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domingo, 22 de outubro de 2017

Ando numa fase de biografias e gostei tanto desta que tenho de partilhar umas citações




'You should do your best to notice luck so that you don't accidentally take credit for it.'

'The stereotype of the Nagging Wife has proved very useful to those of us who are often the primary cause of all the nagging: the Useless Husband. Because these days, women who find their domestic situation deeply unsatisfactory won't just need to complain, they'll need to apologise for the complaining.'

'Masculinity adds up to little more than the pursuit of not being a woman (not walking like this, not talking like that).'


E a minha favorita:


'A young man may call himself feminist, but to do so is hardly a test of character. It isn't even a test of feminism. He'll find out how firmly he believes that women have minds of their own when one of them breaks his heart.' 





S.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Entretanto, há 70 anos numa Berlim 'libertada'


in A Woman in Berlin, anonymous


Estou a ler o diário que uma mulher alemã manteve durante dois meses aquando da chegada do Exército Vermelho a Berlim, da luta pela cidade e da capitulação alemã.

Para além de ser uma perspetiva incrível sobre o dia-a-dia das pessoas durante o crepúsculo de uma guerra - desde os abrigos coletivos nas caves dos prédios sempre que chegavam as bombas, até à ida diária à bomba para ir busca água, as rações a que tinham direito, a espera e incerteza sobre quando chegariam os russos e a incerteza geral pelo futuro - é um retrato profundamente realista (porque, enfim, escrito na primeira pessoa e à medida que as coisas iam acontecendo) sobre a natureza humana, as relações entre conquistador e conquistado, e a capacidade do ser humano de se adaptar a condições que no conforto da nossa paz achamos inconcebíveis.

É incrível a forma lúcida e objetiva com que ela analisa o que vai acontecendo, coisas por que passa - incluíndo múltiplas violações - e o detalhe que fornece. 

Talvez o mais precioso de tudo sejam as reflexões desapaixonadas que faz de assuntos gerais através das experiências que vai vivendo. Há uma altura em que reflete se a sua relação com um major do exército russo se baseava em violação ou se não estaria ela a trocar favores sexuais por comida, e se sim, o que achava ela do facto de se estar a prostituir (ela não julga a situação moralmente e diz muito simplesmente que nunca se achou acima das mulheres que se prostituem para ganhar a vida). Ou de quando conclui que o facto de falar um pouco russo é ao mesmo tempo uma benção e uma maldição, já que por conseguir entender os soldados consegue identificar-se humanamente com eles, consegue vê-los como indivíduos, como humanos, e portanto não consegue odiá-los no geral como bestas pelo que estão a fazer, como outras mulheres alemãs conseguem. Ou quando, já na inevitabilidade de Berlim ser vencida, repetir sarcasticamente o dito de que os berlinenses otimistas estão a aprender inglês, os pessimistas a aprender russo. Quando reflete no odioso culto à masculinidade feito durante o regime Nazi, mas masculinidade essa que agora se refletia na decadência dos berlinenses que restavam, que não levantavam a voz a nenhum dos conquistadores, nem punham qualquer entrave ao tratamento vil destes às suas mulheres, que por isso iria ser preciso encontrar um novo conceito de masculinidade após a guerra. O relato das conversas sobre política que teve com alguns membros do exército russo, do medo que os russos em geral tinham de subir escadas por estarem habituados a casas rurais de único piso, de como eles só conseguiam violar mulheres quando estavam podres de bêbados, de como aproveitaram as bandeiras nazis para recortar bandeiras vermelhas e hasteá-las no topo de edifícios, de como relógios de pulso fascinavam os soldados russos, alguns usando-os 5 e 6 em cada braço, porque na URSS não havia cá desses luxos.

O diário foi publicado em 1954, em inglês, salvo erro, e não na Alemanha, porque houve uma controvérsia enorme sobre o conteúdo do diário. Ninguém queria falar das violações em massa, ainda hoje um assunto tabu, nem da geral conivência dos homens alemães com aquilo que os russos fizeram às suas mulheres (a autora não os recrimina, observando que é uma técnica de sobrevivência como outra qualquer, mas relata surpreendida a retirada que dois ou três russos fizeram quando um marido lhes gritou que deixassem a sua mulher em paz - não estavam à espera daquela reação e não queriam confusão). A autora manteve o anonimato, e só autorizou a re-publicação do livro após a sua morte, para evitar mais uma onda de polémica.

É um relato fascinante, bem mais incrível do que literatura histórica da época. Parece que a realidade supera sempre a ficção, não é verdade, tanto no mais terrível como no mais belo.




S.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

De volta às origens

Acabei de ler há dias um dos livros mais interessantes que li nos últimos tempos, o The Descent of Woman: The Classical Study of Evolution. Já tem uns aninhos - foi publicado em 1972 - mas é absolutamente brilhante. Foi o primeiro livro a elevar a fêmea humana a um papel igual ao do macho humano na evolução da espécie. E arrasa muitos mitos andropocêntricos da evolução para lhes dar uma explicação mais conforme com a sobrevivência da espécie - tipo, as mamas, por exemplo - ao invés da explicação centrada no que o macho quer e deseja.
 
Já agora, e por falar em androcentrismos, é por isto que são necessárias coisas como estudos das mulheres, estudos de género, estudos pós-coloniais, etc. A Ciência, muito longe de ser uma coisa objetiva e imparcial, está carregadinha de androcentrismos. As perguntas que apresentamos e as respostas que propomos estão tragicamente presas ao que somos e à nossa experiência. E ao longo destes recentes séculos em que se andou a fazer Ciência, quem somos e essa experiência tem sido esmagadoramente a de um homem branco, ocidental e de classe média. E essa perspetiva, por muito difícil que nos possa parecer, não é especialmente mais imparcial ou objetiva do que qualquer outra. As teorias apresentadas para aspetos da evolução humana, que Elaine Morgan tenta contra-argumentar, são um belíssimo exemplo disto.
 
Mas bom, voltando ao livro. Curiosamente, o que mais me fascinou não foi a elevação que Elaine deu à mulher na evolução humana - evolução essa que está intimamente ligada ao aspeto reprodutivo da fêmea, como não podia deixar de ser - mas sim à teoria que ela apresenta para defender grande parte dessas contribuições femininas. A teoria não é dela, já tinha sido proposta antes por um patologista alemão e por um biólogo marinho nos anos 60 mas que não teve grande atenção porque refutava demasiados mitos da nossa evolução como a importância de termos começado a caçar para a organização política e social da espécie, ou o termo-nos posto em pé para vermos mais longe na savana, e as modificações no corpo da fêmea terem-se dado como forma de agradar ao macho. 
 
Chama-se the aquatic ape theory e é completamente fascinante. Como o nome indica, o argumento central propõe que houve uma dada altura na evolução humana que os nossos antepassados passaram a passar grande parte do seu tempo na água. E quase que lá ficavam permanentemente, mas não, regressaram à terra. E é por isso que somos uma espécie de golfinhos mal acabados. O nosso corpo começou a adotar mecanismos dos mamíferos marinhos - ausência de pêlos, aparelho reprodutor e sexual ainda mais recuado para dentro do corpo (no caso das fêmeas), membranas entre os dedos, lágrimas salgadas para diminuir a quantidade de sódio ingerido - mas sem os ter desenvolvido até à perfeição porque entretanto voltámos para a terra (não conseguimos aguentar o tempo que outros mamíferos marinhos aguentam sem respirar denaixo de água, por exemplo. Nem chegámos ao ponto de transformar pés e mãos em barbatanas. Mas abram o polegar e o indicador; ela está lá!). Só uma alteração tão brusca de habitat poderia justificar a diferença evolutiva tão rápida entre nós e outros primatas próximos. E essa diferença brusca é o meio aquático, empurrados para lá pela mudança climatérica do Plioceno, defende Elaine.
 
Vamos lá ver, nós não nos tornámos animais completamente marinhos. Mas a praia passou a ser o nosso habitat. Passávamos muito tempo dentro de água, inicialmente para afugentar predadores que não gostam nada de se molhar, como os grandes felinos. Como não sabíamos respirar dentro de água, começámos a aprender a andar nos dois pés, para conseguirmos ir mais para dentro do mar. Começámos a morar em cavernas, coisa que não falta na linha de costa. Aprendemos a usar seixos como ferramentas (são sempre seixos, as ferramentas encontradas junto aos nossos antepassados) porque isso não falta na praia. Perdemos o pêlo, porque realmente na água ele não dá jeito nenhum (o pêlo! Ninguém tem uma história convincente sobre termos perdido o pêlo. Quer dizer, temos pêlo para nos aquecermos naturalmente, perdemos o pêlo e depois temos que andar a arranjar pêlos de outros animais porque temos frio à mesma? Que aspeto tão parvo da evolução, se tirarmos o habitat água da equação). Criámos uma camada subcutânea de gordura ao mesmo tempo que perdemos o pêlo, tal e qual como os outros mamíferos marinhos. Criámos um mecanismo, que mais nenhum primata tem porque nunca precisou dele, para compensarmos as golfadas de água salgada que dávamos: as lágrimas (salgadas). Temos um medo irracional de cobras porque temos a mania que são viscosas (a pele de uma cobra é seca, sequinha, mas a de uma enguia já não). E por aí fora
 
E eu acho isto espetacular não só porque explica tanta coisa de forma tão convincente, incluíndo coisas ainda inexplicadas pela teoria do caçador, mas também porque me faz espécie como é que isto nunca foi pegado seriamente e sistematicamente pelo establishment científico. É que depois do livro publicado, não houve nem aceitação nem tentativas sérias de contra-argumentar a teoria do macaco aquático. Silêncio, só. Certamente mudaria demasiado a narrativa estabelecida da evolução humana.
 
Eu pela parte que me toca agora sempre que vou à natação tenho a mania de esfregar as mãos de contente e apetecer-me gritar "BACK TO BASICS, BABY!". Ponho creme nos braços com pêlos escassos e fininhos e penso com tristeza "Estivemos quase, quase! a transformar-nos em golfinhos, que pena termos voltado para terra..."




S.       

domingo, 11 de maio de 2014

"É difícil ser português hoje em dia"

2014 é ano de aniversário redondinho de vários acontecimentos históricos que me interessam particularmente: os 40 anos do 25 de Abril, os 70 anos do desembarque dos Aliados na Normandia, e o centenário do início da Primeira Guerra Mundial. Visto que nenhum dos três conheço em proporção igual ao interesse que me despertam, ando de olhos abertos para tentar descobrir os melhores informadores sobre estes acontecimentos. Para o 25 de Abril, a escolha foi fácil e rápida.




Andava há uns anos a querer saber mais sobre o papel da CIA durante o PREC e a forma como os americanos e europeus ocidentais sustiveram a respiração durante o "Verão Quente" de 1975. Este ano, queria comemorar os 40 anos do fim do Estado Novo alargando o meu conhecimento sobre o golpe de Estado. Assim que me deparei com este livro num programa qualquer da RTP Internacional nem precisei de procurar mais: matei dois coelhos de uma cajadada. Culpem a minha educação em Relações Internacionais mas eu só me consigo interessar por assuntos internos na medida em que estes se relacionam com o exterior. De modo que um relato de como a nossa Revolução dos Cravos e os meses conturbados que se lhe seguiram foram analisados por jornais internacionais tornou-se o livro perfeito sobre o 25 de Abril.
 
É um livro verdadeiramente delicioso. Foi o primeiro livro de papel que comprei em muitos meses e a razão (para além de não existir versão eletrónica) foi a quantidade enorme de ilustrações, cartoons e capas estrangeiras alusivas à Revolução e ao PREC que o livro reproduz. O livro é uma obra fabulosa de documentação de reações jornalísticas a este período pela parte de cerca de 100 publicações de 20 países diferentes. Muita hora a consultar jornais por essas capitais fora, este livro.
 
Os autores vão descrevendo as reações aos acontecimentos caóticos que se sucediam em catadupa através de citações desses jornais e de cartoons da época, o que torna o acompanhamento das descrições muito fluido e por vezes humorístico. Temos assim um relato do 25 de Abril e PREC através de olhos exteriores.
 
Três ideias em especial me despertaram o interesse:
 
1. "Certamente que vale a pena evitar a guerra civil quase a qualquer preço. Mas é difícil perceber como é que pode ser evitada, a não ser que os radicais no interior do MFA abandonem as suas tentativas de continuarem a empurrar Portugal à força para a esquerda." (The Times, 1 setembro 1975)
 
Quase todos os analistas estrangeiros, numa altura ou noutra, acreditaram piamente que Portugal caminhava para uma guerra civil. E se calhar seria inevitável, não fosse o temperamento do povo português, que muitos deles também exaltam:
 
2. "Até agora, os portugueses testemunharam sempre a sua repugnância pelo uso da violência física. Perguntamo-nos em que outro país da Europa se poderia desenrolar um tal processo revolucionário sem que soldados ou civis recorressem às armas." (Le Figaro, 7 agosto 1975).
 
A nossa revolução foi realmente excecional pela ausência de sangue e as profecias ao longo do ano e meio que durou o PREC não se realizaram.
 
3. "É importante que Brejnev deixe claro que vai desencorajar os seus amigos em Portugal quanto às posições extremas que têm vindo a assumir. Os comunistas portugueses apoiam-se nas espingardas dos seus aliados do exército para se apropriarem de um poder não representativo. Se isto prosseguir com a bênção russa, [...] o conceito de desanuviamento [...] devia ser revisto. O presidente Ford deve dizer aos russos que têm de levar Cunhal e o general Gonçalves a desistir da sua tentativa de, pela força, impedir uma larga e crescente maioria de, em Portugal, dirigir o seu próprio país como a democracia liberal que ambiciona." (The Economist, 16 agosto 1975).
 
Eu pensei que o PREC tinha tido a mão da URSS e que Portugal tinha sido uma espécie de fantoche vigorosamente disputado, ainda que de forma dissimulada, pelas duas superpotências durante e logo após o 25 de Abril, até ter sido claro em finais de 1975 que seríamos mesmo uma democracia pluralista. Afinal, a URSS não tinha nenhum interesse em que Portugal se tornasse um satélite comunista, isto porque os soviéticos não tinham capacidade de sustentar o PCP e o país como haviam feito com Cuba, porque seria muito difícil mobilizar tropas para aquele retângulo tão geograficamente ocidental, e porque em 1975 houve o plano de desanuviamento entre as duas superpotências no sentido de manterem o mundo no equilíbrio em que estava e com as divisões previsíveis da altura. Há ainda a curiosidade paradoxal de o PCP ser quase mais comunista que Moscovo e Brejnev chegar mesmo a discordar da ortodoxia do Partido Comunista Português. Bizarro.
 
Concluindo, foi um livro que gostei mesmo muito. É um relato minucioso sobre o ano e meio que se seguiu ao 25 de Abril mas que acaba por não ser chato pelos comentários e citações dos periódicos estrangeiros e pela míriade de cartoons em cada página.




S.

domingo, 20 de abril de 2014

Igualdade sem idolatrias

O John Stuart Mill é um filósofo fantástico. Como são fantásticas as pessoas que defendem causas das quais não podem tirar proveito próprio.
 
Defendia a liberdade, como vários pensadores seus contemporâneos, mas ao contrário de quase todos estes, ao Stuart Mill não lhe escapou que metade da população vivia num estado de escravidão legal. O seu ensaio "The Subjection of Women" é incrível pela lucidez, racionalidade e serenidade com que defende a liberdade das mulheres e a igualdade entre os sexos.
 
Eu ainda não o acabei, mas já sei que a parte mais extraordinária já a li.
 
Sabem aquelas odes que de vez em quando surgem a exaltar as qualidades "intrínsecas" das mulheres? Ai que as mulheres têm uma força qualquer especial, ai que as mulheres são como um anjo e iluminam tudo o que tocam, ai que as mulheres são fadas, ai que as mulheres são amor, ai que as mulheres são deusas, ai que as mulheres são a perfeição em pessoa. Normalmente nestas odes o sujeito até surge como "a mulher", assim no singular para enfatizar ainda mais a essência de que todos os seres humanos do sexo feminino partilham. Estas exaltações da suposta essência superior feminina irritam-me quase tanto como sexismo descarado. E nem é pouco frequente que andem de mãos dadas. Quando uma mulher não se comporta como esta fada angelical cheia de amor auto-sacrificador da ode é fácil ser vilipendiada por estes pseudo-adoradores da essência feminina. Já dizia a outra (a Gloria Steinem), um pedestal é tanto uma prisão como qualquer espaço pequeno e fechado.
 
Ora, o Stuart Mill está no lado oposto disto. Ele fala desses exaltadores da mulher e de como a sua retórica está oposta ao seu tratamento delas:
 
"(...) é-nos dito perpetuamente que as mulheres são melhores do que os homens, por aqueles totalmente opostos a tratarem-nas como se elas fossem assim tão boas; e por isso esse dito tornou-se numa hipocrisia aborrecida, com a intenção de colocar uma face elogiosa sobre um insulto (...)"
 
"(...) we are perpetually told that women are better than men, by those who are totally opposed to treating them as if they were as good; so that saying has passed into a piece of tiresome cant, intended to put a complimentary face upon an injury (...)"
 
E ele continua:
 
"Se as mulheres são melhores do que os homens em alguma coisa, é seguramente no sacrifício individual por aqueles que pertencem à sua família. Mas eu ponho pouco ênfase nisto, enquanto elas forem ensinadas universalmente que nascem e são criadas para o auto-sacrifício. Acredito que a igualdade de direitos esbateria esta abnegação exagerada que é o presente ideal artificial do caráter feminino, e que uma boa mulher não seria mais auto-sacrificadora do que o melhor dos homens: -"
 
"If women are better than men in anything, it surely is in individual self-sacrifice for those of their own family. But I lay little stress on this, so long as they are universally taught that they are born and created for self-sacrifice. I believe that equality of rights would abate the exaggerated self-abnegation which is the present artificial ideal of feminine character, and that a good woman would not be more self-sacrificing than the best man: -"
 
E até vê nisto um potencial melhoramento dos homens:
 
"- mas por outro lado, os homens seriam muito menos egoístas e mais auto-sacrificadores do que atualmente, uma vez que não seriam mais ensinados a idolatrar a sua própria vontade como uma tão coisa grandiosa que seja realmente a lei para outro ser racional [aqui ele refere-se aos poderes de chefe que a lei do séc. XIX conferia ao homem casado sobre a sua mulher]."
 
"- but on the other hand, men would be much more unselfish and self-sacrificing than at present, because they would no longer be taught to worship their own will as such a grand thing that it is actually the law for another rational being."
 
Não há um pingo de idolatria por uma suposta essência feminina. Ele não o diz com todas as letras, nem tinha que o dizer porque não faz parte do tema da obra, mas acho que ele não acreditava que houvesse sequer uma essência feminina, visto que as características das mulheres do seu tempo se deviam à sua condição de escravas, e não a características intrínsecas do sexo feminino. A inabalável convição e defesa da igualdade das capacidades racionais das mulheres é até francamente surpreendente num filósofo que viveu em meados do séc. XIX.




S.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Beauvoir explica

Com muita pena minha e após muita pesquisa, descobri que a obra-prima da Simone de Beauvoir não existe em livro eletrónico - nem para fazer download nem para comprar. Teria sempre que comprá-lo em papel, portanto. Primeiro decidi que o iria requisitar numa biblioteca aqui da cidade; estou num país francófono, ora que bolas! (bom, parcialmente, pelo menos). Mas depois cheguei à conclusão que teria mesmo que o comprar já que este é um livro que tenho que ter, para ler, voltar a reler, folhear, ir clarificar qualquer coisa.

Por altura do Natal, deparei-me com isto, que me alertou para uma livraria de livros em segunda mão, a caminho do meu trabalho:



Ali estava uma boa oportunidade para obter o livro de forma baratinha.

A livraria era enorme - o que não deixou antever antes de entrar - e tinha filas e filas de prateleiras cheias até ao teto. Pus logo de parte a ideia de procurar o livro sozinha e assim que perguntei ao livreiro se tinha obras da Beauvoir, ele encaminhou-me para uma estante tão insuspeita quanto as outras todas (maravilha-me o facto de os livreiros saberem sempre exatamente onde estão os livros, qualquer um que se peça, mesmo quando o sistema de organização das obras não é nada explícito).


Eram dois volumes e estavam agarrados por um elástico. E custaram 5 euros, os dois. Que achado!

Devo confessar que a minha excitação por ir começar a ler esta obra-prima do feminismo era de equivalente proporção ao meu medo que isto fosse um livro ideológico, dogmático, um manifesto. Eu gosto mesmo muito do feminismo, mas não gosto de bíblias. Aceito as premissas do feminismo, essa da igualdade entre géneros, mas gosto de saber porquê, que me expliquem as coisas, que me as argumentem logica e racionalmente, sem dogmas e sem credos. Por isso mesmo parti um bocadinho de pé atrás para esta leitura que esperava muito que fosse elucidatória.

Digo agora de consciência muito tranquila e até aliviada que os meus receios eram completamente infundados. Beauvoir antes de ser feminista é filósofa e portanto todo O Segundo Sexo é um discorrer lógico de pensamento. Não há uma pontinha de dogma na obra que muitos apelidam de a Bíblia do Feminismo.

O ponto central da obra é descobrir porque é que a mulher, em toda a História e em todas as sociedades humanas, foi invariavelmente subjugada pelo homem, relegada para um papel secundário, inferior, como segundo sexo, arredada da construção do mundo. A autora explora várias teorias que se debruçaram sobre este fenómeno, como a psicanálise e a inveja do pénis, o materialismo histórico e a importância da produção no valor do homem, etc. Nenhuma delas, no entanto, consegue explicar na totalidade a subjugação da mulher. Todas parecem incompletas. Até a História, por não conseguir apontar o momento ou o acontecimento que relegou a mulher para segundo sexo, não consegue dar uma resposta satisfatória. Mas depressa Beauvoir chega à conclusão que:

"Sempre houve mulheres; elas são mulheres pela sua estrutura fisiológica; tão longe quanto a História consegue alcançar, elas foram sempre subordinadas ao homem; a sua dependência não é a consequência de um acontecimento ou de algo que surgiu."

"Il y a toujours eu des femmes; elles sont femmes par leur structure physiologique; aussi loin que l'histoire remonte, elles ont toujours été subordinées à l'homme; leur dépendence n'est pas la conséquence d'un événement ou d'un devenir, elle n'est pas arrivée." 

Ou seja, isto deixa antever que há algo inerente à fêmea humana que explica a sua condição subalterna. E foi aqui que eu tremi. Não estava bem a compreender onde é que a Simone ia parar indo por esta linha de pensamento abaixo. Fraqueza inerente? Isto cheira precisamente à misogenia que durante séculos manteve a mulher subjugada: "A mulher é naturalmente mais fraca que o homem, tem perturbações de humor, é histérica, é emotiva, é uma incapaz, é melhor deixá-la lá estar sossegadinha no lar. É para bem dela."

Simone envereda pois pela biologia. Vai tentar descobrir onde está a característica que terá que ser comum a todas as fêmeas humanas e que explica o "ser mulher". Rapidamente descobre que só o facto de ser fêmea não explica que a mulher tenha que ter uma posição subalterna ao homem; na Natureza e entre as outras espécies tal não se verifica. Sim, geralmente as fêmeas são mais pequenas do que os machos, menos fortes, e têm obviamente uma função importante na continuação da espécie. Mas estão par a par com os machos; ou seja, funções diferentes sim mas equivalentes. O que não acontece com as sociedades humanas: a mulher, relegada para o lar e para a função reprodutora, tem um papel manifestamente secundário na sociedade (de notar que o livro foi lançado em 1949, e enquanto toda a argumentação é perfeitamente válida hoje, o papel da mulher mudou bastante nestes últimos 60 anos).

Então o que é que a autora descobre? Uma coisa surpreendente na nossa biologia. Nenhuma outra fêmea, na Natureza, está tão escravizada à sua função reprodutora, à sua espécie, portanto, quanto a fêmea humana. Beauvoir enumera: 

- nenhuma outra espécie tem a possibilidade de engravidar todos os meses - se pensarmos nos cães e nos gatos, estes têm, o quê? dois ou três cios por ano, enquanto uma mulher está condicionada pela sua função reprodutora doze vezes por ano; 

- nenhuma outra espécie tem uma semana de relativa alteração hormonal todos os meses fruto do seu ciclo reprodutor que é, lá está menstrual, e que, consoante a intensidade é mais ou menos incapacitante;

- nenhuma outra espécie dá tanto de si, biologicamente, durante a gestação. A gravidez é nas humanas uma condição que lhe suga literalmente elementos indispensáveis à vida;

- nenhuma outra espécie sofre tanto com o parto como a fêmea humana.

Daqui a Simone retira que a mulher é, fisiologicamente, uma escrava da espécie. E que esta escravidão constitui o busílis da questão da sua inferioridade na sociedade:


"A razão profunda que no advento da História relegou a mulher ao trabalho doméstico e a interdiu de tomar parte na construção do mundo, é a sua escravização à função geradora."

"La raison profonde qui à l'origine de l'histoire voue la femme au travail domestique et lui interdit de prendre part à la construction du monde, c'est son asservissement à la fonction génératrice."


Isto era tudo muito bonito, diz ela, na altura em que o homem caçava para comer, esculpia as suas ferramentas, e sobrevivia apenas. Aí a mulher tinha, como qualquer outra fêmea na Natureza, a tarefa de gerar. Mas esta era tão válida quanto a da caça, já que ambas se destinam à perpetuação automática da espécie. É a partir do momento em que o homem começa a modelar o mundo, a explorá-lo, a domá-lo, a desbravar terras e a cultivá-las, que o seu papel ganha uma transcendência impossível até aqui e que a fêmea humana, pela dupla razão da sua escravização à função reprodutora e por ser geralmente mais fraca que o macho humano, é relegada para a caverna de forma definitiva:

"A fecundidade absurda da fêmea impede-a de participar ativamente no crescimento dos recursos uma vez que ela (a fecundidade) cria indefinidamente novas necessidades."

"La fécondité absurde de la femme l'empêchait de participer activement  à l'acroissement de ses ressources tandis qu'elle créait indéfinemant de nouvelles besoins."


Beauvoir chega a interrogar-se no entanto porque é que mesmo assim a mulher não gozou de uma posição igual ou mesmo superior ao homem precisamente pela sua capacidade de gerar vida; se há coisa mágica e geradora de inspiração e maravilhamento é a capacidade de onde só havia um, passar a haver dois. Mas ela depressa descobre porquê:

"É arriscando a vida que o homem se eleva acima do animal." - Ou seja, o homem adquire o seu valor enquanto Homem quando arrisca a vida, quando empreende, quando desbrava o mundo.

"Se en risquant sa vie que l'homme s'élève ao dessus de l'animal." 

"Gerar, amamentar, não são atividades, são funções naturais; nenhum projeto é aqui empenhado; é por isso que a mulher nunca encontrou aí motivo de uma afirmação superior da sua existência; ela apenas se submete passivamente o seu destino biológico."

"Engendrer, allaiter ne sont pas des activités, ce sont des fonctions naturelles; aucun projet n'y est engagé; c'est pourquoi la femme n'y trouve pas le motif d'une affirmation hautaine de son existence; elle subit passivement son destin biologique."

Isto é quase como levar uma chapada na cara. Tão acutilante, tão sem-misericórdia, tão cru, tão racional, tão... controverso. Mas tão lógico e tão clarificador. Explica duas coisas fundamentais da condição da mulher:

1. O historial de subalternidade, desde sempre e em todas as sociedades sem exceção;

2. Porque é que só agora, há pouco mais de 50 anos, é que se tem assistido a uma verdadeira alteração no papel fundamental da mulher. Numa palavra: pílula.

Pela primeira vez na História, a mulher domina o destino a que a espécie a devotou ao controlar quando, como e onde será (ou não) mãe. Só agora a sua participação ativa no mundo, na produção e no conhecimento é possível:

"Um dos problemas essenciais que se colocam à mulher é a conciliação do seu papel reprodutor com o seu trabalho produtor."

"Un des problèmes essentiels qui se posent  à propos de la femme, c'est la conciliation de son rôle reproducteur et de son travail producteur."


Dei pulos de contente quando desenredei todo este pensamento; eu sabia que a minha suspeita de que a conciliação trabalho-família é o grande obstáculo para a igualdade de género na Europa era fundada!

E pronto, chega assim ao fim o ponto central e fundamental d' O Segundo Sexo. Não é o único, bem entendido: falta o papel da religião, a explicação da sexualidade diferente, e as consequências que séculos de relegação para papel inferior tiveram (e ainda têm) no que é "ser mulher" e em como a mulher se vê a si própria. E ainda há todo o papel fundamental que o Cristianismo teve nisto tudo.

Fica para futuros posts.

Por agora, ficarei muito contente se tiver feedback, seja ele do género "isto não faz sentido nenhum" ou "sim senhora, muita lógica" ou ainda "faz sentido mas discordo aqui e aqui". Como diz o outro, é a falar que a gente se entende.



S. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O guia xenófobo sobre os portugueses

Há um tempo atrás deparei-me com uma coleção de livros na papelaria do Parlamento que me captou imediatamente a atenção. Trata-se nada mais nada menos do que guias xenófobos sobre várias nacionalidades. Ou seja, pequenos livrinhos de bolso que versam sobre as características de cada povo europeu sob o olho generalizador de um estrangeiro.

Muito me aborrecia nunca ter encontrado o que eu mais curiosidade tinha em ler: o que versava sobre os portugueses, claro está. Como os livros estavam arrumados numa prateleira giratória sobre o balcão, sempre que ía pagar qualquer coisa mirava-os tentando antever que preconceitos e estereótipos os autores teriam escolhido. Havia o guia xenófobo sobre os franceses, os suecos, os ingleses, os espanhóis, os irlandeses e afins. Foi só quando vi o livro sobre os estónios que pensei "Fogo, se se deram ao trabalho de escrever um guia xenófobo sobre os estónios tem que haver um sobre os portugueses!" Rodopiei o expositor giratório com toda a convicção e o meu coração deu um pulo quando li "Portuguese" na lombada de um dos livrinhos. Juntei-o ao envelope que ía pagar sem hesitação.




E se valeram a pena todos os cêntimos que dei por ele!

A capa começa bem. A antiga caravela mais o galo de Barcelos, como não podia deixar de ser, e até uma camisola da seleção mostra que em princípio os estereótipos estão todos lá. Segue-se um mapa para abrir a narrativa, bastante preciso, por sinal (fora o "The Alentejanas" que não faz muito sentido e que acho que era suposto ser "Os Alentejanos"):




Gosto especialmente do "void" na parte espanhola da Península. E dos "mouros" no norte de África. Depois temos como únicas terras apontadas Lisboa ("lettuce eaters" hahahaha!), Porto ("tripe eaters" hahahahaha!), Fátima e Olivença ("used to be ours"). "Começa bem", pensei logo eu.

Depois temos a brilhante descrição dos portugueses que eu achei acertada e que nos diferencia dos outros sulistas: 

"Podem estar na mesma turma que os europeus do sul, mas os portugueses são os alunos tímidos que se sentam lá atrás na esperança de não dar nas vistas. Ser português significa ser reservado: aquela exuberância gesticuladora pertence aos seus primos mediterrânicos."

...

Muito bem, sim senhora, aplica-se à generalidade dos portugueses que eu conheço. Mas claramente este senhor (inglês) nunca foi ao Norte.

 O livro lê-se numa hora, hora e meia. Ía-me deliciando com cada página que virava. Há coisas que não sei onde o autor foi buscar e que me fizeram exclamar "Hã?!"s mais do que uma vez, e palavras portuguesas mal escritas como "descenrascanço" (que o senhor inglês diz que é no que os portugueses são melhores) que me deram vontade de escrever e-mail para a editora a reclamar "Escrevam essa porcaria em condições!!! E em proofreading, nunca ouviram falar?!", mas no geral está muito bem conseguido. 

Acho que vou abrir nova rubrica para falar um bocadinho destes estereótipos e encher isto de citações do livro só porque sim (I'm lazy and I know it). Logo se vê.



S.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A guerra, o amor, o Lobo e o divórcio

Depois de ler o livro com a compilação das cartas enviadas à mulher durante a Guerra Colonial, e depois de saber que entretanto já casou mais 2 vezes, fiquei com uma vontade enorme de ler mais obras deste autor.




Quando se lê coisas tão íntimas como cartas, sendo elas cartas diárias de amor, escritas durante uma guerra, fica-se com a sensação que se conhece esta pessoa, que o véu que cobre a alma de cada um de nós foi levantado e espreitámo-la na sua intimidade e crueza.

Gostava de perseguir a sua obra para tentar encontrar pistas que desvendem a vida deste homem, como evoluiu a partir do rascunho da sua primeira obra que preparava em Angola, o acompanhamento que fez da filha bebé, o nascimento da segunda, o que levou à separação da mulher que tanto idolatrava e à qual invariavelmente escreveu todos os dias durante provavelmente os dois anos mais difíceis da sua vida.

É que saber todo aquele amor e devoção acaba em divórcio, faz uma pessoa sentir-se traída. "Ai amavas tanto a mulher, tanto 'Gosto de Tudo de Ti", tanta idolatraria, tanta angústia de separação e saudade para acabar em divórcio?". Fico triste com a vida e com a natureza humana.

Ao que parece, este senhor não tem é uma escrita fácil, daí que não saiba por onde começar. Começo pelo primeiro livro? Haverá um mais fácil que sirva de introdução a toda a obra? Sugestões aceitam-se.



S.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Literatura para Porteiras #2 - Extremamente Alto e Incrivelmente Próximo

Não sabia que era possível uma história ser tão triste e tão cómica ao mesmo tempo.




Mas cómica ao ponto de soltar gargalhadas e triste ao ponto de cair a lágrima. O que se torna embaraçoso quando se lê quase exclusivamente em locais públicos. Apetecia-me dizer a cada pessoa que entrava no autocarro "Estes olhos vermelhos e quase a verter água são por causa do livro, não se apoquente". Não que alguém tenha reparado, mas uma pessoa fica sempre embaraçada.

Enfim, mais um livro bom, rai's parta a mim, que só ando a ler livros de qualidade, eu a querer um livro daqueles mesmo maus para gozar como se não houvesse amanhã e não esbarro com nenhum.

Tenho de voltar à secção do José Rodrigues dos Santos (uups).



S.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Que está a dizer?!

Embarquei numa nova aventura literária sem saber bem o que me esperava. É uma lotaria e, por não haver expectativa nenhuma, podem surgir boas surpresas.





Este foi escolhido aleatoriamente, numa daquelas bancas que vendem livros em segunda mão, de capas respeitosas e com uma porrada de anos em cima. Nem sei porque é que me decidi por este já que nem tinha resumo. Ou foi o desenho ou foi a capa rija azul bebé.

Seja como for, foi uma boa escolha. Estou a gostar muito. Faz-me lembrar o Levantado do Chão do Saramago, o primeiro livro que li que me deu uma noção completamente crua e portanto realista do que era a vida no interior do nosso país na primeira metade do séc. XX.

E depois tem o benefício de estar repleto de expressões que deduzo serem de Trás-os-Montes (Terra Fria), daquela altura (anos 40), e que faz com que apareçam frases como:

"A manhã não havia nascido ainda e já ele arreava a pileca."

A minha mente de séc. XXI habituada a duplos significados da Língua Portuguesa não é de ferro. Quase larguei a rir no meio do autocarro. Tenho a certeza de que pelo menos as sobrancelhas fizeram danças estranhas pela minha testa.

Só tenho pena que o livro não esteja escrito em português de oitocentos. Com dois fs e não sei quê. Entrava em contato com três formas de escrever português e contaria como sobrevivi.

Tudo isto para dar conta da minha nova incursão literária. E para referir que já consigo ler no autocarro e assim aproveitar pelo menos 45 minutos diários que eram passados a dormir ou a olhar para ontem.



S.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Literatura para porteiras

Inspirado nisto:



Acabei o tão aguardado Jane Eyre, que me foi altamente recomendado.

Acertadamente.


Adorei. Prendeu-me às páginas como nem todos os clássicos o conseguem fazer. Ao início custou-me um bocado a entrar na personagem, a gostar dela, a percebê-la. Mas a partir das 100 páginas apanhei o bichinho vira-página, já era com grande entusiasmo que pegava no livro. A partir do meio já o lia em qualquer lugar, ele era metro, ele era paragem do autocarro, só não lia enquanto caminhava pela rua porque ainda assim prezo a minha dignidade e não me apetecia esbardalhar-me no chão.

Dou-lhe quatro estrelas e meia. Só não dou cinco porque o fim foi um bocado chocho.

 SPOILER EM BAIXO








Então não é que a rapariga, toda educada e culta como se quer, sem laivos de materialismo nem de afetações parvas de feminilidade ou vaidosismos, desiste de fazer qualquer coisa de útil na vida e vai-se dedicar a tempo inteiro ao marido?! Nem uma escola de raparigas, nem um trabalhinho como enfermeira, governanta da enteada, qualquer coisa do género? Eu já nem digo ir para a Índia, como esteve quase para acontecer, já que frágil como ela era aquilo não era coisa para durar muito tempo. Agora, 24 horas com o marido, sempre a falar, sem um momento para respirar sozinha, fazer qualquer coisa parva daquelas que só fazemos quando estamos sozinhos, epá... Meteu-me impressão. Eu a pensar que aquilo era uma história com um leivo feminista implícito, impercetível, a provar às mentalidades do séc. XIX que uma mulher pode ser muito mais do que uma escrava do lar e da família, e afinal cai tudo por terra nas últimas 40 páginas. Enfim, não se pode ter tudo.

Tirando isso, livro fabuloso. Na escrita, nada a apontar, flawless, bem corrida, refinada, perfeita. A história dá cambalhotas completamente inesperadas, o que é receita ideal para prender a atenção.

Recomendado.



S.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Vindication on the Rights of Women - Mary Wollstonecraft

(Peço desculpa pelo inglês, foi uma crítica de um livro que amei copiada do meu goodreads)

A Vindication of the Rights of Woman (Penguin Classics)A Vindication of the Rights of Woman by Mary Wollstonecraft
My rating: 5 of 5 stars

Funny how so much of what she criticised in society's expectations towards women are still so true more than 2 centuries later. She pinpoints education (or lack of) as the reason for women's seemingly inferiority in relation to men. It's a manual on education, more than anything. Often I felt it as a slap in the face for women who still choose to fit obsolete notions of what it means to be a woman. A slap in MY face for often feeling bad for being who I want to be, instead of who society thinks I should be. All in all, a very clever book, clearly with breakthrough notions that must have thoroughly shocked many men and women of her day. 100% recommended.


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S.

sábado, 28 de agosto de 2010

Entretanto... The White Queen

Uma vez que a vida do casal luso em Londres ainda não começou (15 de setembro, quando chegas?...) há que arrancar este blog com qualquer outra coisa. E essa outra coisa é nada menos do que a minha última leitura:



Este delicioso livro é da mesma autora de The Other Boleyn Girl, muito famoso graças ao filme com o mesmo nome e, a julgar por este mais recente, por mérito próprio também.

É um livro que tem tudo para ser uma recompensadora leitura para todos aqueles que, tal como eu, adoram romances históricos: passado noutra época e lugar, com batalhas, intrigas, estratégia e complôs e, claro, algum romance à mistura. E o melhor de tudo é que a História não é mero pano de fundo ou pretexto para um romance lamechas com um final invariavelmente feliz (sim, Juliet Marillier, esta foi para ti!). Nesta história extremamente bem pesquisada (tem bibliografia no final!) as personagens são todas verdadeiras, a história é toda ela constituída por acontecimentos retratados pela História, e o papel da autora limita-se a ser o de trazer as personagens de volta à vida e interpretar as suas motivações de acordo com os acontecimentos retratados, para fazer o enredo rolar suavemente.

Toda a história é contada na voz da personagem principal, a rainha Elizabeth Woodville (mais uma razão para adorar este livro, História na perspectiva de uma mulher), uma mulher excepcional pela sua ambição e "garra" e por ter sido das pouquíssimas rainhas inglesas de origem popular, uma mera commoner. O contexto histórico é a Guerra das Rosas, que opôs as famílias York e Lancaster em dispusta pelo trono inglês. O evento histórico (ou a ausência dele, melhor dizendo) à volta do qual gira a história deste livro, especialmente a 2ª parte, é o desaparecimento dos Príncipes na Torre (de Londres), mistério que ainda hoje confunde os historiadores.

Nota reconfortante: este é apenas o primeiro livro de uma saga sobre a Guerra das Rosas sob a perspectiva de mulheres poderosas envolvidas (o próximo é sobre a mãe de Henry VII - The Red Queen).

Portanto, ladies, especialmente vocês que adoram histórias sobre mulheres de outras épocas com ambição e coragem, mulheres que não pararam até (re)conquistar o que reconheciam ser seu por direito (neste caso o trono de Inglaterra mas, hey, todas nós nos conseguimos relacionar com a luta de uma mulher, seja ela qual for =D) ou apenas aquelas que gostam de uma boa história e de História, por favor, deliciem-se! ;)


S.