sexta-feira, 6 de junho de 2014

Brace yourselves, summer is coming

Por falar na zona parva climatérica que torna operações militares em fracassos: quando uma pessoa recebe um e-mail do seu fornecedor de internet-tv que começa desta forma:
 
"Caro/a cliente,
 
O verão está a chegar e com ele o seu lote de tempestades. Sabia que os seus aparelhos eletrónicos podem ser danificados devido a uma tempestade?"
 
não haverá muito mais a dizer. Que eles achem que a primeira frase faça sentido - pior, que ela faça mesmo sentido - diz tudo.
 




S.

E você, onde estava há 70 anos?

Nesta última semana, os canais belgas, franceses e britânicos andaram a emitir uma quantidade incrível de documentários, filmes e reportagens sobre o Dia D. Eu andei no sétimo céu.
 
Há cerca de 2 anos estivemos na Normandia numa espécie de viagem de romaria e de aprendizagem sobre o início da libertação da Europa ocidental do domínio Nazi. Não me lembro de alguma vez me ter sentido tão pequenina e tão cheia de gratidão. Pequenina pelos mares de cruzes naqueles cemitérios de guerra e tão cheia de gratidão pelas pessoas que arriscaram e deram a sua vida para que gerações futuras pudessem viver em liberdade.
 
Mas para além dos sentimentos esmagadores e de assombro, o desembarque na Normandia e o Dia-D em particular foram manobras estratégicas e de logística incrivelmente interessantes em si mesmos. E é isso que me continua a puxar para isto.
 
Como o exército completo de insufláveis que os ingleses criaram de forma extremamente realista e meticulosa em Dover, apelidado mais tarde de 'Ghost Army', só para que os alemães pensassem que o desembarque seria em Pas de Calais. (O que seria lógico por ser a parte mais próxima entre o continente e a Grã-Bretanha.)




Ou o facto de os Aliados, face à impossibilidade de tomar um porto francês na Normandia, terem decidido construir um no sul de Inglaterra, desmanchá-lo, transportá-lo por partes através do Canal da Mancha, e voltarem a montá-lo em Arromanches. Um porto. Não um barco, nem sequer um porta-aviões, nem um armazém. Um porto inteiro, do tamanho do porto de Dover e ao qual chamaram 'Mulberry Harbour'.




Igualmente incrível o facto de a armada que zarpou a 4 de junho de 1944 do sul de Inglaterra em direção à Normandia ter sido a maior armada que o mundo já viu.


E que 150 000 Aliados desembarcaram na Normandia em 24 horas.



Mas mesmo assim, dias depois do desembarque, o Hitler continuava convencido que aquilo era uma manobra de diversão e que a verdadeira invasão ainda estava para vir, em Calais como ele estava convencido (a des-informação que envolveu não só o exército de insufláveis, mas toda uma operação de dissimulação completa com especialistas cinematográficos para enganar os aviões alemães de recomhecimento, construção de barracões militares e barcos a zarparem para Calais ao mesmo tempo que os da Normandia, enviando sinais como se fossem muitos aos radares alemães.) Ainda assim, não sei quantos homens é que o Hitler achava que os Aliados estavam a esconder e onde, se o Dia-D (formalmente conhecido como Operação Overlord) foi a maior operação anfíbia que o mundo já havia visto.
 
Outra coisa espetacularmente previsível, mas ainda assim espetacular, foi o facto de a tal Operação Overlord estar originalmente marcada para o dia 5 de junho mas assim que zarpou da costa inglesa, no dia anterior, ter estalado uma tempestade terrível no Canal da Mancha. Não dá. É o líder militar a marcar as coisas para junho para ver se o verão ajuda na probabilidade de o tempo se portar bem e é esta zona climatericamente parva a furar-lhes os planos. Já o Napoleão foi assim que se lixou em Waterloo.
 
Finalmente, o facto mais trivial destes todos mas igualmente curioso: os franceses chamarem ao Dia-D: 'Jour-J'. Não sabia que a letra tinha tradução.




S.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Ele há coisas... #46

Estou a ver pessoas a correr na televisão. Profissionais. Só me ocorre uma coisa:
 
Mas será que a humanidade ainda não evoluiu o suficiente para inventar um melhor método para prender dorsais do que com alfinetes de dama?




S.

terça-feira, 3 de junho de 2014

sábado, 31 de maio de 2014

Yorkshirianos não tarda muito

Há poucos meses atrás não sabia nada sobre Sheffield além de que era a cidade dos Arctic Monkeys e que tinha um passado industrial importante. Não a sabia localizar no mapa nem fazia ideia de com o que é que se parecia. Esta semana ficou decidida como a nossa próxima casa.
 
Entretanto já a visitei, já me eduquei sobre ela, e estou francamente otimista quanto à universidade que me irá acolher, quanto ao meu curso, e quanto ao meu supervisor. Ainda é um bocadinho estranha a sensação de me ter despedido voluntariamente do meu emprego para mergulhar no incerto e voltar a ser estudante mas estou confiante. Confiante de que é isto que quero mesmo fazer e de que é em Inglaterra que queremos estar.
 
Entre nos despedirmos de vez de Bruxelas e refazer as malas para Sheffield haverá um capítulo curtinho em Portugal. E uma viagem de mil quilómetros em cima de duas bicicletas para fazer.




S.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Ir ao fundo e voltar

Na quarta-feira voltei aos treinos de corrida, após dois meses desde o último. Eu considero-me uma pessoa em forma - ando a pé vários quilómetros todos os dias, ando de bicicleta, de vez em quando vou ao ginásio - mas a corrida confirmou-se-me mais uma vez como sendo qualquer coisa à parte. Foram só 5 km mas o meu corpo manifestou todas as manhas como se tivessem sido 15 ou 20, manhas essas que já lhe conheço à distância. É o "ai que isto custa", dramáticozinho e cedo demais para que eu lhe dê algum crédito, é a dorzinha num tornozelo qualquer ao início que em insistindo desaparece como por magia, é o desconforto na barriga quando descobre que os pontos anteriores não funcionam, é o aborrecimento por ver que a coisa ainda não vai nem a meio. Já tinha saudades da luta constante entre corpo e mente tão típica deste meu hobby. Não consigo perceber quem desdenha das pessoas que se dedicam de corpo e alma a estes desportos, que fazem deles sua vida e profissão. Como se houvesse uma dicotomia entre intelectualidade e forçar o corpo aos seus limites, como se para este último não fosse preciso um uso incrivelmente poderoso da mente, como se superar barreiras físicas não fosse algo sublimamente humano e nobre. Amo as Rosa Motas e Carlos Lopes desta vida tanto quanto amo os Saramagos e Stephen Hawkings. O que fazem é o mesmo na sua essência: elevar a humanidade a novos picos de conquistas.
 
Voltando ao relato mais sóbrio do meu humilde regresso às corridas, pela primeira vez treinei com o relógio contador dos quilómetros. Foi uma espécie de revolução porque agora posso correr de forma espontânea pela cidade, posso virar aqui ou ali, onde quer que me dê na gana, não estou presa a percursos pré-calculados e repetidos ao infinito só porque indo por eles sei exatamente os quilómetros que corri. E é importante saber quanto se corre. Tanto para se ir aumentando como para estabelecer "hoje corro X, não vale a pena o corpo se meter com manhas". Posso descobrir novas ruas, novos bairros, gravar a cidade no coração porque a sofri com as minhas passadas e o meu suor. Aliás, duvido que tenha sido coincidência ter começado a gostar de Bruxelas ao mesmo tempo que a palmilhava nos treinos longos para a meia-maratona. Passou a ser cidade minha.
 
 
 
 
S.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Ele há coisas... #45


Isto era o banner gigante que esteve durante vários dias no edifício da Comissão Europeia. "This time it's different", diziam eles. Acho que não era bem este diferente que estavam à espera.

Se a ironia matasse...




S.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Super-dimanche na Bélgica

No domingo foi dia de super-eleições aqui na Bélgica. Para além de votarem para o Parlamento Europeu, os belgas votaram para o parlamento federal e para os parlamentos regionais (Flandres, Valónia, Bruxelas, e parte-germanófona-que-acho-que-não-tem-nome). Podem imaginar a quantidade de cartazes com diferentes caras de candidatos que andaram aí afixados nas ruas.
Uma vez que não estou autorizada a votar para as Federais e Regionais, e nas Europeias escolhi votar nos partidos portugueses, passou-me muito ao lado as campanhas belgas. Não que fosse pela falta de informação ao meu dispôr, já que panfletos de campanha encheram a minha caixa do correio todos os dias durante três semanas. Infelizmente, nenhum deles tão apelativo como o do senhor do cão.
Mas agora ando com uma curiosidade inédita sobre a política belga neste pós-super-eleições. O sistema político deste país é tão multi-nivelado, tão multi-partidário, tão complexo e tão cheio de jogos de cintura que dá gosto acompanhar. E depois é aquilo das nacionalidades e da possibilidade do separatismo flamengo sempre à espreita.
Por falar em separatismo flamengo, o partido nacionalista flamengo N-VA ganhou as super-eleições. Para o nível europeu foi o mais votado (foram 10 os partidos a eleger gente para o PE) e para o nível federal também ( foram 13 [!!!] os partidos a eleger gente para o parlamento federal). O que significa que o chefe dos separatistas flamengos está agora encarregue de formar governo belga.
Ontem o senhor primeiro-ministro belga demitiu-se após o seu partido ter perdido as eleições (ele é do PS) e o rei mandou logo chamar os chefes dos partidos todos para começar o processo de formação de governo, por ordem de votos conseguidos. Achei muita piada os jornais enfatizarem que o rei estava com pressa, e que não queria perder tempo nisto de formar governo. Exato. Se for como em 2010 que a Bélgica esteve sem governo durante mais de ano e meio (mais tempo do que o Iraque, para se ter uma ideia do hardcore que é o bloqueio do sistema político belga) não pode haver mesmo tempo a perder. Nessa altura tiveram que fazer uma reforma constitucional e o caraças, para se entenderem finalmente, do tipo, mudar limites de regiões para acomodar birras flamengas e o senado federal deixar de ser eleito diretamente, e assim. Com 13 partidos com quem formar coligações imagine-se o trabalhinho e jogo de cintura que não vão ser precisos nos próximos meses.
De salientar só que o N-VA é nacionalista mas não é de extrema-direita, é um partido de centro-direita, moderado. A minha colega belga diz que eles não odeiam outras raças ou estrangeiros porque estão demasiado ocupados a odiar os valões (os da parte francesa). Eu acho que mesmo assim é porque os belgas são um povo sossegadito e pequenino como nós os portugueses, sem grandes nacionalismos inflamados enquanto país (vão se agarrar ao quê, também, como símbolo nacional, às frites?!), que têm consciência do seu peso fraco-moderado na cena europeia e que lá vão andando nas suas negociações governativas com uma paciência de santo. Não têm tempo nem pachorra para odiar povos.
Fiquei um bocado triste quando ouvi que o primeiro-ministro atual se tinha demitido, embora agora perceba que era expectável, foi porque perdeu as eleições, não se demitiu, demitiu.




Tinha um sorriso fácil e grande, e usava laços. Fazia lembrar um ventríloquo, ou um apresentador de circo. Gosto das pessoas que sorriem com os dentes todos.
Isto foi a melhor análise política do senhor Elio di Rupo que consegui arranjar. Só agora, a menos de um mês de me ir embora da Bélgica, é que ganhei séria curiosidade sobre a política daqui. É um bocado triste. Soube da aprovação da eutanásia para menores há poucos meses e fiquei pasmada com a serenidade com que este povo aprova coisas que seriam pólvora acesa noutros países e com o pouco alarido com que lá vai fazendo o seu caminho pioneiro no quebrar de barreiras ao pleno cumprimento dos direitos humanos.
Nestas super-eleições a abstenção foi de 10%, percentagem capaz de dar sonhos molhados a muito bom democrata. A razão é o voto ser obrigatório e ter que pagar multa quem não comparecer. Os belgas não brincam em serviço, se é para votar É PARA VOTAR, se é Dia Europeu Sem Carros É SEM CARROS (são proibidos nesse dia, a sério). Não confiam no civismo das gentes, pronto.
Ainda estou intrigada com o facto de o Museu de História Militar aqui em Bruxelas, que está com uma exposição interessantíssima sobre a guerra de 14-18 e que eu estou há meses para visitar, ter estado fechado no dia das eleições. Sendo que tinha um papel afixado a declarar que estava fechado por causa das eleições e o museu do lado, o do automóvel, estar aberto, é de suspeitar que há ali uma razão especial que eles entendem necessária para que as pessoas mão o possam visitar em dia de escrutínio político. Será para não exacerbar nacionalismos dispensáveis? Para não agudizar ressentimentos históricos? Gostava de ter a certeza.
A Bélgica é um país profundamente interessante do ponto de vista político e eu só tenho pena de não ter estado nem aí nestes dois últimos anos. Só se quer quando não se tem, não é, triste.
S.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Do mal o menos

Assim que apareceram os primeiros resultados das eleições e vi os 7 porcento e tal do Partido da Terra a minha reação foi: "Ena, os portugueses estão a começar a preocupar-se a sério com o ambiente!




A minha ingenuidade chega a ser querida.

S.