terça-feira, 21 de julho de 2015

As feministas são feias e mal-amadas e lésbicas - e então?




Já há algum tempo que me perturbava ver o tempo que é despendido por algumas mulheres tentando trazer o sexy back ao feminismo. Epá, não é esse o interesse. Ser sexy/feminina/fuckable já é a norma, o feminismo não precisa de validar ainda mais este espartilho que aperta todas as mulheres sem exceção. Isto não quer dizer que haja necessariamente uma incoerência entre ser feminina - o que quer que seja que isso signifique - e ser feminista, mas por favor, parem de justificar os saltos altos que compraram hoje como uma escolha que o feminismo trouxe. Nem tudo é feminismo na vida. Nem todas as nossas escolhas são feministas. Nem têm que ser. Oiçam, leiam, interroguem-se, pensem. Tenham menos ânsia de justificar tudo o que fazem à luz do moralismo da moda.




S.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Disney a educar sobre períodos desde 1946

O mundo precisa de saber que a Disney lançou um filme sobre 'A História da Menstruação' em 1946.


É surpreendentemente científico, mas tem pérolas como: 

'Why is nature always called "Mother Nature"? Perhaps it's because like any mother, she quietly manages so much of our living without us ever realising there was a woman at work.'

Ou quando, ao desmistificar velhos mitos como o não se dever praticar exercício durante o período, dizer que pode, sim senhora, mas pensando bem também a vossa rotina diária já é bem para o frouxa, portanto não há que preocupar muito com isso de abusar no exercício.

Mas suponho que no cômputo geral a coisa devia ser bem avançada para a época, e a Wikipédia até diz que foi o primeiro filme a usar a palavra 'vagina'. Wow. Disney muito à frente.




S.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Kudos aos escritores

Rap battles entre princesas da cultura pop? Isto merece ser partilhado.

Cinderela vs Bela

Branca de Neve vs Elsa


Galadriel vs Leia





S.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Compasso cultural

Pronto, mas depois, por outro lado, temos coisas destas, expressões reconhecíveis instantaneamente:


No táxi de ontem



Nos Monkeys de sempre





S.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Note to self

Viva onde viver, vai-me sempre faltar qualquer coisa. Agora já é inevitável. Que eu me lembre disto nas próximas vezes que tiver que tomar decisões sobre o futuro. 

Tenho que levar cada vez menos a sério – ainda menos – isto de mudar de casa. É que isto será o prato do dia nos próximos anos, e nos a seguir também, provavelmente até onde consigo prever. Tratar de prever cada vez menos, portanto. Estou cada vez melhor nisso, mas a conclusão de que teria que voltar a mudar-me para Bruxelas não foi menos chocante por isso. Tinha posto na cabeça que me iria manter em Inglaterra nos próximos 5-10 anos. Não. Não, nada de planos a esse longo prazo. A nossa vida não é essa. Estabilidade residencial está sobrevalorizada, de qualquer forma. E Portugal acaba por figurar sempre pelo meio, de uma maneira ou de outra. 

Eu gosto muito de viver em Inglaterra por isso não sei de onde veio a alegria pura que me subiu por aqui acima enquanto o expresso me transportava do aeroporto de Charleroi para Bruxelas. Mas desconfio, porque no dia a seguir, ao voltar a ouvir francês nas ruas, alemão na mesa do lado no café, e uma míriade de outras línguas que compõem a colmeiazinha eurocrata, lembrei-me o quanto sentia falta de estar no centro das coisas. 

Foi mais ou menos este o sentimento a caminho de Bruxelas: emergir. 

“Estar no centro das coisas” é portanto um requisito importante na escolha das minhas casas, outra note to self. Resta saber o quanto ela vale e se consegue cobrir as desvantagens associadas a centros, como longos commutes, poluição, vida acelerada, confusão, casas caras. Por isso mesmo não sei se Inglaterra a todo o custo me vale. Adoro aquele país, sinto-me em casa e tenho uma familiaridade enorme com demasiados pontos culturais, com a língua – aquela versão da língua, e não outra – e amo que ali se fale o puro inglês, o inglês enraizado culturalmente, historicamente, academicamente, em vez dessa versão estandardizada, simplista e desenraizada que é o inglês internacional (tanto o de trabalho em centros internacionais como Bruxelas como o turístico em qualquer outro sítio com afluência de estrangeiros pernoitadores). 

Mas em Inglaterra não me sinto europeia, e a verdade é essa. Aquilo afinal não é bem Europa, não como isto aqui, em Bruxelas e arredores. Muito menos uma cidade regional como Sheffield, não importa quantos estudantes internacionais tenha (e tem muitos). Daí que mesmo em Inglaterra, o país que poderia mais reclamar como casa para o futuro, me fique a faltar qualquer coisa: a minha identidade europeia. 

Resumindo: estar no centro das coisas, sim, planos para além dos próximos seis meses, não, mudança de casa possível a qualquer momento, sim. Resta adaptar as minhas possessões materiais (a cada mudança menos, mas que ainda não cabem numa só mala) à leveza de passarinho que a alma já quase adquiriu.




S.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O feminismo a custar-me dinheiro, oh

Gostava de saber porque é que um casal com apelidos diferentes tem que pagar o dobro do que um casal com o mesmo apelido para redirecionar o correio para o estrangeiro.

Ou se paga à cabeça ou se paga ao agregado familiar. Independentemente do apelido, são sempre dois destinatários que eles terão que despachar de maneira diferente. Para quê a diferenciação?



S.


P.S. E enfiem  mas é as 500 libras onde vos aprouver, com esse dinheiro venho eu a Sheffield 5 vezes por ano - que pensando bem devem ser as vezes que tenho que cá vir de qualquer das formas - e recolho o correio eu mesma.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Um minuto de silêncio...

... pelas pessoas que, seis anos depois, ainda acham que o novo AO as vai obrigar a escrever fato, em vez de facto, e cagado, em vez de cágado.

Em querendo enxovalhar, enxovalhem com conhecimento de causa.




S.

P.S. Lamento rebentar a bolha de quem se acha muito rebelde por estar contra o novo AO porque, 'ah e tal, não é o Sócrates e afins que mandam na língua': andam a escrever sob as regras de um outro AO, o de 1990. A língua evolui naturalmente, sim senhora, mas em determinadas alturas é preciso fixar as regras oficiais de gramática e ortografia, senão cada um escrevia como lhe apetecia, numa lógica de 'isto não é um erro, o meu português é que evoluiu mais rápido do que o teu'.

Update: como muito bem apontou a Ceridwen, o acordo ortográfico que ditou a ortografia da língua portuguesa até ontem foi a Convenção Luso-Brasileira de 1945. O AO de 1990 (!) é o que entra definitivamente em vigor hoje. Mais pormenores aqui, na abertura de 14/05/2015.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Entretanto, há 70 anos numa Berlim 'libertada'


in A Woman in Berlin, anonymous


Estou a ler o diário que uma mulher alemã manteve durante dois meses aquando da chegada do Exército Vermelho a Berlim, da luta pela cidade e da capitulação alemã.

Para além de ser uma perspetiva incrível sobre o dia-a-dia das pessoas durante o crepúsculo de uma guerra - desde os abrigos coletivos nas caves dos prédios sempre que chegavam as bombas, até à ida diária à bomba para ir busca água, as rações a que tinham direito, a espera e incerteza sobre quando chegariam os russos e a incerteza geral pelo futuro - é um retrato profundamente realista (porque, enfim, escrito na primeira pessoa e à medida que as coisas iam acontecendo) sobre a natureza humana, as relações entre conquistador e conquistado, e a capacidade do ser humano de se adaptar a condições que no conforto da nossa paz achamos inconcebíveis.

É incrível a forma lúcida e objetiva com que ela analisa o que vai acontecendo, coisas por que passa - incluíndo múltiplas violações - e o detalhe que fornece. 

Talvez o mais precioso de tudo sejam as reflexões desapaixonadas que faz de assuntos gerais através das experiências que vai vivendo. Há uma altura em que reflete se a sua relação com um major do exército russo se baseava em violação ou se não estaria ela a trocar favores sexuais por comida, e se sim, o que achava ela do facto de se estar a prostituir (ela não julga a situação moralmente e diz muito simplesmente que nunca se achou acima das mulheres que se prostituem para ganhar a vida). Ou de quando conclui que o facto de falar um pouco russo é ao mesmo tempo uma benção e uma maldição, já que por conseguir entender os soldados consegue identificar-se humanamente com eles, consegue vê-los como indivíduos, como humanos, e portanto não consegue odiá-los no geral como bestas pelo que estão a fazer, como outras mulheres alemãs conseguem. Ou quando, já na inevitabilidade de Berlim ser vencida, repetir sarcasticamente o dito de que os berlinenses otimistas estão a aprender inglês, os pessimistas a aprender russo. Quando reflete no odioso culto à masculinidade feito durante o regime Nazi, mas masculinidade essa que agora se refletia na decadência dos berlinenses que restavam, que não levantavam a voz a nenhum dos conquistadores, nem punham qualquer entrave ao tratamento vil destes às suas mulheres, que por isso iria ser preciso encontrar um novo conceito de masculinidade após a guerra. O relato das conversas sobre política que teve com alguns membros do exército russo, do medo que os russos em geral tinham de subir escadas por estarem habituados a casas rurais de único piso, de como eles só conseguiam violar mulheres quando estavam podres de bêbados, de como aproveitaram as bandeiras nazis para recortar bandeiras vermelhas e hasteá-las no topo de edifícios, de como relógios de pulso fascinavam os soldados russos, alguns usando-os 5 e 6 em cada braço, porque na URSS não havia cá desses luxos.

O diário foi publicado em 1954, em inglês, salvo erro, e não na Alemanha, porque houve uma controvérsia enorme sobre o conteúdo do diário. Ninguém queria falar das violações em massa, ainda hoje um assunto tabu, nem da geral conivência dos homens alemães com aquilo que os russos fizeram às suas mulheres (a autora não os recrimina, observando que é uma técnica de sobrevivência como outra qualquer, mas relata surpreendida a retirada que dois ou três russos fizeram quando um marido lhes gritou que deixassem a sua mulher em paz - não estavam à espera daquela reação e não queriam confusão). A autora manteve o anonimato, e só autorizou a re-publicação do livro após a sua morte, para evitar mais uma onda de polémica.

É um relato fascinante, bem mais incrível do que literatura histórica da época. Parece que a realidade supera sempre a ficção, não é verdade, tanto no mais terrível como no mais belo.




S.