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Já é a segunda vez que vou à caixa de correio buscar um envelope da Igreja das Testemunhas de Jeová aqui da zona. É um daqueles panfletos de publicidade ("Venha connosco celebrar a morte de Jesus!") mas o especial é que vem dentro de um envelope endereçado à "Família X". Já é a segunda vez que me enganam porque fico sempre entusiasmada a pensar em quem nos terá escrito. Não sei se o que me irrita mais é ter publicidade religiosa camuflada na minha caixa de correio se é que ela venha sempre endereçada ao apelido do macho da casa. Nós somos uma família, sim, mas temos um apelido cada um e na caixa do correio eles figuram os dois. Ou endereçam aos dois apelidos ou metem um envelope para cada um. Como quando fomos abrir a conta de garantia de renda em nome dos dois e, apesar de a conta principal estar apenas em meu nome, o apelido do macho da casa aparece como proprietário por default. Porquê? Ninguém nos perguntou nada. Não se parta de pressupostos.
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O ginásio onde ando tem uma modalidade em que com apenas uma inscrição os membros do agregado familiar podem todos frequentar o mesmo ginásio, ainda que não ao mesmo tempo. Quando fui perguntar se podia adicionar o D. à minha inscrição e quais as condições não conseguia dizer a palavra em francês. Posso muito bem ter passado por pessoa-a-quem-dá-quebras-a-meio-da-conversa-como-se-lhe-acabasse-as-pilhas porque fiquei uns 10 segundos a pensar a meio da frase. "Est-ce que je peux ajouter mon... ... ... ... ... ... ... mari à mon abonnement?" Não me saía a palavra francesa para namorado, acho que tem qualquer coisa a ver com "copin" ou "petit ami". Mas a mim não me soava certo (amigo? colega???) e o senhor que me estava a atender não ia perceber. Ia pensar que eu estava a falar de um amigo qualquer e teria que perder o dobro do tempo a explicar-me o que eu já sabia, que isto é só para pessoas do mesmo agregado familiar e que para amigos não dá. E eu tinha que lhe explicar de seguida que não, que ele vive comigo e que portanto somos do mesmo agregado familiar, está tudo bem. E isto é faladura francófona a mais para mim. Parceiro ainda soa pior, companheiro idem. Por isso agarrei na única palavra inequívoca, ainda que não seja a verdadeira, mas que me cortaria caminho na interação. E isto se calhar é precisamente o que o casamento é, poder-se falar para o exterior numa linguagem que toda a gente entende. É apenas esse o único propósito que lhe acho. Como a história do apelido: sinalizar a toda a gente, inequivocamente, que se é da mesma família.
S.














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