Sempre me fascinou a questão dos sotaques. Mesmo muito. Durante muito tempo foi a demanda pela capacidade de distinguir entre os diferentes tipos de inglês - particularmente o britânico e o norte-americano - e hoje é a demanda pela capacidade de distinguir com eficácia sotaques de diferentes regiões do UK. A ideia de que o sítio onde vivemos modela a nossa forma de falar, a forma como soa as palavras que dizemos, é-me incrivelmente surpreendente e fascinante. Se calhar não devia ser porque parece uma coisa muito lógica, constatável e extremamente corriqueira. Mas para mim encerra a mesma incredulidade que constatar que o cãozinho de dois meses que adotámos crescia a cada dia e que agora passados três anos é um cão grande, ou que os bebés na família/amigos que acompanhámos desde a gravidez nasceram, passaram de recém-nascidos a bebés rechonchudos e crescem todos os dias, como atestam as fotografias partilhadas pelo Facebook. E isto independentemente do que fazemos. Foi com esta mesma incredulidade logo seguida de "ah, claro, mas estavas à espera do quê" que eu constatei que uma das minhas melhores amigas que me ficou do mestrado tem agora um lindo e robusto sotaque britânico, após três anos ininterruptos a viver em Londres. (Infelizmente, nove meses não dão para obter o mesmo resultado, como depressa constatei, especialmente se convivermos com pouca gente inglesa.) Mas o mais fascinante disto é que os sotaques são adquiridos naturalmente, e provavelmente sem a pessoa se aperceber, como pude também constatar após o nosso encontro há uns meses e o meu "Olha, ganhaste sotaque britânico!" e ela olhar para mim deveras surpreendida: "... ganhei?". Isto torna-se ainda mais engraçado quando a pessoa já havia aprendido a língua, já a falava com grande competência mas agora di-la de forma diferente. É como se fosse o instinto a modelar-nos para sermos o mais compatível possível com o que nos rodeia. Fico curiosa para saber se daqui a uns aninhos, a minha prima que vive agora no Porto desenvolverá um bonito sotaque nortenho, ou que tipo de português os meus filhos falarão se nos mantivermos emigras como intencionamos.
Pouco tempo depois de nos mudarmos para Bruxelas descobri, porque me disseram, não porque o conseguisse distinguir, que também havia uma diferença significativa entre o francês belga e o francês de França. Depois, quando fui a Estrasburgo, descobri que havia uma diferença também entre o francês de França estandardizado, que suspeito que equivalha ao francês de Paris, e o francês da Alsácia, que me disseram ter toques germânicos. Mais uma vez fui uma pessoa muito infeliz por não ter o nível de francês que me permitisse distinguir estas subtilezas maravilhosas das línguas que tanto me fascinam. Entretanto já consigo saber quando alguém está a falar francês de França ou francês belga. Descobri a distinção quando, nas minhas vendas de roupa em segunda mão, calhou uma rapariga ir a minha casa e eu começar a ficar extremamente incomodada por estar a ter grande dificuldade em perceber o que ela dizia. Só pensava "Mau, mas estou a andar para trás ou quê?!". Até que ela disse que era francesa e as peças encaixarem: estava a ter dificuldade em perceber este francês não por culpa minha mas porque provavelmente tinha pronúncia, hmm, francesa. Em vez de belga. Portanto é assim que agora os distingo: se o palavreado me está a parecer demasiado rápido e ininteligível quase de certeza é porque é sotaque de França. Mas isto ainda não é um método infalível e tenho muito que aprender.
Noutra nota, já não é a segunda, nem terceira, nem quarta, e suspeito que nem a quinta pessoa estrangeira que me diz que o português soa a russo. Da primeira vez arregalei muito os olhos de surpresa, à segunda fui tentar confirmar (o que é muito difícil porque se trata da nossa língua materna, mas há que tentar bloquear as palavras e o significado delas e focar só nos sons emitidos) e descobri, para meu grande espanto, que essas pessoas tinham razão: o português soa assustadoramente a russo. Suspeito que seja porque falamos para dentro e não tenhamos nenhuma musiquinha associada à nossa língua. O português europeu é deveras monocórdico e aborrecido. E a última pessoa que me disse isto do português europeu soar a russo foi uma brasileira, de forma que isto selou as minhas suspeitas em confirmações.
Por falar em musiquinha associada à língua, uma vez perguntei à professora de inglês na universidade em Portugal (ela era nativa britânica) a que é que soava o português, porque sempre foi uma coisa que tive muita curiosidade, e ela disse que a nada. Que era extremamente difícil de identificar um português a falar inglês precisamente pela ausência da musiquinha linguística que, por exemplo, um italiano tem, ou um espanhol, ou um francês e que nos faz rapidamente aperceber quando é que um destes nacionais está a tentar falar inglês. Eu fiquei deveras intrigada. Deve ser por isso que rapidamente adotamos pronúncias estrangeiras quando vamos viver para outros países durante alguns anos, e transportamos essas pronúncias para quando falamos português, como é tão facilmente constatável em episódios de Portugueses pelo Mundo, ou em emigrantes franceses de volta à terra em agosto.
Devo no entanto declarar aqui que o meu português se mantém intacto, muito porque o falo em casa todos os dias, e os meus amigos aqui são maioritariamente portugueses. Quanto ao meu inglês, ainda que seja a minha língua de trabalho, ele é maioritariamente falado com outras pessoas não-nativas e, sendo que as nativas falam inglês escocês, tenho-o guardado limpinho de influências sonoras e mantém-se assim muito internacional-estandardizado, aguardando o dia em que também ele se transformará num inglês britânico-regional manhoso qualquer. Mas prometo não forçar nem armar ao pingarelho quando esse dia chegar.
Agora podia vir aqui falar do alemão, mas se ainda não distingo como deve ser sotaques franceses, o que dizer do alemão, tão amador ainda. Mas ao que já me chegou aos ouvidos, sei que ele é ultra variado consoante os Länder e que por vezes pessoal nativo tem mesmo dificuldade em entender certos sotaques mais cerrados. Deve ser um pouco à moda dos nossos Açoriano e Madeirense.
Por falar em alemão, ontem peguei neste livro que a minha mãe tão carinhosamente enviou de Portugal e que, por ter a mesma bonecada que o seu irmão inglês, tantas boas recordações me despoletou:
É um livro extremamente banal, de uma edição já com 20 anos e semelhante a dezenas de outros dicionários com imagens que para aí abundam, com as palavras organizadas por temas. Mas eu cresci com o seu irmão inglês, igualzinho:
e nem consigo começar a descrever as vezes que eu folheei este livro, as cópias que fiz das palavras, as histórias que eu inventava com cada imagem da cidade, dos animais, das férias, da família, as vezes que eu brinquei à professora e alunos, o velhinho e gasto que ele está. De maneiras que revisitá-lo mas em versão alemã só abona para a minha motivação de aprendizagem da língua germânica.
Eu já tinha sido alertada mas depressa constatei que a língua alemã é estupidamente divertida na sua construção de palavras. Assim, e recentemente, fiquei a saber que uma luva é um
sapato para a mão (Handschuhe), ou que trocos são
dinheiro pequenino (Kleingeld), ou que o hospital é a
casa dos doentes (Krankhaus), ou que o frigorífico é o
armário do frio (Kühlschrank), ou que - e esta é a minha preferida até agora - uma tartaruga é um
sapo com escudo (Schildkröte). Por vezes também descubro umas palavras inesperadamente semelhantes a portuguesas, como o quése (Käse), o duche (Dusche), ou o cábél-iau (Kabeljau). As semelhanças com o inglês então são tantas que nem vale a pena alencar. É por isso que isto de aprender línguas faz-me sentir que pertencemos todos a uma grande, antiga e barulhenta família.
Não tenho nenhuma conclusão para este post, a finalidade era mesmo só cismar nuns pensamentos soltos sobre sotaques e palavras alemãs que andavam a rodopiar na minha cabeça. E constatar mais uma vez quão fascinante é o mundo das línguas.
S.