segunda-feira, 14 de abril de 2014

Já só faltam 21 (II)

Ontem encontrei uma Londres cheia de sol, pessoas e um grande sorriso amigo.
 
Também encontrei isto:


Uma meta maratonista ali mesmo em frente ao palácio.
 
Juro que não fiz de propósito. Só lá fui apanhar o comboio para casa.
 
É capaz de não ter sido coincidência, mas foi a primeira vez que admiti que um dia vou correr uma maratona. Foi em voz alta, para outra pessoa, por isso agora é real.
 
Pronto, era só isto.




S.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Aprende, só vou explicar uma vez

Viajar na Ryanair continua a ser a experiência bizarra que sempre foi. Isto porque eles continuam a adicionar bizarrarias.

A novidade agora é a segurança. Os assistentes de bordo fartaram-se – com razão, diga-se de passagem - de atuar para o boneco por isso agora as demonstrações de segurança ao início requerem a nossa “complete and undivided attention”. Mas pronto, isto sempre disseram eles, não é? O detalhe novo é que agora estão mesmo a falar a sério.

Proibido usar auscultadores durante a demonstração, proibido falar durante a demonstração. Eles interrompem para mandar calar. A assistente de bordo ralhou com as passageiras no banco da frente, carregou num botão para interromper a gravação com as instruções da demonstração, fez-lhes “Sssssssssssssssssssh” quando não paravam e todo o avião se calou em estupefação. Senti-me de volta à escola primária. Acho que isto deve ser muito recente.

Explicam também com muita seriedade os procedimentos de emergêncica a quem vai nas filas das saídas de emergência, coisa que nunca vi outra companhia fazer. Uma vez fui sentada aí e gostei muito. Gosto de me sentir parte das coisas.

Tudo isto faz desconfiar do verdadeiro motivo de tanto zelo pela segurança. Se há coisa que a Ryanair faz é sempre o mínimo que se tem que fazer, não mais. Será que há razão para temer este novo excesso de zelo? Sabem eles alguma coisa que nós não sabemos? Andarão aqueles aviões tão maus que o melhor é mesmo apostar na educação na fatalidade, já que as probabilidades da fatalidade aumentaram? Aaah, Ryanair, obrigada pelo exercício mental logo pela manhã.





S.

"You're so dark but I want you hard"

Escrevo num comboio algures nas Midlands. Vou visitar a minha futura potencial casa.
 
Sinceramente ainda não sei ao certo qual foi a minha ideia em meter-me nesta viagem. Decerto que a beleza ou fealdade de uma cidade não deveriam ser critérios prioritários na escolha da universidade para se estudar. Mas a viagem foi pensada numa altura em que a angústia da escolha que brevemente terei que fazer estava a pesar especialmente e, por isso, cá estou eu. Sendo o resto igual, pode ser que a beleza seja um bom critério de desempate. E qualquer pretexto para voltar à Inglaterra é sempre bom.
 
Isto faz-me lembrar que amo comboios. Se pudesse não trabalhava a partir de casa, trabalhava a partir de comboios. Metia-me num comboio qualquer e, ala por essa Europa fora. Era capaz de sair um bocado caro, ao fim do mês, mas provavelmente nem tanto como alugar um escritório. E a vista móvel compensaria grandemente.
 
Ainda não tenho a certeza absoluta de que mudar-me para Inglaterra seja a melhor coisa a fazer. Tenho um fascínio enorme por este país, misturado com muito carinho, mas ele tem coisas que me irritam profundamente. A mania de que não é Europa é a maior. Seria extremamente irónico para uma europeia convicta vir estudar coisas europeias para um país que parece estar a descascar a sua europeanidade aos poucos. Se os Tories vencerem as eleições para o ano e no referendo de 2017 os britânicos abandonarem a UE, não sei como vou reconciliar as minhas duas paixões. Se a Escócia se for embora em setembro então seria o cúmulo. A Inglaterra a resvalar cada vez mais para a periferia, cada vez mais isolada. Burros do caraças. O “orgulhosamente sós” não vos serviria, acreditem.
 
Viver em Bruxelas tem muitas desvantagens e eu nunca me cansei de as enumerar, muitas vezez com lamúria desnecessária. Mas se há coisa que soa incrivelmente a privilégio em viver nesta cidade é a centralidade. Não só por ser o centro político europeu e tudo o que isso gera, mas por estar no centro geográfico da Europa. Ter tanta cidade a uma hora de avião, ter mais ainda a duas, e ter umas consideráveis a duas horas de comboio, incluindo Londres, Paris e Amesterdão. É uma sortuda geográfica, a cidade.
 
A geografia influencia muito do resto, claro, incluindo história, fronteiras, mentalidade e relações. As fronteiras belgas não existem fisicamente há mais de 20 anos, como no resto da Europa, mas também não existem mentalmente. É tão fácil e tão perto ir ali a França, ir ali à Alemanha, ir ali ao Luxemburgo, ir ali à Holanda. Lembro-me de na viagem que fiz para Estrasburgo, uma rota quase reta para sul de comboio, ter tido que desativar as mensagens automáticas de roaming porque o meu telemóvel parecia um alarme, sempre a apitar com info “Chegou à Alemanha! Chamadas custam X, mensagens custam Y.”, “Chegou à França! Chamadas custam X, mensagens custam Y.”, e depois as fronteiras não são retas, enquanto a rota ferroviária é, por isso o comboio estava sempre a entrar e a sair desses dois países. A geografia está-se bem marimbando para as decisões humanas políticas e por isso aqui eu aprendi a fluidez das nações e senti-me sempre na Europa, onde quer que tenha ido. E isso foi mesmo fixe.
 
Por isso voltar à ilha será voltar à periferia, tanto geográfica como mental. E isso deixa-me um bocado desconfortável.
 
Voltar à Inglaterra é também um bocado triste por razões linguísticas. Vivendo no continente tem-se sempre a língua materna, a língua franca internacional e a língua do país hospedeiro com que lidar. E ainda que eu não tenha dado a atenção e cultivado o meu francês como seria suposto, e ir embora da Bélgica com a vergonha linguística que cabe a alguém que viveu aqui dois anos e meio e não consegue ter uma conversa prolongada em francês, gostei muito de ter tido que lidar com uma língua estrangeira que não o inglês. Voltar à Inglaterra será voltar a ser preguiçosa linguisticamente. Não sei como vou gerir este regresso à zona de conforto com a minha curiosidade cultural e linguística para com o resto da Europa (a última tentativa, com o alemão, não correu assim tão bem). Talvez o futuro daqui a uns anos me lance outra vez para a mainland. De preferência, de comboio.

 
 
 
 
S.        

quinta-feira, 10 de abril de 2014

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Quebrar glass-ceilings, um de cada vez

Por falar em pressupostos.
 
No domingo corri a Corrida dos Sinos, uma corrida em plena terra natal, com companhia, por uma estrada que conheço como a palma da minha mão. Esta era uma corrida que eu costumava ver passar todos os anos, desde que me lembro de mim, e olhava os seus atletas com um misto de admiração por serem capazes de correr tantos quilómetros, pena porque aquilo era gente que só podia ir em sofrimento, e assombro por claramente haver tanto maluco e deixarem-nos ali à solta, a correr, ainda por cima.
 
Aquilo há duas provas em simultâneo e os 3 primeiros quilómetros de trajeto são iguais. Há a dos Sinos, de 15 km, e a dos Sininhos, de 6, na qual muitas pessoas vão a caminhar. Quando me dirigi ao balcão para levantar o dorsal da prova, levei com a observação seca de "Isto aqui é para os Sinos" do simpático senhor que estava a distribuir os envelopes para a corrida dos 15 km. Certo. E as meninas pequeninas, podem participar ou isto é só para os homens grandes?
 
Como coincidência, recebi um panfleto no dia da corrida com algumas curiosidades sobre o atletismo e o 25 de abril. De como as provas eram proibidas durante o Estado Novo (é realmente um ajuntamento com algumas semelhanças aos motins, especialmente no arfamento e na passada rápida), e de como as mulheres particularmente eram desencorajadas a correr, visto que era uma coisa muito pouco feminina (a teoria da mulher como objeto para ser admirado/possuído e não como sujeito, explicada n'O Segundo Sexo, assenta aqui que nem uma luva). O panfleto explicava depois como tinham surgido os primeiros grupos de atletismo em Mafra e, consequentemente, esta corrida emblemática.   
 
No outro dia, enquanto deambulava pela Internet fora à procura da próxima sessão de masoquismo corrida, descobri os 20 km de Bruxelas. É um percurso espetacular, que passa por vários sítios icónicos aqui do burgo, e grande parte deles são meus percursos habituais de treino. Seria a minha última oportunidade de participar numa corrida aqui na Bélgica, e, não fosse dar-se o caso de aquilo calhar num domingo de manhã após uma semana de trabalho intensivo fora do país, seria perfeito. Mas o cansaço antecipado dessa semana é um grande travão no meu entusiasmo por isso a corrida estava já a modos que descartada.
 
Até que uma coisa me chamou a atenção:



Que desequilíbrios são estes?! Onde estão as meia-maratonistas?? A decisão foi imediata. Pois se o percurso familiar não chegar para o sacrifício, a vontade de contribuir para desconstruir pressupostos servirá. 




S.

Senhora e senhor

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Já é a segunda vez que vou à caixa de correio buscar um envelope da Igreja das Testemunhas de Jeová aqui da zona. É um daqueles panfletos de publicidade ("Venha connosco celebrar a morte de Jesus!") mas o especial é que vem dentro de um envelope endereçado à "Família X". Já é a segunda vez que me enganam porque fico sempre entusiasmada a pensar em quem nos terá escrito. Não sei se o que me irrita mais é ter publicidade religiosa camuflada na minha caixa de correio se é que ela venha sempre endereçada ao apelido do macho da casa. Nós somos uma família, sim, mas temos um apelido cada um e na caixa do correio eles figuram os dois. Ou endereçam aos dois apelidos ou metem um envelope para cada um. Como quando fomos abrir a conta de garantia de renda em nome dos dois e, apesar de a conta principal estar apenas em meu nome, o apelido do macho da casa aparece como proprietário por default. Porquê? Ninguém nos perguntou nada. Não se parta de pressupostos.
 
  
 
 
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O ginásio onde ando tem uma modalidade em que com apenas uma inscrição os membros do agregado familiar podem todos frequentar o mesmo ginásio, ainda que não ao mesmo tempo. Quando fui perguntar se podia adicionar o D. à minha inscrição e quais as condições não conseguia dizer a palavra em francês. Posso muito bem ter passado por pessoa-a-quem-dá-quebras-a-meio-da-conversa-como-se-lhe-acabasse-as-pilhas porque fiquei uns 10 segundos a pensar a meio da frase. "Est-ce que je peux ajouter mon... ... ... ... ... ... ... mari à mon abonnement?" Não me saía a palavra francesa para namorado, acho que tem qualquer coisa a ver com "copin" ou "petit ami". Mas a mim não me soava certo (amigo? colega???) e o senhor que me estava a atender não ia perceber. Ia pensar que eu estava a falar de um amigo qualquer e teria que perder o dobro do tempo a explicar-me o que eu já sabia, que isto é só para pessoas do mesmo agregado familiar e que para amigos não dá. E eu tinha que lhe explicar de seguida que não, que ele vive comigo e que portanto somos do mesmo agregado familiar, está tudo bem. E isto é faladura francófona a mais para mim. Parceiro ainda soa pior, companheiro idem. Por isso agarrei na única palavra inequívoca, ainda que não seja a verdadeira, mas que me cortaria caminho na interação. E isto se calhar é precisamente o que o casamento é, poder-se falar para o exterior numa linguagem que toda a gente entende. É apenas esse o único propósito que lhe acho. Como a história do apelido: sinalizar a toda a gente, inequivocamente, que se é da mesma família.




S.   


terça-feira, 8 de abril de 2014

Isto nem é uma metáfora feminista mas podia ser

Notei há uns tempos, por puro acaso, que após uma corrida longa não há nada melhor do que andar de saltos altos.







(Alonga as palmas dos pés. Quem diria...)



S.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Bom dia, Europa!

"Scotland to switch to driving on the right if independence given green light"

(...) "'It sends out an explicit signal: we are part of Europe,' said one of the brains behind the scheme. 'The little Englanders who want out of Europe are the only ones driving on the left-hand side. We've been the smaller relative dominated and having to copy their ridiculous ways for too long. No more. Just think, this will be an indignity for little England – isolated in Europe and pootling along in the slow lane on the left,' he added."

Notícias destas logo pela manhã fazem cócegas ao meu fascínio pelos nacionalismos UKianos. =)






S.

sábado, 29 de março de 2014

Descrever uma cidade em 5 palavras

Antuérpia é Amesterdão mas em feínho.







S.


P.S. Claro que mais feínho que Amesterdão continua a ser 10 vezes mais bonito do que Bruxelas, mas ainda assim. Compara-se coisas comparáveis e Antuérpia está na liga das cidades-País-Baixo enquanto Bruxelas, bom, sinceramente não sei.

P.P.S. Sim, já é o terceiro fim-de-semana que temos com vinte graus e sol desde o início ano, após termos tido o inverno mais ameno de que há memória, e então? Não podem ser sempre os mesmos a sofrer agruras climatéricas.


 

quinta-feira, 27 de março de 2014

O pão de homem é o novo espinafre

A Feministing escreveu um artigo que eu gostava muito de ter sido eu a escrever: "The most pointlessly gendered products."
 
Desde que descobri o man-washer que sei que há todo um mundo disparatado de produtos para ele e para ela por explorar. Os exemplos do artigo são ainda melhores:

- lenços de papel:
 

"Because Real Men's tears are too big and strong for regular tissues."
 
 
- Pão (!!! eu sei. Pão). Porque aparentemente existe pão de homem (literalmente, men's bread) e pão de mulher, como existe comida de cão e comida de gato, nunca podendo ser confundidos. Os cães não podem comer comida de gato mas os gatos podem comer comida de cão. Quem será o cão e quem será o gato neste jogo das pseudo-diferenças?...
 
 
 
 
- Ovos (!!! idem). Ovos de princesa e ovos de pirata, com as respetivas cores rosa e azul a marcar cada um para que os meninos e as meninas aprendam desde muito cedo quem são e do que devem e não devem gostar. Oh meu deus, e se houver um filho e uma filha na mesma casa? Como fazer para não dar a um e outra o ovo estrelado da caixa errada?! Como impedir que a criança cresça sem problemas de identidade se comer acidentalmente o ovo errado?! Mas alguém já deve ter pensado nisto e de certeza que existem frigideiras de princesa e de piratas, para cozinhar os ovos homónimos. O importante é não haver confusão, valha-nos deus.
 
 
 
 
- Ligaduras de pulso. Porque os pulsos são aquela parte do corpo humano que nos distingue entre homens e mulheres, como toda a gente sabe.
 
 
 
 
Eu ficava nisto a tarde toda mas a verdade é que isto é coisa para se tornar aborrecido. Podem sempre checar o álbum que a Sociological Images compilou no Pinterest sobre estes produtos. Que foi aliás onde as escritoras da Feministing se inspiraram.
 
 
 
 
 
S.