segunda-feira, 12 de junho de 2017

Complexo de inferioridade

Um dia hei-de fazer um estudo sobre a forma como os media portugueses equacionam sucesso de ideias portuguesas com a atenção que países estrangeiros lhes devotam.

(Nunca vi país com tanta necessidade de validação externa como Portugal, irra. Deve ser por isso que vibramos tanto com vitórias em Euros, sejam de futebol sejam de canções.) 



S.

domingo, 23 de abril de 2017

Brexit calling

Viver no Reino Unido sendo cidadã europeia neste momento é sentir o coração a acelerar quando, ao embarcar num voo para Londres no estrangeiro, a assistente em terra me pergunta, após verificar o passaporte: "How long are you staying in the UK?", e responder com um defensivo e zangado "I live there", quase que desafiando-a a contradizer este meu ainda direito.


S.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Annus Horribilis

Em 2015, os alemães fizeram uma comédia que girava em torno de um Hitler transportado para os nossos dias, muito frustrado com a Alemanha aberta, multicultural e reconciliadora do séc. XXI, e de como as pessoas não o levavam a sério, muitas tomando-o por um humorista e até agindo de forma benévola e quase condescendente para com ele, como se trata uma criança ou uma pessoa que não bate bem da cabeça. A piada aqui era que estávamos todos tão acima do tipo de retórica que levou um Hitler ao poder e o mundo à beira do apocalipse que os argumentos do próprio não seriam levados a sério por ninguém hoje em dia.



Em finais de 2016, acho que este filme já não tem assim tanta piada.


S.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Escócia MAY not be independent



‘Because not everybody knows this but the full title of my party is the Conservative and Unionist Party. And that word, unionist, is very important to me. It means we believe in the Union, the precious, precious bond between England, Scotland, Wales and Northern Ireland.’

Bom, então adeus, 2º referendo sobre a independência da Escócia.

(De resto, discurso bastante humano, justiça social como principal tema e preocupação. A ver vamos.)




S.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

História nacional done right

"O transporte de trabalhadores escravos de África, iniciado pelos Portugueses para o desenvolvimento do Brasil, não tardou a envolver as colónias espanholas, inglesas, francesas e holandesas da América. Esta deslocação forçada de um número de indivíduos estimado em doze milhões provocou uma quantidade enorme de mortes, durante a viagem e nos primeiros anos de cativeiro. A imposição do domínio português em portos cruciais (e no território circundante) de África e da Ásia causou a destruição de famílias, comunidades e grupos étnicos, bem como o desmembramento de sistemas culturais e políticos. Por estas razões, a publicação deste livro carece de toda e qualquer natureza comemorativa. Ao escrevermos história, a nossa intenção é ir além de uma apropriação ideológica do passado e desconstruir conscientemente os sucessivos mitos que foram criados por várias historiografias. A necessidade de reescrever a história da expansão portuguesa decorre da nossa recusa de perspectivas ideológicas ou nacionalistas específicas; o nosso objectivo é superar as camadas de historiografia retrógrada que ainda são comuns."

in A Expansão Marítima Portuguesa 1400-1800, Francisco Bethencourt e Diogo Ramada Curto (eds)


Página 5 e já estou a gostar muito deste livro.



S.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Escócia na UE

No meio do clusterfuck que está a ser o Reino Unido nestes dias imediatamente a seguir ao Leave ter ganho o referendo, os meus olhos estão postos em Edimburgo e na forma como a Escócia está a lidar com uma decisão que não foi a sua. A minha admiração vai para a maneira como a Nicola Sturgeon está a lidar com a situação. Pá, que classe, que sobriedade, que praticalidade, que contraste com os mentirosos, auto-calculistas mas sem qualquer plano à vista para o país, retratores dos machos alfa em Westminster.

Logo na manhã em que os resultados se tornaram oficiais, a First Minister da Escócia fez um discurso impecável e bastante sóbrio considerando as circunstâncias onde congratulou a Escócia pelo resultado expressivo a favor do Remain, reiterou que os imigrantes europeus continuavam a ser benvindos e agradeceu a sua contribuição ao país ('Scotland is your home'), estabeleceu os passos seguintes para explorar as possibilidades de manter a Escócia na UE e respeitar o resultado do referendo, e ainda agradeceu ao Cameron o seu trabalho como Primeiro-Ministro do UK durante 6 anos ('leadership is hard'), desejando-lhe sucesso para o seu futuro.


A sério, se quiserem restaurar fé na competência de líderes políticos, perdei dez minutos do vosso dia a ouvir a senhora. Bónus: o sotaque encantador escocês com que ela debita tudo isto.

Desde então tem cumprido sem falhas o que se comprometeu fazer: reuniu-se com o resto do governo escocês para estabelecerem uma posição comum e pediu ontem ao parlamento escocês um mandato para negociar a posição da Escócia na Europa (em relação a Westminster, Bruxelas e com os outros estados membros), que obteve com aprovação de 92 contra 0 deputados (fora os deputados conservadores que se abstiveram). O seu discurso no parlamento escocês é incrível mais uma vez pela serenidade com que descreve a situação da Escócia, a clareza com que explica o que pretende fazer a seguir, e a forma como lida com a questão da independência, que não é de todo a questão central para ela (duplamente incrível vindo de uma independentista ferrenha do Scottish National Party). Já esteve em conversações com o mayor de Londres, Sadiq Khan (outro exemplar de dignidade e tolerância neste lodaçal em que se tornou a política britânica), com o governador de Gibraltar e com o líder da Irlanda do Norte para encontrar pontos em comum sobre a permanência destas regiões na UE, e iniciou agora uma ronda de reuniões com os líderes dos grupos parlamentares em Bruxelas para discutir opções para a Escócia (está neste momento com o Guy Verhofstadt, líder dos liberais e democratas e o MEP que disse ontem no Parlamento Europeu que já não faltava muito para se acabar com o maior desperdício do orçamento europeu: o salário do Farage). 



A posição de apoio aos imigrantes europeus do mayor londrino, em contraste com o silêncio vergonhoso do governo britânico e dos líderes do Brexit na condenação aos ataques xenófobos e racistas após o referendo. 



Acho que ele estava há muito tempo à espera de poder dizer isto, haha.


Penso que esta é uma posição partilhada pela grande maioria dos deputados escoceses - basta olhar para a aprovação 92-0 do curso de ações a tomar pela Sturgeon, para as intervenções dos deputados escoceses em Westminster ontem durante as questões ao Primeiro-Ministro e dos MEPs escoceses em Bruxelas ontem na primeira reunião do Parlamento Europeu depois do referendo ('I beg you, do not let Scotland down!' Alyn Smith MEP), e por uma maioria considerável da população escocesa. 


Uma ovação de pé no Parlamento Europeu após o eurodeputado escocês pedir aos colegas europeus para não deixarem mal a Escócia.


Discurso do deputado escocês Angus Robertson, líder da bancada do SNP em Westminster, afirmando que a Escócia é um país europeu e que arrancá-la da UE será uma decisão completamente inaceitável do ponto de vista democrático.

Aliás, a Sturgeon no seu discurso ao parlamento escocês refere-se ainda aos mesmo assim relevantes 38% eleitores que votaram para sair da UE e afirma que não pretende ser surda às preocupações deles mas que precisa da união de todos os quadrantes para conseguir uma boa situação para a Escócia dentro da Europa. A grande diferença aqui é que o Remain ganhou em todos os círculos eleitorais da Escócia, pelo que não há a divisão territorial entre apoiantes do Leave e do Remain que aconteceu no Reino Unido e que está a dividir o país. Neste sentido há um inequívoco e muito claro mandato democrático do eleitorado para que a Escócia se mantenha na União Europeia. Significa isto necessariamente independência do UK? 



Não. E muito se tem falado do precedente da Gronelândia, que em 1985 abandonou a União Europeia sem que o país a que pertence, a Dinamarca, o tenha feito. E do exemplo das Ilhas Faroé, um arquipélago que pertence à Dinamarca mas que não pertence à União Europeia (lembro-me a propósito disto uma colega de mestrado faroense que, apesar de ser dinamarquesa, por viver nas Ilhas Faroé, ter tido que pagar as propinas relativas aos estudantes internacionais, muito superior ao que os estudantes britânicos e europeus pagam). Agora, é certo que a importância cultural, populacional e económica da Escócia é muito superior a estes dois territórios e a verdade é que a situação da Escócia seria o inverso destes dois exemplos: uma parte de um país continuar a pertencer à UE quando o país em si mesmo a abandona. Mas o ponto aqui é que a independência não é a única nem sequer inevitável situação para a Escócia permanecer na UE já que existem estas exceções em que partes de um país pertencem e não pertencem à UE. E é por isso mesmo que o discurso da Sturgeon não revolve à volta da independência mas sim de explorar todas as opções para respeitar o desejo dos escoceses de se manterem na Europa ('every option must be on the table'). Os media têm-se focado muito na possibilidade de um segundo referendo sobre a independência escocesa e alarmaram que os papéis já tinha sido metidos para organizá-lo mas acho que estão a subestimar a compreensão da Primeira-Ministra escocesa sobre os obstáculos em convencer o eleitorado - uma segunda vez - a sair do Reino Unido, e a sobrestimar a vontade política dela de se meter em mais um uns meros 2 ou 3 anos depois do referendo falhado. Vontade pessoal, acredito muito; política, assim-assim.

Porque, vejamos. As circunstâncias em relação ao referendo de 2014 alteraram-se significativamente, fundamentalmente, aliás. Na altura o Better Together explorou - e com razão - os obstáculos que a Escócia teria em voltar a pertencer à União Europeia se saísse do Reino Unido: teria com grande probabilidade que se candidatar como qualquer outro país para entrar na União, o que demoraria anos e a incerteza e caos que o entretanto causaria. A saída da UE foi uma preocupação grande que levou uma parte considerável dos eleitores a preferirem o status quo. Ora, isto é precisamente o contrário do que se passa neste momento. A Escócia está perante a realidade de que vai ser tirada da UE contra a sua vontade precisamente por ser parte do Reino Unido e portanto este argumento passa não só a ser nulo como a virar-se ao contrário: a independência da Escócia agora abriria-lhe caminho a uma pertença da UE, como é o desejo de 62% dos eleitores.

Mas o problema aqui é que parece que, a haver um segundo referendo de independência, os escoceses se deparariam com a seguinte escolha fundamental: a qual das uniões quero pertencer, Reino Unido ou União Europeia? E não estou nada convencida de que mais de metade da população escolhesse a UE. Isto porque não importa quão europeístas sejam os escoceses, quão 'outward-looking' ou 'cosmopolitan' e 'progressive' (palavras da Nicola Sturgeon no discurso de 24 junho), os ingleses, irlandeses do norte e galeses serão sempre 'our closest neighbours and best friends' (também palavras da Sturgeon, no discurso ao parlamento escocês de 28 junho, se não me engano). As relações culturais, familiares e sociais são muito mais estreitas com o resto do UK do que com o resto da Europa. Para não falar das económicas, é claro. A vasta maioria das transações económicas da Escócia faz-se pela fronteira - inexistente - com a Inglaterra. Em 2014, o grande medo da independência seria o de se erguer uma fronteira muito real, muito custosa, entre a Escócia e o resto do Reino Unido (por virtude da Escócia deixar de pertencer à UE e portanto ao Mercado Único europeu). Vão eles agora querer erguer tal fronteira com a Inglaterra como preço para o acesso a esse mesmo Mercado Único, considerando que a enorme fatia de comércio é feita é precisamente com os vizinhos do sul? Não acredito.

Isto vai depender muito do tipo de acordo que o Reino Unido conseguir com a UE. A maior das probabilidades é manter-se o acesso ao Mercado Único e a consequente liberdade de circulação de bens, serviços e pessoas que é condição sine qua non do mesmo (e aqui é que está a parte mais imbecil e masoquista do Leave: o Reino Unido continuará a aceder ao Mercado Único porque o contrário disso é suicídio económico, continuará portanto obrigado a respeitar a liberdade de circulação não só de bens mas também de pessoas, continuará a ter que pagar contribuições para o orçamento comunitário para aceder a esse mercado - vide o caso da Suíça - e continuará a ter que obedecer às decisões do Tribunal Europeu de Justiça, mas terá perdido a sua voz na produção das regras que regem tudo isto. Ninguém, - e isto é a tragédia - ninguém, vai portanto ficar feliz com a saída da UE: nem os que votaram a favor dela para controlar a imigração, acabar com as contribuições para a UE e para recuperar soberania, nem quem votou para sair porque enfraquecerá a posição do UK na Europa e no mundo). 





Neste cenário a independência da Escócia não ditaria o erigir de uma fronteira com a Inglaterra porque ambos pertenceriam ao Mercado Único. Mas então para que quereria a Escócia independência? Apenas se eles estiverem realmente interessados em ter uma voz na produção das leis europeias que terão que obedecer, ao contrário do que parece ser a posição do resto do UK. Valerá essa voz à mesa europeia a secessão do Reino Unido? Mais uma vez, não acredito. Mesmo que as sondagens a favor da independência sejam agora de 60% dos eleitores.

Mas para que a Escócia mantenha todas as opções em aberto para se manter na UE, é fundamental que um referendo sobre a independência, a acontecer, seja antes de o Reino Unido sair formalmente da UE. Porque assim que o artigo 50 for invocado pelo governo britânico, as negociações começam entre a UE e o país cessante e têm a duração máxima de dois anos (extensível se acordado unanimemente por todos os 27 estados membros). A partir daí os tratados deixam de se aplicar ao Reino Unido, i.e. o Reino Unido é corrido da UE sem cerimónias. A Escócia seria arrastada para fora da UE como consequência e, mesmo que conseguisse independência depois, teria que voltar a candidatar-se à adesão da UE. Há portanto uma janela temporal muito apertada para a Sturgeon explorar as opções para a Escócia se manter na Europa, incluíndo a eventual organização de um referendo para a independência. Foi por isso mesmo que já começaram os procedimentos legais para a realização deste referendo, não porque ele seja inevitável, mas para que, em se querendo (como último recurso, acrescentaria eu), ele se mantenha uma possibilidade dentro desses 2 anos de negociações que o UK tem. Acho que ela tem tempo porque nem o Cameron, que sacudiu as mãos da responsabilidade das consequências deste referendo, nem os conservadores a favor do Brexit e potenciais Primeiros-Ministros, como o Boris Johnson ou o Michael Gove, estão com pressa em invocar o artigo 50. Sabem que quem o fizer vai ser o culpado pelas consequências merdosas do voto Leave (e, oh, vide acima com a questão do Mercado Único, como elas vão ser merdosas para quem quis sair), principalmente por quem votou Leave. 



O problema com a outra opção, i.e. o Reino Unido fora da UE com a Escócia a manter-se mas sem a independência, é como é que isto funcionaria em termos de representação. O que é que significa a Escócia manter-se na UE? Seria ter assento à mesa do Conselho Europeu e do Conselho de Ministros, eurodeputados escoceses eleitos como os outros estados membros e possivelmente um comissário europeu na Comissão Europeia? Mas a Escócia não é um estado, como poderia sentar-se à mesa com os outros estados membros? A Escócia é parte do Reino Unido, se o Reino Unido sai não é possível ela manter-se com voz em pé de igualdade com os outros estados membros; ela é apenas uma região. A não ser que, a sair da UE, saíssem apenas Inglaterra e Gales, e o resto do Reino Unido (Escócia e Irlanda do Norte) se mantivesse; assim Inglaterra e Gales teriam o estatuto da Gronelândia, enquanto o Reino Unido se manteria na UE formalmente (mas com a grande maioria da população, território e poderio económico fora dela). Mas para isto era preciso que os quatro países britânicos tivessem um estatuto constitucional igual dentro do Reino Unido, o que não é de todo o caso (Inglaterra não tem um parlamento ou qualquer assembleia representativa, como é o caso da Escócia ou de Gales, muito porque Westminster aka o governo britânico aka o Reino Unido é quase sinónimo dos interesses ingleses, e esta região historicamente sempre dominou as regiões vizinhas. O Reino Unido está muito longe de ser um estado federal e a devolução de poderes às regiões é uma coisa extremamente recente, com não mais de 20 anos). Não é pois possível que a Escócia e eventualmente a Irlanda do Norte se continuem a sentar à mesa europeia em nome do Reino Unido (sem a presença da Inglaterra).

Que imbróglio do caraças. Não invejo o papel da Sturgeon porque reconheço a complexidade da situação e as águas desconhecidas em que terá que navegar se quiser dar consequência à decisão do eleitorado de continuar na UE. Tudo consequências de uma decisão que não foi a dela, nem dos seus eleitores. Acho mesmo que esta é uma batalha mais dura e difícil do que a de lutar pela independência há dois anos atrás, que se revelou infrutífera. Talvez a melhor opção será mesmo a de não fazer nada, esperar pelo novo acordo entre a UE e o Reino Unido que, muito provavelmente como disse em cima, será uma pertença ao Mercado Único e manutenção da liberdade de circulação, portanto sem nenhuma consequência prática para as empresas ou para as pessoas. Essa é a negociação mais lógica e provável porque a que melhor serve os interesses britânicos e europeus. Dito isto, não sei não, porque a imbecilidade, irracionalidade e o masoquismo parecem estar na ordem do dia. Como diz o outro, tudo é impossível até ser feito. Por isso a Sturgeon sabe melhor do que esperar quietinha que o governo britânico negoceie um bom acordo com a UE e deixar nas mãos destes líderes Brexiteers sem noção o futuro da Escócia. Já começou as conversas em Bruxelas, portanto.




S.  


P.S. A questão da Escócia é interessante mas ainda ninguém discutiu a sério a questão da Irlanda do Norte (exceção aqui), bastante mais sensível e que também já regista movimentações (o líder da Irlanda do Norte já esteve em conversações com o líder da República da Irlanda, o vice-presidente do partido Sinn Féin, espécie de braço político do IRA, e reclamou a necessidade de se fazer um referendo para a união das duas Irlandas). Não esquecer que o Good Friday Agreement de 1998, que trouxe a paz àquela região, resta na premissa de que não existiria nenhuma fronteira entre as duas Irlandas em virtude de ambas estarem na UE; vai agora a Inglaterra criá-la, ao arrastar a Irlanda do Norte para fora da UE. Parece que a guerra não é um conceito tão longínquo como no dia 23 de junho. Que o bom senso e os bons líderes nos protejam.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Pronto, adeus, está tudo dito.


'It is not that there is no difference between men and women; it is how much difference that difference makes, and how we choose to frame it.'

Siri Hustvedt, The Summer Without Men


'Não é que não haja diferenças entre homens e mulheres; é antes quanta diferença essas diferenças fazem, e como é que escolhemos enquadrá-las.'

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A sub-confiança de umas é a sobre-confiança de outros

Há uma dinâmica entre homens e mulheres que só comecei a prestar atenção há pouco tempo mas que agora que me apercebi dela, vejo como ela é tão omnipresente: o mansplaining. E que irritante que ela é.

Há uma data de estudos organizacionais e em contexto de dinâmicas interpessoais que concluem que num grupo misto, não importa a proporção dos sexos, os homens tomam a palavra muito mais vezes e falam muito mais tempo do que as mulheres. O que não deixa de ser interessante tendo em conta que o estereótipo é o da mulher tagarela que não se cala e o do homem que não se sabe expressar por palavras. Mas a realidade é a inversa e desafio-vos a prestarem atenção a isso da próxima vez que estiverem num grupo misto, particularmente em contexto de trabalho.

O The Guardian há uns tempos publicou um artigo bastante interessante sobre as mulheres do Bloco de Esquerda e de como o partido tomou medidas conscientes para dar espaço à "ascensão" das mulheres nas suas fileiras ao dar-lhes o mesmo tempo de antena que aos homens, ao impedir conscientemente que os homens - especialmente os mais velhos - repetissem o que as mulheres diziam mas por outras palavras (outra técnica muito querida do mansplaining; há mais alguns estudos que concluíram que o que é dito por uma voz masculina é acatado com mais peso e mais poder do que a mesma coisa dita por uma voz feminina, não sei se por associarmos o homem ao poder se pelo facto mais primitivo de a voz masculina ser por norma mais grave e sonora):

'The women started to take action to combat the macho traits of a party that had deep roots in Portuguese society. “At the end of our meetings, we count how many times men and women took the stage to speak. Men always speak more than women – but usually they have nothing new to say. Women are more cautious about speaking in public, but when they do they’re adding new ideas or information,” says Joana Mortágua. Martins says the party now trains women in public speaking.
“I encourage younger and shyer women to speak. And sometimes I scold the older male party figures, asking them to resist the temptation to explain what a woman said once she’d finished speaking,” she says.'

Acho que na origem disto tudo está a mesma overconfidence dos homens e a underconfidence das mulheres que os leva a concorrer a empregos desde que tenham um dos requisitos pedidos, e que as impede de concorrer se houver um requisito que não preencham. A mulher é para ser vista, não ouvida, de preferência com um sorriso nos lábios e um aceno pronto de cabeça. Mulheres com opiniões são mandonas, zangadas com a vida, cabras, chatas, histéricas. Homens com opiniões são assertivos.

Desde que comecei a frequentar cafés como ambiente de trabalho durante várias horas seguidas - esses fantásticos sítios para observar pessoas - que fui reparando, devagarinho mas repetidamente, como isto é tão observável na vida real. Sei que estas impressões escassas valem o que valem empiricamente, mas juntando-as às conclusões dos estudos referidos acima (que uma googlada rápida vos pode num instante abrir o caminho) fazem-me notar um padrão: sempre que há um homem e uma mulher numa mesa do lado, é quase garantido que ele não só vai falar muito mais do que ela, como é muito provável que o vá fazer para lhe explicar coisas, frequentemente de uma forma levemente condescendente. Acho que isto é mais pronunciado em casais mais velhos. E isto não se prende com o facto de ele saber necessariamente mais do que ela sobre a coisa que está a explicar, ou até de saber muito sobre o assunto, mas a confiança com que se fala de assuntos e argumentamos acerrimamente está muito raramente relacionada com o quanto percebemos deles, infelizmente. Isso não os demove e lá continuam eles a explicar, a explicar, a explicar, interrompidos por alguns monossílabos da parceira de diálogo, enquanto eu, na mesa ao lado, começo a maldizer internamente as pessoas que amam ouvir a sua própria voz, e que não enxergam o quão aborrecidas estão a ser, ao mesmo tempo que secretamente invejo a confiança que é preciso ter para exteriorizar opiniões banais e para as quais confluiu pouca reflexão como se fossem descobertas muito importantes para a humanidade. Tomara a mim ter metade daquela confiança para falar de coisas sobre as quais me debruço todos os dias. (Tenho a maldição feminina da underconfidence, porra.)

Isto nas redes sociais então é mais que evidente, tanto que foi no contexto virtual que surgiu o conceito do 'mansplaining', abençoada língua inglesa, flexível, adaptável e viva quanto a nossa é relíquia formalesca poética. Fica aqui uma sátira sobre o fenómeno:


'Our uninformed girls are waiting for you to explain them simple concepts in a super condescending way.'





S.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O inimigo dentro de portas

Deparei-me com isto a propósito de outra coisa, e a minha reação foi concluir que a ignorância realmente às vezes é uma benção.

Todos os anos a Comissão Europeia produz um relatório sobre o progresso (ou regressão) em questões de igualdade de género, na Europa em geral e em cada país em particular. É uma coisa um pouco mais legalista e curto-prazo que os índices do EIGE, mas igualmente informativo. Tem até alguns exemplos de medidas que foram tomadas em países particulares e que podem constituir boas práticas. Por exemplo, neste último ano, é referido que a licença de paternidade aumentou de 10 para 15 dias úteis em Portugal, e que na Áustria criaram um novo crime - "violação da auto-determinação sexual" - que inclui atos sexuais praticados contra a vontade de uma pessoa, mesmo que não tenha sido usada violência, mas sempre que as reações da vítima demonstrem falta de consentimento, ou cujo consentimento foi obtido através de intimidação ou chantagem. Aquilo está dividido por cinco áreas, que correspondem mais ou menos às áreas da igualdade de género que a UE dá prioridade (portanto muito à volta do Mercado Único e do emprego):

- independência económica;
- igualdade salarial;
- igualdade em posições de decisão;
- violência de género;
- igualdade de género em países terceiros.

Foi um gráfico - aliás primeiro uma afirmação, depois o gráfico - na parte da violência de género que me prendeu a atenção: mais de metade dos assassinatos de mulheres ocorrem às mãos de parceiros ou família. 

Vou deixar assentar.

Mais de metade das mulheres que são assassinadas são-no às mãos de pessoas muito próximas.

MAS QUE RAIO.


Portanto, a mancha vermelha e azul são os homicídios perpetrados por parceiros íntimos e e familiares, tanto no gráfico das vítimas femininas como na das masculinas. O que salta à vista muito de repente é que sem dúvida que há muito mais homens vítimas de homicídios do que mulheres, pelo menos nos países europeus representados. Suspeito que isto seja uma tendência global, já que os homens estão com mais frequência envolvidos em atividades violentas, crime, gangs, etc, do que as mulheres e também sobre isto haverá muito a dizer (masculinidades tóxicas e por aí fora). O patriarcado não tem consequências nefastas só para as mulheres, e neste caso isso é bem visível. Se bem que, lá está, não é o caso de dominância do outro género - os homens são mortos na vasta maioria por outros homens, basta olhar a percentagem de presos, condenados, etc. É antes uma consequência nefasta das expectativas que lhes são impostas como género dominante, uma masculinidade gone wrong, se quisermos, ao invés de caso de opressão.

Mas regressando ao gráfico. Portanto, há muito mais vítimas de homicídio que são homens do que mulheres, mas reparem na diferença de proporções do perpetrador. Os homens são, na vasta maioria, mortos por "outros", ou seja, nem familiares nem parceiros íntimos, presumivelmente desconhecidos ou, não sei até que ponto os homicídios em contexto de gangs pesam nas estatísticas europeias, mas talvez também por "colegas" ou inimigos de gang (não necessariamente próximos mas também não inteiramente desconhecidos).

Isto não se verifica de todo no caso das mulheres que são mortas por outrém. Vejam-me a manchazorra vermelha dos "parceiros íntimos", que na Inglaterra e País de Gales atinge quase metade do total de homicídios. Isto para não falar da também bastante elevada barra azul, que representa o número de homicídios perpetrados por familiares da vítima. What the fuck! Isto vai contra o senso comum, a perspetiva geral que as pessoas têm do perigo e do risco, para não falar de quão errado moralmente é isto: as pessoas que nos são mais próximas deviam ser as que nos são mais seguras, as que nos querem bem. Andam-nos toda a vida a incutir o medo/cuidado para com os estranhos, não andes na rua sozinha, não saias à noite por aquela zona que é perigoso, e depois em termos de risco a nossa casa é um dos lugares mais perigosos onde se estar? What. the. fuck.

Eu já tinha visto estimativas que indicavam que a vasta maioria das violações ocorrem entre pessoas que se conhecem - o que, mais uma vez, custa a acreditar à primeira vista porque quando se fala em violadores o que salta à imaginação é um homem assustador, creepy, rua, becos escuros, um monstro, portanto. No caso das crianças, exatamente igual. Raptos, violência, abuso sexual, é quase sinónimo do homem na carrinha branca, o desconhecido que ludibria com doces, etc, quando na realidade a vasta maioria da violência e abuso sexual contra crianças acontece em casa ou em sítios familiares, através de pessoas bem conhecidas da vítima. Parece que, tal como para as mulheres, a casa é dos sítios mais perigosos para as crianças. E isto é aterrador.

De ressalvar que estas proporções também não são iguais em todos os países europeus representados no gráfico: na Lituânia e Letónia a maior parte dos homicídios de mulheres são realizados por "outros". E Malta não teve nenhum homicídio em 2013, de homens ou mulheres! Seria interessante investigar as razões para estas diferenças, ou esmiuçar melhor os números (quais são as categorias dentro de "outros"? Os amigos, estão incluídos nos "outros"?) e ver como eles mudam controlando variáveis como a origem étnica, religião (será que há mais incidência de homicídios por familiares em comunidades muçulmanas, com os crimes de honra, por exemplo?), etc.

Há uns tempos o Louis CK tinha feito umas piadas sobre o risco que os homens representam estatisticamente para as mulheres em contextos de intimidade. E é engraçado porque vê-se que ele está a contar estas coisas num show de stand up comedy mas ele está meio sério e a tentar convencer a plateia de que não está a brincar, que é mesmo verdade, que uma mulher entrar numa relação é um risco para a sua integridade física, de uma maneira que não o é para um homem. E a plateia vai gargalhando, como se ele estivesse a dizer que isto dos namoricos é um risco para as mulheres porque os homens são totós e nunca se sabe o que nos calha na rifa, e ele continua a enfatizar, 'mas não, é mesmo um risco para as mulheres sair com um homem!'. 




Diverti-me quando vi isto agora novamente, com as estatísticas do Eurostat sobre as proporções de perpetradores de homicídios em mente, ao ver a distância da realidade estatística do risco a que estamos todos. 

(clicai para aumentar a banda)





S.