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sábado, 30 de março de 2013

Barcelona, you're doing it wrong

Muito por acaso, apanhei um mercado enorme em Barcelona, daqueles mesmo bons, tradicionais e enormes, com bancas de todos os vegetais, frutas, peixes, queijos, carnes e enchidos que se possa imaginar. Não tem o caos do mercado do Midi, aqui de Bruxelas, nem a ordem do mercado de Loulé (por alguma razão, o mercado português que está mais vívido na minha memória), mas é labiríntico como nenhum destes dois e com uma variedade que me espantou francamente.

Enquanto por lá cirandava, uma banca de bacalhau chamou-me a atenção. Pensei: "Olha, que curioso, os espanhóis também apreciam bacalhau, não sabia." Até que me aproximei e vi melhor: 





Postas de bacalhau fresco, com uma grande camada de sal por cima, no que eu desconfio ser uma tentativa muito esforçada mais muito fail de produzir um bacalhau igual ao português.

Soltei uma gargalhada sarcástica e meio arrogante porque é sempre a mesma coisa. Todos tentam mas ninguém consegue ter bacalhau como em Portugal. Não, senhores barcelonenses, não é assim que se faz. O bacalhau tem que ser seco; não é só espetar um monte de sal por cima e esperar pelo melhor. Eu sei, eu já tentei... 

Corei um bocadinho quando me lembrei disto. No Natal londrino, numa tentativa um bocado desesperada de ter o tradicional bacalhau à mesa da ceia natalícia, comprei as típicas postas de peixe fresco e no dia anterior salguei-as como se não houvesse amanhã. Remediou, mas não é de todo a mesma coisa.

Por isso, vá, se é para vender tem que se fazer como deve ser; isso não engana ninguém, sim?



S.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O mercado do Meio-Dia

Ganhámos um novo hábito.

Após quatro meses de muito estrebuchar que as compras de supermercado são muito caras, que a variedade é pouca, que vegetais e fruta custam os olhos da cara e não são nada de especial, de termos descoberto um mercado semanal a dois passos de casa mas depressa concluir que as leguminosas custam o dobro do já caro supermercado, e de estrebuchar mais um bocado, descobrimos o mercado da Gare du Midi.

A Lonely Planet diz que é o maior mercado da Europa (e eu não disputo porque nunca vi nenhum maior - o de Camden não conta porque não é de legumes). Fica mesmo encostado à estação mais importante de Bruxelas, a Gare du Midi, que nos era familiar porque foi a nossa porta de entrada no país e já se tornou portal de idas e vindas para o resto da Europa. 


Serpenteia pelas ruas adjacentes e por debaixo do grande viaduto da estação - frequentemente se sentem e ouvem os comboios a passar por cima - e é enorme. Enorme e muito frequentado.

Da primeira vez que o visitámos, fomos a medo. Eu, apesar do que colegas me tinham dito, ía muito cética. "Legumes e fruta a preços razoáveis e em grande quantidade, aqui em Bruxelas?... Peixe fresco??" Ao sair da estação, como nos deparamos logo com a parte das roupas, calçado e afins, o meu ceticismo saiu reforçado. Mas quando virámos a esquina, caminhámos por debaixo do viaduto e entrámos na zona dos legumes, aí não houve outra reação que não o suspiro de "Finalmente!".

Vale bem a pena aguentar os encontrões, os apertos, o passo em caracol, as fintas aos cotovelos e ombros alheios e a gritaria geral própria de um mercado. Porque eu nunca vi tanta variedade de produtos hortícolas num só espaço. E o peixe fresco também se confirma! Da primeira vez, um polvo foi a única coisa que comprámos. Era a única saudade gastronómica que apertava e, quando o vi, fresquinho em cima da banca de gelo, não hesitei (quis armar em esperta e pedir em francês; não sabendo como se dizia polvo arrisquei um "octopus" porque me parecia perto do latim o suficiente para servir a uma língua latina, mas afinal era "poulpe" - tão parecido com português que logo me envergonhei. Daí que já tenha uma teoria em relação à língua francesa: na dúvida, joga-se a palavra portuguesa que há fortes probabilidades de ser a correta ou muito próxima).

Da segunda vez, já fomos munidos do carrinho de compras para abastecer o frigorífico das verduras para a semana inteira (o mercado do Midi é só ao domingo de manhã. O que complica a transformação da ida esporádica ao mesmo num hábito; são muitos trade-offs: levantar cedo e ir ao mercado ou ficar na caminha; enfrentar a multidão e trazer carrinho cheio de legumes ou contentar com a pouca escolha do Lidl... Difícil, muito difícil). O carrinho veio cheio para casa. Não comprámos mais nada porque o D. olhava incrédulo o meu entusiasmo e interrogava em voz alta como é que tudo aquilo ía caber no nosso mini-frigorífico. 



Resultado: descobri o prazer de cozinhar legumes frescos e até já me aventuro a provar saladas (devagarinho que isto é animal de lenta habituação).

Resultado 2: descobrimos o prazer de substituir bolachas e M&Ms por fruta, e portanto a que trouxemos não durou nem até meados desta semana. Eu defendo que o mini-frigorífico, bem arrumadinho, aguenta com o dobro das verduras que trouxemos...

Conclusão: sim, Bruxelas, de quando em vez, lá me consegue surpreender. E a nossa vida aqui vai-se tornando aos poucos mais inteira.



As fotos são todas cortesia do Google Images porque a lei da sobrevivência e integridade física impede-me de sacar da máquina com toda a calma e pensar sequer em tirar fotos ao que vejo.


S.