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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Nome de família


'Siddiq found that an estimated 600,000 women over the last five years had been asked to prove they were related to their children when taking their families through UK border control, leaving many stranded for hours if they did not have marriage or birth certificates or were travelling without their partners.
The problem is likely to become more common as women are increasingly likely to keep their maiden name after marriage. Around one in seven women say they intend to keep their name after marriage, according to recent research by YouGov. A separate survey found that just 4% of women intended to give their children their maiden name rather than the father’s name.'

3 coisas muito rápido:
- uma em sete não pensa alterar? Só?? Estamos no século XXI caramba, pensei que estivesse lá para os 30-40%;
- só 4% pensa dar o seu apelido aos filhos? Isso quer dizer que grande parte das mulheres que não adotam o nome do marido mesmo assim perpetuam a ideia do pai-chefe-de-família e acham inconcebível os seus filhos herdarem o seu apelido;
- não é 'maiden name', porra, é 'a woman's last name'.




S.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O inimigo dentro de portas

Deparei-me com isto a propósito de outra coisa, e a minha reação foi concluir que a ignorância realmente às vezes é uma benção.

Todos os anos a Comissão Europeia produz um relatório sobre o progresso (ou regressão) em questões de igualdade de género, na Europa em geral e em cada país em particular. É uma coisa um pouco mais legalista e curto-prazo que os índices do EIGE, mas igualmente informativo. Tem até alguns exemplos de medidas que foram tomadas em países particulares e que podem constituir boas práticas. Por exemplo, neste último ano, é referido que a licença de paternidade aumentou de 10 para 15 dias úteis em Portugal, e que na Áustria criaram um novo crime - "violação da auto-determinação sexual" - que inclui atos sexuais praticados contra a vontade de uma pessoa, mesmo que não tenha sido usada violência, mas sempre que as reações da vítima demonstrem falta de consentimento, ou cujo consentimento foi obtido através de intimidação ou chantagem. Aquilo está dividido por cinco áreas, que correspondem mais ou menos às áreas da igualdade de género que a UE dá prioridade (portanto muito à volta do Mercado Único e do emprego):

- independência económica;
- igualdade salarial;
- igualdade em posições de decisão;
- violência de género;
- igualdade de género em países terceiros.

Foi um gráfico - aliás primeiro uma afirmação, depois o gráfico - na parte da violência de género que me prendeu a atenção: mais de metade dos assassinatos de mulheres ocorrem às mãos de parceiros ou família. 

Vou deixar assentar.

Mais de metade das mulheres que são assassinadas são-no às mãos de pessoas muito próximas.

MAS QUE RAIO.


Portanto, a mancha vermelha e azul são os homicídios perpetrados por parceiros íntimos e e familiares, tanto no gráfico das vítimas femininas como na das masculinas. O que salta à vista muito de repente é que sem dúvida que há muito mais homens vítimas de homicídios do que mulheres, pelo menos nos países europeus representados. Suspeito que isto seja uma tendência global, já que os homens estão com mais frequência envolvidos em atividades violentas, crime, gangs, etc, do que as mulheres e também sobre isto haverá muito a dizer (masculinidades tóxicas e por aí fora). O patriarcado não tem consequências nefastas só para as mulheres, e neste caso isso é bem visível. Se bem que, lá está, não é o caso de dominância do outro género - os homens são mortos na vasta maioria por outros homens, basta olhar a percentagem de presos, condenados, etc. É antes uma consequência nefasta das expectativas que lhes são impostas como género dominante, uma masculinidade gone wrong, se quisermos, ao invés de caso de opressão.

Mas regressando ao gráfico. Portanto, há muito mais vítimas de homicídio que são homens do que mulheres, mas reparem na diferença de proporções do perpetrador. Os homens são, na vasta maioria, mortos por "outros", ou seja, nem familiares nem parceiros íntimos, presumivelmente desconhecidos ou, não sei até que ponto os homicídios em contexto de gangs pesam nas estatísticas europeias, mas talvez também por "colegas" ou inimigos de gang (não necessariamente próximos mas também não inteiramente desconhecidos).

Isto não se verifica de todo no caso das mulheres que são mortas por outrém. Vejam-me a manchazorra vermelha dos "parceiros íntimos", que na Inglaterra e País de Gales atinge quase metade do total de homicídios. Isto para não falar da também bastante elevada barra azul, que representa o número de homicídios perpetrados por familiares da vítima. What the fuck! Isto vai contra o senso comum, a perspetiva geral que as pessoas têm do perigo e do risco, para não falar de quão errado moralmente é isto: as pessoas que nos são mais próximas deviam ser as que nos são mais seguras, as que nos querem bem. Andam-nos toda a vida a incutir o medo/cuidado para com os estranhos, não andes na rua sozinha, não saias à noite por aquela zona que é perigoso, e depois em termos de risco a nossa casa é um dos lugares mais perigosos onde se estar? What. the. fuck.

Eu já tinha visto estimativas que indicavam que a vasta maioria das violações ocorrem entre pessoas que se conhecem - o que, mais uma vez, custa a acreditar à primeira vista porque quando se fala em violadores o que salta à imaginação é um homem assustador, creepy, rua, becos escuros, um monstro, portanto. No caso das crianças, exatamente igual. Raptos, violência, abuso sexual, é quase sinónimo do homem na carrinha branca, o desconhecido que ludibria com doces, etc, quando na realidade a vasta maioria da violência e abuso sexual contra crianças acontece em casa ou em sítios familiares, através de pessoas bem conhecidas da vítima. Parece que, tal como para as mulheres, a casa é dos sítios mais perigosos para as crianças. E isto é aterrador.

De ressalvar que estas proporções também não são iguais em todos os países europeus representados no gráfico: na Lituânia e Letónia a maior parte dos homicídios de mulheres são realizados por "outros". E Malta não teve nenhum homicídio em 2013, de homens ou mulheres! Seria interessante investigar as razões para estas diferenças, ou esmiuçar melhor os números (quais são as categorias dentro de "outros"? Os amigos, estão incluídos nos "outros"?) e ver como eles mudam controlando variáveis como a origem étnica, religião (será que há mais incidência de homicídios por familiares em comunidades muçulmanas, com os crimes de honra, por exemplo?), etc.

Há uns tempos o Louis CK tinha feito umas piadas sobre o risco que os homens representam estatisticamente para as mulheres em contextos de intimidade. E é engraçado porque vê-se que ele está a contar estas coisas num show de stand up comedy mas ele está meio sério e a tentar convencer a plateia de que não está a brincar, que é mesmo verdade, que uma mulher entrar numa relação é um risco para a sua integridade física, de uma maneira que não o é para um homem. E a plateia vai gargalhando, como se ele estivesse a dizer que isto dos namoricos é um risco para as mulheres porque os homens são totós e nunca se sabe o que nos calha na rifa, e ele continua a enfatizar, 'mas não, é mesmo um risco para as mulheres sair com um homem!'. 




Diverti-me quando vi isto agora novamente, com as estatísticas do Eurostat sobre as proporções de perpetradores de homicídios em mente, ao ver a distância da realidade estatística do risco a que estamos todos. 

(clicai para aumentar a banda)





S.

domingo, 20 de abril de 2014

Igualdade sem idolatrias

O John Stuart Mill é um filósofo fantástico. Como são fantásticas as pessoas que defendem causas das quais não podem tirar proveito próprio.
 
Defendia a liberdade, como vários pensadores seus contemporâneos, mas ao contrário de quase todos estes, ao Stuart Mill não lhe escapou que metade da população vivia num estado de escravidão legal. O seu ensaio "The Subjection of Women" é incrível pela lucidez, racionalidade e serenidade com que defende a liberdade das mulheres e a igualdade entre os sexos.
 
Eu ainda não o acabei, mas já sei que a parte mais extraordinária já a li.
 
Sabem aquelas odes que de vez em quando surgem a exaltar as qualidades "intrínsecas" das mulheres? Ai que as mulheres têm uma força qualquer especial, ai que as mulheres são como um anjo e iluminam tudo o que tocam, ai que as mulheres são fadas, ai que as mulheres são amor, ai que as mulheres são deusas, ai que as mulheres são a perfeição em pessoa. Normalmente nestas odes o sujeito até surge como "a mulher", assim no singular para enfatizar ainda mais a essência de que todos os seres humanos do sexo feminino partilham. Estas exaltações da suposta essência superior feminina irritam-me quase tanto como sexismo descarado. E nem é pouco frequente que andem de mãos dadas. Quando uma mulher não se comporta como esta fada angelical cheia de amor auto-sacrificador da ode é fácil ser vilipendiada por estes pseudo-adoradores da essência feminina. Já dizia a outra (a Gloria Steinem), um pedestal é tanto uma prisão como qualquer espaço pequeno e fechado.
 
Ora, o Stuart Mill está no lado oposto disto. Ele fala desses exaltadores da mulher e de como a sua retórica está oposta ao seu tratamento delas:
 
"(...) é-nos dito perpetuamente que as mulheres são melhores do que os homens, por aqueles totalmente opostos a tratarem-nas como se elas fossem assim tão boas; e por isso esse dito tornou-se numa hipocrisia aborrecida, com a intenção de colocar uma face elogiosa sobre um insulto (...)"
 
"(...) we are perpetually told that women are better than men, by those who are totally opposed to treating them as if they were as good; so that saying has passed into a piece of tiresome cant, intended to put a complimentary face upon an injury (...)"
 
E ele continua:
 
"Se as mulheres são melhores do que os homens em alguma coisa, é seguramente no sacrifício individual por aqueles que pertencem à sua família. Mas eu ponho pouco ênfase nisto, enquanto elas forem ensinadas universalmente que nascem e são criadas para o auto-sacrifício. Acredito que a igualdade de direitos esbateria esta abnegação exagerada que é o presente ideal artificial do caráter feminino, e que uma boa mulher não seria mais auto-sacrificadora do que o melhor dos homens: -"
 
"If women are better than men in anything, it surely is in individual self-sacrifice for those of their own family. But I lay little stress on this, so long as they are universally taught that they are born and created for self-sacrifice. I believe that equality of rights would abate the exaggerated self-abnegation which is the present artificial ideal of feminine character, and that a good woman would not be more self-sacrificing than the best man: -"
 
E até vê nisto um potencial melhoramento dos homens:
 
"- mas por outro lado, os homens seriam muito menos egoístas e mais auto-sacrificadores do que atualmente, uma vez que não seriam mais ensinados a idolatrar a sua própria vontade como uma tão coisa grandiosa que seja realmente a lei para outro ser racional [aqui ele refere-se aos poderes de chefe que a lei do séc. XIX conferia ao homem casado sobre a sua mulher]."
 
"- but on the other hand, men would be much more unselfish and self-sacrificing than at present, because they would no longer be taught to worship their own will as such a grand thing that it is actually the law for another rational being."
 
Não há um pingo de idolatria por uma suposta essência feminina. Ele não o diz com todas as letras, nem tinha que o dizer porque não faz parte do tema da obra, mas acho que ele não acreditava que houvesse sequer uma essência feminina, visto que as características das mulheres do seu tempo se deviam à sua condição de escravas, e não a características intrínsecas do sexo feminino. A inabalável convição e defesa da igualdade das capacidades racionais das mulheres é até francamente surpreendente num filósofo que viveu em meados do séc. XIX.




S.

terça-feira, 18 de março de 2014

Sexismo onde menos se espera #2

Uma pessoa fêmea vai levantar a t-shirt oficial da meia-maratona a que tem direito. Em não havendo o seu tamanho nem o acima, decide levar a t-shirt reservada ao outro sexo porque dessas há das pequeninas. Uma pessoa diverte-se com a cena que está a acontecer mesmo ao seu lado em que um distribuidor de t-shirts tanta convencer uma pessoa macho a fazer o mesmo e a levar a t-shirt do outro sexo porque já não há o seu tamanho nem perto das para machos. Uma pessoa começa a ficar estupidamente consciente das suas raízes feministas quando a pessoa macho até leva as mãos à cabeça em dramatismo quando o distribuidor de t-shirts, ainda a tentar convencer que as t-shirts não são assim tão diferentes diz “ela nem parece de mulher, acredite, quem não souber que era para mulher nem vai adivinhar”. Uma pessoa decide instigar um bocadinho de bom-senso naquela cena e declara meio a sério, meio a brincar (o bom senso tem que ser instigado meio a brincar porque egos masculinos destes são frágeis) um “Eu vou levar uma t-shirt de homem porque também não havia o meu número. E não me importo.” seguido de sorriso convencido. Os distribuidores de  t-shirts juntam-se num coro de “pois”, e “exato”, e “está a ver!” mas eu lanço outro sorriso satisfeito e vou-me embora antes de saber se a pessoa macho desceu ao nível de aceitar a t-shirt de pessoa fêmea ou não. Porque é disto que se trata, não é? Da vergonha. A vergonha instigada desde muito cedo que fazer coisas de gaja é degradante, des-masculinizador, quase um crime. Vou constatando agora, que até para certas mulheres o é. Uma atitude muito “eu sou gaja mas não sou «dessas» gajas”. Isto não é igualdade. É o contrário de igualdade porque é a demonização de tudo o que é estereotipicamente feminino. Considerado mau porque, lá está, tem o cunho do “feminino”.

Para mim, e suspeito que para a maioria da população feminina, usar uma camisola de homem não é nenhum problema. Às vezes até aparecem aquelas peças de roupa que se chamam “boyfriend cardigan” ou “boyfriend jeans” e assim. Uma mulher usar calças é aborrecidamente banal e absolutamente nada digno de nota. E um homem usar uma saia? Nop, não é possível. Quem usa saias são as mulheres.

Isto sem entrar na questão de para que raio é que se tem que diferenciar tudo segundo o género. Para quê que hão de criar uma t-shirt para mulheres e uma t-shirt para homens para uma corrida? É a porcaria de uma corrida, o objetivo é ser confortável e ir tudo de igual, não é nenhum desfile de novas tendências. E ainda se poupavam problemas de tamanhos a mais num modelo e tamanhos a menos noutro.


Eu acabei por levar a minha t-shirt preferida, uma coisa muito verde fluorescente, muito (da seleção) portuguesa, muito de homem, mas que me serve como nenhuma outra, orgulhosamente oferecida pela cara-metade. Garanto que os meus ovários ainda funcionam.






S.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

How the mighty fall - part II

Volta e meia lá aparece um estudo que afirma que finalmente se descobriu que os cérebros de homens e mulheres são diferentes. Os anglófonos têm uma expressão muito interessante: hard-wired differently. Ou seja, os cérebros aparentemente não são apenas diferentes em tamanho e peso, mas sim nas conexões que os neurónios fazem uns com os outros.

A reação dos autores destes estudos é mais ou menos a mesma de todas as vezes. Alguma surpresa, genuína ou não, isso agora não é comigo, por os resultados confirmarem de forma tão clara antigos estereótipos nos quais está baseada toda a cultura ocidental, e alguns suspiros de bravura e pioneirismo, de quem conseguiu conduzir uma investigação tão polémica neste mundo dominado pelas feministas e a sua politicamente correta igualdade. 

A reação dos jornalistas é também mais ou menos a mesma de todas as vezes. Ouvem as palavras "diferenças entre sexos" e "estudo científico" na mesma frase e toca a fazer títulos sensacionais. Se há coisa que vende são velhos estereótipos ressuscitados por investigações académicas e revestidos da película sagrada do científico.

A reação dos comentários nos sites dos artigos ou em páginas de Facebook onde estes títulos são publicados também é sempre a mesma. Uns mais trolleiros, outros com pozinhos de sofisticação, resumem-se todos assim: TOMAAAAA, FEMINISTAS! SOMOS DIFERENTES, INCHAAAA!

Foi por isso com uma sensação de impending doom que eu cliquei num desses títulos que me havia aparecido no Feedly através do the Guardian (!). Precisamente por ter surgido neste jornal que dei crédito à coisa: não podia descartar isto como mais um sensacionalismo sexista da direita conservadora. Eu tenho uma genuína confiança na ciência e que a investigação feita nas universidades bem rankiadas é de qualidade e rigorosíssima. E eu não sou de ciências naturais, eu não sei, portanto dei o benefício da dúvida. Como já aqui disse antes, eu gosto das premissas do feminismo, mas não gosto de dogmas. E a investigaçao pura, rigorosa, metódica e peer-reviewed é o melhor sistema que temos contra os dogmas. Por isso contemplei a hipótese de isto da igualdade de capacidades estar errada e continuei a ler. As conclusões mas sobretudo as inferências que os autores faziam pareciam-me um bocado rebuscadas portanto não liguei mais e decidi que só poderia formar uma opinião se lesse o artigo original. 

Não me lembrei mais do caso até hoje, quando o the Economist lançou um post para o feed de notícias do Facebook falando do assunto. A maneira segura, como quem afirma o óbvio, com que descreviam o estudo naquele post fez-me temer o pior: et tu, Economist? Também tu não resistes embarcar na polémica e nos estereótipos-virados-ciência?

Diz o post: 

"Trending: Men and women do not think in the same ways. Few would disagree with that.

Er... A sério? Muitos discordariam.

"And science has quantified some of those differences. Suggesting why this is true in evolutionary terms is a game anyone can play. Finding out why sex differences are true in neurological terms is another matter altogether".

E o que é mais triste é que o próprio artigo, que eles próprios escreveram, prova estas linhas erradas. Os comentários, especialmente os iniciais, não desiludem: o pessoal salta de alegria ao ler a frase "Men and women do not think in the same ways" escrita em relação a um estudo neurológico e os "TOMAAAA, FEMINISTAS!" não se fazem esperar. 

Mas, e o que diz afinal o artigo sobre o estudo?

Foi feito o mapeamento de cérebros de homens, mulheres e crianças de ambos os sexos para se descobrir como é que os neurónios se conectavam entre si e que zonas do cérebro ativam mais frequentemente em cada categoria de humanos. Isto foi o resultado médio:


                                          


Com as imagens resultantes foi só fazer a ligação aos estereótipos comuns e voilá, ligação perfeita. E o problema foi exatamente este (que é quase sempre o mesmo nos estudos deste tipo, para uma boa explicação sobre isto ver The Delusions of Gender da Cordelia Fine): a interpretação que a autora do estudo fez dos resultados é subjetiva e condicionada pelos próprios estereótipos. Eles estão explicados no artigo, mas resumindo: mulheres são melhores na intuição, na comunicação e no multi-tasking, homens são melhores na coordenação espacial e motora. 

Pondo de parte as fortes suspeitas de que o cérebro humano é ainda um grande mistério para os cientistas e muito pouco é consensual sobre como ele funciona, a própria autora acaba por dar um grande pontapé nas inferências que acabou de fazer através da sua seguinte grande descoberta:

"Dr Verma’s other main finding is that most of these differences are not congenital. Rather, they develop with age."

Mau. Mas são hard-wired differently inerentemente ou as diferenças começam a manifestar-se com a adolescência? É que isto muda tudo. Se o cérebro é um grande mistério, no que há consenso alargado é na plasticidade do mesmo e na forma como o conseguimos modelar através do uso. E aqui entra a história das profecias auto-realizáveis: se é expectável que uma rapariga será melhor na linguagem do que na orientação espacial então essa habilidade será mais estimulada, ela investirá mais aí porque é esperado que seja capaz de exprimir as emoções por palavras, tornar-se-á melhor nisso e, pelos vistos, o seu cérebro modelar-se-á de acordo através do treino. Chama-se condicionamento social, papéis de género, socialização, o que quer que queiram, e não devia ter sido descartado tão rapidamente pela autora. Há também a possibilidade de a puberdade desencadear aqui alguma alteração hormonal que afete o cérebro e os torne diferentes, não se sabe. Mas por isso mesmo a ligação que tanta gente, incluindo a autora, já fez entre os resultados e os porquês não só é falsa como apressada e irresponsável. Para não dizer que é má ciência. 

O que me desilude profundamente foi o Economist se ter juntado à onda sensacionalista e ter dado tempo de antena a um artigo com interpretações tão duvidosas. Tinha-o como último reduto do bom jornalismo de investigação e que, apesar de algumas vezes conotado com uma visão económica neo-liberal, era francamente original e questionador da norma, e não lhe vislumbrava uma agenda política definida. Acima de tudo, era rigoroso e de qualidade. Nesta peça fez uma cedência ao bom jornalismo que era impensável ao alinhar no estereótipo virado ciência. E fico contente que a maioria do comentários ao tal post, por entre os sexistas do costume, seja a chamar à atenção para a falta de qualidade jornalística do artigo em questão (e falta de rigor científico no original).   

Será esta fraqueza do jornal a exceção que confirma a regra? Vou confiar que sim mas, daqui para a frente, de olho bem aberto.




S.     

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Mulheres nos filmes e na filmagem

A New York Film Industry publicou esta fita de estatísticas e outros dados sobre a desigualdade de género na indústria cinematográfica hollywoodesca. Os resultados não são surpreendentes mas ainda assim vale a pena olhá-los, assim, preto no branco, para que não restem dúvidas da forma como as mulheres são representadas nos filmes (ou não representadas de todo):  



E um dia destes faço um post sobre o Bechdel Test. Porque é divertido e eu já tenho saudades de escrever sobre feminismo.



S.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A boneca e o carrinho são de todos

Esta imagem foi construída após um estudo que visava analisar as palavras escolhidas para o marketing de brinquedos de rapariga e de rapaz. A diferença na linguagem utilizada é abismal (o tamanho da palavra está relacionado com a frequência com que esta aparece nos brinquedos):




Imagem tirada deste artigo do Princess Free Zone, sobre a forma como a linguagem influencia a nossa perceção da realidade e nos molda.

O Princess Free Zone é um projeto que eu gostava muito de ter criado, apesar de ainda não ter filhos. Foi inventado por uma mãe de uma rapariga que desde cedo recusava os vestidos cor-de-rosa folhados e tinha um fascínio por coisas estereotipicamente de rapaz, como ferramentas de construção e afins. O PFZ luta para que as crianças possam fazer e ser o que realmente gostam sem falsas compartimentalizações rapaz/rapariga. É incrível ver o número de mães e pais que publicam na página do Facebook do PFZ fotos de rapazes e raparigas a desafiarem as lógicas distorcidas dos géneros, como rapazes a embalar uma boneca ou raparigas mascaradas de Batman.

Um dos sucessos mais recentes na área, ainda que atribuído a uma outra campanha, a "Let Toys Be Toys" foi o Toys 'R Us declarar que iria acabar com o marketing sexista de brinquedos para rapariga e brinquedos para rapaz.

Viva a verdadeira liberdade de escolha.




S. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Patriarcado para dummies


"American storytelling is still driven by the assumption that is at the heart of the Western canon: The male experience is the universal human experience, whereas the female experience is specialized, driven by biological factors, the absence of which prevents men from being able to see themselves in female characters."


O que é afinal a igualdade?

Este é um debate fundamental dentro do feminismo e contra o feminismo, e uma palavra que me levou muito tempo a entender. Digo com franqueza e honestidade que ainda não entendo toda a complexidade do seu significado mas há algumas ideias que me parecem já mais ou menos claras. Mas se a emprego constantemente em expressões como "igualdade de género", é bom que tenha alguma ideia do que estou a falar.

Na academia feminista há duas grandes correntes que defendem dois tipos de igualdade diferentes (passo o paradoxo) e que são, de forma simplista:

1. igualdade como "igualdade estrita"

2. igualdade como "sameness"

São uma espécie de rivais e feministas ainda se degladiam entre si sobre qual é a mais desejável e à qual deve o feminismo realmente aspirar. É também uma espécie de luta geracional entre feministas de diferentes vagas, que defendem que a sua luta é melhor e diferente da luta anterior.

1.

A igualdade como "igualdade estrita" é a igualdade mais básica. Foi para ela que lutaram as sufragistas, as feministas da primeira vaga (meados séc XIX - inícios séc XX), e é graças a ela que a mulher na nossa sociedade pode votar, divorciar, não é propriedade do marido, não tem que pedir autorização para viajar para o estrangeiro, pode abrir uma conta bancária, pode abrir um negócio, tem personalidade jurídica, ganha o mesmo que o homem (na teoria), tem as mesmas oportunidades que o homem (na teoria), pode frequentar universidades, etc. Esta é a igualdade de estatuto perante a lei que as mulheres já adquiriram e que portanto leva muita gente a afirmar que a igualdade de géneros está conseguida e a desdenhar do feminismo como consequência.

No fundo, é elevar as mulheres até ao estatuto que os homens gozam perante a lei, é tomar o padrão do que já existe - que é o padrão masculino - e lutar para que as mulheres tenham por direito exatamente tudo igual aos homens. Virtualmente, a ideia é abolir mesmo a questão de género, viver um dia num mundo em que nascer do sexo masculino ou do sexo feminino não implique absolutamente nada de diferente para a vida dessa pessoa. 

Esta igualdade estrita é o que leva tanta gente a interpretar mal o feminismo e a ultrajar-se quando se fala em igualdade entre homens e mulheres. Para estas pessoas, homens e mulheres são biologicamente diferentes, têm papéis sociais diferentes e acham que ainda bem, porque assim o mundo é variado e colorido e interessante. Temem um mundo em que homens e mulheres vistam de forma igual, tenham o mesmo comportamento, os mesmo hábitos e hobbies, gostem todos das mesmas coisas, tenham todos a mesma sensibilidade (ou ausência dela). No fundo, temem um mundo em que as mulheres se transformem em homens. 

Apesar de eu achar que estes receios são infundados, já que as pessoas são todas diferentes entre si, não se vestem todas da mesma maneira, não têm todas o mesmo comportamento, não têm os mesmos hábitos nem hobbies, e não gostam das mesmas coisas nem têm todas o mesmo tipo de sensibilidade, sejam homens ou mulheres, e que o género não devia ter a importância que tem atualmente nem ter uma linha tão marcadamente divisora como ainda tem, comecei a desconfiar que havia alguns buraquinhos nesta teoria. Mas antes de eu o ter sequer sonhado, já há muitas décadas atrás várias feministas o tinham descoberto, analisado, criticado, e teorizado.

2.

Na conferência a que assisti há uns meses sobre o desemprego jovem, houve a apresentação de um estudo interessantíssimo sobre a diferença de níveis de competitividade entre rapazes e raparigas em várias idades de que falei extensivamente aqui. Basicamente, revelava que desde os 5 anos que havia um défice de competitividade nas raparigas, que não era explicado pela sua competência, e mesmo em áreas em que elas até eram melhores do que os rapazes. Resumidamente, parecia haver um caso de overconfidence nos rapazes e underconfidence nas raparigas que não se sabia se era genético ou incutido através de diferentes educações dadas a cada um dos géneros. Na altura, no período das perguntas&respostas, houve uma pergunta que me ficou presa à cabeça e me deixou a matutar (até hoje). Uma eurodeputada húngara levantou-se e perguntou simplesmente: "Mas qual é o mal?" As raparigas são menos competitivas do que os rapazes, mas qual é o problema disso? É assim tão desejável que elas tenham os níveis de competitividade selvagem que pautuam a sociedade atual e que leva a tanta injustiça, stress e rivalidade perniciosa? Porque é que em vez de se lamentar a falta de competitividade das raparigas, não se preza as características de cooperação, diálogo e entre-ajuda que são muitas vezes uma conotação feminina e atribuídas às mulheres em geral? Porquê não lamentar a falta destas características nos homens?

Bom, o apresentador deu uma resposta neutra, qualquer coisa do género que não estava ali a aplaudir ou a criticar a competitividade, o estudo pretendia apenas medir a sua diferença entre rapazes e raparigas desde tenra idade. E que, por pior que fosse a competitividade selvagem e por mais desejável que fosse a cooperação, a verdade é que da forma como o mercado de trabalho está montado, a ausência de competitividade numa pessoa irá prejudicá-la, seja por que a leva a não candidatar a uma vaga de emprego, seja por não exigir uma promoção, seja por não ter a ousadia necessária para criar o seu próprio projeto. Basicamente, competitividade é a essência do capitalismo.

Mas é precisamente aqui que muitas feministas se insurgem. O mundo, tal como está montado, rege-se pelas regras e leis que os homens fizeram e decidiram à sua imagem. A mulher, que entrou nele há relativamente pouco tempo e certamente há menos de um século, que ainda só mais recentemente passou a ser parte ativa na sua construção, teve que conquistar a igualdade segundo as regras já em vigor e segundo o modelo existente, que era - como só podia ser - o modelo masculino. Mas é precisamente por isto que muitas vezes a sua luta e a sua tentativa de conquista falha. Falha porque existem coisas que não estavam previstas, porque não era preciso serem tomadas em conta, no modelo do mundo construído. É por isso que não se sabe ainda bem o que fazer com o aborto, não se sabe bem o que fazer com a licença de maternidade, não se sabe bem o que fazer com o assédio sexual, com os piropos, com o crime da violação, e, durante muito tempo, não se soube bem o que fazer com a violência doméstica. Experiências características do sexo feminino e que foram trazidas para o fórum público a partir do momento em que estas passaram a ser parte ativa do fórum público.

Da frase lá de cima:  "The male experience is the universal human experience, whereas the female experience is specialized, driven by biological factors (...)". 

A experiência masculina é o padrão pelo qual regemos a sociedade, as ideias, o mundo do trabalho, até a linguagem! O Homem, enquanto humanidade, o ele/eles enquanto pronome standard. Imaginem uma multidão de mil mulheres ("elas") e na qual aparece um homem: passam automaticamente a ser "eles". Porquê, se a vasta grande maioria é composta por elas? Pequeno exemplo mas que ilustra muito bem isto do masculino enquanto padrão universal da humanidade. Quando se fala de patriarcado, é disto que se está a falar. O homem como o padrão de "pessoa", "ser humano", e a mulher como, bom, uma "mulher", um ser humano demasiado especializado devido à sua biologia e impossível de ser compreendido pelo "homem" e mais impossível ainda, da sua experiência ser elevada à categoria de padrão.

Isto levar-nos-ia à questão da representação das mulheres nos media, que é generalizadamente tão estereotipada pela sua biologia (ou é como mãe, ou é como objeto sexual, ou é como virgem, tudo muito unidimensional). Mas como não quero ir por aí hoje, fica só aqui isto: 


You go, George. R. R. Martin, you badass story-teller!

É precisamente pela questão do homem como universal, mulher como exceção que muitas feministas reivindicam um outro tipo de igualdade. Uma igualdade que não é "igualdade estrita" mas que é antes "sameness". E eu sei que se formos ao dicionário elas aparecem como sinóminos, mas há uma diferença entre as duas que é crucial. "Sameness" é a minha experiência gozar do mesmo estatuto que a experiência do outro. Entre géneros, isto seria fazer com que a experiência feminina fosse tão válida, tão igual e tão considerada quanto a experiência masculina. A experiência feminina deixar de ser especializada, deixar de ser uma espécie de exceção à regra que é a masculina, e gozar da mesma importância e validade que esta.

Concretamente, um exemplo: a expressão "isso é coisa de gaja!", expelida sempre com o mesmo ar de desdém, deixar de acontecer. Duas coisas estereotipicamente de gajo e de gaja: os mummy blogs e os blogs sobre futebol. Gostos à parte, uns são muitas vezes encarados como coisa de mulheres que não têm mais nada que fazer e portanto nada sérios e motivo de alguma condescendência (mesmo o próprio termo "mummy blogs" transparece esta condescendência), os outros são neutros. Uma coisa ser "de gajo" não é motivo de escárnio nem desdém, é só "de gajo", é neutro.

A Germaine Greer é muitas vezes classificada como uma destas feministas que defendem o "sameness" por oposição à "igualdade com os homens". No seu livro The Female Eunuch ela diz que é ridículo e contra-produtivo a luta pela igualdade de género porque querer que as mulheres sejam iguais aos homens é querer que ela emulem um modelo estragado à partida. E com isto ela não queria dizer que os homens são estragados, queria dizer que a forma como a sociedade foi montada - por homens - tem graves defeitos e que uma mulher tentar vencer nela é obrigada a adotar os vícios e defeitos que a sociedade à partida tem. Acho que isto explica muito sobre as mulheres em altos cargos políticos e porque é que há poucas, e as que há são quase, tão ou piores, que os homens políticos: tiveram que adotar os mesmos comportamentos podres, competitivos e defeituosos para conseguirem vingar nesse boys' club, os mesmos comportamentos que os outros políticos homens adotam e que os fazem ser incompetentes e detestá-los. Ou seja, o problema não seria abrir caminho a que mais mulheres chegassem ao topo (porque depois as que lá chegariam seria as que nunca iriam mudar nada) mas sim transformar o caminho de tal forma que depois as pessoas certas (homens e mulheres) lá chegassem. 

Há mesmo muitas coisas que ainda me intrigam nesta diferença entre "igualdade estrita" e "sameness" e tantas vezes acaba mesmo por me parecer um paradoxo. É um debate que começa a resvalar para a semântica, para a filosofia e para o abstrato, mas é um debate extremamente importante no feminismo e nos estudos de género. Para mim, a igualdade de género é a luta para que não se precise de definir as coisas a partir do género. Ou seja, que uma pessoa possa ser o que quer ser sem o facto de os papéis de "homem" e "mulher" a restringirem nas suas escolhas. (Viram como evitei cobardolamente a questão das igualdades? :P)

Espero que agora este chavão aparentemente tão inócuo e óbvio já faça mais sentido:






S.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Saudades e feminismo em Belém

O síndrome da procrastinação para visitar coisas só me ataca quando sei que o tempo é indeterminado. Quando não é, até planeio e aponto o que ver e quando na minha agenda. A lápis, para dar espaço à espontaneidade, mas ainda assim um bocado à maníaca da organização do tempo.

É por isso que tenho andado numa espécie de roda-viva a visitar sítios por este Portugal que, aquando em Bruxelas, me andaram a fazer cócegas ao espírito. Isto das saudades tem muito que se lhe diga e eu tenho descoberto que é das coisas mais aleatórias que eu sinto falta: das waffles de uma barraquinha que só aqui aparece no verão, do Cais das Colunas no Terreiro do Paço, do Cascaishopping (wtf, não meto os pés lá há anos!), da vista do mar no cimo da minha (dos meus pais? bah, isto de "casa" tem muito que se lhe diga) rua, do pêlo do meu cão que já não cá está, dos olhos do que está, de jantar com os meus pais, de deambular pela Baixa, de olhar o Palácio da Pena pequenino no topo da serra, de subir uma estrada aqui perto e ver uma bela porção da costa portuguesa aparecer como quem destapa um pano de repente, do Parque Eduardo VII cheio de barraquinhas brancas com livros, de sentir areia debaixo dos pés descalços. Lisboa, por estranho que pareça porque nunca lá vivi, é sempre o que se apresenta mais forte quando perscruto na minha alma lusa a definição de "Portugal". É assim um misto de Belém, muito Chiado, alguma Baixa, e um bocadinho de Saldanha. Mas mais Chiado. É por isto que não consigo vir a Portugal não indo dar uma volta qualquer a Lisboa também. A visita ao país natal fica incompleta se não o fizer. E claro que tendo lá meia dúzia de caras e espíritos dos que mais falta me fazem torna a volta a Lisboa inescapável.


Mas desta vez, a ida a Lisboa incluiu uma paragem especial. Desde que ouvi falar da sua abertura há umas semanas atrás que me lastimava por não cá estar e poder lá ir deitar um olhinho. Falo da biblioteca pública feminista em Belém. Fica na Biblioteca Municipal de Belém e é uma sala dedicada ao estudo do feminismo. É claro que lá tive que ir.


  



A minha intenção em relação ao sítio era pura e simplesmente satisfazer a curiosidade. Queria saber a dimensão, o tipo de livros que tinha e se era vocacionada para a história do feminismo em Portugal (que, se tudo correr como espero, me seria mesmo muito útil daqui a um ano) ou se era mais generalista. Após uma pesquisa atenta e deliciada pelas lombadas dos livros expostos fiquei contente por ver que os grandes clássicos feministas lá estavam, incluindo obras de Germaine Greer, Betty Friedan e, claro, Simone de Beauvoir. Fiquei com a impressão que é uma coleção que, apesar de mais pequena do que estava à espera, é bastante abrangente, tendo livros de pura literatura de ficção que às vezes me fizeram suspeitar que ali estavam apenas por terem sido escritos por mulheres, obras mais filosóficas sobre o que é ser mulher e a condição da mesma ao longo dos tempos e em vários países, bem como livros que analisam políticas que influenciam a condição da mulher como o divórcio, as leis laborais e as licenças parentais, etc.


Eu fui um bocado gananciosa e levei para a mesa estes 4 livros, embora só tenha conseguido dar atenção - e nem sequer a devida - ao da Maria de Lurdes Pintasilgo. Aguçou-me a curiosidade o facto desta mulher ter sido uma feminista e, o que é mais, ter escrito sobre o assunto. Ela auto-declara-se uma feminista católica, o que é ainda mais interessante porque as duas coisas são normalmente contraditórias na sua teoria. Não lhe consegui ler o livro todo mas gostei mesmo muito do que li. É uma coisa muito terra-a-terra, explicando coisas elementares mas basilares como o que é o feminismo e o sexismo, não deixando que aquilo seja mero dicionário mas deixando transparecer que a autora pensou, remoeu e fez a comparação com a realidade sobre os temas que ali fala. Fiquei extremamente interessada em conhecer mais sobre esta figura da história recente portuguesa.

Era a única pessoa ali - quase na biblioteca toda, aliás - e isso deixou-me um bocadinho desanimada. Na minha ingenuidade, estava à espera que às duas da tarde de um dia de semana em julho aquilo estivesse compostinho mas pelos vistos não conheço bem muitas bibliotecas públicas. Bom, uma coisa é certa, é um lugar ideal para ir trabalhar frequentemente...



S.

domingo, 26 de maio de 2013

Paralelismos com o mercado de trabalho não são coincidência

Há umas semanas atrás, rumei ao Parlamento Europeu para assistir a uma conferência onde se discutia as vantagens de ter atenção ao género nas políticas de combate ao desemprego jovem. Foi bastante elucidativa porque deu para ver que as razões pelas quais jovens mulheres estão no desemprego e, nalguns casos, deixaram de procurar emprego, são diferentes das razões pelas quais jovens homens estão na mesma situação. Basicamente, deu para concluir que a maternidade e as expectativas de que a mãe será a principal cuidadora dos filhos tem um peso muito grande quer na empregabilidade das jovens mulheres quer nas próprias expectativas destas em relação ao mercado de trabalho, especialmente numa época de profunda crise económica como a que vivemos. A publicação do Parlamento Europeu sobre este tema, que foi basicamente o que os seus investigadores foram apresentar lá à conferência, pode ser consultada aqui: "As Vantagens de uma Estratégia de Género no Combate ao Desemprego Jovem".

Uma das apresentações foi particularmente lúcida e interessante e destacou-se das outras por me ter dado tanto que pensar que achei boa ideia partilhá-la aqui.

O título é "As diferenças de género na vontade de competir" e basicamente foi um estudo que um professor de uma universidade austríaca fez para avaliar a competitividade de rapazes e raparigas em diversas fases da vida. 

Fez 3 experiências com crianças dos 3 aos 18 anos que consistiam em diferentes provas. A 1ª experiência foi feita com crianças dos 3 aos 8 anos na qual tinham que correr 30 metros. Em baixo estão os resultados da performance de rapazes e raparigas por grupos de idades:


Bottomline aqui é que não há diferenças entre sexos na performance da corrida. Ao que parece, as diferenças só surgem a partir da puberdade, em que os homens tornam-se, regra geral, mais rápidos e resistentes do que as mulheres. Entre crianças, é tudo igual.

Na experiência foi depois introduzido um elemento que pretendia medir o nível de competitividade. Foi perguntado a cada criança se queria correr sozinha ou se queria correr em competição com outro/a colega. No caso de escolher a corrida com o/a colega, e se ganhasse, receberia o dobro da recompensa (acho que eram bombons ou assim). O gráfico a seguir mostra o número de rapazes que preferiu a competição e o número de raparigas:


Vemos aqui uma clara diferença da frequência com que os rapazes escolheram a competição em relação às raparigas. Lembremos que a performance é a mesma, portanto a probabilidade de uma rapariga ganhar seria a mesma que um rapaz. No entanto, não é isso que elas pensam.

"Ah, mas é normal que pensem que não são tão boas a correr quanto os rapazes porque corrida e desporto é normalmente uma área onde se considera que os rapazes são melhores." Para tomar em consideração esta espécie de parcialidade que poderia enviesar as conclusões, decidiram fazer outra experiência, desta vez numa área na qual não existe especial parcialidade ou, a haver, poderia pender para o lado das raparigas: arrumar blocos de diferentes formas. Num balde com várias peças de diferentes formatos, as crianças tinham que ir buscar todos os cilindros. Tinham um minuto para meter o máximo de cilindros que conseguissem num copo de plástico. Aqui, as raparigas tiveram uma performance um pouco melhor que os rapazes:


O elemento da competição aqui foi o seguinte: as crianças podiam escolher ganhar uma recompensa por cada peça arrumada ou ganhar duas recompensas por cada peça caso arrumassem mais peças que outra criança que lhes seria emparelhada aleatoriamente. Os resultados da competitividade não variam da prova da corrida:


Novamente, mais rapazes escolhem competir do que raparigas; e o que é mais, a diferença acentua-se com a idade! Isto numa prova que, segundo o investigador, é estereotipicamente associada a raparigas, que estas são melhores do que os rapazes a arrumar os blocos. Esta crescente diferença em competir é-me profundamente assustadora, mas já lá vou. Falta a última experiência.

Desta vez, a experiência consistia em somar números. Prova numérica mas muito simples, apenas adicionar. Aqui, como se sabe há o profundo estereótipo que os homens são naturalmente melhores a matemática do que as mulheres, que as mulheres são bem melhores em matéria de letras e comunicação do que números. Acho que é a maior treta que nos vendem desde pequeninos e que a maior parte das pessoas (eu incluída, até há cerca de um ano atrás) acredita que é mesmo uma diferença entre sexos. Que é o cérebro que é diferente e não sei quê. Os resultados da performance na soma dos números:


Duas conclusões, às quais o investigador chamou à atenção na sua apresentação:

- afinal as crianças aprendem alguma coisa na escola, visto que com a idade ficam melhores a adicionar números (haha!);

- não há diferença entre sexos na adição de números. Zero. Às vezes uma das barras está ligeiramente mais elevada que a outra, mas devido à margem de erro, a diferença desaparece. É tão claro que uma pessoa fica parva a olhar (eu fiquei, ainda que já tivesse lido umas coisas que apontavam neste sentido) e acaba por interrogar-se quem foi a alminha que inventou o mito que as mulheres são de letras e os homens de números. Bom, mas quando se vai para a questão da competição, o padrão continua:


Mais rapazes preferem competir com outro/a colega do que raparigas. E o pior: a diferença aumenta com a idade! (olhem para o grupo dos 17/18 anos, meu deus).

Porquê? Porque é que as raparigas se subtraem à competição muito mais que os rapazes, se têm exatamente as mesmas probabilidades de ganhar? Mais: porque é que se subtraem à competição mesmo quando têm mais probabilidades de ganhar do que os rapazes (na prova dos blocos, ligeira vantagem)? Basicamente, as conclusões do estudo são que as raparigas são mais avessas ao risco que os rapazes, e que os rapazes são mais otimistas em relação à sua performance que as raparigas. Ou seja, as raparigas têm uma perceção de que desempenham pior do que realmente desempenham, enquanto os rapazes têm uma perceção que desempenham melhor do que realmente desempenham. Umas são underconfidents, outros são overconfidents. E, como vimos, os estereótipos só pioram a underconfidence e a overconfidence de umas e outros.

Uma vez que as diferenças entre a vontade de rapazes e raparigas de competir nestas tarefas aumentam com a idade, suspeita-se que a educação e os papéis de género tenham também grande dose de influência nesta vontade de competir.  E faz sentido; das raparigas espera-se que sejam diligentes e aplicadas na escola (e na vida), dos rapazes espera-se que gostem de desporto, que joguem, que compitam, que ganhem (no desporto e na vida). Mas esta vontade de competir não irá ter meras consequências no desporto que se possa praticar ou em competições pontuais que se possa fazer; a vontade de competir é uma característica muito valiosa para se singrar no mundo do trabalho. Para se candidatar a um emprego está-se a entrar em competição com os outros candidatos, para nos tornarmos disponíveis a uma promoção está-se a entrar em competição com outros potenciais candidatos. Nunca tinha percebido a relação entre confiança e competição e mercado de trabalho: só uma pessoa que confia que tem um bom currículo ou que está ao nível do que é pedido em determinado anúncio de emprego se irá candidatar; só uma pessoa com confiança em si irá se propor a uma promoção que envolva qualidades de liderança, gestão, etc. E nisto, ao que parece, os homens ganham-nos aos pontos. É uma questão genética, do tipo os homens são naturalmente mais competitivos? Mas ao que parece é algo que aumenta com a idade. É de educação? De estereótipos de género? Porque de performance, já se viu, não é. 

O investigador disse uma coisa muito interessante, uma espécie de dito: "Um homem vê as especificações de um anúncio de emprego e, se tem uma que condiz, candidata-se; a mulher vê as especificações de um anúncio de emprego e, se tem uma que não condiz, não se candidata." A questão da overconfidence e underconfidence que pelo vistos caracteriza os géneros e que eu vou desconfiando que é mesmo assim.

Este post já vai longo mas há ainda uma coisa que eu queria escrever aqui porque basicamente essa era a finalidade do estudo: a questão das quotas. Não a vou discutir neste post porque dá mesmo muito pano para mangas mas vou só lançar umas ideias.

O que este estudo, na sua segunda parte, pretendia perceber era o efeito que a intervenção de políticas de quotas ou discriminação positiva tem na vontade das mulheres de competir. Já se viu que são no geral pessimistas em relação ao seu próprio desempenho e que se retraem na hora de competir por um lugar. Ou seja, está-se a perder potenciais trabalhadoras competentes em determinadas áreas (engenharias, informática, tecnologias, etc), trabalhadoras já formadas, mas que simplesmente não acreditam que têm hipótese. E portanto nem chegam a candidatar-se a determinadas posições.

No estudo, fizeram mais uma data de experiências, no mesmo molde das outras e com o esquema de sozinho/competição. Desta vez estavam num grupo de seis colegas, 3 homens e 3 mulheres. A tarefa era adicionar números em 3 minutos e podiam escolher: ganhar 50 cêntimos por cada par adicionado corretamente, ou 1,50 euros se fossem um dos dois melhores no grupo a adicionar números. O que os investigadores fizeram foi variar depois o tipo de recompensa para as mulheres que quisessem competir, e no sentido de ver se com ganhos assegurados, as mulheres estavam mais dispostas a competir. No fundo, é simular o efeito que as quotas teriam numa situação real.


Portanto, o CTR é o grupo no qual não era dada qualquer vantagem às mulheres. O que se vê é aquela diferença abismal na predisposição para competir.

No QUO, a regra era que entre os dois vencedores, pelo menos um tinha que ser mulher, o que significa que a mulher com o melhor desempenho venceria decerto. Isto é o equivalente às quotas frequentemente introduzidas nos partidos ou a que a Viviane Reding queria introduzir nos quadros das empresas europeias. Aqui vê-se um claro aumento do interesse das mulheres em entrar em competição, ainda que não supere o dos homens. 

No PT1, era dado às mulheres um ponto extra, que servia como desempate caso elas tivessem um desempenho tão bom quanto os homens. O interesse pela competição aumentou entre as mulheres. 

No PT2, eram dados às mulheres dois pontos extra, o que significa que uma mulher menos qualificada poderia ganhar em relação a um homem com um desempenho melhor. Este é o único em que as mulheres preferem muito mais competir que os homens.

Finalmente, no REP, haveria repetição da competição caso nenhuma mulher ficasse entre os dois vencedores. Na repetição, as regras normais seriam aplicadas. Não convence muito as mulheres a competir, neste caso.

Ou seja, as únicas experiências que nivelam o campo em termos de predisposição para competir são o QUO e o PT1. O único injusto - na minha opinião - é o PT2. É importante frisar mais uma vez que o desempenho das mulheres e dos homens é igual, ou seja, não existe aqui o perigo de estar a favorecer candidatas menos qualificadas do que os candidatos (exceto no PT2). Mesmo com as vantagens favoráveis, quem acaba por ganhar será sempre a mulher mais qualificada. O que as intervenções fazem é aumentar o número de candidatas disponível porque há mais mulheres - igualmente qualificadas que os homens - predispostas a ir à luta. 

Paralelismos com o mercado de trabalho não são coincidência, são intenção. 

Agora o que eu gostava mesmo de descobrir era quanto da pouca vontade de competir é uma questão genética e quanto é socialização do que é "ser mulher".



S.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Disney rant #3097235

Queria só acrescentar uma achazinha à fogueira dos defeitos da Disney.

Quando estávamos em Londres surgiu a ideia de irmos à loja da Disney comprar um presente para um bebé que tinha acabado de nascer. Não foi preciso a ideia ser formulada em voz alta duas vezes que eu fui logo lá, ansiosa por ir espiolhar as maravilhas que eles têm para bebé e por ter um pretexto para ir a uma loja Disney que é sempre uma experiência de, er... overdose sensorial. Eu sei, eu sei, num post critico o excesso de brilhantes e noutro admito o meu fascínio pela loja abrilhantada. Sou uma criatura contraditória, que querem. 

Dizia eu que fui logo a correr, direitinha à dita loja. Fui logo a correr, mas porque Londres é grande, ainda tive tempo de me preparar mentalmente para as multidões selváticas da Oxford St. Não correu muito mal.

A secção dos bebés tem coisas fascinantes. Eu, que tenho inúmeras crises existenciais sobre a maternidade (por antecipação, ainda que uma antecipação indefinida), e que nunca tive a oportunidade de lidar de perto com coisas de bebé, fascina-me o mundo consumista direcionado para estes minúsculos seres humanos. A prenda era para uma bebé menina por isso ia muito self-conscious do que iria escolher. Não queria dar mais um contributo para o potencial afogamento da criança em cor-de-rosas, brilhantismos, folhinhos, e piroseiras do género. Mas então se calhar, diz-me a voz da razão retrospetiva, não me devia ter ido enfiar numa loja Disney, né?

As roupas para bebézinhos ali são espetaculares. Têm os bonecos dos filmes e são de boa qualidade. São também, como suspeito que é normal, bastante segregadas: há o que é especificamente para menina e o que é especificamente para menino. Mas também há coisas neutras (Deus seja louvado). Depois de muito minuto a andar para trás e para a frente, pesando os prós e contras de tanta característica, tinha-me decidido por um body muito bonito cor-de-rosa que se salvava porque tinha a Nala, que é provavelmente a minha "princesa" Disney favorita. Gosto muito da Nala. Era tão ou mais aventureira que o Simba quando eram miúdos, divertida e corajosa, e deu-lhe na cabeça quando ele se armou em parvo e não queria ser rei, e lutou ao lado dele contra o Scar e as hienas.  






Pronto, tinha aquelas manias do banho como deve ser e depois casou e apagou-se completamente mas das princesas da minha infância ainda era a melhorzita. 

Isto para dizer que até estava disposta a fechar os olhos ao cliché cor-de-rosa porque tinha lá a Nala. Até que vi o que vinha escrito em conjugação: "Love Me, Love Me". Oh, que bonito. Súplicas a futuros e hipotéticos príncipes encantados num body de uma recém-nascida. Espetacular. E ainda há quem duvide da força dos estereótipos de género na educação das pessoas. O bombardeamento começa assim que chegam ao mundo, há cá espaço para inovar.

Arrumei o cabide muito direitinho na prateleira, engoli a bílis que entretanto me tinha subido à boca, e optei por uma coisa muito branquinha, muito linda, e com o coelho Tambor, do Bambi.

Vai ser bonito quando forem meus.

Isto pode parecer uma coisa insignificante mas é com pequenos passos que se muda qualquer coisa neste mundo. E ainda que a bebé não seja minha e eu não tenha absolutamente nada que ver com o que ela vestirá/brincará/usará/verá, não quero estar a contribuir para algo que vai contra o que eu defendo. Diz-se que "you should not mix your politics with the raising of your children" mas será que isto é mesmo assim? Se achamos que as nossas políticas não são boas para aplicar na educação dos filhos então valem elas de quê?

Já sei, vou engolir isto tudo quando/se for mãe. Eu depois prometo que digo qualquer coisa.



S.


sábado, 11 de maio de 2013

E respira fundo

Há umas duas ou três semanas, quando pus finalmente mente à obra e a sério para desenhar uma candidatura a doutoramento,  comecei a comiserar o facto de estar numa cidade francófona. Aaai, que não tenho bibliotecas como deve ser, aaai, que os livros que preciso são tão específicos e cá não há, aaai, que é só coisas em francês e eu preciso de uma cidade inglesa, aaai, que Londres fica tão perto mas tão longe, aaai, que a biblioteca da LSE é que era, aaai, coitada de mim. Escapou-se-me o facto de estar a viver no centro sobre all-things-UE, como também me escapou o facto de que aqui também há universidades, universidades que ainda por cima têm institutos europeus, e que universidades têm bibliotecas, e que sim, vivo numa cidade francófona mas literatura académica é universal e portanto anglófona. E só depois de pesquisar incessantemente como poderia reaver a minha membership das bibliotecas londrinas, é que me lembrei que se calhar devia era pesquisar como conseguir ficar membro da biblioteca da Université Libre de Bruxelles, por razões estupidamente óbvias. 

Solução tão simples para os meus problemas.

Ia cética, tenho que admitir, quando cheguei ao campus da ULB para me inscrever na biblioteca de ciências sociais e humanas. Assim que vi todo o edifício devotado à mesma (após cerca de meia-hora às voltas pelo campus, um mapa copiado à pressa para o bloco de notas, e muito desvio, como é sempre inevitável) o ceticismo deu lugar ao entusiasmo. 


Quando, cerca de duas horas depois, saí de lá com um livro emprestado por duas semanas e possibilidade de o renovar através da net, no conforto do lar, quase que vinha a chorar de alegria por ter encontrado tão honrada substituta para a minha biblioteca favorita. Com o bónus de que posso alugar livros (coisa que não podia na outra, daí as intermináveis tardes passadas naquele edifício gigante na Portugal Street) e que fica a 20 minutos de bicicleta de casa - enquanto a outra ficava a 45 de metro.

Hoje lá fui eu estrear o caminho de bicicleta até à univ para ir buscar nova leva de livros. Perto e caminho razoavelmente plano, que mais posso desejar?

Entretanto descobri que mais de metade dos livros que constam na minha to-read list não estão disponíveis naquela biblioteca, o que me frustra um bocado os planos de preparação. Tenho sempre a opção Amazon, mas por serem livros académicos e demasiado específicos raramente os encontro a preços baixos. Será um problema para solucionar mais para a frente. Entretanto descobri que os meus antigos códigos da King's ainda me dão acesso aos academic journals que vou precisar portanto a questão dos livros em falta foi posta de lado. O computador recebeu um beijo repenicado e um abracinho sentido que em boa verdade não são merecidos porque não é ele que dita o acesso aos valiosos artigos. Mas digamos que fiz o inverso do "shooting the messenger".

Isto tudo para deixar aqui registado que voltei à vida académica, ainda que seja só pré-académica por agora, e que toda a minha santa hora livre vai ser agora dedicada à preparação desta nova fase (não de verdade, senão não estava aqui, mas é mais ou menos isso). Só vou no segundo livro e já sinto o meu cérebro a esticar neurónios que não esticava há muito, como quando se vai ao ginásio após o mês de férias de verão. É quase doloroso. Intervalo com muito olhar para a parede desfocadamente, enquanto tento assimilar o que li (muitas vezes sem sucesso), e que equivale aos alongamentos após corrida intensa. 

Eu não consigo estabilizar no mesmo sítio muito tempo, seja ele geográfico, profissional, ou mental. É uma característica que já reconheci que faz mesmo parte de quem sou e tenho vindo a aprender a viver com ela. Temo que um dia me venha a dar problemas - uma pessoa precisa de uma certa estabilidade na vida para chegar a algum lado, seja para progredir na carreira, seja para criar uma rede de amigos e pessoas importantes na nossa vida num lado qualquer. Mas enquanto não me der problemas não há que lamentá-la.

Vou precisar de muita sorte para os próximos meses e de muito conforto emocional. Já re-abasteci o stock doméstico de Nutella, pelo sim pelo não.   




S.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Media, é assim mesmo #4


Eu bem digo que é nos filmes em que menos espero que encontro pérolas do anti-cliché-da-representação-feminina. Neste caso, não foi nenhuma personagem em especial que me despertou a atenção nem o próprio enredo. O London Boulevard é apenas mais um filme de gangsters. O facto de ser passado em Londres foi decisivo para a sua escolha mas isso agora não é para aqui chamado.

O filme tem mais uma daquelas cenas de 15 ou 20 minutos que pela bofetada à máquina hollywoodesca - e aos media em geral - faz com que mereça um lugar aqui. Cá vai ela:











Pronto, é isto. As 3 personagens-tipo femininas que eu mencionei há vários posts atrás. É a neurótica para contrastar com o homem que só quer é levar uma vida normal, a sedutora e a virgem que servem apenas de pretextos para as torpelias masculinas, e a mãe que representa a figura omnipresente na vida da personagem masculina. Todas, no fundo, não passam de bengalas ao ator principal. Daí que incluírem uma personagem de um filme a constatar isto seja mesmo muito bom. Gosto muito quando Hollywood morde a própria cauda. 

E o Colin Farrell anda a levar muitas lições de representação das mulheres nos filmes, haha!



S.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Essas cobras que só pensam é na carreira

Baseado neste artigo do The Guardian "Doubts over childcare 'expert' feted by Tories"

A lengalenga do costume de que as mães que trabalham nem são dignas desse nome. Mas desta vez com um twist muito giro: o tiro saiu-lhes pela culatra.

A sério, velhos preconceitos revisitados tiram-me do sério.

O governo britânico está com sérias e aplaudíveis intenções de reformar profundamente o sistema britânico de childcare. Considerando que li há pouco tempo - ainda que não me lembre onde - que Inglaterra, e mais propriamente Londres, era o sítio da Europa onde o peso financeiro de ter uma criança na creche era mais elevado, parece-me uma intenção de louvar. Ao que parece, querem reformular totalmente o sistema de licenças de maternidade/paternidade/parental e, inspirando-se no modelo nórdico, criar uma única licença, chamada parental, em que as primeiras semanas seriam para a mãe e o resto do tempo seria para ser dividido como os pais bem entenderem. Pessoalmente, e em nome de uma verdadeira reconciliação trabalho-família que inclua também os homens, fiquei muito satisfeita. Se bem que, se o passado ensinar alguma coisa, é que os meses de licença parental para serem divididos como os pais bem entenderem vai ser código para "mulheres tiram o resto dos meses e aquilo passa na prática a ser licença de maternidade na mesma". Mas isso é outra linha de discussão que não queria seguir hoje.

Hoje é sobre as creches, ATLs, atividades extra-curriculares, etc. O compreensivo e muito útil termo "childcare". Esta é também uma das áreas cruciais nisto da conciliação trabalho-família que o governo britânico almeja alterar. E os fazedores-de-políticas, quando querem mudar alguma coisa, encomendam estudos de impacto, estudos de benefício-prejuízo, ouvem especialistas, são pressionados por grupos de interesse disto e daquilo, decidem. Gosto mesmo muito deste processo, foi sobre ele que versou a minha tese-bebé e continua-me a intrigar e a fazer cócegas a inteligência. E foi precisamente a escolha terrivelmente má de um "especialista" que me deixou a espumar durante algum tempo após ler uma notícia.

Uma deputada Conservadora, sem dúvida lobbyada pelo grupo Mothers at Home Matter (os verdadeiros patrocinadores do evento) organizou uma espécie de conferência no Parlamento britânico sobre os males que as creches provocam nas crianças. Para tal convidou um "especialista" sobre o assunto, o senhor Jonas Himmelstrand, para botar faladura sobre como as creches estão a destruir a sanidade mental dos adolescentes suecos. Porque o senhor é sueco - vejam bem o brilhantismo da estratégia, levar ali um insider para dizer como afinal um dos países com o melhor sistema de childcare do mundo (entre tantos outros indicadores sociais) não passa afinal de um grande embuste - portanto sabe, claro. 

Claro que os jornais conservadores, como o Daily Mail e o Daliy Telegraph, bateram todos muitas palmas, louvando este senhor e os seus achados (que não são seus mas já lá vamos), apontando o dedo acusador a essas estúpidas mulheres modernas que querem ter tudo e fazê-las ver que, oh! estão a fazer mal aos vossos filhos, suas cabras insensíveis, e que os males todos da sociedade estão na sua ausência de instinto maternal e nos vossos corações de pedra, porque querem é laurear a pevide em vez de voltar a casa e à cozinha, como é vosso destino inevitável.

Só que entretanto, houve um ou outro jornalista que se deve ter lembrado de googlar o senhor especialista, e o "instituto" a que este pertencia. Se calhar até houve um jornalista mais maluco que se atreveu a ler o estudo original que o senhor "especialista" tão mal citou. E depressa descobriu que era só trafulhice atrás de trafulhice. O autor do estudo - o VERDADEIRO especialista e quem devia ter sido convidado em primeiro lugar, já agora - veio logo negar que houvesse alguma ligação entre creches e menor saúde mental na adolescência. Disse até que essa foi uma causalidade particularmente investigada no estudo em questão e que não tinham descoberto qualquer relação. E outro psicólogo, também mal citado pelo "especialista", quando contactado pela imprensa britânica, referiu que, aliás, tinham era comprovado - mais uma vez - que tempo passado em creches de qualidade é benéfico para o desenvolvimento cognitivo/comportamental/social da criança, mesmo de tenra idade. E que um "especialista" ir a público debitar dados ao calhas e tirá-los do contexto e do estudo era extremamente não-cientifico e irresponsável. Eu acrescentaria perigoso também, já que a deputada que o organizou é a conselheira sobre infância e parentalidade do David Cameron e o Ministro do Trabalho estava na audiência. 

Ao que parece o "especialista" diz que não tem curso superior nenhum, que foi "self-taught" (isto faz-me lembrar a piada do "aprendi com a Escola da Vida") mas que também nunca disse que tinha curso. Mas que se apresentou como pertencente ao Mireja Institute, que por acaso só tem um membro e que é ele próprio. 

A sério, isto consegue tornar-se mais ridículo?

Entretanto lá contactaram o Mothers at Home Matter para comentarem estes achados, já que o evento foi deles e o convidado também. Depois de uns protestos muito informados, que nã, nã, a investigação do "especialista" era "all based on proper scientific figures" lá acabaram por balbuciar um  "He travels the world speaking on these issues, so I guess there must be some credibility to these figures," que é o equivalente a "se ele diz é porque deve ser". Argumento à prova de bala, como se sabe.

Entretanto eu fui ao website do Mothers at Home Matter e aquilo parece tudo muito razoavelzinho. Insistem em que o ficar em casa devia ser considerado uma opção válida na sociedade de hoje, que queriam dar voz às mães que escolhem ficar em casa com os filhos, etc. Mas é a insistência na palavra "mãe" (em vez de parent. Se é de amor que elas falam que a criança precisa, porque é que tem que ser a mãe a ficar? O pai não tem o mesmo amor incondicional?), é o nome do grupo, é o demonizar das mães que têm emprego através destas conferências pseudo-cientfícas, é o trazer de volta o velho argumento de que as mulheres, simplesmente não podem ter tudo. Não podem. E quando tentam, dão-se mal. E estragam os filhos pelo caminho. Fazem isto tentando provar aos fazedores-de-políticas que as creches são más para as crianças, que ao invés de se encorajar as mulheres a manterem-se no mercado de trabalho deve-se é aconselhá-las a parar duas décadas e não pensar em mais nada que no bem-estar de outrém durante esse tempo porque, convenhamos, no fundo, no fundo, é esse o seu destino biológico.

Eu podia citar aqui um sem-fim de estudos que mostram que o investimento nas creches é fator decisivo na escolha que as mulheres fazem de continuar a carreira profissional ou ir para casa após o nascimento dos filhos. Porque, sejamos realistas, com creches a 1500 libras por mês por filho, como é que uma mãe escolher ficar em casa com os filhos é uma verdadeira escolha? É somente racionalidade financeira.

A flexibilização de horários também seria fundamental, e da mudança de mentalidades de uma vez por todas de que mais horas de presença física no escritório equivalem a mais trabalho feito. Mas isto, na minha opinião, só tem o efeito desejado se for flexibilização para todos os trabalhadores, quer sejam homens quer sejam mulheres. Senão as consequências negativas caem todas em cima das mulheres: são elas que são olhadas de lado por sairem mais cedo do escritório, por trabalharem menos horas (sem mencionar o facto de que trabalho part-time significa menos descontos sociais, logo menos benefícios de segurança social em caso de doença, desemprego e menos pensão a receber na velhice), por terem que tirar mais um dia para ir com a criança ao médico. E se continua a ser a mulher a alombar com o trabalhinho doméstico, em cima do horário de expediente que já leva profissionalmente, voltamos à conversa de que um dia ela mandar um berro e decidir ficar mas é em casa com os filhos se calhar não é verdadeiramente uma escolha livre.

O texto já vai longo e eu sinto que só toquei na pontinha do iceberg e havia tão mais para ter dito. A questão da conciliação trabalho-família apaixona-me e estou mesmo convencida que nas sociedades europeias, é um dos grandes problemas a acertar para corrigir isto da desigualdade entre géneros. É onde as mulheres ainda perdem por tanto e as impede de se realizarem em ambas as frentes. É onde tantas vezes maldizem o feminismo e as feministas da 2a vaga, por lhes terem feito acreditar que podiam ter tudo e ser tudo, e afinal é impossível. Para mim, as feministas deixaram a luta incompleta, ao terem levado a mulher para o mercado de trabalho mas esquecendo-se de trazer o homem para dentro de casa. E por terem lutado apenas para que a mulher singrasse na sociedade sem lhe mudar as regras. O mercado de trabalho, como está organizado, simplesmente não foi pensado para que os dois pais sejam ganha-pão. O seu modelo ideal é o ganha-pão + dona-de-casa, ou quando muito, ganha-pão + part-timer

Eu não tenho estas preocupações de conciliação portanto acredito que haja muita mãe que possa estar a pensar "quando fores mãe vais ver" ou "não cuspas para o ar que te acerta na testa" ou "eu também pensava assim mas quando o meu mai' novo nasceu mudei completamente de mentalidade". Pois, está bem. Logo veremos. O que não suporto é que se demonize uma política que funciona, e que ainda por cima parece que até tem é benefícios para a criançada, para validar um estilo de vida que escolhemos (escolheram mesmo, livremente?) e nos sentirmos superiores.

Sinceramente, desejo muita clarividência e boas escolhas aos fazedores-de-políticas Conservadores britânicos, que se deitaram ao caminho tortuoso de modificar tão complexa parte do welfare state. Eu cá acompanharei com atenção os desenvolvimentos. Quem sabe, podem-me dar ideias com cheiro académico...




S.