uma entre centenas. Mas se eu não tivesse estado lá, se a rapariga que dançava ao meu lado de sorriso rasgado não tivesse estado lá, se a mãe não tivesse levado a filha de 2/3 anos, se a octagenária que dançou até ao fim não tivesse estado lá, se calhar já começávamos a fazer falta. Pensem que fazem parte de um movimento de milhões, que a esse momento hão-de estar todos a dançar pelo mesmo objetivo. Tem que se começar por algum lado, não é? Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da perspetiva do divertimento:

É uma flash-mob, gente. Tem coreografia e não há muitas coisas tão fixes de se fazer a 500 como movimentos sincronizados. Ninguém vai saber de cor, haverá tempo para ir aprendendo. É libertador, primitivo mas profundamente libertador, e estupidamente divertido balançar o corpo ao ritmo de uma música sem outro propósito que não a diversão. Sem o propósito de agradar, de atrair, de convencer. Só aquele, de estar ali presente, com aquelas pessoas todas que defendem a mesma coisa. Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através do ataque ao cinismo:

"Eh, realmente o mundo há-de mudar assim, com danças. É a dançar nos vossos países riquinhos de primeiro mundo que se acaba com a violência sobre as mulheres no mundo, realmente." Duas respostas a isto, uma curta e outra longa:

Curta: Bardamerda. Cada um faz o que pode. Ao menos importo-me o suficiente para sair à rua por isto. 

Longa: Isto é um bocado como a história do Dia do Pai, Dia da Mãe, Dia da Mulher, não é? É quando se quiser, é todos os dias, blá blá blá, depois nunca é verdadeiramente. Pelo menos arranjou-se uma maneira, um dia, um evento, um ajuntamento, que faz com que as pessoas reflitam na coisa, se importem, e potencialmente que vão mudando a sua maneira de pensar sobre aquilo. Senão, bom, pelo menos um dia no ano lembrar-se-ão. Um em 365 já não é mau. Em relação à questão da dança, a ideia surgiu através da escritora Eve Ensler ("Monólogos da Vagina") depois de uma visita à República Democrática do Congo e de ter visto a forma como muitas mulheres tentavam curar a dor psicológica e emocional da violência. Há qualquer coisa de primordial na música, quase mágica, todos sabemos. Embalamos os bebés para os acalmar, não é? Cantamo-lhes canções de embalar. Dançamos como diversão. Não está assim tão deslocado o ato da intenção.

Vão, a sério. Mostrem que se importam, e divirtam-se pelo meio. Eu cá estarei em Bruxelas, a dançar também.

Lisboa V-Day AQUI.     






S.