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sábado, 6 de outubro de 2012

Bebés há-os em todo o mundo

Há uns largos meses que queria ver este documentário:


Hoje foi o dia.

A premissa é do mais simples que há: acompanhar a vida de quatro bebés em diferentes partes do mundo durante o seu primeiro ano.

É simplesmente... fascinante. 

São-nos apresentados quatro exemplares humanos na sua forma mais pura, acabados de chegar ao mundo em ambientes muito diferentes, às vezes a roçar os extremos. Um é da Namíbia, outro da Mongólia, outra de Tóquio, e a última de S. Francisco.

O meu interesse era o óbvio perante um filme destes: saber como se educam bebés em diferentes partes do mundo. Ver, com os meus próprios olhos e sem ninguém me contar, como é que estes bebés humanos lidam com o que os rodeia e que nestes quatro casos é tão diferente entre si. 

E o que vi deixou-me maravilhada. Isto porque as quatro crias humanas são iguaizinhas, não obstante os seus ambientes. A curiosidade em relação ao que as rodeia é exatamente a mesma, a atenção e alegria quando a mãe as desafia é igual, os sons balbucionados são os mesmos, as tentativas de gatinhar e depois de começar a andar semelhantes, os guinchos não se distinguem, a displicência com que pegam em tudo e enfiam na boca é a mesma. 

Porque uma coisa é dizer que somos todos iguais, todos irmãos, todos a mesma espécie. Isto toda a gente sabe na teoria. Mas ver este facto espelhado nas ações de quatro bebés de sítios e culturas tão diferentes é maravilhoso e faz com que se assimile essa igualdade como verdade verdadinha por ser tão óbvia. 




O documentário não pretende dar nenhuma lição a ninguém, nem tem qualquer moralidade subentendida. Isto porque os autores escolheram não meter nenhum narrador ou comentário de qualquer espécie (o filme parece um No Comment da Euronews especialmente longo. E tal como na Euronews, a intenção é "tirem vocês próprios as conclusões"). E, de facto, não fiquei convencida sobre qual é a melhor cultura para se educar um bebé...

Basicamente não temos ninguém a falar, apenas cenas completamente aleatórias da vida destes bebés, que espelham muito bem como é o seu quotidiano. Temos assim o bebé namibiano sempre livre, nu e a meter terra, pedras e um osso (!) à boca com a naturalidade típica dos bebés, o bebé mongol a brincar na sua tenda forrada a tapetes onde de vez em quando aparece uma cabra ou um galo que salta para cima da sua cama (estava sempre à espera que pusesse um ovo para ver a reação do bebé que o olhava atentamente mas a palavra-chave aqui parece que é mesmo GALO). Depois temos a bebé japonesa rodeada de brinquedos e gadgets corriqueiros nos países ditos desenvolvidos, e a bebé norte-americana naquelas aulas de cantigas e danças para bebés mas para as quais os mesmos estão-se mais que borrifando.

Isto lido assim parece tendencioso mas estas são meramente as atividades que me chamaram mais a atenção. Porque, mais uma vez, o documentário não tenciona provar nada e o foco são mesmo os bebés. O seu ambiente surge apenas como algo secundário e inevitável quando se tenta mostrar estas vidas tão diferentes mas tão primordialmente semelhantes.

É curioso como uma verdade tão básica se tira deste filme: bebés há-os em todo o mundo. Não interessa se crescem rodeados dos mais avançados brinquedos, se dormem debaixo daquele edredão de penas de pato, se tomam banho numa tina de água ferrujenta ou se tem como animais de companhia cabrinhas bebés (até me arrepiei quando o bebé mongol agarrou numa mãozapa de pelo da cabra e a puxou pelo chão. Mas o bicho parecia estar habituado e nem pestanejou), se frequentam aulas de ginástica desde os seis meses ou se  brincam em parques de diversões ou dentro da poça à porta de casa. O que é facto é que eles crescem, absorvem tudo o que os rodeia e são felizes. 

Claro que os cuidados de saúde, alimentação e conforto da bebé japonesa não se comparam aos do bebé namíbio; mas essa não é a questão. O que este documentário prova é que é estúpido pensar que se comete um grande crime de parentalidade se não se tiver o carrinho-de-bebé de marca McLaren ou se não se levar o filho a frequentar aulas de música desde os três meses, e que na ausência de todas estas mariquices o bebé não será feliz. Bebés sempre os houve e continua a haver, mesmo nas condições mais primordiais que se possa imaginar. 

Porque o ambiente inevitavelmente os irá moldar para lá do reconhecimento deste documentário, seria extremamente interessante ver como eles serão diferentes daqui a 10 anos. Entretanto, fica pelo menos a constatação de que vieram do mesmo sítio e no seu primeiro ano de vida são iguaizinhos no que mais de humano tem.



S.  

terça-feira, 20 de março de 2012

A missão americana

Durante grande parte da minha adolescência padeci de uma condição muito grave chamada "obsessão pela América".

Era muito semelhante a uma doença, juro, eu vivia para o dia em que atingi-se a maioridade e pudesse mudar-me para lá, pesquisei universidades para estudar, investiguei tudo o que havia para investigar sobre vistos, greencards e imigração, e a emoção toldou-me os olhos e as palavras quando pus pé em solo americano pela primeira vez, aos 15 anos. Cheguei a trazer comigo uma revista de imobiliário, que apanhei no metro por acaso, e sobre a qual passei horas e horas debruçada, de olhos sonhadores, a imaginar o dia em que teria a minha própria casa de madeira branca, com relvado à frente e sem gradeamentos à volta. A paixão pelo inglês esteve durante muito tempo entrelaçada com esta paixão pela América e as duas alimentavam-se mutuamente. O 11 de setembro é um dia que nunca vou esquecer, não pelo cliché (ainda que verdadeiro) de que mudou o mundo mas porque lembro-me perfeitamente que mudou o meu mundo, o mundo a preto e branco, muito simples, de uma rapariga de 13 anos que tinha já uma obsessiva admiração por esse país do outro lado do Atlântico e que não conseguia, de maneira nenhuma, entender como é que alguém podia querer magoar a América! Esse dia em 2001 só tornou a minha obsessão mais profunda.

Até que... cresci. Aprendi e aprofundei o conhecimento da História do séc. XX e comecei a desconfiar que afinal as coisas não eram bem como eu idealizava. Aquilo não era o paraíso que os filmes e as séries de Hollywood me impingiam e que eu, maravilhada, assimilava. O sotaque americano começou a aborrecer-me. E um dia dei por mim a torcer o nariz à perspetiva de ir viver para os EUA. O que toda a gente me dizia que iria acabar por acontecer - e contra o qual eu batia o pé determinada, exclamando "Vocês nunca vão perceber!", cheia de raiva adolescente e pena de mim mesma - aconteceu. A obsessão acabou.

Questiono-me muitas vezes se a minha paixão pela UE não surgiu para preencher o vazio deixado pela América. É algo novo para idolatrar. Tal como os EUA, tem um sonho nobre na sua incepção - a paz - mas ao contrário dos EUA não tem exército para invadir países nem se dá a manifestações de poderio militar. (Entretanto, há uns aninhos, apaixonei-me pela Britain, um bocado inconveniente face à simultânea paixão pela UE mas se formos a ver fica a meio caminho EUA-UE, e olha que giro, nunca tinha pensado nisto; não sei se hei-de ficar contente ou temente...)  Mas quero acreditar que a UE é uma paixão muito mais comedida, um pouco mais crítica e provavelmente mais saudável do que a anterior. E confio que só pelo facto de eu ter consciência que tem o seu quê de idolatria, impede que esta seja cega. A Europa tornou-se o meu sonho, o meu compasso, a minha ambição, a minha casa.

Mas ultimamente, e muito por insistência sugestiva do D., a América voltou a apresentar-se como um destino possível na minha (nossa) vida. E apesar das minhas recusas galhofeiras e da consciência da dificuldade acrescida que é emigrar para fora da UE, é certo que a América voltou a passear livremente pela minha mente. E eu dei por mim a pôr os EUA como hipótese mais vezes do que pensei voltar a ser possível. "E se... Não, não, não, está quieta, já sabes do que é que aquela casa gasta. Mas e se... Mau, voltamos ao mesmo? Era só uma ideia. Afinal, a América continua a ser tão interessante..."

Assim sendo, os nossos destinos de futuro estão sempre em aberto. Sabia que o futuro passaria por Bruxelas necessariamente - e está a passar - mas não sei por quanto tempo. Pode voltar a passar por Londres, hipótese provável. Ou por Lisboa - idem, mas hipótese muito deprimente para mim. Também pode passar por Paris, Berlim, Florença, Frankfurt. Ou Estados Unidos. Quem sabe.

Foi com esta mentalidade de futuro em aberto que hoje me dirigi, após muita luta interna ("mas o que é que vou lá fazer, aquilo nem é bem uma conferência, ainda por cima vão servir sandes, e se eu não gosto, faço figura de parva, metem sempre alface e tomate, bandidos... vou ter que sair do edifício do Parlamento, o que só por si é atividade extenuante, depois ainda andar até lá...") à Missão dos Estados Unidos junto da União Europeia. AKA, Embaixada dos EUA na UE. Ía ser um almoço de apresentação da Missão, organizado pelos estagiários nessa instituição destinado a estagiários do Parlamento. E como eu estava com uma grande curiosidade sobre o que iria ver e ouvir, e porque tenho compreendido o poder do networking para descolar carreiras, e porque queria ouvir americanos envolvidos em assuntos da UE a falar, lá fui eu.

O edifício em si não foi difícil de descortinar. Mesmo se não fossem as bandeiras americanas a ondular no jardim, as barreiras para impedir carros de estacionar e os vários guardas à porta teriam facilmente denunciado que ali estava um pedaço de solo americano. Aliás, eu ainda nem tinha chegado à porta da Missão, estava apenas a andar pelo passeio, quando sou barrada por um dos guardas com um "May I help you, Madam?". Eeeerr... "Juro que não sou terrorista!" É o que apetece dizer, enquanto se mete as mãos no ar.

Depois de explicar o que ali vinha fazer lá me deixou continuar a andar, na rua, até à porta da Missão. Lá dentro, segurança digna de aeroporto. Aliás, pior, porque no avião ainda nos deixam levar a mala connosco - ali a mala, o casaco e o B.I. ficaram reféns à entrada até à minha saída do edifício, e o telemóvel teve de ficar desligado. Jesus, paranóia, much?

Conduzida pelos corredores levava os olhinhos esbugalhados para absorverem todos os pormenores do interior: os brasões dos departamentos de Estado dos EUA, os quadros com as fotografias do Obama e antigos presidentes, a bandeira americana muito digna na sala onde entrámos, as paredes e teto trabalhados dando a entender que aquele edifício foi em tempos um palacete aristocrata qualquer.

Não vou entrar em pormenores sobre a apresentação propriamente dita, referir apenas que a atitude muito típica americana, um misto de arrogância honesta com ingenuidade e franco otimismo, esteve lá. Não me surpreendeu, também não levei a mal, mas descobri que estou mais cínica do que antes. Ainda assim, sinto que fiz as pazes com a América; a minha relação tempestiva de amor-ódio acalmou e hoje consigo olhar de frente para ela, encolher os ombros e pensar "A América não é boa, não é má, é assim como é".

No entanto, tenho de confessar que quando vi os guardanapos de papel engravados com o selo americano, aquela águia com as palavras United States of America engravadas a toda a volta em círculo, me deu um impulso de roubar um. E podia ter levado o meu, porque não. Mas o pensamento de ser apanhada a guardar na mala um guardanapo usado e o ridículo da situação deixou-me estar quieta.


cortesia Google Street View; puxar de máquinas fotográficas ao pé de security-freaks nunca foi boa ideia e eu ainda assim dou valor à vida e à minha liberdade



S.