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terça-feira, 25 de novembro de 2014

O esforço de guerra feminino

Hoje, ia eu muito bem a pensar na vida, quando piso uma placa que me fez voltar para trás:


In recognition of the women of Sheffield who served their city and country by working in the steel industry and factories during World War I and World War II. The people of Sheffield will always remember with gratitude these 'women of steel'. 2011
 
Bonito. É uma placazinha no chão, ao pé de uma árvore, e é muito recente, mas é bonito. Digno de uma cidade industrial, que viu muitos homens partirem para a linha da frente, mas que viu também muitas mulheres a darem o litro na sua terra para que o país aguentasse o esforço de guerra.
 
 
 
 
S.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A política ainda é um gigantesco boys' club


Por ocasião da Primeira-Ministra australiana ser incluída no menu de uma festa da oposição, o the Guardian compilou um Top 10 de momentos estupidamente sexistas da política. Sempre casos em que se vilipendia mulheres no poder por duas razões maiores:

- ou porque são bonitas demais e é um desperdício;

- ou porque são umas cabras do pior e deviam estar caladas/na cozinha/em casa onde ninguém as veja envelhecer.

Tal como nas personagens-tipo dos media, há aqui variações nos insultos dirigidos a estas mulheres. Mas no fundo, são apenas nuances destas duas categorias. Assim, e seguindo a lista do artigo:

- temos o Cameron a lançar um arrogante e condescendente "calm down, dear" a uma deputada da oposição no meio de uma tirada desta. A velha ideia do histerismo de que padecem as mulheres e que foi considerado doença psiquiátrica até à década 50 do séc. XX (curiosamente era uma doença de que só as mulheres podiam padecer). A atitude profundamente condescendente com que muita gente trata mulheres quando estas levantam a voz irrita-me solenemente, particularmente quando se está numa discussão/debate. A mulher como histérica, o homem como assertivo. Atitude direitinha à 2ª categoria;

- ... tenho algumas dúvidas se não devia saltar este. É sobre o Berlusconi. Ora bem, de um "senhor" que organiza bunga-bunga parties e contrata prostitutas adolescentes não se pode esperar respeito pelas mulheres. No entanto, é incrível as coisas que este homem vomita sob a forma de palavras. Entre sugerir que empresas deviam investir na Itália porque lá têm secretárias muito bonitas (que, como toda a gente sabe, são parte da decoração de um escritório; e ainda tiram uns cafés e mandam uns mails como bónus, que catita!), ou que o Zapatero, por ter no seu governo uma maioria de mulheres teria o dobro do trabalho a controlar o seu Executivo (as mulheres são emotivas por natureza, claro está, imaginem umas quantas a governar um país...! Dupla dificuldade de controlo uma vez por mês porque... hormonas!), o Berlusconi oscila em diarreias de "mulheres são eye-candy" e "irra, que cabras!". É um homem que encerra todo um fenómeno sociológico em si mesmo, uma espécie de micro-clima da sociologia.

- entretanto, na África do Sul, a líder da oposição recebe bocas sobre o facto de ser gordinha, interrompem-na no Parlamento para dizer - de forma muito pertinente, claro está - que devia fazer qualquer coisa ao cabelo, e durante o debate do orçamento, e relativamente ao que levava vestido, acusam-na de não respeitar as regras de decoro daquela casa. "Feia, gorda, cala-te, vai para casa, pára de tentar discutir política ao nosso nível." Foi também acusada de ser uma ninguém, uma "tea girl" (se é para arrasar, é para arrasar).

- na mesma nota, a Ministra da Habitação francesa teve que aguentar piropos em forma de assobios (mas está tudo doido?! Mas em que mundo é que vivemos?!) durante o seu discurso na Assembleia Nacional francesa. As desculpas dos assobiadores - que são as mesmas sejam os assediadores homens de fatinho e gravata, líderes de uma nação, sejam homens das obras (querendo isto dizer que não é uma questão nem de educação, nem de classe, nem de idade, é de papéis de género masculino gone wrong) - foram que ela estava a pedi-las porque levou de propósito um vestido que os distraía do que ela estava a dizer e que os assobios eram um tributo a ela, e que portanto, inferindo destas afirmações, ela devia era estar grata e sentir-se muito lisonjeada. Novamente, pergunto: mas que porra de mundo é este?!

- um tweet sobre como uma ex-deputada devia estar caladinha e ser uma boa esposa em vez de responder aos meninos crescidos da Câmara dos Comuns; 

- outra sobre como uma mulher indiana, após 20 anos de andanças na política de alto-nível, ainda tem que ouvir coisas como "fiquei engasgado com a beleza dela" ou como supostos colegas de Câmara não se conseguem controlar e que depois lá fora revelam o que não podem revelar ali dentro. Tudo isto porque foi, em jovem, vencedora de uma concurso qualquer de beleza. Claro exemplo de categoria 1.

- depois, a Presidente sul-coreana, acusada de não ter qualquer espécie de "feminidade" por não ter filhos, nunca ter dado à luz, etc. Mas acusada de não estar à altura de ser comandante das forças armadas por ser mulher e não ter experiência na matéria. (Ou seja, cabra mas não cabra o suficiente, aparentemente.)

- na mesma nota, a famigerada Primeira-Ministra australiana, vilipendiada por não ter filhos e que portanto é uma pessoa fria, coração de pedra, e que como pode uma mulher assim ter empatia suficiente para governar um país. A ideia pelos vistos ainda extremamente enraizada de que uma mulher que escolhe deliberadamente entre filhos e carreira é uma aberração.

- entretanto, piadinha no Chile sobre como as mulheres não sabem o que querem, e que quando dizem "não" querem dizer "sim", umas indecisas. (Acho, de todos os mitos sobre géneros, este o mais perigoso. É ele que vai perpetuando o que muitos apelidam de "rape culture", e de que a vítima tem sempre qualquer dose de culpa, porque estava a pedi-las, porque tinha uma mini-saia justa, porque estava bêbeda, porque foi por aquele caminho sozinha, porque mandava supostos "sinais". "Não" significa "não", não significa "talvez", nem é um convite para mudança de ideias. Mas esta conversa leva-me por um caminho muito extenso, que não é para percorrer hoje).

- finalmente, a Hillary Clinton. Essa teve que ouvir repetidos gritos de "vai-me passar a camisa a ferro!" durante um comício durante a corrida às presidenciais norte-americanas de 2008 e é constantemente apelidada de histérica, estridente, e cabra. Mesmo assim, com as letras todas: b-i-t-c-h. Pessoas tipo Glenn Beck e Rush Limbaugh (que eu não sei como ainda estão autorizadas a respirar) que dizem sem vergonha nem escrúpulos nenhuns que ela é "o estereótipo de cabra" e que seria um inferno para todos os homens americanos durante quatro anos se ela ganhasse as eleições para Presidente. Mais: que era uma coisa horrorosa ver uma mulher envelhecer diariamente à frente da nação toda. ... E é nestes momentos que uma pessoa chega a conclusão que quais sexismos subtis quais quê, o machismo violento e desavergonhado está bem e recomenda-se neste nosso mundo ocidental. E que estas criaturas podem não ser representativas dos EUA mas que têm uma base de fãs demasiado alargada para que eu possa restaurar a minha fé na Humanidade a 100%.

Acho que isto dava uma investigação de doutoramento tão frutífera, estudar de que forma a misoginia está infiltrada no debate político. Mas depois talvez quatro anos não fossem suficientes para o levantamento de exemplos.





S. 


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Os humoristas andam originais

E por falar em notícias que consistem em imagens grotescas de comida: a oposição na Austrália organizou um jantar e colocou no menu as mamas pequenas e as coxas grandes da primeira-ministra, Julia Gillard.


Espetacular, hã? Dar a um prato o nome de partes do corpo de uma oponente. Só classe. (Notícia aqui)

Claro que, sendo isto revoltante, não é inédito nem devia ser tão surpreendente. Julia Gillard tem um defeito que é ser uma mulher com poder. E as armas de arremesso preferidas contra mulheres no poder (ou contra qualquer mulher, agora que penso melhor) são insultos à aparência. Acho que é um reflexo inconsciente do que nos foi incutido durante a primeira infância, quando contrariados atirávamos à cara da menina que nos estava a chatear seriamente aquele insulto muito demolidor de recreio de infantário de "és feia!". Exceto que a coisa não pára no infantário, continua antes pela vida. Qualquer revista e blog cor-de-rosa o atesta.

Mas o que é mais interessante é como o insulto continua a ser atirado mesmo contra mulheres poderosíssimas, que alcançaram cargos de topo nos países respetivos, e que ainda assim não merecem mais que um "és feia!", "és gorda!", "és velha!", "és mal feita!". Estas mulheres singraram altamente num meio ainda extremamente dominado por homens mas isso pouco parece importar ao lado dos seus falhanços na maior aspiração e papel da mulher: ser bonita. Contem quantas vezes o Ricardo Araújo Pereira, o Bruno Nogueira e o Nilton colocam o adjetivo "gorda" na mesma frase que Merkel. Ou o frenesim que se gerou quando Hillary Clinton apareceu sem maquilhagem algumas vezes e sem cabelo arranjado (acusaram-na imediatamente de estar a descurar os seus deveres como Secretária de Estado. Ao que ela respondeu qualquer coisa como "Oh meninos, eu cheguei a um ponto na minha carreira em que me posso dar ao luxo de me estar a marimbar para se pinto os olhos ou não. O meu título fala mais que todo o meu guarda-vestidos junto." Pimba, calou.)

O que é verdadeiramente preocupante neste caso da Julia Gillard é a escolha da comparação: coxas e peito, duas partes do corpo feminino extremamente sexualizadas. Ou seja, o insulto aqui dá um passo a mais no sexismo dos "és gorda" e "és feia" para passar a ser "és um objeto sexual, para ser olhada, avaliada [o "mamas pequenas e coxas grandes"] e comida". A alusão à violação como forma de silenciar uma mulher e de a submeter à vontade do seu oponente a permear toda esta brincadeira oh-tão-sofisticada. 

Por isso, refletides: da próxima vez que quiserem insultar a Merkel através do seu peso corporal, pensem "E se fosse o Berlusconi, também o chamaria de gordo?" (nunca ouvi ninguém chamá-lo de tal). Aposto que muitas outras infâmias surgiriam à frente na lista de insultos ao palhaço. De modo que chamando "gorda" à Merkel mas "palhaço" ao Berlusconi, tendo os dois senhores relativamente a mesma massa corporal, sim, seria sexista. Sede originais.





S.   

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A dança do bilião

Quando, há umas semanas, o D. me diz: "Dia 14 vou ver o Benfica a Leverkusen", a minha primeira reação foi "Está bem." Mas depois lembrei-me: "Espera lá, dia 14 é Dia dos..."





"A sério? Vais ao estádio no dia dos namorados? Numa saída de amigos? Quão cliché é isso, pá?"

Mas depois lembrei-me das minhas raízes feministas, e que mais cliché do que ir ver bola com os amigos no Dia dos Namorados é ser a namorada que fica aborrecida com isso, por isso esta foi a minha verdadeira reação:






Entretanto, andava a matutar sobre que iria fazer no Dia da Mulher que se aproxima. Há um ano, graças ao estágio no PE, estava em lugar privilegiado para assistir a todas as conferências e mais alguma sobre o tema. Precisamente no Dia da Mulher, tive a oportunidade de assistir a um debate muito interessante sobre a igualdade salarial entre homens e mulheres na UE. Por isso, e como sei que a as instituições europeias são devotas à igualdade de género, a primeira coisa que me ocorreu foi ir pesquisar o que o Parlamento Europeu tinha agendado para este ano.

Em caminho descobri a campanha do One Billion Rising. O título baseia-se na estimativa de que uma em cada três mulheres será, algures durante a sua vida, violentada, abusada ou violada.

Uma em três.

Isto traduzido em números dá 1 bilião. Não sei o que dá melhor compreensão da extensão do flagelo da violência contra as mulheres, se o número 1 bilião ou se a fração 1 em 3. Uma coisa é certa: são demasiadas.

Pelo que consegui saber, o Lóbi Europeu de Mulheres - aka o meu sonho de emprego - estava a organizar uma flashmob no dia 14 de fevereiro ao fim da tarde em Bruxelas como parte desta campanha mundial contra a violência contra as mulheres. Havia ensaios de coreografia e tudo, e todo um código de vestimenta para participar nessa mobilização.

Quatro coisas conspiraram para que eu considerasse que essa flashmob puderia ser o serão perfeito para o meu Dia de S. Valentim:

1. Estava de folga àquela hora naquele dia;

2. Assim como assim iria estar sozinha em casa sem nada de especial para fazer;

3. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa nesta cidade, porque só assim me consigo integrar;

4. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa no que diz respeito aos direitos das mulheres, porque só assim  consigo conhecer pessoas que partilham a minha visão e os meus interesses e os desenvolvo. A Beauvoir é boa companhia mas também preciso de conviver com gente viva.


Uma coisa conspirou para que a flashmob ao ar livre se tornasse uma má ideia:

1. O tempo.


Depois da hora do almoço começou a chover e no meu boletim meteorológico habitual até figurou um novo tipo de tempo: freezing rain. E que é freezing rain? Portanto, não é neve, não é chuva normal, também não é granizo... O que é? Pode-se sempre contar com Bruxelas para inovar no que aos códigos de meteorologia diz respeito. Comecei a temer que a chuva estragasse os meus planos de manifesto feminista.

Decidi ir. Está a chover, que se lixe. Se não fizer nada porque está a chover bem que posso ficar todos os dias em casa. E se está 1 grau, veste-se mais um casaco e siga.

Quando cheguei à Place Monnaie, o ponto de encontro da campanha e onde iria acontecer a dança, fiquei surpreendida com a quantidade de pessoas. Não estava à espera de ver a sala tão composta:




A minha postura demasiado auto-consciente e mais passiva do que gosto de admitir, levou-me a instintivamente procurar um lugar de observadora, e por isso fugi lá do meio e fui-me posicionar estrategicamente entre as colunas do edifício (também queria estar numa posição privilegiada para fotografar e filmar, confesso).

Entretanto, a música começa e o pessoal começa a coreografar:




Não conhecia os passos, mas a beleza das multidões é que se apanha o ritmo instintivamente, e começa a tornar-se impossível ter os pés quietos. Isso e o frio; não há nada como tirar o pé do chão para evitar que um membro nos caia, de dormente que está.

Foi muito inspirador. E superou as minhas expectativas. Não tanto pela música e pela flashmob propriamente dita, os pretextos para o ajuntamento e o grito de revolta, mas pelos pequenos detalhes que vi: as amigas que vieram juntas e que gritaram mais que todos os outros; os cartazes contra a violência; a mãe que levou a filha de um ano e que encorajava a bebé a dançar ao meu lado, e que foi bem sucedida (mais uma prova de que o ritmo de multidões a dançar é contagiante) e que me trouxe lágrimas aos olhos, porque sim senhora, de pequenino é que se torce o pepino, e assim é que é, educar a filha a ter orgulho em ser mulher, sem ser apenas no mais banal da aparência; na velhota de fartos caracóis loiros que entretanto apareceu lá no meio a bambolear e a curtir a música como as raparigas de 20 anos, e que me levou a um grito interno de "Quando eu for grande quero ser assim!"; os homens que apareceram e que se juntaram ao protesto, numa posição de respeito pelas mulheres da sua vida.

Entretanto a flashmob acabou, começou música para animar e aquecer o pessoal ("Vous êtes CHAUDS?" Então não estamos, senhora apresentadora...) e eu decidi sair do meu poleiro e ir mirar as barraquinhas com informação sobre a campanha. Uma senhora entregou-me isto:




Nada mais nada menos que um panfleto sobre aulas de defesa pessoal, defesa verbal, e grupos de auto-ajuda e aconselhamento sobre como as mulheres se podem sentir mais seguras. Quão bad ass, meu deus!

Isto fez-me lembrar um argumento que a Beauvoir faz n'O Segundo Sexo, sobre a relação entre a passividade a que são devotadas as mulheres e o seu sentimento de fragilidade e insegurança. Segundo ela, é necessário que as mulheres participem em atividades físicas, não lhes seja travado o impulso de subir às árvores em criança, de correr, de saltar, de puxar o limite dos seus corpos. Só experimentando o corpo, mexendo-se e raspando joelhos é que a mulher, tal como o homem, ganha consciência do que é capaz, e que as suas conquistas físicas e a boa relação com o seu corpo lhe dão a auto-estima necessária para dizer na sua vida: "Eu sou capaz" e a colocar-se a si própria objetivos mais altos. Eu vou desconfiando que ela tem razão.

Sem saber muito bem como nem porquê, dei por mim no meio da multidão, e a mexer o pé devagarinho. Passados cinco minutos era ver-me aos saltos como uma maluca, a dançar como raramente aproveito, e com um sentimento de irmandade a invadir-me os sentidos. Fala-se tanto da rivalidade entre mulheres, e como as amizades entre raparigas são sempre tão cheias de intrigas, e como é tão difícil trabalhar com mulheres porque são umas cabras umas para as outras, que foi mesmo bom sentir e presenciar a refutação desse mito: o que ali vi foi mulheres a partilharem a felicidade genuína e o sorriso fácil que vem da dança e do mexer o corpo sem qualquer propósito que não o da diversão: sem o propósito de agradar, sem o propósito de seduzir ou sequer rivalizar. Mexer ritmadamente e ao som de música dançante simplesmente porque é divertido.

Fiquei parva comigo mesma; estava a gostar genuinamente de estar ali a dançar!... De notar que eu fujo da discoteca e da noitada como o diabo da cruz. Fez-se mais uma vez a flashmob e eu entrei rapidamente na coreografia, no meio da multidão e sem qualquer preocupação no mundo.

A sessão de anti-self-consciousness fez-me definitivamente bem à alma.

Agora estou aqui sentada no sofá, no quentinho e no silêncio do lar, de pernas dormentes porque levaram dose puxada de abuso hoje - para além da caminhada habitual de commuting de uma hora, ainda me levaram até à Place Monnaie e aguentaram uma hora a pular como se não houvesse amanhã. Mas estou satisfeita, de sorriso nos lábios e com vontade de me envolver em mais coisas destas. Que venha o dia 8 de março!







S.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A maternidade como (não) projeto


Nunca ninguém me deu uma razão convincente sobre o porque é que se tem filhos. Para todas as explicações sobejamente conhecidas, ou prós, consigo arranjar outras tantas que as anulam, os contras. A do amor (já tenho pessoas na minha vida para amar, para quê acrescentar mais), a da construção da família (dois não são uma família?), a da descendência (o mundo já está sobrepopulado, para quê botar mais gente), a do continuar a nossa obra (gerar e criar um ser humano para massajar o ego sempre me pareceu duvidoso), a do "porque é mesmo assim a vida" (quem disse?), etc. Eu tenho uma teoria muito própria sobre o porquê que as pessoas têm filhos, mas como é muito parcial, muito fruto da minha não-maternidade, extremamente politicamente incorreta, e não me apetece ser linchada em praça pública, guardo-a só para mim. Um bocadinho do género como quando a Fátima Lopes, farta de as entrevistas que lhe faziam rondarem sempre a pergunta do "Mas não quer ter filhos porquê?" respondeu que as mulheres que tinham filhos era porque não se conseguiam realizar de outra maneira. Assim, muito à bruta e sem rodeios.

Minto; uma vez uma amiga deu-me uma razão que me convenceu de certa maneira ou, pelo menos, deu-me que pensar. Disse ela que as pessoas têm filhos porque isso lhes permite ver tudo de olhos frescos. As pequeninas coisas do dia-a-dia, as coisas maiores como as festas e as férias, o mundo, passa a ser visto como que pela primeira vez. É como quando eu vou no autocarro a chegar a Mafra e esforço-me para olhar para o Convento como se fosse uma turista, ou quando releio um post após saber que determinada pessoa já o leu, tentando avaliá-lo pelos olhos de outrém. É o renovar do mundo, vá.

Mas depois penso em toda a chatice que toda a gente que já passou pela parentalidade está sempre a enumerar, desde as birras, os choros, o cocó, o parto, a adolescência e as respostas rosnadas, o deixar de sermos donos do nosso tempo, o custo financeiro, etc, e penso que quem se devia ter que justificar seriam os que queriam ser pais, não os que não querem. Porque os que não querem ser pais é só o continuar da situação em que já vivem, os outros é que estão ativamente a mudar a sua. E que o "porque sempre foi assim" nunca justificou nada.

É por isso que quando leio na Beauvoir aquela concisa frase do:


"Gerar, amamentar, não são atividades, são funções naturais; nenhum projeto é aqui empenhado; é por isso que a mulher nunca encontrou aí motivo de uma afirmação superior da sua existência; ela apenas se submete passivamente o seu destino biológico."

"Engendrer, allaiter ne sont pas des activités, ce sont des fonctions naturelles; aucun projet n'y est engagé; c'est pourquoi la femme n'y trouve pas le motif d'une affirmation hautaine de son existence; elle subit passivement son destin biologique."


eu penso: "Oh porra, acertou na muche".

A frase ressoou comigo por tudo o desabafado acima, mas não só. Ela vem no encadeamento da análise do que é ser humano. Que característica/transcendência/atividade nos eleva acima de meros animais, da "besta sadia / cadáver adiado que procria"? A Beauvoir explica que:


"É arriscando a vida que o homem se eleva acima do animal."

"Se en risquant sa vie que l'homme s'élève ao dessus de l'animal." 


E aqui homem entende-se como Homem, a humanidade. Ou seja, é desbravando o mundo que tanto homens como mulheres se realizam como seres humanos, é no trabalho produtivo, na contribuição para um mundo melhor, no desenvolvimento de projetos, na sua superação enquanto indivíduos e enquanto sociedade. Mas para Beauvoir, a maternidade não é nenhuma destas coisas, porque é tão-somente uma atividade biológica, tão corriqueiramente animal como comer, dormir, crescer, caçar, copular, defecar, urinar, envelhecer, morrer. E é precisamente por isto que a História dos dois géneros humanos não é uma História de divisão natural de esferas de atividade, nem tampouco de igual valor. Enquanto os homens - desta vez os seres humanos de género masculino - conquistavam e moldavam o mundo, descobriam os limites do pensamento, da natureza e da capacidade humana, as mulheres estavam confinadas ao seu destino biológico de procriar:


"Mas as vozes femininas calaram-se sempre onde começava a ação concreta: puderam suscitar guerras, nunca sugerir a tática de uma batalha; nunca orientaram a política exceto quando esta se reduzia a intriga; os verdadeiros comandos do mundo nunca estiveram nas mãos de mulheres; estas nunca agiram sobre as técnicas nem sobre a economia, nunca fizeram nem desfizeram Estados, elas não descobriram mundos. É por sua causa que certos eventos se desenrolaram, mas as mulheres sempre foram pretextos, muito mais do que agentes."


"Mais en fait, les voix féminines se taisent là où commence l'action concrète: elles ont pu susciter la guère, non suggérer la táctique d'une bataille; elles n'ont guère orienté la politique que dans la mesure où la politique se réduisait à l'intrigue; les vraies commandes du monde n'ont jamais été aux mains des femmes; elles n'ont pas agi sur les techniques ni sur l'économie, elles n'ont pas fait ni défait des États, elles n'ont pas découvert des mondes. C'est par elles que certaines événements ont été déclenchés; mais elles ont été prétextes beaucoup plus qu'agents." 


Isto está tudo muito bem e explica em poucas palavras a origem da inferioridade da condição da mulher ao longo dos tempos. Encaixa tão bem com as minhas dúvidas sobre a parentalidade e tudo, perfeito.

Mas não consegui evitar o cisma na frase "Gerar não é um projeto"...

Desde que a li que se tornou na frase que mais me deu que pensar em todo O Segundo Sexo. Não é um projeto porque é uma atividade biológica... Não é um projeto porque qualquer animal o faz... Ter filhos não é um projeto...

Mas que raio...?

Mas ter filhos atualmente equivale realmente a procriar como quando vivíamos nas cavernas? Não há nada na atividade de gerar pessoas de hoje em dia que lhe acrescente um valor que esta não tinha há milénios atrás? E todo o trabalho que envolve educar um pequeno ser humano para viver saudavelmente em sociedade, o que os ingleses chamam de "raise a child"? Não se diz "raise a dog"... E se o que uma mãe e um pai humanos fazem é intrinsecamente o mesmo que o que uma mãe gata faz, então onde ficam os professores e, especialmente, os educadores de infância? O que eles fazem não é o mesmo que um pai? Então se é, não conta como projeto, também? Se não é, onde está a diferença: no serem remunerados? No facto de os filhos não serem deles?

Ainda não consegui desembrulhar este novelo.

Está pois visto que nem a Beauvoir me consegue esclarecer nas questões da parentalidade e descendência. 

Não deixa de ser curioso que precisamente hoje tenha nascido um bebé muito aguardado na família, de duas pessoas quase da minha idade e da do D. e que esteja a rebentar de curiosidade sobre todos os detalhes, dos mais animalescos e infímos aos mais transcendentes e sentimentais. Acho que é um bocadinho parecido com o fascínio que eu tenho pelo mundo das maquilhagens: leio quem é apaixonado por tal, surpreendo-me com a dedicação, paixão e perseverança que é preciso para sermos bons naquilo, mas depois no meu dia-a-dia fujo a sete-pés. É um fascínio ao longe*, portanto.




S.


*Ouviram, mãe e pai? Ao longe. Este post não é nenhum reflexo de qualquer relógio biológico, podem respirar fundo . O único relógio que toca nesta casa é o alarme às 7h45.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Diferenças entre umas e outras

Uma é uma enjoadinha de primeira apanha, passiva e suspirante por um homem que à primeira oportunidade lhe quer morder o pescoço;


As outras fazem algo pela sua vida e pelo seu mundo.

Lições opostas, que revelam a qualidade de uns livros e de outros. É favor parar com as comparações, portanto.



S.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Vindication on the Rights of Women - Mary Wollstonecraft

(Peço desculpa pelo inglês, foi uma crítica de um livro que amei copiada do meu goodreads)

A Vindication of the Rights of Woman (Penguin Classics)A Vindication of the Rights of Woman by Mary Wollstonecraft
My rating: 5 of 5 stars

Funny how so much of what she criticised in society's expectations towards women are still so true more than 2 centuries later. She pinpoints education (or lack of) as the reason for women's seemingly inferiority in relation to men. It's a manual on education, more than anything. Often I felt it as a slap in the face for women who still choose to fit obsolete notions of what it means to be a woman. A slap in MY face for often feeling bad for being who I want to be, instead of who society thinks I should be. All in all, a very clever book, clearly with breakthrough notions that must have thoroughly shocked many men and women of her day. 100% recommended.


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S.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Virginia Woolf - The Hours

Ontem em vez de ver o derby escolhi ver o filme As Horas, bem mais interessante mas igualmente deprimente. A verdade é que este filme saltou logo para a minha lista de filmes preferidos, quando ainda nem tinha decorrido meia hora do mesmo.




Em nota de abertura tenho a dizer que é um enorme prazer ver qualquer filme em que entre a grande senhora Meryl Streep. Todas as suas interpretações são de uma naturalidade impressionante e de um rigor impecável. É daquelas poucas atrizes que quando entram em cena não dá para despregar olho do ecrã pela interpretação incrível que fazem da personagem.



Julianne Moore é outra atriz que vale a pena. Era relativamente desconhecida por mim até há pouco tempo mas uma série de bons filmes que vi em que esta entrava captaram-me a atenção para a dita atriz, incluíndo o perturbante Blindness, baseado no livro Ensaio Sobre a Cegueira.




Sem dúvida quem mais me surpreendeu foi a Nicole Kidman neste filme. Sem dúvida alguma. Estive mais de meia hora a tentar certificar-me de que era mesmo a Nicole Kidman quem estava a fazer de Virginia Woolf, e fiquei na dúvida até mais de metade do filme. A minha habilidade para reconhecer caras nunca foi famosa, mas o que é fato é que esta senhora estava irreconhecível como Virginia Woolf (vejam por vós próprios), uma mulher escritora com imensos problemas psiquiátricos e uma personalidade algo apagada no filme.




Graças à brilhante interpretação da Nicole Kidman fiquei fã desta famosa escritora. Tinha uma vaga ideia de que era uma escritora da primeira metade do século XX, tinha pertencido ao Bloomsbury Group, um clube londrino de intelectuais, entre os quais Keynes. Tinha também a impressão que, tal como outros membros desse grupo, tinha-se suicidado. Tudo verdade até aqui. O que me impressionou neste filme foi a profundidade da escritora em si, os temas sobre os quais escreveu e o seu percurso de vida.
Mas talvez seja melhor fazer uma sinopse do filme para poderem julgar por vós próprios.

As Horas captou-me a atenção pelo fato de contar 3 histórias de mulheres de épocas diferentes mas com algo em comum, neste caso o gosto por um romance de Virginia Woolf ('Mrs. Dalloway', prioridade elevada na minha lista dos 'a ler'). Este ponto é logo receita bem-sucedida para eu gostar do filme. À medida que o filme foi decorrendo fiquei com a nítida impressão que este filme me fazia lembrar o Revolutionary Road, e a verdade é que a essência de ambos é muito semelhante.


Basicamente seguem a mesma linha: mulheres que vivem nos subúrbios, que têm tudo o que é suposto ter - casa com jardim, marido, filhos, vida folgada, boa reputação no bairro -, que aparentemente são felizes mas que por dentro sentem um desespero terrível. Revolutionary Road foi a primeira história do tipo que vi e impressionou-me bastante. A Kate Winslet e o Leonardo Dicaprio estavam impecáveis nas suas interpretações.

As Horas é ainda melhor, na minha opinião. Isto porque combina as tais 3 histórias das 3 mulheres em épocas diferentes. A primeira é a própria Virginia Woolf, enquanto escrevia o livro Mrs. Dalloway. A segunda é uma mulher dos anos 50, e a outra uma mulher do presente. O que é fascinante neste filme é que as 2 últimas histórias vão sendo contadas à medida que acompanhamos Virginia Woolf na sua escrita do livro. Ou seja, tudo o que ela vai decidindo que irá acontecer à sua heroína fictícia, a Sra. Dalloway, vai influenciando o curso que as outras 2 mulheres vão dando às suas vidas. É brilhante. E extremamente parecido com o que se passa no meu filme preferido de sempre, Shakespeare in Love. Também aqui há a mistura de uma vida real (a de Shakespeare) com a invenção e escrita de uma obra fictícia (neste caso Romeu e Julieta).





Mas o que me impressionou realmente no As Horas foi a essência da história: o desespero de uma mulher que vive segundo o que é esperado dela. A vida nos subúrbios, com a casinha da 'white picket fence', o casal de filhos, e a mulher que espera o marido chegar a casa - no fundo, o tão famoso American Dream - é aqui retratado como fútil e desesperante para estas mulheres. Fútil porque monótono e previamente antecipado (a mulher sabe como será a sua vida do início ao fim), e desesperante porque a mulher não consegue entender, muito menos explicar, porque é que é extremamente infeliz se tem tudo o que se é suposto ter. Detetei também um cheirinho de Fernando Pessoa neste tipo de história, o que me agradou imenso. A sua visão da monotonia da vida e da existência humana era igualmente deprimente mas tão certeira que chega a assustar. O Livro do Desassossego é particularmente exemplo disso.

Em resumo, é um filme com um enredo profundo e 'enredado' pois estas 3 histórias acabam por se cruzar realmente, não têm apenas em comum o livro de Virginia Woolf. As interpretações das 3 senhoras são brilhantes e extremamente entusiasmantes de assistir. Destaco a interpretação de Virginia Woolf (personagem), de quem fiquei fã curiosa, e de Nicole Kidman (a atriz), de quem passei a admirar.





S.