quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Inhabitiveness

'The urge to settle permanently in one place can be felt as a quiet hum. Even wanting to stay in a job can bring some often much-needed reassurance and stability to our lives - even if we might worry we’re being a bit unambitious. According to the phrenologists, a group of early Victorian scientists who thought they could detect personality traits by examining a person’s skull (see: PHILOPROGENITIVENESS), the urge to find a groove and stay in it was innate. They called it ‘inhabitiveness’ and defined it as a ‘love of continuity, of endurance, of sameness, of permanency of occupation.’

Inhabitiveness’ lacked staying power, and by the middle of the century had faded into obscurity, partly because phrenology itself lost scientific credibility. But perhaps this loss of a word for the pleasures of permanency can also be traced to the enthusiastic response - by some Victorians at least - to the ideals of dynamism and mobility, and the idea that humans are not only hard-wired to nest, but also to discover and roam too (see: WANDERLUST). 


For other ways of feeling at home see: HIRAETH, HOMEFULNESS, HOMESICKNESS.'

- Tiffany Watt Smith, The Book of Human Emotions


Este é o primeiro agosto que passo em Inglaterra. Já vivi aqui três anos, intervalados, mas nunca vivi aqui em agosto. 

O 'quiet hum' comecei a senti-lo na primeira vez que me mudei para Sheffield. A ideia era passar lá os três anos supostos do doutoramento e manter-me por cá indefinidamente. Mas ainda havia o 'depois logo se vê'. Foi com muita alegria que regressei a Inglaterra, e me preparei para assentar. Mas depois não foi assim, e voltei a sair por um ano, porque podia, porque a libra estava demasiado forte, por razões de companhia. Voltei para o terceiro ano de PhD, e arrependi-me acerrimamente de ter saído. 

Entretanto veio 23 de junho e o maldito referendo. Exatamente no dia que eu completava as provas para recrutamento como civil servant da UE. Estava portanto em Bruxelas. Vim o voo todo no dia seguinte, quando se soube os resultados, a morder o lábio, chorei como uma desalmada assim que cheguei a casa. Digo sem reservas que foi o pior dia da minha vida. Pela irreversibilidade, pela estupidez, pelo desnecessário, pela recusa de partilhar um futuro connosco. As minhas duas paixões que se desalinharam e me atiravam agora para uma escolha imperativa: ou uma, ou outra.

Chorei baba e ranho quando a UE abriu uma vaga que correspondia às minhas competências. Coisa ridícula de menina privilegiada? Sem dúvida. Mas estava a ver a vida a levar-me para longe de Inglaterra, de onde o quiet hum me dizia para ficar. Desta vez sem possibilidade de saltitar daqui para Bruxelas e retorno, por causa do maldito referendo. A escolha imperativa a enfrentar-me muito mais cedo do que eu pensava: ou uma, ou outra.


'Anxiety is the dizziness of freedom.'
- Soren Kierkegaard, The Concept of Anxiety

'Kierkegaard argues that angst is the appropriate response to realising life is not predetermined, but that we have absolute freedom to make any choice we want - and have total responsibility for the outcome.'


O quiet hum continuou. Uma segurança muito forte de que eu estava onde devia estar, desculpada pelo doutoramento em curso mas que eu sabia que era muito mais do que isso. É aqui que eu devo estar mas, acima disso, é aqui que eu quero estar. E ficar. Até quando? Para sempre?... Não, nunca se diz para sempre. Até onde a vista alcança. Uma vontade forte, imperativa, constante de criar raízes num sítio, de conhecer as coisas de cor, de poder chamá-las minhas pela força do hábito e do tempo, a minha cidade, a minha casa, o meu país, o meu emprego, a minha carreira, o meu parque, as minhas ruas, o meu autocarro, as minhas lojas, o meu aeroporto. Um dia: a minha família. Nisto, não há nada que substitua o tempo. Tão diferente da vontade de há uns anos, tão diferente do quem eu me julgava. E daí talvez não... A despedida de Londres em 2011 e o quiet hum das saudades dos meses seguintes deviam ter sido um indício.

Mas depois aprendi a gostar de cidades mais à escala humana. Inglaterra seria, então, mas Londres não. Londres é caótica, gigantesca, stressante, cara. Em qualquer sítio de Inglaterra seria feliz. Tentei Sheffield, tentei o campo. Fui infeliz, pelas circunstâncias geográficas, pessoais e, porque não?, políticas. Detestava aquela cidade mas fingia que não. Era ali que devia estar, embora não onde quisesse estar. Detestar é uma palavra forte... Não guardo nenhum rancor ou ódio, longe disso, mas não quero lá voltar. Só percebi isso quando saí.

Londres ressurgiu no final desta primavera, por uns instantes com relutância porque estragava planos, mas logo depois com um fulgor que não passou mais. E se for ali? Não sentes o apelo da cidade novamente? Tão forte, em crescendo, estou em casa.

Estou feliz. Devia ter sabido que preciso disto, da confusão familiar, das multidões, de muita coisa a acontecer, das ruas corríveis e cicláveis, que tudo isto me rodeie sendo só preciso pôr o pé fora de casa. A minha introversão não se coaduna com a calma do campo; definha-me. A permanente estimulação dos sentidos é o perfeito complemento para a minha personalidade serena. Nada disto parece normal, nada disto soa bem (as cidades exercem força centrífuga em quem lá vive por razões que racionalmente me parecem lógicas). Mas é isto que sou e é disto que preciso, com uma constância que já me permite ter alguma confiança na sua permanência. 

O quiet hum continua, mas agora as minhas circunstâncias e os meus planos estão finalmente alinhados com ele. Finalmente. O quiet hum alimenta-os. 'É aqui, é aqui, é aqui!' As raízes. A minha casa. Os meus parques, as minhas ruas, os meus autocarros, a minha estação de comboio, o meu bairro, o meu rio, o meu terminal de autocarros, as minhas lojas. A minha cidade. O meu compasso cultural alinhado com as minhas circunstâncias.




S.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Veados, veados por todo o lado

Acho adequado vir aqui apresentar o desfecho deste episódio:

Fui hoje - finalmente - ao Richmond Park e vi dezenas de veados. À beira da estrada, a atravessar a estrada, nos prados, ao pé de Hampton Court, à beira de uma avenida incrível como quem vai para Teddington.




 Eram mais que as mães.

Quanto à zona adjacente, sim senhora, todo o cenário idílico que lhe dá a fama de uma das zonas mais procuradas da Grande Londres: casas lindíssimas de classe média-alta, muito sossego, limpeza e ordenação, longe da confusão do centro londrino, muito branquela, muito à subúrbio respeitável. Tudo do que neste momento da minha vida quero estar bem longe.



S.


domingo, 9 de julho de 2017

Uma Londres desconhecida

Há dois dias, porque o dia de trabalho foi eficiente e acabou cedo e porque Londres me chama para a rua com uma intensidade inescapável, decidi finalmente ir apresentar a Queeny Papa-Léguas à cidade. Parti sem rumo porque numa cidade que se desenrola à nossa volta com uma planeza a que ainda não me acostumei depois de 2 anos no Pico do Distrito, não é preciso recear esforços despropositados. Tira-se a altimetria da equação do esforço, fica só a simplicidade dos quilómetros. Fui seguindo ciclovias e outros ciclistas, até ver.

O até ver tornou-se Torre de Londres assim que me dei conta de que tinha chegado ao Big Ben e que a ciclovia onde estava se partia em duas: ou passar a Westminster Bridge para o outro lado do rio, ou virar à esquerda e continuar ao longo do Tamisa para leste, onde iria eventualmente chegar ao meu monumento britânico favorito.

O que eu não contava era ir estrear a rede londrina de auto-estradas de bicicletas, uma maravilha do planeamento urbano que não existia quando aqui vivi da última vez há 7 anos.

Como é que eu hei-de descrever isto... Basicamente é como se existisse uma Londres alternativa para bicicletas, como se os ciclistas tivessem a sua própria cidade, sem terem que se chatear com carros ou peões. Eu estou numa das estradas mais movimentadas da cidade, a zona do Embankment, mas ciclo com uma velocidade e um descanso que só imaginado em planos utópicos de cidades sustentáveis ou sonhos molhados de cycling freaks.


Isto que é uma animação a computador, tornou-se realidade o ano passado. Uma ciclovia de dois sentidos, completamente individualizada da parte onde passam os carros e do passeio dos peões. E há umas 8 como esta, senão me engano, que cruzam a cidade de umas pontas a outras.

Ora vide mais imagens e imaginai a trabalheira que não foi precisa para renovar estas estradas todas numa metrópole cheia de tráfego:




O cuidado posto no planeamento é notório nas fotos acima e abaixo, que ilustram como as cycle superhighways evitam as zonas onde param os autocarros.


E como as auto-estradas chegam a bifurcar em diferentes direções, no caso da CS3 para quem quer continuar pelo rio ou para quem quer entrar para dentro da City. Em baixo acho que foi onde me enganei ao seguir os ciclistas da frente e cortar para dentro da cidade, em vez de continuar em frente para leste na direção da desejada Torre.


Lá corrigi o meu erro pouco depois e cheguei à Tower Bridge, onde a apresentei à Queeny PL.


Eu ainda estou parva como esta rede gigante de ciclovias, que inclui as 8 auto-estradas mais ciclovias adjacentes e quiet roads para quem quer pedalar longe da confusão, se desenvolveu nos últimos anos sem eu dar por isso! Ainda em 2013, a primeira e última vez que pedalei na capital, a minha experiência foi a de uma cidade em que se ciclava pior do que em Bruxelas. Que puxão político que isto levou.

(a parte onde pedalei, de Westminster à Torre de Londres, está a roxo)

E por isto, ainda que o odeie pela parte hipócrita e de auto-serviço que desempenhou na campanha para o Brexit, o Boris Johnson, iniciador disto tudo, vai ter sempre a minha gratidão.



É que até túneis individuais estas ciclovias têm, porra! Um túnel para os carros e outro túnel ao lado para as bicicletas. Ainda hoje andei noutra das superhighways e lá estava um. (Não encontrei foto, vão ter de confiar.)

Ainda assim, é notório que muitas zonas da cidade, mesmo centrais, ainda não estão convenientemente servidas de boas ciclovias. Por exemplo, de sul para norte, de Westminster até ao Regent's Park, não há linhas de jeito. Mas o passo da evolução, e os trabalhos a decorrer por troços das superhighways planeadas, fazem-me estar muito otimista pelo futuro ciclável da cidade dos meus sonhos.

E quão demente seria isto, se se viesse a realizar?



Aqui fica o único mapa com as auto-estradas que encontrei - curiosamente num site japonês, que o tfl.gov.uk, para minha grande surpresa e frustração, não tem nenhum mapa da rede em condições.



Boa sorte agora em tentar me tirar daqui, Theresa May.




S.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Complexo de inferioridade

Um dia hei-de fazer um estudo sobre a forma como os media portugueses equacionam sucesso de ideias portuguesas com a atenção que países estrangeiros lhes devotam.

(Nunca vi país com tanta necessidade de validação externa como Portugal, irra. Deve ser por isso que vibramos tanto com vitórias em Euros, sejam de futebol sejam de canções.) 



S.

domingo, 23 de abril de 2017

Brexit calling

Viver no Reino Unido sendo cidadã europeia neste momento é sentir o coração a acelerar quando, ao embarcar num voo para Londres no estrangeiro, a assistente em terra me pergunta, após verificar o passaporte: "How long are you staying in the UK?", e responder com um defensivo e zangado "I live there", quase que desafiando-a a contradizer este meu ainda direito.


S.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Annus Horribilis

Em 2015, os alemães fizeram uma comédia que girava em torno de um Hitler transportado para os nossos dias, muito frustrado com a Alemanha aberta, multicultural e reconciliadora do séc. XXI, e de como as pessoas não o levavam a sério, muitas tomando-o por um humorista e até agindo de forma benévola e quase condescendente para com ele, como se trata uma criança ou uma pessoa que não bate bem da cabeça. A piada aqui era que estávamos todos tão acima do tipo de retórica que levou um Hitler ao poder e o mundo à beira do apocalipse que os argumentos do próprio não seriam levados a sério por ninguém hoje em dia.



Em finais de 2016, acho que este filme já não tem assim tanta piada.


S.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Escócia MAY not be independent



‘Because not everybody knows this but the full title of my party is the Conservative and Unionist Party. And that word, unionist, is very important to me. It means we believe in the Union, the precious, precious bond between England, Scotland, Wales and Northern Ireland.’

Bom, então adeus, 2º referendo sobre a independência da Escócia.

(De resto, discurso bastante humano, justiça social como principal tema e preocupação. A ver vamos.)




S.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

História nacional done right

"O transporte de trabalhadores escravos de África, iniciado pelos Portugueses para o desenvolvimento do Brasil, não tardou a envolver as colónias espanholas, inglesas, francesas e holandesas da América. Esta deslocação forçada de um número de indivíduos estimado em doze milhões provocou uma quantidade enorme de mortes, durante a viagem e nos primeiros anos de cativeiro. A imposição do domínio português em portos cruciais (e no território circundante) de África e da Ásia causou a destruição de famílias, comunidades e grupos étnicos, bem como o desmembramento de sistemas culturais e políticos. Por estas razões, a publicação deste livro carece de toda e qualquer natureza comemorativa. Ao escrevermos história, a nossa intenção é ir além de uma apropriação ideológica do passado e desconstruir conscientemente os sucessivos mitos que foram criados por várias historiografias. A necessidade de reescrever a história da expansão portuguesa decorre da nossa recusa de perspectivas ideológicas ou nacionalistas específicas; o nosso objectivo é superar as camadas de historiografia retrógrada que ainda são comuns."

in A Expansão Marítima Portuguesa 1400-1800, Francisco Bethencourt e Diogo Ramada Curto (eds)


Página 5 e já estou a gostar muito deste livro.



S.