sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A importância de escrever um blog

"Left to ourselves we can all of us keep conflicting ideas in play almost indefinitely, selectively paying attention to what fits our needs of the moment and ignoring the tensions with what we said or thought yesterday, or the day before that. Writing things down in a systematic way is an act of commitment, a decision to firm up and crystallize what we think, to prevent this constant reprocessing and reconfiguring. Like all such resolutions of uncertainty, making this commitment is psychologically difficult, possibly forcing each of us to confront the feebleness or inadequacy of our own thought."
 
 
"Sozinhos todos nós conseguimos manter ideias contraditórias quase indefinidamente, dando atenção seletiva ao que serve as nossas necessidade do momento e ignorando as tensões entre o que dissemos ou pensámos ontem, ou no dia anterior. Escrever as coisas de forma sistemática é um ato de compromisso, uma decisão de cristalizar o que pensamos, para impedir este reprocessar e reconfigurar constante. Tal como todas as resoluções de incerteza, fazer este compromisso é difícil psicologicamente, possivelmente forçando cada um de nós a confrontar a fraqueza ou imperfeição do nosso pensamento."
 
 
Gostei tanto desta citação porque explica perfeitamente a quantidade de posts em rascunho que tenho guardados, e o número de vezes que me apetece escrever sobre um assunto mas me falta coragem. Escrever não é transformar o que pensamos sobre um assunto em palavras, é mais penoso do que isso. Implica escolher uma posição e defendê-la, e, pior, ignorar todas as outras a que também reconhecemos pontos bem-vistos mas que no seu todo nos dizem menos. E isso por vezes implica reconhecer, no final, que a nossa posição não é tão defensável como gostaríamos. E isso é psicologicamente muito desconfortável.
 
 
 

 
 
 
 
S.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Isto nem devia merecer um post

Mas qualquer agulhofóbico sabe o quão sensacional é a seguinte vitória:
 
Fui levar uma vacina hoje, sozinha pela primeira vez na vida. Reformulando: não só tomei a iniciativa de ir levar esta vacina como ainda o fiz desprovida de qualquer coação (i.e. mãe a dizer "tem que ser"). Estou incrivelmente orgulhosa de mim própria.
 
E nem desmaiei! Nem estive nervosa a semana toda anterior, só uns minutinhos na sala de espera, mas o nervoso equivalente a quando queremos que uma coisa passe de vez (reunião, apresentação em público e afins). O fator novidade é capaz de ter ajudado, uma vez que sempre que o meu cérebro resvalava para antecipações detalhadas de "Será que vou sentir o líquido a entrar pelo braço adent... olha este anúncio tão giro sobre a clamídia!" (Sou como as crianças, dá-se-lhes uma distração qualquer fora do comum passa-lhes logo o choro.)
 
Acho que é capaz de ser isto o que eles chamam de envelhecer, não?





S

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Lição de ética

Era uma vez um jogador do Sheffield United chamado Ched Evans. Um dos melhores jogadores da sua geração, marcou muitos golos pelo clube, chegou a ser capitão da seleção do País de Gales, jovem promissor. Aqui há uns anos, foi condenado a 5 anos de prisão por violar uma rapariga e ter convidado os amigos para ver. Os 5 anos passaram a 2,5 e em outubro o jogador foi libertado. O clube nunca quebrou completamente o vínculo laboral (penso que chegou apenas a suspender o contrato com o jogador quando ele foi condenado) e portanto a dúvida para muita gente foi: vai o Sheffield United integrar um violador condenado na equipa? Pode? Deve?
 
Temos uma Associação de Jogadores Profissionais que diz que não só pode como deve. Foram eles que requereram que o clube aceitasse o jogador de volta aos treinos, o que acontecerá ainda esta semana. Há um mês, quando interrogado sobre se o Evans devia voltar a jogar profissionalmente, o representante desta respeitosa instituição deu uma resposta sarcástica do género "não sabia que as pessoas quando cumprem pena de prisão não podem voltar a fazer coisas". Mestre da sensibilidade, portanto.
 
Ele era jogador, foi condenado por um crime, cumpriu a sua pena, volta à sua vidinha. E isto parece-me certo. Uma pessoa não pode ficar irreparavelmente culpada por um erro que cometeu - e pelo qual pagou o preço que a lei estipula - o resto da sua vida. Há que lhe ser dada uma segunda chance, a oportunidade de se reabilitar para a vida em sociedade.
 
E aqui se calhar é que está o problema: ele não acha que fez nada de errado. Nunca pediu desculpa à vítima, continua a declarar-se inocente. Não há como ser reabilitado se não há admissão de culpa.
 
Entretanto o nome dele vai ser cantado todos os domingos, em estádios com milhares de pessoas. Vai ser o ídolo de muito rapaz, de muito adolescente cuja admiração pelo seu talento de chutar uma bola para dentro de uma baliza vai ser misturada com admiração pela pessoa que ele é, o Ched Evans. Ele destruiu a vida de uma rapariga, mas isso vai passar a ser visto apenas como um aborrecimento na vida talentosa deste jogador, no melhor dos cenários um erro que ele cometeu e pelo qual pagou e no pior dos cenários ela será relembrada como a má da fita porque lhe estragou a carreira, a carreira de um promissor jogador de futebol. Assim como acontece com todas as outras vítimas de violação e abuso sexual que estragam as carreiras de famosos apresentadores, políticos, atletas. Como se atrevem, realmente.
 
Pelos vistos, esta rapariga vítima de violação não lhe estragou rigorosamente nada. Suspendeu-lhe a carreira por três anos, coisa menos coisa, mas o lugar no clube estava cá à sua espera quando ele saísse. 
 
Uma petição tem circulado contra o regresso do ex-violador ao Sheffield United, assinada por mais de 150 000 pessoas. Há muita gente que acha que idolatrar homens que violam raparigas não é boa ideia. O clube ainda não se decidiu formalmente se o vai voltar a integrar oficialmente na equipa, mas a permissão para treinar esta semana deixa antever qual será a decisão. Os jornais dizem que a última palavra cabe aos presidentes do clube, dois sauditas, por isso, pronto, já sabemos que são as considerações éticas de anti-violência contra as mulheres que vão singrar sobre a vontade de fazer dinheiro.
 
 
 
 
 
S.
 
 
P.S. Já referi que a maior defensora e promotora da inocência do Ched Evans é nada mais nada menos do que a sua própria namorada? Namorada que já o era aquando do crime, portanto, e mesmo que acreditasse piamente na inocência do seu pombinho, tinha sido traída de uma das formas mais escabrosas que uma pessoa pode ser? Namorada que vem a público defender uma e outra vez que ele devia ser permitido voltar a integrar o Sheffield United e que ele é muito boa pessoa? Valha-nos todos os santinhos contra a perda de respeito próprio.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A Velocidade e a Distância entram num bar e dizem à Altimetria: ...

- "... ah, e tal, a ver se estás quieta!"

A minha mania é que 13 km aqui são iguais a 13 km em Bruxelas. Não são. Especialmente se também vou com considerações de tempo.
 
Pois o que voltou a acontecer? Voltei a ficar manca.
 
Nos primeiros meses de corrida, por esta altura há um ano, andava só feliz que conseguia aguentar cada vez mais quilómetros a correr. Era um percurso plano, planíssimo, a minha volta pela Avenue Louise e mais tarde pelo bairro de Etterbeek. Nunca me ralei com o tempo que demorava, só queria não parar de correr durante N-km. Veio a meia-maratona, veio a lesão, veio a paragem. Veio a viagem de bicicleta, manteve-se a paragem.

Há 3 meses quando recomecei novamente a correr decidi que só a distância já não metia pica, queria ser mais rápida. Como disse há 9 meses, queria voltar a correr os 21 km, mas desta vez em bom.
 
O problema foi que mudar-me para Sheffield dos Picos mudou as condições desta equação. Não só ando a aumentar a carga de quilometragem, como a carga da velocidade, como a carga da altimetria. E o meu corpo não aguenta isto tudo ao mesmo tempo. Vou repetir isto novamente para ver se me convenço a mim própria: NÃO. AGUENTA. TUDO. AO MESMO. TEMPO. 
 
"A semana passada corri 10, esta quero correr 11 ou 12", é sempre a minha lógica. Mas mantendo a velocidade, se possível melhorando. E metendo-me por caminhos desconhecidos que envolvem sempre subidas longas e íngremes como um raio, e descidas semelhantes (o que também é muito amigo das lesões). Ignorar sempre os treinos em que é suposto correr a uma velocidade e distância moderadas porque, oh, se já fiz esses km e tempo antes, o que é que vou estar a treinar, então? Boooring.
 
Nunca dou tempo nem espaço ao meu corpo para se habituar às três novas coisas, mantendo-as as três constantes uma vez ou outra. E o que acontece? A perna do costume a acender-se com as lesões do costume, tipo árvore de natal: canela, PLIM!, joelho, PLIM!, anca, PLIM!. E lá fica a corrida suspensa por uns tempos.
 
A medida não pode ser só o fôlego, a mecânica da coisa ainda é mais frágil e importante. Tenho que ser mais esperta do que isto, e aprender deu uma vez por todas que a paciência é uma virtude. E dar um bocadinho mais respeito ao meu corpo do que isto. Ele merece. E ele chega lá, eu sei.
 




S.

De volta às origens

Acabei de ler há dias um dos livros mais interessantes que li nos últimos tempos, o The Descent of Woman: The Classical Study of Evolution. Já tem uns aninhos - foi publicado em 1972 - mas é absolutamente brilhante. Foi o primeiro livro a elevar a fêmea humana a um papel igual ao do macho humano na evolução da espécie. E arrasa muitos mitos andropocêntricos da evolução para lhes dar uma explicação mais conforme com a sobrevivência da espécie - tipo, as mamas, por exemplo - ao invés da explicação centrada no que o macho quer e deseja.
 
Já agora, e por falar em androcentrismos, é por isto que são necessárias coisas como estudos das mulheres, estudos de género, estudos pós-coloniais, etc. A Ciência, muito longe de ser uma coisa objetiva e imparcial, está carregadinha de androcentrismos. As perguntas que apresentamos e as respostas que propomos estão tragicamente presas ao que somos e à nossa experiência. E ao longo destes recentes séculos em que se andou a fazer Ciência, quem somos e essa experiência tem sido esmagadoramente a de um homem branco, ocidental e de classe média. E essa perspetiva, por muito difícil que nos possa parecer, não é especialmente mais imparcial ou objetiva do que qualquer outra. As teorias apresentadas para aspetos da evolução humana, que Elaine Morgan tenta contra-argumentar, são um belíssimo exemplo disto.
 
Mas bom, voltando ao livro. Curiosamente, o que mais me fascinou não foi a elevação que Elaine deu à mulher na evolução humana - evolução essa que está intimamente ligada ao aspeto reprodutivo da fêmea, como não podia deixar de ser - mas sim à teoria que ela apresenta para defender grande parte dessas contribuições femininas. A teoria não é dela, já tinha sido proposta antes por um patologista alemão e por um biólogo marinho nos anos 60 mas que não teve grande atenção porque refutava demasiados mitos da nossa evolução como a importância de termos começado a caçar para a organização política e social da espécie, ou o termo-nos posto em pé para vermos mais longe na savana, e as modificações no corpo da fêmea terem-se dado como forma de agradar ao macho. 
 
Chama-se the aquatic ape theory e é completamente fascinante. Como o nome indica, o argumento central propõe que houve uma dada altura na evolução humana que os nossos antepassados passaram a passar grande parte do seu tempo na água. E quase que lá ficavam permanentemente, mas não, regressaram à terra. E é por isso que somos uma espécie de golfinhos mal acabados. O nosso corpo começou a adotar mecanismos dos mamíferos marinhos - ausência de pêlos, aparelho reprodutor e sexual ainda mais recuado para dentro do corpo (no caso das fêmeas), membranas entre os dedos, lágrimas salgadas para diminuir a quantidade de sódio ingerido - mas sem os ter desenvolvido até à perfeição porque entretanto voltámos para a terra (não conseguimos aguentar o tempo que outros mamíferos marinhos aguentam sem respirar denaixo de água, por exemplo. Nem chegámos ao ponto de transformar pés e mãos em barbatanas. Mas abram o polegar e o indicador; ela está lá!). Só uma alteração tão brusca de habitat poderia justificar a diferença evolutiva tão rápida entre nós e outros primatas próximos. E essa diferença brusca é o meio aquático, empurrados para lá pela mudança climatérica do Plioceno, defende Elaine.
 
Vamos lá ver, nós não nos tornámos animais completamente marinhos. Mas a praia passou a ser o nosso habitat. Passávamos muito tempo dentro de água, inicialmente para afugentar predadores que não gostam nada de se molhar, como os grandes felinos. Como não sabíamos respirar dentro de água, começámos a aprender a andar nos dois pés, para conseguirmos ir mais para dentro do mar. Começámos a morar em cavernas, coisa que não falta na linha de costa. Aprendemos a usar seixos como ferramentas (são sempre seixos, as ferramentas encontradas junto aos nossos antepassados) porque isso não falta na praia. Perdemos o pêlo, porque realmente na água ele não dá jeito nenhum (o pêlo! Ninguém tem uma história convincente sobre termos perdido o pêlo. Quer dizer, temos pêlo para nos aquecermos naturalmente, perdemos o pêlo e depois temos que andar a arranjar pêlos de outros animais porque temos frio à mesma? Que aspeto tão parvo da evolução, se tirarmos o habitat água da equação). Criámos uma camada subcutânea de gordura ao mesmo tempo que perdemos o pêlo, tal e qual como os outros mamíferos marinhos. Criámos um mecanismo, que mais nenhum primata tem porque nunca precisou dele, para compensarmos as golfadas de água salgada que dávamos: as lágrimas (salgadas). Temos um medo irracional de cobras porque temos a mania que são viscosas (a pele de uma cobra é seca, sequinha, mas a de uma enguia já não). E por aí fora
 
E eu acho isto espetacular não só porque explica tanta coisa de forma tão convincente, incluíndo coisas ainda inexplicadas pela teoria do caçador, mas também porque me faz espécie como é que isto nunca foi pegado seriamente e sistematicamente pelo establishment científico. É que depois do livro publicado, não houve nem aceitação nem tentativas sérias de contra-argumentar a teoria do macaco aquático. Silêncio, só. Certamente mudaria demasiado a narrativa estabelecida da evolução humana.
 
Eu pela parte que me toca agora sempre que vou à natação tenho a mania de esfregar as mãos de contente e apetecer-me gritar "BACK TO BASICS, BABY!". Ponho creme nos braços com pêlos escassos e fininhos e penso com tristeza "Estivemos quase, quase! a transformar-nos em golfinhos, que pena termos voltado para terra..."




S.       

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Portugueses bravos descobridores

- "Então, de onde vens?"
- "Eu sou da Malásia, e tu?"
- "Sou de Portugal."
- "Ah, que engraçado, os portugueses foram o primeiro povo a colonizar a Malásia."
- "..."
 
O que é que uma pessoa responde a isto?
 
a) "Ah, que giro, não foi isso que aprendi na escola. Na escola ensinam-nos que os portugueses não colonizaram coisas, 'descobriram-nas'."
 
b) "Ai sim, onde fica a Malásia, mesmo? Nós colonizámos tanta coisa que é difícil manter registo de tudo."
 
c) "Agora somos nós os colonizados, já não colonizamos ninguém."
 
(As três passaram-me pela cabeça, mas só uma viu a luz do dia.)
 
Normalmente o que se segue à resposta "Sou de Portugal" é um par de olhos muito abertos e um "Uau, a sério?". Ainda não tinha conhecido ninguém da Malásia.





S.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Último estado da evolução

Vamos lá ver: eu sou uma pessoa que ama dormir. Mas ama, mesmo, do género não ter vontade de sair da cama quando não tem nenhum horário a cumprir. Abraçar a almofada, enroscar no edredão, estas são duas das minhas coisas preferidas neste mundo. Um bocadinho abaixo de crepes com Nutella, mas não muito, e bastante acima de correr.
 
Em quantos e quantos domingos, o meu dia semanal da corrida longa, eu adiei a hora da partida para além do meio-dia para conseguir dar mais um abraço à almofada, mais um suspirozinho de contentamento por estar deitadinha sem fazer nenhum. Por quantos e quantos fins de tarde esperei eu este verão até que estivesse fresco o suficiente para poder ir dar uma corrida, sem nunca ter esperado por uma madrugada para obter o mesmo efeito. Quantas e quantas vezes olhei com a admiração reservada a heróis atletas que se levantam às 5, 6 da manhã para irem correr por essas estradas e matos afora, especialmente no inverno.
 
Por isso, quando, hoje, pela primeiríssima vez na vida, me levantei da cama às 7 da manhã para ir correr antes das aulas, percebi que a minha evolução está completa. Tornei-me uma daquelas pessoas.
 
 
 
 
 
"Completing a PhD is a marathon", disse o outro, numa das primeiras coisas que ouvi quando cheguei à universidade. Hahahaha, ai é? Então já são duas! :D





S.

domingo, 26 de outubro de 2014

Tenho a mesa cheia de feminismo

Ainda estou a ressacar da minha primeira conferência feminista de ontem, em Londres. Tenho o computador rodeado de panfletos sobre organizações, campanhas e mulheres incríveis, que catalogo diligentemente no meu caderno de notas virtual, para futuro contacto.
 
O PhD não é um mar de rosinhas, não senhor (decisões, decisões, só decisões), mas caramba, se calhar todos os investigadores que nos dizem constantemente que os anos de doutoramento são os mais livres e felizes da nossa vida profissional têm razão.
 
 
 
 
 
 
S.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Forever young

Aquele momento embaraçoso em que percebes que, não, passados quatro anos desde a última vez que te pediram o BI para comprar uma coisa, ainda não pareces ter mais de 18 anos.
 
(Pediram-me BI para poder comprar um conjunto de facas de cozinha.)
 

(Isto é outra vez por causa do health and safety, maníacos do caraças.)


S.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Despertares, bicicletas e alarmes

#
 
O alarme soou ainda não eram oito da manhã. Estridente e omnipresente, é das piores maneiras de arrancar o cérebro à terra dos sonhos. Estremunhada e aflita, sabia o que fazer: calçar os primeiros sapatos que encontrasse, vestir o roupão, resgatar a chave do fundo da mala, e dirigir-me para a rua o mais rápido possível. Sob pena de a universidade achar que o pessoal desta residência é demasiado lento para seu próprio bem e decidir repetir a simulação de incêndio à surpresa. Tive sorte: houve pessoas que foram apanhadas pelo alarme a meio do banho. A manhã fria não convidava a cabeças molhadas e chinelos enfiados à pressa nos pés nus.
 
O zelo que os britânicos têm pelo health and safety roça a paranóia. É o cobertor apaga-fogos na parede da cozinha. As simulações de incêndio anuais, pré-avisadas e com passos muito detalhados que têm que ser cumpridos sob pena de repetição. As reuniões que começam com a informação à la assistente de bordo de onde se encontram as saídas de emergência. É o não poder usar a sala de estudantes fora de horas sem primeiro tirar um curso online sobre segurança e o que fazer em caso de emergência. São as inspeções aos apartamentos para medir a temperatura dos quartos e da caldeira. É o autocolante que todos os aparelhos elétricos (até o ferro de engomar, até a torradeira, até a chaleira) aqui de casa têm em como foram inspecionados em maio de 2014. É o terem enviado um email a avisar que o alarme de incêndio da residência tinha que ser arranjado e que NINGUÉM podia usar qualquer aparelho elétrico durante a hora e meia que durou o arranjo.
 
Eu gosto muito do controlo sistemático que eles têm sobre o caos logístico do dia-a-dia - especialmente depois da experiência belga, que continua a infiltrar-se nas nossas vidas de formas inesperadas - mas isto é um bocadinho demais.
 
 
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Hoje saltei da cama sem precisar de nenhum alarme estridente de incêndio, só pela prospetiva de ir pedalar pela primeira vez na minha nova bicicleta, na minha nova terra, até às minhas novas aulas. Estava nervosa; não pegava numa bicicleta desde Sagres.
 
Mas não precisava de estar. Descida a rua e assim que curvei para a agora especial Manchester Rd, o nervosismo foi-se embora e o júbilo instalou-se. Estava a cair aquela chuvinha irritante, as minhas pernas estavam a ficar todas molhadas e o trânsito foi maior do que o que eu estava à espera, mas a alegria francamente primária de estar novamente a pedalar numa cidade abafou o desconforto. Também porque o caminho foi quase todo a descer. Mas isso não é para aqui chamado; o que importa é que já regressei aos meus commutes de bicicleta e eles funcionam.
 
A Queeny Papa-Léguas portou-se muito bem; é leve como um raio, a miúda, e responde demasiado rápido aos meus movimentos. E é tão pequenina e maneirinha. Deve ser uma vista muito gira, eu, com o meu metro e meio, capacete de patins de criança, a conduzir uma mini-bike pela cidade fora. Quem me dera ter mantido a capa de dementor, para dar um ar mais sério (mas depois talvez ficasse só a parecer um hobbit azul, teria o efeito contrário). Considerações de aparência à parte: é a coisa mais parecida com voar. A rolar num objeto tão pequeno por aí fora, deve ser muito parecido com voar numa vassoura (baixinho).
 
Nota-se muito a euforia ainda?
 
Para cá já não me senti a voar numa vassoura, a força da gravidade já não estava do meu lado. As colinas de Sheffield mostraram que não estão para mariquices de viagens de bicicleta facilitadas e eu cheguei ao meu destino sem fôlego, a suar e com os músculos por cima do joelho a latejar. Pensei que fosse pior, ainda assim. É só porque estou destreinada, nada a apontar ao outro bicho. A QPL está aí para as curvas, e para os altos, e para os baixos.





S.