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terça-feira, 27 de maio de 2014

Super-dimanche na Bélgica

No domingo foi dia de super-eleições aqui na Bélgica. Para além de votarem para o Parlamento Europeu, os belgas votaram para o parlamento federal e para os parlamentos regionais (Flandres, Valónia, Bruxelas, e parte-germanófona-que-acho-que-não-tem-nome). Podem imaginar a quantidade de cartazes com diferentes caras de candidatos que andaram aí afixados nas ruas.
Uma vez que não estou autorizada a votar para as Federais e Regionais, e nas Europeias escolhi votar nos partidos portugueses, passou-me muito ao lado as campanhas belgas. Não que fosse pela falta de informação ao meu dispôr, já que panfletos de campanha encheram a minha caixa do correio todos os dias durante três semanas. Infelizmente, nenhum deles tão apelativo como o do senhor do cão.
Mas agora ando com uma curiosidade inédita sobre a política belga neste pós-super-eleições. O sistema político deste país é tão multi-nivelado, tão multi-partidário, tão complexo e tão cheio de jogos de cintura que dá gosto acompanhar. E depois é aquilo das nacionalidades e da possibilidade do separatismo flamengo sempre à espreita.
Por falar em separatismo flamengo, o partido nacionalista flamengo N-VA ganhou as super-eleições. Para o nível europeu foi o mais votado (foram 10 os partidos a eleger gente para o PE) e para o nível federal também ( foram 13 [!!!] os partidos a eleger gente para o parlamento federal). O que significa que o chefe dos separatistas flamengos está agora encarregue de formar governo belga.
Ontem o senhor primeiro-ministro belga demitiu-se após o seu partido ter perdido as eleições (ele é do PS) e o rei mandou logo chamar os chefes dos partidos todos para começar o processo de formação de governo, por ordem de votos conseguidos. Achei muita piada os jornais enfatizarem que o rei estava com pressa, e que não queria perder tempo nisto de formar governo. Exato. Se for como em 2010 que a Bélgica esteve sem governo durante mais de ano e meio (mais tempo do que o Iraque, para se ter uma ideia do hardcore que é o bloqueio do sistema político belga) não pode haver mesmo tempo a perder. Nessa altura tiveram que fazer uma reforma constitucional e o caraças, para se entenderem finalmente, do tipo, mudar limites de regiões para acomodar birras flamengas e o senado federal deixar de ser eleito diretamente, e assim. Com 13 partidos com quem formar coligações imagine-se o trabalhinho e jogo de cintura que não vão ser precisos nos próximos meses.
De salientar só que o N-VA é nacionalista mas não é de extrema-direita, é um partido de centro-direita, moderado. A minha colega belga diz que eles não odeiam outras raças ou estrangeiros porque estão demasiado ocupados a odiar os valões (os da parte francesa). Eu acho que mesmo assim é porque os belgas são um povo sossegadito e pequenino como nós os portugueses, sem grandes nacionalismos inflamados enquanto país (vão se agarrar ao quê, também, como símbolo nacional, às frites?!), que têm consciência do seu peso fraco-moderado na cena europeia e que lá vão andando nas suas negociações governativas com uma paciência de santo. Não têm tempo nem pachorra para odiar povos.
Fiquei um bocado triste quando ouvi que o primeiro-ministro atual se tinha demitido, embora agora perceba que era expectável, foi porque perdeu as eleições, não se demitiu, demitiu.




Tinha um sorriso fácil e grande, e usava laços. Fazia lembrar um ventríloquo, ou um apresentador de circo. Gosto das pessoas que sorriem com os dentes todos.
Isto foi a melhor análise política do senhor Elio di Rupo que consegui arranjar. Só agora, a menos de um mês de me ir embora da Bélgica, é que ganhei séria curiosidade sobre a política daqui. É um bocado triste. Soube da aprovação da eutanásia para menores há poucos meses e fiquei pasmada com a serenidade com que este povo aprova coisas que seriam pólvora acesa noutros países e com o pouco alarido com que lá vai fazendo o seu caminho pioneiro no quebrar de barreiras ao pleno cumprimento dos direitos humanos.
Nestas super-eleições a abstenção foi de 10%, percentagem capaz de dar sonhos molhados a muito bom democrata. A razão é o voto ser obrigatório e ter que pagar multa quem não comparecer. Os belgas não brincam em serviço, se é para votar É PARA VOTAR, se é Dia Europeu Sem Carros É SEM CARROS (são proibidos nesse dia, a sério). Não confiam no civismo das gentes, pronto.
Ainda estou intrigada com o facto de o Museu de História Militar aqui em Bruxelas, que está com uma exposição interessantíssima sobre a guerra de 14-18 e que eu estou há meses para visitar, ter estado fechado no dia das eleições. Sendo que tinha um papel afixado a declarar que estava fechado por causa das eleições e o museu do lado, o do automóvel, estar aberto, é de suspeitar que há ali uma razão especial que eles entendem necessária para que as pessoas mão o possam visitar em dia de escrutínio político. Será para não exacerbar nacionalismos dispensáveis? Para não agudizar ressentimentos históricos? Gostava de ter a certeza.
A Bélgica é um país profundamente interessante do ponto de vista político e eu só tenho pena de não ter estado nem aí nestes dois últimos anos. Só se quer quando não se tem, não é, triste.
S.

domingo, 24 de março de 2013

Guia para uma viagem de sonho à Escócia

Há vários anos que uma das minhas viagens de sonho é ir à Escócia. Este ano, e por uma agradável coincidência, tive que me deslocar várias vezes a esta região em trabalho. Fiquei maravilhada com Edimburgo, que em nada desapontou e cuja aura de mistério e magia me lançaram num remoinho de lembranças de leituras passadas, visitei Glasgow várias vezes mas um bocado de fugida, e vi da janela minúscula de um avião as montanhas, os lagos e o verde que povoam a imaginação quando se pensa em Escócia.

No entanto, a minha viagem de sonho é muito mais do que isto. Quero conhecer esta parte do UK de uma ponta a outra, quero ir a Inverness, a Aberdeen, à Ilha de Skye, visitar os castelos assombrados, caminhar à beira dos lochs, andar no comboio que diz que tem as melhores vistas daquele campo, palmilhar aquilo de uma ponta à outra. Só assim arrumarei a Escócia no compartimento mental dos sonhos realizados.



Entretanto vou-me apercebendo que aquilo tem mesmo uma identidade própria e singular, diferente de (pelo menos) Londres e arredores, ainda que não sinta que estou noutro lado que não o UK. É complicado, para uma pessoa de fora, entender completamente os meandros da identidade de um povo, e por isso é sempre muito interessante quando se tem oportunidade de falar com insiders. Para além de uma ou outra conversa que já tive com o boss - que por acaso é escocês - tive no outro dia uma conversa curiosa com um senhor em Glasgow, que dizia que se irritava quando as pessoas diziam que o seu inglês era muito bom; "Eu não falo inglês", dizia ele, "Falo escocês, o que não é de todo a mesma coisa". Eu não concordo, inglês é a língua, o que há são depois as variantes. Ninguém diz que fala americano, assim como não se diz que se fala brasileiro; o que existe é o inglês escocês, o inglês indiano, o inglês irlandês, e por aí fora. Português europeu e português do Brasil. Mas não deixa de ser extremamente interessante a veemência com que o senhor disse aquilo, e a forma como ele diferencia a língua que fala, da língua que falam grande parte dos seus concidadãos. Durante a licenciatura, quando fiz o minor em Estudos Ingleses, um dos livros de leitura versava precisamente sobre a identidade dos vários povos das ilhas britânicas. Fascinou-me - e continua a fascinar-me - a complexidade das identidades nacionais dos quatro países. O que é ser britânico? E o que é ser inglês, escocês, welsh? Que um escocês não é inglês mas é britânico (ou pode nem se sentir tal). Mas que um inglês entende Englishness e Britishness como sendo a mesma coisa, e que por vezes um escocês se identifica mais como europeu do que como britânico. Fascina-me profundamente, isto das identidades nacionais. Se não tivesse seguido pela via do género, na minha dissertação, tenho a certeza que teria enveredado por aqui. O referendo para perguntar aos escoceses se querem uma Escócia independente já tem data marcada para setembro de 2014, e eu mal posso esperar pelo resultado. Seria algo inédito nos nossos dias, e, caso vença o "sim", muitas questões ficariam em aberto: Teria a Escócia que se candidatar novamente à UE? Manteria a libra esterlina? Como seria o estatuto dos seus cidadãos? Teriam que pedir visto para visitar outro país europeu? Desatará a abrir embaixadas escocesas pelo mundo fora? É incrivelmente interessante porque abriria um precedente nesta Europa cujas regiões querem mais e mais autonomia: a Catalunha, o Norte de Itália, o País Basco, a Bretanha, a Flandres, a Irlanda do Norte...

Mas divago. Eu queria era vir para aqui sonhar um bocadinho e não meter-me numa discussão sobre nacionalidades.

Dizia eu que a minha viagem de sonho à Escócia é muito mais do que Edimburgo ou Glasgow. Há outra parte crucial, para além de a palmilhar de uma ponta à outra, que é o meio para lá chegar: obrigatoriamente partindo de King's Cross de comboio, atravessando Inglaterra toda até à região nortenha do UK. Para vislumbrar o campo inglês, uma ou outra aldeia lá ao fundo, e ver a paisagem a mudar de forma.

Esta semana, foi mesmo isso que aconteceu. Não parti de King's Cross mas de London Euston (uma vez que para Edimburgo é que eles partem de KC e eu fui para Glasgow) e a atenção à paisagem foi reduzida uma vez que ia a trabalhar (benditos comboios com wi-fi) mas deu sem dúvida para maravilhar os sentidos e espicaçar a curiosidade. Se eu pensava que tal viagem me iria apaziguar o desejo de conhecer a Escócia, enganei-me profundamente; se há coisa que fez foi tornar mais obsessiva esta vontade. 

A viagem dura cinco horas e, a cerca de hora e meia do fim, as planícies verdes inglesas começam a dar lugar a um outro tipo de paisagem bem diferente:





Olhei para o lado e até me assustei com o que passava do outro lado da janela: montes imensos, arredondados e verdes, florestas e vales, pelos quais o comboio passava, indiferente e seguindo o seu curso. Começou-me a dar um bocado de raiva por a máquina fotográfica (ou vulgo telemóvel) não estar à altura para captar a beleza do que os meus olhos viam; e convenhamos que a janela de um comboio em movimento não ajuda. Às tantas desisti e decidi apoiar-me apenas nos olhos e na memória para guardar estas vistas.

Quando parámos em Carlisle e eu vi escrito por debaixo da placa da estação a expressão "Lake District" é que me ocorreu que aquilo ainda não era a Escócia mas sim uma região que já tinha ouvido falar por alto, pautada por lagos (pois), florestas e de grande beleza natural. 

E foi então que a minha lista de "sítios a visitar antes de morrer" adquiriu mais um nome. No fundo, no fundo, o que eu quero é palmilhar o Reino Unido de uma ponta à outra, que aquilo tem tanto sítio para visitar, tanto castelo, manor, palácio, aldeia, vila e parque natural que uma vida inteira não chegava para conhecer como deve ser.

Entretanto comecei a chegar à Escócia. Uma vez que as linhas férreas não têm placas de indicação, como é que eu descobri? Muito simples:








Neve!

Quilómetros e quilómetros de manto branco a tapar aquelas montanhas e aqueles campos, que desconfio tenham outro encanto quando a neve derrete. Mas assim, de uma perspetiva quentinha e confortável, me pareceram muito bonitos na mesma. 

Ainda embriagada pelo que tinha visto na viagem, surripiei da receção do hotel uns três ou quatro panfletos de excursões pela Escócia. Só para me darem umas ideias... Entre eles havia uma revista grátis totalmente devotada a roteiros a pé pela região. Páginas e páginas com percursos de vários quilómetros, com respetivos mapas, distâncias e fotos do que se pode ver em cada um. Fiquei pasmada com a devoção que aquele povo parece ter pelas paisagens incrivelmente belas com que a natureza os brindou. De notar que este é um país onde em meados de março apanhei neve e ventos gelados, e onde no inverno anoitece às três da tarde. E não é plano, de todo. Nada convidativo a atividades exteriores, portanto. 

No meio da coleção, encontrei o que andava à procura: excursões de um, dois e três dias por sítios emblemáticos da Escócia. Ouro sobre azul: são excursões pequeninas, em carrinhas de 7/9 lugares, muito personalizadas e com guias apaixonados pelo que fazem. Desde a experiência na Normandia, onde fizemos uma destas excursões muito pessoais pelas praias e cemitérios de guerra, que acredito ser a melhor maneira de conhecer verdadeiramente uma região. Alugar um carro é aventureiro mas para quando se tem muito tempo e, arrisco, dinheiro. Há que contar com muito desvio, enganos no caminho, fails em aldeias ou vistas que não são assim tão bonitas porque na foto pareciam diferentes. Partir com um guia é ter a certeza do que se vai ver, de que vamos visitar o que há de mais bonito e historicamente relevante. E além disso, é completamente diferente acompanhar as vistas com relatos apaixonados e cheios de detalhes que só quem conhece pode dar. 

Trouxe o panfleto das excursões. O grupo chama-se Timberbush Tours e é exatamente o que pretendo no dia em que a roadtrip pela Escócia acontecer. Espantou-me os preços em conta (excursões de um dia inteiro por volta de £30 por pessoa) e a diversidade de percursos por onde escolher. Comecei logo a maquinar fazer dela a nossa escapatória deste verão, mas por mais que deseje esta viagem sei que não vou poder privar-me de verdadeiro calor e sol uma vez no ano e ir mais para o norte em vez de rumar ao sul. Este inverno extraordinariamente rigoroso não me deixa sentir bem em desperdiçar a semana estival anual numa viagem à Escócia. Cá ficará a marinar por mais uns aninhos. Entretanto, vou-me babando com as fotos do folheto.



S.


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Nacionalidades e racionalidades

Porque veio mesmo a calhar, relativo ao meu último post, para calar as minhas preocupações sobre conhecimento de gente local:

A minha supervisora, no meu novo emprego, é belga.

Fiquei muito contente, porque assim já tenho alguém com quem bombardear com perguntas sobre as maiores e mais pequenas idiossincrasias deste meu país hospedeiro.

Já comecei com as relacionadas com as línguas e os aparentes - ou não? - desentendimentos e ressentimentos entre valões e flamengos, fonte de enorme interesse da minha parte. A essência de um país vai sendo descortinada através de pequenas peças que vamos juntando aos pouquinhos e ao longo do tempo, coisas que em si mesmas são irrisórias, mas que todas juntas constituem o caráter de um povo e de um país. 

A minha precisa ideia sobre a Bélgica e sobre o povo belga é precisamente a ausência de essência. Ou melhor, é uma essência que se caracteriza por desentendimento e tensões entre as duas comunidades linguísticas; um flamengo é capaz de ter mais que ver com um holandês do que com um valão. Apesar de o primeiro e o último terem o mesmo passaporte.

É por isto mesmo que a nacionalidade vale o que vale, e que tanto pode ser muito como rigorosamente nada. Da mesma forma, e precisamente por ser relativa, não deve servir de medida para nada. Tal como a raça, o género ou qualquer outra coisa aleatória e fora do controlo da pessoa.

...

E depois deste filosofar profundo vou dar às pernas para não ser só o cérebro a cansar-se.  




S.

domingo, 15 de julho de 2012

O guia xenófobo sobre os portugueses #2

Como disse no último post sobre o fantástico livrinho xenófobo, é verdade que o autor afirma várias coisas sobre os portugueses que eu não faço ideia onde foi buscar. Mas por isso mesmo vou partilhá-las; pode ser o meu conhecimento sobre os meus compatriotas que tem lacunas.

"Algumas lojas portuguesas ainda fecham para almoço e embrulham as nossas compras em papel e fio."

?? Não faço ideia onde este senhor inglês andou às compras aquando da sua pesquisa para o livro, mas o facto é que eu não me lembro, em toda a minha vida, de ter comprado alguma coisas e trazê-la embrulhada em papel e enrolada com um cordel. Inclusive, tenho vívidas memórias de infância da loja onde a minha mãe trabalhou durante anos e nunca a vi fazer isso. E nós vivíamos numa aldeia.

Outra:

"Em 1974, quando o exército português se rebelou contra as ordens do regime para subjugar os movimentos de independência nas colónias portuguesas, a música do cantor de folk e fado José "Zeca" Afonso foi o despoletador do que ficou conhecido como a "Revolução dos Cravos" ..."

O Zeca Afonso foi um fadista?? Sinceramente nunca me apercebi. Mas isto posso ser só eu...

Mas o que realmente mereceu um esgar de outraje da minha parte foi o seguinte:

"Apoiar uma equipa de futebol em Portugal é um assunto complexo. Se fores de Coimbra, serás com certeza um apoiante do Académica. A não ser quando o Benfica joga contra a Académica, pois nesse caso torcerás pelo Benfica. Ou podes ser apoiante da outra equipa mais operária de Lisboa, o Sporting."

Equipa operária?!?!?! Mas que confusões vem a ser estas?!?!?! A equipa operária da capital é o Benfica; que eu saiba o Sporting nasceu precisamente como equipa da elite! Aliás, não faltam entre nós portugueses as piadinhas entre a origem social de quem apoia as duas equipas. Ainda que hoje em dia já não haja a correlação entre equipa e classe social, é completamente errado afirmar que o Sporting é a "equipa mais operária" da capital. 

Enfim, deixo aqui provas empíricas para suportarem o meu argumento:






Como diz o Raminhos, no fundo vai tudo dar ao mesmo. ;)



S.


P.S. Já agora, os programas do Rui Sinel de Cordes, Gente da minha terra, e Gente da minha terra - Europa, são praticamente versões em vídeo destes guias xenófobos sobre diferentes nacionalidades e regiões do nosso país. Garantido, o humor negro e por vezes mórbido do apresentador determina que ele não agradará a todos e terá alguns problemas em Portugal (como teve). Mas a meu ver, é simplesmente certeiro e mordaz. À moda de um Frankie Boyle, quase.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ouvi bem?

Andar de metro sempre foi para mim uma experiência sociológica muito interessante. Divirto-me a observar a maneira como o ser humano reage quando tem de estar fechado uns bons minutos com estranhos. As pessoas adoptam uma postura de indiferença extrema para mascarar o embaraço que é partilhar o espaço pessoal com completos desconhecidos (especialmente em horas de ponta). E depois é o facto dos bancos nos metros estarem dispostos frente a frente, de maneira a que os seus ocupantes sintam embaraço a dobrar, já que tentar evitar olhar para as pessoas que vão à nossa frente torna-se um experiência desgastante. Especialmente porque olhar para a janela, a distração mais comum nos transportes públicos, não funciona no caso dos metros: não há paisagem!

O meu transporte de eleição aqui em Londres sempre foi o metro, como é óbvio. A minha desconfiança em relação a autocarros urbanos, conciliada com uma magnífica e extensa rede de metropolitano fez com que eu apanhasse metro sempre que me tinha que deslocar, fosse para a universidade, fosse para qualquer sítio de visita. Ora, o que se passa é que numa rede de metro tão extensa e por coincidência a mais antiga do mundo, há sempre qualquer atraso numa linha, qualquer corte parcial, etc. Por isso é normal ouvir pelos altifalantes das estações e das carruagens que esta e esta linha estão com minor delays ou partially suspended. É algo que uma pessoa já só liga com meia-atenção.

O que hoje me surpreendeu foi isto. Lá começou o senhor da estação a fazer o inventário das linhas com problemas naquele determinado momento e às tantas diz 'The Bakerloo Line is partially suspended due to a person under a train.' A minha reação foi um grande 'HEIN?' Porque o senhor disse aquilo com a mesma naturalidade com que anteriormente tinha dito que a Victoria Line estava com atrasos devido a um sinal avariado. Quando já estava dentro do comboio, novamente a mesma informação. Mas desta vez (reação sociológica a caminho) um americano lança lá de trás '... Did he just say "a person under a train"???' Não conti o riso. Até levantei o livro que estava a ler para tapar a cara e esconder esta reação sociológica tão imprópria que é rir sozinha no meio de um comboio. Não é agradável que, mesmo estranhos, achem que nós temos vários parafusos a menos.

Se há coisa que adoro é ouvir português no metro. Calo-me bem caladinha, tento fazer cara de inglesa (não faço a mínima, mas tento) para que não suspeitem que sou co-cidadã e apuro o ouvido à espera de ouvir qualquer coisa que me faça rir. Porque conheço bem a sensação de estar num sítio e poder falar à vontade porque ninguém nos entende. Sensação esta que os ingleses nunca poderão ter mas que aos portugueses é muito comum. Neste caso não foi nenhum português mas sim um grupo de jovens americanos a falar de portugueses. Eu sempre com o meu costumeiro livro para que a viagem passe mais rápido e se torne mais útil, ouvi de repente isto: 'Portuguese girls are sooo ugly.' E já que o rapazinho teve de repetir porque o amigo não percebeu à primeira, tenho a certeza absoluta que foi isso que ele disse.

Ti-po...! Esta frase está tão errada em tantas dimensões. Como se pode generalizar beleza ou fealdade a uma nacionalidade?? Uma nacionalidade não é sequer uma raça, uma etnia, é uma construção artificial, logo, naturalidade e genética nem têm nada que ver com o assunto. Esta é a refutação racional. A outra que me ocorreu foi 'Sim, porque as americanas são tãããão mais bonitas!'. Infantil, mas mais satisfatória.

A refutação foi toda feita na minha cabeça claro, continuei a ler o meu livrinho mas com o ouvido apurado a seguir o resto da conversa. Aparentemente as raparigas mais bonitas são as russas e as argentinas. Ah, e as do Brasil. Mas as do Brasil é complicado, estão divididas em duas categorias (muito ao jeito das classes sociais) 'muito feias' e 'super hot ones'. Claro que as 'super hot ones' são buééééé difíceis de conseguir mas estão lá, pronto.

São estas as inacreditáveis coisas que uma pessoa ouve num metro. Hoje a minha viagem, do ponto de vista sociológico, foi repleta.


 


S.