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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Inhabitiveness

'The urge to settle permanently in one place can be felt as a quiet hum. Even wanting to stay in a job can bring some often much-needed reassurance and stability to our lives - even if we might worry we’re being a bit unambitious. According to the phrenologists, a group of early Victorian scientists who thought they could detect personality traits by examining a person’s skull (see: PHILOPROGENITIVENESS), the urge to find a groove and stay in it was innate. They called it ‘inhabitiveness’ and defined it as a ‘love of continuity, of endurance, of sameness, of permanency of occupation.’

Inhabitiveness’ lacked staying power, and by the middle of the century had faded into obscurity, partly because phrenology itself lost scientific credibility. But perhaps this loss of a word for the pleasures of permanency can also be traced to the enthusiastic response - by some Victorians at least - to the ideals of dynamism and mobility, and the idea that humans are not only hard-wired to nest, but also to discover and roam too (see: WANDERLUST). 


For other ways of feeling at home see: HIRAETH, HOMEFULNESS, HOMESICKNESS.'

- Tiffany Watt Smith, The Book of Human Emotions


Este é o primeiro agosto que passo em Inglaterra. Já vivi aqui três anos, intervalados, mas nunca vivi aqui em agosto. 

O 'quiet hum' comecei a senti-lo na primeira vez que me mudei para Sheffield. A ideia era passar lá os três anos supostos do doutoramento e manter-me por cá indefinidamente. Mas ainda havia o 'depois logo se vê'. Foi com muita alegria que regressei a Inglaterra, e me preparei para assentar. Mas depois não foi assim, e voltei a sair por um ano, porque podia, porque a libra estava demasiado forte, por razões de companhia. Voltei para o terceiro ano de PhD, e arrependi-me acerrimamente de ter saído. 

Entretanto veio 23 de junho e o maldito referendo. Exatamente no dia que eu completava as provas para recrutamento como civil servant da UE. Estava portanto em Bruxelas. Vim o voo todo no dia seguinte, quando se soube os resultados, a morder o lábio, chorei como uma desalmada assim que cheguei a casa. Digo sem reservas que foi o pior dia da minha vida. Pela irreversibilidade, pela estupidez, pelo desnecessário, pela recusa de partilhar um futuro connosco. As minhas duas paixões que se desalinharam e me atiravam agora para uma escolha imperativa: ou uma, ou outra.

Chorei baba e ranho quando a UE abriu uma vaga que correspondia às minhas competências. Coisa ridícula de menina privilegiada? Sem dúvida. Mas estava a ver a vida a levar-me para longe de Inglaterra, de onde o quiet hum me dizia para ficar. Desta vez sem possibilidade de saltitar daqui para Bruxelas e retorno, por causa do maldito referendo. A escolha imperativa a enfrentar-me muito mais cedo do que eu pensava: ou uma, ou outra.


'Anxiety is the dizziness of freedom.'
- Soren Kierkegaard, The Concept of Anxiety

'Kierkegaard argues that angst is the appropriate response to realising life is not predetermined, but that we have absolute freedom to make any choice we want - and have total responsibility for the outcome.'


O quiet hum continuou. Uma segurança muito forte de que eu estava onde devia estar, desculpada pelo doutoramento em curso mas que eu sabia que era muito mais do que isso. É aqui que eu devo estar mas, acima disso, é aqui que eu quero estar. E ficar. Até quando? Para sempre?... Não, nunca se diz para sempre. Até onde a vista alcança. Uma vontade forte, imperativa, constante de criar raízes num sítio, de conhecer as coisas de cor, de poder chamá-las minhas pela força do hábito e do tempo, a minha cidade, a minha casa, o meu país, o meu emprego, a minha carreira, o meu parque, as minhas ruas, o meu autocarro, as minhas lojas, o meu aeroporto. Um dia: a minha família. Nisto, não há nada que substitua o tempo. Tão diferente da vontade de há uns anos, tão diferente do quem eu me julgava. E daí talvez não... A despedida de Londres em 2011 e o quiet hum das saudades dos meses seguintes deviam ter sido um indício.

Mas depois aprendi a gostar de cidades mais à escala humana. Inglaterra seria, então, mas Londres não. Londres é caótica, gigantesca, stressante, cara. Em qualquer sítio de Inglaterra seria feliz. Tentei Sheffield, tentei o campo. Fui infeliz, pelas circunstâncias geográficas, pessoais e, porque não?, políticas. Detestava aquela cidade mas fingia que não. Era ali que devia estar, embora não onde quisesse estar. Detestar é uma palavra forte... Não guardo nenhum rancor ou ódio, longe disso, mas não quero lá voltar. Só percebi isso quando saí.

Londres ressurgiu no final desta primavera, por uns instantes com relutância porque estragava planos, mas logo depois com um fulgor que não passou mais. E se for ali? Não sentes o apelo da cidade novamente? Tão forte, em crescendo, estou em casa.

Estou feliz. Devia ter sabido que preciso disto, da confusão familiar, das multidões, de muita coisa a acontecer, das ruas corríveis e cicláveis, que tudo isto me rodeie sendo só preciso pôr o pé fora de casa. A minha introversão não se coaduna com a calma do campo; definha-me. A permanente estimulação dos sentidos é o perfeito complemento para a minha personalidade serena. Nada disto parece normal, nada disto soa bem (as cidades exercem força centrífuga em quem lá vive por razões que racionalmente me parecem lógicas). Mas é isto que sou e é disto que preciso, com uma constância que já me permite ter alguma confiança na sua permanência. 

O quiet hum continua, mas agora as minhas circunstâncias e os meus planos estão finalmente alinhados com ele. Finalmente. O quiet hum alimenta-os. 'É aqui, é aqui, é aqui!' As raízes. A minha casa. Os meus parques, as minhas ruas, os meus autocarros, a minha estação de comboio, o meu bairro, o meu rio, o meu terminal de autocarros, as minhas lojas. A minha cidade. O meu compasso cultural alinhado com as minhas circunstâncias.




S.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Zen por acaso

Oh, tão queridos :)



Estou a ver que não é por acaso que ficaram em primeiro lugar na satisfação estudantil em 2014.
 
Mas acho que não se aplica. De Bruxelas às vezes vem-me uma saudade aguda da Av. Louise, e das corridas que lá dava, uma coisa um bocado parva, mas de resto estou bem quanto à capital belga. E da hometown não tenho grandes saudades, mas isso pode ser porque a visito mais do que o sensato. De qualquer forma, do que sinto falta são de pessoas, mas como essas pessoas estão espalhadas por vários países, o homesickness não se aplica.
 
Não é que morra de amores por Sheffield, e a sua descentralidade até me chega a aborrecer levemente (como ontem, que entrei no aeroporto de Lisboa às 16h15 e só cheguei à minha porta inglesa bem pertinho da meia-noite). Mas - como dizer isto? - estando aqui não me apetece estar em mais lado nenhum, não anseio por viver noutro lado qualquer nem estou sempre a pensar "daqui a um ou dois anos vou-me poder mudar para ali, depois é que vou estar realmente satisfeita", não, agora estou precisamente onde quero e onde sinto que devo estar. Nem tenho ânsias de viajar para outros sítios, quando em Bruxelas não parava quieta.
 
Não faço ideia do que vou fazer daqui a três anos quando acabar o doutoramento, nem quero saber, porque se significar continuar aqui (aqui, Sheffield, ou qualquer outra parte do UK), está-se bem.
 
Acho que finalmente estou  a viver mergulhada no presente, sem os olhos sempre postos no futuro. E isto é de uma serenidade incrível.




S. 

domingo, 14 de setembro de 2014

Este é mais um post sobre malas feitas



Mais uma mudança, mais uma foto de malas feitas. Tinha grandes desígnios de atingir um nível de minimalismo quase perfeito desta vez mas acho que não foi atingido. O volume continua a ser praticamente o mesmo.
 
Com morada já certa - novidade desta mudança! - amanhã vou ter a experiência surreal de enviar encomendas para mim mesma, contando lá chegar primeiro do que elas.





S.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

... e dois atrás

Uma pessoa sabe que afinal ainda não é crescida quando aos 26 anos vai viver pela primeira vez para uma residência de estudantes. E está mesmo feliz com isso.



S.

domingo, 7 de setembro de 2014

Divórcio britânico iminente

 
E não é que, vai-se a ver, e a Escócia está prontinha a abandonar o Reino Unido?
 
Durante meses e meses as sondagens davam uma distância confortável entre o não e o sim para que houvesse prospetiva realista de uma rotura na união constitucional com mais de 300 anos. A campanha do não, o Better Together, fez trapalhada atrás de trapalhada - o conlúdio dos três principais partidos na recusa terminante de uma união monetária que cheirou aos escoceses como bullying, e o mais recente anúncio sexista e condescente a apelar ao voto das mulheres foram só dois exemplos - mas ainda assim o não mantinha-se confortavelmente à frente do sim nas sondagens. Até eu, entusiasta exterior em todo este processo de independência, já tinha os ânimos mais refreados por ver que o não estava mais do que ganho.
 
Agora, a 11 dias do referendo, aparece a notícia bombástica de que o sim está na liderança pela primeira vez desde que a campanha começou. Já andam os políticos todos em Westminster com as mãos na cabeça, ai ai ai, que temos 10 dias para salvar a união. Pois.
 
Os 51%-49% em favor do sim não têm em consideração os indecisos, pelo que está tudo em aberto e não há certeza absolutamente nenhuma sobre o que irá acontecer dia 18 de setembro. Mas o não há um mês tinha uns 14 pontos percentuais de diferença do sim... Quer dizer, parecer que as pessoas estão a mudar de ideias em massa, e os indecisos a converterem-se ao sim. (Segundo a mesma sondagem do YouGov, incluindo os indecisos ou os que não irão votar, os resultados seriam 47%-45% para o sim.)
 
A campanha do não já anunciou que nos próximos dias vai apresentar uma proposta monumental para conferir novos poderes à Escócia caso esta decida se manter na união, que incluirá poder de decisão sobre o orçamento e impostos, no que é habitualmente referido como devolution-max. E que estes poderes serão discutidos também com os outros dois países do Reino Unido: Irlanda do Norte e País de Gales, não vão eles meter-se com ideias no futuro próximo. Ou seja, seja como for que os escoceses votem, parece que o status quo não se manterá. Agora é uma questão de saber se o último trunfo na manga dos unionistas convencerá os escoceses ou será mais um tiro na culatra da campanha pelo não.
 
E eu estou em pulgas com isto tudo porque dia 18 já vou estar em solo britânico, vou poder acompanhar um país inteiro a tremer de nervoso pelo seu futuro. E quem sabe receber a notícia que afinal o meu novo país hospedeiro terá menos 78387 km² do que eu esperava.     








S.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Nervös

Estes dois últimos dias na Bélgica são tortura. Também porque os tenho que passar a trabalhar, mas não essencialmente por isso. O meu espírito já não está cá, quero ir-me embora daqui. 

A casa já foi limpa para inspeção final, o frigorífico está quase vazio, as malas estão feitas, as nossas maiores possessões já foram vendidas, o des-registo na comuna já foi feito. Não apreciei o lançamento do meu cartão de residente para o lixo de forma tão negligente mesmo à minha frente. Há sentimentos envolvidos.

Estou cheia de antecipação, vou regressar à base mais uma vez brevemente, antes de nos lançarmos no mês de pedalanço pela costa portuguesa. Quer dizer, estaremos na base à mesma, não antecipo sentir-me menos do que em casa de regresso à base em qualquer lado do território português. 






S.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Então adeus, Bruxelas

A uma semana de deixar a Bélgica estou estranhamente calma. Metade das coisas já estão em Portugal e o único sinal de uma mudança que se avizinha está na mala aberta no meio da sala e na comida racionada no frigorífico. Mas se pensar que sempre fizemos as compras para a semana, o frigorífico continua o mesmo de sempre. 

Se há coisa que me mete cada vez mais comichão é o ter coisas, seja num roupeiro seja numa despensa repleta. Gosto de saber que posso e consigo ir embora a qualquer momento para outro sítio qualquer. É por isso que o Kobo me é tão mais caro que uma estante a abarrotar de livros.

A cada mudança que fazemos é mais uma camada de supérfulo que se descasca. Ainda não estou ao nível minimal que pretendo mas estou a caminhar para lá há quatro anos e cinco mudanças. A viagem de bicicleta que se avizinha vai ser uma experiência ideal para provar que consigo viver um mês com o que cabe numa mochila. Uma mochila que consigo carregar fisicamente, seja a puxar na traseira de uma bicicleta, seja às costas. A liberdade há-de estar muito próximo disto.

Este fim-de-semana estive a mostrar a cidade a um par de olhos frescos, e não pretendo repetir o passeio turístico ao meu par de olhos familiarizados. Tal como em Londres, não haverá cá despedidas a nada.

Não sei se a calma vem do facto de nunca ter amado esta cidade de paixão. Desdenhei-a durante tanto tempo e ela acabou por conquistar um lugar no meu coração, sim senhora, mas nunca de forma assolapada. Não a consigo recomendar a ninguém e continuo a afirmar a todas as visitas que, sim, Bruxelas é uma cidade desinteressante e feia. Mas tem coisas mesmo boas, coisas espalhadas por aí e impossíveis de vender a quem vem de visita por uns dias. São as inúmeras casas de chá que experimentei ao longo destes anos e respetivas Tartes de Françoise que dão 15 a zero aos pastéis de nata, os parques que variam entre pracetas e florestas inteiras, sempre à distância de um passeio a pé, o vento a bater na cara rosada de felicidade imbatível por estar a conduzir uma bicicleta numa avenida larga, a bandeira belga gigante a ondular debaixo do arco do cinquentenário, uns pés que me levam a qualquer sítio onde possa querer ir, a comida rápida do Exki, os mercados de velharias e roupa em segunda mão em domingos soalheiros, as ruas de casas cuidadas desta arquitetura que se parece com a inglesa mas que é distintamente única.

Bruxelas não me encantou mas mudou o que eu quero de uma cidade. Ao ponto de admitir que não quero Londres e de me fazer considerar o resto de Inglaterra como casa possível. Não quero multidões na rua, não quero transportes, não quero carro. Quero chegar a qualquer lado de pés e bicicleta. Quero espontaneidade nos meus passeios, quero a qualquer momento transformar uma caminhada de commuting num passeio. Quero chegar a qualquer lado da minha cidade em menos de meia-hora. Sheffield, espero, continuará a dar-me isto tudo. Menos as tartes, mas bom, haverá scones.





S.   

sábado, 31 de maio de 2014

Yorkshirianos não tarda muito

Há poucos meses atrás não sabia nada sobre Sheffield além de que era a cidade dos Arctic Monkeys e que tinha um passado industrial importante. Não a sabia localizar no mapa nem fazia ideia de com o que é que se parecia. Esta semana ficou decidida como a nossa próxima casa.
 
Entretanto já a visitei, já me eduquei sobre ela, e estou francamente otimista quanto à universidade que me irá acolher, quanto ao meu curso, e quanto ao meu supervisor. Ainda é um bocadinho estranha a sensação de me ter despedido voluntariamente do meu emprego para mergulhar no incerto e voltar a ser estudante mas estou confiante. Confiante de que é isto que quero mesmo fazer e de que é em Inglaterra que queremos estar.
 
Entre nos despedirmos de vez de Bruxelas e refazer as malas para Sheffield haverá um capítulo curtinho em Portugal. E uma viagem de mil quilómetros em cima de duas bicicletas para fazer.




S.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Cortar raízes mais uma vez

Andei durante tantos meses a lidar com o dia de hoje e o dia de ontem e o dia de anteontem e o dia de amanhã, escrevi tantas vezes 15 May, 16 May, 14 May, 17 May em tantas listas de participantes, tantos convites, tantas atualizações de programas de trabalho, tantos emails que agora estes dias parecem-me surreais. Olhar de relance o relógio e ver "16 May" lá escrito é bizarro. É isto, é agora.
 
E depois destes dias surreais começa a contagem decrescente para o mergulho no desconhecido. Já olho Bruxelas com friozinho no estômago.



S.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

"You're so dark but I want you hard"

Escrevo num comboio algures nas Midlands. Vou visitar a minha futura potencial casa.
 
Sinceramente ainda não sei ao certo qual foi a minha ideia em meter-me nesta viagem. Decerto que a beleza ou fealdade de uma cidade não deveriam ser critérios prioritários na escolha da universidade para se estudar. Mas a viagem foi pensada numa altura em que a angústia da escolha que brevemente terei que fazer estava a pesar especialmente e, por isso, cá estou eu. Sendo o resto igual, pode ser que a beleza seja um bom critério de desempate. E qualquer pretexto para voltar à Inglaterra é sempre bom.
 
Isto faz-me lembrar que amo comboios. Se pudesse não trabalhava a partir de casa, trabalhava a partir de comboios. Metia-me num comboio qualquer e, ala por essa Europa fora. Era capaz de sair um bocado caro, ao fim do mês, mas provavelmente nem tanto como alugar um escritório. E a vista móvel compensaria grandemente.
 
Ainda não tenho a certeza absoluta de que mudar-me para Inglaterra seja a melhor coisa a fazer. Tenho um fascínio enorme por este país, misturado com muito carinho, mas ele tem coisas que me irritam profundamente. A mania de que não é Europa é a maior. Seria extremamente irónico para uma europeia convicta vir estudar coisas europeias para um país que parece estar a descascar a sua europeanidade aos poucos. Se os Tories vencerem as eleições para o ano e no referendo de 2017 os britânicos abandonarem a UE, não sei como vou reconciliar as minhas duas paixões. Se a Escócia se for embora em setembro então seria o cúmulo. A Inglaterra a resvalar cada vez mais para a periferia, cada vez mais isolada. Burros do caraças. O “orgulhosamente sós” não vos serviria, acreditem.
 
Viver em Bruxelas tem muitas desvantagens e eu nunca me cansei de as enumerar, muitas vezez com lamúria desnecessária. Mas se há coisa que soa incrivelmente a privilégio em viver nesta cidade é a centralidade. Não só por ser o centro político europeu e tudo o que isso gera, mas por estar no centro geográfico da Europa. Ter tanta cidade a uma hora de avião, ter mais ainda a duas, e ter umas consideráveis a duas horas de comboio, incluindo Londres, Paris e Amesterdão. É uma sortuda geográfica, a cidade.
 
A geografia influencia muito do resto, claro, incluindo história, fronteiras, mentalidade e relações. As fronteiras belgas não existem fisicamente há mais de 20 anos, como no resto da Europa, mas também não existem mentalmente. É tão fácil e tão perto ir ali a França, ir ali à Alemanha, ir ali ao Luxemburgo, ir ali à Holanda. Lembro-me de na viagem que fiz para Estrasburgo, uma rota quase reta para sul de comboio, ter tido que desativar as mensagens automáticas de roaming porque o meu telemóvel parecia um alarme, sempre a apitar com info “Chegou à Alemanha! Chamadas custam X, mensagens custam Y.”, “Chegou à França! Chamadas custam X, mensagens custam Y.”, e depois as fronteiras não são retas, enquanto a rota ferroviária é, por isso o comboio estava sempre a entrar e a sair desses dois países. A geografia está-se bem marimbando para as decisões humanas políticas e por isso aqui eu aprendi a fluidez das nações e senti-me sempre na Europa, onde quer que tenha ido. E isso foi mesmo fixe.
 
Por isso voltar à ilha será voltar à periferia, tanto geográfica como mental. E isso deixa-me um bocado desconfortável.
 
Voltar à Inglaterra é também um bocado triste por razões linguísticas. Vivendo no continente tem-se sempre a língua materna, a língua franca internacional e a língua do país hospedeiro com que lidar. E ainda que eu não tenha dado a atenção e cultivado o meu francês como seria suposto, e ir embora da Bélgica com a vergonha linguística que cabe a alguém que viveu aqui dois anos e meio e não consegue ter uma conversa prolongada em francês, gostei muito de ter tido que lidar com uma língua estrangeira que não o inglês. Voltar à Inglaterra será voltar a ser preguiçosa linguisticamente. Não sei como vou gerir este regresso à zona de conforto com a minha curiosidade cultural e linguística para com o resto da Europa (a última tentativa, com o alemão, não correu assim tão bem). Talvez o futuro daqui a uns anos me lance outra vez para a mainland. De preferência, de comboio.

 
 
 
 
S.        

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Dores de crescimento

Dei-me agora conta de que faz hoje dois anos que chegámos à Bélgica.

O que são dois anos numa vida? Nada. 

Continuo a sentir-me tão criança quanto quando aqui cheguei. Continuo com a leve sensação de que não faço ideia do que estou a fazer, nem do que devo fazer, e, às vezes, nem do que gostava de fazer. Sei, tão claro como a água (mas não a que sai das torneiras bruxelenses) que daqui a quatro meses vou-me embora daqui sem saber se estou a fazer a coisa certa. E o pior: provavelmente nunca vou saber. E isto é horrível. Eu cresci convencida de que os adultos sabiam sempre o que estavam a fazer e o que deviam fazer. Esta liberdade e múltiplas opções de escolha é humanizante mas paradoxalmente claustrofóbica. Nunca vamos saber se tomámos a decisão certa e haverá sempre tantas pessoas a enveredar por caminhos diferentes que nos farão questionar o nosso. É o ter que fazer uma escolha e viver com o "e se" de todas as outras que recusámos. Suficiente para uma pessoa dar em doida.

Haverá sempre alguém a fazer o mesmo que tu, melhor do que tu.

A única frase que me regula as perspetivas e acalma as ânsias, embora eu não consiga explicar porquê. A perspetiva de que há sempre alguém melhor do que nós só deveria era potenciar essas ânsias. Estranhamente, acalma-me a necessidade de querer ser melhor, de querer mais, de saber mais e de estar agudamente consciente de que sou a única responsável nisto tudo. Do ser melhor. É capaz de ser na lógica do "perdido por cem, perdido por mil", do fuck all para isto tudo.

Espero é entretanto não ter ficado a gostar da Bélgica afinal.






S.



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Guia de Portugal para o não-viajante

Já temos trajeto completamente definido.

Foi só agora, num cálculo mental rápido para ver quanto tempo tínhamos demorado a decidir o caminho, que me apercebi que foi no dia um de fevereiro que ficou decidido que iamos mesmo pedalar por Portugal afora. Demorámos pouco menos de duas semanas, portanto. Tenho a certeza do dia exato e tudo porque estivemos juntos e falámos que nos fartámos da coisa, tanto que tivemos que ir procurar num instante um mapa de Portugal à tabacaria mais próxima (que acabou por ser um Continente, as tabacarias já não vendem dessas coisas. Se calhar nunca venderam, não sei, nunca precisei de um...). Foi também quando informámos terceiros sobre a nossa ideia louca. E quando se informa terceiros sobre a nossa ideia louca ela deixa de ser ideia e passa a realidade. Pode continuar a ser louca à mesma, mas fica a pressão de se a concretizar.

Bom, mas dizia eu que comprámos o tal mapa porque nos estava a fazer falta na conversa um guia exato da linha de costa do nosso país. Para sabermos se daqui até ali é mesmo perto ou se tem que se guardar dois dias para lá chegar, como é.

Claro que um mapa de papel não chega nem de perto nem de longe para o ultra-mega-planeamento pormenorizado que queríamos, um que incluísse distâncias exatas (escalas e medir cenas com régua é aborrecido e demasiado dispendioso de tempo. E lamento mas somos criaturas jovens, que cresceram à medida de um Google Maps e não pensam abrir mão da sua mega conveniência.)

Posto que o mapa de papel foi muito útil para se abarcar a ideia geral, mas o trabalho todo de cálculos de distâncias, decisões de dormidas e terras a visitar foi feito através do nosso amigo precioso.

Assim que acabámos eu tive a brilhante ideia de pegar no livro que tinha comprado há uns anos e que teria sido bem mais útil ler antes de termos sequer começado a desenhar o trajeto...




Isto porque a ignorância por vezes é uma benção. E eu acho que era uma pessoa mais abençoada quando não sabia que Portugal tinha tanta coisa fascinante para ver. Mas saber não é ter uma ideia vaga, do género "gostava de visitar Aveiro, ou o Gêres, dizem que a costa alentejana é muito boa também...". É ver mesmo fotos ou ler descrições de sítios específicos, concretos, saber-lhes o nome e ver-lhes a cara. Por exemplo, sabiam que Portugal tem uma coisa destas?



Eu não sabia! E estou num misto de estupefação e indignação, mas mais indignação porque não sei quem é que nos anda a esconder estas coisas.

Nós decidimo-nos pela viagem pela costa abaixo e graças a isso vamos ver coisas magníficas, a antever pelas poucas terras que googlámos (há que manter algum suspense) e porque a costa portuguesa é extremamente diversificada para um país tão pequenino. Mas isso significa também que vamos abdicar de muita coisa interessantíssima que valeria tanto a pena quanto o resto, só foi azar ter calhado a mais de 20 quilómetros do mar.

Por isso mesmo, para não se falar mais do que poderia ter sido e cortar pela raiz os arrependimentos, vou deitar cá para fora tudo aquilo que eu queria tanto ver mas que não cabe na viagem. Para depois poder falar do que realmente vamos visitar já com a alma purgada.


Monserrate

Sintra, realmente... Mete raiva. Mete raiva pela quantidade de coisas que tem para ver, pela mistura de paisagens naturais e monumentos lindíssimos com que foi agraciada, pela aura de mistério, até pelo micro-clima marado e chuvoso. Algures lá para o meio da serra está o Palácio de Monserrate, uma construção exótica rodeada de plantas de todo o mundo e que, ao que parece, está um bocado ao abandono. Está na minha imaginação como uma Regaleira II.



Buçaco

E por falar em Regaleiras II... Grande filha da mãe, esta floresta, hã. Então nós temos toda uma espécie de floresta encantada e mística ali para os lados de Coimbra e eu só soube disto há dois ou três anos?! Como é possível?! Tem mosteiros e casas de retiro com mais de mil e quatrocentos anos, tipo casas escavadas no meio da rocha, tem vales de fetos, tem igrejas pequeninas cobertas de musgo, eucaliptos centenários e monumentos a batalhas das invasões francesas e eu sem nunca lá ter metido os pés. Parece impossível.



Batalha

Este não posso dar a desculpa de que nunca tinha ouvido falar, que me andaram a esconder e não sei quê. É mesmo uma falha grande e pronto. Mas é um grande mosteiro, provavelmente o nosso mais bonito (rivaliza ali taco-a-taco com o dos Jerónimos) e está na minha lista de coisas para ver em Portugal há muuuuito tempo. Ainda não vai ser este julho.



Tomar

Ali perto está outro monumento assim daqueles hard-core da história portuguesa que é o Convento de Cristo de Tomar. Segundo este senhor, é ali que está escondido o Santo Graal, que não é cálice nenhum mas sim um globo terrestre de madeira feito por Jesus Cristo carpinteiro e dado aos Templários para estes desbravarem o mundo. Foi por isso que os portugueses foram pioneiros nisto dos descobrimentos, e que sabiam que o Brasil estava lá onde estava muitos anos antes de 1500. É uma teoria muito linda, muito divertida, à la Dan Brown, mas que me espicaçou ainda mais a curiosidade de visitar esta cidade. Até porque é lá que está enterrado o nosso Pai Fundador, o Sr. Henriques, e a cidade diz que também é muito bonita.



Castelo de Arouce

Algures perto da Lousã, nos arredores de Coimbra, existe um castelo num vale. Um castelo construído num vale, ao invés de no monte mais alto que conseguiram arranjar. Quão intrigante é isto?...



Biblioteca da Universidade de Coimbra

Portanto, eu estive em Coimbra em dezembro, sabia que a universidade é centenária e tinha ouvido umas coisas sobre como a biblioteca é qualquer coisa de especial, mas ainda assim não a fui visitar. Por esta só me tenho a mim própria para culpar.



Ponte da Barca

Epá, adoro vilas com pontes romanas. São lindas. Pensar que os senhores de camisolas vermelhas, sandália no pé e capacetes com penugem estiveram ali e construíram aquilo que estou a ver e que mais de dois mil anos depois ainda é útil e utilizado, deleita a historiadora clássica que há em mim. E esta paisagem é lindíssima.



Citânia de Briteiros

E por falar em cenas bué antigas... Nós temos toda uma aldeia da Idade do Ferro reconstruída algures no Minho. E ninguém me ter dito nada, está certo? Não acho que esteja muito certo.





Braga

Braga está-me atravessada há já bastante tempo. Uma das cidades portuguesas mais bonitas e eu não a conheço. Vergonha, só vergonha.




Parque Nacional Peneda-Gerês

Deste nem vou falar para não me enervar...



Marvão

Como quase todos os vilarejos, vilas e cidades de fronteira, o Marvão é bad-ass. O que mais me fascina quando li sobre esta vila é o contraste entre o tamanho e o nível de fortificação: ultra-proteção para uma coisa tão pequenina. E vejam como se camufla ali na rocha:



Miróbriga

No Alentejo, perto de Santiago do Cacém, existe uma cidade romana encontrada e escavada que apresenta ruínas de coisas como dois templos, um fórum e um circo com capacidade para 25 mil pessoas. !!! Quem precisa de Romas com coisas destas a duas horas de Lisboa de carro?



Museu Regional de Beja

Este museu é o antigo Convento de Nossa Senhora da Conceição, que fiquei há dias a saber foi onde a freira Mariana, das Lettres Portugaises (1669), viveu. Está lá a janela da cela dela e tudo. Estas Lettres Portugaises foram mais tarde reproduzidas com um twist nas Novas Cartas Portuguesas, um livro chave do feminismo português e que, como bom livro feminista, irritou profundamente a censura do Estado Novo.


Tem ainda salas arabescas como esta, de azulejos intricados lindíssimos como estes, de maneira que vale mais a pena uma visita do que eu consigo exprimir:



Tour dos megalitos


Por último (quero crer que é o último...), entre Évora e Santiago do Escoural, existe tanto megalito, menir e dólmen que os senhores que escreveram o meu guia de Portugal criaram a tour dos megalitos, que deve durar um dia inteiro. Tem coisas como isto, a gruta do Escoural, carregada de pinturas rupestres com mais de 15 mil anos:


Ou isto, o Cromeleque de Almendres:


Não sabia que tínhamos celticidades e druidarias destas.

Pronto. Estão exorcizados de mim os sítios que não visitarei este julho mas que ainda assim quero tanto, tanto, tanto visitar. O tempo é curto, a vida é pequenina para se estar em todos os lados que se quer. O Fernando Pessoa tinha aquela ideia - parva - de que não é preciso ir aos sítios para os visitar, muito pelo contrário, que a ideia de visitar coisas é mil vezes mais interessante em si mesma do que o ato concreto de o fazer. Eu como sou uma pessoa mais rude e simplezinha, e como o Fernando claramente viajou pouco, fico-me pela vontade de querer mesmo pisar estes sítios e vê-los com os meus próprios olhos, sem intermediários. Ainda assim, acho que o Fernando Pessoa teria gostado de conhecer o Google Images.




S.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Meu rico federalismo europeu

Apercebi-me agora de que em 2014 vou lidar com finanças de três países diferentes.







Até se me gelou o sangue.


S.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A grande viagem (ou, como quem diz, já não há juízo entre nós)

Há uns meses valentes, dizia-me o D. assim: "Eh, 'bora de Bruxelas a Portugal de bicicleta!" Eu acho que na altura não disse nada porque fiquei muito ocupada agarrada à barriga a rir. Mas nos tempos seguintes comecei a ponderar, a admirar a coisa de diversos ângulos e a magicar maneiras de a tornar possível. Como acontece aliás sempre que ele vomita uma ideia estrombólica deste tipo (cofvamosviverparalondrescof). Depois a coisa já era "Eu hei-de ir a Portugal de bicicleta..." E eu tornei-me condescendente: "Hmm-hum, claro que vais, se nem em Bruxelas andas, deves ir." Mas a ideia, na sua teoria, vá, até era fixe e seria uma mega conquista e uma oportunidade perfeita para palmilhar, quase literalmente, um bom pedaço da Europa, e eu até ia todos os dias para o trabalho de bicicleta e tal, comecei a dar algum crédito à coisa. Seria difícil mas não impossível e inesquecível decerto. Depois até descobri a rede EuroVelo e fiquei fascinada com a prospetiva de uma Europa toda ciclável e ganhei balanço. Chegámos a estimar dias e quilómetros, se faríamos pela costa francesa e espanhola ou cortando caminho pelo interior (eu dizia-lhe: "Há PIRINÉUS pelo meio" mas ele não queria saber), estivemos quase a comprar bicicletas para começar a visitar cidades belgas aos fins-de-semana (sempre Waterloo...), chegámos a sonhar visitar uma cidade de cada país aqui à volta só para dizer "Eu fui a [inserir país vizinho da Bélgica] de bicicleta e voltei!", eu sempre a insistir em irmos a Londres dando ao pedal e quase morrendo de desgosto por saber que o ferry de Calais-Dover ou Ostende-Southampton só transporta carros (sempre a Inglaterra...).

Entretanto a nossa partida definitiva da Bélgica chegou mais abruptamente do que o previsto e a ideia foi posta de parte. No final de junho iremos para Portugal, em setembro este blog voltará para o sítio que lhe deu o nome. A univ/cidade ainda não está escolhida mas a volta para a ilha já é uma certeza.

Mas... Mas. Há outra coisa. Surgiu a ideia (ou ressurgiu, nem sei com certeza), tão repentina mas tão avassaladora - e as melhores ideias surgem assim, já percebi - de uma volta a Portugal em bicicleta. "Se não dá a viagem maior, faça-se esta por Portugal, já que vamos ter umas férias mais alargadas do que o previsto", disse-me ele. E eu, contra todo o meu instinto dos "mas" e "se"s compulsivos disse: "'Está bem." É que, entendam, depois de termos passado meses e meses a considerar distâncias de 2000 e tal quilómetros e ver como enfiar aquilo em três semanas, olhar para o mapa do litoral português e ver que de cima a baixo são 700, a coisa parece uma brincadeira de crianças. E eu agora até corro fixe e tal, há-de dar, pensei eu. É a confiança de que o meu corpo é imparável e os seus limites serão apenas os que eu lhe impuser. Ou isto é uma revelação extremamente sábia ou a corrida queimou-me o cérebro todo, ainda não sei dizer.

Assim, e porque já sei que é certo e já temos um percurso (em rascunho), as datas alinhavadas e as linhas gerais de logística traçadas, eu posso dizer, com certeza, que o próximo julho será passado numa bicicleta (duas). Iremos de Viana do Castelo a Vila Real de Santo António, em 29 dias, sempre pela costa portuguesa (os emigrantes querem é praia e sol, of course). O entusiasmo é enorme, a antecipação também, o nervoso miudinho é que nem por isso. E isto é estranho. Tenho assim novo objetivo para lá da Meia-Maratona/Corrida dos Sinos: convencer as minhas pernas que pedalar 50 km por dia durante um mês é very nice.

Escusado será dizer que este blog em julho vai estar a abarrotar irritantemente de descrições de quilómetros feitos, dores nas pernas, escaldões no pescoço e outros pormenores que provavelmente só a nós interessarão. Escusado será também dizer que todas as dicas, experiências, conselhos e coiso serão extremamente bem acolhidos por estes dois jovens amadores que não têm nenhuma experiência com viagens de bicicleta, só uma pancada muito grande nestas duas cacholas.



Era para ser uma destas mas eu sou fraca demais para puxar pelos dois e control-freak demais para me deixar ser puxada.



S.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Egocêntrica, much?

Ontem tomei duas decisões, com potencial de mudança de vida, que me fizeram constatar que eu não me conheço. Ou não me conheço, ou estou a evoluir* para outra coisa qualquer mais depressa do que o meu ego consegue desvendar.

- Inscrevi-me na Meia-Maratona de Lisboa. Vou em março a Portugal, de propósito correr uma prova que insisti durante uma hora, ainda há dias, nunca me meter. Em retrospetiva, após os últimos meses de treinos continuados nem sei bem em nome de quê, faz todo o sentido. Do ponto de vista de quem eu sou (era? sempre fui?), juro que não faz. Não foi preciso a Gralha me espicaçar muito para ficar com o bichinho desta prova, depressa anui. O que revela, mais uma vez, que eu não me conheço.

- Recusei uma perspetiva profissional em Londres. Ainda não acredito. Não acredito é no alívio que senti após o decidir, sabendo, aqui algures mas que não era só na cabeça, que tomei a decisão correta. Afinal tenho instinto ou coisa que o valha... (Mentira, a lista dos prós e contras também esteve presente e foi o teste final. Se bem que o alerta veio das entranhas.) Eu amo Londres, eu fui lá tão feliz, eu cheguei a sentir-lhe mais a falta, tantas vezes, do que a pátria materna, e recusei conscientemente, livremente e aliviadamente me mudar para lá, trocando esta cidade pela qual não tenho carinho especial pela minha amada Londres. 

Desculpem-me os clichés mas isto é aquilo do rio não passar duas vezes pelo mesmo sítio? Ou do outro que dizia que o difícil não é ir atrás dos nossos sonhos, é saber e ter a coragem de largá-los quando já não são os nossos sonhos? 

É por estas e por outras que eu tenho um medo terrível de ter filhos. Não é pelas mudanças do corpo, não é pelos vómitos, não é pelos horrores do parto, não é pela alteração do ritmo de vida, não é por ter que cuidar de outro ser humano, não é pelas manhãs a dormir até ao almoço que se acabam, não é pelo aperto financeiro, não é pelo We Need To Talk About Kevin, não é pelo fim do tempo e espaço pessoais, não é pela adolescência da prole, não é pelo mudar de fraldas, não é pela incerteza do futuro. É simplesmente porque o meu eu de hoje não sabe que eu vai encontrar do outro lado da maternidade. E eu ainda tenho tanta coisa que quero concretizar neste estado mental do presente.






S. 

*Atenção que quando digo evoluir não é como sinónimo de progresso, é mais no sentido de como os Pokémons evoluíam: chegavam a determinada altura, após não sei quantas batalhas e skills adquiridos tinham a possibilidade de evoluir para uma criatura diferente. Mas quantas vezes o estádio anterior não era bem mais poderoso...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Rai's partam a liberdade

Quando eu disse que em York tinha sido a primeira vez que admiti que poderíamos se felizes no UK fora de Londres, não era um desafio nem um convite para dores de cabeça ou acrescento de dúvidas existenciais.

A verdade é que aumentando-se o nosso mundo possível aumenta-se o leque de escolhas e a dificuldade de decidir, e quando admiti aquilo sobre a felicidade não previ isto. E o UK é tão maior que Londres, caraças. E tem tantas universidades. E três/quatro anos parecem-me agora um compromisso demasiado sério, um bocadinho a puxar para o dantesco, para quem tem andado a saltitar de lugar de ano em ano.

Apesar de tudo, a mente já fervilha com a perspetiva longínqua mas a modos que definida de mais um bilhete só de ida. 



S.    

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Prometo não usar mais a palavra "medieval" para descrever uma cidade

Em York, foi a primeira vez que admiti que podíamos ser felizes no UK, mesmo fora de Londres. 





Nunca tinha chegado a esta conclusão por isso sinto que esta descoberta me será útil um dia.




S.


domingo, 1 de setembro de 2013

"It's like a freaking fairy tale!"

*suspiro gigante*

Já estou um bocado farta de escrever estes posts, verdade seja dita. 

Toda a santa cidade que visito me deslumbra os sentidos. Começo a desconfiar que sou uma alma facilmente deslumbrada. Porque ou é isso ou tenho uma pontaria incrível para escolher passeios. Há uma terceira hipótese, que é a Europa ser um continente estupidamente belo e as suas cidades serem capazes de coisas que eu não pensei que eram possíveis, nomeadamente no batimento de records de perfeição. 

Há pouco mais de um ano escrevia eu aqui extasiada com a beleza de Amsterdão. Olhando para trás, sóbria, consigo perceber que a cidade merece toda a ode que lhe foi feita na altura, mas eu claramente nunca tinha sido introduzida à cultura do centro da Europa, o seu núcleo geográfico e cultural. Por isso, ver aquelas casas seculares, em fila, muito bem preservadas, aquela água no meio das ruas, tudo tão limpo e organizado, tanta bicicleta, etc, foi o choque mental e sensorial que se compreende. Mas depois fiquei parva com Bayeux, fiquei parva com Estrasburgo, fiquei parva com Edimburgo (se bem que esta última, num tom completamente diferente das anteriores), e começo a pensar que ou eu tenho é a capacidade ingénua de me fascinar facilmente com as coisas, como as crianças, ou ainda tenho é muito mundo para ver. Começa é a meter raiva porque o meu standard de medida é agora Bruxelas e esta beleza toda alheia deixa-me cada vez mais frustrada: tanta cidade lindíssima por aí e tinha que me calhar esta?!

Bom, há que ser honesta: Bruges é holandesa, sem tirar nem pôr. Convenço-me cada vez mais que a Flandres pertencer à Bélgica é um daqueles acidentes históricos estúpidos e francamente artificiais, do mais forçado que há. A zona flamenga tem um caráter tão de País Baixo que mete dó ver a bandeira vermelha, amarela e preta hasteada ao lado da amarela com o leão preto. Começa na língua, que ainda não estou certa que tenha estatuto de língua per se, mas é sim um dialeto holandês (demasiado preguiçosa para ir agora googlar), passando pela planez daquelas terras, pelos moinhos tipicamente holandeses que também se descortinam aqui e ali, pelas inúmeras bicicletas em todo o lado e pelos numerosos canais, acabando na proximidade geográfica à Holanda. Por isso, Bruges, não me podia surpreender inteiramente visto já conhecer Amsterdão.


Aqui há uns tempos, comecei a ler Game of Thrones. Pus o livro de lado passado umas cem páginas porque a mistura entre inglês americano, nomes que pareciam fruto de uma brincadeira envolvendo bêbados e sopa de letras, e a ausência de balizas históricas, me fez enjoar rapidamente a história. Depois veio a série e toda a gente cujo gosto televisivo confio adorava aquilo, dizia que era um espetáculo, etc, e eu estive cerca de seis meses entre ter o primeiro episódio e me dignar a ver. Parti para a visualização do dito cujo determinada a dar uma oportunidade mas com o nariz no ar e braços cruzados, propositadamente crítica e indisposta a deixar-me seduzir facilmente. Ao quinto episódio ou coisa que o valha rendi-me completamente e admiti sem reservas que foi a melhor história que já vi contada. 

Bruges foi exatamente assim. Cautelosa para não me apaixonar, apesar de saber ao que ia, e determinada a ser crítica com a cidade ex-líbris turístico. "Hah, estas ruas de calçada são tipo Bayeux", "hah, estes canais são lindíssimos mas Amsterdão também tem", "hah, pracetas bonitas com casas altas de vasinhos nas varandas, isso também Estrasburgo tem." Mas foi a porcaria da visita de barco pelos canais que me calou. As pontes em arco, as bicicletas, as margens prazenteiras, tudo isso Amsterdão tem, de facto. Mas Bruges tem canais com recantos, as paredes das casas mergulham na água, as pessoas abrem a janela e quase que molham os pés, não há passeios a separar. E a quantidade de choupos que aquela cidade tem, senhores!... E heras e flores bonitas a tombar pelas paredes. E as ruas calcetadas misturado com as casas medievais, Bayeux também tem, é certo, mas é só umas quatro os cinco ruas mesmo no centro. Em Bruges, TODA a santa cidade é assim. Uma vez passámos numa rua alcatroada e eu notei a diferença porque aquilo destoava... Portanto, o impossível aconteceu e eu achei uma cidade mais bela do que Amsterdão.


É muito mais pequena, há que ser justa, e não tem um quarto da vivacidade e dinâmica de Amsterdão. Mas por isso mesmo tem uma aura de cidade de conto-de-fadas que eu nunca vi em lado nenhum.  

Eu não queria viver ali. É uma cidade calma demais e a perfeição enjoa. Fica para lavar a vista em passeios.

Por falar em passeios, escolhemos mesmo o primeiro dia do meu último ano como "jovem" segundo os transportes belgas, para comprarmos o Go Pass. É um passe de dez viagens, para ser usado entre quaisquer estações belgas, por quantas pessoas quiserem, e onde somos nós que escrevemos a data e o percurso feito. É um desconto extremamente catita que eles dão aos jovens para aproveitarem a sua juventude a viajar por esse país e Europa fora (o Eurostar e os comboios no UK também têm estes descontos para menores de 26). Não percebo bem o critério do número "26" (porque não 25? ou 21?) mas pretendo aproveitar ao máximo o meu último ano de descontos no que aos comboios diz respeito.

Por falar em último ano de descontos, ao contrário de anos anteriores, que ou não me disseram muito ou tive até mini-pânicos nas horas anteriores, estou a gostar muito de ter 25 anos. É uma idade muito a meio-caminho, mas por isso dá-me sensação de equilíbrio, gosto de estar a meio-caminho. Não me vou meter a fazer balanços - as únicas medidas que tenho são para projetar - mas estou satisfeita com a minha vida por isso os 25 não me trouxeram crises de identidade. Correção: não é satisfeita, contente com o rumo, tenho tanta, mas tanta coisa para concretizar que não podia nunca estar satisfeita. 

30, bring it on.



S.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Feliz Ano Novo

A silly season está mesmo, mesmo a acabar - e ainda bem porque já estou farta da expressão silly season. Porque eu ainda não consegui descolar da mentalidade de ano letivo, e setembro deixa-me um ano mais velha e por isso é mês de rito de passagem, e eu este ano estou cheia de pica e vontade de fazer coisas, aqui fica a minha lista de desejos para o Ano Letivo Novo até ao Ano Novo:

- É mesmo desta que vou recomeçar a minha aprendizagem do alemão. Vou voltar aos cartõezinhos com palavras para decorar os géneros, vou voltar às tabelas com as declinações, vou voltar aos livros com histórias Disney em alemão. Não quero saber que vivo numa cidade bilingue mas em que nenhuma das línguas oficiais é a germânica, não quero saber que ainda teria muito francês para aperfeiçoar e que ainda não consigo manter uma conversa de jeito na língua dos gauleses, nem quero saber que aqui vou ter que ir através da língua francesa para chegar à alemã. Desejos recorrentes e que duram anos ganham pontos pela persistência e merecem ser elevados à categoria de concretizados. E o francês, sinceramente, não me dá pica. Longe de dominada mas demasiado familiar. E posso sempre consolar-me com o facto de que o alemão - descobri-o há pouco - é a terceira língua oficial da Bélgica.

- Em dezembro vou correr nove quilómetros numa hora. Em termos humanos, nada de especial, mas como diz o outro, o que interessa não é ser superior aos outros, é ser superior ao que já fomos. E eu já fui uma pessoa que corria cinco minutos e ficava com o peito a rebentar (não estou a dramatizar). Conseguir a hora redondinha vai-me deixar orgulhosa porque, ao contrário de estudos e coiso, sempre foi uma coisa que eu acreditei nunca conseguir. Suspeito que me vai deixar mais orgulhosa do que o dia em que eu conseguir ler um livro em alemão pela primeira vez (mesmo que seja uma história Disney).

- Antes de 2013 acabar, terei a minha candidatura a doutoramento completa. E fora do meu controlo. Mais um passarinho que enviarei por essa janela à espera que me traga um raminho de oliveira no bico.

- Terei acabado de ler o European Feminisms 1700-1950. (Irra, que a porcaria do livro não me larga!)

- Terei acabado o meu primeiro curso da Coursera. Após três tentativas falhadas. 

- Terei aprendido a gostar de mais um legume cru. Após o básico tomate e alface. 

- Terei visitado Bruges. Após 30287 tentativas falhadas.

- Conseguirei acompanhar um episódio de uma série qualquer dobrada em francês sem fazer cara de nojo.

...

Só espero não me tornar uma ilustração da expressão "ter mais olhos que barriga".




Apareceu-me esta imagem enquanto pesquisava imagens para wishlists. A relação entre os dois está para lá da minha compreensão mas quem sou eu para negar o destino.




S.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Volta à Europa em bicicleta

Há muito que o D. me tem vindo a tentar convencer a irmos a Portugal de bicicleta. Ideias mirabolantes é com ele por isso a minha reação standard é olhar para ele muito séria (ele todo sorridente porque sabe que a ideia é extravagante mas está a falar a sério e sabe que eu sei que ele está a falar a sério e sabe o que vai acontecer a seguir), eu desato a rir, reviro os olhos, e lanço uma tirada de razões por que a ideia é impossível: são quase 2000 kms, há Pirinéus pelo meio, eu não tenho resistência assim, ele nem na cidade anda de bicicleta, quanto mais atravessar países. Rimos um bocadinho e o assunto morre por ali. Até à próxima vez em que ele se lembrar.

Por isso foi com enorme surpresa que eu descobri que existe uma iniciativa - já bem adiantada, diga-se de passagem - para tornar o continente europeu ciclável de umas pontas às outras. 

Vejam esta maravilha:


No fundo a ideia é criar estes circuitos de vias rápidas para bicicletas que atravessem a Europa e liguem capitais, costas, etc. De notar que nenhum dos 15 percursos está ainda completo (o nº1, chamado "Costa Atlântica" e que liga o Algarve à Noruega, ainda não está realizado no território português). Segundo o website do EuroVelo, a ideia é que até 2020 a rede que vemos no mapa esteja substancialmente completa.

E uma pessoa começa a ficar com ideias...

Reparem na maravilha da rota 9, "Rota Mediterrânica": partir de Sevilha e ir Espanha acima, fazer a Côte d'Azûr francesa, depois ali um bocado de Alpes, vamos saltar aquilo, depois, Eslovénia, Croácia e Balcãs abaixo até à Grécia... Isto é que é o verdadeiro interRail, o verdadeiro périplo pela Europa.

Não faço bem ideia de quanto tempo demoraria a viagem, sendo que também não é preciso fazer uma rota de uma ponta à outra. Há que contar com paragens e demoras em sítios particulares, especialmente capitais ou outras cidades/vilas interessantes, para se ver o que merece ser visto. Tenho noção que isto seria uma viagem para ser preparada em vários anos - especialmente a parte da resistência - mas tenho perfeita consciência que é possível. Faz-se, não está só ao alcance de atletas de alta competição. Se há dois anos me dissessem que eu passaria a fazer commuting de bicicleta eu rir-me-ia muito na cara dessa pessoa, por isso acredito que isto, sendo a viagem monumental que é, é possível. 

Pensando agora assim um bocado por alto. Por exemplo:

- de Bruxelas a Lisboa são 1800 km. Para fazer o percurso num mês equivaleria a 60 km por dia; 

- tendo em conta que neste momento faço cerca de 8 km por dia de commuting (total ida-e-volta) isso significaria, er... um ou dois anos intensivos de treino?

(Acho que não estou bem a ver o que são 60 km por dia de bicicleta durante um mês...)

Bem, mas a ideia de base aqui é que é possível. Não agora, não para o ano, mas talvez daqui a uns 3-5, se a preparação começasse brevemente. Poderia começar por treinar para o objetivo de fazer Lisboa-Algarve. É tudo razoavelmente plano e tal, podia ser que sim. 

Acabei de descobrir novo objetivo de vida. Há que começar agora por descobrir a bicicleta alma-gémea. Já comecei as pesquisas por aqui.

Umas imagens para dar forçazinha:








Opáá... Tinha-me esquecido do pormenor da bagagem...






S.