Mostrar mensagens com a etiqueta representação da mulher nos media. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta representação da mulher nos media. Mostrar todas as mensagens

domingo, 21 de dezembro de 2014

Os limites da imaginação humana

Ontem, enquanto assistia ao último filme do The Hobbit, estive agudamente consciente de uma coisa: inventam tanto troll, tanto orc, tanto elfo, tanto verme gigante, tanto anão, tanto hobbit, tanto feiticeiro, mundos mágicos com pormenores intrincados, línguas novas que se criam de raiz, criaturas que são misturas de hienas e cavalos, dragões que falam, mas o que não se consegue inventar nem conceber é uma sociedade - nem que seja de anões, de orcs, de feiticeiros ou de elfos - que não seja patriarcal. As relações de género são as mesmíssimas que no nosso mundo real aborrecido.
(Os exércitos são todos de criaturas do sexo masculino, pouquíssimas personagens femininas e as que há é para enfiar histórias de amor no enredo, ou para serem filhas que gritam muito de horror para serem salvas pelo pai e irmão, a companhia que foi reconquistar a montanha era toda de anões homens + hobbit homem + feiticeiro homem, o previsível "women and children" para o abrigo enquanto os homens lutam, etc.)
 
Mulheres no poder e a fazerem coisas que importam, isso é que era ficção científica.
 




S.
 
 
P.S. Os elfos, ainda assim, parecem a sociedade mais igualitária. Mas para uma espécie tão perfeita, deixam muito a desejar nesses campo.

domingo, 23 de novembro de 2014

Trailer honesto d'A Pequena Sereia

Porque um dos meus passatempos favoritos é embirrar com a Disney e de todas as princesas Disney esta é a que me irrita mais:
 



Eles têm uma seleção incrível de honest trailers para além deste, é espreitar.



S.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Mulheres nos filmes e na filmagem

A New York Film Industry publicou esta fita de estatísticas e outros dados sobre a desigualdade de género na indústria cinematográfica hollywoodesca. Os resultados não são surpreendentes mas ainda assim vale a pena olhá-los, assim, preto no branco, para que não restem dúvidas da forma como as mulheres são representadas nos filmes (ou não representadas de todo):  



E um dia destes faço um post sobre o Bechdel Test. Porque é divertido e eu já tenho saudades de escrever sobre feminismo.



S.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Filmes de terror com bocejo

Eu sou (era?) daquelas pessoas que se borram todas com filmes de terror daqueles com espíritos, e crianças sinistras e assim. Vi o Sexto Sentido quando tinha 11 ou 12 anos e por causa dele apanhei uma psicologice marada em que chegava à noite e era como se uma depressão se abatesse sobre mim, andava convencida, na minha cabeça, que o dia seguinte não chegaria, e que ninguém me conseguiria garantir que ele chegaria (era uma criança muito profunda, eu sei). Não consegui adormecer durante um mês sem ter alguém ao meu lado. Eu era (sou?) este tipo de pessoa.

Continuei-me a borrar com estes filmes ao longo da adolescência, porque isto é mesmo assim, o ser humano tem uma atração masoquista pelo mórbido, e ainda hoje me borro. Mas agora, e quero acreditar que isto é fruto da maturidade, evito filmes destes como a praga. Dos que metem litros e litros de sangue, gritaria e facas nunca gostei, porque também sou daquelas pessoas que começa a ver tudo a andar a roda se vê um pingo de sangue (e um dia conto uma história muito engraçada de como quase desmaiei quando levei a minha gata ao veterinário para tirar análises). As versões mais sofisticadas - e tão incrivelmente sádicas que não percebo como os seus criadores ainda não foram presos (just in case, diria) - como Saws e afins muito menos, por isso diria que filmes de terror não são para mim.

De quando em vez lá me conseguem convencer a suportar o sacrifício, daí que saiba que me continuo a borrar com filmes de espiritices. Mas há uns dias eu tive uma epifania que mudou a minha maneira de olhar para estes filmes. Os filmes que envolvem almas penadas, fantasmas e seres de outros mundos são do melhor porque exploram o nosso medo muito humano do desconhecido, e particularmente se nunca se chega a ver a fonte dos barulhos, risos maléficos e fenómenos estranhos então é de nos ficar a remoer a mente porque é uma ameaça nunca concretizada, impossível de lutar contra. Mas isso é raro, e normalmente lá aparece uma bruxa feia, toda despenteada e de olhos esbugalhados, ou uma criança sinistra de pijama com ar muito sério, e normalmente uma pessoa pensa cheia de desilusão "ah, é isto...". Mas voltando à epifania. Normalmente, nestas coisas dos espíritos e demónios e assim, a arma tem um simbolismo cristão. Nos exorcismos então diria que é 100%. Terços, crucifixos, águas bentas, padres, etc, são sempre a maneira de afastar estes bichos do Além. E isto, descobri eu, é muito aborrecido para uma ateia como eu. Estabelece-se no filme uma narrativa em que o Cristianismo é a realidade. Não há espaço para Alás, nem para Budas, nem deuses mitológicos. E os próprios espíritos vivem (salvo seja) segundo essa narrativa! E validam-na. Ora, porquê? Porquê que um espírito iria dar a mesma validação a um objeto que só tem validação porque os humanos lhe dão? Porque é que atirando com uma Tora à "cabeça" do espírito não funciona? E de que é que tinham medo os espíritos no "Antes de Cristo"? Para mim, a história dos espíritos até seria verosímil, mas deixa de o ser a partir do momento em que vejo o conluio cristão da coisa; se eu não engulo o sagradismo da coisa então também não consigo engolir a sua antítese. Cai todo o sistema de pavor que o filme tenta incutir. 

Outra coisa são as metáforas. Muito gostam os espíritos de assustar através de mensagens veladas. No Conjuring, há lá uma parte em que começam a cair da parede os quadros todos com fotografias dos membros da família. Porquê? Porque o espírito queria matar os membros da família. Uuuuuh, que metáfora tão bem pensada... Para quê? Que maquinação tão humana, valha-me deus*. Deixar mensagens e não sei quê, quer matar, mata. Parvoíce.

Depois há a velha história de alguém que morreu na casa assombrada, que é sempre uma mulher, ou que ficou maluca, ou que matou os filhos ou assim. E estas coisas da representação dos géneros nos filmes vai-me acionando a mente nos momentos mais inoportunos e eu chego à conclusão que isto é tudo a exploração de velhos temas que fazem parte do folclore ocidental há séculos: a loucura que se achava que todas as mulheres tinham em maior ou menor dose mas sempre latente, e o mito da maternidade como expoente máximo da mulher e o sagrado da relação mãe-filho e do quão contra-natura e inspirador de medo é quando isso não é assim (refletido no extremo com a mãe a matar o filho/a filha. Isso é sobrenatural, um homem matar os filhos é "apenas" homicídio a sangue frio). Aposto que esta relação entre filmes de terror e mitos sobre a condição feminina dava um estudo interessantíssimo e aposto como já existem uma data deles.

Não me interpretem mal, eu continuo a ver estes filmes por detrás das mãos e a apanhar cagaços mesmo assim (se metessem aquelas músicas numa comédia continuava-se a apanhar cagaços, mas enfim), mas agora já não me desafiam mentalmente, já não fico com eles agarrados durante dias e dias à cabeça a rever imagens mentais do filme. O que está por detrás dos cagaços e da música bem escolhida tornou-se só parvo. 


* isto é uma expressão linguística, não venham chatear a ateia.

S.   

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Patriarcado para dummies


"American storytelling is still driven by the assumption that is at the heart of the Western canon: The male experience is the universal human experience, whereas the female experience is specialized, driven by biological factors, the absence of which prevents men from being able to see themselves in female characters."


O que é afinal a igualdade?

Este é um debate fundamental dentro do feminismo e contra o feminismo, e uma palavra que me levou muito tempo a entender. Digo com franqueza e honestidade que ainda não entendo toda a complexidade do seu significado mas há algumas ideias que me parecem já mais ou menos claras. Mas se a emprego constantemente em expressões como "igualdade de género", é bom que tenha alguma ideia do que estou a falar.

Na academia feminista há duas grandes correntes que defendem dois tipos de igualdade diferentes (passo o paradoxo) e que são, de forma simplista:

1. igualdade como "igualdade estrita"

2. igualdade como "sameness"

São uma espécie de rivais e feministas ainda se degladiam entre si sobre qual é a mais desejável e à qual deve o feminismo realmente aspirar. É também uma espécie de luta geracional entre feministas de diferentes vagas, que defendem que a sua luta é melhor e diferente da luta anterior.

1.

A igualdade como "igualdade estrita" é a igualdade mais básica. Foi para ela que lutaram as sufragistas, as feministas da primeira vaga (meados séc XIX - inícios séc XX), e é graças a ela que a mulher na nossa sociedade pode votar, divorciar, não é propriedade do marido, não tem que pedir autorização para viajar para o estrangeiro, pode abrir uma conta bancária, pode abrir um negócio, tem personalidade jurídica, ganha o mesmo que o homem (na teoria), tem as mesmas oportunidades que o homem (na teoria), pode frequentar universidades, etc. Esta é a igualdade de estatuto perante a lei que as mulheres já adquiriram e que portanto leva muita gente a afirmar que a igualdade de géneros está conseguida e a desdenhar do feminismo como consequência.

No fundo, é elevar as mulheres até ao estatuto que os homens gozam perante a lei, é tomar o padrão do que já existe - que é o padrão masculino - e lutar para que as mulheres tenham por direito exatamente tudo igual aos homens. Virtualmente, a ideia é abolir mesmo a questão de género, viver um dia num mundo em que nascer do sexo masculino ou do sexo feminino não implique absolutamente nada de diferente para a vida dessa pessoa. 

Esta igualdade estrita é o que leva tanta gente a interpretar mal o feminismo e a ultrajar-se quando se fala em igualdade entre homens e mulheres. Para estas pessoas, homens e mulheres são biologicamente diferentes, têm papéis sociais diferentes e acham que ainda bem, porque assim o mundo é variado e colorido e interessante. Temem um mundo em que homens e mulheres vistam de forma igual, tenham o mesmo comportamento, os mesmo hábitos e hobbies, gostem todos das mesmas coisas, tenham todos a mesma sensibilidade (ou ausência dela). No fundo, temem um mundo em que as mulheres se transformem em homens. 

Apesar de eu achar que estes receios são infundados, já que as pessoas são todas diferentes entre si, não se vestem todas da mesma maneira, não têm todas o mesmo comportamento, não têm os mesmos hábitos nem hobbies, e não gostam das mesmas coisas nem têm todas o mesmo tipo de sensibilidade, sejam homens ou mulheres, e que o género não devia ter a importância que tem atualmente nem ter uma linha tão marcadamente divisora como ainda tem, comecei a desconfiar que havia alguns buraquinhos nesta teoria. Mas antes de eu o ter sequer sonhado, já há muitas décadas atrás várias feministas o tinham descoberto, analisado, criticado, e teorizado.

2.

Na conferência a que assisti há uns meses sobre o desemprego jovem, houve a apresentação de um estudo interessantíssimo sobre a diferença de níveis de competitividade entre rapazes e raparigas em várias idades de que falei extensivamente aqui. Basicamente, revelava que desde os 5 anos que havia um défice de competitividade nas raparigas, que não era explicado pela sua competência, e mesmo em áreas em que elas até eram melhores do que os rapazes. Resumidamente, parecia haver um caso de overconfidence nos rapazes e underconfidence nas raparigas que não se sabia se era genético ou incutido através de diferentes educações dadas a cada um dos géneros. Na altura, no período das perguntas&respostas, houve uma pergunta que me ficou presa à cabeça e me deixou a matutar (até hoje). Uma eurodeputada húngara levantou-se e perguntou simplesmente: "Mas qual é o mal?" As raparigas são menos competitivas do que os rapazes, mas qual é o problema disso? É assim tão desejável que elas tenham os níveis de competitividade selvagem que pautuam a sociedade atual e que leva a tanta injustiça, stress e rivalidade perniciosa? Porque é que em vez de se lamentar a falta de competitividade das raparigas, não se preza as características de cooperação, diálogo e entre-ajuda que são muitas vezes uma conotação feminina e atribuídas às mulheres em geral? Porquê não lamentar a falta destas características nos homens?

Bom, o apresentador deu uma resposta neutra, qualquer coisa do género que não estava ali a aplaudir ou a criticar a competitividade, o estudo pretendia apenas medir a sua diferença entre rapazes e raparigas desde tenra idade. E que, por pior que fosse a competitividade selvagem e por mais desejável que fosse a cooperação, a verdade é que da forma como o mercado de trabalho está montado, a ausência de competitividade numa pessoa irá prejudicá-la, seja por que a leva a não candidatar a uma vaga de emprego, seja por não exigir uma promoção, seja por não ter a ousadia necessária para criar o seu próprio projeto. Basicamente, competitividade é a essência do capitalismo.

Mas é precisamente aqui que muitas feministas se insurgem. O mundo, tal como está montado, rege-se pelas regras e leis que os homens fizeram e decidiram à sua imagem. A mulher, que entrou nele há relativamente pouco tempo e certamente há menos de um século, que ainda só mais recentemente passou a ser parte ativa na sua construção, teve que conquistar a igualdade segundo as regras já em vigor e segundo o modelo existente, que era - como só podia ser - o modelo masculino. Mas é precisamente por isto que muitas vezes a sua luta e a sua tentativa de conquista falha. Falha porque existem coisas que não estavam previstas, porque não era preciso serem tomadas em conta, no modelo do mundo construído. É por isso que não se sabe ainda bem o que fazer com o aborto, não se sabe bem o que fazer com a licença de maternidade, não se sabe bem o que fazer com o assédio sexual, com os piropos, com o crime da violação, e, durante muito tempo, não se soube bem o que fazer com a violência doméstica. Experiências características do sexo feminino e que foram trazidas para o fórum público a partir do momento em que estas passaram a ser parte ativa do fórum público.

Da frase lá de cima:  "The male experience is the universal human experience, whereas the female experience is specialized, driven by biological factors (...)". 

A experiência masculina é o padrão pelo qual regemos a sociedade, as ideias, o mundo do trabalho, até a linguagem! O Homem, enquanto humanidade, o ele/eles enquanto pronome standard. Imaginem uma multidão de mil mulheres ("elas") e na qual aparece um homem: passam automaticamente a ser "eles". Porquê, se a vasta grande maioria é composta por elas? Pequeno exemplo mas que ilustra muito bem isto do masculino enquanto padrão universal da humanidade. Quando se fala de patriarcado, é disto que se está a falar. O homem como o padrão de "pessoa", "ser humano", e a mulher como, bom, uma "mulher", um ser humano demasiado especializado devido à sua biologia e impossível de ser compreendido pelo "homem" e mais impossível ainda, da sua experiência ser elevada à categoria de padrão.

Isto levar-nos-ia à questão da representação das mulheres nos media, que é generalizadamente tão estereotipada pela sua biologia (ou é como mãe, ou é como objeto sexual, ou é como virgem, tudo muito unidimensional). Mas como não quero ir por aí hoje, fica só aqui isto: 


You go, George. R. R. Martin, you badass story-teller!

É precisamente pela questão do homem como universal, mulher como exceção que muitas feministas reivindicam um outro tipo de igualdade. Uma igualdade que não é "igualdade estrita" mas que é antes "sameness". E eu sei que se formos ao dicionário elas aparecem como sinóminos, mas há uma diferença entre as duas que é crucial. "Sameness" é a minha experiência gozar do mesmo estatuto que a experiência do outro. Entre géneros, isto seria fazer com que a experiência feminina fosse tão válida, tão igual e tão considerada quanto a experiência masculina. A experiência feminina deixar de ser especializada, deixar de ser uma espécie de exceção à regra que é a masculina, e gozar da mesma importância e validade que esta.

Concretamente, um exemplo: a expressão "isso é coisa de gaja!", expelida sempre com o mesmo ar de desdém, deixar de acontecer. Duas coisas estereotipicamente de gajo e de gaja: os mummy blogs e os blogs sobre futebol. Gostos à parte, uns são muitas vezes encarados como coisa de mulheres que não têm mais nada que fazer e portanto nada sérios e motivo de alguma condescendência (mesmo o próprio termo "mummy blogs" transparece esta condescendência), os outros são neutros. Uma coisa ser "de gajo" não é motivo de escárnio nem desdém, é só "de gajo", é neutro.

A Germaine Greer é muitas vezes classificada como uma destas feministas que defendem o "sameness" por oposição à "igualdade com os homens". No seu livro The Female Eunuch ela diz que é ridículo e contra-produtivo a luta pela igualdade de género porque querer que as mulheres sejam iguais aos homens é querer que ela emulem um modelo estragado à partida. E com isto ela não queria dizer que os homens são estragados, queria dizer que a forma como a sociedade foi montada - por homens - tem graves defeitos e que uma mulher tentar vencer nela é obrigada a adotar os vícios e defeitos que a sociedade à partida tem. Acho que isto explica muito sobre as mulheres em altos cargos políticos e porque é que há poucas, e as que há são quase, tão ou piores, que os homens políticos: tiveram que adotar os mesmos comportamentos podres, competitivos e defeituosos para conseguirem vingar nesse boys' club, os mesmos comportamentos que os outros políticos homens adotam e que os fazem ser incompetentes e detestá-los. Ou seja, o problema não seria abrir caminho a que mais mulheres chegassem ao topo (porque depois as que lá chegariam seria as que nunca iriam mudar nada) mas sim transformar o caminho de tal forma que depois as pessoas certas (homens e mulheres) lá chegassem. 

Há mesmo muitas coisas que ainda me intrigam nesta diferença entre "igualdade estrita" e "sameness" e tantas vezes acaba mesmo por me parecer um paradoxo. É um debate que começa a resvalar para a semântica, para a filosofia e para o abstrato, mas é um debate extremamente importante no feminismo e nos estudos de género. Para mim, a igualdade de género é a luta para que não se precise de definir as coisas a partir do género. Ou seja, que uma pessoa possa ser o que quer ser sem o facto de os papéis de "homem" e "mulher" a restringirem nas suas escolhas. (Viram como evitei cobardolamente a questão das igualdades? :P)

Espero que agora este chavão aparentemente tão inócuo e óbvio já faça mais sentido:






S.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Media, é assim mesmo #5

Há meses e meses que andava para falar sobre esta série mas demorou até formar uma opinião mais ou menos duradoura sobre ela daí que o post só apareça agora. 

                           

Sexo e a Cidade mas com personagens tridimensionais. E sem o bling-bling ofuscante. E com outros tópicos de conversa que não homens. E tão, mas tão mais realista. 

Não é uma série fácil de se gostar. Diria mesmo que é daquelas coisas que ou se adora ou se odeia, e eu oscilei durante a primeira temporada toda entre o ódio e a profunda admiração. Até que estabilizei, pouco a pouco, na profunda admiração. 

Ora, o que tem o Girls para odiar? Muito fácil. A personagem principal não é nenhuma modelo, não é convencionalmente bonita, não é boazinha, nem é mázinha, ou seja, é extremamente difícil de caracterizar e de enquadrar numa das personagens-tipo convencionais. Surge, tipo, como uma pessoa normal, de personalidade complexa e cheia de defeitos e contradições - aliás, como as outras três personagens principais - e isso não é muito usual. Esta foi uma das razões por que eu demorei tanto a decidir-me pela admiração: não conseguia gostar do raio das raparigas. Eram demasiado reais e com defeitos que me tocavam pessoalmente e às vezes só me apetecia era gritar-lhes que não era assim que se fazia/dizia/comportava. Como se fossem mesmo pessoas que eu conhecesse e que me exasperassem as suas atitudes. 



Depois é a ausência de glamour. Estas raparigas vivem em Nova York, profundamente glamourizada nas mentes dos seres femininos que se habituaram demasiado ao Sexo e a Cidade, mas vivem em apartamentos pequenos, partilhando casa, sem nunca lhes vermos o closet a abarrotar de Chanéis, Diors e Loubotins, e - pasme-se! - têm dificuldades enormes em sobreviver na Grande Maçã! Fala-se inclusive em dinheiro, falta dele, eternos estágios não-remunerados, empregos precários, dificuldade em saber que rumo dar à vida profissional, tanta coisa que ressoa demasiado à minha geração que tenta dar os primeiros passos no mundo ingrato do trabalho em plena crise económica. Quando tentei explicar a uma amiga o teor desta nova série, ela respondeu-me, um bocado desiludida, qualquer coisa do género: oh, mas se é parecido com a vida real, qual é o interesse de ver? Fiquei a matutar naquilo. Realmente, se é para ver a desgraça da precariedade uma pessoa liga a tv no telejornal, escusa de estar a ver desgraça ficcionalizada. O Sexo e a Cidade era por isso uma espécie de escape para muito mulherio, a vida de trintonas Diorizadas numa das cidades mais fixes do planeta, cujos problemas mais prementes eram o que vestir para a inauguração do novo bar na zona mais trendy da cidade e se algum dos seus 50 pares de sapatos combinava com o outfit escolhido. A roupa de alta costura, o sapato de marca e os restaurantes ultra-gourmet onde as protagonistas se encontravam para falar invariavelmente de quem haviam comido na noite anterior, ou quem iriam comer na próxima, enchiam os olhos às espectadoras e criaram padrões demasiado altos e irrealistas sobre o que é ser uma mulher bem-sucedida. (E não me venham com merdas, as amizades femininas não são assim.) O Girls virou ao contrário este mundo glamourizado nova yorkino e apresenta-lo-nos numa travessa de plástico, sem se importar em tirar os podres da vida na Big Apple. É demasiado cru e comum, não enche olhos de estrelas a ninguém.






Mas eu diria que o maior pecado desta série, para muita gente pecado capital, é a protagonista ser tão normal. Ter um corpo normal, excesso de peso, e não ter vergonha. Não só não ter vergonha, como ainda ter o desplante de aparecer nua em tantas cenas, inclusive cenas íntimas, ou apenas de tronco destapado, mamas ao léu e barriga redonda em toda a sua glória. E isto foi algo que eu demorei algum tempo a habituar. Ali estava uma rapariga normal, com uns quilos a mais e com um corpo que desobedece aos padrões impossíveis de beleza feminina (como aliás, 99,9999% dos das mulheres desobedece) e sem qualquer pudor em mostrá-lo no pequeno ecrã. Ao início, olhava aquilo com um misto de estupefação e admiração embasbacada, com um leve traço de inveja pelo à-vontade e coragem desta rapariga, mas com muito rebolar de olhos por me parecer que havia ali pelo meio gratuitidade nas cenas de nudez/sexo. Mas à medida que a série avançava, e eu ia tendo noção que aquela moça que ronda a minha idade era a escritora, produtora e protagonista de uma história que desafiava cada vez mais os padrões do que uma pessoa está habituada a esperar de uma produção americana, a admiração cresceu e eu venci a preguiça que me tinha dado para avançar para a segunda temporada e recomecei a ver a série que de tão realista se havia tornado dura de ver. 




Os temas tratados são também extremamente interessantes e uma raridade na tv. Há stalking, há doença obsessivo-compulsiva, há desemprego, há incerteza sobre o que fazer após a univ e os primeiros estágios, há a falta de dinheiro, há a dependência emocional, etc. Nunca com uma nota de moralidade, nem com um final feliz, nem com drama despropositado. Apenas pessoas a cometer erros e às vezes sem qualquer noção, como se fossem, er... pessoas. Muitas vezes me interroguei se muita coisa não seria baseada em situações reais vividas pela Lena Dunham porque simplesmente me parecia impossível alguém conseguir imaginar tal coisa tão intrincada mas tão plenamente realista. Entretanto descobri que sim, muita coisa é baseada na vida real da escritora/protagonista o que explicou também para mim o facto de ela ser um bocado má atriz. Parece mesmo que está a fazer de si própria (e pelos vistos está). 

Há uns dias, quando finalmente me tinha decidido pela admiração profunda, fui pesquisar mais sobre a série e a Lena e descobri rapidamente que ela se intitula de feminista. Não foi choque nem surpresa nenhuns; alguém que tem a ousadia de fazer uma série como esta só poderia ter uma sensibilidade apurada para as questões de género. A coragem de desafiar os padrões-espartilho de beleza e o des-pudor em mostrar o corpo feminino tal como ele realmente é é apenas mais um pormenor dessa consciência feminista. Claro que o que para mim é visto como audácia, para muitos é visto como exibicionismo puro. Mas não é o exibicionismo que incomoda os haters, é a lata que uma mulher sem corpo esbelto tem de aparecer nua na televisão tantas vezes. 



Incha, haters.

Que não fiquem os mais céticos com a ideia que isto é uma série cheia de lições de moral e que as mulheres são grandes heroínas e cheias de auto-confiança e desprezo pelos homens: nada disso. Os temas não são realmente "temas" a ser tratados em cada episódio e com uma moral da história feminista no final; é antes a complexidade e a forma como as personagens caem em certas situações que revela um veio feminista muito subtil mas omnipresente, se se o quisermos notar
.  
Não recomendo a série a ninguém porque compreendo perfeitamente que se possa não gostar. Ela não é fácil e mesmo com todas as suas inovações e "recomendações" feministas a minha paixão por ela não foi imediata e demorei a admitir o brilhantismo da coisa. Mas se gostarem de algo diferente e a vida banal da casa dos 20 não vos aborrecer, ide espreitar. 

Só deixar aqui uma cena do primeiro episódio e que me arrebitou a orelha logo para o potencial feminismo da série:


  


S.

P.S. Uma vez uma delas apareceu sentada na sanita a fazer xixi :O E eu que achava que as mulheres da tv não faziam xixi nem cocó!...

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Moral das histórias

Houve alguém que decidiu pegar em alguns filmes Disney e meter-lhes nomes mais honestos ao que a história é. O resultado é muito bom, especialmente na parte das Princesas:

A Cinderela e a sua super makeover que envolveu abóboras transformadas em coches e sapatos perdidos:


A pior Princesa Disney com o título que merece e que eu já tinha reclamado há uns mesitos:



Este filme nunca vi por isso não posso atestar sobre a veracidade da crítica. Mas fez-me rir:


Oh, este é muito bom :'D



Muito bem apanhado, sim senhora. Ficam aqui mais duas que, não tendo que ver com representação das mulheres nos media, me arrancaram mais umas boas gargalhadas:



Exato, tanto cão que aquele filme tem!


Hahahaha! Disney, a promover Shakespeare entre os mais novos desde 1994 :D


Isto é tudo daqui: If Disney Films Had Honest Titles



S.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Disney cobardolas

A Mérida entrou para o Clube das Princesas da Disney. Só esta frase dá logo medo, eu sei. E há razões para ter.

A protagonista do Brave, essa princesa que havia sido tão elogiada por romper tão necessária e brilhantemente com o estereótipo da princesa-Disney-de-sorriso-amarelo-e-vida-merdosa-cuja-salvação-realização-e-felicidade-vem-sob-a-forma-de-príncipe encantado, ganhou o estatuto master que as personagens femininas da Disney podem almejar e que traz tanto dinheirinho ao senhor Walt. Só é pena terem lixado a personagem toda nos entretantos.

Ao que parece, a Mérida levou um upgrade quando foi incluída no Clube. Está agora mais velha, mais curvilínea, sorrisinho amarelo (pronto, é uma boneca, mas há expressões e expressões), e vestido bem mais justo, decotado e sparkly.



Espetacular, hã?

Porque é que a Disney decidiu estilizar a heroína mais inovadora e que provavelmente lhe valeu mais elogios dos últimos tempos? Estavam a ir na direção certa: uma rapariga normal, com personalidade própria, aventureira, curiosa, amorosa, que bate o pé quando é preciso, corajosa, divertida, ativa. Uma rapariga de um conto de fadas com a qual milhões de meninas se podiam identificar. Mas mais importante: uma personagem feminina que rompia com o ideal de beleza sexualizado e banal que nos entra pelos olhos adentro todos os dias. Algo diferente.

Vergonha para cima de vocês, Disney. VERGONHA.

Eu acho que isto foi uma reação de incapacidade de pensar fora da caixa. Eles têm um padrão de princesas e acharam - muito erradamente - que a figura "Mérida" só poderia ser comercializada se encaixasse esse padrão redutor de princesa aka beleza feminina normalizado. Dizem eles que as crianças preferem coisas que brilhem, para justificar a mudança do vestido. Meter um bocadinho mais brilhante não é sinónimo de arredondar formas e aumentar decotes (ela é suposto ser uma criança, porra!). E de qualquer forma, seguindo esta lógica do "brilhante vende mais" gostava de saber então porque é que os super-heróis não brilham. Ou os Action Men. Ou os Legos. A não ser que a explicação seja "as meninas nascem com um gene qualquer que as atrai para coisas que brilham" ao invés de "os brinquedos da secção MENINA, têm uma grande quantidade de brilhantes o que as faz associar brilhantes com brinquedos para menina desde que nascem". É tipo uma espécie de pescadinha de rabo na boca (o que é que surgiu primeiro: o marketing dos brilhantes ou o gosto pelos brilhantes?) que ninguém tem coragem de quebrar. A Disney decerto não teve, mesmo quando a oportunidade certa se lhe apresentou. A decisão de fazer upgrade da Mérida para o molde sexy do costume foi portanto, além de desapontante, extremamente cobarde.

Há por aí uma onda de indignação com este upgrade vinda especialmente de pais que estavam extremamente contentes com a inovação do filme Brave. A criadora da Mérida juntou a sua voz a esta indignação coletiva e fez saber que:


"I think it's atrocious what they have done to Merida. When little girls say they like it because it's more sparkly, that's all fine and good but, subconsciously, they are soaking in the sexy 'come-hither' look and the skinny aspect of the new version. It's horrible! Merida was created to break that mould, to give young girls a better, stronger role model, a more attainable role model, something of substance, not just a pretty face that waits around for romance."


A Disney já respondeu qualquer coisa muito apaziguadora mas extremamente pouco comprometedora, do género, "sim, levou upgrade mas continua a mesma Mérida no interior." Hipócritas do caraças.

Fica a desilusão que afinal a Disney de inovadora tem muito pouco.



S.   

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Media, é assim mesmo #4


Eu bem digo que é nos filmes em que menos espero que encontro pérolas do anti-cliché-da-representação-feminina. Neste caso, não foi nenhuma personagem em especial que me despertou a atenção nem o próprio enredo. O London Boulevard é apenas mais um filme de gangsters. O facto de ser passado em Londres foi decisivo para a sua escolha mas isso agora não é para aqui chamado.

O filme tem mais uma daquelas cenas de 15 ou 20 minutos que pela bofetada à máquina hollywoodesca - e aos media em geral - faz com que mereça um lugar aqui. Cá vai ela:











Pronto, é isto. As 3 personagens-tipo femininas que eu mencionei há vários posts atrás. É a neurótica para contrastar com o homem que só quer é levar uma vida normal, a sedutora e a virgem que servem apenas de pretextos para as torpelias masculinas, e a mãe que representa a figura omnipresente na vida da personagem masculina. Todas, no fundo, não passam de bengalas ao ator principal. Daí que incluírem uma personagem de um filme a constatar isto seja mesmo muito bom. Gosto muito quando Hollywood morde a própria cauda. 

E o Colin Farrell anda a levar muitas lições de representação das mulheres nos filmes, haha!



S.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O maravilhoso mundo da publicidade sexista

É difícil reparar quando uma coisa está errada se vivemos com ela desde sempre e não conhecemos alternativa. É preciso grande dose de imaginação para envisionar um mundo diferente se esse mundo nunca existiu. Esta dificuldade é elevada ao quadrado se achamos que a nossa realidade não tem mal nenhum; é normal, pois se nunca conhecemos diferente porque haveria de estar errada?

Vivemos num mundo altamente sexualizado. Isto não seria necessariamente mau se essa sexualização fosse natural, igualitária, e acima de tudo saudável. Mas está longe de o ser porque as mensagens com que somos bombardeados diariamente - quase sem notar conscientemente, de tão banais que se tornaram - passam uma imagem de uma ultra-sexualização particularmente violenta para a mulher, em que o que conta é o desejo masculino, e a perfeição do corpo feminino em nome não se sabe muito bem de quê (da juventude, da frescura, da passividade, da mulher tornada boneca...). Hoje confunde-se empowerment da mulher com salto-alto, disponibilidade sexual instantânea, solário, lipo-aspirações, maquilhagem, saias curtas e justas. É o sair de uma gaiola e enfiar noutra, pensando que agora sim, se chegou à liberdade.




N' O Segundo Sexo, a Beauvoir fala disto. Precisamente como a aparência da mulher sempre foi moldada em nome de um ideal que não lhe diz respeito, um ideal de beleza subordinado ao que o homem deseja, variando consoante as épocas mas sempre com o mesmo objetivo comum. Um ideal que é criado tão somente para a render à passividade e à condição de boneca e manequim, embelezá-la o mais diferente possível do homem, mantê-la como o "Outro", a tal coisa para ser admirada, lá alto num pedestal ou no submundo, misteriosa porque diferente, numa vénia perpétua à aparência, nunca à sua humanidade. Daí que os stilettos vertiginosos de hoje não sejam no fundo mais que os enfaixamentos dos pés das meninas chinesas há uns séculos atrás, ou os corpetes do séc. XIX não tivessem um propósito fundamentalmente diferente que as saias-tubo: votar a mulher à imobilidade.

Beauvoir diz:

 "Les coutures, les modes sont souvent apliquées à couper les corps féminin de sa transcendence: la Chinoise aux pieds bandés peut à peine marcher, les griffes vernies de la star d'Hollywood la privent de ses mains, les hauts talons, les corsets, les paniers, les vertugadins, les crinolines étaient destinés moins à accentuer la combrure du corps féminin qu'à en augmenter l'impotence."

"As costuras, os padrões são frequentemente aplicados para privar o corpo feminino da sua transcendência: a chinesa com os pés enfaixados mal podia andar, as unhas envernizadas da estrela de Hollywood privam-na das suas mãos, os saltos altos, os espartilhos, as cestas, a armação dos vestidos, as crinolinas foram destinados menos a acentuar o corpo feminino do que a aumentar a sua impotência."


E continua, nesta crua mas tão clara afirmação:

"L'idéal de la beauté féminine est variable, mais certaines exigences demeurent constantes; entre autres, puisque la femme est destinée à être possédée, il faut que sont corps offre les qualités inertes et passives d'un objet."

"O ideal de beleza feminina é variável, mas alguns requisitos permanecem constantes; entre outros o seguinte, pois como a mulher está destinada a ser propriedade de outrém, é necessário que o seu corpo ofereça as qualidades inertes e passivas de um objeto."



É incrível como tão pouco mudou desde que Simone escreveu isto. Hoje, exemplos desta objetificação da mulher entram-nos casa e olhos adentro diariamente que já mal damos por eles. Mas é quando oiço respostas do género "Eu visto / uso / faço X para agradar a mim mesma, porque gosto, e não para agradar aos homens" que me surpreendo que, porra, a mensagem é mesmo eficaz, tão eficaz que nos chega a convencer que o fazemos por espontânea e livre vontade, e não porque somos condicionadas, todos os dias desde pequeninas, por múltiplos canais, que assim é que é. Esta dialética do inerente/externamente-condicionado é o que me fascina na igualdade de géneros e não é exclusivo dela. No fundo é isto que é a socialização, é assim que aprendemos a viver em sociedade, que interiorizamos as regras, tanto legais como informais, do que é ser pessoa. O feminismo simplesmente contesta muitas das que nos impingem sobre o que é "ser mulher" e "ser homem".

Eu não sou imune a elas, claro está. Não sou uma ermita. No meu guarda-roupa versam alguns saltos-altos, uma ou outra saia-tubo, vestidinhos bonitos e alguns extremamente restritivos à minha mobilidade. Pintei o cabelo durante vários anos, faço depilação como é esperado, pinto as unhas de vez em quando. Mas isto não me impede de questionar qual é o propósito com que calço um sapato que me vai fazer bolhas e impedir de andar rápido, porque é que mudo a cor natural do meu cabelo ou que sinto que se não cortar os pelos que teimam em crescer debaixo dos braços sinto que estou a cometer um crime. É o tentar descobrir sempre se o que estou a fazer é de minha verdadeiramente livre vontade ou se estou apenas a capitular face à poderosíssima mensagem com que sou bombardeada diariamente.

Sobre isto da objetificação da mulher, e ligado também aos posts que já fiz sobre a representação da mulher nos media, deparei-me com este vídeo brilhante sobre a forma como a mulher é mostrada na publicidade. E porque corremos o risco de não perceber onde está o problema, já que - again - isto é no que estamos banalmente imersos, decidiu-se imitar certos anúncios extremamente degradantes mas colocando um homem no lugar da mulher. Isto, mais do que qualquer outra coisa, grita o ridículo que são estes anúncios.

O vídeo faz parte de um projeto que um grupo de alunos da Universidade de Saskatchewan fizeram, no âmbito de uma disciplina de estudos de género. Aqui fica:




No dia da Mulher, andou a circular pela blogosfera um post do mesmo género, extremamente espirituoso e que espelha bem o que é isto do Patriarcado, ao criar um universo paralelo onde governaria um Matriarcado, com as mesmas falhas e degradações para um dos géneros que o primeiro. É o Plano B para a Humanidade. Ide checkar também que é mesmo bom.

O Unas também já lhe apanhou o jeito:




S.

sábado, 16 de março de 2013

Media, é assim mesmo #3

Só lá cheguei quando li a explicação detalhada.


Que filme tão complicadamente construído, de linhas curvas e sem continuidade linear no tempo. Tem a complexidade e aleatoriedade de pormenores tal e qual como num sonho.

Intriga, e dá pano para debates intermináveis, sem ser possível chegar-se a uma conclusão. Como disse, só o entendi satisfatoriamente quando li a explicação do Salon.com

Está aqui porque, para além de ter as 2 (3?) personagens femininas como absolutas principais, é uma crítica séria, velada mas forte quando nos apercebemos que ela lá está, da objetificação da mulher por Hollywood:

"He’s playing explicitly with how Hollywood uses women predominantly as sex objects — except he’s turning the formula on its head, making the women’s world a closed one, at least in Diane’s fantasy of it. But of course, in the end she’s doing the same thing a Hollywood movie normally does to a Camilla — imagining that she’s an empty object that she can possess."

As duas personagens principais + uma são complexas (como não podiam deixar de ser, depois daquele enredo tão denso e sinuoso), tão complexas como um sonho consegue ser.

Há que preparar para duas horas e meia de mind-fuck - que eu não preparei; sabia que era um thriller complicadito mas "thriller complicadito" é um grande eufemismo para o Mulholland Dr. e eu nunca tinha visto nada assim -, na certeza porém de que o Google salva a nossa curiosidade de viver para sempre intrigada.






S.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Media, é assim mesmo #2

O descubra-o-estereótipo nem estava ligado desta vez. Há alturas em que o tenho que pôr em stand-by, alturas essas em que normalmente estou muito bem-disposta e num humor de ver tudo o que há de bom nas coisas, de dar o desconto, como se costuma dizer. Ou então alturas em que o D. me começa a lançar olhares exasperados, ou a levantar os olhos ao céu numa atitude de quem pede largas doses de paciência aos anjinhos, que isto de se ter metido com uma feminista cujo passatempo favorito é vociferar contra a televisão (eu não era assim quando ele me conheceu, coitado), não é fácil e "Deixa lá ver o filme em paz...!". Aí eu respiro fundo e rodo o botão para "stand-by", limitando-me apenas a uns ares de enfado e a um ou outro revirar de olhos. Já é palpável a dose de embaraço e culpa do homem quando aparece nudez gratuita de mulherio nos filmes - particularmente comédias, aí ela é quase sempre gratuita (e sim, revolta-me apenas a que não serve nenhum propósito na história; sou contra a objetificação da mulher, não sou púdica)  - portanto sei que de vez em quando tenho que me controlar. Para bem da minha saúde mental, também, e para continuar a conseguir ver filmes e televisão.

Dizia eu que desta vez o descubra-o-esterótipo estava apenas em stand-by. O filme em questão tinha um título meio aleatório e cómico, a frase que o recomendava prometia uma história engraçada e parecia-me que vinha de fora da máquina hollywoodesca. A introdução no artigo da Wikipédia: "Seven Psycopaths is a 2012 British black comedy..." (que só vi agora, devo dizer) faz antever que o humor que encerra não é habitual.



Sem querer entrar em spoilers, basicamente é a história de um escritor que está a escrever um policial sobre 7 psicopatas (mas que não quer que o livro seja violento) e cujas linhas de enredo de cada personagem se vão desenvolvendo e cruzando com a vida real do escritor. Há uma altura em que dois amigos dele, que se dedicam a roubar cães para uns dias depois os irem entregar e receberem a recompensa dos donos, roubam o shih tzu de um mafioso qualquer e aquilo depois não corre muito bem. É mesmo muito boa a história, as personagens e o passo do filme, que é rápido e com muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, o que resulta muito bem para comédia. Cada psicopata tem os seus próprios quirks e afetações que os tornam complexamente cómicos, e lembro-me por exemplo de um que andava sempre com um coelho branco ao colo, e que uma vez gritou ao escritor "Achas que eu estou a brincar??!! É porque tenho sempre um coelho branco, não é, ninguém me leva a sério!!" e eu desatei a rir até ficar sem ar porque, convenhamos, psicopata que é psicopata não afaga coelhos. Ainda por cima brancos, que coisa mais fofinha conseguia ele ir buscar. 

É um filme que é impossível adivinhar para onde vai a seguir e muito menos como vai acabar. Não há template nenhum que se afigure por detrás do enredo já que nunca se viu nada assim antes. São os meus preferidos, estes. Nem há o tão comum "dois finais possíveis" que normalmente acontece quando o filme é bem conseguido mas uma pessoa sabe que ou será uma coisa ou outra, não há muito por onde fugir. Aqui nem sequer seria o "o cão é devolvido / o cão não é devolvido" porque a história é bem mais densa e cheia de torpelias do que merece ser reduzida nesses termos. É filme dos bons, portanto, e comédia honestamente original.

Ainda assim, o que tem este filme de feminista para merecer figurar no "Media, é assim mesmo"? Em sete personagens no cartaz, só duas são mulheres, onde está a originalidade neste campo? A resposta é uma cena de 15 ou 20 segundos, mas que me fez rir a bandeiras despregadas pelo brilhantismo puro e tão atirado ao acaso:



"As tuas personagens femininas são terríveis."


"Nenhuma delas tem algo a dizer em sua defesa."


"E a maior parte delas ou leva um tiro"


"ou é esfaqueada até à morte em cinco minutos."


"E as que não são provavelmente vão ser mais para a frente."

                           

"Bom..."



"É um mundo difícil para as mulheres. Sabes?"


"Sim, é um mundo difícil para as mulheres,"


"mas a maior parte das que eu conheço consegue articular uma frase."


Isto é tão cómico porque aborda a questão da representação das mulheres nos filmes em geral de forma tão acutilantemente irónica, extrapola a cena onde é dita, o próprio filme, e é uma punhalada na clichézeda humorística que abunda por aí. Pareceu-me suficiente para vir parar ao "Media, é assim mesmo". Um filme não tem que ter todas as personagens principais no feminino nem versar só sobre as relações entre elas para merecer um lugar aqui. Se bem que, sabe deus o quão raro isso é. E, a sério, a originalidade do enredo e das piadas não as consigo recomendar demais.



S.

sábado, 2 de março de 2013

Media, é assim mesmo #1

Bom, então o que tem a Brave de tão especial?

O que eu sabia antes de ir ver o filme era que tinha uma rapariga ruiva como protagonista, empunhando um arco, e que supostamente era diferente dos filmes habituais da Disney. O nome tornou o tom do filme óbvio mas o facto de ser sobre uma personagem feminina - ainda por cima, ruiva*! - suscitou a minha intenção de o ver. Tive-o no computador durante algum tempo e foi só quando me apercebi que a história se passava na Escócia, e para além disso, falada toda ela no sotaque tão característicamente escocês, é que me decidi a vê-lo de uma vez por todas.




Depois de parar de sorrir estupidamente e me habituar ao tão raro de ouvir na TV inglês de pronúncia escocesa, concentrei-me na história e liguei o descubra-o-estereótipo. Mas desta vez, e porque já ia precavida que era um filme original, o descubra-o-estereótipo estava de pernas para o ar, ligado em descubra-a-originalidade. E agora vou tentar explicar como a Brave bateu o record neste novo jogo tentando ser o mais cuidadosa possível para evitar contar o que acontece na história.

O que mais me surpreendeu neste filme, e suspeito que isto seja uma coisa que a Disney tem vindo a aperfeiçoar ultimamente, foi a qualidade dos detalhes. Não falo apenas da animação, embora quanto mais atenta ao detalhe for mais agradável se torna, mas sim dos pequenos quirks que as personagens deste filme têm. As personagens não são mais só más ou só boas, como acho que já não o eram há uns anos. Mas a Disney na Brave vai mais longe e introduz características subtis nas ações e personalidades das personagens que as faz parecer complexa e contraditoriamente humanas. A sério: enquanto o filme se desenrolava eu só pensava que quanto filme "real", com pessoas verdadeiras em vez de desenhos animados, eu já tinha visto que eram tão pior conseguidos que este. Bolas, todas as personagens das novelas portuguesas e brasileiras são unidimensionais comparadas com as personagens do Brave! Para mim esta é a marca de um grande filme e o que o caracteriza como bom ou mau. Tenho cada vez menos paciência para coisas flat no grande ou pequeno ecrã. E não estou a falar de filmes em 3D; para os efeitos visuais estou-me pouco lixando. São as personagens quem conduz a história e quem faz o filme.

Bom, então dizia eu que a Brave tem este grande traço de originalidade transversal a todas as suas personagens. Isto faz com que não só se torne interessante e desafiador ver o filme, ainda que feito a desenhos, como torna o enredo difícil de adivinhar. A personagem principal não é também a típica menina rebelde, do género adolescente que diz "não" só porque o pai ou a mãe diz "sim". Tem todo um conjunto de quirks muito subtis que a tornam quase humana, e, ainda que definitivamente corajosa e ativa, não seja a pura rebeldia em pessoa. Também não existe, como eu temia, uma espécie de antagonista a esta personagem que seja a má; sim senhora, há uma rixa entre a Merida e a mãe, mas a própria mãe tem uma série de subtilezas que a impedem de se caracterizar na puramente rígida figura autoritária parental.

Duas outras coisas que fizeram este filme um dos mais originais que vi ultimamente:

1. A relação mãe e filha é central ao filme todo. Pela primeira vez desde, er... eu arriscaria "sempre", temos um filme de desenhos animados com duas personagens femininas como personagens principais. Lembrai as categorias de personagens-tipo femininas que eu fiz há uns posts atrás: nenhuma delas se encaixa. A mãe não se encaixa na personagem-mãe típica porque não é nem self-effacing nem serve de bengala à filha; está antes par-a-par com esta, tem personalidade complexa e própria e é essencial à trama. As duas têm uma relação mãe e filha cheia das contradições e incoerências próprias das relações mãe e filha reais. 




Ah e ela também não tem uma família disfuncional, do tipo justificação para ser espigadota; é tudo gente fixe e cada um com a sua pancada, o que torna o enredo divertido mas plausível.




2. Continuando nisto da personagem-tipo bengala, a Merida também não serve de bengala a personagem masculina nenhuma. Confesso que no meu subconsciente estava sempre à espera de ver surgir na tela o "príncipe encantado", o amigo, pelo menos, que a ajudaria a desenvencilhar-se da trama da história e que inevitavelmente selaria o final feliz. Eu tinha ouvido dizer que a Brave era original mas podia ser só por ser corajosa. E nisto das representações eu aprendi a ter as expectativas baixas. Mas quanto à personagem príncipe-encantado, nada. Nicles. Nem o cavalo, que aqui era o mais próximo de amigo que se poderia apontar a ajudou a desenvencilhar-se das coisas assim por aí além.  




Depois há os bónus: os que já falei sobre o sotaque escocês e as paisagens constantes das Highlands, a história ser contemporânea dos contos da Juliet Marillier que eu costumava ler, se ouvir constantemente folclore escocês e os irmãos dela a um ponto estarem a brincar com haggis :D Ah, e tem um bocado de magia, como não podia deixar de ser, e para se poder qualificar como um conto de fadas.

Conto de fadas mas, por tudo o que expliquei, conto de fadas original acima de todas as minhas expectativas. Se a Disney continuar nesta linha vai certamente redimir toda a clichézada que tem na sua história de princesas.

Um grande thumbs-up à Merida ;)






S.


* O ser ruiva por si só não lhe acrescenta nada de originalidade em termos de personagem feminina Disney - a Ariel é ruiva, atenção. É só mesmo porque eu tenho um fascínio por ruivez, um fascínio um bocado aleatório e impossível de explicar. Por isso para mim ela já tinha ganho pontos antes de ver o filme :D

Disney redimida

Por falar em representação de mulheres nos media: Disney. A Disney deve ser uma das marcas mais conhecidas e amadas no mundo inteiro. Há muito que deixou de ser apenas uma empresa de filmes de animação; desconfio mesmo que hoje em dia o filme anual de desenhos animados que a Disney lança seja apenas o pau de lenha com que atiça a enorme fogueira do seu sucesso. Ou seja, é apenas o que inicia uma nova explosão de peluches, bonecos, fatos de mascarar, copos, toalhas, canecas, pijamas, canetas, mochilas, babetes, legos, etc, etc. Toda a parafernália de merchandise que toda a gente que já visitou uma loja da Disney sabe. Um novo filme de animação gera também novos bonecos, diversões temáticas e desfiles para acrescentar em todo o parque que a Disney tem espalhado pelo mundo. Resumindo e concluindo, a Disney é uma mega-marca mundial que gera milhões e milhões todos os anos, e que é hoje muito mais do que os filmes.

E o que é facto é que a Disney deve ser das marcas mais bem-amadas deste mundo: não há pessoa que eu conheça que não goste dos filmes da Disney, que não olhe para aquele castelo branco sobre fundo azul com olhos sonhadores e um sorriso estúpido nos lábios, e que sinta uma nostalgia da infância a descer sobre si. Mesmo quando a pessoa em causa não cresceu com aqueles filmes; em Portugal, pelo menos, só as crianças de finais da década de 80 - eu incluída - é que cresceram a ver os filmes da Disney. Isso não impede que pessoas da geração dos meus pais amem os filmes da Disney menos do que nós. Só aqui está bem refletido o sucesso da Disney em associar-se com a própria ideia de infância: até pessoas que não a tiveram durante os seus anos de criança a associam fortemente a essa fase da vida. 

Eu, estando ciente de todo este poderio de marketing e da máquina geradora de milhões, culpada me confesso: adoro a Disney. A minha evolução nos anos foi proporcional com o número de cassetes de vídeo da Disney que eu tinha, passei boas horas da minha infância colada a um ecrã a ver os mesmos filmes repetidamente, a primeira máscara de Carnaval que me lembro era da Branca de Neve, o primeiro filme que vi no cinema foi o Rei Leão, sei-lhe as falas todas de cor, e continuei a acompanhar os filmes da Disney - ainda que intermitentemente - durante a minha adolescência e idade adulta. Apetece-me dar gritinhos de histeria sempre que entro numa loja Disney e começo a ver peluches do Bambi, da Nala, do Nemo, do Timon, da Marie, do Sebastião. O meu primeiro gato chamava-se Tulose em honra ao gato mais rebelde dos Aristogatos e - confesso com vergonha - fiz um dia uma jura de quando tiver um filho (e for rica, só pode) só o vestir com as roupas mais-que-fofinhas para recém-nascido que se vendem nas lojas Disney. Entretanto, e em minha defesa, voltei a pôr os pés na terra e deixei-me de parvoíces. Acho que o facto de se pôr o pé fora dessas malditas lojas ajuda; aquilo a modos que droga uma pessoa e faz-nos alucinar e jurar estas coisas absurdas.

Entretanto, comecei a ler sobre estas coisas da representação de mulheres na TV, nos filmes, nas revistas, nos anúncios, e a chama-Disney foi-se apagando um bocado. Numa rápida pesquisa mental sobre as histórias Disney duas personagens (e aqui nem são personagens-tipo, são mesmo personagens dos filmes, tal e qual) aparecem distintivamente: a princesa em apuros e o príncipe encantado. Convenhamos: esta é uma dualidade que está tão enraizada na cultura ocidental que até na lógica das relações entre os dois géneros ela se entranha. Não foi a Disney que a inventou, é bom que seja esclarecido. Cheira-me que esta dualidade vem do tempo dos trovadores, dos castelos e das conquistas, dos reis, príncipes, cavaleiros e princesas, dos vestidos longos de veludo e do tempo das trevas (vulga Idade Média. Uma professora de história do liceu tentou provar-nos que a Idade Média não tinha nada sido idade das trevas como por vezes é apelidada, que não tinha nada sido uma época de estagnação ou mesmo de retrocesso no conhecimento, isto por causa dos mosteiros e dos monges que copiavam os livros e porque tinha sido na Idade Média que se inventaram os óculos (??). A mim nunca me convenceu. Entalada entre a época Clássica dos gregos e romanos e o Renascimento, com as suas descobertas do mundo, da matemática, da física e da astronomia, a invenção dos óculos torna-se risível.). Vem da altura em que os homens e as mulheres tinham papéis muito bem distintos e definidos, segregados, e com diferenças extremamente exacerbadas. As mulheres queriam-se passivas, dóceis, puras, os homens queriam-se valentes, ativos, corajosos. O casamento era a salvação da mulher e a sua máxima aspiração; daí que todos os contos de fadas acabem dessa forma, o final feliz que não é mais que a abençoada paz matrimonial.

Pensem em todas as personagens femininas disneyanas: essa tropa de princesas de sorriso sonso e muito cor-de-rosa que invade os corredores das lojas de brinquedos, secção menina. Personagens tão unidimensionais que nem a grande diversidade de cor de cabelo, cor de pele e vestidos consegue disfarçar o facto de serem todas uma só. O argumento que os defensores da Disney atiram é que filmes como a Branca de Neve e os Sete Anões, a Bela Adormecida, a Cinderella e afins são todos muito antigos, feitos numa época em que as mulheres tinham outros deveres e a única expectativa era que agradassem ao seu futuro marido, fossem boazinhas e não levantassem a voz. Hoje os filmes da Disney já são um bocadinho diferentes, já há Mulans que salvam a China e Pocahontas que ficam na sua terra junto do seu povo enquanto o seu amor parte para Inglaterra. 

Certo, é verdade que a Disney tem as suas heroínas que fogem ao estereótipo da dama indefesa. Mas é das suas princesas que a marca mais lucro tira. Ainda há poucos anos a Disney criou as "Princesas Disney", um sub-merchandising que junta todas as princesas de personalidade mais diluída e as transforma em "amigas" das meninas apanhadas de surpresa, sob a forma de diários (o que elas possam ter de interessante para contar sobre as suas vidas pós-casamento-com-príncipe-encantado supera-me), fatos de Carnaval, roupa cheia de lantejoulas, kits de maquilhagem, varinhas mágicas carregadas de brilhantes, muita boneca tipo Barbie, e muito, muito cor-de-rosa. Isto, muito honestamente, faz-me ter pavor perante a ideia de vir a ter uma filha.


E a Ariel é quem mais odeio, porra. A gaja é uma sereia e mete-se em drogas para ficar humana, só porque um homem com quem ela nunca falou na vida é giro e tal. E depois abandona o seu mundo, o pai, as irmãs e os amigos para ir viver com o camafeu. A Pequena Sereia: a ensinar desde 1989 a todas as meninas que por um homem se deve abandonar não só tudo o que temos e quem mais amamos mas também - e literalmente - QUEM somos. Ela era uma sereia e transformou-se em humana para poder viver com o seu amor. Todo o sacrifício é pequeno para agradar a um homem. 

Mesmo tendo em conta a Mulan, a tal heroína da Disney que se disfarçou de homem para tomar o lugar do pai doente no exército e acabou por salvar a vida do seu capitão e da própria China, já depois de ter sido descoberta como mulher. Bad-ass, sim senhora. Dizem-me também que o Entrelaçados é um bocadinho assim, uma espécie de twist ao conto da Rapunzel e cuja personagem principal não é a típica princesa submissa e dócil. Ou o Rei Leão II, cuja história se centra na cria do dito cujo, a Kiara, e também é uma princesa rebelde. Mas ainda assim, há sempre qualquer coisa de repetitivo nestas histórias: tudo tem que acabar num apaixonamento e consequente casamento. Ou seja, não importa o quão rebelde ou ousada a personagem feminina tenha sido, a sua história só é validada na medida em que acaba bem - e aqui o acabar bem é a eterna felicidade conjugal. Sabe a pouco. Reparem que com personagens principais masculinas isto não é assim; o Toy Story, por exemplo, não tem por base nenhum apaixonamento nem casamento. É apenas a história de dois brinquedos rivais e depois amigos e a fidelidade ao seu dono.




Foi por isso que quando hoje me sentei finalmente a ver o Brave (ou devo antes dizer "a" Brave), o último filme animado da Disney, e aquilo ia superando as expectativas que eu tinha para filme-de-Disney-que-quebra-os-estereótipos-de-personagem-femina a cada minuto que a fita rolava, eu decidi exclamar: "Disney, estás perdoada!". E porque este post já vai longo e o meu rant sobre a Disney foi mais comprido do que eu esperava, aproveito para inaugurar uma nova rubrica chamada "Media, é assim mesmo". O primeiro post é sobre a Brave e vem já, já a seguir. Tenho mais uns quantos já esboçados mas ideias e sugestões sobre personagens, filmes ou programas são muito benvindas ;)




S.  

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O patriarcado tira-me o sono - literalmente

A minha madrugada foi difícil. Voltas e voltas na cama tentando adormecer e falhando miseravelmente, devido a um misto de não-sono e cabeça a fervilhar. Teria passado melhor o meu tempo a ver os Óscares (e daí talvez não - sou só eu que acho um ultraje que o Argo tenha ganho melhor filme? Que duas horas tão olvidáveis de filme, que coisa tão somente razoavelzinha, credo).

Tenho sempre as minhas melhores ideias antes de adormecer. Como a noite anterior foi propícia à insónia, do ponto de vista das ideias foi muito frutífera. Esbocei todo um post na minha cabeça sobre a representação da mulher na televisão portuguesa, que envolvia alguns filmes norte-americanos que vi há pouco tempo, mais o Vale Tudo, o Odisseia e o Preço Certo. Entretanto, o sono passa por uma pessoa e esvazia-lhe a cabeça de todas as ideias brilhantes e fica antes esta amostra de post. Mas como se diz na loja: "Olhe, é o que há."

Desde que comecei a ler noutras áreas da igualdade de género que não a académica conciliação trabalho-família que a indignação cresce. A ignorância é mesmo uma benção. Fiquei especialmente indignada desde que assisti a uma conferência extremamente informativa e assustadora sobre a over-sexualisation of girls, na qual fiquei a saber que há um número cada vez maior de raparigas a verem o lap-dancing como uma boa profissão, muito porque o que se celebra nos media é o sex-appeal das mulheres, seja em anúncios, programas de televisão, concursos, filmes, jogos de vídeo, revistas. Que todas estas mensagens, uma aqui, uma ali, mas num fluxo constante, todos os dias, as faz associar o seu valor-próprio ao serem sexualmente atrativas.

Não quero enveredar pela questão de quem tem a culpa: se são os paizinhos, se é a televisão má, se são as revistas cor-de-rosa, se é a cabeça oca característica da adolescência - até porque todos, se bem que uns em maior grau que outros, têm a sua dose de culpa. Mas com isto tudo arranjei um jogo novo: descubra-o-estereótipo.

É muito divertido. Passa primeiro por observar os diferentes tipos de formas simplistas com que as mulheres são representadas nos media (vamos focar na TV e cinema). Vou já adiantar um mega spoiler: não são muitas. Ui, disto é que não estavam à espera! Normalmente há:

- a histérica/neurótica, que tem muitas variantes (mãe-histérica, namorada-neurótica, são exemplos), e é muito frequente nas rom-coms hollywoodescas;

- a sedutora, que não serve outro propósito no filme que é estar ali, servir de fantasia aos atores principais e ser um pretexto para as peripécias em que estes se envolvem. É também frequentemente apenas uma espécie de bengala às qualidades do ator principal, assim uma espécie de prémio que este conquistou por ser tão esperto/bonitão/charmoso/astuto (coughJamesBondcough);   

- a virgem, a inocente, a pura, que contrasta fortemente com a sedutora e que merece tudo de bom deste mundo e do outro. No entanto, e especialmente nas comédias de adolescentes, serve o mesmo propósito em relação aos atores principais;

- a mãe, muito semelhante à virgem mas de características dóceis, maternais, self-effacing. Nunca vale por ela própria e é muitas vezes também uma personagem-bengala para outra bem mais importante.

É mais ou menos isto. Claro que estas são personagens-tipo, estereótipos, e normalmente os senhores cinematógrafos conseguem meter uma ou outra variante que tenta dar um toque de originalidade à personagem que, pensam eles, acabaram de inventar. É tentar tapar o sol com uma peneira. E é risível o número de vezes que estas personagens-tipo aparecem e re-aparecem depois de se lhes soprar a camada muito fininha de perlimpimpim de originalidade que tinham. Chega a ser um bocejo.

Por isso ando sempre à cata de filmes, livros, programas e histórias que representem personagens femininas de forma original. Para não me arrancarem fortes bocejos, ou rangeres de dentes demasiado sonoros. O que é curioso é que normalmente encontro-os onde menos espero. E acho que isto agora tinha tudo para dar para rubrica, do género: eu metia aqui de vez em quando um livro ou filme ou série ou programa de TV que tivesse apanhado, e apontava-lhe o dedo envergonhador-do-cliché-feminino, ou aplaudia de pé a originalidade da representação de uma rapariga ou mulher qualquer. Porque tenho-os encravados na garganta aos molhos.

Ontem durante a insónia tinha uns quatro ou cinco programas muito bem explicadinhos na minha cabeça, com argumentos demolidores muito bem alinhavados e tudo; hoje só vejo umas sombras. Mas, bom, lembro-me que um era o Odisseia (e não, nem pensar que vou para a Casa dos Segredos. Demasiado explorado - em muitos sentidos).

Ora bem, o Odisseia. O Odisseia tem a fama - e ganhou-a muito antes de estrear, por ser o novo bebé do Bruno Nogueira - de ser um programa de humor inteligente, muito à frente e muito diferente do resto. E normalmente, é. Já me arrancou boas gargalhadas, é uma meia-horita bem passada; mas sinceramente também já me arrancou muitos bocejos e muita sobrancelha erguida. Mas foi desde que o apanhei com o pé na argola à terceira vez que me encolhi como quando se ouve uma unha a riscar um quadro de ardósia. Então não é que os sacanas conseguiram enfiar as três personagens femininas principais em duas personagens-tipo tão perfeitinhas que chega a ser doloroso jogar ao descubra-o-estereótipo?  A primeira foi a Rita Blanco que, admito, de personagem tão extremamente neurótica tornou-se ridicularmente mas brilhantemente desenhada. Aí estava o tabuleiro de jogo arrumado porque seria a exceção à regra, de uma história até aqui estereótipo-free. Mas depois foi as raparigas-fãs que apareceram e que serviram para o BN achincalhar em apenas uma ou duas linhas de texto, a ex-mulher a chatear o maridão em férias porque decidiu partir numa viagem sem rumo nem duração definidos, tendo dois filhos pequenos (o que eu gostava de ver uma mãe fazer isto...! - a sério, estou a dizê-lo sem sarcasmo nenhum: gostava de ver um filme onde uma data de mães partiam numa road-trip porque a maternidade e os diktats de mulher-perfeita tinham-nas feito dizer "basta! preciso de um intervalo". Isso é que era original...), ou aquelas duas ou três raparigas que apareceram apenas para participar na orgia, e que depois aparecem no barco deles meias-nuas e que mal abriram a boca para falar. Só para sorrir, claro está. Concedo: a parte da novela mexicana foi original e deu para gargalhar, mas logo a seguir veio o grande plano do Nuno Lopes a beijar as bochechas do rabo da Joana Duarte e a mandar uma piada qualquer enquanto ela se ia embora e eu fiz o segundo maior facepalm da vida. "A sério, Bruno Nogueira? A sério?". Se bem que não foi completa surpresa nem out-of-character, esta linha de enredo - afinal eu oiço o Tubo de Ensaio regularmente e, oh se eu ganhasse um euro por cada vez que ele chamou gorda à Merkel ou fez crónicas com a palavra balofa incorporada. Foi apenas uma desapontante constatação. 

Depois temos o Vale Tudo, bem mais popularucho, de humor fácil, dirão muitos, mas que supreendentemente me diverte mais que os episódios da Odisseia. Não está isento de estereótipos - numa palavra: Luciana - e o número de piadinhas brejeiras tem uma correlação positiva com as vezes que o João Ricardo abre a boca. Mas tem jogos de mímica divertidos, histórias inventadas no minuto cuja comicidade varia com a espirituosidade de quem nelas participa, e mulheres participantes witty e originais. Foi uma grande surpresa, acrescento. Dá-me é sempre uma grande tristeza por não ter acompanhado o 5 Para a Meia-Noite na altura em que a Filomena Cautela o apresentava.

Chega por hoje. Ainda queria falar do filme 7 Psicopatas e um Shih-Tzu, e do Sexo e a Cidade, ou do Bridesmaids, do Hunger Games, ou até do We Need to Talk About Kevin, ou até de, haha Harry Potter :D 




mas amanhã é outro dia. E hoje já vou dormir melhor.

S.              


P.S. - E porque hoje  foi dia de Óscares e tem tudo a ver com isto da representação da mulher nos filmes, é ler este artigo sobre a categoria de Best Supporting Actress que dá que pensar ;)

Update: Entretanto, a minha amiga B. mostrou-me este link, também sobre os Óscares, e que é uma amostra fiel do quantidade de sexismo que a TV alberga: 9 Sexist Things That Happened at the Oscars.