quarta-feira, 10 de setembro de 2014

... e dois atrás

Uma pessoa sabe que afinal ainda não é crescida quando aos 26 anos vai viver pela primeira vez para uma residência de estudantes. E está mesmo feliz com isso.



S.

Um passo à frente...

Uma pessoa sabe que está a ficar crescida quando os pais começam a tratar os nossos amigos por "você".




S.

domingo, 7 de setembro de 2014

Divórcio britânico iminente

 
E não é que, vai-se a ver, e a Escócia está prontinha a abandonar o Reino Unido?
 
Durante meses e meses as sondagens davam uma distância confortável entre o não e o sim para que houvesse prospetiva realista de uma rotura na união constitucional com mais de 300 anos. A campanha do não, o Better Together, fez trapalhada atrás de trapalhada - o conlúdio dos três principais partidos na recusa terminante de uma união monetária que cheirou aos escoceses como bullying, e o mais recente anúncio sexista e condescente a apelar ao voto das mulheres foram só dois exemplos - mas ainda assim o não mantinha-se confortavelmente à frente do sim nas sondagens. Até eu, entusiasta exterior em todo este processo de independência, já tinha os ânimos mais refreados por ver que o não estava mais do que ganho.
 
Agora, a 11 dias do referendo, aparece a notícia bombástica de que o sim está na liderança pela primeira vez desde que a campanha começou. Já andam os políticos todos em Westminster com as mãos na cabeça, ai ai ai, que temos 10 dias para salvar a união. Pois.
 
Os 51%-49% em favor do sim não têm em consideração os indecisos, pelo que está tudo em aberto e não há certeza absolutamente nenhuma sobre o que irá acontecer dia 18 de setembro. Mas o não há um mês tinha uns 14 pontos percentuais de diferença do sim... Quer dizer, parecer que as pessoas estão a mudar de ideias em massa, e os indecisos a converterem-se ao sim. (Segundo a mesma sondagem do YouGov, incluindo os indecisos ou os que não irão votar, os resultados seriam 47%-45% para o sim.)
 
A campanha do não já anunciou que nos próximos dias vai apresentar uma proposta monumental para conferir novos poderes à Escócia caso esta decida se manter na união, que incluirá poder de decisão sobre o orçamento e impostos, no que é habitualmente referido como devolution-max. E que estes poderes serão discutidos também com os outros dois países do Reino Unido: Irlanda do Norte e País de Gales, não vão eles meter-se com ideias no futuro próximo. Ou seja, seja como for que os escoceses votem, parece que o status quo não se manterá. Agora é uma questão de saber se o último trunfo na manga dos unionistas convencerá os escoceses ou será mais um tiro na culatra da campanha pelo não.
 
E eu estou em pulgas com isto tudo porque dia 18 já vou estar em solo britânico, vou poder acompanhar um país inteiro a tremer de nervoso pelo seu futuro. E quem sabe receber a notícia que afinal o meu novo país hospedeiro terá menos 78387 km² do que eu esperava.     








S.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Correr uma maratona será a coisa mais feminista que já fiz


Já dizia a Simone de Beauvoir que uma das coisas que mais contribui para a aparência e sentimento de inferioridade e fragilidade das mulheres é o facto de não lhes ser estimulado o lado físico durante a infância e adolescência. Coisas como subir a árvores, jogar futebol nos intervalos e afins são experiências ainda de rapaz. Tenho a impressão que as coisas estão a mudar devagarinho mas o cunho de "maria-rapaz" ainda é demasiado usado para rotular crianças que gostam destas coisas e que por acaso não são rapazes. A rapariga quer-se sossegada, bem-comportada, enfeitada, não de calças rotas e pés sujos.
 
"Cette impuissance physique se traduit pour une timidité plus générale: elle ne croit pas avoir une force qu'elle n'a pas experimenté dans son corps; elle n'ose pas entreprender, se révolter, inventer: vouée à la docilité, à la résignation, elle ne peut qu'accepter dans la société une place toute faite."
 
"Esta incapacidade física traduz-se numa timidez mais geral: ela não crê ter uma força que nunca experimentou através do corpo; ela não se atreve a empreender, a se revoltar, a inventar: votada à docilidade, à resignação, ela não pode aceitar na sociedade mais do que um lugar pré-determinado."
 
O corpo feminino é sobretudo feito para ser visto e admirado como um objeto, não para ser sujeito e ativo. A atividade, em havendo, é para servir o propósito de o melhorar para admiração, seja perdendo peso, seja tonificando-o, seja combatendo a odiada celulite, nunca sendo um fim em si mesma. Por isso mesmo durante tanto tempo o desporto feminino foi quase um oxímoro, algo indesejado porque masculinizava as mulheres, associando-lhes características tão horríveis e tão não-femininas como competição, força, determinação, liberdade.
 
Pois, a liberdade. Descubro agora que é exatamente isso que me move a mim - e, suspeito, muitos outros corredores amadores - a voltar uma e outra vez à estrada mesmo quando no dia anterior os pulmões quase explodiam, o coração quase saltava da caixa toráxica e o estômago quase se revoltava com o esforço desconhecido. Não é masoquismo, é amor animal à liberdade que pôr um pé à frente do outro e repetir o mais rápido possível nos dá. É saber que só com os meus pés consigo fazer um caminho que durante toda a minha vida fiz de carro, milhares de vezes. Saber que hoje sou capaz de correr daqui à Ericeira. E para a semana sou capaz de ir e voltar. E que daqui a um ano conseguirei correr até Lisboa, se quiser. Só com o meu esforço, com o meu corpo, mais nada. Há lá ideia mais libertadora do que esta?
 
Não admira que até há menos de 40 anos não houvesse maratonistas. Até aos anos 60 não havia nenhuma prova olímpica feminina de corrida com mais de 200m. Havia a ideia de que não era apropriado as mulheres correrem longas distâncias. Apesar de uma mulher, Stamatis Rovithi, ter corrido uma maratona pela primeira vez em 1896 e de nesse mesmo ano Melpomene ter corrido a maratona olímpica estando registada mas sendo-lhe negada a entrada no estádio para a meta, estávamos em 1972 e a mundialmente famosa Maratona de Boston proibia formalmente mulheres de correrem a distância mítica dos 42195 metros. Proibir, vejam bem. Não bastava desencorajar (pensar em 42 km já é desencorajador o suficiente, ainda mais para uma mulher de meados do séc. XX, bem consciente da sua inferioridade física e das características que uma mulher de bem deve possuir, sendo que a destreza e resistência físicas não eram duas delas). Uma das mulheres que desafiou essa proibição só foi descoberta uns quilómetros depois de começar e escapou à perseguição dos organizadores com a ajuda dos colegas de equipa que lhes bloquearam o caminho. Outra escondeu-se atrás de um arbusto perto da linha de partida e zás, largou a correr quando a prova começou, outra foi puxada mesmo antes de meta e impedida de acabar. Em 1972 lá os organizadores da Maratona de Boston permitiram que mulheres também corressem na prova, após estas persistentes corredoras e a proibição da sua ambição terem ido parar à primeira página dos jornais americanos.
 
Mesmo assim foi só em 1984 que a maratona feminina se estreou como prova olímpica. 30 anos. 30 ANOS. Há pouco mais de 30 anos ainda andavam os paspalhos do comité olímpico a arranjar desculpas como "não é aconselhável as mulheres correrem tanto, faz-lhes mal" (mesmo depois de vários médicos terem emitido comunicados a dizer que não havia nenhum entrave físico a que mulheres pudessem correr maratonas) para não deixarem atletas correrem uma maratona olímpica. A condescendência sempre foi um aliado da resistência à emancipação feminina. No desporto não seria diferente.
 
Ide ler sobre a luta pela instauração da maratona olímpica feminina, que é de uma novidade que eu não fazia ideia. A luta pela igualdade num sítio inesperado.
 
Posto isto, não é surpreendente que uma feminista e apaixonada recente disto do meter um pé à frente do outro e repetir rápido tenha decidido que o seu próximo objetivo é correr uma maratona. Quero engordar as fileiras femininas das maratonas, quero ser mais uma a desafiar o que é suposto uma mulher fazer ou não fazer, conseguir ou não conseguir, gostar ou não gostar. Porque a verdade é que eu falo de liberdade animal, da ânsia de comer estrada com os pés e de saber que consigo ir até ali, mas a corrida deu-me outra liberdade, inesperada: a liberdade de desafiar as amarras do meu género. O meu corpo é o meu maior aliado, sou eu, não é nenhuma máscara inerte e exterior a mim, fonte de ansiedade por não corresponder a padrões impossíveis. A minha perspetiva sobre o que posso fazer com ele mudou irremediavelmente, e com ela a minha perspetiva sobre o que me faz feliz. Deixei de ter paciência para enfeites, adornos, roupa restritiva, calçado que me impeça de saltitar se me apetecer (ainda não apeteceu, mas gosto muito de caminhar durante horas, o que em termos de calçado vai dar ao mesmo). Não desdenho nenhuma destas coisas, simplesmente agora aceito de uma vez por todas que não as quero, elas não me servem. Isto sempre foi verdade, a diferença que a corrida trouxe foi levar-me a admitir isto de uma vez por todas. Por outro lado, agora amo vestidos, calções e saias rodadas como nunca. A minha dicotomia não é feminino-masculino, é restritivo-confortável. Só acontece que as duas coincidem demasiadas vezes e não por acaso:
 
"Les coutures, les modes sont souvent apliquées à couper les corps féminin de sa transcendence: la Chinoise aux pieds bandés peut à peine marcher, les griffes vernies de la star d'Hollywood la privent de ses mains, les hauts talons, les corsets, les paniers, les vertugadins, les crinolines étaient destinés moins à accentuer la combrure du corps féminin qu'à en augmenter l'impotence."
 
"As costuras, os padrões são frequentemente aplicados para privar o corpo feminino da sua transcendência: a chinesa com os pés enfaixados mal podia andar, as unhas envernizadas da estrela de Hollywood privam-na das suas mãos, os saltos altos, os espartilhos, as cestas, a armação dos vestidos, as crinolinas foram destinados menos a acentuar o corpo feminino do que a aumentar a sua impotência."
 
 
Já aqui tinha falado disto mas näo resisto porque afinal quase tudo nisto da desigualdade dos sexos vai parar ao mesmo: a visão do corpo feminino como objeto, para ser olhado, admirado, possuído, e nunca como um sujeito.
 
Assim, e para terminar, fico contente que duas paixões que me surgiram paralelas se complementem tão bem e agora até se alimentem uma à outra. Correr uma maratona não é a coisa mais feminista que se pode fazer (até porque há as ultras, haha) mas será sem dúvida a coisa mais feminista que eu já fiz. Desafiarei os meus limites, desafiarei as amarras do meu género e manter-me-á na linha da pessoa que eu quero ser. E eu quero ser a pessoa que chora ao ver Lisboa a aproximar-se, só que desta vez pelo chão. Maratona EDP de Lisboa de 2015, me espera.
 
 
 
 
S.       

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Até a Playboy sabe

Um diagrama sobre o mandar ou não mandar piropos.
 

Da feministíssima Playboy, nem mais.



S.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Veados algarvios em sonhos concretizados

Depois de incursões falhadas a Windsor, ao Richmond Park e até à Tapada de Mafra, foi no Algarve que eu concretizei o meu sonho de confraternizar com veados.



Animais maravilhosos e altivos, não sei quem estava mais nervoso com a aproximação, se eu ou eles. Parecendo que não, há ali muito chifre pontiagudo e afiado. E, pelo outro lado, os humanos são animais de movimentos bruscos e barulhentos. A desconfiança era, portanto, mútua.





 
No final, não só confraternizei com eles como ainda vieram comer à minha mão. Ainda estou em êxtase. 





S. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Sexismo na BD e exercícios inversos

Uma amante de banda-desenhada decidiu desenhar conhecidos super-heróis com fatos altamente sexualizados, como são as indumentárias típicas das super-heroínas. Este é mais um daqueles exercícios de inverter os papéis, que na minha opinião são a forma mais eficaz de provar certos pontos.




Tudo DAQUI.

As intenções dela, segundo o artigo, eram:
 
- fazer com que a primeira coisa que se pensasse assim que se olhasse para as imagens era em sexo, quer se queira quer não;
 
- fazer com que as pessoas do sexo masculino que vissem as imagens se sentissem desconfortáveis;
 
- tornar a coisa num exercício humorista, porque ao fim e ao cabo, torna-se cómico.




S.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Mulheres anti-feministas e árvores anti-ambientalistas

(Sobre a hashtag #WomenAgainstFeminism e as mulheres que acham que viveriam melhor sem o feminismo.)


Eu poderia vir para aqui falar de como o conceito de "vítima" é incrivelmente mal interpretado quando se fala de "vítima de violência doméstica", "vítima de assédio sexual", ou "vítima de discriminação", achando-se que "vítima" é sinónimo de pessoa fraca, indefesa, ou sem capacidade de resposta (não é. Vítima é toda e qualquer pessoa a quem lhe acontece um fenómeno castrador dos seus direitos ou que de alguma maneira lhe limita a vida. Uma "vítima de um acidente" ou "vítimas de um terramoto" não tem nada que ver com as características de uma pessoa, é tão só e apenas serem recetoras do fenómeno em questão). Mais AQUI.




Também poderia desenvolver a questão de como a mentalidade individualista é cada vez mais uma vencedora, porque o ênfase na nossa sociedade está cada vez mais no indivíduo, nas escolhas que cada um faz, e que se ele se esforçar mesmo, mesmo muito, consegue este mundo e o outro (duvidam da hegemonia desta mentalidade? É só recordar que até o livro de auto-ajuda mais famoso, O Segredo, a incorpora, envolvida em pseudo-misticismo: se eu quiser mesmo muito uma coisa, o Universo encarregar-se-á de me a dar. Não a consegui? Foi porque não a quis suficientemente.) Nesta mentalidade não há espaço para desigualdades estruturais, para discriminação laboral, para racismo ou sexismo institucionalizados. Se há poucas mulheres no topo das carreiras é porque elas não têm ambição nem se esforçam o suficiente, se há pessoas pobres a receberem subsídios de reinserção é porque não querem é trabalhar. No mundo dos individualistas, todas as pessoas nascem com as mesmas condições de partida e por isso todas têm as mesmas opções de sucesso. Quem não consegue, é porque não estudou/se esforçou/desejou/batalhou/perserverou o suficiente. Discriminação, meio social, privilégios, pobreza, sexismo, racismo, riqueza, nada disso tem importância. É o indivíduo e as suas "escolhas" que determinam quem ele será. Mais AQUI.
 
No final, talvez a mensagem mais eficaz de como esta campanha acerta tão ao lado seja a analogia tão pertinente ao ambientalismo:    






S.

P.S. - É incrível a quantidade de estereótipos hilariantes que estão reproduzidos na maioria daqueles cartazes e a ignorância geral sobre o que o feminismo realmente é e pelo que luta. É de uma pessoa perder fé nas mulheres. Faz-me sempre lembrar aquela frase de Voltaire que diz: "Eu discordo do que dizes mas lutarei até à morte pelo teu direito de o dizeres."


 


quarta-feira, 23 de julho de 2014

O encantamento da maternidade

Every year we set aside
A very special day
To remind you, Martyr Dear,
That home is where you stay.

Your family wants do thank you
For your martyrdom
After all, without you
No real work would get done.

While Hubby challenges the world
His wonders to perform
You cook his meals, clean his home
And keep his bedside warm.

Your children are your challenge,
In them your dreams are sown,
You've given up your own life
And live for them alone.

Now look upon your daughter
Will she too be enslaved
To a man, a home, a family
Or can she still be saved?

This is your real challenge -
Renounce your martyrdom!
Become a liberated mother
A woman, not a "mom".

Mother's Day Incantation, by WITCH (Women Interested in Toppling Consumer's Holidays), submovimento da segunda vaga feminista de finais da década de 60, inícios de 70.

Tirado do incrível abre-olhos que está a ser o livro The Mommy Myth - The Idealization of Motherhood and How It Has Undermined All Women (das autoras Susan J. Douglas e Meredith M. Michaels). 

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Indo eu, indo eu, a caminho de Caminha

Já estamos em Portugal e já estamos de partida. Ainda não acredito que vamos mesmo embarcar nesta viagem de bicicleta e as minhas pernas nem suspeitam da sova que vão levar. Provavelmente, nem a mente está ainda consciente do que vamos fazer. Ignorância é bênção, deixa-as estar.
 
A partir de amanhã e durante o próximo mês vamos estar aqui.


Desejem-nos sorte e força nas canelas. :)




S.