Ontem corri a minha primeira meia-maratona.
Vou escrever só mais uma vez porque mereço e para
ver se acredito mesmo: ontem corri a minha primeira meia-maratona.
Foi uma experiência do caraças e tudo o que eu
antecipava esteve lá: o mar de pessoas, a confusão na entrada da Ponte 25 de
Abril, o sentimento de privilégio incrédulo por estar a tocar com os pés
naquela ponte emblemática, a vista de Lisboa sob um céu azul límpido, o esforço
a começar a dar sinal ao quilómetro 7, o aborrecimento e a desmotivação lá para
o quilómetro 11, a luta afincada e quase sem dar tréguas do corpo contra a
mente, a incapacidade de ver as pessoas e as paisagens e as casas, o terreno
desconhecido a partir do quilómetro 18 por nunca ter corrido tanto, o sentimento
de pura felicidade ao cruzar a meta, a alegria por estar a correr em Lisboa.
Não só não faltou nada do que eu esperava como tive o acréscimo de mais umas
coisas: a ausência de vontade de procurar desculpas para não ir (para a minha
primeira corrida, a de S. Silvestre dos Olivais, elas não faltaram), a ausência
da dor excruciante nas canelas que já é uma velha conhecida, mas a presença de
uma dor irritante na anca direita que não me largou durante toda a corrida, o
desconforto horrível que é ter um sol que queima a bater na cara durante todo o
caminho e que torna o esforço elevado de uma corrida quase insuportável, o
orgulho tão humano mas tão irracional que é pertencer a um evento maior do que
nós e a um grupo cujos membros só têm em comum o masoquismo de bater com os pés
no chão muitas vezes por minuto durante duas horas, o sentimento de desespero
por ver que ao quilómetro 12 eu já estava mal, a euforia por descobrir ao
quilómetro 18 que ia conseguir acabar a prova, o pranto no qual quase desatei quando
cortei para a meta, duas horas e vinte minutos depois de ter começado a correr
tão feliz e ainda na margem sul. Hoje mal consigo andar, é um bocado assustador
ainda que compreensível, mas mais assustador e nada compreensível é ter já
concluído que eu não vou conseguir largar as corridas depois da corrida dos
Sinos a 6 de abril, como planeava. Um bicho qualquer que acho que deve ser
parecido com uma lagarta das maçãs já começou a roer qualquer coisa aqui dentro
porque eu já estou com o sentido de querer melhorar aquelas duas horas e vinte.
É qualquer coisa que me chateia assim: “Nã, nã, nã, nã, não fizeste aquilo como
deve ser, toca a fazer outra vez mas agora em bom.” Não é necessariamente
aquela corrida, é mais aquela distância. É uma necessidade de ensinar o meu
corpo a correr 21 km confortavelmente.
Maluco, não é? Eu sei.
Mas já aprendi melhor do que ignorar estas
vontades crepitantes que vão alastrando por aí afora. O melhor é mesmo
aquiescer até onde a vontade nos levar.
Uma coisa que reparei, e que até aqui nunca me
tinha realmente passado pela cabeça, é que a corrida é uma coisa para ser
vivida em conjunto. Ou seja, os treinos são feitos normalmente de forma
individual mas depois nas corridas propriamente ditas as pessoas juntam-se aos
pares ou aos grupos para darem força uns aos outros, para partilharem a euforia
da meta, e ser uma coisa minimamente social. Eu fui sozinha. E o meu instinto
observador não sinalizou mais ninguém na minha situação durante a caminhada do
Pragal até à ponte e durante a espera pela partida. Não sei se isto significa
que eu sou um bicho solitário, independente, com uma grande pancada ou sem
noção do que se faz normalmente e do que não se faz normalmente. É capaz de ser
uma combinação de todas.
Bicho solitário ou não, apoiantes não me faltaram.
Entre um namorado incrivelmente otimista que à hora e meia já me estava a ligar
para me procurar na meta, uma mãe dramaticamente fatalista que me diz coisas
como, e cito: “senti um baque no coração porque pouco depois das duas horas
comecei a ouvir uma ambulância e pensei mesmo que eras tu”, e um pai
pessimisticamente confiante que depois das duas horas e quarenta ainda me
esperava ver passar, não sei a qual agradecer mais. Agradeço aos três, claro,
porque cortar a meta depois de duas horas e tal de esforço é uma sensação ali
no topo das melhores coisas do mundo mas ver as caras sorridentes das três
pessoas mais importantes da nossa vida logo após um esforço de duas horas e tal
também não lhe fica nada atrás.
Isto é uma aproximação fiel de mim hoje.
S.