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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Mas que obsessão é esta de dividir o mundo em géneros

Numa grande parte das línguas que existem no mundo houve alguém que decidiu, para todos os nomes comuns dessas línguas, quais deveriam ser masculinos e quais deveriam ser femininos.

Porquê?



S.


(A classificação varia consoante as línguas e não tem nenhuma lógica que se discirna, portanto houve mesmo alguém que fez essa seleção.)






quinta-feira, 8 de maio de 2014

Portugal Maior

O The Economist andou a brincar com o mapa mundo. O Putin justificou a anexação da Crimea com o facto de ter que assegurar a segurança a todos os russófonos (?). Se a lógica das relações internacionais fosse essa, este seria o resultado:




Se calhar não, não é, Sr. Putin?




S.

sábado, 16 de novembro de 2013

A linguista dentro de mim cisma

Sempre me fascinou a questão dos sotaques. Mesmo muito. Durante muito tempo foi a demanda pela capacidade de distinguir entre os diferentes tipos de inglês - particularmente o britânico e o norte-americano - e hoje é a demanda pela capacidade de distinguir com eficácia sotaques de diferentes regiões do UK. A ideia de que o sítio onde vivemos modela a nossa forma de falar, a forma como soa as palavras que dizemos, é-me incrivelmente surpreendente e fascinante. Se calhar não devia ser porque parece uma coisa muito lógica, constatável e extremamente corriqueira. Mas para mim encerra a mesma incredulidade que constatar que o cãozinho de dois meses que adotámos crescia a cada dia e que agora passados três anos é um cão grande, ou que os bebés na família/amigos que acompanhámos desde a gravidez nasceram, passaram de recém-nascidos a bebés rechonchudos e crescem todos os dias, como atestam as fotografias partilhadas pelo Facebook. E isto independentemente do que fazemos. Foi com esta mesma incredulidade logo seguida de "ah, claro, mas estavas à espera do quê" que eu constatei que uma das minhas melhores amigas que me ficou do mestrado tem agora um lindo e robusto sotaque britânico, após três anos ininterruptos a viver em Londres. (Infelizmente, nove meses não dão para obter o mesmo resultado, como depressa constatei, especialmente se convivermos com pouca gente inglesa.) Mas o mais fascinante disto é que os sotaques são adquiridos naturalmente, e provavelmente sem a pessoa se aperceber, como pude também constatar após o nosso encontro há uns meses e o meu "Olha, ganhaste sotaque britânico!" e ela olhar para mim deveras surpreendida: "... ganhei?". Isto torna-se ainda mais engraçado quando a pessoa já havia aprendido a língua, já a falava com grande competência mas agora di-la de forma diferente. É como se fosse o instinto a modelar-nos para sermos o mais compatível possível com o que nos rodeia. Fico curiosa para saber se daqui a uns aninhos, a minha prima que vive agora no Porto desenvolverá um bonito sotaque nortenho, ou que tipo de português os meus filhos falarão se nos mantivermos emigras como intencionamos.

Pouco tempo depois de nos mudarmos para Bruxelas descobri, porque me disseram, não porque o conseguisse distinguir, que também havia uma diferença significativa entre o francês belga e o francês de França. Depois, quando fui a Estrasburgo, descobri que havia uma diferença também entre o francês de França estandardizado, que suspeito que equivalha ao francês de Paris, e o francês da Alsácia, que me disseram ter toques germânicos. Mais uma vez fui uma pessoa muito infeliz por não ter o nível de francês que me permitisse distinguir estas subtilezas maravilhosas das línguas que tanto me fascinam. Entretanto já consigo saber quando alguém está a falar francês de França ou francês belga. Descobri a distinção quando, nas minhas vendas de roupa em segunda mão, calhou uma rapariga ir a minha casa e eu começar a ficar extremamente incomodada por estar a ter grande dificuldade em perceber o que ela dizia. Só pensava "Mau, mas estou a andar para trás ou quê?!". Até que ela disse que era francesa e as peças encaixarem: estava a ter dificuldade em perceber este francês não por culpa minha mas porque provavelmente tinha pronúncia, hmm, francesa. Em vez de belga. Portanto é assim que agora os distingo: se o palavreado me está a parecer demasiado rápido e ininteligível quase de certeza é porque é sotaque de França. Mas isto ainda não é um método infalível e tenho muito que aprender.

Noutra nota, já não é a segunda, nem terceira, nem quarta, e suspeito que nem a quinta pessoa estrangeira que me diz que o português soa a russo. Da primeira vez arregalei muito os olhos de surpresa, à segunda fui tentar confirmar (o que é muito difícil porque se trata da nossa língua materna, mas há que tentar bloquear as palavras e o significado delas e focar só nos sons emitidos) e descobri, para meu grande espanto, que essas pessoas tinham razão: o português soa assustadoramente a russo. Suspeito que seja porque falamos para dentro e não tenhamos nenhuma musiquinha associada à nossa língua. O português europeu é deveras monocórdico e aborrecido. E a última pessoa que me disse isto do português europeu soar a russo foi uma brasileira, de forma que isto selou as minhas suspeitas em confirmações. 

Por falar em musiquinha associada à língua, uma vez perguntei à professora de inglês na universidade em Portugal (ela era nativa britânica) a que é que soava o português, porque sempre foi uma coisa que tive muita curiosidade, e ela disse que a nada. Que era extremamente difícil de identificar um português a falar inglês precisamente pela ausência da musiquinha linguística que, por exemplo, um italiano tem, ou um espanhol, ou um francês e que nos faz rapidamente aperceber quando é que um destes nacionais está a tentar falar inglês. Eu fiquei deveras intrigada. Deve ser por isso que rapidamente adotamos pronúncias estrangeiras quando vamos viver para outros países durante alguns anos, e transportamos essas pronúncias para quando falamos português, como é tão facilmente constatável em episódios de Portugueses pelo Mundo, ou em emigrantes franceses de volta à terra em agosto. 

Devo no entanto declarar aqui que o meu português se mantém intacto, muito porque o falo em casa todos os dias, e os meus amigos aqui são maioritariamente portugueses. Quanto ao meu inglês, ainda que seja a minha língua de trabalho, ele é maioritariamente falado com outras pessoas não-nativas e, sendo que as nativas falam inglês escocês, tenho-o guardado limpinho de influências sonoras e mantém-se assim muito internacional-estandardizado, aguardando o dia em que também ele se transformará num inglês britânico-regional manhoso qualquer. Mas prometo não forçar nem armar ao pingarelho quando esse dia chegar.

Agora podia vir aqui falar do alemão, mas se ainda não distingo como deve ser sotaques franceses, o que dizer do alemão, tão amador ainda. Mas ao que já me chegou aos ouvidos, sei que ele é ultra variado consoante os Länder e que por vezes pessoal nativo tem mesmo dificuldade em entender certos sotaques mais cerrados. Deve ser um pouco à moda dos nossos Açoriano e Madeirense.

Por falar em alemão, ontem peguei neste livro que a minha mãe tão carinhosamente enviou de Portugal e que, por ter a mesma bonecada que o seu irmão inglês, tantas boas recordações me despoletou:


É um livro extremamente banal, de uma edição já com 20 anos e semelhante a dezenas de outros dicionários com imagens que para aí abundam, com as palavras organizadas por temas. Mas eu cresci com o seu irmão inglês, igualzinho:


e nem consigo começar a descrever as vezes que eu folheei este livro, as cópias que fiz das palavras, as histórias que eu inventava com cada imagem da cidade, dos animais, das férias, da família, as vezes que eu brinquei à professora e alunos, o velhinho e gasto que ele está. De maneiras que revisitá-lo mas em versão alemã só abona para a minha motivação de aprendizagem da língua germânica.

Eu já tinha sido alertada mas depressa constatei que a língua alemã é estupidamente divertida na sua construção de palavras. Assim, e recentemente, fiquei a saber que uma luva é um sapato para a mão (Handschuhe), ou que trocos são dinheiro pequenino (Kleingeld), ou que o hospital é a casa dos doentes (Krankhaus), ou que o frigorífico é o armário do frio (Kühlschrank), ou que - e esta é a minha preferida até agora - uma tartaruga é um sapo com escudo (Schildkröte). Por vezes também descubro umas palavras inesperadamente semelhantes a portuguesas, como o quése (Käse), o duche (Dusche), ou o cábél-iau (Kabeljau). As semelhanças com o inglês então são tantas que nem vale a pena alencar. É por isso que isto de aprender línguas faz-me sentir que pertencemos todos a uma grande, antiga e barulhenta família.

Não tenho nenhuma conclusão para este post, a finalidade era mesmo só cismar nuns pensamentos soltos sobre sotaques e palavras alemãs que andavam a rodopiar na minha cabeça. E constatar mais uma vez quão fascinante é o mundo das línguas.







S. 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Literalmente isto e literalmente aquilo

Se há coisa que me tira do sério, é o uso generalizado da palavra "literalmente". A sério, é uma praga. Raras vezes é empregue como deve ser e, porque se generalizou, perdeu o significado para muita gente. "Literalmente" é agora usado como um sinónimo de "mesmo", uma palavra descuidadamente usada quando meramente se quer enfatizar uma ideia. Mas se "literalmente" é uma praga, então o "literally" tomou conta da língua inglesa e é hoje tão irritantemente frequente quanto o "like" (não é o do Facebook, é o "tipo". Tipo isto, tipo aquilo).

Razão para a irritação ter transbordado agora e neste momento? Esta frase que acabei de ler:

"My heart literally sank."

Não. O teu coração não se afundou ou caiu literalmente coisa nenhuma. Se o teu coração tivesse literalmente caído não estavas cá para contar que ele tinha caído, porque estavas morta. Literalmente.

Há uma coisa muito bonita na linguagem humana, seja ela qual for, que se chama metáfora. E depois há o literalmente, o que é quando se quer que as palavras sejam lidas à letra, exatamente como estão escritas e sem floreados. Ora, a metáfora é o floreado por excelência. É o explicar de uma ação, sentimento, pensamento, é o descrever qualquer coisa, através de uma expressão que nos ajuda a chegar mais rapidamente ao significado do que queremos dizer. Coisas como "tenho borboletas na barriga" ou "estou a morrer de fome!" ou "andou a meter-lhe macaquinhos na cabeça" ou "o meu coração parou naquele momento" ou "I'm falling for you" ou "este pão está pedra" ou "estou contigo pelos cabelos" ou "isto é areia a mais para a tua camioneta". Nenhuma destas expressões se pode usar com literalmente, nunca, nunca, nunca. A não ser que a pessoa tenha engolido borboletas a sério, ou não coma mesmo nada há uma semana, ou alguém lhe meta um macaco verdadeiro em cima da cabeça, ou tenha um ataque cardíaco, ou esteja a cair por uma falésia abaixo em honra de outrém, ou o pão esteja fossilizado, ou tenha a outra pessoa emaranhada nos seus cabelos, ou esteja em frente a um monte de areia e ele não caiba na camioneta da pessoa. De contrário, são formas de expressão, não são para serem levadas à letra, logo, nada de literalmente!  

Recupere-se o sentido das frases, pá.





S.   

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O mundo louco da interpretação

Há muito tempo que me intrigavam os intérpretes simultâneos nas cabines das conferências. Foi um dos meus maiores maravilhamentos quando aqui cheguei: o facto de descobrir que o multilinguismo, no Parlamento Europeu, é uma realidade. E constatá-lo todas as vezes em que tinha conferências e reuniões de comissão para assistir.

Hoje, tive a oportunidade de experimentar como era. Numa espécie de palestra organizada pelo serviço de interpretação, e numa tentativa de atrair estagiários das instituições europeias para a carreira linguística, pudemos constatar que línguas mais fazem falta à UE (nativos eslovenos, malteses, romenos e búlgaros), que espécie de treino e educação é preciso obter para ingressar nessa carreira, e as gratificações e frustrações que se obtém quando se interpreta para ganhar a vida.

No final, veio a parte divertida: subir às cabines e fazermos nós próprios a interpretação de um discurso em inglês para a nossa língua nativa.


É... Esquisito. Estávamos três pessoas em cada cabine; ao meu lado tinha a minha amiga M. nativa de esloveno, e do outro lado um nativo de francês. Pusemos os auscultadores, ajeitámos o micro, e esperámos. Assim que o discurso começou ficámos uns 30 segundos sem reação: é suposto começarmos a debitar palavreado agora? Acho que estávamos envergonhados por começar a falar numa língua que nenhum dos outros compreendia e que, por estar ali mesmo ao lado, teria de ouvir. Mas assim que um de nós tomou coragem (não me lembro quem deu o primeiro passo, acho que eu não fui, ainda que estivesse mortinha por começar!), os outros foram atrás e em segundos, além de ouvir a minha voz em português e o discurso original em inglês, havia mais duas línguas faladas naquela cabine.

Falhei várias partes de frases, especialmente porque ao início esperava demasiado até começar a traduzir a frase para português; não se pode. Tem que se ir andando, num verdadeiro exercício de multi-tasking que consiste em ouvir, processar a informação, transformá-la em português, e dizê-la em voz alta. Isto tudo repetidamente, sem parar. 

A mulher da palestra tinha razão: aquilo dá uma adrenalina do caraças. Mesmo ali, a brincar e sem ninguém verdadeiramente a ouvir (com três pessoas a interpretar ao mesmo tempo por cabine torna-se impossível sintonizar num canal e apenas ouvir uma voz!), é um exercício de antecipação que cria um stress daqueles positivos. É como se um novelo estivesse a rolar pelo chão continuamente e nós a tentar apanhar a ponta, que continua a ser conduzida para fora do nosso alcance.

Primeiro estranha-se e depois entranha-se. É sem dúvida uma habilidade que se ganha e se treina. Ao início eu não conseguia acabar as frases mas no segundo ou terceiro discurso já conseguia deixar pouco por traduzir. Fiquei desiludida porque pensava que também conseguia traduzir do francês, por ser tão semelhante a estrutura gramatical e as próprias palavras, mas a minha compreensão auditiva francesa ainda não é ágil e rápida o suficiente para conseguir interpretar simultaneamente para português (no discurso alemão, também não, mas nem sequer tentei). Ainda assim, foi uma experiência única e muito divertida.

Fui-me informar sobre as condições que eles exigem aos portugueses nativos - já que o número de línguas pedido a um candidato depende da sua proveniência linguística e do facto de haver muitos ou poucos candidatos dessa língua. Parece que ficam contentes com duas línguas, sendo que uma delas tem que ser o inglês ou o alemão, e a outra uma qualquer das 23 oficiais (em breve 24, com o croata). O curso recomendado é o da FLUL, de interpretação, que dura um ano. Namorei alguns minutos a ideia de me por nesta aventura... Mas depois deixei-me disso: teria que voltar para Portugal durante um ano, para estudar, e além disso temo não ter personalidade para isto. É preciso ter capacidades comunicativas orais altamente desenvolvidas. Eu é mais escrever, tenho pena.



S.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Por falar em estereótipos

Divirto-me bastante a olhar para os intérpretes nas cabines das salas de conferência. Alguns fazem a interpretação simultânea com a facilidade e o enfado de quem já anda naquilo há muitos anos; outros, de braços cruzados e apoiados sobre a mesa, olham em frente com determinação enquanto falam; outros ainda há que apoiam a cabeça sobre as pontas dos dedos e interpretam o que está a ser dito para a sua língua nativa com uma dedicação e esforço dignos de nota.

Ontem, olho de relance para a cabine IT e o que vejo? O intérprete italiano a gesticular ferverosamente enquanto espalhava palavreado na sua língua, dentro de uma cabine que parecia pequena demais para a sua efusividade.

Mal escondi o riso.





S.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Conferências Parte II

Hoje foi dia de nova conferência, a conferência MASTER relacionada com os direitos das mulheres (o dia escolhido não foi coincidência).



desta vez há foto!

Desta vez havia português. Aliás, havia todas as línguas, menos "malti" e "gaeilge". Foi com borboletas no estômago que ouvi uma intervenção em português, num hemiciclo do Parlamento Europeu cheio de gente, gente essa, como não podia deixar de ser, com os auscultadores postos. Eu fiz questão de tirar os meus e pousá-los com muito orgulho ao meu lado, enquanto a senhora debitava palavreado na minha língua.




Se eu ontem pensava que tinha havido muita pluralidade linguística, hoje foi o auge. Segui quase tudo em português, mas às tantas começou-me a fazer impressão uma coisa: só havia dois intérpretes portugueses. Ou seja, nas cerca de dez línguas que se falaram ali, estas duas pessoas partilharam entre si a interpretação para português. Como é possível...! Que me lembre, o homem interpretou de alemão, polaco, grego e outra qualquer. A mulher interpretou de italiano, espanhol, inglês, húngaro e sueco. Poliglota, disse eu?...

E porque é o dia que é e tem tudo a ver, aqui vai:




Com imagens atinge-se uma compreensão maior que com milhões de palavras.

S.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Aqui não há más línguas

Uma das minhas paixões de sempre são as línguas. Língua, linguagem, linguística sempre foram para mim fontes de grande interesse. Amo dissecar gramáticas, perceber as regras que regem diferentes línguas, sou uma nazi da ortografia. Mas sobretudo, fascina-me o mistério que encerra uma linguagem que não se conhece e o processo de se passar a perceber, o desvendar desse mistério. É a sensação de se ter achado qualquer coisa.

A minha opinião sobre as línguas tem-se alterado com o tempo. Um dos meus objetivos de vida, desde muito cedo, era o de chegar ao nível do inglês dos nativos, uma obsessão que persegui com muito prazer. A minha língua materna foi durante muito tempo desprezada por mim, não com descuido porque sempre me fez espécie português assassinado ortografica e gramaticalmente, mas porque a considerava de segundo grau. Hoje atingi o nível de inglês que sempre quis mas entendo que não é o de nativo, é apenas o de equivalente-a-nativo, o que faz toda a diferença. Hoje entendo que a língua materna é única, e que a nossa ligação com ela não pode nunca ser destronada por nenhuma outra; é uma ligação demasiado entranhada na pele e na mente, visceral porque foi a partir dela que se expressaram pensamentos, emoções, a vida, no fundo.

Ainda assim, línguas no geral e línguas europeias em particular continuam a fascinar-me e um dos meus objetivos de vida é tornar-me fluente em mais duas ou três. Tornar-me uma verdadeira poliglota.

O multilinguismo no Parlamento Europeu atinge um nível inimaginável. Foi aqui que eu me deparei com o que é realmente ser poliglota. E serviu para me aperceber que estou muito longe disso. Muito mesmo. Para minha grande satisfação - e mortificação, ao mesmo tempo - o francês é a verdadeira língua de trabalho. O inglês tem o estatuto cliché que se sabe, língua internacional e não sei quê, e como não podia deixar de ser é muito utilizada. Toda a gente o fala. Até aqui nada de novo. Mas o francês compete fortemente com ele. As pessoas não se dirigem a nós em inglês, como seria de esperar; dirigem-se em francês. É muito frequente a conversa resvalar para inglês, mas ainda assim, o facto de a língua de primeira escolha ser o francês diz muito sobre a importância desta língua.

Ontem assisti a uma reunião do meu departamento que foi conduzida em francês. Segundo o chefe do departamento, era costume. Uma hora e meia de francês meio formal meio informal, dito por várias pessoas, em vários sotaques. Mas invariavelmente fluente. Foi um bom exercício para as minhas competências linguísticas de compreensão auditiva. De repente ouvia alemão entre um par de pessoas, ou esloveno entre outro par. Termos ingleses surgiam aqui e ali na conversa. A linguista que há em mim olhava e ouvia fascinada. Mas lá está, nativa só lá estava uma. Descobri-a facilmente, mesmo que só tenha entendido uns 40% de toda a conversa.

Hoje fui à minha primeira conferência cá, sobre igualdade de género, como não podia deixar de ser. Mais fascínio para cima. As salas de conferências/reuniões são dispostas em hemiciclos, e na parte de cima das salas, a toda a volta, estão 23 cabines. Cada uma para uma língua oficial da UE. Estão lá, os nomes da língua e um número à frente.

Ora e o que é que se passa normalmente. Cada orador fala na língua que bem lhe apetecer, frequentemente na sua língua materna. Em cada lugar existem uns auscultadores ligados a um transmissor, e é só escolher o canal referente à língua que se quer ouvir. Hoje foi maioritariamente sueco. Devo dizer que durante a apresentação em francês me aguentei estoicamente sem ir a correr buscar a interpretação inglesa (a cabine portuguesa não estava ativa para esta conferência), mas quando começou o sueco fui a correr enfiar os auscultadores nos ouvidos e mudar para o canal "English".

Nunca tinha assistido a interpretação simultânea. Que mind-fuck. Como a cabine do inglês estava mesmo à minha frente, eu não sabia para quem olhar, se para a senhora sueca que estava a falar, se para a senhora inglesa que gesticulava dentro da cabine e cuja voz se sobrepunha ao sueco ininteligível da outra senhora. Depois foram perguntas em inglês e respostas em sueco; tira auscultador, põe auscultador. Houve ainda uma apresentação que foi recitada metade em húngaro, metade em inglês.

Claro que não resisti a fazer zapping pelos outros canais linguísticos. Os oradores estavam a ser interpretados para alemão, inglês, francês, italiano, espanhol, húngaro, e mais outra que não me lembro. A cabine do português estava vazia, mesmo atrás de mim.

Eu sabia que isto era assim, juro que sabia. Sabia da tradução de pelo menos toda a legislação europeia para as 23 línguas oficiais, e que havia interpretação simultânea também. Mas ver - ouvir! - no terreno é completamente diferente. A UE faz tudo o que está ao seu alcance para mitigar a barreira que é talvez a mais penosa entre os povos europeus: a língua, tratando todas as línguas como iguais. O facto de uma pessoa que vai falar poder expressar-se na sua própria língua e ser traduzida para todas as outras 22 - virtualmente, nem sempre estão disponíveis as interpretações simultâneas de todas para todas - é simplesmente fascinante. E muito cosmopolita.

Custa dinheiro? Custa. E dá muito trabalho. Mas há coisas que não têm valor. E o respeito pela característica mais fundamental da nossa identidade - a língua - é um deles.



Esta foi a imagem que encontrei onde se veem melhor as cabines de interpretação. Sim, porque passadas duas semanas eu continuo a ter uma única foto de Bruxelas. Já começa a roçar o ridículo.



S.