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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Correr uma maratona será a coisa mais feminista que já fiz


Já dizia a Simone de Beauvoir que uma das coisas que mais contribui para a aparência e sentimento de inferioridade e fragilidade das mulheres é o facto de não lhes ser estimulado o lado físico durante a infância e adolescência. Coisas como subir a árvores, jogar futebol nos intervalos e afins são experiências ainda de rapaz. Tenho a impressão que as coisas estão a mudar devagarinho mas o cunho de "maria-rapaz" ainda é demasiado usado para rotular crianças que gostam destas coisas e que por acaso não são rapazes. A rapariga quer-se sossegada, bem-comportada, enfeitada, não de calças rotas e pés sujos.
 
"Cette impuissance physique se traduit pour une timidité plus générale: elle ne croit pas avoir une force qu'elle n'a pas experimenté dans son corps; elle n'ose pas entreprender, se révolter, inventer: vouée à la docilité, à la résignation, elle ne peut qu'accepter dans la société une place toute faite."
 
"Esta incapacidade física traduz-se numa timidez mais geral: ela não crê ter uma força que nunca experimentou através do corpo; ela não se atreve a empreender, a se revoltar, a inventar: votada à docilidade, à resignação, ela não pode aceitar na sociedade mais do que um lugar pré-determinado."
 
O corpo feminino é sobretudo feito para ser visto e admirado como um objeto, não para ser sujeito e ativo. A atividade, em havendo, é para servir o propósito de o melhorar para admiração, seja perdendo peso, seja tonificando-o, seja combatendo a odiada celulite, nunca sendo um fim em si mesma. Por isso mesmo durante tanto tempo o desporto feminino foi quase um oxímoro, algo indesejado porque masculinizava as mulheres, associando-lhes características tão horríveis e tão não-femininas como competição, força, determinação, liberdade.
 
Pois, a liberdade. Descubro agora que é exatamente isso que me move a mim - e, suspeito, muitos outros corredores amadores - a voltar uma e outra vez à estrada mesmo quando no dia anterior os pulmões quase explodiam, o coração quase saltava da caixa toráxica e o estômago quase se revoltava com o esforço desconhecido. Não é masoquismo, é amor animal à liberdade que pôr um pé à frente do outro e repetir o mais rápido possível nos dá. É saber que só com os meus pés consigo fazer um caminho que durante toda a minha vida fiz de carro, milhares de vezes. Saber que hoje sou capaz de correr daqui à Ericeira. E para a semana sou capaz de ir e voltar. E que daqui a um ano conseguirei correr até Lisboa, se quiser. Só com o meu esforço, com o meu corpo, mais nada. Há lá ideia mais libertadora do que esta?
 
Não admira que até há menos de 40 anos não houvesse maratonistas. Até aos anos 60 não havia nenhuma prova olímpica feminina de corrida com mais de 200m. Havia a ideia de que não era apropriado as mulheres correrem longas distâncias. Apesar de uma mulher, Stamatis Rovithi, ter corrido uma maratona pela primeira vez em 1896 e de nesse mesmo ano Melpomene ter corrido a maratona olímpica estando registada mas sendo-lhe negada a entrada no estádio para a meta, estávamos em 1972 e a mundialmente famosa Maratona de Boston proibia formalmente mulheres de correrem a distância mítica dos 42195 metros. Proibir, vejam bem. Não bastava desencorajar (pensar em 42 km já é desencorajador o suficiente, ainda mais para uma mulher de meados do séc. XX, bem consciente da sua inferioridade física e das características que uma mulher de bem deve possuir, sendo que a destreza e resistência físicas não eram duas delas). Uma das mulheres que desafiou essa proibição só foi descoberta uns quilómetros depois de começar e escapou à perseguição dos organizadores com a ajuda dos colegas de equipa que lhes bloquearam o caminho. Outra escondeu-se atrás de um arbusto perto da linha de partida e zás, largou a correr quando a prova começou, outra foi puxada mesmo antes de meta e impedida de acabar. Em 1972 lá os organizadores da Maratona de Boston permitiram que mulheres também corressem na prova, após estas persistentes corredoras e a proibição da sua ambição terem ido parar à primeira página dos jornais americanos.
 
Mesmo assim foi só em 1984 que a maratona feminina se estreou como prova olímpica. 30 anos. 30 ANOS. Há pouco mais de 30 anos ainda andavam os paspalhos do comité olímpico a arranjar desculpas como "não é aconselhável as mulheres correrem tanto, faz-lhes mal" (mesmo depois de vários médicos terem emitido comunicados a dizer que não havia nenhum entrave físico a que mulheres pudessem correr maratonas) para não deixarem atletas correrem uma maratona olímpica. A condescendência sempre foi um aliado da resistência à emancipação feminina. No desporto não seria diferente.
 
Ide ler sobre a luta pela instauração da maratona olímpica feminina, que é de uma novidade que eu não fazia ideia. A luta pela igualdade num sítio inesperado.
 
Posto isto, não é surpreendente que uma feminista e apaixonada recente disto do meter um pé à frente do outro e repetir rápido tenha decidido que o seu próximo objetivo é correr uma maratona. Quero engordar as fileiras femininas das maratonas, quero ser mais uma a desafiar o que é suposto uma mulher fazer ou não fazer, conseguir ou não conseguir, gostar ou não gostar. Porque a verdade é que eu falo de liberdade animal, da ânsia de comer estrada com os pés e de saber que consigo ir até ali, mas a corrida deu-me outra liberdade, inesperada: a liberdade de desafiar as amarras do meu género. O meu corpo é o meu maior aliado, sou eu, não é nenhuma máscara inerte e exterior a mim, fonte de ansiedade por não corresponder a padrões impossíveis. A minha perspetiva sobre o que posso fazer com ele mudou irremediavelmente, e com ela a minha perspetiva sobre o que me faz feliz. Deixei de ter paciência para enfeites, adornos, roupa restritiva, calçado que me impeça de saltitar se me apetecer (ainda não apeteceu, mas gosto muito de caminhar durante horas, o que em termos de calçado vai dar ao mesmo). Não desdenho nenhuma destas coisas, simplesmente agora aceito de uma vez por todas que não as quero, elas não me servem. Isto sempre foi verdade, a diferença que a corrida trouxe foi levar-me a admitir isto de uma vez por todas. Por outro lado, agora amo vestidos, calções e saias rodadas como nunca. A minha dicotomia não é feminino-masculino, é restritivo-confortável. Só acontece que as duas coincidem demasiadas vezes e não por acaso:
 
"Les coutures, les modes sont souvent apliquées à couper les corps féminin de sa transcendence: la Chinoise aux pieds bandés peut à peine marcher, les griffes vernies de la star d'Hollywood la privent de ses mains, les hauts talons, les corsets, les paniers, les vertugadins, les crinolines étaient destinés moins à accentuer la combrure du corps féminin qu'à en augmenter l'impotence."
 
"As costuras, os padrões são frequentemente aplicados para privar o corpo feminino da sua transcendência: a chinesa com os pés enfaixados mal podia andar, as unhas envernizadas da estrela de Hollywood privam-na das suas mãos, os saltos altos, os espartilhos, as cestas, a armação dos vestidos, as crinolinas foram destinados menos a acentuar o corpo feminino do que a aumentar a sua impotência."
 
 
Já aqui tinha falado disto mas näo resisto porque afinal quase tudo nisto da desigualdade dos sexos vai parar ao mesmo: a visão do corpo feminino como objeto, para ser olhado, admirado, possuído, e nunca como um sujeito.
 
Assim, e para terminar, fico contente que duas paixões que me surgiram paralelas se complementem tão bem e agora até se alimentem uma à outra. Correr uma maratona não é a coisa mais feminista que se pode fazer (até porque há as ultras, haha) mas será sem dúvida a coisa mais feminista que eu já fiz. Desafiarei os meus limites, desafiarei as amarras do meu género e manter-me-á na linha da pessoa que eu quero ser. E eu quero ser a pessoa que chora ao ver Lisboa a aproximar-se, só que desta vez pelo chão. Maratona EDP de Lisboa de 2015, me espera.
 
 
 
 
S.       

sábado, 14 de setembro de 2013

A Simone e as bicicletas

Há um ano, quando comecei a ir para o trabalho de bicicleta, foi todo um novo mundo que se me abriu. Estou a ser um bocadinho dramática, mudei só a minha perspetiva do commuting diário. Mas houve uma coisa inesperada que também tive que mudar: a minha roupa.

A primeira preocupação que tive - até porque a necessidade não demorou a manifestar-se e, vivendo onde vivo, soube logo que seria uma constante - foi descobrir a melhor maneira de contornar a chuva. Descobri aqueles ponchos muito largos e impermeáveis, analisei atenta mas disfarçadamente os companheiros ciclistas (especialmente nos semáforos vermelhos, ocasião preferida para olhar de soslaio o tipo de equipamento que o pessoal do ciclismo urbano utiliza) e cheguei à conclusão que não havia melhor que aquilo. Encomendei, usei, descobri que os pulsos e mãos ficavam molhados que era uma desgraça, e estava sempre um bocado com medo que um carro passasse mais rente a mim e prendesse sem querer o espelho do pendura ao meu poncho esvoaçante e lá fosse a S. de cabeça ao chão. Mas bom, era o que havia e fazia o seu trabalho razoavelmente bem. Até que num dia de chuva em que só tínhamos um chapéu, eu vesti aquilo quando fomos ao mercado de Natal e reparei (ele também não tentou disfarçar) que o D. estava um bocadinho, er... desconfortável. E aqui desconfortável é eufemismo para com vergonha de estar ao pé da minha pessoa. Os meus protestos de "Estás a exagerar um bocadinho, não? Esta capa não é assim tão esquisita..." foram abafados pela foto que ele tirou onde eu não pareço um dementor - como pensei e o que seria estranho mas respeitoso - mas sim um duende azul zangado num dia de chuva. A capa é mesmo muito grande para mim. De maneiras que agora ando à procura de um blusão impermeável ou assim, como as pessoas normais usam. 

Mas isto tudo para introduzir um problema que eu nunca tinha pensado seriamente até ali - nem sabia que era verdadeiramente um problema - até começar a andar de bicicleta no dia a dia: a roupa feminina. De repente, quase todas as minhas saias deixaram de servir, vestidos idem, e a algumas calças tive que dizer bye-bye. Entendam: o meu guarda-roupa não era nem especialmente fashion, porque nunca tive muita paciência, nem particularmente feminino-formalesco. Mas de repente cheguei à conclusão que, para além dos sapatos altos que são a cruz mas a alegria de tanta mulher, a roupa de mulher é extremamente restritiva a qualquer atividade física que esteja acima do caminhar curtas distâncias. Comecei a observar à socapa mas mais atentamente as outras ciclistas e de facto, se entre os homens via muita vezes fatos completos de trabalho, nas mulheres muito raramente descobria alguma saia travada, que faz parte de muito uniforme de trabalho de escritório.

Comecei a ter que ter cuidado especial na procura de roupa que me deixasse as pernas livres para pedalar e no comprimento das saias que me piscavam o olho nas lojas de roupa (elas têm uma mania irritante de subir perigosamente cada vez que se dá ao pedal. E irrita-me solenemente estar preocupada em a ir puxando quando tenho mais com me preocupar quando ando de bicicleta, como, sei lá, não ser abalroada por um carro). Concluindo: uma mulher, para fazer o seu commuting de bicicleta, ou abandona as saias e as calças justas no trabalho, ou passa a levar muda de roupa para trocar assim que chega. 

Já a Simone Beauvoir dizia, falando de roupas de uns e de outros:

"Uma mulher que não pretenda chocar, que não tencione desvalorizar-se socialmente, deve seguir a sua condição de mulher. (...) Mas se o conformismo é para o homem bastante natural - os costumes regeram-se pelas suas necessidades de indivíduo autónomo e ativo - é necessário que a mulher, que também é sujeito, atividade, se mova num mundo que a votou à passividade. É uma servidão tão mais pesada quanto as mulheres confinadas à esfera feminina lhe aumentaram a importância: a toilette, as lides domésticas, a mulher fez delas artes difíceis. O homem tem pouco com que se preocupar relativamente às suas roupas; são cómodas, adaptadas à sua vida ativa."

"Une femme qui ne désire pas choquer, qui n'entend pas socialement se dévaluer doit suivre en femme sa condition de femme (...) Mais tandis que le conformisme et pour l'homme tout naturel - la coutume s'étant réglée sur ses besoins d'individu autonome et actif - il faudra que la femme qui est elle aussi sujet, activité, se coule dans un monde qui l'a vouée à la passivité. C'est une servitude d'autant plus lourde que les femmes confinées dans la sphére féminine en ont hypertrophié l'importance: de la toilette, du ménage, elles ont fait des arts difficiles. L'homme n'a guère à se soucier de ses vêtements; ils sont commodes, adaptés à sa vie active."

E os meus cismas sobre indumentárias próprias para um dia-a-dia que inclui profissão e pedalanço passam a fazer sentido. A roupa de mulher, especialmente aquela roupa que vem à cabeça quando se pensa em mulheres que trabalham em escritórios, simplesmente não está pensada para a mobilidade, está pensada para a passividade e o objeto. É por isso que quando estas mulherzinhas do séc. XXI se metem com a mania de inventar novos meios de transporte que envolvem mais do que colocar um pé à frente do outro, alguma coisa tem que ceder. No meu caso, não há dúvida: entre o meu lado mais girly ou a facilidade e felicidade que é pedalar até ao trabalho, cai o primeiro. Mas com uma pontinha de pena.



Aparentemente, já houve quem pensasse nisto de forma mais prática do que eu.



S. 


 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O maravilhoso mundo da publicidade sexista

É difícil reparar quando uma coisa está errada se vivemos com ela desde sempre e não conhecemos alternativa. É preciso grande dose de imaginação para envisionar um mundo diferente se esse mundo nunca existiu. Esta dificuldade é elevada ao quadrado se achamos que a nossa realidade não tem mal nenhum; é normal, pois se nunca conhecemos diferente porque haveria de estar errada?

Vivemos num mundo altamente sexualizado. Isto não seria necessariamente mau se essa sexualização fosse natural, igualitária, e acima de tudo saudável. Mas está longe de o ser porque as mensagens com que somos bombardeados diariamente - quase sem notar conscientemente, de tão banais que se tornaram - passam uma imagem de uma ultra-sexualização particularmente violenta para a mulher, em que o que conta é o desejo masculino, e a perfeição do corpo feminino em nome não se sabe muito bem de quê (da juventude, da frescura, da passividade, da mulher tornada boneca...). Hoje confunde-se empowerment da mulher com salto-alto, disponibilidade sexual instantânea, solário, lipo-aspirações, maquilhagem, saias curtas e justas. É o sair de uma gaiola e enfiar noutra, pensando que agora sim, se chegou à liberdade.




N' O Segundo Sexo, a Beauvoir fala disto. Precisamente como a aparência da mulher sempre foi moldada em nome de um ideal que não lhe diz respeito, um ideal de beleza subordinado ao que o homem deseja, variando consoante as épocas mas sempre com o mesmo objetivo comum. Um ideal que é criado tão somente para a render à passividade e à condição de boneca e manequim, embelezá-la o mais diferente possível do homem, mantê-la como o "Outro", a tal coisa para ser admirada, lá alto num pedestal ou no submundo, misteriosa porque diferente, numa vénia perpétua à aparência, nunca à sua humanidade. Daí que os stilettos vertiginosos de hoje não sejam no fundo mais que os enfaixamentos dos pés das meninas chinesas há uns séculos atrás, ou os corpetes do séc. XIX não tivessem um propósito fundamentalmente diferente que as saias-tubo: votar a mulher à imobilidade.

Beauvoir diz:

 "Les coutures, les modes sont souvent apliquées à couper les corps féminin de sa transcendence: la Chinoise aux pieds bandés peut à peine marcher, les griffes vernies de la star d'Hollywood la privent de ses mains, les hauts talons, les corsets, les paniers, les vertugadins, les crinolines étaient destinés moins à accentuer la combrure du corps féminin qu'à en augmenter l'impotence."

"As costuras, os padrões são frequentemente aplicados para privar o corpo feminino da sua transcendência: a chinesa com os pés enfaixados mal podia andar, as unhas envernizadas da estrela de Hollywood privam-na das suas mãos, os saltos altos, os espartilhos, as cestas, a armação dos vestidos, as crinolinas foram destinados menos a acentuar o corpo feminino do que a aumentar a sua impotência."


E continua, nesta crua mas tão clara afirmação:

"L'idéal de la beauté féminine est variable, mais certaines exigences demeurent constantes; entre autres, puisque la femme est destinée à être possédée, il faut que sont corps offre les qualités inertes et passives d'un objet."

"O ideal de beleza feminina é variável, mas alguns requisitos permanecem constantes; entre outros o seguinte, pois como a mulher está destinada a ser propriedade de outrém, é necessário que o seu corpo ofereça as qualidades inertes e passivas de um objeto."



É incrível como tão pouco mudou desde que Simone escreveu isto. Hoje, exemplos desta objetificação da mulher entram-nos casa e olhos adentro diariamente que já mal damos por eles. Mas é quando oiço respostas do género "Eu visto / uso / faço X para agradar a mim mesma, porque gosto, e não para agradar aos homens" que me surpreendo que, porra, a mensagem é mesmo eficaz, tão eficaz que nos chega a convencer que o fazemos por espontânea e livre vontade, e não porque somos condicionadas, todos os dias desde pequeninas, por múltiplos canais, que assim é que é. Esta dialética do inerente/externamente-condicionado é o que me fascina na igualdade de géneros e não é exclusivo dela. No fundo é isto que é a socialização, é assim que aprendemos a viver em sociedade, que interiorizamos as regras, tanto legais como informais, do que é ser pessoa. O feminismo simplesmente contesta muitas das que nos impingem sobre o que é "ser mulher" e "ser homem".

Eu não sou imune a elas, claro está. Não sou uma ermita. No meu guarda-roupa versam alguns saltos-altos, uma ou outra saia-tubo, vestidinhos bonitos e alguns extremamente restritivos à minha mobilidade. Pintei o cabelo durante vários anos, faço depilação como é esperado, pinto as unhas de vez em quando. Mas isto não me impede de questionar qual é o propósito com que calço um sapato que me vai fazer bolhas e impedir de andar rápido, porque é que mudo a cor natural do meu cabelo ou que sinto que se não cortar os pelos que teimam em crescer debaixo dos braços sinto que estou a cometer um crime. É o tentar descobrir sempre se o que estou a fazer é de minha verdadeiramente livre vontade ou se estou apenas a capitular face à poderosíssima mensagem com que sou bombardeada diariamente.

Sobre isto da objetificação da mulher, e ligado também aos posts que já fiz sobre a representação da mulher nos media, deparei-me com este vídeo brilhante sobre a forma como a mulher é mostrada na publicidade. E porque corremos o risco de não perceber onde está o problema, já que - again - isto é no que estamos banalmente imersos, decidiu-se imitar certos anúncios extremamente degradantes mas colocando um homem no lugar da mulher. Isto, mais do que qualquer outra coisa, grita o ridículo que são estes anúncios.

O vídeo faz parte de um projeto que um grupo de alunos da Universidade de Saskatchewan fizeram, no âmbito de uma disciplina de estudos de género. Aqui fica:




No dia da Mulher, andou a circular pela blogosfera um post do mesmo género, extremamente espirituoso e que espelha bem o que é isto do Patriarcado, ao criar um universo paralelo onde governaria um Matriarcado, com as mesmas falhas e degradações para um dos géneros que o primeiro. É o Plano B para a Humanidade. Ide checkar também que é mesmo bom.

O Unas também já lhe apanhou o jeito:




S.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A dança do bilião

Quando, há umas semanas, o D. me diz: "Dia 14 vou ver o Benfica a Leverkusen", a minha primeira reação foi "Está bem." Mas depois lembrei-me: "Espera lá, dia 14 é Dia dos..."





"A sério? Vais ao estádio no dia dos namorados? Numa saída de amigos? Quão cliché é isso, pá?"

Mas depois lembrei-me das minhas raízes feministas, e que mais cliché do que ir ver bola com os amigos no Dia dos Namorados é ser a namorada que fica aborrecida com isso, por isso esta foi a minha verdadeira reação:






Entretanto, andava a matutar sobre que iria fazer no Dia da Mulher que se aproxima. Há um ano, graças ao estágio no PE, estava em lugar privilegiado para assistir a todas as conferências e mais alguma sobre o tema. Precisamente no Dia da Mulher, tive a oportunidade de assistir a um debate muito interessante sobre a igualdade salarial entre homens e mulheres na UE. Por isso, e como sei que a as instituições europeias são devotas à igualdade de género, a primeira coisa que me ocorreu foi ir pesquisar o que o Parlamento Europeu tinha agendado para este ano.

Em caminho descobri a campanha do One Billion Rising. O título baseia-se na estimativa de que uma em cada três mulheres será, algures durante a sua vida, violentada, abusada ou violada.

Uma em três.

Isto traduzido em números dá 1 bilião. Não sei o que dá melhor compreensão da extensão do flagelo da violência contra as mulheres, se o número 1 bilião ou se a fração 1 em 3. Uma coisa é certa: são demasiadas.

Pelo que consegui saber, o Lóbi Europeu de Mulheres - aka o meu sonho de emprego - estava a organizar uma flashmob no dia 14 de fevereiro ao fim da tarde em Bruxelas como parte desta campanha mundial contra a violência contra as mulheres. Havia ensaios de coreografia e tudo, e todo um código de vestimenta para participar nessa mobilização.

Quatro coisas conspiraram para que eu considerasse que essa flashmob puderia ser o serão perfeito para o meu Dia de S. Valentim:

1. Estava de folga àquela hora naquele dia;

2. Assim como assim iria estar sozinha em casa sem nada de especial para fazer;

3. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa nesta cidade, porque só assim me consigo integrar;

4. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa no que diz respeito aos direitos das mulheres, porque só assim  consigo conhecer pessoas que partilham a minha visão e os meus interesses e os desenvolvo. A Beauvoir é boa companhia mas também preciso de conviver com gente viva.


Uma coisa conspirou para que a flashmob ao ar livre se tornasse uma má ideia:

1. O tempo.


Depois da hora do almoço começou a chover e no meu boletim meteorológico habitual até figurou um novo tipo de tempo: freezing rain. E que é freezing rain? Portanto, não é neve, não é chuva normal, também não é granizo... O que é? Pode-se sempre contar com Bruxelas para inovar no que aos códigos de meteorologia diz respeito. Comecei a temer que a chuva estragasse os meus planos de manifesto feminista.

Decidi ir. Está a chover, que se lixe. Se não fizer nada porque está a chover bem que posso ficar todos os dias em casa. E se está 1 grau, veste-se mais um casaco e siga.

Quando cheguei à Place Monnaie, o ponto de encontro da campanha e onde iria acontecer a dança, fiquei surpreendida com a quantidade de pessoas. Não estava à espera de ver a sala tão composta:




A minha postura demasiado auto-consciente e mais passiva do que gosto de admitir, levou-me a instintivamente procurar um lugar de observadora, e por isso fugi lá do meio e fui-me posicionar estrategicamente entre as colunas do edifício (também queria estar numa posição privilegiada para fotografar e filmar, confesso).

Entretanto, a música começa e o pessoal começa a coreografar:




Não conhecia os passos, mas a beleza das multidões é que se apanha o ritmo instintivamente, e começa a tornar-se impossível ter os pés quietos. Isso e o frio; não há nada como tirar o pé do chão para evitar que um membro nos caia, de dormente que está.

Foi muito inspirador. E superou as minhas expectativas. Não tanto pela música e pela flashmob propriamente dita, os pretextos para o ajuntamento e o grito de revolta, mas pelos pequenos detalhes que vi: as amigas que vieram juntas e que gritaram mais que todos os outros; os cartazes contra a violência; a mãe que levou a filha de um ano e que encorajava a bebé a dançar ao meu lado, e que foi bem sucedida (mais uma prova de que o ritmo de multidões a dançar é contagiante) e que me trouxe lágrimas aos olhos, porque sim senhora, de pequenino é que se torce o pepino, e assim é que é, educar a filha a ter orgulho em ser mulher, sem ser apenas no mais banal da aparência; na velhota de fartos caracóis loiros que entretanto apareceu lá no meio a bambolear e a curtir a música como as raparigas de 20 anos, e que me levou a um grito interno de "Quando eu for grande quero ser assim!"; os homens que apareceram e que se juntaram ao protesto, numa posição de respeito pelas mulheres da sua vida.

Entretanto a flashmob acabou, começou música para animar e aquecer o pessoal ("Vous êtes CHAUDS?" Então não estamos, senhora apresentadora...) e eu decidi sair do meu poleiro e ir mirar as barraquinhas com informação sobre a campanha. Uma senhora entregou-me isto:




Nada mais nada menos que um panfleto sobre aulas de defesa pessoal, defesa verbal, e grupos de auto-ajuda e aconselhamento sobre como as mulheres se podem sentir mais seguras. Quão bad ass, meu deus!

Isto fez-me lembrar um argumento que a Beauvoir faz n'O Segundo Sexo, sobre a relação entre a passividade a que são devotadas as mulheres e o seu sentimento de fragilidade e insegurança. Segundo ela, é necessário que as mulheres participem em atividades físicas, não lhes seja travado o impulso de subir às árvores em criança, de correr, de saltar, de puxar o limite dos seus corpos. Só experimentando o corpo, mexendo-se e raspando joelhos é que a mulher, tal como o homem, ganha consciência do que é capaz, e que as suas conquistas físicas e a boa relação com o seu corpo lhe dão a auto-estima necessária para dizer na sua vida: "Eu sou capaz" e a colocar-se a si própria objetivos mais altos. Eu vou desconfiando que ela tem razão.

Sem saber muito bem como nem porquê, dei por mim no meio da multidão, e a mexer o pé devagarinho. Passados cinco minutos era ver-me aos saltos como uma maluca, a dançar como raramente aproveito, e com um sentimento de irmandade a invadir-me os sentidos. Fala-se tanto da rivalidade entre mulheres, e como as amizades entre raparigas são sempre tão cheias de intrigas, e como é tão difícil trabalhar com mulheres porque são umas cabras umas para as outras, que foi mesmo bom sentir e presenciar a refutação desse mito: o que ali vi foi mulheres a partilharem a felicidade genuína e o sorriso fácil que vem da dança e do mexer o corpo sem qualquer propósito que não o da diversão: sem o propósito de agradar, sem o propósito de seduzir ou sequer rivalizar. Mexer ritmadamente e ao som de música dançante simplesmente porque é divertido.

Fiquei parva comigo mesma; estava a gostar genuinamente de estar ali a dançar!... De notar que eu fujo da discoteca e da noitada como o diabo da cruz. Fez-se mais uma vez a flashmob e eu entrei rapidamente na coreografia, no meio da multidão e sem qualquer preocupação no mundo.

A sessão de anti-self-consciousness fez-me definitivamente bem à alma.

Agora estou aqui sentada no sofá, no quentinho e no silêncio do lar, de pernas dormentes porque levaram dose puxada de abuso hoje - para além da caminhada habitual de commuting de uma hora, ainda me levaram até à Place Monnaie e aguentaram uma hora a pular como se não houvesse amanhã. Mas estou satisfeita, de sorriso nos lábios e com vontade de me envolver em mais coisas destas. Que venha o dia 8 de março!







S.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A maternidade como (não) projeto


Nunca ninguém me deu uma razão convincente sobre o porque é que se tem filhos. Para todas as explicações sobejamente conhecidas, ou prós, consigo arranjar outras tantas que as anulam, os contras. A do amor (já tenho pessoas na minha vida para amar, para quê acrescentar mais), a da construção da família (dois não são uma família?), a da descendência (o mundo já está sobrepopulado, para quê botar mais gente), a do continuar a nossa obra (gerar e criar um ser humano para massajar o ego sempre me pareceu duvidoso), a do "porque é mesmo assim a vida" (quem disse?), etc. Eu tenho uma teoria muito própria sobre o porquê que as pessoas têm filhos, mas como é muito parcial, muito fruto da minha não-maternidade, extremamente politicamente incorreta, e não me apetece ser linchada em praça pública, guardo-a só para mim. Um bocadinho do género como quando a Fátima Lopes, farta de as entrevistas que lhe faziam rondarem sempre a pergunta do "Mas não quer ter filhos porquê?" respondeu que as mulheres que tinham filhos era porque não se conseguiam realizar de outra maneira. Assim, muito à bruta e sem rodeios.

Minto; uma vez uma amiga deu-me uma razão que me convenceu de certa maneira ou, pelo menos, deu-me que pensar. Disse ela que as pessoas têm filhos porque isso lhes permite ver tudo de olhos frescos. As pequeninas coisas do dia-a-dia, as coisas maiores como as festas e as férias, o mundo, passa a ser visto como que pela primeira vez. É como quando eu vou no autocarro a chegar a Mafra e esforço-me para olhar para o Convento como se fosse uma turista, ou quando releio um post após saber que determinada pessoa já o leu, tentando avaliá-lo pelos olhos de outrém. É o renovar do mundo, vá.

Mas depois penso em toda a chatice que toda a gente que já passou pela parentalidade está sempre a enumerar, desde as birras, os choros, o cocó, o parto, a adolescência e as respostas rosnadas, o deixar de sermos donos do nosso tempo, o custo financeiro, etc, e penso que quem se devia ter que justificar seriam os que queriam ser pais, não os que não querem. Porque os que não querem ser pais é só o continuar da situação em que já vivem, os outros é que estão ativamente a mudar a sua. E que o "porque sempre foi assim" nunca justificou nada.

É por isso que quando leio na Beauvoir aquela concisa frase do:


"Gerar, amamentar, não são atividades, são funções naturais; nenhum projeto é aqui empenhado; é por isso que a mulher nunca encontrou aí motivo de uma afirmação superior da sua existência; ela apenas se submete passivamente o seu destino biológico."

"Engendrer, allaiter ne sont pas des activités, ce sont des fonctions naturelles; aucun projet n'y est engagé; c'est pourquoi la femme n'y trouve pas le motif d'une affirmation hautaine de son existence; elle subit passivement son destin biologique."


eu penso: "Oh porra, acertou na muche".

A frase ressoou comigo por tudo o desabafado acima, mas não só. Ela vem no encadeamento da análise do que é ser humano. Que característica/transcendência/atividade nos eleva acima de meros animais, da "besta sadia / cadáver adiado que procria"? A Beauvoir explica que:


"É arriscando a vida que o homem se eleva acima do animal."

"Se en risquant sa vie que l'homme s'élève ao dessus de l'animal." 


E aqui homem entende-se como Homem, a humanidade. Ou seja, é desbravando o mundo que tanto homens como mulheres se realizam como seres humanos, é no trabalho produtivo, na contribuição para um mundo melhor, no desenvolvimento de projetos, na sua superação enquanto indivíduos e enquanto sociedade. Mas para Beauvoir, a maternidade não é nenhuma destas coisas, porque é tão-somente uma atividade biológica, tão corriqueiramente animal como comer, dormir, crescer, caçar, copular, defecar, urinar, envelhecer, morrer. E é precisamente por isto que a História dos dois géneros humanos não é uma História de divisão natural de esferas de atividade, nem tampouco de igual valor. Enquanto os homens - desta vez os seres humanos de género masculino - conquistavam e moldavam o mundo, descobriam os limites do pensamento, da natureza e da capacidade humana, as mulheres estavam confinadas ao seu destino biológico de procriar:


"Mas as vozes femininas calaram-se sempre onde começava a ação concreta: puderam suscitar guerras, nunca sugerir a tática de uma batalha; nunca orientaram a política exceto quando esta se reduzia a intriga; os verdadeiros comandos do mundo nunca estiveram nas mãos de mulheres; estas nunca agiram sobre as técnicas nem sobre a economia, nunca fizeram nem desfizeram Estados, elas não descobriram mundos. É por sua causa que certos eventos se desenrolaram, mas as mulheres sempre foram pretextos, muito mais do que agentes."


"Mais en fait, les voix féminines se taisent là où commence l'action concrète: elles ont pu susciter la guère, non suggérer la táctique d'une bataille; elles n'ont guère orienté la politique que dans la mesure où la politique se réduisait à l'intrigue; les vraies commandes du monde n'ont jamais été aux mains des femmes; elles n'ont pas agi sur les techniques ni sur l'économie, elles n'ont pas fait ni défait des États, elles n'ont pas découvert des mondes. C'est par elles que certaines événements ont été déclenchés; mais elles ont été prétextes beaucoup plus qu'agents." 


Isto está tudo muito bem e explica em poucas palavras a origem da inferioridade da condição da mulher ao longo dos tempos. Encaixa tão bem com as minhas dúvidas sobre a parentalidade e tudo, perfeito.

Mas não consegui evitar o cisma na frase "Gerar não é um projeto"...

Desde que a li que se tornou na frase que mais me deu que pensar em todo O Segundo Sexo. Não é um projeto porque é uma atividade biológica... Não é um projeto porque qualquer animal o faz... Ter filhos não é um projeto...

Mas que raio...?

Mas ter filhos atualmente equivale realmente a procriar como quando vivíamos nas cavernas? Não há nada na atividade de gerar pessoas de hoje em dia que lhe acrescente um valor que esta não tinha há milénios atrás? E todo o trabalho que envolve educar um pequeno ser humano para viver saudavelmente em sociedade, o que os ingleses chamam de "raise a child"? Não se diz "raise a dog"... E se o que uma mãe e um pai humanos fazem é intrinsecamente o mesmo que o que uma mãe gata faz, então onde ficam os professores e, especialmente, os educadores de infância? O que eles fazem não é o mesmo que um pai? Então se é, não conta como projeto, também? Se não é, onde está a diferença: no serem remunerados? No facto de os filhos não serem deles?

Ainda não consegui desembrulhar este novelo.

Está pois visto que nem a Beauvoir me consegue esclarecer nas questões da parentalidade e descendência. 

Não deixa de ser curioso que precisamente hoje tenha nascido um bebé muito aguardado na família, de duas pessoas quase da minha idade e da do D. e que esteja a rebentar de curiosidade sobre todos os detalhes, dos mais animalescos e infímos aos mais transcendentes e sentimentais. Acho que é um bocadinho parecido com o fascínio que eu tenho pelo mundo das maquilhagens: leio quem é apaixonado por tal, surpreendo-me com a dedicação, paixão e perseverança que é preciso para sermos bons naquilo, mas depois no meu dia-a-dia fujo a sete-pés. É um fascínio ao longe*, portanto.




S.


*Ouviram, mãe e pai? Ao longe. Este post não é nenhum reflexo de qualquer relógio biológico, podem respirar fundo . O único relógio que toca nesta casa é o alarme às 7h45.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Beauvoir explica

Com muita pena minha e após muita pesquisa, descobri que a obra-prima da Simone de Beauvoir não existe em livro eletrónico - nem para fazer download nem para comprar. Teria sempre que comprá-lo em papel, portanto. Primeiro decidi que o iria requisitar numa biblioteca aqui da cidade; estou num país francófono, ora que bolas! (bom, parcialmente, pelo menos). Mas depois cheguei à conclusão que teria mesmo que o comprar já que este é um livro que tenho que ter, para ler, voltar a reler, folhear, ir clarificar qualquer coisa.

Por altura do Natal, deparei-me com isto, que me alertou para uma livraria de livros em segunda mão, a caminho do meu trabalho:



Ali estava uma boa oportunidade para obter o livro de forma baratinha.

A livraria era enorme - o que não deixou antever antes de entrar - e tinha filas e filas de prateleiras cheias até ao teto. Pus logo de parte a ideia de procurar o livro sozinha e assim que perguntei ao livreiro se tinha obras da Beauvoir, ele encaminhou-me para uma estante tão insuspeita quanto as outras todas (maravilha-me o facto de os livreiros saberem sempre exatamente onde estão os livros, qualquer um que se peça, mesmo quando o sistema de organização das obras não é nada explícito).


Eram dois volumes e estavam agarrados por um elástico. E custaram 5 euros, os dois. Que achado!

Devo confessar que a minha excitação por ir começar a ler esta obra-prima do feminismo era de equivalente proporção ao meu medo que isto fosse um livro ideológico, dogmático, um manifesto. Eu gosto mesmo muito do feminismo, mas não gosto de bíblias. Aceito as premissas do feminismo, essa da igualdade entre géneros, mas gosto de saber porquê, que me expliquem as coisas, que me as argumentem logica e racionalmente, sem dogmas e sem credos. Por isso mesmo parti um bocadinho de pé atrás para esta leitura que esperava muito que fosse elucidatória.

Digo agora de consciência muito tranquila e até aliviada que os meus receios eram completamente infundados. Beauvoir antes de ser feminista é filósofa e portanto todo O Segundo Sexo é um discorrer lógico de pensamento. Não há uma pontinha de dogma na obra que muitos apelidam de a Bíblia do Feminismo.

O ponto central da obra é descobrir porque é que a mulher, em toda a História e em todas as sociedades humanas, foi invariavelmente subjugada pelo homem, relegada para um papel secundário, inferior, como segundo sexo, arredada da construção do mundo. A autora explora várias teorias que se debruçaram sobre este fenómeno, como a psicanálise e a inveja do pénis, o materialismo histórico e a importância da produção no valor do homem, etc. Nenhuma delas, no entanto, consegue explicar na totalidade a subjugação da mulher. Todas parecem incompletas. Até a História, por não conseguir apontar o momento ou o acontecimento que relegou a mulher para segundo sexo, não consegue dar uma resposta satisfatória. Mas depressa Beauvoir chega à conclusão que:

"Sempre houve mulheres; elas são mulheres pela sua estrutura fisiológica; tão longe quanto a História consegue alcançar, elas foram sempre subordinadas ao homem; a sua dependência não é a consequência de um acontecimento ou de algo que surgiu."

"Il y a toujours eu des femmes; elles sont femmes par leur structure physiologique; aussi loin que l'histoire remonte, elles ont toujours été subordinées à l'homme; leur dépendence n'est pas la conséquence d'un événement ou d'un devenir, elle n'est pas arrivée." 

Ou seja, isto deixa antever que há algo inerente à fêmea humana que explica a sua condição subalterna. E foi aqui que eu tremi. Não estava bem a compreender onde é que a Simone ia parar indo por esta linha de pensamento abaixo. Fraqueza inerente? Isto cheira precisamente à misogenia que durante séculos manteve a mulher subjugada: "A mulher é naturalmente mais fraca que o homem, tem perturbações de humor, é histérica, é emotiva, é uma incapaz, é melhor deixá-la lá estar sossegadinha no lar. É para bem dela."

Simone envereda pois pela biologia. Vai tentar descobrir onde está a característica que terá que ser comum a todas as fêmeas humanas e que explica o "ser mulher". Rapidamente descobre que só o facto de ser fêmea não explica que a mulher tenha que ter uma posição subalterna ao homem; na Natureza e entre as outras espécies tal não se verifica. Sim, geralmente as fêmeas são mais pequenas do que os machos, menos fortes, e têm obviamente uma função importante na continuação da espécie. Mas estão par a par com os machos; ou seja, funções diferentes sim mas equivalentes. O que não acontece com as sociedades humanas: a mulher, relegada para o lar e para a função reprodutora, tem um papel manifestamente secundário na sociedade (de notar que o livro foi lançado em 1949, e enquanto toda a argumentação é perfeitamente válida hoje, o papel da mulher mudou bastante nestes últimos 60 anos).

Então o que é que a autora descobre? Uma coisa surpreendente na nossa biologia. Nenhuma outra fêmea, na Natureza, está tão escravizada à sua função reprodutora, à sua espécie, portanto, quanto a fêmea humana. Beauvoir enumera: 

- nenhuma outra espécie tem a possibilidade de engravidar todos os meses - se pensarmos nos cães e nos gatos, estes têm, o quê? dois ou três cios por ano, enquanto uma mulher está condicionada pela sua função reprodutora doze vezes por ano; 

- nenhuma outra espécie tem uma semana de relativa alteração hormonal todos os meses fruto do seu ciclo reprodutor que é, lá está menstrual, e que, consoante a intensidade é mais ou menos incapacitante;

- nenhuma outra espécie dá tanto de si, biologicamente, durante a gestação. A gravidez é nas humanas uma condição que lhe suga literalmente elementos indispensáveis à vida;

- nenhuma outra espécie sofre tanto com o parto como a fêmea humana.

Daqui a Simone retira que a mulher é, fisiologicamente, uma escrava da espécie. E que esta escravidão constitui o busílis da questão da sua inferioridade na sociedade:


"A razão profunda que no advento da História relegou a mulher ao trabalho doméstico e a interdiu de tomar parte na construção do mundo, é a sua escravização à função geradora."

"La raison profonde qui à l'origine de l'histoire voue la femme au travail domestique et lui interdit de prendre part à la construction du monde, c'est son asservissement à la fonction génératrice."


Isto era tudo muito bonito, diz ela, na altura em que o homem caçava para comer, esculpia as suas ferramentas, e sobrevivia apenas. Aí a mulher tinha, como qualquer outra fêmea na Natureza, a tarefa de gerar. Mas esta era tão válida quanto a da caça, já que ambas se destinam à perpetuação automática da espécie. É a partir do momento em que o homem começa a modelar o mundo, a explorá-lo, a domá-lo, a desbravar terras e a cultivá-las, que o seu papel ganha uma transcendência impossível até aqui e que a fêmea humana, pela dupla razão da sua escravização à função reprodutora e por ser geralmente mais fraca que o macho humano, é relegada para a caverna de forma definitiva:

"A fecundidade absurda da fêmea impede-a de participar ativamente no crescimento dos recursos uma vez que ela (a fecundidade) cria indefinidamente novas necessidades."

"La fécondité absurde de la femme l'empêchait de participer activement  à l'acroissement de ses ressources tandis qu'elle créait indéfinemant de nouvelles besoins."


Beauvoir chega a interrogar-se no entanto porque é que mesmo assim a mulher não gozou de uma posição igual ou mesmo superior ao homem precisamente pela sua capacidade de gerar vida; se há coisa mágica e geradora de inspiração e maravilhamento é a capacidade de onde só havia um, passar a haver dois. Mas ela depressa descobre porquê:

"É arriscando a vida que o homem se eleva acima do animal." - Ou seja, o homem adquire o seu valor enquanto Homem quando arrisca a vida, quando empreende, quando desbrava o mundo.

"Se en risquant sa vie que l'homme s'élève ao dessus de l'animal." 

"Gerar, amamentar, não são atividades, são funções naturais; nenhum projeto é aqui empenhado; é por isso que a mulher nunca encontrou aí motivo de uma afirmação superior da sua existência; ela apenas se submete passivamente o seu destino biológico."

"Engendrer, allaiter ne sont pas des activités, ce sont des fonctions naturelles; aucun projet n'y est engagé; c'est pourquoi la femme n'y trouve pas le motif d'une affirmation hautaine de son existence; elle subit passivement son destin biologique."

Isto é quase como levar uma chapada na cara. Tão acutilante, tão sem-misericórdia, tão cru, tão racional, tão... controverso. Mas tão lógico e tão clarificador. Explica duas coisas fundamentais da condição da mulher:

1. O historial de subalternidade, desde sempre e em todas as sociedades sem exceção;

2. Porque é que só agora, há pouco mais de 50 anos, é que se tem assistido a uma verdadeira alteração no papel fundamental da mulher. Numa palavra: pílula.

Pela primeira vez na História, a mulher domina o destino a que a espécie a devotou ao controlar quando, como e onde será (ou não) mãe. Só agora a sua participação ativa no mundo, na produção e no conhecimento é possível:

"Um dos problemas essenciais que se colocam à mulher é a conciliação do seu papel reprodutor com o seu trabalho produtor."

"Un des problèmes essentiels qui se posent  à propos de la femme, c'est la conciliation de son rôle reproducteur et de son travail producteur."


Dei pulos de contente quando desenredei todo este pensamento; eu sabia que a minha suspeita de que a conciliação trabalho-família é o grande obstáculo para a igualdade de género na Europa era fundada!

E pronto, chega assim ao fim o ponto central e fundamental d' O Segundo Sexo. Não é o único, bem entendido: falta o papel da religião, a explicação da sexualidade diferente, e as consequências que séculos de relegação para papel inferior tiveram (e ainda têm) no que é "ser mulher" e em como a mulher se vê a si própria. E ainda há todo o papel fundamental que o Cristianismo teve nisto tudo.

Fica para futuros posts.

Por agora, ficarei muito contente se tiver feedback, seja ele do género "isto não faz sentido nenhum" ou "sim senhora, muita lógica" ou ainda "faz sentido mas discordo aqui e aqui". Como diz o outro, é a falar que a gente se entende.



S. 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Agarra que é feminista

Ainda mal o comecei, mas a avaliar pelo tempo que tem estado a marinar na minha mente e pelo número de vezes que já tive ganas de o lançar, este post vai levar tempo a ser escrito. Por mim, tudo bem; tenho o fim-de-semana todo pela frente.

Já por duas ou três vezes toquei no assunto, quase sempre relacionado com os meus estudos. Mas a igualdade de género tem vindo a adquirir uma parte demasiado grande dos meus pensamentos, da minha perspetiva da vida e do mundo, e do que eu quero fazer no futuro. Merece, pois, ocupar um espaço maior na minha escrita. 

Este blog é por vezes demasiado ligeiro, com mais aleatoriedades, reviews de chás e baboseiras sobre chocolates quentes do que eu me atrevo a admitir e, tirando um ou outro post sobre considerações mais profundas sobre o futuro - o meu futuro, entenda-se - não relata nenhuma das minhas lutas interiores de convicções. E o feminismo, como já se viu, é talvez a maior delas. Não era, mas de há uns anos para cá tem vindo a rastejar sorrateiro pelos meus sentidos, fazendo cócegas à minha inteligência, suscitando mais dúvidas do que esclarecimentos, mas trazendo à baila uma lógica muito diferente do senso comum mas que faz tão mais sentido ao que observo à minha volta todos os dias.

Já aqui tinha dito uma vez como as questões de igualdade de género me suscitaram interesse pela primeira vez. Lembro-me perfeitamente de em 2007, por altura da assinatura do Tratado de Lisboa e quando Portugal detinha a presidência do Conselho Europeu, me ter vindo parar às mãos uma capa com panfletos sobre a Presidência, com um cd pequenino que continha as prioridades políticas de Portugal para a Europa, e uma delas ser distintamente a continuação da luta pela igualdade de género. E lembro-me de achar aquilo surpreendente e maravilhoso ao mesmo tempo, sem saber ainda explicar bem porquê. Uma espécie de gut feeling me dizia que aquela era a direção certa a seguir.

Entretanto, a minha paixão, curiosidade e ambição pela União Europeia definiu-se e apurou-se, e numa das minhas leituras anteriores ao ingresso na King's, descobri logo que a minha dissertação final de Mestrado teria que versar sobre direitos das mulheres. E versou. Desde então, vi-me obrigada a ler muito na área, aprender ainda mais, descobrir os variados campos onde a igualdade de género ainda não é uma realidade (todos. Menos o da lei, talvez. Mas os hábitos, como se sabe, são sempre os últimos a mudar) e conciliar a minha visão académica com a minha visão feminista.

Agora que olho para trás é que me apercebo como os dois campos da igualdade de género que sempre me fizeram borbulhar mais o sangue foram precisamente os que escolhi como trabalho/estudo: 

- a violência, doméstica mas não só, contra as mulheres, que foi o que impulsionou a minha intenção de estagiar na APAV. Normalmente, eu sou uma pessoa muito serena, controladinha nas suas emoções e ações, no domínio sobre mim, e por isso mesmo lembro-me perfeitamente de ver o Bordertown, e acabar o filme a soluçar, cheia de calafrios e um horror que me abanou até à alma. E pensar: "Isto não é normal. Se eu não tenho nenhum trauma de violência, como é que é possível isto me afetar desta maneira?". E chegar à conclusão que ali estava a única e verdadeira causa com a qual eu alguma vez me podia indignar a sério, ao ponto de agir.

- a divisão do trabalho doméstico. Esta agora metida assim por baixo da da violência até parece um bocado mal, pontos diferentes de gravidade, se calhar... Mas se há coisa que sempre me mexeu com os nervos foi a questão de levar a roupa, fazer o jantar, fazer a cama, ir às compras, mudar fraldas, dar biberões, ir pôr à escola, passar a ferro, etc etc serem coisas de mulher. Como é que num casal onde ambas as pessoas trabalham fora de casa continua a ser da responsabilidade da mulher? Como é que isto parece justo seja a quem for? Também a propósito disto, lembro-me agora de uma professora de História no 10º ano, que não tinha mais de 30 anos e dona de uma energia contagiante, relatar muito bem-disposta que não senhor, lá em casa fazia-se tudo a meias, ela cozinhava, o marido passava a ferro; ela punha roupa a lavar, ele aspirava o chão. E eu ganhar uma admiração daquelas do género inalcançáveis, "quando for grande quero ser assim" mas ter-se toda a certeza que é preciso muita sorte para calhar com um homem daqueles. Hoje já penso bem diferente, e que não passa pela sorte mas sim pelo bom senso e não espero menos que a sua quota-parte do trabalho doméstico feito. Que - surpresa! - é pelo menos metade: 2 a dividir por 2 dá 1. Que é metade de 2 (ok, acho que já se percebeu). Mas porque entendo que enquanto não houver divisão perfeita neste campo as mulheres nunca vão poder escolher livremente carreira ou família ou ambas, e porque surpreendentemente a UE já legislou sobre isto, foi o tema da minha dissertação de Mestrado.

Estas são duas boas razões para uma pessoa ser feminista. A palavra está conotada com um sentido pejorativo que leva muitas mulheres a afirmarem que acreditam que há ainda muito a fazer no campo da liberdade das mulheres "mas eu não sou feminista". Pensa-se em mulheres histéricas, zangadas com o mundo e com os homens, de cabelo rapado e a queimar sutiãs. É do género da ideia de que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço. Eu não tenho nada contra feministas radicais que gritam muito, rapam o cabelo e queimam sutiãs; pelo contrário. Tenho uma profunda admiração por este grupo, por exemplo, que cultiva ódios um pouco por todo o lado mas que chocam e abanam o establishment até às entranhas, com a noção muito radical de que o corpo da mulher lhe pertence a ela somente:



Só tenho pena de não ter a coragem delas. Mas ser feminista não é nada mais do que acreditar que todas as pessoas devem ter os mesmos direitos, a mesma liberdade, as mesmas oportunidades e o mesmo tratamento, tenham elas uma pilinha ou um pipi. Mas depois entra-se no campo da grande frase "mas os homens e as mulheres são diferentes, ponto." Aparentemente são, sim. Mas quanta dessa diferença é biológica e quanta é socialmente construída? Aqui é que reside a verdadeira questão: saber separar as diferenças fisiológicas e óbvias, das que são assimiladas desde a nascença, pela convivência em sociedade, e que se traduzem em todo um conjunto de regras que ditam o que é "ser mulher" e o que é "ser homem". E as diferenças fisiológicas, tenho-me vindo a aperceber que são pouco mais do que as diferenças que há de um indivíduo para outro.

O post já vai longo e por isso reservo a crítica do livro O Segundo Sexo da Simone de Beauvoir, o verdadeiro instigador deste post, para outro dia. E este blog vai decididamente tomar um caráter mais discutidor porque ele sempre foi catártico e meter as ideias em texto ajuda a desenrolar o novelo emaranhado chamado FEMINISMO que reside na minha cabeça e que todos os dias adquire um novo nó.




S.