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sábado, 22 de novembro de 2014

O feminismo vem até mim

Amanhã à tarde vou ouvir falar três fundadoras das campanhas feministas mais mediáticas aqui do UK:
 
- Lucy-Anne Holmes, que criou a campanha "No More Page 3", uma campanha para que o jornal The Sun, uns dos mais queridos tablóides da zona, acabe com a exposição completamente aleatória de mulheres nuas na sua terceira página.

- Nimco Ali, uma das fundadoras do Daughters of Eve, organização que luta pelos direitos e bem-estar de vítimas de mutilação genital feminina.

 - Laura Bates, jornalista e fundadora do Everyday Sexism, um projeto para as mulheres documentarem e partilharem online as instâncias de assédio sexual e verbal de que são vítimas diariamente.
 
"Celebrating Modern Feminism", cortesia da minha associação de estudantes. Há lá como uma pessoa não amar a sua nova universidade?



S.

domingo, 26 de outubro de 2014

Tenho a mesa cheia de feminismo

Ainda estou a ressacar da minha primeira conferência feminista de ontem, em Londres. Tenho o computador rodeado de panfletos sobre organizações, campanhas e mulheres incríveis, que catalogo diligentemente no meu caderno de notas virtual, para futuro contacto.
 
O PhD não é um mar de rosinhas, não senhor (decisões, decisões, só decisões), mas caramba, se calhar todos os investigadores que nos dizem constantemente que os anos de doutoramento são os mais livres e felizes da nossa vida profissional têm razão.
 
 
 
 
 
 
S.

domingo, 26 de maio de 2013

Paralelismos com o mercado de trabalho não são coincidência

Há umas semanas atrás, rumei ao Parlamento Europeu para assistir a uma conferência onde se discutia as vantagens de ter atenção ao género nas políticas de combate ao desemprego jovem. Foi bastante elucidativa porque deu para ver que as razões pelas quais jovens mulheres estão no desemprego e, nalguns casos, deixaram de procurar emprego, são diferentes das razões pelas quais jovens homens estão na mesma situação. Basicamente, deu para concluir que a maternidade e as expectativas de que a mãe será a principal cuidadora dos filhos tem um peso muito grande quer na empregabilidade das jovens mulheres quer nas próprias expectativas destas em relação ao mercado de trabalho, especialmente numa época de profunda crise económica como a que vivemos. A publicação do Parlamento Europeu sobre este tema, que foi basicamente o que os seus investigadores foram apresentar lá à conferência, pode ser consultada aqui: "As Vantagens de uma Estratégia de Género no Combate ao Desemprego Jovem".

Uma das apresentações foi particularmente lúcida e interessante e destacou-se das outras por me ter dado tanto que pensar que achei boa ideia partilhá-la aqui.

O título é "As diferenças de género na vontade de competir" e basicamente foi um estudo que um professor de uma universidade austríaca fez para avaliar a competitividade de rapazes e raparigas em diversas fases da vida. 

Fez 3 experiências com crianças dos 3 aos 18 anos que consistiam em diferentes provas. A 1ª experiência foi feita com crianças dos 3 aos 8 anos na qual tinham que correr 30 metros. Em baixo estão os resultados da performance de rapazes e raparigas por grupos de idades:


Bottomline aqui é que não há diferenças entre sexos na performance da corrida. Ao que parece, as diferenças só surgem a partir da puberdade, em que os homens tornam-se, regra geral, mais rápidos e resistentes do que as mulheres. Entre crianças, é tudo igual.

Na experiência foi depois introduzido um elemento que pretendia medir o nível de competitividade. Foi perguntado a cada criança se queria correr sozinha ou se queria correr em competição com outro/a colega. No caso de escolher a corrida com o/a colega, e se ganhasse, receberia o dobro da recompensa (acho que eram bombons ou assim). O gráfico a seguir mostra o número de rapazes que preferiu a competição e o número de raparigas:


Vemos aqui uma clara diferença da frequência com que os rapazes escolheram a competição em relação às raparigas. Lembremos que a performance é a mesma, portanto a probabilidade de uma rapariga ganhar seria a mesma que um rapaz. No entanto, não é isso que elas pensam.

"Ah, mas é normal que pensem que não são tão boas a correr quanto os rapazes porque corrida e desporto é normalmente uma área onde se considera que os rapazes são melhores." Para tomar em consideração esta espécie de parcialidade que poderia enviesar as conclusões, decidiram fazer outra experiência, desta vez numa área na qual não existe especial parcialidade ou, a haver, poderia pender para o lado das raparigas: arrumar blocos de diferentes formas. Num balde com várias peças de diferentes formatos, as crianças tinham que ir buscar todos os cilindros. Tinham um minuto para meter o máximo de cilindros que conseguissem num copo de plástico. Aqui, as raparigas tiveram uma performance um pouco melhor que os rapazes:


O elemento da competição aqui foi o seguinte: as crianças podiam escolher ganhar uma recompensa por cada peça arrumada ou ganhar duas recompensas por cada peça caso arrumassem mais peças que outra criança que lhes seria emparelhada aleatoriamente. Os resultados da competitividade não variam da prova da corrida:


Novamente, mais rapazes escolhem competir do que raparigas; e o que é mais, a diferença acentua-se com a idade! Isto numa prova que, segundo o investigador, é estereotipicamente associada a raparigas, que estas são melhores do que os rapazes a arrumar os blocos. Esta crescente diferença em competir é-me profundamente assustadora, mas já lá vou. Falta a última experiência.

Desta vez, a experiência consistia em somar números. Prova numérica mas muito simples, apenas adicionar. Aqui, como se sabe há o profundo estereótipo que os homens são naturalmente melhores a matemática do que as mulheres, que as mulheres são bem melhores em matéria de letras e comunicação do que números. Acho que é a maior treta que nos vendem desde pequeninos e que a maior parte das pessoas (eu incluída, até há cerca de um ano atrás) acredita que é mesmo uma diferença entre sexos. Que é o cérebro que é diferente e não sei quê. Os resultados da performance na soma dos números:


Duas conclusões, às quais o investigador chamou à atenção na sua apresentação:

- afinal as crianças aprendem alguma coisa na escola, visto que com a idade ficam melhores a adicionar números (haha!);

- não há diferença entre sexos na adição de números. Zero. Às vezes uma das barras está ligeiramente mais elevada que a outra, mas devido à margem de erro, a diferença desaparece. É tão claro que uma pessoa fica parva a olhar (eu fiquei, ainda que já tivesse lido umas coisas que apontavam neste sentido) e acaba por interrogar-se quem foi a alminha que inventou o mito que as mulheres são de letras e os homens de números. Bom, mas quando se vai para a questão da competição, o padrão continua:


Mais rapazes preferem competir com outro/a colega do que raparigas. E o pior: a diferença aumenta com a idade! (olhem para o grupo dos 17/18 anos, meu deus).

Porquê? Porque é que as raparigas se subtraem à competição muito mais que os rapazes, se têm exatamente as mesmas probabilidades de ganhar? Mais: porque é que se subtraem à competição mesmo quando têm mais probabilidades de ganhar do que os rapazes (na prova dos blocos, ligeira vantagem)? Basicamente, as conclusões do estudo são que as raparigas são mais avessas ao risco que os rapazes, e que os rapazes são mais otimistas em relação à sua performance que as raparigas. Ou seja, as raparigas têm uma perceção de que desempenham pior do que realmente desempenham, enquanto os rapazes têm uma perceção que desempenham melhor do que realmente desempenham. Umas são underconfidents, outros são overconfidents. E, como vimos, os estereótipos só pioram a underconfidence e a overconfidence de umas e outros.

Uma vez que as diferenças entre a vontade de rapazes e raparigas de competir nestas tarefas aumentam com a idade, suspeita-se que a educação e os papéis de género tenham também grande dose de influência nesta vontade de competir.  E faz sentido; das raparigas espera-se que sejam diligentes e aplicadas na escola (e na vida), dos rapazes espera-se que gostem de desporto, que joguem, que compitam, que ganhem (no desporto e na vida). Mas esta vontade de competir não irá ter meras consequências no desporto que se possa praticar ou em competições pontuais que se possa fazer; a vontade de competir é uma característica muito valiosa para se singrar no mundo do trabalho. Para se candidatar a um emprego está-se a entrar em competição com os outros candidatos, para nos tornarmos disponíveis a uma promoção está-se a entrar em competição com outros potenciais candidatos. Nunca tinha percebido a relação entre confiança e competição e mercado de trabalho: só uma pessoa que confia que tem um bom currículo ou que está ao nível do que é pedido em determinado anúncio de emprego se irá candidatar; só uma pessoa com confiança em si irá se propor a uma promoção que envolva qualidades de liderança, gestão, etc. E nisto, ao que parece, os homens ganham-nos aos pontos. É uma questão genética, do tipo os homens são naturalmente mais competitivos? Mas ao que parece é algo que aumenta com a idade. É de educação? De estereótipos de género? Porque de performance, já se viu, não é. 

O investigador disse uma coisa muito interessante, uma espécie de dito: "Um homem vê as especificações de um anúncio de emprego e, se tem uma que condiz, candidata-se; a mulher vê as especificações de um anúncio de emprego e, se tem uma que não condiz, não se candidata." A questão da overconfidence e underconfidence que pelo vistos caracteriza os géneros e que eu vou desconfiando que é mesmo assim.

Este post já vai longo mas há ainda uma coisa que eu queria escrever aqui porque basicamente essa era a finalidade do estudo: a questão das quotas. Não a vou discutir neste post porque dá mesmo muito pano para mangas mas vou só lançar umas ideias.

O que este estudo, na sua segunda parte, pretendia perceber era o efeito que a intervenção de políticas de quotas ou discriminação positiva tem na vontade das mulheres de competir. Já se viu que são no geral pessimistas em relação ao seu próprio desempenho e que se retraem na hora de competir por um lugar. Ou seja, está-se a perder potenciais trabalhadoras competentes em determinadas áreas (engenharias, informática, tecnologias, etc), trabalhadoras já formadas, mas que simplesmente não acreditam que têm hipótese. E portanto nem chegam a candidatar-se a determinadas posições.

No estudo, fizeram mais uma data de experiências, no mesmo molde das outras e com o esquema de sozinho/competição. Desta vez estavam num grupo de seis colegas, 3 homens e 3 mulheres. A tarefa era adicionar números em 3 minutos e podiam escolher: ganhar 50 cêntimos por cada par adicionado corretamente, ou 1,50 euros se fossem um dos dois melhores no grupo a adicionar números. O que os investigadores fizeram foi variar depois o tipo de recompensa para as mulheres que quisessem competir, e no sentido de ver se com ganhos assegurados, as mulheres estavam mais dispostas a competir. No fundo, é simular o efeito que as quotas teriam numa situação real.


Portanto, o CTR é o grupo no qual não era dada qualquer vantagem às mulheres. O que se vê é aquela diferença abismal na predisposição para competir.

No QUO, a regra era que entre os dois vencedores, pelo menos um tinha que ser mulher, o que significa que a mulher com o melhor desempenho venceria decerto. Isto é o equivalente às quotas frequentemente introduzidas nos partidos ou a que a Viviane Reding queria introduzir nos quadros das empresas europeias. Aqui vê-se um claro aumento do interesse das mulheres em entrar em competição, ainda que não supere o dos homens. 

No PT1, era dado às mulheres um ponto extra, que servia como desempate caso elas tivessem um desempenho tão bom quanto os homens. O interesse pela competição aumentou entre as mulheres. 

No PT2, eram dados às mulheres dois pontos extra, o que significa que uma mulher menos qualificada poderia ganhar em relação a um homem com um desempenho melhor. Este é o único em que as mulheres preferem muito mais competir que os homens.

Finalmente, no REP, haveria repetição da competição caso nenhuma mulher ficasse entre os dois vencedores. Na repetição, as regras normais seriam aplicadas. Não convence muito as mulheres a competir, neste caso.

Ou seja, as únicas experiências que nivelam o campo em termos de predisposição para competir são o QUO e o PT1. O único injusto - na minha opinião - é o PT2. É importante frisar mais uma vez que o desempenho das mulheres e dos homens é igual, ou seja, não existe aqui o perigo de estar a favorecer candidatas menos qualificadas do que os candidatos (exceto no PT2). Mesmo com as vantagens favoráveis, quem acaba por ganhar será sempre a mulher mais qualificada. O que as intervenções fazem é aumentar o número de candidatas disponível porque há mais mulheres - igualmente qualificadas que os homens - predispostas a ir à luta. 

Paralelismos com o mercado de trabalho não são coincidência, são intenção. 

Agora o que eu gostava mesmo de descobrir era quanto da pouca vontade de competir é uma questão genética e quanto é socialização do que é "ser mulher".



S.

sábado, 16 de março de 2013

Um chávena de chá e uma diretiva de licença de maternidade

Mais uma vez me encontro de volta de licenças de maternidade, diretivas sobre trabalhadoras grávidas, posições do Lóbi Europeu das Mulheres, teses e apresentações de Powerpoint. A minha amada conciliação trabalho-família. Cada vez gosto mais do tema, tenho uma pontinha de orgulho pela minha humilde mas séria investigação na área, mas, caramba, hoje teria feito as coisas de maneira diferente. Espiolharia mais, metia mais o nariz onde talvez não fosse muito chamada, iria mais fundo. Três ou quatro meses não dariam para muito mais do que eu fiz, mas gosto de achar que agora I know better e utilizaria de forma ainda melhor esses meses. 

Ainda assim, vai ser uma grande honra estar na mesma sala que monstras académicas da igualdade de género, cujos livros de muitas li nas intermináveis tardes passadas na amada biblioteca da LSE, e que constam na bibliografia da minha tese bebé. Vou-me sentir um pardalito ao pé daqueles cisnes académicos, mas um pardalito entusiasmado e cheio de vontade de partilhar os três ou quatro fios de palha que achou e com os quais fez um... coiso (acabaram-se-me as analogias com o mundo das aves).



Vai ser em Barcelona, no sábado. Lá vou eu voar (olha, afinal tinha mais uma!) para os países do sul que espero se portem climatico-gastronomicamente como deles é esperado, que isto aqui anda uma tristeza. Vivi na segunda-feira a minha primeira tempestade de neve, tenho trabalhado que é maluquice, ando euforicamente agradecida por terem voltado graus positivos e acho que as gauffres do supermercado da esquina são uma iguaria. Portanto isto está grave. Tanto a nível gastronómico como climático. 

Pior: há dois ou três meses que não compro um chá de jeito. Tem sido só tiros ao lado. Acabou-se-nos o chá preferido há um mês, o Rooitea Caramel da Tee Gschwendner, e que entretanto descobri, por entre lágrimas sofridas, que custa o triplo do preço encomendando online devido aos portes. Qual a vantagem de viver no centro da Europa se está tudo tão longe na mesma? Rai's partam os portes de envio.

Desconfio que não será Barcelona que me curará esta última miséria. Mas se curar as outras duas, nem que seja por dois diazinhos, já me darei por satisfeita.



S.
    

domingo, 10 de março de 2013

Exposição à vista

Há uns meses dei-me conta de uma exposição que o V&A em Londres estava-se a preparar para receber e que encaixa perfeitamente num dos meus interesses literários mais aguçados: o período Tudor. A exposição chama-se "Treasures of the Royal Courts" e conta com peças inéditas das Cortes do Henrique VIII e Elizabeth I, dos Stuarts e do Ivan, o Terrível (como este último foi aqui enfiado permanece um mistério para mim).




Infelizmente, só agora reparei que é uma exposição paga - os museus londrinos gigantes, preciosos e totalmente grátis habituaram-me mal - mas estou convicta de que valerá a pena. Só precisava de um pretexto para voltar a Londres nos próximos meses.

O pretexto chegou há uns dias, sob a forma de celebração dos 20 anos do meu curso na King's e convite para lá ir falar sobre a minha vida pós-European Studies (o que eles acham que eu possa ter de interessante para contar supera-me um bocado mas, hey, qualquer desculpa é boa para voltar a Londres :D). Calha mesmo bem para ir visitar a exposição das Cortes, que abriu ontem e lá estará até meados de julho. A ver vamos se nessa altura vai estar mais alguma coisa que valha mesmo a pena ver. Já decidi que me vou manter afastada dos veados, por isso vou ganhar umas 3 ou 4 horas para queimar a conhecer um recanto qualquer daquela cidade que ainda não tenha visitado. Talvez seja desta que vá ao mercado Spitalfields.





S.

sexta-feira, 1 de março de 2013

O Parlamento Europeu veste-se a rigor



O Parlamento Europeu prepara-se para assinalar o dia. A grande conferência alusiva à igualdade de género este ano calha no dia 7 e intitula-se: "Women's Response to the Crisis" e conta com apresentadores de várias áreas e países que vão demonstrar de que forma a crise europeia e as medidas de austeridade estão a afetar desproporcionalmente as mulheres e, consequentemente, as crianças europeias. 

Ainda não sei se vou. Muito provavelmente vou estar a trabalhar e, muito honestamente, não é um tema que me suscite especial interesse.

Vou continuar de antena no ar para captar mais eventos do género por Bruxelas.



S.    

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Das conferências e das chatices das manifestações



Pararam grande parte da cidade? Pararam.

Bloquearam as artérias principais de acesso ao bairro europeu com os seus 500 tratores? Bloquearam.

Deu muita chatice a muita gente que ia trabalhar? Deu.

O Parlamento quase fechou as portas por causa do protesto? Sim.

Íamos ficando sem lugar para a conferência que andámos a preparar durante meses, correndo o risco de mais de cem pessoas ficarem à porta? Pois, e trememos muito durante duas horas.

Metade das pessoas chegaram atrasadas? Chegaram.

Houve muito barulho? Se houve.

Tem razão? Não faço a mínima.

É justo que milhares de pessoas sejam afetadas porque uns quantos agricultores se sentem injustiçados? Absolutamente.

O direito à manifestação é um direito ileanável  dos cidadãos de um país democrático. Independentemente das chatices que possa causar  - e normalmente causa - a terceiros. Acho sempre muita piada a quem é contra as greves pelo incómodo que lhe causa. Estes foram especialmente perspicazes em dirigirem os seus protestos a quem é realmente responsável pela política agrícola europeia - as instituições europeias em Bruxelas. E, desculpem mas borrifar a polícia de choque com jatos de leite é ridicularmente engraçado.


A conferência correu muito bem, obrigada. 



S.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O mundo louco da interpretação

Há muito tempo que me intrigavam os intérpretes simultâneos nas cabines das conferências. Foi um dos meus maiores maravilhamentos quando aqui cheguei: o facto de descobrir que o multilinguismo, no Parlamento Europeu, é uma realidade. E constatá-lo todas as vezes em que tinha conferências e reuniões de comissão para assistir.

Hoje, tive a oportunidade de experimentar como era. Numa espécie de palestra organizada pelo serviço de interpretação, e numa tentativa de atrair estagiários das instituições europeias para a carreira linguística, pudemos constatar que línguas mais fazem falta à UE (nativos eslovenos, malteses, romenos e búlgaros), que espécie de treino e educação é preciso obter para ingressar nessa carreira, e as gratificações e frustrações que se obtém quando se interpreta para ganhar a vida.

No final, veio a parte divertida: subir às cabines e fazermos nós próprios a interpretação de um discurso em inglês para a nossa língua nativa.


É... Esquisito. Estávamos três pessoas em cada cabine; ao meu lado tinha a minha amiga M. nativa de esloveno, e do outro lado um nativo de francês. Pusemos os auscultadores, ajeitámos o micro, e esperámos. Assim que o discurso começou ficámos uns 30 segundos sem reação: é suposto começarmos a debitar palavreado agora? Acho que estávamos envergonhados por começar a falar numa língua que nenhum dos outros compreendia e que, por estar ali mesmo ao lado, teria de ouvir. Mas assim que um de nós tomou coragem (não me lembro quem deu o primeiro passo, acho que eu não fui, ainda que estivesse mortinha por começar!), os outros foram atrás e em segundos, além de ouvir a minha voz em português e o discurso original em inglês, havia mais duas línguas faladas naquela cabine.

Falhei várias partes de frases, especialmente porque ao início esperava demasiado até começar a traduzir a frase para português; não se pode. Tem que se ir andando, num verdadeiro exercício de multi-tasking que consiste em ouvir, processar a informação, transformá-la em português, e dizê-la em voz alta. Isto tudo repetidamente, sem parar. 

A mulher da palestra tinha razão: aquilo dá uma adrenalina do caraças. Mesmo ali, a brincar e sem ninguém verdadeiramente a ouvir (com três pessoas a interpretar ao mesmo tempo por cabine torna-se impossível sintonizar num canal e apenas ouvir uma voz!), é um exercício de antecipação que cria um stress daqueles positivos. É como se um novelo estivesse a rolar pelo chão continuamente e nós a tentar apanhar a ponta, que continua a ser conduzida para fora do nosso alcance.

Primeiro estranha-se e depois entranha-se. É sem dúvida uma habilidade que se ganha e se treina. Ao início eu não conseguia acabar as frases mas no segundo ou terceiro discurso já conseguia deixar pouco por traduzir. Fiquei desiludida porque pensava que também conseguia traduzir do francês, por ser tão semelhante a estrutura gramatical e as próprias palavras, mas a minha compreensão auditiva francesa ainda não é ágil e rápida o suficiente para conseguir interpretar simultaneamente para português (no discurso alemão, também não, mas nem sequer tentei). Ainda assim, foi uma experiência única e muito divertida.

Fui-me informar sobre as condições que eles exigem aos portugueses nativos - já que o número de línguas pedido a um candidato depende da sua proveniência linguística e do facto de haver muitos ou poucos candidatos dessa língua. Parece que ficam contentes com duas línguas, sendo que uma delas tem que ser o inglês ou o alemão, e a outra uma qualquer das 23 oficiais (em breve 24, com o croata). O curso recomendado é o da FLUL, de interpretação, que dura um ano. Namorei alguns minutos a ideia de me por nesta aventura... Mas depois deixei-me disso: teria que voltar para Portugal durante um ano, para estudar, e além disso temo não ter personalidade para isto. É preciso ter capacidades comunicativas orais altamente desenvolvidas. Eu é mais escrever, tenho pena.



S.


sábado, 14 de julho de 2012

Igualdade de género em Manchester

No meu mestrado, não tive a oportunidade de defender a minha dissertação em prova pública. O facto de terem sido apenas dez mil palavras, em vez das normais trinta mil em Portugal, deve ter sido tomado em consideração pelos ingleses quando decidiram que nas suas universidades apenas doutoramentos merecem esse trabalho.

Quando descobri, há cerca de ano e meio, que não ia enfrentar um painel de avaliadores, fez muito para desfazer os meus pânicos e incertezas quanto à minha capacidade de completar uma dissertação de mestrado. Foi como se tivessem tirado um peso do peito. Mas quando comecei a investigar a sério para a dita-cuja e a escrever, a amar realmente o que fazia, e a entusiasmar-me com o que ia descobrindo e com as páginas que, pouco a pouco, ia preenchendo com uma modesta mas original contribuição para a compreensão do que é a igualdade de género na Europa, comecei a ter pena. Ter pena de não me ser dada a oportunidade de preparar uma apresentação oral, de explicar as minhas conclusões perante um painel de avaliadores e qualquer outra pessoa que quisesse assistir, de por os meus argumentos à prova perante possíveis perguntas dos júris. Seria nervoseira da certa, semelhante à que borbulha no meu estômago enquanto espero a minha vez no consultório do dentista, ou que a enfermeira chame o meu nome para tirar sangue. Mas a seguir, sei-o, seria a explosão de adrenalina característica de quando se faz o que era esperado de nós e se conquista um dos nossos medos.

Pois agora, cerca de um ano após ter começado a escrever a dissertação, consegui essa oportunidade de ver estrelinhas e não conseguir manter nada no estômago mais descarga de adrenalina meia hora depois. Numa qualquer sala em Manchester, vou pela primeira vez partilhar o meu trabalho de vários meses com uma (espero) pequena audiência. Intitulada qualquer coisa como "A face humana da legislação da UE: humana o suficiente?", esta vai ser a minha primeira conferência como oradora. 

Neste momento no meu sofá e computador voltam a versar licenças de maternidade, legislação da UE e igualdade de oportunidades. E eu voltei a ler a minha tese, sublinhá-la, sempre com o olhar impiedoso e extremamente auto-crítico de alguém que sente que, um ano depois, teria feito algumas coisas diferentes. Mas estou muito feliz. Feliz porque vou ter a oportunidade de ver como me dou nestas andanças académicas sem ser como aluna, feliz porque tenho cada vez mais a certeza que é a igualdade de género que realmente me estimula o intelecto e a paixão, feliz porque vou voltar a território britânico e a ter libras na carteira mais uma vez. Ainda que seja só por dois dias.

As borboletas vão-me assaltar duplamente o estômago já na quinta-feira, uma vez que além da apresentação voltarei a andar de avião, coisa que desgosto cada vez mais. Mas sei que não se compararão à sensação de "missão cumprida" logo a seguir, que espero ser justamente merecida.






S.   

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Por falar em estereótipos

Divirto-me bastante a olhar para os intérpretes nas cabines das salas de conferência. Alguns fazem a interpretação simultânea com a facilidade e o enfado de quem já anda naquilo há muitos anos; outros, de braços cruzados e apoiados sobre a mesa, olham em frente com determinação enquanto falam; outros ainda há que apoiam a cabeça sobre as pontas dos dedos e interpretam o que está a ser dito para a sua língua nativa com uma dedicação e esforço dignos de nota.

Ontem, olho de relance para a cabine IT e o que vejo? O intérprete italiano a gesticular ferverosamente enquanto espalhava palavreado na sua língua, dentro de uma cabine que parecia pequena demais para a sua efusividade.

Mal escondi o riso.





S.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Networking-fobia ou "Porque é que eu nunca irei a lado nenhum"

No geral, não gosto de pessoas. Ou melhor, gosto de observar pessoas, mas desde que elas não queiram interagir e falar comigo e assim.

Pronto. Podia parar por aqui que estas duas frases resumem a minha natureza anti-social. Mas permitam-me elaborar na matéria, até porque hoje foi dia de conferência de empregos para estagiários do PE e a culpa moe-me um bocadinho por dentro. E nada melhor do que uma historieta para ilustrar a primeira afirmação deste post.

O trabalho aqui em Bruxelas mostrou-me, por experiências alheias, que desenvolver uma rede de contactos é crucial para uma pessoa ir a algum lado. Podemos ter o talento e o mérito todo do mundo, mas se ninguém nos conhecer, se não fizermos um esforço por nos promovermos, pouco vale esse talento.

Muitos estagiários levam isto muito a sério e aproveitam cada oportunidade que podem para falarem com pessoas, especialistas, etc, que trabalham nas áreas do seu interesse e ligadas a matérias nas quais gostariam de trabalhar e formar carreira. Muitos têm cartões de visita (literalmente, aqueles business cards com uma espécie de slogan e os contactos da pessoa), outros têm assinatura personalizada nos e-mails. No final das conferências não hesitam em apertar a mão aos experts, apresentam-se com um grande sorriso e sacam do tal business card com um "call me" inscrito na postura e no olhar.

Sim senhora, gente que faz pela vida e não espera que as coisas lhe caíam no colo. (Eu sei que há uma linha ténue entre o networking e a muito familiar e portuguesa cunha, mas para o caso vamos imaginar que isto é tudo legítimo, até porque eu sei que a grande maioria destas pessoas de quem falo não lhes falta mérito académico, linguístico e até profissional.)

Ora, eu vejo estas coisas todas com um misto de surpresa, descrédito e uma pontinha de inveja pela lata que é preciso e que me falta em grande dose. Porque a verdade é que eu sou das pessoas mais socially awkward que conheço. A sério. Odeio conversa de circunstância, tenha brancas com palavras, sou introvertida, ergo uma espécie de barreira invisível à minha volta sempre que conheço pessoas novas e a máxima do "se não tens nada de jeito para dizer mais vale estares calada" é uma espécie de mantra da minha vida. Odeio falar de mim (o blog não conta porque é escrito e não há interação direta). Logo se deduz que o networking seja uma espécie de inferno para uma social misfit como eu.

E no outro dia tive a prova.

Em trabalho, fui assistir a uma conferência aqui ao lado no Comité Económico e Social. Uma coisa muito bem organizada, muito mais populada do que o costume e onde a cada pessoa foi dado um cartão para por ao peito e um papel para meter na ranhura da mesa à nossa frente. Porque, como estão presentes muitas ONGs e outras organizações interessadas, estas conferências funcionam muito como plataformas de ligação para pessoas com os mesmos interesses e a trabalharem nos mesmos assuntos se encontrarem e colaborarem umas com as outras. Para networking, enfim.

Cheguei lá com a minha supervisora e, enquanto esperávamos pelo início, ela meteu conversa com as pessoas da mesa da frente. Em menos de dois minutos, e sem saber bem como, tinha eu três cartões de visita na mão e a outra vazia sem nada para devolver. "Eu sou só estagiária, senhores, parem de olhar para mim como quem espera receber um cartão pomposo de volta!", apetecia-me desabafar. Hoje um dos apresentadores na conferência de empregos ralhou connosco para nunca nos apresentarmos como estagiários, nunca. Que um funcionário também nunca se apresenta como "Estou no grau 86847 e trabalho na Comissão de Justiça". Culpa, culpinha...

À tarde, durante as pausas para café, o networking da sala desenvolvia-se a olhos vistos. Eu, que de manhã tinha apanhado uma crise de fome desgraçada, porque tinha comido às sete da manhã e esta gente acha por bem fazer conferências de cinco horas seguidas sem nenhuns cinco minutos de pausa, decidi aproveitar para sacar da mala e da bolacha e ficar sossegadinha no meu lugar a mirar a míriade de participantes na conferência.

Estava eu a apreciar a minha primeira bolacha, agarradinha à mala e a apaziguar a minha barriga que já gritava "Tu não me faças isto outra vez!... Hipoglicemia não te diz nada, minha menina? Olha que eu digo ao cérebro para se apagar e tu dás um tralho dessa cadeira que nunca mais vais esquecer...", quando um senhor se aproximou da minha mesa e exclama um simpático "Bom dia!".

Juro que tentei não saltar da cadeira e não arregalar muito os olhos de surpresa. Não tenho a certeza que tenha funcionado. Eu repliquei um "Boa tarde" ainda meio surpreso, ao que se seguiu as perguntas da praxe "O que faz aqui em Bruxelas?", "Trabalha para o quê?", etc. No fundo, este senhor viu o meu nome escrito no papel à minha frente, nome portuguezinho da silva, e ficou curioso por saber o que faria uma compatriota naquela conferência.

Ali estava eu, de mala no colo e bolacha na mão, sem saber se me levantava (mala a estorvar), se apertava a mão ao senhor (bolacha na mão, não dá) e a tentar esconder o ar de surpresa por alguém se ter dirigido a mim, ainda mais em português, enquanto respondia às perguntas de introdução a mastigar ainda a primeira dentada da bolacha. Após duas ou três perguntas introdutórias, sem grande seguimento da minha parte, o senhor lá se despediu e foi para o seu lugar. Eu pude acabar a bolacha que entretanto estava a ganhar pó na minha mão e matutar no que se tinha acabado de passar.

No fundo, sou tão má no networking que tem que ser o networking a vir a mim. E ainda assim eu enxoto-o. Sou uma espécie de cúmulo do anti-networking. 

O à-vontade e a "lata social" são coisas que se treinam. Eu sei disso. Já fui ainda pior e começo a acreditar firmemente que se estivesse mais uns meses aqui no Parlamento desemborrava-se-me a língua a pouco e pouco. No outro dia fiz uma pergunta numa conferência! Está bem que demorei dez minutos até decidir a por o dedo no ar e só estavam umas vinte pessoas na sala, mas o que interessa é que atraí as atenções sobre mim onde elas não foram pedidas, e isso é o mais difícil, como qualquer introvertido sabe.

Próximo passo será uma apresentação de investigação perante plateia de especialistas, quase a chegar. Mas essa será uma hiperventilação para próximo post.







 S.



P.S. Agora é só esperar que o meu futuro empregador, seja ele qual for, não dê de caras com o meu blogue, não perceba um chavelho de português e ignore a existência do Google translate...   

segunda-feira, 7 de maio de 2012

FCSH, assim você me mata

Eu já devia ter aprendido a não substimar as ironias com que o destino ou o karma ou o que quer que seja me gosta de brindar.

O ano passado, no Dia da Europa (o primeiro ano em que dei realmente importância a este dia), assisti do outro lado do Canal da Mancha e roidinha de inveja aos festejos a que a minha prima foi aqui em Bruxelas. As instituições europeias abertas ao público no único dia do ano em que isso acontece, os stands de mil e uma coisas alusivas à Europa, à União Europeia e aos diversos países que a constituem. Lembro-me da descrição pormenorizada das banquinhas de comida típica do país que na altura detinha a Presidência do Conselho (só não me lembro de qual...), das salas onde os ministros normalmente se reúnem, das cabines de interpretação, de toda a parafernália de objetos que a minha prima arrecadou, desde mapas a saquinhos e canetas com o símbolo da UE. Recordo a frustração de não ter podido participar, de jurar de que para o ano havia de marcar presença, e se não fosse para o ano seria outro qualquer, que o Dia da Europa em Bruxelas era coisa obrigatória para eu assistir antes de morrer. Depois tentava-me confortar com o pensamento "Assim como assim um dia vou trabalhar na Comissão e vou assistir ao Dia da Europa por dentro, conhecer aquelas instituições como a palma das minhas mãos, até vou enjoar o Dia da Europa, hmph!"



Pois. Um ano depois cá estou no Parlamento Europeu como estagiária e os cartazes do Open Day  abundam por todos os cantos da cidade. E eu estou muito feliz por ir, vou conhecer as outras duas instituições, vai ser bom ver o Parlamento todo animado para receber os cidadãos, estou ansiosa pelos joguinhos de cultura geral sobre a UE, por receber canetas, canecas, mapas, balões com as 15 estrelas sobre fundo azul, mostrar ao D. onde trabalho e entusiasmá-lo (ou aborrecê-lo, vá) com a minha nerdice europeia. Isto era, até há pouquinho.

Isto porque acabei de receber um e-mail (entre 11, seriously, que aquela mulher envia e-mails compulsivamente) da minha antiga faculdade em Lisboa com o ciclo de conferências que estão a preparar para o dia. E eu, curiosa, fui abrir. "Ora deixa cá ver como é que a FCSH vai honrar este dia." Ora, pois a FCSH não podia ter feito pior para mim:

---» A Construção da Europa no Feminino - A Participação da Mulher na Sociedade Europeia

---» Polis Europeia: Eurodeputadas, Género e Sentidos de Voto


Estão a falar a sério?! Um ciclo de conferências dedicado ao papel da mulher na União Europeia e eu sem poder ir?! Depois da larga confissão de há poucos dias de que não sei bem como encaixar igualdade de género no que eu espero seja uma carreira de investigação sobre a União Europeia?? Eu estive aí em Lisboa nove meses sempre sedenta de conferências, seminários, palestras sobre a coisa europeia e agora que me venho embora é que organizam uma, ainda por cima sobre mulheres?? Acho que este estúpido karma já foi longe demais.

E obrigada por estragares o meu entusiasmo pelo Open Day aqui em Bruxelas, FCSH.




S.

terça-feira, 27 de março de 2012

O motoqueiro ateísta

Para quebrar o meu ciclo de conferências/reuniões/pesquisa/trabalho sobre temas relacionados com igualdade de género, lá fui eu hoje assistir a uma reunião sobre separação entre Estado (neste caso, União Europeia) e religião. O vulgo secularismo.

Chego lá, sento-me, fico sossegadita à espera que o resto das pessoas entrem e que aquilo comece. Entrei no meu modo "observação-piloto". E que gente interessante que começou a chegar: ele foi um padre, um - suspeito eu - rabi, entre outros. Mas foi quando entrou um senhor de meia-idade com aspeto de motoqueiro e uma t-shirt preta a dizer ATHEIST que os meus olhos se arregalaram e eu pensei "Ui, isto promete".

Basicamente aquilo foi uma conferência organizada pela Plataforma Europeia pelo Secularismo, constituída por gente muito diversa (ateístas, católicos, judeus, humanistas) que queriam certificar-se que o novo Presidente do Parlamento Europeu vai dar a mesma atenção a todas estas organizações sem favorecer religiões que têm um aparelho administrativo dantesco, como é o caso da Igreja Católica.

Foi um bocado fraquinho. Não houve grande debate nem posições corajosas, sinceramente o falatório do Presidente desiludiu-me e foi um bocado para o diluído e confuso. Se não tivesse sido a intervenção do senhor motoqueiro ateísta no final a exigir uma revisão dos tratados para impedir as organizações religiosas de contactarem com a UE não sei como tinha aguentado o aborrecimento.

P.S. O Arcebispo de Canterbury tem um representante em Bruxelas. !!!






Coisas Com Que Me Deparei Na Minha Demanda Por Imagens Que Ilustrassem Este Post





 



S.

terça-feira, 20 de março de 2012

A missão americana

Durante grande parte da minha adolescência padeci de uma condição muito grave chamada "obsessão pela América".

Era muito semelhante a uma doença, juro, eu vivia para o dia em que atingi-se a maioridade e pudesse mudar-me para lá, pesquisei universidades para estudar, investiguei tudo o que havia para investigar sobre vistos, greencards e imigração, e a emoção toldou-me os olhos e as palavras quando pus pé em solo americano pela primeira vez, aos 15 anos. Cheguei a trazer comigo uma revista de imobiliário, que apanhei no metro por acaso, e sobre a qual passei horas e horas debruçada, de olhos sonhadores, a imaginar o dia em que teria a minha própria casa de madeira branca, com relvado à frente e sem gradeamentos à volta. A paixão pelo inglês esteve durante muito tempo entrelaçada com esta paixão pela América e as duas alimentavam-se mutuamente. O 11 de setembro é um dia que nunca vou esquecer, não pelo cliché (ainda que verdadeiro) de que mudou o mundo mas porque lembro-me perfeitamente que mudou o meu mundo, o mundo a preto e branco, muito simples, de uma rapariga de 13 anos que tinha já uma obsessiva admiração por esse país do outro lado do Atlântico e que não conseguia, de maneira nenhuma, entender como é que alguém podia querer magoar a América! Esse dia em 2001 só tornou a minha obsessão mais profunda.

Até que... cresci. Aprendi e aprofundei o conhecimento da História do séc. XX e comecei a desconfiar que afinal as coisas não eram bem como eu idealizava. Aquilo não era o paraíso que os filmes e as séries de Hollywood me impingiam e que eu, maravilhada, assimilava. O sotaque americano começou a aborrecer-me. E um dia dei por mim a torcer o nariz à perspetiva de ir viver para os EUA. O que toda a gente me dizia que iria acabar por acontecer - e contra o qual eu batia o pé determinada, exclamando "Vocês nunca vão perceber!", cheia de raiva adolescente e pena de mim mesma - aconteceu. A obsessão acabou.

Questiono-me muitas vezes se a minha paixão pela UE não surgiu para preencher o vazio deixado pela América. É algo novo para idolatrar. Tal como os EUA, tem um sonho nobre na sua incepção - a paz - mas ao contrário dos EUA não tem exército para invadir países nem se dá a manifestações de poderio militar. (Entretanto, há uns aninhos, apaixonei-me pela Britain, um bocado inconveniente face à simultânea paixão pela UE mas se formos a ver fica a meio caminho EUA-UE, e olha que giro, nunca tinha pensado nisto; não sei se hei-de ficar contente ou temente...)  Mas quero acreditar que a UE é uma paixão muito mais comedida, um pouco mais crítica e provavelmente mais saudável do que a anterior. E confio que só pelo facto de eu ter consciência que tem o seu quê de idolatria, impede que esta seja cega. A Europa tornou-se o meu sonho, o meu compasso, a minha ambição, a minha casa.

Mas ultimamente, e muito por insistência sugestiva do D., a América voltou a apresentar-se como um destino possível na minha (nossa) vida. E apesar das minhas recusas galhofeiras e da consciência da dificuldade acrescida que é emigrar para fora da UE, é certo que a América voltou a passear livremente pela minha mente. E eu dei por mim a pôr os EUA como hipótese mais vezes do que pensei voltar a ser possível. "E se... Não, não, não, está quieta, já sabes do que é que aquela casa gasta. Mas e se... Mau, voltamos ao mesmo? Era só uma ideia. Afinal, a América continua a ser tão interessante..."

Assim sendo, os nossos destinos de futuro estão sempre em aberto. Sabia que o futuro passaria por Bruxelas necessariamente - e está a passar - mas não sei por quanto tempo. Pode voltar a passar por Londres, hipótese provável. Ou por Lisboa - idem, mas hipótese muito deprimente para mim. Também pode passar por Paris, Berlim, Florença, Frankfurt. Ou Estados Unidos. Quem sabe.

Foi com esta mentalidade de futuro em aberto que hoje me dirigi, após muita luta interna ("mas o que é que vou lá fazer, aquilo nem é bem uma conferência, ainda por cima vão servir sandes, e se eu não gosto, faço figura de parva, metem sempre alface e tomate, bandidos... vou ter que sair do edifício do Parlamento, o que só por si é atividade extenuante, depois ainda andar até lá...") à Missão dos Estados Unidos junto da União Europeia. AKA, Embaixada dos EUA na UE. Ía ser um almoço de apresentação da Missão, organizado pelos estagiários nessa instituição destinado a estagiários do Parlamento. E como eu estava com uma grande curiosidade sobre o que iria ver e ouvir, e porque tenho compreendido o poder do networking para descolar carreiras, e porque queria ouvir americanos envolvidos em assuntos da UE a falar, lá fui eu.

O edifício em si não foi difícil de descortinar. Mesmo se não fossem as bandeiras americanas a ondular no jardim, as barreiras para impedir carros de estacionar e os vários guardas à porta teriam facilmente denunciado que ali estava um pedaço de solo americano. Aliás, eu ainda nem tinha chegado à porta da Missão, estava apenas a andar pelo passeio, quando sou barrada por um dos guardas com um "May I help you, Madam?". Eeeerr... "Juro que não sou terrorista!" É o que apetece dizer, enquanto se mete as mãos no ar.

Depois de explicar o que ali vinha fazer lá me deixou continuar a andar, na rua, até à porta da Missão. Lá dentro, segurança digna de aeroporto. Aliás, pior, porque no avião ainda nos deixam levar a mala connosco - ali a mala, o casaco e o B.I. ficaram reféns à entrada até à minha saída do edifício, e o telemóvel teve de ficar desligado. Jesus, paranóia, much?

Conduzida pelos corredores levava os olhinhos esbugalhados para absorverem todos os pormenores do interior: os brasões dos departamentos de Estado dos EUA, os quadros com as fotografias do Obama e antigos presidentes, a bandeira americana muito digna na sala onde entrámos, as paredes e teto trabalhados dando a entender que aquele edifício foi em tempos um palacete aristocrata qualquer.

Não vou entrar em pormenores sobre a apresentação propriamente dita, referir apenas que a atitude muito típica americana, um misto de arrogância honesta com ingenuidade e franco otimismo, esteve lá. Não me surpreendeu, também não levei a mal, mas descobri que estou mais cínica do que antes. Ainda assim, sinto que fiz as pazes com a América; a minha relação tempestiva de amor-ódio acalmou e hoje consigo olhar de frente para ela, encolher os ombros e pensar "A América não é boa, não é má, é assim como é".

No entanto, tenho de confessar que quando vi os guardanapos de papel engravados com o selo americano, aquela águia com as palavras United States of America engravadas a toda a volta em círculo, me deu um impulso de roubar um. E podia ter levado o meu, porque não. Mas o pensamento de ser apanhada a guardar na mala um guardanapo usado e o ridículo da situação deixou-me estar quieta.


cortesia Google Street View; puxar de máquinas fotográficas ao pé de security-freaks nunca foi boa ideia e eu ainda assim dou valor à vida e à minha liberdade



S.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Conferências Parte II

Hoje foi dia de nova conferência, a conferência MASTER relacionada com os direitos das mulheres (o dia escolhido não foi coincidência).



desta vez há foto!

Desta vez havia português. Aliás, havia todas as línguas, menos "malti" e "gaeilge". Foi com borboletas no estômago que ouvi uma intervenção em português, num hemiciclo do Parlamento Europeu cheio de gente, gente essa, como não podia deixar de ser, com os auscultadores postos. Eu fiz questão de tirar os meus e pousá-los com muito orgulho ao meu lado, enquanto a senhora debitava palavreado na minha língua.




Se eu ontem pensava que tinha havido muita pluralidade linguística, hoje foi o auge. Segui quase tudo em português, mas às tantas começou-me a fazer impressão uma coisa: só havia dois intérpretes portugueses. Ou seja, nas cerca de dez línguas que se falaram ali, estas duas pessoas partilharam entre si a interpretação para português. Como é possível...! Que me lembre, o homem interpretou de alemão, polaco, grego e outra qualquer. A mulher interpretou de italiano, espanhol, inglês, húngaro e sueco. Poliglota, disse eu?...

E porque é o dia que é e tem tudo a ver, aqui vai:




Com imagens atinge-se uma compreensão maior que com milhões de palavras.

S.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Back to FCSH

Se há coisa que me ficou dos meus anos de missa todos os domingos foi a capacidade de prestar atenção e ficar quieta quando é preciso. É algo que adquiri após muito ano de 1 hora por semana onde não podia rir, sussurrar, mexer, vá.

No fundo, ficou gravado no meu inconsciente que quando é para estar calado e quieto, é para estar calado e quieto, ponto final.

Ora, hoje constatei que tal capacidade é extremamente rara e não tanto do senso comum como eu sempre a tomei.

Sempre pensei que estar com atenção era algo que se melhorava com o tempo, do tipo:

- difícil na primária e no ciclo;
- melhorzita no secundário, mas ainda muita conversa;
- na universidade, já é tudo adulto e ninguém é obrigado a estar ali, portanto a atenção é maior;
- vida adulta, seria total.

A minha experiência até aqui tinha corroborado esta impressão, tanto que no liceu era conversa pegada, na univ chegámos a ouvir ralhetes, e por fim no Mestrado conto pelos dedos os focos de conversa que apanhei.

Não podia estar mais enganada. Hoje, na conferência sobre Violência de Género a que assisti, vi coisas que me fazem perder a fé na correlação + idade = ser humano aperfeiçoado. Pessoas com o dobro da minha idade a consultar facebooks, e-mails, etcs, nos seus netbooks pequeninos durante as apresentações, conversas (às vezes não tão) sussurradas, tiragem de fotos a toda a sala em plenas exposições dos oradores. Às duas senhoras à minha frente, que conseguiram a proeza de fazer as 4, só me apetecia bater no ombro e perguntar, com toda a comiseração do mundo "Quem é que vos está a obrigar a estar aqui, pobres de vós? Que criatura sem coração é que vos está a fazer passar pelo martírio de assistir a uma conferência tão pouco interessante e pertinente para vós como esta sobre a violência de género?"

Ainda fiquei na dúvida se teria regredido à minha adolescência já que comportamentos destes são típicos de adolescentes muito contrariados nas aulas e que querem lá saber o que o professor está para ali a dizer, não veem a hora de tocar para o intervalo. Mulheres muito alouradas e muito encamisadas que aos 40 anos pensam que ser adulto é botar muita maquilhagem no rosto e muito verniz no dedo do pé. E deixar que os anos façam o resto. Continuam a fazer coisas por obrigação mas fazendo questão de mostrar o quão por obrigação as estão a fazer.

Ser adulto é saber ter a consciência de escolher o que se quer realmente e tomar a responsabilidade dessa escolha completamente. Nas coisas às quais não podemos fugir e que não gostamos particularmente, temos pena mas ser adulto é aguentar muita contrariedade sabendo que a vida não é só feita do que se gosta. O muito simpático "suck it", ou o bom "aguente-se" em português. Mas isto sou eu que sou uma ingénua nestas coisas de adultos e só cá ando oficialmente há 5 anos.

Assim como assim gostei muito da conferência em si, a minha primeira a sério. Informação sobre as coisas de género como se quer, e pessoas que percebem do assunto a expôr as suas conclusões/instigar debates. Sim, porque a partir de agora o mais parecido com aulas que eu posso ter são estas coisas. E eu tenho planos de aproveitar todinhas as que forem do meu agrado e às quais puder ir.

FCSH, não te esqueças que ainda me estás a dever um Mestrado. Um dia destes cobro-te-o.



S.