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quarta-feira, 15 de abril de 2015

A explicar como isto do sexo e do género é complicado

- O Transparent é capaz de ser uma das melhores séries dos últimos anos, de tão bem interpretado e com tão bons diálogos (e nem precisa de dragões);

- O Middlesex é page-turner desde o primeiro capítulo (obrigada, Febre dos Fenos, não vou mais largar o Jeffrey Eugenides);

- O Mein Freund aus Faro foi uma surpresa das grandes, pensando que ia juntar Portugal e alemão acabei foi com questões de identidade de género pelo meio;

- O Berlin 36, baseado numa história verídica, junta gajas a darem baile aos nazis com questões intersexuais*.





S.

* os filmes alemães a que tenho acesso parece que cabem em duas caixas perfeitinhas: ou filmes sobre segunda guerra mundial ou filmes sobre pessoal transgénero (se alargar esta última caixa a 'feminismo' ainda posso, mesmo que um bocadinho forçosamente, juntar o Hannah Arendt)  

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O Alemão e o Capitalismo


Empregado : der Arbeitnehmer (literalmente 'aquele que toma o trabalho')

Patrão : der Arbeitgeber (literalmente 'aquele que dá o trabalho')


O Das Kapital deve fazer tão mais sentido na língua original.



S.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

As alegrias de partilhar livros com estudantes passados

Este post também se podia intitular: "As coisas com que a minha cabeça se ocupa para evitar concentrar-se no que deve".
 
Requisitei um livro da biblioteca que foi, em tempos, claramente lido e sublinhado por um aluno alemão/austríaco.
 
Tenho assim significados alemães traçados a lápis por cima de termos ingleses. Pois que assim não só estou a ter lições de feminismo como aulas inesperadas de alemão.
 
Em três páginas, já aprendi que:
 
- 'hailed' é 'gefeiert';
- 'breakthrough' é 'Durchbruch' (por alguma razão esquisita esta palavra é parecida com diarreia em alemão, 'Durchfall', uma das poucas, também esquisitamente, que se me ficou das aulas de alemão do ano passado...);
- 'more recently' é 'in der letzter Zeit';
- 'just as much' é 'ebenso viel';
- 'ovaries' diz-se 'Eiestöcke', que me cheira bastante a 'bolsa dos ovos' ou assim.
 
Quem disse que completar um doutoramento era uma empreitada solitária, hum?





S.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

À terceira é de vez

Agora que já criei a minha nova rotina à volta das leituras para o doutoramento, consegui voltar a incorporar alemão na minha vida. Com sucesso, posso dizer com confiança, porque a língua já faz parte da nova rotina e já aguentou o passar da novidade, portanto é para ficar.
 
Eu sei exatamente o que preciso para que a terceira tentativa de incursão no alemão seja bem sucedida. Livros de exercícios não é, aulas também não, cursos online ainda menos. Preciso de ler muito, mesmo muito, para que as construções das frases comecem a fazer sentido, as palavras comecem a repetir-se e a aprendizagem se torne o mais intuitiva possível, sem que eu saiba como lá cheguei. Mas como ler com um dicionário ao lado é contra-producente e extremamente aborrecido, o que eu preciso é de ler textos bilingues. Ir lendo o texto em alemão e deixar o olhar deslizar de vez em quando para o lado, para a língua familiar, sempre que estiver mais perdida. Preciso portanto de uma história que eu conheça de trás para a frente, que ainda me dê prazer lê-la, nas versões inglês e alemão.


Exato, nunca houve dúvida de que livro teria a honra. Já tinha tentado uma vez lê-lo em alemão mas não funcionou. Tinha mesmo que ser versão bilingue.
 
Mas não há versão bilingue.
 
Procurei e procurei em todos os canais que me lembrei porque com a popularidade destes livros suspeitei que isto existisse oficialmente, ou que pelo menos já houvesse alguém que tivesse tido a minha ideia, mas nada.
 
Não há, inventa-se. Foi o que acabei por me mentalizar que teria que fazer. Aprender a formatar dois textos de forma a aparecerem exatamente lado a lado numa página e depois transformá-los num ebook.
 
O NOVA Aligner, software dos tradutores, tornou-se o meu melhor amigo. Aquilo alinha automaticamente o melhor que pode os dois ficheiros .pdf mas como os ficheiros vêm de fontes diferentes não bateu quase nada certo. Gastei preciosas horas de vida a alinhar frase a frase o livro.
 
No final, valeu muito a pena. Voilá:



289 páginas de texto alinhadinho, em alemão e inglês. O meu livro de Harry Potter bilingue! :')
 
Já o li, acompanhado da versão audio em alemão, para entender os sons e mergulhar duplamente na língua. Estou muito feliz e sinto que é desta que encarrilo.
 
Agora tenho mais 6 livros para ir alinhar.
(Tenho só que meter cada frase de diálogo por linha e ficam perfeitos.)




S.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O meu mundo encantado

E 100 páginas depois, eis as palavras novas que já aprendi:

- Zauberer (feiticeiro)

- Hexe (bruxa)

- Luft (vassoura)

- Zauberstab (varinha mágica)

- Muggel (muggle)

Tudo palavras úteis para o meu dia-a-dia, portanto.




Update: Luft não é vassoura, caraças. É ar. Acertei o contexto, falhei o objeto. Besen, Besen, Besen, Besen, Besen, Besen, Besen, Besen...




S.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Aprender a andar de bicicleta com rodinhas

Por falar em livros que despoletam boas memórias:


Porque não? Se foi assim que aprendi inglês...

Lembro-me perfeitamente de começar a Pedra Filosofal na versão original e com a tradução portuguesa por baixo, seguindo frase a frase a história em ambas. Não há motivação maior para acelerar o conhecimento de uma língua do que saber que o próximo volume sai quatro ou cinco meses antes da tradução em português... 

Sei perfeitamente que ainda assim o meu nível de inglês quando comecei a ler HP na versão original era melhor do que o meu nível de alemão agora. Mas o meu conhecimento de HP agora é imensuravelmente maior do que na altura, chega a ser embaraçoso mesmo, por isso é capaz de equilibrar. Não sei linhas de cor, credo, não cheguemos a tanto, mas conheço a história o suficientemente bem para não ser capaz de me perder, mesmo que haja avalanche de palavras estranhas.

Portanto, plano para os próximos meses: ler o livro acompanhado com a versão em audio (sim, eu não faço as coisas por menos. Se é para aprender, É PARA APRENDER). Quando descobri o maravilhoso mundo dos livros audio - também no universo HP e porque queria treinar o meu ouvido inglês - passava horas e horas deitada no sofá muito sossegadinha a ouvir o senhor Stephen Fry a contar-me histórias, a fazer as vozes das personagens e a pronunciar as feitiços em latim muito cómicos. Era capaz de meter impressão para terceiros porque eu passava literalmente horas a olhar para a parede ou para o teto desfocadamente, com os fones a debitarem-me história diretamente no ouvido. Parecia que tinha perdido o gosto pela vida ou assim. 

Depois veio a fase do ler alto, mas não vamos já enlouquecer. 



S. 

sábado, 16 de novembro de 2013

A linguista dentro de mim cisma

Sempre me fascinou a questão dos sotaques. Mesmo muito. Durante muito tempo foi a demanda pela capacidade de distinguir entre os diferentes tipos de inglês - particularmente o britânico e o norte-americano - e hoje é a demanda pela capacidade de distinguir com eficácia sotaques de diferentes regiões do UK. A ideia de que o sítio onde vivemos modela a nossa forma de falar, a forma como soa as palavras que dizemos, é-me incrivelmente surpreendente e fascinante. Se calhar não devia ser porque parece uma coisa muito lógica, constatável e extremamente corriqueira. Mas para mim encerra a mesma incredulidade que constatar que o cãozinho de dois meses que adotámos crescia a cada dia e que agora passados três anos é um cão grande, ou que os bebés na família/amigos que acompanhámos desde a gravidez nasceram, passaram de recém-nascidos a bebés rechonchudos e crescem todos os dias, como atestam as fotografias partilhadas pelo Facebook. E isto independentemente do que fazemos. Foi com esta mesma incredulidade logo seguida de "ah, claro, mas estavas à espera do quê" que eu constatei que uma das minhas melhores amigas que me ficou do mestrado tem agora um lindo e robusto sotaque britânico, após três anos ininterruptos a viver em Londres. (Infelizmente, nove meses não dão para obter o mesmo resultado, como depressa constatei, especialmente se convivermos com pouca gente inglesa.) Mas o mais fascinante disto é que os sotaques são adquiridos naturalmente, e provavelmente sem a pessoa se aperceber, como pude também constatar após o nosso encontro há uns meses e o meu "Olha, ganhaste sotaque britânico!" e ela olhar para mim deveras surpreendida: "... ganhei?". Isto torna-se ainda mais engraçado quando a pessoa já havia aprendido a língua, já a falava com grande competência mas agora di-la de forma diferente. É como se fosse o instinto a modelar-nos para sermos o mais compatível possível com o que nos rodeia. Fico curiosa para saber se daqui a uns aninhos, a minha prima que vive agora no Porto desenvolverá um bonito sotaque nortenho, ou que tipo de português os meus filhos falarão se nos mantivermos emigras como intencionamos.

Pouco tempo depois de nos mudarmos para Bruxelas descobri, porque me disseram, não porque o conseguisse distinguir, que também havia uma diferença significativa entre o francês belga e o francês de França. Depois, quando fui a Estrasburgo, descobri que havia uma diferença também entre o francês de França estandardizado, que suspeito que equivalha ao francês de Paris, e o francês da Alsácia, que me disseram ter toques germânicos. Mais uma vez fui uma pessoa muito infeliz por não ter o nível de francês que me permitisse distinguir estas subtilezas maravilhosas das línguas que tanto me fascinam. Entretanto já consigo saber quando alguém está a falar francês de França ou francês belga. Descobri a distinção quando, nas minhas vendas de roupa em segunda mão, calhou uma rapariga ir a minha casa e eu começar a ficar extremamente incomodada por estar a ter grande dificuldade em perceber o que ela dizia. Só pensava "Mau, mas estou a andar para trás ou quê?!". Até que ela disse que era francesa e as peças encaixarem: estava a ter dificuldade em perceber este francês não por culpa minha mas porque provavelmente tinha pronúncia, hmm, francesa. Em vez de belga. Portanto é assim que agora os distingo: se o palavreado me está a parecer demasiado rápido e ininteligível quase de certeza é porque é sotaque de França. Mas isto ainda não é um método infalível e tenho muito que aprender.

Noutra nota, já não é a segunda, nem terceira, nem quarta, e suspeito que nem a quinta pessoa estrangeira que me diz que o português soa a russo. Da primeira vez arregalei muito os olhos de surpresa, à segunda fui tentar confirmar (o que é muito difícil porque se trata da nossa língua materna, mas há que tentar bloquear as palavras e o significado delas e focar só nos sons emitidos) e descobri, para meu grande espanto, que essas pessoas tinham razão: o português soa assustadoramente a russo. Suspeito que seja porque falamos para dentro e não tenhamos nenhuma musiquinha associada à nossa língua. O português europeu é deveras monocórdico e aborrecido. E a última pessoa que me disse isto do português europeu soar a russo foi uma brasileira, de forma que isto selou as minhas suspeitas em confirmações. 

Por falar em musiquinha associada à língua, uma vez perguntei à professora de inglês na universidade em Portugal (ela era nativa britânica) a que é que soava o português, porque sempre foi uma coisa que tive muita curiosidade, e ela disse que a nada. Que era extremamente difícil de identificar um português a falar inglês precisamente pela ausência da musiquinha linguística que, por exemplo, um italiano tem, ou um espanhol, ou um francês e que nos faz rapidamente aperceber quando é que um destes nacionais está a tentar falar inglês. Eu fiquei deveras intrigada. Deve ser por isso que rapidamente adotamos pronúncias estrangeiras quando vamos viver para outros países durante alguns anos, e transportamos essas pronúncias para quando falamos português, como é tão facilmente constatável em episódios de Portugueses pelo Mundo, ou em emigrantes franceses de volta à terra em agosto. 

Devo no entanto declarar aqui que o meu português se mantém intacto, muito porque o falo em casa todos os dias, e os meus amigos aqui são maioritariamente portugueses. Quanto ao meu inglês, ainda que seja a minha língua de trabalho, ele é maioritariamente falado com outras pessoas não-nativas e, sendo que as nativas falam inglês escocês, tenho-o guardado limpinho de influências sonoras e mantém-se assim muito internacional-estandardizado, aguardando o dia em que também ele se transformará num inglês britânico-regional manhoso qualquer. Mas prometo não forçar nem armar ao pingarelho quando esse dia chegar.

Agora podia vir aqui falar do alemão, mas se ainda não distingo como deve ser sotaques franceses, o que dizer do alemão, tão amador ainda. Mas ao que já me chegou aos ouvidos, sei que ele é ultra variado consoante os Länder e que por vezes pessoal nativo tem mesmo dificuldade em entender certos sotaques mais cerrados. Deve ser um pouco à moda dos nossos Açoriano e Madeirense.

Por falar em alemão, ontem peguei neste livro que a minha mãe tão carinhosamente enviou de Portugal e que, por ter a mesma bonecada que o seu irmão inglês, tantas boas recordações me despoletou:


É um livro extremamente banal, de uma edição já com 20 anos e semelhante a dezenas de outros dicionários com imagens que para aí abundam, com as palavras organizadas por temas. Mas eu cresci com o seu irmão inglês, igualzinho:


e nem consigo começar a descrever as vezes que eu folheei este livro, as cópias que fiz das palavras, as histórias que eu inventava com cada imagem da cidade, dos animais, das férias, da família, as vezes que eu brinquei à professora e alunos, o velhinho e gasto que ele está. De maneiras que revisitá-lo mas em versão alemã só abona para a minha motivação de aprendizagem da língua germânica.

Eu já tinha sido alertada mas depressa constatei que a língua alemã é estupidamente divertida na sua construção de palavras. Assim, e recentemente, fiquei a saber que uma luva é um sapato para a mão (Handschuhe), ou que trocos são dinheiro pequenino (Kleingeld), ou que o hospital é a casa dos doentes (Krankhaus), ou que o frigorífico é o armário do frio (Kühlschrank), ou que - e esta é a minha preferida até agora - uma tartaruga é um sapo com escudo (Schildkröte). Por vezes também descubro umas palavras inesperadamente semelhantes a portuguesas, como o quése (Käse), o duche (Dusche), ou o cábél-iau (Kabeljau). As semelhanças com o inglês então são tantas que nem vale a pena alencar. É por isso que isto de aprender línguas faz-me sentir que pertencemos todos a uma grande, antiga e barulhenta família.

Não tenho nenhuma conclusão para este post, a finalidade era mesmo só cismar nuns pensamentos soltos sobre sotaques e palavras alemãs que andavam a rodopiar na minha cabeça. E constatar mais uma vez quão fascinante é o mundo das línguas.







S. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Tenho uma infiltração germânica

Daqui a umas horinhas vou ter o meu primeiro teste alemão. Sinto que já não tenho idade para nervoseiras antes de testes (acho que nunca tive, para dizer a verdade. A nervoseira vinha toda era antes de saber-lhe a nota) e muito porque deste teste nada depende. Não depende nenhuma nota nem nenhuma média final, não depende a minha futura aprendizagem da língua, não depende o meu futuro profissional ou académico, nem depende a minha felicidade. Aprender uma língua como deve ser é um processo moroso, nada linear, cheio de tentativas-erro, de incorporação de palavras novas todos os dias, de entrar numa outra mentalidade linguística com tudo o que ela implica (nada menos que obter uma nova perspetiva sobre o mundo). Encaro pois este teste, e todos os mais que chegarem, como uma auscultação do que já sei. Mas nunca os levarei a peito. Tiraria a felicidade toda ao processo de aprender esta nova língua, que se quer o mais natural possível, e que foi por ela que embarquei nestas aulas. Sim, é verdade, às vezes as aulas são-me tão difíceis e o cansaço é tanto ao fim do dia de trabalho que me apetece rebentar em lágrimas e gritar muito dramaticamente que nunca serei fluente nesta língua estúpida e tão difícil aos meus ouvidos latinos, mas estes momentos são cada vez menos. Depois também me lembro que pressão não há nenhuma, só a que eu puser em cima de mim, e quão sortuda sou eu por isso. Muitos alunos afirmaram na primeira aula que a razão para estarem a aprender alemão era o seu emprego; a minha é a simples curiosidade.

Na última aula a professora disse que o alemão era uma língua extremamente difícil ao princípio porque tem muitas regras gramaticais, mas que torna-se cada vez mais fácil. Assim que se apreender as tais regras torna-se canja porque é sempre certinho consoante as mesmas. Contrapôs com o inglês, que disse ser muito simples de aprender mas incrivelmente difícil de se conquistar verdadeiramente, já que regras são poucas e lógica nenhuma. Fiquei intrigada porque nunca tinha olhado para a língua inglesa dessa maneira. Mas é capaz de ser verdade; é muito fácil chegar-se a um nível bom de inglês, diria que a maior parte das pessoas da minha geração o tem, mas aproximarmo-nos do nível nativo já não é bem assim. Só nos parece que é tão fácil por ser tão omnipresente. Se o alemão é o contrário, melhor, mais ânimo aqui para os meus lados.

Há uma palavra alemã que eu aprendi a gostar muito e que de tanto a ouvir incorporei-a nos meus pensamentos. Neste momento, durante a tarefa esgotante intelectualmente e por vezes tão desencorajadora que é escrever uma proposta de investigação, a dita palavra está sempre a ressoar-me no crânio: warum. "X comporta-se muitas vezes como Y - Porque é que afirmas isso, S.? VÁRRUM?", "Quero perceber porque é que H escolhe Z em vez de W - VÁRRUM, S.? VÁRRUM estudar Z e W em vez de estudar M e K?". É uma palavra poderosa, sonante, que me impede de pressupor coisas sem as questionar. E não se pode pressupor coisas numa tese de doutoramento. Ou pelo menos, não se pode pressupor sem questionar nem argumentar. O warum é a minha voz da consciência científica.

E pronto, agora desejai-me sorte que vou ali analisar umas competências linguísticas e já volto.




S.   


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Levas com explicação de alemão em alemão que é para ver se aprendes

E naquele tempo em que eu pensava que ia ter aulas de alemão numa língua que compreendesse?




Às vezes chego a ser querida por ser tão ingénua.



S.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A torre de Babel a desmoronar-se

Já sou oficialmente uma aluna de alemão. 

Mas antes de o ser estava sentada numa carteira de sala de aula, com mais 20 outros pré-alunos de línguas, à espera que nos viessem entregar os testes de aferição das respetivas línguas para nos meterem nas turmas corretas. Olho de soslaio para o papel de inscrição da pessoa ao meu lado. Descortino as palavras "test: portugais" escrevinhadas à pressa no topo da folha. O meu estômago dá uma cambalhota. Já sabia que naquela escola também havia um curso de português, tinha até visto que o primeiro nível já estava completo, mas estas coisas só vendo para crer. Começo a sentir-me a recetora de olhares de soslaio também, lançados a mim e à minha folha com o seu "test: DE". Até que a senhora se me dirige em alemão. Um bocadinho de pânico misturado com um bocadinho de alegria, polvilhado de frustração por ver que dos nove meses de aulas há três anos só me resta a capacidade de compreender a palavra "deutsche" no meio de uma frase que deve ter sido muito simples. Dirijo-me a ela em francês. Dá-se um clique e eu percebo que numa sala de vinte e poucos alunos, ela, alemã, que estava ali para testar o seu português, se sentou ao lado da única portuguesa que estava ali para testar o seu alemão. Coincidência maravilhosa. Não sei qual das duas ficou com o coração mais quente por a outra desconhecida ter o interesse suficiente em se dedicar à sua língua materna, que não é especialmente popular nem tem os glamours de um italiano ou espanhol, ou as exoticidades de um árabe ou mandarim. Começou a falar-me num português enferrujado mas assustadoramente correto, e eu perguntei quanto tempo tinha ela vivido em Portugal, para justificar tal competência. Nunca tinha ido a Portugal (sequer! Como é possível falar tão bem...) mas gostava mesmo muito de lá ir um dia. Tudo isto em português, a minha língua materna. Fiquei triste de não lhe poder retribuir a mesma gentileza. No fim do teste, recebi um "Gut Glück!" e sussurrei um "Boa sorte!" de volta. 

Parece-me um ótimo prenúncio. 




S. 

P.S. O que também me parece um ótimo prenúncio é a quantidade de faíscas que a parte linguística do meu cérebro fez naqueles dois ou três minutos. Ouvi alemão, respondi francês, devolveram-me português, continuei num português self-conscious porque queria muito que ela me continuasse a entender, depois acho que mudei a meio para francês novamente, mas inglês era o que me estava a soar melhor mentalmente já que é território neutro, espécie de acordo subentendido sempre que duas pessoas que não partilham a língua materna nem a língua de acolhimento devem falar. Mas depois lembrei-me que não era preciso porque ela falava português, e depois fiquei triste por não poder falar-lhe em alemão. Prenúncio das mindfucks que me esperam nas aulas de alemão em francês, foi o que isto foi.




sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Feliz Ano Novo

A silly season está mesmo, mesmo a acabar - e ainda bem porque já estou farta da expressão silly season. Porque eu ainda não consegui descolar da mentalidade de ano letivo, e setembro deixa-me um ano mais velha e por isso é mês de rito de passagem, e eu este ano estou cheia de pica e vontade de fazer coisas, aqui fica a minha lista de desejos para o Ano Letivo Novo até ao Ano Novo:

- É mesmo desta que vou recomeçar a minha aprendizagem do alemão. Vou voltar aos cartõezinhos com palavras para decorar os géneros, vou voltar às tabelas com as declinações, vou voltar aos livros com histórias Disney em alemão. Não quero saber que vivo numa cidade bilingue mas em que nenhuma das línguas oficiais é a germânica, não quero saber que ainda teria muito francês para aperfeiçoar e que ainda não consigo manter uma conversa de jeito na língua dos gauleses, nem quero saber que aqui vou ter que ir através da língua francesa para chegar à alemã. Desejos recorrentes e que duram anos ganham pontos pela persistência e merecem ser elevados à categoria de concretizados. E o francês, sinceramente, não me dá pica. Longe de dominada mas demasiado familiar. E posso sempre consolar-me com o facto de que o alemão - descobri-o há pouco - é a terceira língua oficial da Bélgica.

- Em dezembro vou correr nove quilómetros numa hora. Em termos humanos, nada de especial, mas como diz o outro, o que interessa não é ser superior aos outros, é ser superior ao que já fomos. E eu já fui uma pessoa que corria cinco minutos e ficava com o peito a rebentar (não estou a dramatizar). Conseguir a hora redondinha vai-me deixar orgulhosa porque, ao contrário de estudos e coiso, sempre foi uma coisa que eu acreditei nunca conseguir. Suspeito que me vai deixar mais orgulhosa do que o dia em que eu conseguir ler um livro em alemão pela primeira vez (mesmo que seja uma história Disney).

- Antes de 2013 acabar, terei a minha candidatura a doutoramento completa. E fora do meu controlo. Mais um passarinho que enviarei por essa janela à espera que me traga um raminho de oliveira no bico.

- Terei acabado de ler o European Feminisms 1700-1950. (Irra, que a porcaria do livro não me larga!)

- Terei acabado o meu primeiro curso da Coursera. Após três tentativas falhadas. 

- Terei aprendido a gostar de mais um legume cru. Após o básico tomate e alface. 

- Terei visitado Bruges. Após 30287 tentativas falhadas.

- Conseguirei acompanhar um episódio de uma série qualquer dobrada em francês sem fazer cara de nojo.

...

Só espero não me tornar uma ilustração da expressão "ter mais olhos que barriga".




Apareceu-me esta imagem enquanto pesquisava imagens para wishlists. A relação entre os dois está para lá da minha compreensão mas quem sou eu para negar o destino.




S.

terça-feira, 19 de junho de 2012

A voz germânica

De há uns meses para cá tenho andado com uma vontade incomodativa e persistente de aprender alemão. É uma espécie de moínha, que está lá sempre no cérebro a aborrecer, que não me traz dramas existenciais mas que incomoda. O que é estúpido, já que a vozinha que me devia andar a moer a cabeça devia ser francófona e não germânica. Ou quando muito flamenga.

Não é que esteja uma falante de francês de alto nível - nem sequer médio, para moderada frustração minha - mas uma vez que convivo com o francês diariamente, acho que tenho a secreta esperança que vá escorrendo qualquer coisa para dentro do meu cérebro (ainda que o francês com o qual convivo se limite na maior parte das vezes a "Bonjour"s e "Bon journé"s). Ainda assim, é inevitável que vá entrando qualquer coisa. Mas seria expectável querer aperfeiçoá-lo, vivendo onde vivo e tendo todas as intenções de ficar indefinidamente.

Mas... Não. Definitivamente a voz que me aborrece e me espicaça a curiosidade neste momento é a alemã. É uma das três línguas de trabalho da União Europeia, verdade, mas não é essa a razão que me faz querer entendê-la. Sei que não é uma língua nada glamourosa ou particularmente atrativa ou sequer fácil (declinações, oh alegria!), e o que está na berra neste momento é ser contra tudo o que é alemão por princípio, mas há qualquer coisa de masoquismo fascinante no alemão falado e escrito que me atrai. Há demasiadas coisas boas escritas em alemão para me parecer uma grande pena não as conseguir apanhar na sua origem, muito pensador germânico fundamental, muita revista interessante, muita cultura e história entre as quais eu e elas existe a barreira aterradora da língua. 

É certo que tive 9 meses de aulas de alemão há dois anos. Envolveu muita paciência, persistência e disciplina (eram aulas através de uma plataforma online do Goethe, tinha exercícios, uma tutora e textos mensais para entregar, fácil de resvalar para a ronha) mas não foi, nem de longe nem de perto, suficiente. Recortei e desenhei objetos em flashcards para aprender vocabulário e os géneros (porque os alemães têm o "neutro", além do feminino e masculino, oh, alegria!...), até comprei um livro de histórias da Disney em alemão para começar a ler! Normalmente só percebia "Bambi", "Simba", "Ariel" mas às vezes, com muito esforço e dicionário ao lado, lá compreendia uma ou outra frase. Ganhava o dia nessas alturas.

Mas infelizmente não consigo manter nem uma simples conversa em alemão, lendo apenas apanho palavras soltas e não entendo alemão falado. E tudo isto me parece um grande desperdício: já que se começou, acabe-se!

Sei perfeitamente o que custa aprender uma língua e chegar a um nível em que nos possamos orgulhar. Sei o ingrediente principal - muita auto-disciplina - e o que é preciso para poder pelo menos chegar um nível aceitável de conhecimento da língua: rodearmo-nos o mais possível dela (ouvir música alemã para afinar o ouvido aos sons guturais, começar a tentar ler livros, de preferência contos infantis ou histórias que se conheça de trás para a frente, ouvir e ver telejornais alemães, os tais flashcards para aprender e treinar vocabulário, etc). Claro que teria de voltar a ter aulas; a língua alemã é-me demasiado desconhecida e gramaticalmente difícil para poder pegar onde a deixei. Mas as aulas não são o suficiente - nunca o foram em nenhuma língua - e daí a importância de todos os outros extras que têm de ser encarados como passatempos e ocupação de tempos livres.

Vou ver até onde vai esta ambição do aprender alemão. Se daqui a umas semanitas a voz germânica continuar a chatear, vou ter de começar a procurar aulas de alemão em Bruxelas (francês? Não... flamengo? Não. É mesmo alemão. Caprichos aleatórios, vá se lá entender...). E tentar arranjar espaço na minha vida para mais uma dedicação.




S.