sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

À terceira é de vez

Agora que já criei a minha nova rotina à volta das leituras para o doutoramento, consegui voltar a incorporar alemão na minha vida. Com sucesso, posso dizer com confiança, porque a língua já faz parte da nova rotina e já aguentou o passar da novidade, portanto é para ficar.
 
Eu sei exatamente o que preciso para que a terceira tentativa de incursão no alemão seja bem sucedida. Livros de exercícios não é, aulas também não, cursos online ainda menos. Preciso de ler muito, mesmo muito, para que as construções das frases comecem a fazer sentido, as palavras comecem a repetir-se e a aprendizagem se torne o mais intuitiva possível, sem que eu saiba como lá cheguei. Mas como ler com um dicionário ao lado é contra-producente e extremamente aborrecido, o que eu preciso é de ler textos bilingues. Ir lendo o texto em alemão e deixar o olhar deslizar de vez em quando para o lado, para a língua familiar, sempre que estiver mais perdida. Preciso portanto de uma história que eu conheça de trás para a frente, que ainda me dê prazer lê-la, nas versões inglês e alemão.


Exato, nunca houve dúvida de que livro teria a honra. Já tinha tentado uma vez lê-lo em alemão mas não funcionou. Tinha mesmo que ser versão bilingue.
 
Mas não há versão bilingue.
 
Procurei e procurei em todos os canais que me lembrei porque com a popularidade destes livros suspeitei que isto existisse oficialmente, ou que pelo menos já houvesse alguém que tivesse tido a minha ideia, mas nada.
 
Não há, inventa-se. Foi o que acabei por me mentalizar que teria que fazer. Aprender a formatar dois textos de forma a aparecerem exatamente lado a lado numa página e depois transformá-los num ebook.
 
O NOVA Aligner, software dos tradutores, tornou-se o meu melhor amigo. Aquilo alinha automaticamente o melhor que pode os dois ficheiros .pdf mas como os ficheiros vêm de fontes diferentes não bateu quase nada certo. Gastei preciosas horas de vida a alinhar frase a frase o livro.
 
No final, valeu muito a pena. Voilá:



289 páginas de texto alinhadinho, em alemão e inglês. O meu livro de Harry Potter bilingue! :')
 
Já o li, acompanhado da versão audio em alemão, para entender os sons e mergulhar duplamente na língua. Estou muito feliz e sinto que é desta que encarrilo.
 
Agora tenho mais 6 livros para ir alinhar.
(Tenho só que meter cada frase de diálogo por linha e ficam perfeitos.)




S.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Os limites da imaginação humana

Ontem, enquanto assistia ao último filme do The Hobbit, estive agudamente consciente de uma coisa: inventam tanto troll, tanto orc, tanto elfo, tanto verme gigante, tanto anão, tanto hobbit, tanto feiticeiro, mundos mágicos com pormenores intrincados, línguas novas que se criam de raiz, criaturas que são misturas de hienas e cavalos, dragões que falam, mas o que não se consegue inventar nem conceber é uma sociedade - nem que seja de anões, de orcs, de feiticeiros ou de elfos - que não seja patriarcal. As relações de género são as mesmíssimas que no nosso mundo real aborrecido.
(Os exércitos são todos de criaturas do sexo masculino, pouquíssimas personagens femininas e as que há é para enfiar histórias de amor no enredo, ou para serem filhas que gritam muito de horror para serem salvas pelo pai e irmão, a companhia que foi reconquistar a montanha era toda de anões homens + hobbit homem + feiticeiro homem, o previsível "women and children" para o abrigo enquanto os homens lutam, etc.)
 
Mulheres no poder e a fazerem coisas que importam, isso é que era ficção científica.
 




S.
 
 
P.S. Os elfos, ainda assim, parecem a sociedade mais igualitária. Mas para uma espécie tão perfeita, deixam muito a desejar nesses campo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Somos mesmo uma nação de emigras

Há duas semanas enviei e-mail ao consulado português em Manchester para alterar moradas para poder votar nas legislativas portuguesas e começar a pensar em renovar cartões de cidadão que expiram para o ano. Enviaram-me e-mail há uns dias a dizer que temos marcação para... 11 de março de 2015. A próxima data livre.

Estamos todos cá fora, está visto.

(Faço ideia da espera no consulado português em Londres, o principal.)



S.

domingo, 30 de novembro de 2014

Isto sim, é deprimente

Em vez de me dizerem:

"Não sei como consegues viver num país com o clima inglês", (lol, passo mais frio em Portugal do que nestes países nortenhos e nem consigo dormir de pijama de inverno aqui, benditas casas bem isoladas)

digam antes:

"Não sei como consegues viver num país com tão pouca luz solar no inverno".




São quatro da tarde e ainda temos um mês até ao solstício de inverno para isto piorar.




S.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O esforço de guerra feminino

Hoje, ia eu muito bem a pensar na vida, quando piso uma placa que me fez voltar para trás:


In recognition of the women of Sheffield who served their city and country by working in the steel industry and factories during World War I and World War II. The people of Sheffield will always remember with gratitude these 'women of steel'. 2011
 
Bonito. É uma placazinha no chão, ao pé de uma árvore, e é muito recente, mas é bonito. Digno de uma cidade industrial, que viu muitos homens partirem para a linha da frente, mas que viu também muitas mulheres a darem o litro na sua terra para que o país aguentasse o esforço de guerra.
 
 
 
 
S.

domingo, 23 de novembro de 2014

Trailer honesto d'A Pequena Sereia

Porque um dos meus passatempos favoritos é embirrar com a Disney e de todas as princesas Disney esta é a que me irrita mais:
 



Eles têm uma seleção incrível de honest trailers para além deste, é espreitar.



S.

sábado, 22 de novembro de 2014

Acabando com o sexismo no futebol, um passo de cada vez




Durante a semana passada vários patrons do clube demitiram-se após o clube ter deixado o ex-violador voltar a treinar, incluindo a campeã olímpica Jessica Ennis-Hill, que pediu para retirarem o nome dela de uma as bancadas do estádio do Sheffield United caso Ched Evans voltasse a integrar formalmente a equipa. Alguns patrocinadores ponderaram retirar o financiamento ao clube.






Chegaram a perguntar ao primeiro-ministro britânico o que é que ele pensava deste caso, durante a cimeira do G20 da semana passada na Austrália.






No final das contas, o clube não aguentou a pressão. Dizem eles no comunicado de ontem isso mesmo, que nunca pensaram que este assunto tomasse as proporções que tomou e que dividisse os adeptos de foma tão fervorosa. E que agora, o clube, muito contra a sua vontade e contra os seus princípios de justiça e igualdade de tratamento de profissões, volta atrás na sua decisão. Culpam a reação mob-like de um grande número de pessoas que esteve contra a integração de Evans de volta na equipa. (Ainda assim a única reação mob-like que veio a público veio de um dos apoiantes de Ched Evans que enviou uma ameaça de violação à campeã olímpica que quis que o seu nome deixasse de ser associado com o clube caso o clube reintegrasse o ex-violador. Enfim, pormenores.)






Entretanto a seleção de futebol feminina inglesa vai fazer história amanhã, ao jogar num estádio Wembley completamente esgotado contra a Alemanha. Prova de que há mercado para o futebol feminino, sim senhora, haja a vontade de o promover eficazmente.



Baby steps; baby steps.






















S.

O feminismo vem até mim

Amanhã à tarde vou ouvir falar três fundadoras das campanhas feministas mais mediáticas aqui do UK:
 
- Lucy-Anne Holmes, que criou a campanha "No More Page 3", uma campanha para que o jornal The Sun, uns dos mais queridos tablóides da zona, acabe com a exposição completamente aleatória de mulheres nuas na sua terceira página.

- Nimco Ali, uma das fundadoras do Daughters of Eve, organização que luta pelos direitos e bem-estar de vítimas de mutilação genital feminina.

 - Laura Bates, jornalista e fundadora do Everyday Sexism, um projeto para as mulheres documentarem e partilharem online as instâncias de assédio sexual e verbal de que são vítimas diariamente.
 
"Celebrating Modern Feminism", cortesia da minha associação de estudantes. Há lá como uma pessoa não amar a sua nova universidade?



S.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A importância de escrever um blog

"Left to ourselves we can all of us keep conflicting ideas in play almost indefinitely, selectively paying attention to what fits our needs of the moment and ignoring the tensions with what we said or thought yesterday, or the day before that. Writing things down in a systematic way is an act of commitment, a decision to firm up and crystallize what we think, to prevent this constant reprocessing and reconfiguring. Like all such resolutions of uncertainty, making this commitment is psychologically difficult, possibly forcing each of us to confront the feebleness or inadequacy of our own thought."
 
 
"Sozinhos todos nós conseguimos manter ideias contraditórias quase indefinidamente, dando atenção seletiva ao que serve as nossas necessidade do momento e ignorando as tensões entre o que dissemos ou pensámos ontem, ou no dia anterior. Escrever as coisas de forma sistemática é um ato de compromisso, uma decisão de cristalizar o que pensamos, para impedir este reprocessar e reconfigurar constante. Tal como todas as resoluções de incerteza, fazer este compromisso é difícil psicologicamente, possivelmente forçando cada um de nós a confrontar a fraqueza ou imperfeição do nosso pensamento."
 
 
Gostei tanto desta citação porque explica perfeitamente a quantidade de posts em rascunho que tenho guardados, e o número de vezes que me apetece escrever sobre um assunto mas me falta coragem. Escrever não é transformar o que pensamos sobre um assunto em palavras, é mais penoso do que isso. Implica escolher uma posição e defendê-la, e, pior, ignorar todas as outras a que também reconhecemos pontos bem-vistos mas que no seu todo nos dizem menos. E isso por vezes implica reconhecer, no final, que a nossa posição não é tão defensável como gostaríamos. E isso é psicologicamente muito desconfortável.
 
 
 

 
 
 
 
S.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Isto nem devia merecer um post

Mas qualquer agulhofóbico sabe o quão sensacional é a seguinte vitória:
 
Fui levar uma vacina hoje, sozinha pela primeira vez na vida. Reformulando: não só tomei a iniciativa de ir levar esta vacina como ainda o fiz desprovida de qualquer coação (i.e. mãe a dizer "tem que ser"). Estou incrivelmente orgulhosa de mim própria.
 
E nem desmaiei! Nem estive nervosa a semana toda anterior, só uns minutinhos na sala de espera, mas o nervoso equivalente a quando queremos que uma coisa passe de vez (reunião, apresentação em público e afins). O fator novidade é capaz de ter ajudado, uma vez que sempre que o meu cérebro resvalava para antecipações detalhadas de "Será que vou sentir o líquido a entrar pelo braço adent... olha este anúncio tão giro sobre a clamídia!" (Sou como as crianças, dá-se-lhes uma distração qualquer fora do comum passa-lhes logo o choro.)
 
Acho que é capaz de ser isto o que eles chamam de envelhecer, não?





S