sábado, 16 de novembro de 2013

A linguista dentro de mim cisma

Sempre me fascinou a questão dos sotaques. Mesmo muito. Durante muito tempo foi a demanda pela capacidade de distinguir entre os diferentes tipos de inglês - particularmente o britânico e o norte-americano - e hoje é a demanda pela capacidade de distinguir com eficácia sotaques de diferentes regiões do UK. A ideia de que o sítio onde vivemos modela a nossa forma de falar, a forma como soa as palavras que dizemos, é-me incrivelmente surpreendente e fascinante. Se calhar não devia ser porque parece uma coisa muito lógica, constatável e extremamente corriqueira. Mas para mim encerra a mesma incredulidade que constatar que o cãozinho de dois meses que adotámos crescia a cada dia e que agora passados três anos é um cão grande, ou que os bebés na família/amigos que acompanhámos desde a gravidez nasceram, passaram de recém-nascidos a bebés rechonchudos e crescem todos os dias, como atestam as fotografias partilhadas pelo Facebook. E isto independentemente do que fazemos. Foi com esta mesma incredulidade logo seguida de "ah, claro, mas estavas à espera do quê" que eu constatei que uma das minhas melhores amigas que me ficou do mestrado tem agora um lindo e robusto sotaque britânico, após três anos ininterruptos a viver em Londres. (Infelizmente, nove meses não dão para obter o mesmo resultado, como depressa constatei, especialmente se convivermos com pouca gente inglesa.) Mas o mais fascinante disto é que os sotaques são adquiridos naturalmente, e provavelmente sem a pessoa se aperceber, como pude também constatar após o nosso encontro há uns meses e o meu "Olha, ganhaste sotaque britânico!" e ela olhar para mim deveras surpreendida: "... ganhei?". Isto torna-se ainda mais engraçado quando a pessoa já havia aprendido a língua, já a falava com grande competência mas agora di-la de forma diferente. É como se fosse o instinto a modelar-nos para sermos o mais compatível possível com o que nos rodeia. Fico curiosa para saber se daqui a uns aninhos, a minha prima que vive agora no Porto desenvolverá um bonito sotaque nortenho, ou que tipo de português os meus filhos falarão se nos mantivermos emigras como intencionamos.

Pouco tempo depois de nos mudarmos para Bruxelas descobri, porque me disseram, não porque o conseguisse distinguir, que também havia uma diferença significativa entre o francês belga e o francês de França. Depois, quando fui a Estrasburgo, descobri que havia uma diferença também entre o francês de França estandardizado, que suspeito que equivalha ao francês de Paris, e o francês da Alsácia, que me disseram ter toques germânicos. Mais uma vez fui uma pessoa muito infeliz por não ter o nível de francês que me permitisse distinguir estas subtilezas maravilhosas das línguas que tanto me fascinam. Entretanto já consigo saber quando alguém está a falar francês de França ou francês belga. Descobri a distinção quando, nas minhas vendas de roupa em segunda mão, calhou uma rapariga ir a minha casa e eu começar a ficar extremamente incomodada por estar a ter grande dificuldade em perceber o que ela dizia. Só pensava "Mau, mas estou a andar para trás ou quê?!". Até que ela disse que era francesa e as peças encaixarem: estava a ter dificuldade em perceber este francês não por culpa minha mas porque provavelmente tinha pronúncia, hmm, francesa. Em vez de belga. Portanto é assim que agora os distingo: se o palavreado me está a parecer demasiado rápido e ininteligível quase de certeza é porque é sotaque de França. Mas isto ainda não é um método infalível e tenho muito que aprender.

Noutra nota, já não é a segunda, nem terceira, nem quarta, e suspeito que nem a quinta pessoa estrangeira que me diz que o português soa a russo. Da primeira vez arregalei muito os olhos de surpresa, à segunda fui tentar confirmar (o que é muito difícil porque se trata da nossa língua materna, mas há que tentar bloquear as palavras e o significado delas e focar só nos sons emitidos) e descobri, para meu grande espanto, que essas pessoas tinham razão: o português soa assustadoramente a russo. Suspeito que seja porque falamos para dentro e não tenhamos nenhuma musiquinha associada à nossa língua. O português europeu é deveras monocórdico e aborrecido. E a última pessoa que me disse isto do português europeu soar a russo foi uma brasileira, de forma que isto selou as minhas suspeitas em confirmações. 

Por falar em musiquinha associada à língua, uma vez perguntei à professora de inglês na universidade em Portugal (ela era nativa britânica) a que é que soava o português, porque sempre foi uma coisa que tive muita curiosidade, e ela disse que a nada. Que era extremamente difícil de identificar um português a falar inglês precisamente pela ausência da musiquinha linguística que, por exemplo, um italiano tem, ou um espanhol, ou um francês e que nos faz rapidamente aperceber quando é que um destes nacionais está a tentar falar inglês. Eu fiquei deveras intrigada. Deve ser por isso que rapidamente adotamos pronúncias estrangeiras quando vamos viver para outros países durante alguns anos, e transportamos essas pronúncias para quando falamos português, como é tão facilmente constatável em episódios de Portugueses pelo Mundo, ou em emigrantes franceses de volta à terra em agosto. 

Devo no entanto declarar aqui que o meu português se mantém intacto, muito porque o falo em casa todos os dias, e os meus amigos aqui são maioritariamente portugueses. Quanto ao meu inglês, ainda que seja a minha língua de trabalho, ele é maioritariamente falado com outras pessoas não-nativas e, sendo que as nativas falam inglês escocês, tenho-o guardado limpinho de influências sonoras e mantém-se assim muito internacional-estandardizado, aguardando o dia em que também ele se transformará num inglês britânico-regional manhoso qualquer. Mas prometo não forçar nem armar ao pingarelho quando esse dia chegar.

Agora podia vir aqui falar do alemão, mas se ainda não distingo como deve ser sotaques franceses, o que dizer do alemão, tão amador ainda. Mas ao que já me chegou aos ouvidos, sei que ele é ultra variado consoante os Länder e que por vezes pessoal nativo tem mesmo dificuldade em entender certos sotaques mais cerrados. Deve ser um pouco à moda dos nossos Açoriano e Madeirense.

Por falar em alemão, ontem peguei neste livro que a minha mãe tão carinhosamente enviou de Portugal e que, por ter a mesma bonecada que o seu irmão inglês, tantas boas recordações me despoletou:


É um livro extremamente banal, de uma edição já com 20 anos e semelhante a dezenas de outros dicionários com imagens que para aí abundam, com as palavras organizadas por temas. Mas eu cresci com o seu irmão inglês, igualzinho:


e nem consigo começar a descrever as vezes que eu folheei este livro, as cópias que fiz das palavras, as histórias que eu inventava com cada imagem da cidade, dos animais, das férias, da família, as vezes que eu brinquei à professora e alunos, o velhinho e gasto que ele está. De maneiras que revisitá-lo mas em versão alemã só abona para a minha motivação de aprendizagem da língua germânica.

Eu já tinha sido alertada mas depressa constatei que a língua alemã é estupidamente divertida na sua construção de palavras. Assim, e recentemente, fiquei a saber que uma luva é um sapato para a mão (Handschuhe), ou que trocos são dinheiro pequenino (Kleingeld), ou que o hospital é a casa dos doentes (Krankhaus), ou que o frigorífico é o armário do frio (Kühlschrank), ou que - e esta é a minha preferida até agora - uma tartaruga é um sapo com escudo (Schildkröte). Por vezes também descubro umas palavras inesperadamente semelhantes a portuguesas, como o quése (Käse), o duche (Dusche), ou o cábél-iau (Kabeljau). As semelhanças com o inglês então são tantas que nem vale a pena alencar. É por isso que isto de aprender línguas faz-me sentir que pertencemos todos a uma grande, antiga e barulhenta família.

Não tenho nenhuma conclusão para este post, a finalidade era mesmo só cismar nuns pensamentos soltos sobre sotaques e palavras alemãs que andavam a rodopiar na minha cabeça. E constatar mais uma vez quão fascinante é o mundo das línguas.







S. 

domingo, 10 de novembro de 2013

Já oiço os sinos a dobrar

Da minha lista de Ano Letivo Novo até ao Ano Novo:

- É mesmo desta que vou recomeçar a minha aprendizagem do alemão. 

- Em dezembro vou correr nove quilómetros numa hora. 

- Antes de 2013 acabar, terei a minha candidatura a doutoramento completa. 

- Terei acabado de ler o European Feminisms 1700-1950.

- Terei acabado o meu primeiro curso da Coursera.  

- Terei aprendido a gostar de mais um legume cru. . 

- Terei visitado Bruges. 

- Conseguirei acompanhar um episódio de uma série qualquer dobrada em francês sem fazer cara de nojo.

Adivinhem qual completei hoje mesmo e que me deixou com um sorriso gigante. 10k. 54 min. O meu corpo continua a surpreender-me. Máquina linda, pá. Agora venham os 15k e o cumprir de um sonho que eu nem sabia que tinha:

 
Correr a corrida da minha terra no próximo abril.



S.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Mantra: "É já no sábado, é já no sábado, é já no sábado"

Nestas duas semanas de stress e trabalho acrescido, muito eventful, só tenho tido isto a ocupar o resto do cérebro que não estava devotado ao tal trabalho acrescido:


É amanhã que os vou ver pela primeira vez ao vivo, após um susto do caraças porque desataram a cancelar concertos no início desta semana devido a uma laringite do senhor Turner, após vários anos de espera, numa sala de espetáculos como deve ser e com duas horas de concerto como mereço.

É caso para dizer: FINALMENTE.

Muito poucas coisas me tiram do sério e me metem estrelas nos olhos (neste caso, nos ouvidos) por isso as que fazem é porque me valem mesmo mesmo mesmo a pena.



S. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Post-its de Varsóvia

- Já sabia que Varsóvia era feia. Já me tinham dito. Que era uma cidade descaracterizada, não necessariamente pobre mas desgastada, sem muitos brilhos anteriores ao século XX. O que não me tinham dito era porquê e quando o descobri fez toda a diferença. Varsóvia é feia graças à determinação dos seus cidadãos: em 1944, após uma revolta da cidade contra o domínio Nazi, Hitler ordenou que a cidade fosse completamente arrasada. E foi. Portanto, a cidade pode não ter a arquitectura grandiosa de séculos passados e a harmonia histórica de outras cidades, mas é bem capaz de ter dos cidadãos mais corajosos da Europa.

- Varsóvia assumiu-se aos meus olhos como uma cidade gigantesca. Depois de visitas recentes a Portos, Yorks, Sintras e a sempre cá Bruxelas, Varsóvia surpreendeu-me com as suas avenidas largas, enormes a perder de vista, que não convidam ao caminhar. Afigurou-se-me como uma cidade de proporções sobre-humanas neste sentido, e por isso não a percorri incessantemente a pé como costumo fazer nos sítios novos onde vou. Mas fico contente por afirmar que o tempo não pesou de todo nesta decisão já que apanhei uns incaracterísticos 18º de máxima em finais de outubro e um sol radioso nos dois dias.

- Como é possível ser a mesma hora que em Bruxelas?! É tão mais para leste. E como é possível que a Galiza e Varsóvia partilhem o mesmo fuso horário? Houve aqui qualquer coisa que escapou ao pessoal que decide que horas são onde.

- Já suspeitava porque já tinha presenciado isto em várias ocasiões no meu trabalho mas reafirmei a noção de que o alemão é uma língua fundamental europeia. Os polacos falam-na facilmente, muitos bem mais facilmente que o inglês, ainda que este não seja nenhum problema nas lojas e cafés da cidade. Não há nada melhor para eu dar valor à minha ainda principiante aprendizagem do alemão do que passar horas a ouvir muito polaco à minha volta em contexto de trabalho e de repente respirar profundamente de alívio porque duas pessoas ao meu lado estão a conversar em alemão. Uma reação muito desesperada de "olha, desta percebo um bocadinho! :')".

- No final, a impressão com que fico é a de que a Polónia é um país grande em muitos sentidos. Eles estão numa fase muito interessante de expandir as suas medidas, quase como de cumprir o seu destino, e isso é uma coisa que Varsóvia transpira. Estão a esforçar-se muito, querem mesmo muito pertencer ao clube dos grandes - como aliás lhes é merecido pela grandeza populacional, geográfica e histórica do seu país - e vão chegar lá não tarda muito. Foi só um país muito maltratado pela História e que está agora a preencher a sua forma.

- Foi a primeira vez em muitos anos que estive numa cidade onde não falava nem entendia de todo a língua e confesso que estava nervosa. Tive também uma preguiça enorme em preparar o que quer que fosse que se parecesse com um plano de visita e isto, por ser tão incaracterístico meu, impressionou-me. Tal coisa aliada a alguns azares turísticos, à mudança de hora e a uma estadia curtinha fez com que Varsóvia ficasse pois extremamente mal explorada. 

- Eu digo se depois de lá ir em janeiro, em pleno inverno europeu continental, continuarei com as minhas primeiras impressões intactas ou se alguns palavrões se juntarão à próxima análise.





S.   

Free fallin'

Ontem estreei uma low-cost nova, a Wizzair, e descobri que ter mais do que dois centímetros entre as minhas pernas dobradas e o banco da frente é um luxo chamado "extra leg room" e sujeito a uma fee especial. Eu tenho metro e meio, portanto não sei como fazem as pessoas normais para caber ali. 

Sonho viver para ver chegar o dia em que uma companhia aérea low-cost repare que alugar as escadas móveis aos aeroportos é também um luxo no desembarque e que passe a dizer "desenmerdem-se, um salto de 5 metros não é nada de outro mundo." Não devo ter que esperar sentada.




S.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Rai's partam a liberdade

Quando eu disse que em York tinha sido a primeira vez que admiti que poderíamos se felizes no UK fora de Londres, não era um desafio nem um convite para dores de cabeça ou acrescento de dúvidas existenciais.

A verdade é que aumentando-se o nosso mundo possível aumenta-se o leque de escolhas e a dificuldade de decidir, e quando admiti aquilo sobre a felicidade não previ isto. E o UK é tão maior que Londres, caraças. E tem tantas universidades. E três/quatro anos parecem-me agora um compromisso demasiado sério, um bocadinho a puxar para o dantesco, para quem tem andado a saltitar de lugar de ano em ano.

Apesar de tudo, a mente já fervilha com a perspetiva longínqua mas a modos que definida de mais um bilhete só de ida. 



S.    

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Isto é que é otimismo climatérico

Aqui há uns tempos, assinei uma petição para salvar a Mini-Europa, um parque muito giro aqui em Bruxelas com réplicas de monumentos e maravilhas naturais de todos os estados-membros da União Europeia. Queriam fechar este parque para construírem de um mega centro comercial. A Mini-Europa tem coisas maravilhosas como estas:








O nível do detalhe das maquetas é espantoso e todos os países estão representados, muitos com coisas não necessariamente sobejamente conhecidas do público geral. Já devia ter escrito sobre este parque aqui, não percebo porque ainda não o tinha feito, é um dos meus sítios preferidos em Bruxelas. E queriam fechá-lo por causa da porcaria de um centro comercial. I don't think so. Daí que fiz uma coisa que não é muito frequente e assinei a tal petição.

Hoje recebi um email efusivo a informar que a Mini-Europa já não vai fechar graças em parte à pressão da petição. Yupiii e hurray às iniciativas de cidadãos! Mas ao que parece, a Mini-Europa faz parte de um complexo de entretenimento que inclui também um parque aquático, o Océade, o qual também já não vão fechar. Portanto, como agradecimento, parece que ganhei um bilhete para o Océade para aproveitar até ao fim deste ano. 

Ainda estou a rir baixinho o facto de ter ganho uma entrada para um parque aquático bruxelense para novembro ou dezembro. Será que aquilo fecha quando cai neve? :D Senão gostava mesmo de lá ir durante um nevão, só para ser o mais surreal possível.






S.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Filmes de terror com bocejo

Eu sou (era?) daquelas pessoas que se borram todas com filmes de terror daqueles com espíritos, e crianças sinistras e assim. Vi o Sexto Sentido quando tinha 11 ou 12 anos e por causa dele apanhei uma psicologice marada em que chegava à noite e era como se uma depressão se abatesse sobre mim, andava convencida, na minha cabeça, que o dia seguinte não chegaria, e que ninguém me conseguiria garantir que ele chegaria (era uma criança muito profunda, eu sei). Não consegui adormecer durante um mês sem ter alguém ao meu lado. Eu era (sou?) este tipo de pessoa.

Continuei-me a borrar com estes filmes ao longo da adolescência, porque isto é mesmo assim, o ser humano tem uma atração masoquista pelo mórbido, e ainda hoje me borro. Mas agora, e quero acreditar que isto é fruto da maturidade, evito filmes destes como a praga. Dos que metem litros e litros de sangue, gritaria e facas nunca gostei, porque também sou daquelas pessoas que começa a ver tudo a andar a roda se vê um pingo de sangue (e um dia conto uma história muito engraçada de como quase desmaiei quando levei a minha gata ao veterinário para tirar análises). As versões mais sofisticadas - e tão incrivelmente sádicas que não percebo como os seus criadores ainda não foram presos (just in case, diria) - como Saws e afins muito menos, por isso diria que filmes de terror não são para mim.

De quando em vez lá me conseguem convencer a suportar o sacrifício, daí que saiba que me continuo a borrar com filmes de espiritices. Mas há uns dias eu tive uma epifania que mudou a minha maneira de olhar para estes filmes. Os filmes que envolvem almas penadas, fantasmas e seres de outros mundos são do melhor porque exploram o nosso medo muito humano do desconhecido, e particularmente se nunca se chega a ver a fonte dos barulhos, risos maléficos e fenómenos estranhos então é de nos ficar a remoer a mente porque é uma ameaça nunca concretizada, impossível de lutar contra. Mas isso é raro, e normalmente lá aparece uma bruxa feia, toda despenteada e de olhos esbugalhados, ou uma criança sinistra de pijama com ar muito sério, e normalmente uma pessoa pensa cheia de desilusão "ah, é isto...". Mas voltando à epifania. Normalmente, nestas coisas dos espíritos e demónios e assim, a arma tem um simbolismo cristão. Nos exorcismos então diria que é 100%. Terços, crucifixos, águas bentas, padres, etc, são sempre a maneira de afastar estes bichos do Além. E isto, descobri eu, é muito aborrecido para uma ateia como eu. Estabelece-se no filme uma narrativa em que o Cristianismo é a realidade. Não há espaço para Alás, nem para Budas, nem deuses mitológicos. E os próprios espíritos vivem (salvo seja) segundo essa narrativa! E validam-na. Ora, porquê? Porquê que um espírito iria dar a mesma validação a um objeto que só tem validação porque os humanos lhe dão? Porque é que atirando com uma Tora à "cabeça" do espírito não funciona? E de que é que tinham medo os espíritos no "Antes de Cristo"? Para mim, a história dos espíritos até seria verosímil, mas deixa de o ser a partir do momento em que vejo o conluio cristão da coisa; se eu não engulo o sagradismo da coisa então também não consigo engolir a sua antítese. Cai todo o sistema de pavor que o filme tenta incutir. 

Outra coisa são as metáforas. Muito gostam os espíritos de assustar através de mensagens veladas. No Conjuring, há lá uma parte em que começam a cair da parede os quadros todos com fotografias dos membros da família. Porquê? Porque o espírito queria matar os membros da família. Uuuuuh, que metáfora tão bem pensada... Para quê? Que maquinação tão humana, valha-me deus*. Deixar mensagens e não sei quê, quer matar, mata. Parvoíce.

Depois há a velha história de alguém que morreu na casa assombrada, que é sempre uma mulher, ou que ficou maluca, ou que matou os filhos ou assim. E estas coisas da representação dos géneros nos filmes vai-me acionando a mente nos momentos mais inoportunos e eu chego à conclusão que isto é tudo a exploração de velhos temas que fazem parte do folclore ocidental há séculos: a loucura que se achava que todas as mulheres tinham em maior ou menor dose mas sempre latente, e o mito da maternidade como expoente máximo da mulher e o sagrado da relação mãe-filho e do quão contra-natura e inspirador de medo é quando isso não é assim (refletido no extremo com a mãe a matar o filho/a filha. Isso é sobrenatural, um homem matar os filhos é "apenas" homicídio a sangue frio). Aposto que esta relação entre filmes de terror e mitos sobre a condição feminina dava um estudo interessantíssimo e aposto como já existem uma data deles.

Não me interpretem mal, eu continuo a ver estes filmes por detrás das mãos e a apanhar cagaços mesmo assim (se metessem aquelas músicas numa comédia continuava-se a apanhar cagaços, mas enfim), mas agora já não me desafiam mentalmente, já não fico com eles agarrados durante dias e dias à cabeça a rever imagens mentais do filme. O que está por detrás dos cagaços e da música bem escolhida tornou-se só parvo. 


* isto é uma expressão linguística, não venham chatear a ateia.

S.   

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Ele há coisas... #36

Ena, ena, nunca tinha visto isto no estrangeiro!

                       

Bacalhau escrito como "bacalhau" (e não "bacalao" ou "morue" ou outra estranheza qualquer) e seco e salgadinho como deve ser.

Emocionei.

Vamos esquecer o pormenor de que encontrei isto num folheto de supermercado em que o mês é dedicado à Itália, está-se mesmo a ver, é sul da Europa é tudo igual, qualquer dia acham que um dos pratos tradicionais portuegueses é a pizza. Isto há-de ir lá, devagarinho mas vai.



S.
                                                    

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Toda a gente sabe que as mulheres não suam

A sério que há pessoas que vão correr maquilhadas? Mas há pessoas que chegaram a um ponto de tal abominação pelo seu corpo sem adornos que não podem sequer conceber deixar a pele respirar em momentos de alto esforço?

Deus nos livre de parecer seres humanos.

As pseudo-regras do "ser mulher" continuam a fascinar-me todos os dias.



Faz de conta que esta imagem é a Rosa Mota a fazer um facepalm.

S.