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domingo, 10 de janeiro de 2016

Media, é assim mesmo #9

(Já tinha falado ao de leve sobre isto, daí que esta cena me tenha arrancado um sorriso. Também relevante em relação a campanhas como Princess Free Zone e Let Toys Be Toys. Não que brincar às princesas tenha algum mal, mas às vezes as raparigas só querem ser um hobbit de orelhas pontiagudas e pés nojentos e ir destruir anéis a vulcões.)











S.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Media, é assim mesmo #8

Ia inaugurar nova rubrica, que seria exatamente o contrário desta, mas tenho medo. Programas muito errados a vários níveis, incluindo o nível sexista, é o que não falta por aí e as razões de muitos deles serem sexistas são demasiado óbvias para tornar a tal rubrica sobre o que os media andam a fazer de errado interessante. Por isso vou tentar fazer a proeza de advogar a favor do diabo para ver se no final, este programa que tem tudo para se tornar numa guerra dos sexos do mais baixo que há, consegue afinal dar a volta e sair exemplo. Um bocado aquilo do ser tão mau que se torna bom, de tão mau que é.

Eu ultimamente tenho andado complacente que mete nojo. Mete-me nojo a mim, porque dou comigo a olhar para coisas evidentemente erradas feministicamente e a tentar justificá-las cheia de benevolência: "deixa lá, se calhar o rapaz não disse aquilo por mal, ele até é boa pessoa"; "este texto não é assim tãão mau, já li coisas piores"; "é claro que esta besta iria dizer isto, qual é o escândalo". Estou numa demasiado zen, de tentar desesperadamente justificar a justiça das coisas como elas são, de compreender a posição da pessoa que está do outro lado que temo estar a tornar-me numa daquelas pessoas amorfas, em que nada acredita, nada lhe causa ultraje ou incómodo moral, porque se posiciona sempre no meio confortável das polémicas, aquele meio onde se aceita os argumentos dos dois lados como válidos, mesmo quando são contraditórios, só para dar a ideia que somos muito balanceados nas nossas posições, quando na verdade não temos é nenhuma. Tão mais confortável viver assim.

Foi neste marasmo complacente que eu comecei a ver um programa chamado "Don't Tell the Bride" na BBC3 e só este meu marasmo pode explicar a sua inclusão nesta rubrica. Mas nem tudo está perdido e eu vou tentar justificar-me ser recorrer à tal técnica do meio confortável. Vamos também esquecer por uns momentos o que eu havia dito há uns meses sobre como instalar TV por cabo seria uma ideia tão brilhante por me ir ajudar a sintonizar o ouvido na língua francesa, já que passamos é os nossos serões com Family Guys, Don't Tell the Brides, telejornais BBCianos e Russell Howard's Good News. As culturas linguísticas são como as economias de escala, difícil de entrarmos nelas mas quando chegamos a um certo nível é só lucro, não conseguimos nos fartar.

Mas sobre o programa.

Don't Tell the Bride tem o cunho dos programas da TLC, como aquele dos concursos de beleza para meninas bebés, ou aqueles muito manhosos da MTV, sobre a vida cheia de drama das adolescentes com bebés nos braços. São temas que são genuinamente dramáticos mas que são apresentados de uma maneira puramente sensacionalista, numa exploração gratuita de problemas pessoais ou escolhas problemáticas para o puro entretenimento da batata de sofá, sempre a pedir que exclamemos um "eeeeh, que horror, há pessoas com vidas tão piores que a minha e tão mais más pessoas do que eu!". O Don't Tell the Bride não é tão mau porque não se trata realmente de um problema, mas a intenção é a mesma: suscitar sentimento de superioridade e uma espécie de "mas o que é que estavam à espera?!" também muito característica deste lixo televisivo.

Imaginem um homem e uma mulher que vão casar. Estão a ver um programa que segue todo o processo de planeamento do casamento? Pouco interessante, né? Então imaginem que é o noivo sozinho que terá que escolher, planear, organizar e gerir tudo, desde o tema ao local da boda, incluindo o fato da noiva, a decoração e os convites. E agora imaginem que eles escolhem os casais em que as mulheres são para cima de picuinhas e drama queens, só para elevar o potencial de drama ao infinito. Já parece ultra-divertido, não?



É incrivelmente fascinante. Primeiro porque eu não sabia que a boa organização de um casamento era suposto advir de um gene que na lotaria genética infelizmente só calhou nas fêmeas humanas. Deve ser como o gene das limpezas, ou do bem passar camisas a ferro. Segundo porque eu não sabia que a escolha errada de um vestido de casamento era razão para finalizar uma relação de vários anos. Terceiro porque há pessoas que ficam genuinamente afetadas por causa de um convite de casamento ter a cor errada. Quarto porque eu não sabia que casar na altura do Natal era inadmissível.

É a premissa do programa o que mais me irrita. A ideia de que é tão inconcebível que um homem possa ter jeito para organizar uma festa, ainda por cima A festa por excelência de qualquer vida de qualquer mulher, a ideia de que o casamento quer dizer coisas tão diferentes seja a pessoa homem ou mulher, que o bom gosto seja uma prerrogativa feminina, que meter um homem a planear o PRÓPRIO casamento seja digno de ideia original para um programa de televisão. No fundo continuamos a manter pressupostos extremamente vincados sobre no que é que homens e mulheres são bons e no que não são. Admito que uma visão do mundo regida por estes pressupostos é uma visão muito arrumadinha, linear e confortável. Terá a sua utilidade, porque as pessoas desse grupo terão tendência a comportar-se assim. Mas é simplisticamente redutora, extremamente injusta para com o indivíduo e, pior que tudo, é auto-realizável. Eu posso não ter a mínima paciência para escolher entre uma rosa ou uma margarida num bouquet, ou se o coral conjugará melhor com a decoração do que o rosa pastel, mas é bom que aprenda a tê-la, se afinal sou mulher, dir-me-á a sociedade sob várias formas, às vezes tão explicitamente quanto este programa. Não será o meu futuro marido que terá essa paciência, de certo, continua ela, cheia de desprezo. 


Mas o mundo não é assim tão linear e eu cada vez que vejo aquele programa penso no próprio homem que está ao meu lado, tão fascinado quanto eu a ver aquele programa (porque isto é mesmo como os acidentes de carro, não dá para parar de olhar), nos homens das minhas amigas, nos meus amigos, em conhecidos magistralmente criativos e dou-me conta que tenho inúmeros exemplos de que o mundo não é mesmo nada como nos tentam vender, arrumadinho em "coisas de gajo" e "coisas de gaja". Pode sê-lo, segundo os gostos oficiais e no que as pessoas terão tendência para fazer (não consigo imaginar nenhum amigo a tratar sozinho do seu futuro casamento. Nem nenhuma amiga a deixá-lo.) Mas poria as mãos no fogo por muitos deles em como, se por alguma razão tivessem que organizar o casamento sozinhos, fá-lo-íam de maneira tão ou mais criativa que as suas caras-metade. Porque sabem qual é a verdadeira ironia deste programa, não sei se propositada ou inconsciente e motivada apenas pelo desejo do final feliz típico? É que os casamentos ali acabam sempre por ser festas originais e com coisas extremamente criativas. Não se nota que não houve ali "mão feminina". Se calhar porque isso da "mão feminina" é uma grande treta. 


Houve um, por exemplo, que quis casar em Nova York (aquilo é tudo pessoal do UK e o orçamento que eles têm para gerir é apertado). No meio de alguns (grandes) fails, como o noivo ter que skypar familiares a pedir dinheiro porque o orçamento não ia chegar e o vestido de noiva ser incrivelmente, hmm, revelador à frente, a ideia original acabou por ser brilhante: casaram no Central Park, perto da estátua da Alice no País das Maravilhas porque esse era o nome da noiva e o seu livro preferido.

No que toca a tarefas quintessencialmente femininas, os homens safam-se mesmo muito bem. A sério, mulheres. Comecem a dar-lhes mais crédito do que pensar que têm ao vosso lado uma pessoa que tem tão bom gosto quanto um ganso daltónico, ou um ser incapaz que não consegue meter umas peúgas na máquina de lavar (ouvirei sempre com eterna estupefação aquela espécie de orgulho mascarado de impaciência condescendente com que muitas mulheres proferem a frase: "O meu marido não tem jeito nenhum para [inserir tarefa secularmente atribuída às mulheres mas incrivelmente monótona como lavar roupa, escolher roupa, passar roupa a ferro, comprar roupa, limpar/lavar a casa no geral]. É mesmo homem." Ai sim? E vós, tendes jeito, é isso? Ou tivestes que o ganhar, assim como também ele o pode?). Dai mais crédito às capacidades uns dos outros, vá lá.

Resumindo: este programa é lixo televisivo porque a sua intenção é colocar os espectadores num falso nível moral superior e fazê-los validar uma imagem do mundo simplista, mostrando uma coisa de forma acrítica mas enviesada de forma a que possam ser os espectadores a criticar de forma óbvia. Aqui, é contra as mulheres: "Ahahahahaha, estava-se mesmo a ver, foste deixá-lo planear as coisas querias o quê, agora chora!" e contra os homens: "Ahahahahaha, olha para aquele parvo, a escolher o fato mais terrível que ali está, os homens realmente não têm bom gosto!", perpetuando a tal visão do mundo muito estereotipadamente arrumadinha, que afinal já tinham e que este programa só vem confirmar. O truque de inconsciente brilhantismo são os casamentos acabarem por ser festas com elementos bastante originais, com coisas que talvez nem passassem pelas cabeças das noivas como opções, mas que funcionam. E, espero eu, saem dali de relação reforçada, a noiva com renovada admiração pela pessoa que tem a seu lado como capaz de uma tarefa que achou impossível. Tudo isto um resultado inconsciente, claro. Nem eu no meu marasmo complacente admito que os fazedores do programa são feministas camuflados.    



  S.                

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Media, é assim mesmo #7

Antes que esteja a evoluir para qualquer coisa pós-feminista ou, pior, que acha que letras como o Blurred Lines são inofensivas, vou avançar com isto do "Media, é assim mesmo". 

O excerto que vos trago é de uma das comédias românticas mais engraçadas que vi nos últimos anos. E eu não gosto de comédias românticas. Carregadinhas de personagens-tipo que até dói. Mas desta gostei muito. Tem personagens femininas bastante interessantes (a Emma Stone fazendo da espirituosa que é e a Julianne Moore, de quem não há um filme que eu não goste), ainda que não tenha a certeza que passe no Teste de Bechdel. Não há grande interação entre elas e penso que não falam de mais do que de homens. O Gosling faz do típico playboy mas tem nuances interessantes, que tornam a personagem humana, e a evolução não o torna num lamechas insuportável. Não é portanto um filme distintamente feminista. Ainda assim, decidi apresentá-lo aqui graças a isto:



 
Por toda a recente polémica que o vídeo e letra da tal Blurred Lines provocou, pelo twerking, pelas Miley Cyrus e Rihannas deste mundo, e por todos os gritos de preocupação com a cada vez maior hipersexualização da indústria de música (hipersexualização das mulheres, claro está, em prol de uma sexualidade que não é necessariamente a delas, antes virada para o ideal masculino heterossexual. Ver artigo da Lia, que está tão bom), esta piada acerta na mouche. E o Ryan Gosling pode. Ele é feminista, não sabiam? :)




  
Ide checkar este projeto que uma aluna americana fez para estudar melhor a matéria do seu programa de Estudos de Género: http://feministryangosling.tumblr.com/ . Maneira original de estudar, ou quê?




S.

Disclaimer : este post não foi um pretexto para usar fotos do Gosling.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Media, é assim mesmo #6

Não sei como vivi sem Family Guy tantos anos da minha vida. Desenhos animados cheios de nonsense e uma sátira tão poderosa que às vezes interrogo-me como é que o MacFarlane escapa com aquilo.



E por falar em Seth MacFarlane: fazer a voz de três das cinco personagens principais, mais inúmeras outras recorrentes, além de ser o criador daquilo tudo? No que me diz respeito, está perdoado pelo fiasco dos Óscares de 2013.

O Family Guy já deve ter sido processado por mais pessoas do que eles próprios conseguem contar. Ninguém nem nenhum grupo escapa à sátira do programa. O criador diz que ainda assim eles conseguem fazer e dizer tanta coisa porque é através de um desenho animado. Eu nunca senti que pisassem o risco mas isto sou eu que adoro humor negro de pessoas como o Gervais e o Frankie Boyle. E depois há aquela coisa de se fazerem as piadas tão negras, ou tão obscenas, que acabam por dar a volta e se tornar é sobre quem as diz, não tanto sobre o grupo atacado. Daí que as piadas que eles já fizeram relacionadas com feminismo estão entre as minhas favoritas e que quase me fizeram engasgar de riso (o Family Guy, sendo uma série com um passo muito apressado, em que muita coisa acontece e é dita em pouco tempo, faz com que risos histéricos do nada sejam frequentes. Não há preparação para os gags, e são uns atrás dos outros, impossível não rir como loucos). 

Ficam aqui umas das que apanhei a tempo para me lembrar de que episódio e série eram e conseguir reproduzir aqui:

Aquela vez em que o Peter é processado por assédio sexual no trabalho:




E depois quando ele foi a um retiro com mulheres e ficou tão embuído de ideais feministas que foi dizer isto:



Mas escolheu o local menos apropriado para o fazer (reunião de afro-americanos) :D :





E aquela vez em que a Lois e uma feminista trocaram galhardetes (muito pertinente para o post sobre as escolhas e o feminismo):








E a minha favorita (nesta engasguei-me mesmo):





Tenho um novo projeto de vida que é ver todos os episódios de Family Guy e alencar todas as piadas que eles fazem que se podem relacionar diretamente com feminismo. Estas todas são só de dois episódios. Considerando que já existem 13 temporadas de mais de 20 episódios cada uma, tenho bom trabalhinho pela frente.




S.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Media, é assim mesmo #5

Há meses e meses que andava para falar sobre esta série mas demorou até formar uma opinião mais ou menos duradoura sobre ela daí que o post só apareça agora. 

                           

Sexo e a Cidade mas com personagens tridimensionais. E sem o bling-bling ofuscante. E com outros tópicos de conversa que não homens. E tão, mas tão mais realista. 

Não é uma série fácil de se gostar. Diria mesmo que é daquelas coisas que ou se adora ou se odeia, e eu oscilei durante a primeira temporada toda entre o ódio e a profunda admiração. Até que estabilizei, pouco a pouco, na profunda admiração. 

Ora, o que tem o Girls para odiar? Muito fácil. A personagem principal não é nenhuma modelo, não é convencionalmente bonita, não é boazinha, nem é mázinha, ou seja, é extremamente difícil de caracterizar e de enquadrar numa das personagens-tipo convencionais. Surge, tipo, como uma pessoa normal, de personalidade complexa e cheia de defeitos e contradições - aliás, como as outras três personagens principais - e isso não é muito usual. Esta foi uma das razões por que eu demorei tanto a decidir-me pela admiração: não conseguia gostar do raio das raparigas. Eram demasiado reais e com defeitos que me tocavam pessoalmente e às vezes só me apetecia era gritar-lhes que não era assim que se fazia/dizia/comportava. Como se fossem mesmo pessoas que eu conhecesse e que me exasperassem as suas atitudes. 



Depois é a ausência de glamour. Estas raparigas vivem em Nova York, profundamente glamourizada nas mentes dos seres femininos que se habituaram demasiado ao Sexo e a Cidade, mas vivem em apartamentos pequenos, partilhando casa, sem nunca lhes vermos o closet a abarrotar de Chanéis, Diors e Loubotins, e - pasme-se! - têm dificuldades enormes em sobreviver na Grande Maçã! Fala-se inclusive em dinheiro, falta dele, eternos estágios não-remunerados, empregos precários, dificuldade em saber que rumo dar à vida profissional, tanta coisa que ressoa demasiado à minha geração que tenta dar os primeiros passos no mundo ingrato do trabalho em plena crise económica. Quando tentei explicar a uma amiga o teor desta nova série, ela respondeu-me, um bocado desiludida, qualquer coisa do género: oh, mas se é parecido com a vida real, qual é o interesse de ver? Fiquei a matutar naquilo. Realmente, se é para ver a desgraça da precariedade uma pessoa liga a tv no telejornal, escusa de estar a ver desgraça ficcionalizada. O Sexo e a Cidade era por isso uma espécie de escape para muito mulherio, a vida de trintonas Diorizadas numa das cidades mais fixes do planeta, cujos problemas mais prementes eram o que vestir para a inauguração do novo bar na zona mais trendy da cidade e se algum dos seus 50 pares de sapatos combinava com o outfit escolhido. A roupa de alta costura, o sapato de marca e os restaurantes ultra-gourmet onde as protagonistas se encontravam para falar invariavelmente de quem haviam comido na noite anterior, ou quem iriam comer na próxima, enchiam os olhos às espectadoras e criaram padrões demasiado altos e irrealistas sobre o que é ser uma mulher bem-sucedida. (E não me venham com merdas, as amizades femininas não são assim.) O Girls virou ao contrário este mundo glamourizado nova yorkino e apresenta-lo-nos numa travessa de plástico, sem se importar em tirar os podres da vida na Big Apple. É demasiado cru e comum, não enche olhos de estrelas a ninguém.






Mas eu diria que o maior pecado desta série, para muita gente pecado capital, é a protagonista ser tão normal. Ter um corpo normal, excesso de peso, e não ter vergonha. Não só não ter vergonha, como ainda ter o desplante de aparecer nua em tantas cenas, inclusive cenas íntimas, ou apenas de tronco destapado, mamas ao léu e barriga redonda em toda a sua glória. E isto foi algo que eu demorei algum tempo a habituar. Ali estava uma rapariga normal, com uns quilos a mais e com um corpo que desobedece aos padrões impossíveis de beleza feminina (como aliás, 99,9999% dos das mulheres desobedece) e sem qualquer pudor em mostrá-lo no pequeno ecrã. Ao início, olhava aquilo com um misto de estupefação e admiração embasbacada, com um leve traço de inveja pelo à-vontade e coragem desta rapariga, mas com muito rebolar de olhos por me parecer que havia ali pelo meio gratuitidade nas cenas de nudez/sexo. Mas à medida que a série avançava, e eu ia tendo noção que aquela moça que ronda a minha idade era a escritora, produtora e protagonista de uma história que desafiava cada vez mais os padrões do que uma pessoa está habituada a esperar de uma produção americana, a admiração cresceu e eu venci a preguiça que me tinha dado para avançar para a segunda temporada e recomecei a ver a série que de tão realista se havia tornado dura de ver. 




Os temas tratados são também extremamente interessantes e uma raridade na tv. Há stalking, há doença obsessivo-compulsiva, há desemprego, há incerteza sobre o que fazer após a univ e os primeiros estágios, há a falta de dinheiro, há a dependência emocional, etc. Nunca com uma nota de moralidade, nem com um final feliz, nem com drama despropositado. Apenas pessoas a cometer erros e às vezes sem qualquer noção, como se fossem, er... pessoas. Muitas vezes me interroguei se muita coisa não seria baseada em situações reais vividas pela Lena Dunham porque simplesmente me parecia impossível alguém conseguir imaginar tal coisa tão intrincada mas tão plenamente realista. Entretanto descobri que sim, muita coisa é baseada na vida real da escritora/protagonista o que explicou também para mim o facto de ela ser um bocado má atriz. Parece mesmo que está a fazer de si própria (e pelos vistos está). 

Há uns dias, quando finalmente me tinha decidido pela admiração profunda, fui pesquisar mais sobre a série e a Lena e descobri rapidamente que ela se intitula de feminista. Não foi choque nem surpresa nenhuns; alguém que tem a ousadia de fazer uma série como esta só poderia ter uma sensibilidade apurada para as questões de género. A coragem de desafiar os padrões-espartilho de beleza e o des-pudor em mostrar o corpo feminino tal como ele realmente é é apenas mais um pormenor dessa consciência feminista. Claro que o que para mim é visto como audácia, para muitos é visto como exibicionismo puro. Mas não é o exibicionismo que incomoda os haters, é a lata que uma mulher sem corpo esbelto tem de aparecer nua na televisão tantas vezes. 



Incha, haters.

Que não fiquem os mais céticos com a ideia que isto é uma série cheia de lições de moral e que as mulheres são grandes heroínas e cheias de auto-confiança e desprezo pelos homens: nada disso. Os temas não são realmente "temas" a ser tratados em cada episódio e com uma moral da história feminista no final; é antes a complexidade e a forma como as personagens caem em certas situações que revela um veio feminista muito subtil mas omnipresente, se se o quisermos notar
.  
Não recomendo a série a ninguém porque compreendo perfeitamente que se possa não gostar. Ela não é fácil e mesmo com todas as suas inovações e "recomendações" feministas a minha paixão por ela não foi imediata e demorei a admitir o brilhantismo da coisa. Mas se gostarem de algo diferente e a vida banal da casa dos 20 não vos aborrecer, ide espreitar. 

Só deixar aqui uma cena do primeiro episódio e que me arrebitou a orelha logo para o potencial feminismo da série:


  


S.

P.S. Uma vez uma delas apareceu sentada na sanita a fazer xixi :O E eu que achava que as mulheres da tv não faziam xixi nem cocó!...

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Media, é assim mesmo #4


Eu bem digo que é nos filmes em que menos espero que encontro pérolas do anti-cliché-da-representação-feminina. Neste caso, não foi nenhuma personagem em especial que me despertou a atenção nem o próprio enredo. O London Boulevard é apenas mais um filme de gangsters. O facto de ser passado em Londres foi decisivo para a sua escolha mas isso agora não é para aqui chamado.

O filme tem mais uma daquelas cenas de 15 ou 20 minutos que pela bofetada à máquina hollywoodesca - e aos media em geral - faz com que mereça um lugar aqui. Cá vai ela:











Pronto, é isto. As 3 personagens-tipo femininas que eu mencionei há vários posts atrás. É a neurótica para contrastar com o homem que só quer é levar uma vida normal, a sedutora e a virgem que servem apenas de pretextos para as torpelias masculinas, e a mãe que representa a figura omnipresente na vida da personagem masculina. Todas, no fundo, não passam de bengalas ao ator principal. Daí que incluírem uma personagem de um filme a constatar isto seja mesmo muito bom. Gosto muito quando Hollywood morde a própria cauda. 

E o Colin Farrell anda a levar muitas lições de representação das mulheres nos filmes, haha!



S.