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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

This is fun, lof

A Time Out fez um questionário sobre quais os sotaques mais sexy deste mundo e quem ganhou, quem foi? O britânico.
 
De acordo, mas não esperava este resultado. O pessoal tem um fascínio um bocado estranho pelo italiano ou até pelo francês. Menos os americanos, que por acaso fascinam-se um bocado pelo sotaque dos primos do outro lado do Atlântico (se as constantes referências no Family Guy e New Girl forem indicação suficiente). Ah, espera... Time Out americana. Está explicado.
 
O The Guardian fez uma peça bem-disposta sobre a coisa e realmente o autor fala de uma coisa pertinente que o intriga: sotaque britânico, mas qual deles? Especificai, por favor.
 
' But there is one glaring problem.
 
What British accent does Time Out mean? Is it the upper class English-British of the Queen, Sir Roger Moore and Harry Potter?
 
Is it the earthy, northern-English-British of Sean Bean and the rest of Game of Thrones’s Stark family?
 
Or is it the rolling, Welsh-valleys-British of Tom Jones and Catherine Zeta-Jones and presumably a lot of other people called Jones?
 
Perhaps it’s the Northern-Irish British of Liam Neeson, George Best and Rory McIlroy?
 
One accent we can rule out is the Scottish-British of Sean Connery and Andy Murray. Confusingly, “Scottish” counted separately in the Time Out poll, coming in eighth. '
 
(Eu só acrescentaria ' Is it the youthful yet grave and deep-voiced Yorkshire accent of Alex Turner? ' - embora pareça que o está a perder.)
 
 
 
Claro que não se pode esperar muito de um questionário que mete 'latin-American' numa categoria mas separa 'Spanish' por alguma razão, ou fala do 'British' e 'Scottish' separados (a Escócia votou 'não' à independência há uns meses, olhem aí as sensibilidades). Nem de uma amostra que faz com que o sotaque americano fique em segundo lugar. Mas é divertido.




S. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Tenho uma infiltração germânica

Daqui a umas horinhas vou ter o meu primeiro teste alemão. Sinto que já não tenho idade para nervoseiras antes de testes (acho que nunca tive, para dizer a verdade. A nervoseira vinha toda era antes de saber-lhe a nota) e muito porque deste teste nada depende. Não depende nenhuma nota nem nenhuma média final, não depende a minha futura aprendizagem da língua, não depende o meu futuro profissional ou académico, nem depende a minha felicidade. Aprender uma língua como deve ser é um processo moroso, nada linear, cheio de tentativas-erro, de incorporação de palavras novas todos os dias, de entrar numa outra mentalidade linguística com tudo o que ela implica (nada menos que obter uma nova perspetiva sobre o mundo). Encaro pois este teste, e todos os mais que chegarem, como uma auscultação do que já sei. Mas nunca os levarei a peito. Tiraria a felicidade toda ao processo de aprender esta nova língua, que se quer o mais natural possível, e que foi por ela que embarquei nestas aulas. Sim, é verdade, às vezes as aulas são-me tão difíceis e o cansaço é tanto ao fim do dia de trabalho que me apetece rebentar em lágrimas e gritar muito dramaticamente que nunca serei fluente nesta língua estúpida e tão difícil aos meus ouvidos latinos, mas estes momentos são cada vez menos. Depois também me lembro que pressão não há nenhuma, só a que eu puser em cima de mim, e quão sortuda sou eu por isso. Muitos alunos afirmaram na primeira aula que a razão para estarem a aprender alemão era o seu emprego; a minha é a simples curiosidade.

Na última aula a professora disse que o alemão era uma língua extremamente difícil ao princípio porque tem muitas regras gramaticais, mas que torna-se cada vez mais fácil. Assim que se apreender as tais regras torna-se canja porque é sempre certinho consoante as mesmas. Contrapôs com o inglês, que disse ser muito simples de aprender mas incrivelmente difícil de se conquistar verdadeiramente, já que regras são poucas e lógica nenhuma. Fiquei intrigada porque nunca tinha olhado para a língua inglesa dessa maneira. Mas é capaz de ser verdade; é muito fácil chegar-se a um nível bom de inglês, diria que a maior parte das pessoas da minha geração o tem, mas aproximarmo-nos do nível nativo já não é bem assim. Só nos parece que é tão fácil por ser tão omnipresente. Se o alemão é o contrário, melhor, mais ânimo aqui para os meus lados.

Há uma palavra alemã que eu aprendi a gostar muito e que de tanto a ouvir incorporei-a nos meus pensamentos. Neste momento, durante a tarefa esgotante intelectualmente e por vezes tão desencorajadora que é escrever uma proposta de investigação, a dita palavra está sempre a ressoar-me no crânio: warum. "X comporta-se muitas vezes como Y - Porque é que afirmas isso, S.? VÁRRUM?", "Quero perceber porque é que H escolhe Z em vez de W - VÁRRUM, S.? VÁRRUM estudar Z e W em vez de estudar M e K?". É uma palavra poderosa, sonante, que me impede de pressupor coisas sem as questionar. E não se pode pressupor coisas numa tese de doutoramento. Ou pelo menos, não se pode pressupor sem questionar nem argumentar. O warum é a minha voz da consciência científica.

E pronto, agora desejai-me sorte que vou ali analisar umas competências linguísticas e já volto.




S.   


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A torre de Babel a desmoronar-se

Já sou oficialmente uma aluna de alemão. 

Mas antes de o ser estava sentada numa carteira de sala de aula, com mais 20 outros pré-alunos de línguas, à espera que nos viessem entregar os testes de aferição das respetivas línguas para nos meterem nas turmas corretas. Olho de soslaio para o papel de inscrição da pessoa ao meu lado. Descortino as palavras "test: portugais" escrevinhadas à pressa no topo da folha. O meu estômago dá uma cambalhota. Já sabia que naquela escola também havia um curso de português, tinha até visto que o primeiro nível já estava completo, mas estas coisas só vendo para crer. Começo a sentir-me a recetora de olhares de soslaio também, lançados a mim e à minha folha com o seu "test: DE". Até que a senhora se me dirige em alemão. Um bocadinho de pânico misturado com um bocadinho de alegria, polvilhado de frustração por ver que dos nove meses de aulas há três anos só me resta a capacidade de compreender a palavra "deutsche" no meio de uma frase que deve ter sido muito simples. Dirijo-me a ela em francês. Dá-se um clique e eu percebo que numa sala de vinte e poucos alunos, ela, alemã, que estava ali para testar o seu português, se sentou ao lado da única portuguesa que estava ali para testar o seu alemão. Coincidência maravilhosa. Não sei qual das duas ficou com o coração mais quente por a outra desconhecida ter o interesse suficiente em se dedicar à sua língua materna, que não é especialmente popular nem tem os glamours de um italiano ou espanhol, ou as exoticidades de um árabe ou mandarim. Começou a falar-me num português enferrujado mas assustadoramente correto, e eu perguntei quanto tempo tinha ela vivido em Portugal, para justificar tal competência. Nunca tinha ido a Portugal (sequer! Como é possível falar tão bem...) mas gostava mesmo muito de lá ir um dia. Tudo isto em português, a minha língua materna. Fiquei triste de não lhe poder retribuir a mesma gentileza. No fim do teste, recebi um "Gut Glück!" e sussurrei um "Boa sorte!" de volta. 

Parece-me um ótimo prenúncio. 




S. 

P.S. O que também me parece um ótimo prenúncio é a quantidade de faíscas que a parte linguística do meu cérebro fez naqueles dois ou três minutos. Ouvi alemão, respondi francês, devolveram-me português, continuei num português self-conscious porque queria muito que ela me continuasse a entender, depois acho que mudei a meio para francês novamente, mas inglês era o que me estava a soar melhor mentalmente já que é território neutro, espécie de acordo subentendido sempre que duas pessoas que não partilham a língua materna nem a língua de acolhimento devem falar. Mas depois lembrei-me que não era preciso porque ela falava português, e depois fiquei triste por não poder falar-lhe em alemão. Prenúncio das mindfucks que me esperam nas aulas de alemão em francês, foi o que isto foi.




sexta-feira, 5 de abril de 2013

Literalmente isto e literalmente aquilo

Se há coisa que me tira do sério, é o uso generalizado da palavra "literalmente". A sério, é uma praga. Raras vezes é empregue como deve ser e, porque se generalizou, perdeu o significado para muita gente. "Literalmente" é agora usado como um sinónimo de "mesmo", uma palavra descuidadamente usada quando meramente se quer enfatizar uma ideia. Mas se "literalmente" é uma praga, então o "literally" tomou conta da língua inglesa e é hoje tão irritantemente frequente quanto o "like" (não é o do Facebook, é o "tipo". Tipo isto, tipo aquilo).

Razão para a irritação ter transbordado agora e neste momento? Esta frase que acabei de ler:

"My heart literally sank."

Não. O teu coração não se afundou ou caiu literalmente coisa nenhuma. Se o teu coração tivesse literalmente caído não estavas cá para contar que ele tinha caído, porque estavas morta. Literalmente.

Há uma coisa muito bonita na linguagem humana, seja ela qual for, que se chama metáfora. E depois há o literalmente, o que é quando se quer que as palavras sejam lidas à letra, exatamente como estão escritas e sem floreados. Ora, a metáfora é o floreado por excelência. É o explicar de uma ação, sentimento, pensamento, é o descrever qualquer coisa, através de uma expressão que nos ajuda a chegar mais rapidamente ao significado do que queremos dizer. Coisas como "tenho borboletas na barriga" ou "estou a morrer de fome!" ou "andou a meter-lhe macaquinhos na cabeça" ou "o meu coração parou naquele momento" ou "I'm falling for you" ou "este pão está pedra" ou "estou contigo pelos cabelos" ou "isto é areia a mais para a tua camioneta". Nenhuma destas expressões se pode usar com literalmente, nunca, nunca, nunca. A não ser que a pessoa tenha engolido borboletas a sério, ou não coma mesmo nada há uma semana, ou alguém lhe meta um macaco verdadeiro em cima da cabeça, ou tenha um ataque cardíaco, ou esteja a cair por uma falésia abaixo em honra de outrém, ou o pão esteja fossilizado, ou tenha a outra pessoa emaranhada nos seus cabelos, ou esteja em frente a um monte de areia e ele não caiba na camioneta da pessoa. De contrário, são formas de expressão, não são para serem levadas à letra, logo, nada de literalmente!  

Recupere-se o sentido das frases, pá.





S.   

sábado, 3 de novembro de 2012

Comédia à francesa

Depois de muito debate e de muita hesitação, hoje decidimos ir ao cinema. Foi a primeira vez que o fizemos cá, e, como explanarei de seguida, não foi uma decisão fácil.

A ideia começou a pairar com mais intensidade quando estreou o novo Astérix. Dos poucos filmes que vimos em francês - e gostámos - seria sempre mais um que iríamos ver de qualquer forma. Decidimos que seria o filme ideal para nos estrearmos num cinema belga.

Várias coisas constituem um problema em ir ao cinema em Bruxelas. As que já sabíamos:

- som francês: o problema mais óbvio de todos. Nenhum dos dois entende francês tão bem que consiga acompanhar uma história do princípio ao fim, perceber todos os detalhes e piadas como se se tivesse a ver um filme em português ou inglês. Aqui há também a mania de dobrar os filmes americanos, e, ainda que se se procurar bem dê para encontrar versão original, não é fácil. 

- legenda neerlandesa: ah, legendas; as nossas melhores as amigas. NOT. Filme dobrado em francês com legenda em neerlandês é ouro sobre azul, sem dúvida. Não basta uma pessoa estar a esforçar-se para ouvir e perceber um filme numa língua à qual não está habituada a ter numa sala de cinema, como ainda quando aparece o guia visual da tradução, está numa língua ainda mais impercetível para dois pobres portugueses. Há que fazer um esforço consciente para ignorar o palavreado com que somos bombardeados na parte inferior do ecrã.

- o preço: cinema equivale a luxo nestes países do norte e uma pessoa chora internamente enquanto paga vinte euros por dois bilhetes. Ainda que já tenha pago 26 libras.

Foi por isso com um misto de ansiedade e excitação que entrámos hoje na sala de cinema e nos sentámos à espera dos trailers e do filme que sabíamos não poder esperar entender perfeitamente. Por entre risos combinámos que pelo menos isto era um filme de comédia, e portanto saberíamos que os pontos altos das piadas seria quando ouvíssemos gargalhadas do resto da sala, que era só imitar.

Chegaram os trailers e eu fiquei logo com uma dor de cabeça enorme. Uns eram em francês sem legendas, outros em inglês com legendas em francês, outros em francês com legendas em neerlandês. Um houve cujo som era italiano e portanto tinha legendas duplas em francês e neerlandês, a correr em simultâneo. Começou a apetecer-me bater com a cabeça no banco da frente. 

Depois começou o filme e começa-se a ouvir a versão original francesa. A legenda aparece e os olhos descem inconsciente e instintivamente para a ler, mas lá vem a linguagem dos flamengos e uma pessoa respira fundo enquanto se mentaliza que tem que se apoiar apenas nos ouvidos para entender o filme que aí vem.

É um bocadinho triste. Aquela gente fala muito rápido e se há variação de tom, como um murmúrio, lá vai o entendimento para o galheto. E depois começa tudo a rir na sala e nós não captámos a piada e olhamos um para o outro como que a perguntar "...Percebeste?...". Uma pessoa sente-se excluída. Mas ainda assim não foi tão mau. A comédia é uma faca de dois gumes nesta coisa da linguagem: por um lado as ações, sentimentos, etc são muito mais exagerados e portanto chega-se lá facilmente pela linguagem corporal dos atores, ainda que não pelas palavras exatas; por outro lado é feita de piadas e é permeável a trocadilhos, a que só se chega verdadeiramente se se entender a língua muito bem. Por isto mesmo conseguimos perceber muita coisa, definitivamente entendemos a história, apenas algumas cenas cómicas se perderam.

O sentido de humor destes filmes, cheio de nonsense e atravessado de anacronismos conscientes é um que eu prezo muito e muito bem-vindo por ser tão diferente do habitual hollywoodesco, e distinto também do humor britânico (se bem que este filme era sobre aventuras do Astérix na Grã-Bretanha por isso houve uma espécie de mix entre os dois e, claro, festa de estereótipos :D).

Fazía-nos bem ter TV local. É a conclusão que me ocorre tirar.





S. 

terça-feira, 31 de julho de 2012

Sobre o Kobo

Agora que passou um mês e meio desde a sua compra bastante ansiada e atribulada q.b., está na altura de fazer uma review sobre o meu e-reader Kobo. No fundo, dizer o que gosto e o que me aborrece neste novo mundo dos livros digitais.

Posso dizer que quando fui a Manchester, roí-me toda de inveja por ver que aquela gente tem Kindles à sua disposição para compra por tudo o que é loja de eletrónica. Porquê, oh porquê que eu não aproveitei quando lá vivia...! Mas a minha inveja tornou-se em sobranceria quando reparei que, lado a lado com Kindles estão Kobos, e que estes lhes custam para cima de 150 libras, e eu comprei o meu por 99 euros. Toma lá.

Duas coisas fazem-me preferir o Kobo ao Kindle: o ecrã tátil do primeiro, e o facto de não estar escravo da Amazon (ou no caso do Kobo, nem da Fnac que é a sua loja-mãe). O facto de eu poder virar páginas com um toquezinho do dedo torna a experiência de leitura muito mais intuitiva do que se o fizesse num botão. Mas o mais agradável é poder tocar numa palavra qualquer de um livro e ver instantaneamente o seu significado. Mas já lá vamos a esta última.

Toca a dividir isto por temas, para se tornar um guia útil para alguém que esteja a pesar prós e contras quanto a aquisição de um destes meninos:


Vantagens em relação aos livros de papel:

- o peso e a finura: consigo facilmente ler no Kobo com uma só mão a segurá-lo, não preciso de estar a forçar com as duas mãos para ler no meio dos livros ou segurar páginas, e apoio-o facilmente no colo ou nos joelhos. Resumindo: dá mais jeito para se segurar enquanto se lê;

- o armazenamento: acho mesmo que este deve ser uma das, se não a maior vantagem destes aparelhos. Mas tem o valor que lhe quisermos dar. Para mim, que abomino ter coisas, fisicamente, coisas que ocupam espaço em casa e em malas quando se muda de casa, é perfeito. Diria que 95% dos livros que leio não lhes mexo novamente; então para quê tê-los a ganhar pó em casa? Grande, grande ponto a favor. Não faço ideia quantos consegue armazenar - depende do tamanho dos mesmos - mas centenas cabem ali à vontade. A página principal mostra sempre os cinco últimos livros em que mexemos, portanto não há o perigo de nos perdermos na imensidão da biblioteca digital;

- o dicionário: o inglês, por razões profissionais, académicas e mesmo de interesse pessoal, substituiu há alguns anos o português no top das línguas em que mais leio. É uma coisa que tento contrariar conscientemente, e há autores portugueses que amo de paixão, como Saramago e os romances históricos da Stilwell, mas os meus interesses literários são muitas vezes anglófonos. E recuso-me terminantemente a ler traduções quando consigo ler o original. Isto tudo para dizer que é frequente aparecerem palavras cujo significado seja mais dúbio, e que compreenda o que o autor quer dizer, mas que quero saber exatamente como e onde se utilizam. Num livro normal, estas são palavras que nunca na vida me ia dar ao trabalho de procurar no dicionário ou no Google. Mas o Kobo tem uma maravilha de aplicação que é um dicionário incorporado: está-se a ler um livro, toca-se numa palavra durante dois segundos e puf, aparece a definição da mesma. Útil, útil, útil.

- a instantaneadade (?): ter o livro na hora, no fundo. Apetece-me ler uma obra qualquer, pesquiso-a no Google para ver se há em formato livre, procuro na Amazon para saber se vale a pena comprar. Se valer, pago-a e tenho-a no meu computador para descarregar na hora. Nada de esperar alguns dias até chegar pelo correio, e potencialmente ir levantar a encomenda ao posto de correios mais próximo (ou não) até poder ler o dito cujo;

- clássicos gratuitos: literatura da boa, incluindo praticamente todas as obras mais aclamadas desta arte, estão disponíveis online para download grátis. Acho que tem qualquer coisa que ver com o direitos de autor expirados ou assim (os do Saramago não se encontra, por exemplo), e isto tem me feito experimentar ler coisas que, se tivesse que investir numa compra, não o teria feito. 



Coisas que me aborrecem no Kobo

- o dicionário: não é o dicionário em si, é mais a falta de dicionários que não seja o inglês. No outro dia estava a tentar ler um livro em francês e tinha-me dado muito mais jeito o dicionário incorporado que me conseguisse dar as definições de palavras na língua francófona. Fui à net pesquisei e descobri que há muita gente chateada como eu, e que, ah e tal, os fabricantes do Kobo estão a trabalhar para arranjar dicionários em mais línguas brevemente. Fiquei levemente frustrada por ver as minhas tentativas de melhoramento do meu francês saírem furadas;

- o preço dos e-livros: é inexplicável e completamente ridículo que um livro que esteja para sair na Amazon tenha um preço duas libras mais caro na sua versão eletrónica no que na sua versão capa-mole. Ridículo! Um livro eletrónico não gasta papel, não tem que ser transportado, não tem custos de impressão. Não tem custos de nada, diria! Apenas os da propriedade intelectual. Mas esses também o livro de capa-mole tem. Ainda há um caminho a percorrer nisto dos livros eletrónicos e cartéis para demolir (a UE já lhe cheirou a price-fixing ilegal, é favor castigar essa gente, que eu quero livros eletrónicos a preços justos). Até lá vai-se sendo compensado pelos clássicos grátis;

- fraca disponibilidade em português: pois é, o mercados dos livros eletrónicos em português está ainda na sua infância. Isto faz com que poucos sejam os que consigo encontrar, mesmo comprando, em formato digital. O que significa que ainda não pude abdicar do papel completamente.



Coisas que, não me aborrecendo, podem aborrecer outrém

- a fácil maleabilidade: o facto de podermos ter num só aparelhinho centenas de livros significa que é mais fácil saltar entre uns e outros e não haver focagem. Dei por mim a desistir de dois livros porque simplesmente não me estavam a prender a atenção nem a suscitar curiosidade e a partir para outro. Uma vez que não gastei dinheiro nos mesmos, nem me ocupam espaço numa prateleira, nem tive que esperar por eles, faz com que tenha muito menos pachorra e espírito de sacrifício na sua leitura. Também pode acontecer a pessoa não querer largar de todo o livro que está a ler, mas ter a curiosidade de começar outro simultaneamente. Para quem se distrai com facilidade, o Kobo pode não ser uma coisa boa.


Outros

- o Kobo tem uma funcionalidade que é a de sublinhar coisas. Com o dedo dá para arrastar uma espécie de marcador sobre a frase que se quer e guardar esse sublinhado. Dá jeito;

- este e-reader não é de todo uma espécie de computador (como eu temia), que demora algum tempo a ligar. É mais comparável a um telemóvel ou a um iPad. Tem um botãozinho em cima que se desloca e nos dá imediatamente a página do livro onde estávamos a ler. Mesmo que se troque entre livros, o Kobo guarda sempre a última página onde se esteve, o que também é útil.

- já li num parque, com luz do meio-dia, já li em casa, já li na cama com luz fraca. Não parece que estou a ler num ecrã, a luminosidade é sempre a mesma e equivalente a uma folha de papel. Bem diferente de ler num computador ou num iPad.


Acho que é isto. Espero ter ajudado a esclarecer alguém que esteja em dúvida quanto a comprar um e-reader. Na minha opinião, valem muito a pena. Noto que tenho lido mais pela conveniência que o Kobo me traz (ainda que não tanto como gostaria, mas o coitado não tem culpa das minhas deambulações internautas) e isso para mim é a prova mais óbvia de que ele me é útil.





S.

domingo, 22 de julho de 2012

As mal-disfarçadas saudades de Inglaterra

Diz muito sobre a cidade onde vivo o facto de chegar a um pub inglês e salivar por tudo o que encontro na ementa, incluindo quando me apresentam isto:


Os preços - tudo abaixo das cinco libras e portanto metade do normal aqui em Bruxelas para qualquer refeição fora - quase acrescentaram lágrimas de felicidade aos pensamentos de vegetable and chicken pies, English breakfasts, seafood paellas, e outras bombas calóricas semelhantes.

E água engarrafada que não sabe a água da torneira.

E carros a circular pela esquerda.

E libras e pennies na carteira.

E sotaque cerrado Manchurian.

E adaptadores para tomadas novamente precisos (mas que ficaram em casa).

E chá servido com leite.

E Boots, Primarks, Tescos, Sainsburies, River Islands, Topshops, lojas da Disney, Debenhams...

E estações chamadas Piccadilly e Victoria.

E autocarros vermelhos de primeiro andar.

E maçanetas que rodam para a esquerda para abrir portas.

E chocolate quente do Costa.

E hotéis e pubs alcatifados até à entrada da casa de banho, onde dá para ir de pantufas até à receção.

E chuva e 14 graus de máxima em pleno julho, ansiando por um cachecol.

E uma viagem de regresso de céu incrivelmente limpo que me permitiu atravessar o Canal da Mancha e ver, pequeninas mas distinguíveis lá embaixo, as White Cliffs of Dover.

E saber, porque vi com estes dois que a terra há-de comer (adoro a expressão) quão perto estamos mas quão claramente separada a ilha está da Europa-mãe.



Inglaterra, como me fazias falta!



S.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O teste da compreensão numérica (sim, é tão mau quanto soa)

A uma semana de ir fazer o exame de admissão à função pública da UE, e depois de algumas horas de volta de exercícios de racionalidade numérica (medo... ou terror!) compreendo perfeitamente o que há uns posts atrás mencionei: por mais que nos tornemos excelentes numa segunda língua, nunca atingiremos o nível da nossa língua materna.

Sim, compreensão numérica ou problemas cheios de números, gráficos, tabelas e percentagens são uma porcaria. Mas são uma porcaria maior em inglês. E isto porquê... Porque eu não aprendi matemática em inglês, aprendi-a em português. O raciocínio matemático, o que subiu, o que decresceu, a percentagem do não-sei-quê, são tudo coisas tão viscerais e tão primárias que não se trata simplesmente de traduzir na nossa cabeça. É sempre possível traduzir, mas para o raciocínio rápido que se precisa nestes casos - que envolve compreender exatamente o que nos pedem - não é útil. Até a simples contagem! Já não é a primeira vez que observo a minha supervisora, que fala impecavelmente e do pé para a mão francês e inglês, a contar baixinho as colunas de uma tabela em alemão, a sua língua nativa.

Os números e as relações entre eles são algo demasiado primário e que muito raramente temos a oportunidade de treinar a fundo noutra língua, por mais que nos aproximemos do nível dos nativos. É isto que eu digo a mim mesma nas vezes mais que muitas em que nem com a solução e a explicação de como chegar àquele resultado eu percebo o problema. É um esforço quase físico - juro que consigo sentir o cérebro a aquecer! É excesso de trabalho em neurónios que não estão habituados a correr desde há muito, muito tempo.

Tenho o pequenino conforto de ter escolhido fazer o exame em português para não largar num pranto.





S.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Adenda ao post anterior

Quando eu disse "quem me dera que na Bélgica ninguém falasse inglês" e não sei quê, esqueci-me que aqui fala-se também - e generalizadamente - flamengo. A minha intenção era "quem me dera que na Bélgica ninguém falasse inglês" na medida em que este seria unicamente substituído por francês. Porque tive a brilhante ideia de aceitar a sugestão do Google de passar o meu Google Search para .be e agora tenho esta merda toda em flamengo. Incluindo o blogger.





S.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Parlez-vous français?

No meio do valente número de chamadas para marcar visitas a casas, vi-me obrigada a falar francês numa delas. E correu bem, o senhor entendeu-me, eu entendi o senhor e a visita foi marcada.

Espero, muito sinceramente, ser obrigada a falar francês mais vezes. Quem me dera que ninguém em Bruxelas falasse inglês. Porque desconfio que a preguiça e a comodidade vai falar muitas vezes mais alto e o discurso vai resvalar para o tão mais fácil, tão mais entranhado, tão mais familiar inglês. Quero por isso que me digam muitas vezes 'non, je ne parle pas anglais' e que me olhem com sobrancelhas erguidas, com um bocadinho de desprezo até, sempre que eu seguir a via mais fácil.

Estão no seu direito, eu é que me meti no país deles, tenho a obrigação de me esforçar. E o exercício só será bom para mim.





S.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Aprender e ensinar

Enquanto me sento aqui a corrigir fichas de Inglês de 4º ano, associando letras e desenhos a caras e a episódios de aula, e me surpreendo ao escrever alguns "Very Good"s, apercebo-me que a maior lição que aprendi com esta experiência foi reconhecer a multi-dimensionalidade do ser humano. Uma criança não é só inteligente ou só mal-comportada. Há múltiplas combinações entre atento, conversador, distraído, interessado, cuidadoso na apresentação dos trabalhos, simpático, casmurro, etc, etc, etc. Raramente se tem tudo do melhor, e as contradições abundam. É por isso que o amor-ódio é uma característica inerente a ser-se professor.

Já fiz as pazes com esta profissão. Sei o seu lugar na minha lista de coisas que quero para a minha vida. O meu respeito por professores a tempo inteiro cresceu astronomicamente. E o meu conhecimento sobre o mundo infantil manteve-se praticamente inalterado, ou seja, continua a ser uma fonte inesgotável de mistério e surpresa para mim.

Uma coisa é certa: vou relembrar sempre os meses em que tive 40 crianças de 10 anos a chamar-me "teacher" com grande carinho. Se com nostalgia ou não, ainda não sei. As dores de cabeça e a frustração também serão lembradas, em nome da multi-dimensionalidade da alma humana.





S.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Prunãocieixãnes

Durante o meu ano em terras da rainha eu fui "Sérâ Hrice".

Não demorei muito a aperceber-me que os ingleses simplesmente não têm a destreza vocal para pronunciar um 'r' marcado e fazer o som 'x' onde existe um 's'. "Reich" era o que deviam dizer, saía sempre algo parecido com "reese". O Sarah nem nunca me dei ao trabalho de corrigir.

E quando tive de telefonar para vários serviços e mudar moradas para receber os últimos pagamentos de luz e telefone cá em Portugal? Ui, Jesus. Uma coisa é certa, fiquei pró a soletrar.

Tenho noção que nem tenho o pior dos nomes em termos de pronunciação inglesa. O D. na ilha sempre foi Diego... Entender que existem famílias de línguas diferentes eles lá entendem. Agora entender que dentro da mesma família de línguas, neste caso latinas, existem diferenças de pronúncia já é esperar demasiado. Portanto, sim, a violação da pronúncia dos nossos nomes foi uma constante e um dado adquirido nos nossos meses enquanto emigrantes.

Por isso quando agora, após mais de um ano, a King's me pede para a informar como é que se pronuncia corretamente o meu nome - inteiro! - é natural que eu fique sem jeito. E que me apeteça gargalhar muito.


Há medo que os oradores não consigam ler a lista dos alunos presentes? Há.

Há medo que os alunos presentes não consigam perceber quando os estão a chamar? Há.

Mas sinceramente não percebo porquê. Durante um ano inteiro de aulas os alunos internacionais como eu tiveram mais do que tempo suficiente para se habituarem a ouvir as formas vilipendiadas dos seus nomes na pronúncia inglesa. Acham que seria numa cerimónia de formatura, onde está tudo de ouvido à coca, que alguém não iria perceber quando estão a chamar por nós?

Eu pessoalmente tenho medo é de ouvir a versão original em bocas inglesas. Tenho medo de aí sim, por ser tão claro o meu nome e estar tão fora do contexto de que eu não me aperceba que me estão a chamar a mim e continuar à espera que chamem uma Sarah Reese em vez de uma Sarah (mais uma vez, nem me ralei) Ra-KEL Seal-va Rei-SH.



S.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Porque em vez de estar a escrever a minha dissertação...

Ando nisto.


Palavras de língua inglesa que pela sua sonoridade me fazem rir

- shenanigan
- fishmonger(ing)
- loquacious
- kerfuffle
- snog(ging)
- capricious
- spew
- stew
- gallivanting

...

Acho que devia ter ido para linguística. Ao menos a parvoíce tornava-se útil.



(Contribuições de palavras são bem-vindas. Agrada-me acreditar que não estou só na parvoíce)



S.

terça-feira, 29 de março de 2011

Metáforas e demissões

Demissões de governos portugueses dão-me pontos nas aulas de Economic Governance in the EU.

Triste mas verdadeira conclusão. O senhor professor guardou as duas últimas aulas do semestre para falar sobre a crise financeira, como a União Europeia estava a responder a ela, quais os países à beira do colapso (levei o semestre todo a ouvir falar de Portugal... seriously), se o Euro vai ou não sobreviver, etc.

Ora, entre uma e outra aula, o que aconteceu? O governo português demite-se precisamente por a oposição não concordar com as suas medidas de combate da crise, amplamente requeridas por Bruxelas (leia-se, pela senhora Merkel). Ou seja, o número de vezes que a palavra 'Portugal' foi proferida por um professor britânico bateu record.

Mas ganhei pontos porquê? Respondi à pergunta de introdução da aula. 'Na semana passada houve dois acontecimentos importantíssimos para o desenrolar da crise financeira na Europa. Alguém sabe quais foram?...' Ninguém sabia, pff. Ah, e tal, o orçamento britânico foi aprovado no mesmo dia da demissão do Sócrates, uma bomba explodiu em Jerusalém, a Libia é o que se sabe, o Japão idem, quem é que vai saber que Portugal acabou de selar o seu destino FMIano? Lá tive eu que responder. E bem.

Enfim, este aparente azedume é só mesmo isso, aparente. Adoro aquelas aulas de economia, foram a minha disciplina favorita do semestre, provavelmente do curso. Aprendi tanto que até me espanto quando penso que me inscrevi quase por obrigação ('Argh, economia é uma parte fundamental da UE, se eu não perceber disso posso esquecer as minhas ambições europeias...'). O que é fato é que a clareza da explicação dos assuntos económicos tão complicados, os powerpoints cheios de gráficos e cartoons e a preocupação em explicar economia para pessoal sem formação em economia traduziram-se num entusiasmo por saber que às 3as feiras ía compreender mais um bocado do que se passa com a minha UE. Até fiquei a gostar de Financial Times! :D

O meu 'eu' nerd da língua inglesa e das suas peculiares expressões maravilhou-se com a abundância com que estas apareciam no discurso do professor. Só porque sou mesmo picuinhas e ligo a estes detalhes vou ter de meter aqui as que me dei ao trabalho de apontar:

- 'Why is the Eurozone on the verge of collapse?'

Esta não é uma expressão nada peculiar do ponto de vista idiomático. Mas isto foi o que eu ouvi na introdução da disciplina. Sem preparação nenhuma, pumba, lança logo esta bomba 'Porquê que a Zona Euro está à beira do colapso?'. Er... Está? Não estava a par... (Estão a ver a necessidade que eu tinha destas aulas).

- 'King's College has a few obscure traditions...'

Tenho a certeza que mandei uma gargalhada quando ouvi isto. Nem que tenha sido interna. (tradução: 'A King's tem umas quantas tradições duvidosas...')

- 'You just don't throw your toys off of the pram.' - Não se manda os brinquedos para fora do carrinho!

Isto foi em relação a Estados Membros que estavam a ser teimosos numa determinada política, a 'fazer birra'. É a minha favorita. Imagens para cartoons atravessaram a minha mente, incluindo um bebé chorão com um babete a dizer 'França' enquanto uma mãe alemã o tentava sossegar. Priceless xD

- 'Member states started selling the family silver.' - Os Estados Membros começaram a vender a prata da família.

Como quem diz, os governos começaram a privatizar empresas públicas a torto e a direito.


É tão mais fácil entender economia europeia quando nos dão estas metáforas tão ilustrativas! O problema é que mentes picuinhas como a minha perdem o resto da explicação porque estão ocupadas a apontar as ditas metáforas e a esforçar-se por tirar da cabeça as imagens cartoonescas que entretanto se implantaram. xD







(Início sugestivo da apresentação da última aula...) 


S.