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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Bipolaridade editorial

Website do Guardian, ontem:


Estou eu muito bem a ler a notícia, quando me deparo com um daqueles vídeos muito fofinhos, na coluna direita: "Lion and puppy 'kiss' each other". Awww. Reviro um bocado os olhos porque, sinceramente, vim parar ao Your Daily Dose of Cute ou quê?

Até que reparo no vídeo imediatamente acima desse:


"How to section an octopus". 0.o

"Descubra como virar a cabeça do avesso (literalmente, jasus), remover entranhas, bico (?) e olhos". Afinal, se calhar, não vim parar ao Your Daily Dose of Cute...

Que violência vem a ser esta, meu deus! E que bipolaridade de quem organizou esta secção, já agora. "Ooooooh, olhaa, tão fofinhox o cãozinho cutxi-cutxi e o leão grande a darem uma jokinha fofinhaaa :')))))) ; QUER DESMEMBRAR UM POLVO E NÃO SABE COMO?! VEJA ESTE VÍDEO. SE TIVER CORAGEM..."

A paixão dos humanos pelo reino animal a mostrar também os seus dois pesos e duas medidas, separando o que é fofinho do que é para comer. 




S.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Alsácia sem a Lorena

Enquanto janto os melhores bifinhos com cogumelos que já provei na vida (França tem tendência para me brindar com muitos "o melhor *inserir prato* que já provei na vida"...) tento sintetizar as minhas primeiras impressões da Alsácia. 

Se na Normandia se respirava liberdade (historicamente imaginada), aqui respira-se união (fisicamente sentida). E acabaram de me trazer um chá com uma bolacha Speculoos, que coisa tão doce e estranhamente belga! Neste canto francês com tantos nomes acabados em "heim", a pernoitar numa terra demasiado germânica e cujo nome ainda não sei pronunciar, acabo por não conseguir descortinar se Estrasburgo é mais gálico ou germânico. No fundo, pouco importa, pois pertence áquela classe de cidades com qualidade de vida impossivelmente elevada. Dois mundos juntam-se aqui na Alsácia, dando o melhor de si para formar um resultado de louvar: a organização e eficiência germânica com o bom-viver francês.

A França tem também cheiro a casa, descubro agora. O francês palrado de fundo e os "bonjour!"s dados com alegria não fazem parecer que atravessei quatro países para cá chegar. 

Alsácia é a nacionalidade do meu cão, também (do meu ex-cão - pode-se dizer "ex-cão"? Para não confundir com o atual e não dizer "o meu cão que já morreu". Deve-se poder. E este também é o meu blog, portanto, eu é que sei). Alsácia lembra-me sempre "Lobo da Alsácia", vulgo Pastor Alemão (O pai da Merkel é um pastor alemão. Juro. Na altura tive que ler essa frase várias vezes até ela fazer sentido, mas agora faz.). Saudades que fazem sempre cócegas no fundo do estômago e que não têm a distância da Alsácia a Lisboa, mas da Alsácia ao céu.

Gosto deste centro da Europa. Aguça-me a curiosidade por esses dois países imensos que são a França e a Alemanha e ajuda-me a reparar no quanto ainda me falta da Europa para ver com os meus próprios olhos e calcorrear com os meus próprios pés.





S.


P.S. O Kobo já cá canta, sim. Estamos na fase de reconhecimento um do outro, numa relação que se quer duradora e cheia de alegrias.   

P.S.2 E esta vida de quarto de hotel single é esquisita e solitária para caraças. E eu sou a pessoa mais anti-social que conheço...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O outro lado do passeio

No meu caminho para o trabalho e do trabalho para casa, todos os dias, sigo sempre pelo mesmo lado da estrada. Pela simples razão de que o caminho é sempre a direito. E eu sou agarradinha à rotina como lapa, à mesma maneira de fazer as coisas repetidamente. E como de manhã é cedo e está frio e eu tenho sono, é mais fácil ligar o piloto-automático e deixar os pés seguirem a rota pré-definida.

Mas hoje, pela circunstância de um carro atravessado no passeio, vi-me obrigada a atravessar a estrada e a mudar-me para o outro lado. E tenho de confessar que só aí me apercebi de que nunca tinha feito o meu caminho daquele lado da estrada. Porque de repente tudo parecia diferente. Descobri um gabinete de um psiquiatra, dois apelidos portugueses em campainhas e um gato cinzento a olhar-me com altivez através de uma janela.

E um pouco mais à frente, quase ao final do caminho, uma vista que me elevou o coração: um cachorro preto, felpudo, conduzido à trela por uma senhora. E porque tinha mudado de passeio, e porque o cachorro recusou-se a andar assim que viu uma pessoa-potencial-fonte-de-mimos, os nossos caminhos cruzaram-se. "Faço festa, não faço; faço festa, não faço" foi a luta interna que me acompanhou enquanto me aproximava daquela criatura maravilhosa e tão criança-canina. A minha decisão efémera de "Não faço, tinha que pedir, não me ocorre como se diz 'Posso?' em francês..." caiu por terra assim que passei por ele e vi aqueles olhos negros cheios de alegria por anteciparem festas de um humano. Lancei um olhar à dona que me abriu um enorme sorriso e cujo "Bonjour!" muito bem-disposto me poupou um "May I?" por não me ocorrer mais nada. Sorri-lhe em agradecimento, agachei-me e corri as mãos sedentas de contacto com o pelo de um animal (e este era bem felpudo, que maravilha!) e matei as minhas saudades caninas. Ele lambia-me as mãos, abanava o rabinho daquela forma desengonçada de cachorro, louco de felicidade como só os da sua raça mostram para connosco, humanos. O mais engraçado foi que não lhe consegui murmurar aquelas palavras totós que se murmuram aos animais porque só me ocorria "És tão lindo! Ai, coisinha fofa! Que fofinho!" e, apesar de derretida, só pensava "Não vais dizer isso, isto é um cão francófono..." Wtf!? Eu sei. Lá consegui controlar a minha vontade de ficar a dar festas o resto da tarde - a dona estava à espera, afinal - e exclamei um "C'est très joli!" bem sentido e graças aos anjinhos achado a tempo e continuei o meu percurso pelo lado novo do passeio.

Isto tudo para dizer que às vezes basta darmos uns passos para fora da nossa zona de conforto (no meu caso, literalmente) para termos surpresas agradáveis à nossa espera.

Era tipo assim:


Pensando bem, acho que teria atravessado a estrada a correr assim que o visse para ter que me cruzar com ele, de qualquer das formas.




S.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Pesadelos caninos

O meu cão sonha, e ao sonhar tem pesadelos. Porque mesmo agora o ouvi a ganir baixinho durante o sono. Nesse pesadelo deve figurar:

- os donos a fazerem-lhe a desfeita novamente de ir de férias durante um fim de semana e ele a ficar sozinho;

- ele a correr em direção ao jardim e a terra ter desaparecido, dando lugar a cimento e nenhuma hipótese de fazer buracos;

- um carro avariado e o fim dos passeios dominicais à praia;

- mas, muito mais provável, uma taça de comida que se apresenta sempre vazia. Ou um jantar apenas em vez de dois.




Ser cão é ser fácil de contentar.