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quarta-feira, 11 de junho de 2014

I got 99 problems but weight ain't one



Já há muitos anos que não vou. Não há altura que me parta tanto o coração de não estar em Portugal como este fim de maio/inícios de junho, por causa das barraquinhas brancas alinhadas pelo Parque Eduardo VII abaixo.

Mas uma vez que em julho vou ter muito tempo também fui à feira do livro. Mas como vou ter pouco espaço, fui virtualmente.


Feminismos:











Historicismos:





Humorismos:




Ficcismos:







Corridismos:



Linguismos:




Nerdismos:




Outrismos:






Sou capaz de me ter excedido, mas bom, que se lixe. Não tarda os meus hábitos de leitura vão ser controlados por forças exteriores à minha vontade, é bom que aproveite agora.




S.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Já só faltam 21

Ontem corri a minha primeira meia-maratona.

Vou escrever só mais uma vez porque mereço e para ver se acredito mesmo: ontem corri a minha primeira meia-maratona.  

Foi uma experiência do caraças e tudo o que eu antecipava esteve lá: o mar de pessoas, a confusão na entrada da Ponte 25 de Abril, o sentimento de privilégio incrédulo por estar a tocar com os pés naquela ponte emblemática, a vista de Lisboa sob um céu azul límpido, o esforço a começar a dar sinal ao quilómetro 7, o aborrecimento e a desmotivação lá para o quilómetro 11, a luta afincada e quase sem dar tréguas do corpo contra a mente, a incapacidade de ver as pessoas e as paisagens e as casas, o terreno desconhecido a partir do quilómetro 18 por nunca ter corrido tanto, o sentimento de pura felicidade ao cruzar a meta, a alegria por estar a correr em Lisboa. Não só não faltou nada do que eu esperava como tive o acréscimo de mais umas coisas: a ausência de vontade de procurar desculpas para não ir (para a minha primeira corrida, a de S. Silvestre dos Olivais, elas não faltaram), a ausência da dor excruciante nas canelas que já é uma velha conhecida, mas a presença de uma dor irritante na anca direita que não me largou durante toda a corrida, o desconforto horrível que é ter um sol que queima a bater na cara durante todo o caminho e que torna o esforço elevado de uma corrida quase insuportável, o orgulho tão humano mas tão irracional que é pertencer a um evento maior do que nós e a um grupo cujos membros só têm em comum o masoquismo de bater com os pés no chão muitas vezes por minuto durante duas horas, o sentimento de desespero por ver que ao quilómetro 12 eu já estava mal, a euforia por descobrir ao quilómetro 18 que ia conseguir acabar a prova, o pranto no qual quase desatei quando cortei para a meta, duas horas e vinte minutos depois de ter começado a correr tão feliz e ainda na margem sul. Hoje mal consigo andar, é um bocado assustador ainda que compreensível, mas mais assustador e nada compreensível é ter já concluído que eu não vou conseguir largar as corridas depois da corrida dos Sinos a 6 de abril, como planeava. Um bicho qualquer que acho que deve ser parecido com uma lagarta das maçãs já começou a roer qualquer coisa aqui dentro porque eu já estou com o sentido de querer melhorar aquelas duas horas e vinte. É qualquer coisa que me chateia assim: “Nã, nã, nã, nã, não fizeste aquilo como deve ser, toca a fazer outra vez mas agora em bom.” Não é necessariamente aquela corrida, é mais aquela distância. É uma necessidade de ensinar o meu corpo a correr 21 km confortavelmente. 

Maluco, não é? Eu sei.

Mas já aprendi melhor do que ignorar estas vontades crepitantes que vão alastrando por aí afora. O melhor é mesmo aquiescer até onde a vontade nos levar.

Uma coisa que reparei, e que até aqui nunca me tinha realmente passado pela cabeça, é que a corrida é uma coisa para ser vivida em conjunto. Ou seja, os treinos são feitos normalmente de forma individual mas depois nas corridas propriamente ditas as pessoas juntam-se aos pares ou aos grupos para darem força uns aos outros, para partilharem a euforia da meta, e ser uma coisa minimamente social. Eu fui sozinha. E o meu instinto observador não sinalizou mais ninguém na minha situação durante a caminhada do Pragal até à ponte e durante a espera pela partida. Não sei se isto significa que eu sou um bicho solitário, independente, com uma grande pancada ou sem noção do que se faz normalmente e do que não se faz normalmente. É capaz de ser uma combinação de todas.

Bicho solitário ou não, apoiantes não me faltaram. Entre um namorado incrivelmente otimista que à hora e meia já me estava a ligar para me procurar na meta, uma mãe dramaticamente fatalista que me diz coisas como, e cito: “senti um baque no coração porque pouco depois das duas horas comecei a ouvir uma ambulância e pensei mesmo que eras tu”, e um pai pessimisticamente confiante que depois das duas horas e quarenta ainda me esperava ver passar, não sei a qual agradecer mais. Agradeço aos três, claro, porque cortar a meta depois de duas horas e tal de esforço é uma sensação ali no topo das melhores coisas do mundo mas ver as caras sorridentes das três pessoas mais importantes da nossa vida logo após um esforço de duas horas e tal também não lhe fica nada atrás.    



Isto é uma aproximação fiel de mim hoje.
 
 
 
 S.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O Lisboa V-Day na Estação do Rossio

Amanhã eu podia perguntar: "Então, foram ao Lisboa V-Day? Gostaram?" e vocês podiam responder: "Ah, eu era para ter ido mas nem imaginas a chuva que estava, e o vento, um horror, não ia agora dançar para o meio daquele temporal, agora até temos tempestades com nome de gente, isto o fim do mundo está para chegar."
 
Podiam responder isto, mas já não podem. A flash-mob do Lisboa V-Day mudou-se para a Estação do Rossio. É já amanhã, às 18h30.
 
Desculpa nº1: faltei por causa do tempo.
 
Arranjem outra agora.
 
Ou não, e venham só participar:






S.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Blasfémia, heresia, palavrão



Só para deixar aqui registado, porque ainda foi há pouco tempo e por isso ainda tenho a certeza que é verdade: os pastéis de Belém da Fábrica dos Pastéis de Belém não foram os melhores pastéis de nata que comi na vida.




S.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

As 6 sombras da persuasão e a Dança do Bilião

Andei alguns dias a remoer este post porque eu queria falar sobre isto, convencer mesmo alguém a ir, mas não sabia por onde começar. Por aqui vê-se logo que não tenho curso de marketing, publicidade ou comunicação, no geral. Fez-me falta conhecer as técnicas para convencer alguém. Não tenho jeito, não me é natural, e acabo por nunca ter paciência nem perserverança suficientes, mesmo em debates. O que é bastante infeliz numa pessoa que se intitula feminista, mas bom, cada um faz o que pode. Ainda assim, ocorreram-me várias maneiras de começar:

Persuasão através da instigação da culpa:

Ler e acenar com a cabeça que sim, coitadinhas, é muito fácil. Meter um like num post indignado, também. Partilhar uma notícia sobre o assunto no Facebook, apesar de envolver um nisquinho mais de compromisso, continua a ser 99,9% de conforto, 0,1% de eficácia. Levantar o rabo do sofá/carro/escritório ao fim de uma tarde de pleno inverno, já não é assim tão fácil. Por isso prova o quanto nos indigna, enoja e o quanto queremos ser parte da solução. Ide ao Lisboa V-Day, mulheres desse Portugal. E homens desse Portugal, ide por quem amam. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da responsabilidade moral:

É por uma causa nobre. Desejar que o flagelo da violência de género tenha fim. Eu sei que causas nobres há muitas, e nós somos e sentimo-nos pequeninos individualmente. Não temos a capacidade de fazer tudo o que é nobre, ou de lutar por tudo aquilo em que acreditamos. Mas isto afeta muita gente, demasiada gente, por todo o mundo. É pela segurança e bem-estar de potencialmente metade da população humana, pelo menos um terço dessa metade. Como ficar indiferente, se toca a tanta gente? Ide mostrar que não são indiferentes. Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da chantagem emocional:

É que é um bilião. Um terço de todas as mulheres do mundo. Uma em três. Isto significa que pelo menos uma mulher próxima de vós (mesmo se forem parcos nos sentimentos e anti-sociais como eu, entre irmã, mãe, avó, cara-metade, haverá sempre três. Se forem mulheres, como eu, podem mesmo ser vós) será agredida ou violada durante a vida. Isto está bem assim? Não vos causa horror, abjeção, sentimento de injustiça? Ide mostrar a vossa indignação. Ide ao Lisboa V-Day, mulheres desse Portugal. E homens desse Portugal, ide por quem amam. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através do testemunho pessoal:

O ano passado, quando a ideia do One Billion Rising surgiu, eu participei na minha primeira manifestação. Bichinho avesso às confusões, aos gritos, aos ajuntamentos e a pessoas a fazerem coisas estranhas, amante das ideias e teorias mas pouco afoito na ação, enfiei-me no meu casaco mais quente e saí para a rua, a temperatura a roçar o zero. Timidamente, encostei-me às colunas da praça a sondar aquela coisa estranha, em que centenas de mulheres e muitos homens cantavam e dançavam pelo fim da violência contra as mulheres no mundo. Acabei a tarde com o nariz a pingar mas com olhos brilhantes e um grande sorriso na cara (os olhos brilhantes podia ser do frio, mas bom, o sorriso não era). Foi a coisa mais sensacional que já fiz fora da minha zona de conforto. O que, tenho noção, não é dizer assiiim tanto. Também tenho a noção que se eu não tivesse lá estado não fazia falta, era só uma entre centenas. Mas se eu não tivesse estado lá, se a rapariga que dançava ao meu lado de sorriso rasgado não tivesse estado lá, se a mãe não tivesse levado a filha de 2/3 anos, se a octagenária que dançou até ao fim não tivesse estado lá, se calhar já começávamos a fazer falta. Pensem que fazem parte de um movimento de milhões, que a esse momento hão-de estar todos a dançar pelo mesmo objetivo. Tem que se começar por algum lado, não é? Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da perspetiva do divertimento:

É uma flash-mob, gente. Tem coreografia e não há muitas coisas tão fixes de se fazer a 500 como movimentos sincronizados. Ninguém vai saber de cor, haverá tempo para ir aprendendo. É libertador, primitivo mas profundamente libertador, e estupidamente divertido balançar o corpo ao ritmo de uma música sem outro propósito que não a diversão. Sem o propósito de agradar, de atrair, de convencer. Só aquele, de estar ali presente, com aquelas pessoas todas que defendem a mesma coisa. Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através do ataque ao cinismo:

"Eh, realmente o mundo há-de mudar assim, com danças. É a dançar nos vossos países riquinhos de primeiro mundo que se acaba com a violência sobre as mulheres no mundo, realmente." Duas respostas a isto, uma curta e outra longa:

Curta: Bardamerda. Cada um faz o que pode. Ao menos importo-me o suficiente para sair à rua por isto. 

Longa: Isto é um bocado como a história do Dia do Pai, Dia da Mãe, Dia da Mulher, não é? É quando se quiser, é todos os dias, blá blá blá, depois nunca é verdadeiramente. Pelo menos arranjou-se uma maneira, um dia, um evento, um ajuntamento, que faz com que as pessoas reflitam na coisa, se importem, e potencialmente que vão mudando a sua maneira de pensar sobre aquilo. Senão, bom, pelo menos um dia no ano lembrar-se-ão. Um em 365 já não é mau. Em relação à questão da dança, a ideia surgiu através da escritora Eve Ensler ("Monólogos da Vagina") depois de uma visita à República Democrática do Congo e de ter visto a forma como muitas mulheres tentavam curar a dor psicológica e emocional da violência. Há qualquer coisa de primordial na música, quase mágica, todos sabemos. Embalamos os bebés para os acalmar, não é? Cantamo-lhes canções de embalar. Dançamos como diversão. Não está assim tão deslocado o ato da intenção.

Vão, a sério. Mostrem que se importam, e divirtam-se pelo meio. Eu cá estarei em Bruxelas, a dançar também.

Lisboa V-Day AQUI.     






S.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Saudades e feminismo em Belém

O síndrome da procrastinação para visitar coisas só me ataca quando sei que o tempo é indeterminado. Quando não é, até planeio e aponto o que ver e quando na minha agenda. A lápis, para dar espaço à espontaneidade, mas ainda assim um bocado à maníaca da organização do tempo.

É por isso que tenho andado numa espécie de roda-viva a visitar sítios por este Portugal que, aquando em Bruxelas, me andaram a fazer cócegas ao espírito. Isto das saudades tem muito que se lhe diga e eu tenho descoberto que é das coisas mais aleatórias que eu sinto falta: das waffles de uma barraquinha que só aqui aparece no verão, do Cais das Colunas no Terreiro do Paço, do Cascaishopping (wtf, não meto os pés lá há anos!), da vista do mar no cimo da minha (dos meus pais? bah, isto de "casa" tem muito que se lhe diga) rua, do pêlo do meu cão que já não cá está, dos olhos do que está, de jantar com os meus pais, de deambular pela Baixa, de olhar o Palácio da Pena pequenino no topo da serra, de subir uma estrada aqui perto e ver uma bela porção da costa portuguesa aparecer como quem destapa um pano de repente, do Parque Eduardo VII cheio de barraquinhas brancas com livros, de sentir areia debaixo dos pés descalços. Lisboa, por estranho que pareça porque nunca lá vivi, é sempre o que se apresenta mais forte quando perscruto na minha alma lusa a definição de "Portugal". É assim um misto de Belém, muito Chiado, alguma Baixa, e um bocadinho de Saldanha. Mas mais Chiado. É por isto que não consigo vir a Portugal não indo dar uma volta qualquer a Lisboa também. A visita ao país natal fica incompleta se não o fizer. E claro que tendo lá meia dúzia de caras e espíritos dos que mais falta me fazem torna a volta a Lisboa inescapável.


Mas desta vez, a ida a Lisboa incluiu uma paragem especial. Desde que ouvi falar da sua abertura há umas semanas atrás que me lastimava por não cá estar e poder lá ir deitar um olhinho. Falo da biblioteca pública feminista em Belém. Fica na Biblioteca Municipal de Belém e é uma sala dedicada ao estudo do feminismo. É claro que lá tive que ir.


  



A minha intenção em relação ao sítio era pura e simplesmente satisfazer a curiosidade. Queria saber a dimensão, o tipo de livros que tinha e se era vocacionada para a história do feminismo em Portugal (que, se tudo correr como espero, me seria mesmo muito útil daqui a um ano) ou se era mais generalista. Após uma pesquisa atenta e deliciada pelas lombadas dos livros expostos fiquei contente por ver que os grandes clássicos feministas lá estavam, incluindo obras de Germaine Greer, Betty Friedan e, claro, Simone de Beauvoir. Fiquei com a impressão que é uma coleção que, apesar de mais pequena do que estava à espera, é bastante abrangente, tendo livros de pura literatura de ficção que às vezes me fizeram suspeitar que ali estavam apenas por terem sido escritos por mulheres, obras mais filosóficas sobre o que é ser mulher e a condição da mesma ao longo dos tempos e em vários países, bem como livros que analisam políticas que influenciam a condição da mulher como o divórcio, as leis laborais e as licenças parentais, etc.


Eu fui um bocado gananciosa e levei para a mesa estes 4 livros, embora só tenha conseguido dar atenção - e nem sequer a devida - ao da Maria de Lurdes Pintasilgo. Aguçou-me a curiosidade o facto desta mulher ter sido uma feminista e, o que é mais, ter escrito sobre o assunto. Ela auto-declara-se uma feminista católica, o que é ainda mais interessante porque as duas coisas são normalmente contraditórias na sua teoria. Não lhe consegui ler o livro todo mas gostei mesmo muito do que li. É uma coisa muito terra-a-terra, explicando coisas elementares mas basilares como o que é o feminismo e o sexismo, não deixando que aquilo seja mero dicionário mas deixando transparecer que a autora pensou, remoeu e fez a comparação com a realidade sobre os temas que ali fala. Fiquei extremamente interessada em conhecer mais sobre esta figura da história recente portuguesa.

Era a única pessoa ali - quase na biblioteca toda, aliás - e isso deixou-me um bocadinho desanimada. Na minha ingenuidade, estava à espera que às duas da tarde de um dia de semana em julho aquilo estivesse compostinho mas pelos vistos não conheço bem muitas bibliotecas públicas. Bom, uma coisa é certa, é um lugar ideal para ir trabalhar frequentemente...



S.

sábado, 9 de março de 2013

Feira do Livro: versão indoor

Continuando no tema dos livros, hoje foi dia de visitar a Foire du Livre de Bruxelas. Não estava com expectativas de comprar nada, já que a língua em questão, aliada ao meu cada vez mais especializado gosto e à preferência pelos e-books, tornava a tarefa de encontrar algo que me fizesse puxar da carteira mesmo muito díficil. Da carteira tive que puxar na mesma, uma vez que para meu enorme espanto e indignação a entrada era paga. Sim senhora. Autoridades bruxelenses sempre a promover a cultura. Deu-me logo uma grande pontada de saudade no coração da maravilhosa Feira do Livro de Lisboa, aquele Parque Eduardo VII cheio de filas e filas de barraquinhas de livros, muito sol, muita luz, muito calor, ar livre, um passeio anual que não falhava. Levantei o queixo do chão, engoli a indignação e puxei da nota sem reclamar. 



"Um dia o Obama pediu ao Harry Potter para transformar o seu inimigo em sapo." Quem terá sido este inimigo de que eles falam, hum? Será que o Mitt Romney passou a pertencer à classe dos anfíbios e ninguém deu por nada?

A certa altura ainda pensámos que o bilhete de entrada podia ser como nas discotecas e tivesse livro incluído (não tinha). Paga-se mesmo só pelo privilégio de poder ir ver e comprar livros. Hahahaha, está boa, esta.

Tinha muitos livros interessantes e originais para crianças, algo que desconfio que os belgas são bons, uma vez que já tinha reparada na livraria do aeroporto umas coisas engraçadas. Não sei se tem alguma coisa que ver com a tradição de bandas-desenhadas e ilustrações. Isto trouxe-me um sorriso aos lábios:




Tenho que confessar que me senti muito deslocada, naquela feira. É mesmo muito estranho percorrer quatro pavilhões enormes (ao jeito da FIL de Lisboa) e não encontrar um único livro que se conheça, nenhum nome de autor que ressoe. Ali dei de caras com o quão superficialmente conheço o meu país de acolhimento, a sua literatura contemporânea e clássica, essa parte tão fundamental da cultura e identidade de um povo. É uma coisa que me incomoda, põe-me desconfortável e, ao invés de me fazer querer ler mais sobre a Bélgica, agarrar numa História deste país, faz-me ter vontade de fugir daqui a sete-pés, enroscar-me nos braços da cultura britânica, numa língua que eu conheço não só as palavras mas também e fundamentalmente o tom. Não me é nativa como a visceralmente portuguesa, mas precisamente por estar a meio caminho entre a belga que desconheço e a lusitana que me está entranhada, dá vontade de profundar mais e mais.

Nunca lá fui a feira do livro alguma.

A União Europeia tinha uma secção num dos pavilhões, onde figurava uma imagem gigante da sala do plenário de Estrasburgo, uma imagem com quase todos os atuais deputados e com sinais a indicar que grupo político se senta onde.   



Os 20 deputados europeus belgas tinham direito a fotos maiores, e a senhora responsável pela secção deu-me placas com os nomes deles todos para eu tentar adivinhar quem era quem. Fiquei ainda mais desanimada por ver que nenhum deles me ressoava na memória, muito menos seria capaz de juntar nome e cara. Lá acertei um que me lembrava de ver nas reuniões de igualdade de género no PE, nem tudo esteve perdido.

Saí de lá de mãos a abanar, um niquinho triste pelo sentimento de alienação mas de bons espíritos. Afinal, a experiência foi partilhada com quem mais importa e portanto os risos somados e a tarde diferente pesaram bem mais na balança das experiências. E uma História da Bélgica pode já vir a caminho...



S.  

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ele há coisas... #26

Desta vez venho partilhar algo lusitano que me despertou realmente o interesse.

Descobri-a bem por acaso (apesar de não ter podido evitar passar por ela, por isso se calhar não foi verdadeiramente por acaso...). Não obstante, descobri-a num momento apressado e quando me preparava para mais um "até logo" a solo lusitano.



A loja, vendendo exclusivamente produtos portugueses não é propriamente um conceito original. Mas foram os produtos e a variedade que me prenderam a atenção.

A loja está organizada por secções e é bastante completa. Normalmente, as lojas de produtos "made in Portugal" são especializadas em apenas gourmet ou apenas calçado ou apenas livros ou apenas objetos de cortiça. Esta tem-nos todos.




A parte das roupas, onde figuram marcas como a Salsa, a Muu ou a Parfois, incluíndo também a Pelcor com as suas malas e carteiras de pele de cortiça.





Uma prateleira dedicada à artista Joana Vasconcelos, recentemente mediatizada pela exposição em Versalhes.




A parte da literatura portuguesa dominada pelo Saramago :)

Mas foi a parte da loiça - curiosamente! - que me prendeu o interesse. Então não é que existem conjuntos de chávenas com os heterónimos do Fernando Pessoa?! Quão fixe é isto, pá...





O Eça também lá estava...





Outros pratos, caixas e chávenas tinham ilustrações relativas a História portuguesa, como esta:





Foi a primeira vez que senti genuína vontade de comprar um souvenir português. No entanto, a mochila a abarrotar mais a mala de 23 kg que me aguardaria à chegada tiraram-me as ideias de compra de porcelanas frágeis da cabeça.

Gostei muito. Vou andar de olho nela da próxima vez que visitar o Aeroporto de Lisboa.



S.







sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Ele há coisas... #25

É um facto. Portugal tem o céu mais azul da Europa.


A primeira coisa que noto sempre que regresso é esta luz e claridade intensas, que nem no verão a Europa do norte consegue igualar. 



E estes dias têm sido particularmente simpáticos para dois portugueses emigrantes cheios de carência de vitamina D. Ou apenas carência afetiva solar.






S.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Olha, os macacos



Oh, fuck. Fuck!!

Ando há dois ou três anos a ansiar ir vê-los, estive quase para ter ido ao Super Bock em 2011, quase para ter ido a Madrid, quase para ter ido a Paris. Eu não ligo nada a concertos e ajuntamentos e música e pessoas em geral mas pelos Arctic Monkeys arrastava a minha pessoa até ao inferno do Meco e da Herdade do Pó.

Mas teria que viajar até Portugal (férias de verão antecipadas?...)... E depois teria que testemunhar gente bêbeda e crianças-adolescentes que nunca saíram de casa sozinhas e levar com um copo de cerveja ou dois e engolir muito pó e ir para lá muito cedo porque da última vez houve filas de 4 horas desde Lisboa ou acampar lá ou raios os partisse...

Decisões... decisões...

Porque é que tinham que ir ao SBSR? Porque é que não podiam ir ao Pavilhão Atlântico tocar para as pessoas normais e oh-tão-pegadas-ao-conforto?



S.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Vida a 2 e a 1+1

Começou quando a nossa vida a dois ainda não tinha começado. 

O laço da imperatividade da presença física foi quebrado quando o D. entrou num avião a caminho de Londres três meses antes de mim. A nossa relação tornou-se "relação à distância" durante esse tempo, com pontuais visitas de parte a parte, e ainda que temporariamente. Mas o mito de que a presença era absolutamente necessária a todo o tempo desfez-se e tornámo-nos duas pessoas com vidas autónomas, que se sobrepõem muitas vezes, que vivem juntas, que se amam e que partilham um desejo enorme de constituir um "nós" verdadeiro, todos os dias e à sua maneira.

Quando parti para Londres, viajei de avião sozinha pela primeiríssima vez. Como o D. o tinha feito três meses antes, aliás. Outra amarra que foi quebrada. Rapidamente ficou inscrito na minha mente que é possível, eu sou capaz, faz-se. O que até aqui estava conotado na minha mente com "férias em família" (necessariamente, para mim, férias eram em família) tornou-se um mero instrumento que me leva do ponto A ao ponto B. O avião perdeu a mística que encerrava.

Estes dois cortes de amarras, da imperatividade da presença física e do avião como parte de férias, deram origem a uma coisa muito curiosa e que eu nunca esperei: vou a qualquer lado sempre que é preciso. Idem com o D., ou a coisa não funcionaria.

Há um jogo em Londres para ver, mete-se o D. num autocarro e vai ver. Surge a ideia de surpreender os meus pais interrompendo-lhes as férias de verão para se me juntar a eles, lá vou eu a voar até Faro. Reunião de trabalho em Lisboa, apanha-se o avião e lá estou eu na Portela passado duas horas. Jogo do Benfica com o Barcelona, segue sr. D. até terras espanholas. Férias de natal na terra-natal, senhor meu parceiro parte uns dias antes de mim.

É tudo muito novo, isto. Ou antes, por razões circunstanciais (o Benfica de repente joga muito fora mas muito perto daqui e o meu emprego é muito dado a reuniões fora de Bruxelas) intensificou-se recentemente. Talvez por isso mesmo o gosto a autonomia e a quebra da presença física esporádica sejam hilariantes e um gosto ainda não decididamente certo como saboroso ou amargo. Por enquanto é isso mesmo, hilariante, exhilarating, libertador, confortável, saudável. E a sensação de "CASA, cheguei a casa" quando se entra pela porta do nosso pequeno apartamento bruxelense e "olha só quem está aqui, a falta que me fizeram estes braços e estes traços familiares e este riso e esta voz e estas piadas reconfortantes, perspicazes e conhecedoras". Mesmo quando se acaba de deixar outra casa que já foi Casa, outras caras familiares, outros braços reconfortantes, e ainda se está a tentar descortinar se o país que se acabou de visitar e já foi o meu país continua a ser o Meu País e, se sim, que lugar no meu coração tem este onde acabei de aterrar cheia de alívio.

A ausência é uma poderosa catarse de sentimentos. Especialmente porque suscita a saudade. Faz-nos sentir vivos e humanos, e permite definir claramente o que é fundamental e importante na nossa vida, como acho que mais nada o consegue.





S. 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Been there, done that

Depois de três semanas em Portugal, o regresso atribulado a Bruxelas (que implicou uma recusa de embarque, uma noite extra em solo português, coração nas mãos na segunda tentativa de embarque e uma mala que não veio) já acabou e já estou novamente instalada na capital belga e com todos os meus pertences devolvidos.

Sinceramente, os aeroportos andam pouco imaginativos no que respeita os meus regressos atribulados, já que tudo o que se passou desta vez foi quase um déjà vu de há um ano e meio. De maneiras que foi com algum enfado que passei por tudo isto outra vez. Quando o senhor da segurança, em Lisboa, se dirige a mim  e me impede de recolher a mala do raio X porque "A senhora tem aí uma latinha na sua mala..." - era de chá, what else - ainda me entusiasmei um bocadinho e pensei "Eh lá! Sou suspeita". Mas ele nem quis que eu abrisse a mala para confirmar o que era, de maneiras que aquilo acabou tudo muito rápido.

Enquanto o homem não chega tenho andado entretida a tornar a casa habitável, incluindo reabastecimento do stock alimentar, a voltar à rotina de ginásio - que não tinha chegado a tornar-se rotina - e a tratar de burocracias necessárias a uma permanência mais permanente aqui na Bélgica. 

Amanhã é o meu primeiro dia de trabalho e tornar-me-ei formalmente uma emigra. De momento, estudo o mapa de transportes de Bruxelas para descobrir o caminho mais curto para o escritório, que infelizmente é demasiado comprido para ser percorrido a pé. O ginásio cá está para a substituição.



o universo conspira para que eu ame cada vez mais aeroportos


S.  

segunda-feira, 7 de maio de 2012

FCSH, assim você me mata

Eu já devia ter aprendido a não substimar as ironias com que o destino ou o karma ou o que quer que seja me gosta de brindar.

O ano passado, no Dia da Europa (o primeiro ano em que dei realmente importância a este dia), assisti do outro lado do Canal da Mancha e roidinha de inveja aos festejos a que a minha prima foi aqui em Bruxelas. As instituições europeias abertas ao público no único dia do ano em que isso acontece, os stands de mil e uma coisas alusivas à Europa, à União Europeia e aos diversos países que a constituem. Lembro-me da descrição pormenorizada das banquinhas de comida típica do país que na altura detinha a Presidência do Conselho (só não me lembro de qual...), das salas onde os ministros normalmente se reúnem, das cabines de interpretação, de toda a parafernália de objetos que a minha prima arrecadou, desde mapas a saquinhos e canetas com o símbolo da UE. Recordo a frustração de não ter podido participar, de jurar de que para o ano havia de marcar presença, e se não fosse para o ano seria outro qualquer, que o Dia da Europa em Bruxelas era coisa obrigatória para eu assistir antes de morrer. Depois tentava-me confortar com o pensamento "Assim como assim um dia vou trabalhar na Comissão e vou assistir ao Dia da Europa por dentro, conhecer aquelas instituições como a palma das minhas mãos, até vou enjoar o Dia da Europa, hmph!"



Pois. Um ano depois cá estou no Parlamento Europeu como estagiária e os cartazes do Open Day  abundam por todos os cantos da cidade. E eu estou muito feliz por ir, vou conhecer as outras duas instituições, vai ser bom ver o Parlamento todo animado para receber os cidadãos, estou ansiosa pelos joguinhos de cultura geral sobre a UE, por receber canetas, canecas, mapas, balões com as 15 estrelas sobre fundo azul, mostrar ao D. onde trabalho e entusiasmá-lo (ou aborrecê-lo, vá) com a minha nerdice europeia. Isto era, até há pouquinho.

Isto porque acabei de receber um e-mail (entre 11, seriously, que aquela mulher envia e-mails compulsivamente) da minha antiga faculdade em Lisboa com o ciclo de conferências que estão a preparar para o dia. E eu, curiosa, fui abrir. "Ora deixa cá ver como é que a FCSH vai honrar este dia." Ora, pois a FCSH não podia ter feito pior para mim:

---» A Construção da Europa no Feminino - A Participação da Mulher na Sociedade Europeia

---» Polis Europeia: Eurodeputadas, Género e Sentidos de Voto


Estão a falar a sério?! Um ciclo de conferências dedicado ao papel da mulher na União Europeia e eu sem poder ir?! Depois da larga confissão de há poucos dias de que não sei bem como encaixar igualdade de género no que eu espero seja uma carreira de investigação sobre a União Europeia?? Eu estive aí em Lisboa nove meses sempre sedenta de conferências, seminários, palestras sobre a coisa europeia e agora que me venho embora é que organizam uma, ainda por cima sobre mulheres?? Acho que este estúpido karma já foi longe demais.

E obrigada por estragares o meu entusiasmo pelo Open Day aqui em Bruxelas, FCSH.




S.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

I AMsterdam

Para não correr o risco de parecer demasiado efusiva e não me tomarem a sério por estar de ressaca desta cidade, não vou dizer que Amsterdão é perfeito. Mas Amsterdão mostrou-me tudo o que uma cidade pode ser.

Diria que é o cocktail do melhor que há dos diversos tipos de cidade: grande sem ser gigante, calma mas vibrante, cafés, restaurantes, lojas únicas que suscitam a curiosidade nas vielas mais inesperadas, árvores que ladeiam canais, fachadas centenárias, bicicletas aos montes e às filas, tudo limpo, tudo agradável e de deleitar os sentidos como eu nunca experienciei.

Ganhei um novo conceito de "plano". Eu que pensava que conhecia esta palavra enganei-me redondamente. A expressão "ao nível do chão" ganha redobrado sentido, também. Por quilómetros e quilómetros não há o mínimo declive natural; os escassos declives existentes são feitos pelo Homem, como as pontes arqueadas. Tudo naquela cidade conspira para a utilização das pernas e dos pés, e para que o carro seja uma coisa desprezível: os canais que convidam ao passeio ao longo das suas margens, os passeios e ruas largas, o "plano", a beleza circundante, o sentimento de segurança e bem-estar geral.

Porque nunca eu pensei visitar uma capital onde não houvesse locais duvidosos. Não há áreas graffitadas, sujas ou desertas que emanem ar de crime, mesmo de dia. Todas as cidades têm; Bruxelas, Lisboa, Londres não são exceção. Mas Amsterdão parece que é. Não arrogo ter obtido um conhecimento total da cidade, afinal foram apenas três dias, mas palmilhámos muita milha de chão amsterdiano e ao segundo dia já eu franzia a testa com a estranheza de não termos passado ainda em nenhuma zona percetivelmente insegura. (Red Light District não conta, por amor de Deus, aquilo é só uma rua e demorámos bastante tempo a dar com ela. E tem um canal no meio - com cisnes brancos!! -, pontezinhas bonitas, nem com mulheres semi-nuas nas janelas daquelas fachadas centenárias aquilo assusta...)

Cheguei a pensar que o centro da cidade poderia ser exceção, que normalmente as capitais têm sempre subúrbios duvidosos, fora dos circuitos turísticos cuidados e que portanto a minha opinião poderia mudar assim que chegasse à zona da cidade onde ficava o nosso hotel. Falso. Mais uma vez, tudo de uma planície que mete impressão, surpreendente olhar para uma rua e ela seguir sempre em frente até onde os olhos deixam de poder alcançar. Tudo cuidado, tudo verde, estradas largas, passeios amplos, árvores, arbustos, mais canais, mais patos e cisnes. E os limites da minha imaginação a serem impossivelmente estendidos pelo que eu estava a ver na realidade, uma qualidade de vida incalculável e desesperadamente invejável.

Estes adjetivos estão a dar cabo de mim, até enquanto me leio percebo o quão embriagada ainda estou por esta cidade. Mas é isto mesmo que se quer registar: impressões, o menos filtradas pelo tempo e pela vivência possível.


Tudo a andar de bicicleta com diversos arranjos bicicletianos: cestos à frente, caixas da fruta atadas em frente ao volante, malas de carteiro na parte de trás, bancos de criança na traseira da bicicleta, espécies de carrinhos de mão com pedais para acartar filhos, pessoas adultas à boleia sentadas atrás do condutor. Ali, carro é sinónimo de nojo, inconveniência, matacão. Nem transportes públicos são necessários: metro muito pouco desenvolvido e autocarros no centro da cidade nem vê-los. Apenas trams, que se dão extremamente bem em planícies e não contribuem para a poluição do ar citadino.

Ali, os dias amanhecem chuvosos e cinzentos, mas ao longo do dia enrolam-se as nuvens e o sol dá ar da sua graça, tornando uma cidade inerentemente agradável num deleite para a vista. Os pés não querem parar e ganham vida própria; deixam-se guiar pelos olhos, sem grande cortesia para mapas (acabámos por arranjar um, para sabermos onde era a casa da Anne Frank e o Voldenpark) ou guias. Stress reduzido a zero.

Um senão atravessava-me constantemente a mente: Só é pena a língua. Ao terceiro dia já eu dizia "Que se LIXE a língua, vou aprender holandês e mudo-me JÁ para aqui." Vejam o estado de embriaguez, Deus meu.

Várias vezes me cruzou também a memória um bocado de uma conversa que ouvi há muitos anos, num avião de regresso dos EUA. Uns portugueses falavam entre si "O que é que achaste de Nova Iorque?", "Achei que era assim uma mistura entre Londres e Amsterdão". Na altura achei isto muito pretensioso - o tom de voz com que foi dito foi digno de um Castelo-Branco - mas a verdade é que isto ficou guardado nos recônditos da minha mente. E dei por mim a puxar pela memória visual de há oito anos em busca de comparações possíveis com esta cidade onde eu agora me encontrava. Não cheguei a nenhuma conclusão a não ser com a qual comecei este post: Amsterdão é tudo o que uma cidade pode ser porque tem nela tudo o que de melhor as cidades pelo mundo são.





S.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

David e Golias

Bruxelas é uma cidade difícil de nos cativar. Ainda não me apaixonei por ela e, tendo em conta que já lá vão dois meses, não sei se isso irá acontecer.

Porque o mundo é pequeno e as coincidências abundam na vida, acabei por partilhar o escritório com uma colega de curso da King's aqui no Parlamento. Gosto destas continuações, destas réstias de velhas vidas que permanecem connosco numa vida nova. É uma sensação reconfortante ter alguém que nos conhece de antes e que partilha connosco uma nova aventura, que nos ajuda a fazer comparações com o anterior e que nos serve um pouco como régua para medir o novo.

Claro que nas nossas conversas diárias abundam as comparações e as referências a Londres. Era inevitável. Já se tornou mesmo um cliché o nosso Brussels-bashing, um entusiasmo negativo pela nossa nova cidade adotiva.

Desde que deixei a cidade inglesa que eu sabia que para qualquer sítio onde eu me mudasse as comparações seriam inevitáveis. Com Lisboa fui branda e condescendente - pouco me poderia surpreender, afinal. Mas com Bruxelas eu sabia que iria ser implacável. E não falhei na previsão.

É difícil amar-se Bruxelas. A cidade é pequena. Não é particularmente atrativa ou bonita. Os seus sítios de interesse estão espalhados no espaço. O seu caráter particular ainda não o consegui descortinar. Semi-hiberna aos fins-de-semana. 

Tem coisas que admiro e das quais a possibilidade de viver no centro é a mais notória. Dá-me a possibilidade de me deslocar a pé para o trabalho, o supermercado, a lavandaria, as ruas comerciais principais e bares noturnos, coisa impossível em Londres. 

Mas esta pequenez geográfica acarreta com ela a escassez de coisas para ver, fazer, visitar. A artificialidade deste país, onde valões vivem lado a lado com flamengos sem necessidade de se entenderem uns aos outros, torna extremamente difícil sentir o caráter do povo belga e da sua capital.

Em compensação existem as instituições europeias, qual colmeia gigante em torno da qual zumbem diferentes vozes, linguagens, nacionalidades e espíritos. Aqui as expressões "multiculturalismo", "multilinguismo" e "diversidade" ganham uma conotação plena. E a palavra EUROPA também. Porque existe uma qualquer semelhança entre toda esta gente, há um fio condutor que (n)os liga a todos, que apesar de diversos partilham o mesmo núcleo e os mesmos valores básicos. Como uma família, vá.

Brussels-bashing não é algo limitado às minhas conversas com a M. Expandimos a novos conhecimentos, a pessoas que como nós estão aqui há pouco tempo e temporariamente. E porque as perguntas de circunstância "Estás a gostar de Bruxelas?" ou "O que é que estás a planear para o fim-de-semana?" são frequentes quebra-gelos, como é óbvio. 

Quem vive aqui há mais tempo, durante os nossos almoços de amigos na cantina, recomenda paciência. "Dá-lhe mais uns meses", dizem eles. "A cidade vai acabar por te conquistar." Eu torço o nariz e vejo a mesma reação espelhada na cara familiar à minha frente. Mas porque desconheço a minha vida para além de julho, continuo a dar o benefício da dúvida à cidade.







S.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A solidão é solitária

Já não sei estar sozinha. Acho que lhe perdi o jeito.

Em Londres eu sabia muito bem estar sozinha. O meu horário reduzido de aulas e o trabalho exigente do D. fizeram com que eu passasse muito tempo em casa, contente de volta das tarefas domésticas que eram minha obrigação pela primeira vez, a dar um pulinho à High Street, ir ao banco, ir ao supermercado, ir à Primark bater palminhas aos preços impossivelmente baratos. Palmilhar a cidade na companhia exclusiva de mim mesma. Ao final da tarde, ele chegava a casa, e o sentimento de lar instalava-se; as horas solitárias do dia eram agradáveis porque temporárias. E porque eu sempre gostei muito da minha companhia.

Em Portugal tinha o contrário, horário a rebentar pelas costuras, tempo passado a trabalhar em vários sítios diferentes com pessoas diferentes, sempre com companhia. À noite e aos fins-de-semana lá estávamos nós dois, e se não estávamos, a proximidade dos pais, avós e um Luky a dormir ao tapete nunca deixava espaço para solidões.

Aqui, tenho permanente companhia: no escritório com colegas, ao fim da tarde e fins-de-semana o D. 

Não admira pois que uma solidão, ainda que de poucos dias, me pareça estranha. À boa moda do Luky, eu aproximo-me dela, cheiro-a e torço o nariz por não a achar familiar. Ainda que tenha por ela uma espécie de amor-ódio. Enquanto caminhava para casa depois do trabalho (sim, estou-me a aguentar estoicamente neste meu novo hábito, quem diria...) ía enumerando entusiasmada todas as coisas que podia aproveitar para fazer em casa estando sozinha: aproveitar o silêncio para me embrenhar a fundo na leitura, ver episódios de Downton Abbey em modo contínuo, limpar a casa de alto abaixo, estudar muito muito muito para o exame que se aproxima...

Mas depois uma pessoa chega a casa e não está cá ninguém. Os estores estão corridos e a sala está na penumbra. Silêncio. Nenhum movimento fora o meu. Ninguém com quem dividir a baguete quentinha acabadinha de comprar.

Ainda por cima a cidade está meio deserta, já a hibernar para o fim-de-semana prolongado de Páscoa. A caminho para o trabalho quase não vislumbrei vivalma; as duas escolas por onde passo estão fechadas para férias. Menos gente na rua, no trabalho, menos carros. A minha colega de escritório doente e a minha supervisora de férias. Cidade e Parlamento a meio gás.

Ao que a tudo isto se soma a ansiedade a borbulhar cá dentro quando sei que ele está em viagem. A transitar de um lado para o outro. Eu juro que não era assim; não me lembro de momento em que ganhei esta paranóia estúpida e irracional de entes queridos em viagem. Sei que há cerca de dois anos, quando o D. embarcou para Londres uns meses antes de mim, eu passei o dia todo agitada. Estava no meu trabalho de verão e lembro-me perfeitamente de ter aberto um site daqueles que mostram o percurso dos aviões em direto e estar constantemente de olhos presos na figurinha minúscula do avião por cima do mapa imenso da Europa. Desta vez não deu porque a viagem foi de expresso. Ainda que a possibilidade de mandar mensagem de vez em quando tenha atenuado a paranóia.

Dei o desconto de na altura ser por causa da grande mudança, do lançamento um bocado às cegas que foi a ida dele para lá, a incerteza de se tudo iria correr bem. Mas ele depois veio (foi! não é veio... por mais mudanças o compasso geográfico nunca muda, caraças) a Portugal. E eu passei outro dia com o nervosismo a borbulhar no peito, daquele chato porque não dá para acalmar visto não ter razão lógica. Ainda pensei que tivesse que ver com aviões - tenho uma irritação e nó no estômago cada vez maior quando preciso de utilizá-los - mas hoje veio confirmar que não. Também se aplica a autocarros. Se bem que hoje foi misto de ansiedade com excitação a fazer as contas mentalmente tentando imaginar quando é que ele passaria o Túnel da Mancha. Parecia uma criança: "Já chegaste? Já chegaste? Já chegaste?" Quando me informou que já estava em solo londrino abri um sorriso do tamanho do mundo, de alívio misturado com alegria por tê-lo a ele em Londres - devo pensar que estas coisas se transferem por osmose...

Por isso concluo: estar sozinha num lado qualquer é aborrecido. Desamparador. Tenho muita mania de achar que amo a vida de emigrante, que me abre o espírito e me desperta os sentidos mudar de cidade e de país, mas a verdade é que eu não aguentava aqui sozinha uma semana. E que portanto a companhia, o apoio emocional nas banalidades do dia-a-dia, a partilha da descoberta de novos lugares e as duas escovas de dentes na casa de banho não são para ser tomados como garantidos ou trivializados; se não fossem eles sei perfeitamente que não estaria aqui.




S.

domingo, 18 de março de 2012

O poder (de compra) dos M&Ms

As compras semanais de mercearia são uma das grandes preocupações de emigra. Quais são os supermercados existentes no novo país? Onde será que é mais barato? Que tipo de carne existe? Será que existe peixe fresco disponível e a preços razoáveis? Quanto é que se gastará em média por semana/mês?

Apesar de as minhas experiências terem sido todas na Europa, e, logo, sem grandes diferenças em termos de produtos, a verdade é que os preços médios das compras de mercearia divergem bastante entre Londres, Lisboa e Bruxelas. Sendo que Londres é o mais barato (apesar da libra). E Bruxelas o mais caro.

Ía-me dando uma coisinha má quando fomos ao supermercado cá pela primeira vez e gastei mais de 100 euros para uma semana (e a comida não chegou até 4a feira). Mas entretanto descobri que estava a ir aos supermercados express, que eram os mais caros porque apenas para desenrascar aos domingos à tarde quando tudo o resto está fechado, e que as pessoas íam a outros, bem mais baratos e melhores. Quando a conta voltou a rondar os 60 euros semanais, eu voltei a respirar de alívio.

Sempre teimei - porque foi o primeiro produto que quando regressei a Lisboa fui a correr comparar o preço - que o pacote de M&Ms seria o meu produto de referência do custo de vida. Não existem indicadores mundiais que tomam o preço de um cheeseburger do McDonald's como referência do poder de compra? Pois o meu é o pacote de M&Ms. E posso dizer que fiquei feliz quando vi que aqui é mais barato do que em Lisboa - €3.09 contra €3.59. Descobri também que existem uns pacotes de M&Ms azuis, para além dos corriqueiros castanhos e amarelos, mas que ainda não descobri a diferença. Se não tiverem amendoim, perdem toda a graça, isso é garantido.

Ainda assim, a nostalgia aperta forte quando penso na libra e cinquenta que eu pagava pelo mesmo pacote de M&Ms em Londres - isso, sim! uma verdadeira pechincha.






S.

terça-feira, 13 de março de 2012

O mundo é um lugar pequeno - e Bruxelas também

Hoje, terça-feira 13 de março de 2012, larguei o meu vício de sedentarismo entranhado há muito, abandonei o banco do autocarro e fui a pé de casa ao trabalho. É um acontecimento digno da cronologia do Facebook, note-se. Nunca na minha vida fiz commuting a pé. Nunca na minha vida vivi a 2-3 km do trabalho/escola, é certo (excetuando na Primária), mas ainda assim, caminhar 5 km por dia, para uma pessoa que foge de ginásios, desportos e tudo o que acelere a respiração no geral como da peste, é obra. Será que é para manter? Vou esperar incrédula para ver.

Entretanto, deixo-me maravilhar por uma qualidade de vida que não estava à espera. Demorar 30 min do trabalho a casa - a pé, não me canso de frisar! - fazer as compras semanais em supermercados que ficam a poucos quarteirões daqui, deslocar-me a pé para qualquer lado da cidade ou, em alternativa, pegar um dos tipos de transportes que abundam nesta cidade são tudo coisas que sempre invejei na vida de centro de cidade mas que ainda não tinha experimentado verdadeiramente.

Em Londres, apesar de ter todos os serviços e lojas necessárias a dois passos de casa, o que se pudesse considerar minimamente centro da cidade ficava a pelo menos 30 min do lar. A deslocação era algo que só não pesava mais porque feita obrigatoriamente apenas 3 vezes por semana e a horas decentes. Em Lisboa, tinha a vida de subúrbio, fácil somente nas horas de ponta quando os transportes abundam, mas carro-dependente em todas as outras.

Parece que a dimensão de Bruxelas, que ao início me fazia torcer o nariz, está afinal a revelar-se uma grande vantagem.


como gosto de me imaginar a caminhar


eu a caminhar na realidade


S.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ontem, hoje e amanhã

Antes de ontem, foi dia de palmilhar a cidade de Lisboa de mão dada. Unir com passos zonas da cidade e dar uma cara e um caráter ao que só se conhece por nomes de estações de metro. Só quando se calca terreno com os nossos pés - seja ele alcatrão, terra ou calçada - é que se pode sentir uma cidade como nossa, nem que seja só por um bocadinho. E só partilhando esses trilhos, com conversa, chalaças e beijinhos é que a cidade ganha realmente corpo na nossa memória.

Ontem foi dia de despedidas, indignações e abraços calorosos. E, para minha grande surpresa, algumas lágrimas. Foi dia de peso na consciência, por estar a abandonar um trabalho a meio por outro em Bruxelas. Senti-me um verdadeiro Durão Barroso. As crianças foram rápidas a chamar a atenção para tal e não tornaram o peso mais leve. Muito desenho no quadro, muita dedicatória para a teacher S. que tornaram óbvio que os corações não se medem aos palmos. Será que vou sentir saudades disto?

Hoje foi a despedida dessa escola, no dia das máscaras, em que cada um pode ser mais do que ditam os limites dos dias normais. Muitas gargalhadas e boa disposição, não podia ter pedido um melhor último dia.

Amanhã será a machada final na rotina de há 9 meses. A despedida do trabalho onde me senti em casa e que me introduziu ao mundo profissional dos crescidos. Onde tive o prazer de conhecer pessoas inesquecíveis e, suspeito, raras. Vou ter de arrumar a secretária. Vou ter de arrumar o copo da água. O chá preto vai para a copa. E o computador vai deixar de ter uma pasta com o meu nome. Caramba, como é que se diz adeus a pessoas com quem passámos todos os dias dos últimos meses? Desajeitadamente e com pancadinhas nas costas, como é o meu costume.

O nervosismo já aperta. São demasiadas "esta é a última vez que...". É inevitável o nervosismo e a expectativa em relação à nova etapa que está quase a começar, e a ansiedade face à incerteza sobre o que se irá sentir quando se olhar para trás e para o que era rotina. Haverá saudades? Haverá nostalgia? Algum arrependimento? Espero que só um enorme orgulho e alegria.




S.