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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Nervös

Estes dois últimos dias na Bélgica são tortura. Também porque os tenho que passar a trabalhar, mas não essencialmente por isso. O meu espírito já não está cá, quero ir-me embora daqui. 

A casa já foi limpa para inspeção final, o frigorífico está quase vazio, as malas estão feitas, as nossas maiores possessões já foram vendidas, o des-registo na comuna já foi feito. Não apreciei o lançamento do meu cartão de residente para o lixo de forma tão negligente mesmo à minha frente. Há sentimentos envolvidos.

Estou cheia de antecipação, vou regressar à base mais uma vez brevemente, antes de nos lançarmos no mês de pedalanço pela costa portuguesa. Quer dizer, estaremos na base à mesma, não antecipo sentir-me menos do que em casa de regresso à base em qualquer lado do território português. 






S.

Sucesso balnear

Há duas semanas fomos à praia. A intenção principal de ir até à beira-mar era fazer um passeio de bicicleta de vários quilómetros pela costa flamenga e holandesa, que me haviam dito ser lindíssimo. Andava a sonhar com Knokke há mais de um ano. Como todas as previsões meteorológicas apontavam para um dia soalheiro e de mais de 25 graus naquela cidade costeira, permitimo-nos sonhar.

Começámos a rir maniacamente quando, ainda no comboio, cai uma carga de água enorme. Não faz mal, já estamos habituados, declarámos nós, os fatos-de-banho vieram vestidos mas bom, temos o pedalanço na mesma para fazer. Não seria em vão como há dois anos.  

Fomos então pedalar, eu sempre de antena no ar para descobrir o momento em que passássemos a fronteira com a Holanda. Nem uma placazinha azul com estrelas amarelas a anunciar, nem bandeiras holandesas em lado nenhum, mudança de língua nicles porque já estávamos na Flandres de qualquer das formas, olhar para as matrículas dos carros não me elucidou porque havia igual número de BEs e NLs, e as pessoas como é óbvio não têm escrito na testa de que país são. Cheguei a procurar desesperada anúncios em edifícios ou paragens de autocarro que tivessem um website com .nl, cheguei ponderar perguntar a alguém na rua se já estava na Holanda, mas senti-me ridícula e tive medo de ofender nacionalismos desenfreados caso ainda estivesse na Flandres. Lá vislumbrei uma caixa de correio amarela que dizia qualquer-coisa-qualquer-coisa-Nederland mas acabei por nunca vislumbrar a linha divisória como esperava. Só em casa, com o mapa GPS do percurso feito transferido para o computador pude ver que tínhamos avançado 10 km para dentro da Holanda sem nunca nos apercebermos. 

Apanhámos chuva e fresquinho, como era esperado desde a forte chuvada no comboio. O que não era esperado foi o sol que de repente brilhou em toda a sua glória no pedalanço de regresso a Knokke, e que me garantiu um lindo bronzeado à camionista que ainda hoje apresento com alguma vergonha. Apanhar escaldões aqui nestas costas do norte é uma verdadeira humilhação para pessoas Europa-sulistas como eu.

Ainda fomos à praia, o único final lógico de um pedalanço debaixo de sol quente (aqui isto não é uma redundância). E tomei banho! Fiquei mesmo feliz, felicidade essa que se esbateu um bocadinho quando dei um pontapé sem querer numa alforreca*. Acabaram-se os banhos de Mar do Norte que foi uma beleza. Secar é que não deu. Para fornecer um inesperado escaldão lá esteve ele, para secar uma pobre alma após banho de mar é que já seria pedir demais. Tentei mas não pedi, porque fique a sentir-me uma privilegiada por ter conseguido em dois anos apanhar um dia de praia digno desse nome.  






S.

* diz que este ano há lá muitas, mas inofensivas, aprendi agora.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Super-dimanche na Bélgica

No domingo foi dia de super-eleições aqui na Bélgica. Para além de votarem para o Parlamento Europeu, os belgas votaram para o parlamento federal e para os parlamentos regionais (Flandres, Valónia, Bruxelas, e parte-germanófona-que-acho-que-não-tem-nome). Podem imaginar a quantidade de cartazes com diferentes caras de candidatos que andaram aí afixados nas ruas.
Uma vez que não estou autorizada a votar para as Federais e Regionais, e nas Europeias escolhi votar nos partidos portugueses, passou-me muito ao lado as campanhas belgas. Não que fosse pela falta de informação ao meu dispôr, já que panfletos de campanha encheram a minha caixa do correio todos os dias durante três semanas. Infelizmente, nenhum deles tão apelativo como o do senhor do cão.
Mas agora ando com uma curiosidade inédita sobre a política belga neste pós-super-eleições. O sistema político deste país é tão multi-nivelado, tão multi-partidário, tão complexo e tão cheio de jogos de cintura que dá gosto acompanhar. E depois é aquilo das nacionalidades e da possibilidade do separatismo flamengo sempre à espreita.
Por falar em separatismo flamengo, o partido nacionalista flamengo N-VA ganhou as super-eleições. Para o nível europeu foi o mais votado (foram 10 os partidos a eleger gente para o PE) e para o nível federal também ( foram 13 [!!!] os partidos a eleger gente para o parlamento federal). O que significa que o chefe dos separatistas flamengos está agora encarregue de formar governo belga.
Ontem o senhor primeiro-ministro belga demitiu-se após o seu partido ter perdido as eleições (ele é do PS) e o rei mandou logo chamar os chefes dos partidos todos para começar o processo de formação de governo, por ordem de votos conseguidos. Achei muita piada os jornais enfatizarem que o rei estava com pressa, e que não queria perder tempo nisto de formar governo. Exato. Se for como em 2010 que a Bélgica esteve sem governo durante mais de ano e meio (mais tempo do que o Iraque, para se ter uma ideia do hardcore que é o bloqueio do sistema político belga) não pode haver mesmo tempo a perder. Nessa altura tiveram que fazer uma reforma constitucional e o caraças, para se entenderem finalmente, do tipo, mudar limites de regiões para acomodar birras flamengas e o senado federal deixar de ser eleito diretamente, e assim. Com 13 partidos com quem formar coligações imagine-se o trabalhinho e jogo de cintura que não vão ser precisos nos próximos meses.
De salientar só que o N-VA é nacionalista mas não é de extrema-direita, é um partido de centro-direita, moderado. A minha colega belga diz que eles não odeiam outras raças ou estrangeiros porque estão demasiado ocupados a odiar os valões (os da parte francesa). Eu acho que mesmo assim é porque os belgas são um povo sossegadito e pequenino como nós os portugueses, sem grandes nacionalismos inflamados enquanto país (vão se agarrar ao quê, também, como símbolo nacional, às frites?!), que têm consciência do seu peso fraco-moderado na cena europeia e que lá vão andando nas suas negociações governativas com uma paciência de santo. Não têm tempo nem pachorra para odiar povos.
Fiquei um bocado triste quando ouvi que o primeiro-ministro atual se tinha demitido, embora agora perceba que era expectável, foi porque perdeu as eleições, não se demitiu, demitiu.




Tinha um sorriso fácil e grande, e usava laços. Fazia lembrar um ventríloquo, ou um apresentador de circo. Gosto das pessoas que sorriem com os dentes todos.
Isto foi a melhor análise política do senhor Elio di Rupo que consegui arranjar. Só agora, a menos de um mês de me ir embora da Bélgica, é que ganhei séria curiosidade sobre a política daqui. É um bocado triste. Soube da aprovação da eutanásia para menores há poucos meses e fiquei pasmada com a serenidade com que este povo aprova coisas que seriam pólvora acesa noutros países e com o pouco alarido com que lá vai fazendo o seu caminho pioneiro no quebrar de barreiras ao pleno cumprimento dos direitos humanos.
Nestas super-eleições a abstenção foi de 10%, percentagem capaz de dar sonhos molhados a muito bom democrata. A razão é o voto ser obrigatório e ter que pagar multa quem não comparecer. Os belgas não brincam em serviço, se é para votar É PARA VOTAR, se é Dia Europeu Sem Carros É SEM CARROS (são proibidos nesse dia, a sério). Não confiam no civismo das gentes, pronto.
Ainda estou intrigada com o facto de o Museu de História Militar aqui em Bruxelas, que está com uma exposição interessantíssima sobre a guerra de 14-18 e que eu estou há meses para visitar, ter estado fechado no dia das eleições. Sendo que tinha um papel afixado a declarar que estava fechado por causa das eleições e o museu do lado, o do automóvel, estar aberto, é de suspeitar que há ali uma razão especial que eles entendem necessária para que as pessoas mão o possam visitar em dia de escrutínio político. Será para não exacerbar nacionalismos dispensáveis? Para não agudizar ressentimentos históricos? Gostava de ter a certeza.
A Bélgica é um país profundamente interessante do ponto de vista político e eu só tenho pena de não ter estado nem aí nestes dois últimos anos. Só se quer quando não se tem, não é, triste.
S.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

"You're so dark but I want you hard"

Escrevo num comboio algures nas Midlands. Vou visitar a minha futura potencial casa.
 
Sinceramente ainda não sei ao certo qual foi a minha ideia em meter-me nesta viagem. Decerto que a beleza ou fealdade de uma cidade não deveriam ser critérios prioritários na escolha da universidade para se estudar. Mas a viagem foi pensada numa altura em que a angústia da escolha que brevemente terei que fazer estava a pesar especialmente e, por isso, cá estou eu. Sendo o resto igual, pode ser que a beleza seja um bom critério de desempate. E qualquer pretexto para voltar à Inglaterra é sempre bom.
 
Isto faz-me lembrar que amo comboios. Se pudesse não trabalhava a partir de casa, trabalhava a partir de comboios. Metia-me num comboio qualquer e, ala por essa Europa fora. Era capaz de sair um bocado caro, ao fim do mês, mas provavelmente nem tanto como alugar um escritório. E a vista móvel compensaria grandemente.
 
Ainda não tenho a certeza absoluta de que mudar-me para Inglaterra seja a melhor coisa a fazer. Tenho um fascínio enorme por este país, misturado com muito carinho, mas ele tem coisas que me irritam profundamente. A mania de que não é Europa é a maior. Seria extremamente irónico para uma europeia convicta vir estudar coisas europeias para um país que parece estar a descascar a sua europeanidade aos poucos. Se os Tories vencerem as eleições para o ano e no referendo de 2017 os britânicos abandonarem a UE, não sei como vou reconciliar as minhas duas paixões. Se a Escócia se for embora em setembro então seria o cúmulo. A Inglaterra a resvalar cada vez mais para a periferia, cada vez mais isolada. Burros do caraças. O “orgulhosamente sós” não vos serviria, acreditem.
 
Viver em Bruxelas tem muitas desvantagens e eu nunca me cansei de as enumerar, muitas vezez com lamúria desnecessária. Mas se há coisa que soa incrivelmente a privilégio em viver nesta cidade é a centralidade. Não só por ser o centro político europeu e tudo o que isso gera, mas por estar no centro geográfico da Europa. Ter tanta cidade a uma hora de avião, ter mais ainda a duas, e ter umas consideráveis a duas horas de comboio, incluindo Londres, Paris e Amesterdão. É uma sortuda geográfica, a cidade.
 
A geografia influencia muito do resto, claro, incluindo história, fronteiras, mentalidade e relações. As fronteiras belgas não existem fisicamente há mais de 20 anos, como no resto da Europa, mas também não existem mentalmente. É tão fácil e tão perto ir ali a França, ir ali à Alemanha, ir ali ao Luxemburgo, ir ali à Holanda. Lembro-me de na viagem que fiz para Estrasburgo, uma rota quase reta para sul de comboio, ter tido que desativar as mensagens automáticas de roaming porque o meu telemóvel parecia um alarme, sempre a apitar com info “Chegou à Alemanha! Chamadas custam X, mensagens custam Y.”, “Chegou à França! Chamadas custam X, mensagens custam Y.”, e depois as fronteiras não são retas, enquanto a rota ferroviária é, por isso o comboio estava sempre a entrar e a sair desses dois países. A geografia está-se bem marimbando para as decisões humanas políticas e por isso aqui eu aprendi a fluidez das nações e senti-me sempre na Europa, onde quer que tenha ido. E isso foi mesmo fixe.
 
Por isso voltar à ilha será voltar à periferia, tanto geográfica como mental. E isso deixa-me um bocado desconfortável.
 
Voltar à Inglaterra é também um bocado triste por razões linguísticas. Vivendo no continente tem-se sempre a língua materna, a língua franca internacional e a língua do país hospedeiro com que lidar. E ainda que eu não tenha dado a atenção e cultivado o meu francês como seria suposto, e ir embora da Bélgica com a vergonha linguística que cabe a alguém que viveu aqui dois anos e meio e não consegue ter uma conversa prolongada em francês, gostei muito de ter tido que lidar com uma língua estrangeira que não o inglês. Voltar à Inglaterra será voltar a ser preguiçosa linguisticamente. Não sei como vou gerir este regresso à zona de conforto com a minha curiosidade cultural e linguística para com o resto da Europa (a última tentativa, com o alemão, não correu assim tão bem). Talvez o futuro daqui a uns anos me lance outra vez para a mainland. De preferência, de comboio.

 
 
 
 
S.        

sábado, 29 de março de 2014

Descrever uma cidade em 5 palavras

Antuérpia é Amesterdão mas em feínho.







S.


P.S. Claro que mais feínho que Amesterdão continua a ser 10 vezes mais bonito do que Bruxelas, mas ainda assim. Compara-se coisas comparáveis e Antuérpia está na liga das cidades-País-Baixo enquanto Bruxelas, bom, sinceramente não sei.

P.P.S. Sim, já é o terceiro fim-de-semana que temos com vinte graus e sol desde o início ano, após termos tido o inverno mais ameno de que há memória, e então? Não podem ser sempre os mesmos a sofrer agruras climatéricas.


 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Olá cidade belga, adeus cidade belga

Ainda não me habituei a isto de fazer uma viagem de menos de meia-hora de comboio e parecer que estou num país completamente diferente. Esqueço-me sempre, sempre, que Bruxelas é um enclave numa Flandres cada vez mais nacionalista e que me rosna sempre que ouso trazer os meus hábitos linguísticos francófonos para dentro do seu território. É como se sair para as redondezas de Bruxelas fosse ir ao estrangeiro. Os mesmos mecanismos mentais têm que ser feitos: desabituar a ver as coisas escritas numa língua que se entende, desabituar a ouvir pessoas falarem numa língua que se entende, e ter de ter cuidado para se nos dirigirmos a elas no inglês de turista. É estranho, ir ali dar um passeio a Louvain (ou, devo dizer antes, Leuven?) numa tarde e sentir-me uma turista desenquadrada, apesar de não ter passado nenhuma fronteira nacional.

Nem vou falar da cidade em si, toda limpa, ordenada, pituresca como uma caixa de bolachas belgas, e cheia de bicicletas. Só iria dar azo a mais lamentos sobre a fealdade, estranheza e sujice bruxelense. Como todas as cidades flamengas (das que eu conheço, pelo menos), Leuven tem aquele ar de País Baixo que mete impressão.

Só para registar aqui então que dei início à minha despedida formal da Bélgica no sábado ao começar uma série de passeios pelas cidades principais do país que vai deixar de ser o meu não tarda muito e do qual eu conhecia vergonhosamente pouco. Lovaina (até me assustei quando descobri que era este o nome da cidade em português) foi a primeira.




S.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Dores de crescimento

Dei-me agora conta de que faz hoje dois anos que chegámos à Bélgica.

O que são dois anos numa vida? Nada. 

Continuo a sentir-me tão criança quanto quando aqui cheguei. Continuo com a leve sensação de que não faço ideia do que estou a fazer, nem do que devo fazer, e, às vezes, nem do que gostava de fazer. Sei, tão claro como a água (mas não a que sai das torneiras bruxelenses) que daqui a quatro meses vou-me embora daqui sem saber se estou a fazer a coisa certa. E o pior: provavelmente nunca vou saber. E isto é horrível. Eu cresci convencida de que os adultos sabiam sempre o que estavam a fazer e o que deviam fazer. Esta liberdade e múltiplas opções de escolha é humanizante mas paradoxalmente claustrofóbica. Nunca vamos saber se tomámos a decisão certa e haverá sempre tantas pessoas a enveredar por caminhos diferentes que nos farão questionar o nosso. É o ter que fazer uma escolha e viver com o "e se" de todas as outras que recusámos. Suficiente para uma pessoa dar em doida.

Haverá sempre alguém a fazer o mesmo que tu, melhor do que tu.

A única frase que me regula as perspetivas e acalma as ânsias, embora eu não consiga explicar porquê. A perspetiva de que há sempre alguém melhor do que nós só deveria era potenciar essas ânsias. Estranhamente, acalma-me a necessidade de querer ser melhor, de querer mais, de saber mais e de estar agudamente consciente de que sou a única responsável nisto tudo. Do ser melhor. É capaz de ser na lógica do "perdido por cem, perdido por mil", do fuck all para isto tudo.

Espero é entretanto não ter ficado a gostar da Bélgica afinal.






S.



domingo, 1 de setembro de 2013

"It's like a freaking fairy tale!"

*suspiro gigante*

Já estou um bocado farta de escrever estes posts, verdade seja dita. 

Toda a santa cidade que visito me deslumbra os sentidos. Começo a desconfiar que sou uma alma facilmente deslumbrada. Porque ou é isso ou tenho uma pontaria incrível para escolher passeios. Há uma terceira hipótese, que é a Europa ser um continente estupidamente belo e as suas cidades serem capazes de coisas que eu não pensei que eram possíveis, nomeadamente no batimento de records de perfeição. 

Há pouco mais de um ano escrevia eu aqui extasiada com a beleza de Amsterdão. Olhando para trás, sóbria, consigo perceber que a cidade merece toda a ode que lhe foi feita na altura, mas eu claramente nunca tinha sido introduzida à cultura do centro da Europa, o seu núcleo geográfico e cultural. Por isso, ver aquelas casas seculares, em fila, muito bem preservadas, aquela água no meio das ruas, tudo tão limpo e organizado, tanta bicicleta, etc, foi o choque mental e sensorial que se compreende. Mas depois fiquei parva com Bayeux, fiquei parva com Estrasburgo, fiquei parva com Edimburgo (se bem que esta última, num tom completamente diferente das anteriores), e começo a pensar que ou eu tenho é a capacidade ingénua de me fascinar facilmente com as coisas, como as crianças, ou ainda tenho é muito mundo para ver. Começa é a meter raiva porque o meu standard de medida é agora Bruxelas e esta beleza toda alheia deixa-me cada vez mais frustrada: tanta cidade lindíssima por aí e tinha que me calhar esta?!

Bom, há que ser honesta: Bruges é holandesa, sem tirar nem pôr. Convenço-me cada vez mais que a Flandres pertencer à Bélgica é um daqueles acidentes históricos estúpidos e francamente artificiais, do mais forçado que há. A zona flamenga tem um caráter tão de País Baixo que mete dó ver a bandeira vermelha, amarela e preta hasteada ao lado da amarela com o leão preto. Começa na língua, que ainda não estou certa que tenha estatuto de língua per se, mas é sim um dialeto holandês (demasiado preguiçosa para ir agora googlar), passando pela planez daquelas terras, pelos moinhos tipicamente holandeses que também se descortinam aqui e ali, pelas inúmeras bicicletas em todo o lado e pelos numerosos canais, acabando na proximidade geográfica à Holanda. Por isso, Bruges, não me podia surpreender inteiramente visto já conhecer Amsterdão.


Aqui há uns tempos, comecei a ler Game of Thrones. Pus o livro de lado passado umas cem páginas porque a mistura entre inglês americano, nomes que pareciam fruto de uma brincadeira envolvendo bêbados e sopa de letras, e a ausência de balizas históricas, me fez enjoar rapidamente a história. Depois veio a série e toda a gente cujo gosto televisivo confio adorava aquilo, dizia que era um espetáculo, etc, e eu estive cerca de seis meses entre ter o primeiro episódio e me dignar a ver. Parti para a visualização do dito cujo determinada a dar uma oportunidade mas com o nariz no ar e braços cruzados, propositadamente crítica e indisposta a deixar-me seduzir facilmente. Ao quinto episódio ou coisa que o valha rendi-me completamente e admiti sem reservas que foi a melhor história que já vi contada. 

Bruges foi exatamente assim. Cautelosa para não me apaixonar, apesar de saber ao que ia, e determinada a ser crítica com a cidade ex-líbris turístico. "Hah, estas ruas de calçada são tipo Bayeux", "hah, estes canais são lindíssimos mas Amsterdão também tem", "hah, pracetas bonitas com casas altas de vasinhos nas varandas, isso também Estrasburgo tem." Mas foi a porcaria da visita de barco pelos canais que me calou. As pontes em arco, as bicicletas, as margens prazenteiras, tudo isso Amsterdão tem, de facto. Mas Bruges tem canais com recantos, as paredes das casas mergulham na água, as pessoas abrem a janela e quase que molham os pés, não há passeios a separar. E a quantidade de choupos que aquela cidade tem, senhores!... E heras e flores bonitas a tombar pelas paredes. E as ruas calcetadas misturado com as casas medievais, Bayeux também tem, é certo, mas é só umas quatro os cinco ruas mesmo no centro. Em Bruges, TODA a santa cidade é assim. Uma vez passámos numa rua alcatroada e eu notei a diferença porque aquilo destoava... Portanto, o impossível aconteceu e eu achei uma cidade mais bela do que Amsterdão.


É muito mais pequena, há que ser justa, e não tem um quarto da vivacidade e dinâmica de Amsterdão. Mas por isso mesmo tem uma aura de cidade de conto-de-fadas que eu nunca vi em lado nenhum.  

Eu não queria viver ali. É uma cidade calma demais e a perfeição enjoa. Fica para lavar a vista em passeios.

Por falar em passeios, escolhemos mesmo o primeiro dia do meu último ano como "jovem" segundo os transportes belgas, para comprarmos o Go Pass. É um passe de dez viagens, para ser usado entre quaisquer estações belgas, por quantas pessoas quiserem, e onde somos nós que escrevemos a data e o percurso feito. É um desconto extremamente catita que eles dão aos jovens para aproveitarem a sua juventude a viajar por esse país e Europa fora (o Eurostar e os comboios no UK também têm estes descontos para menores de 26). Não percebo bem o critério do número "26" (porque não 25? ou 21?) mas pretendo aproveitar ao máximo o meu último ano de descontos no que aos comboios diz respeito.

Por falar em último ano de descontos, ao contrário de anos anteriores, que ou não me disseram muito ou tive até mini-pânicos nas horas anteriores, estou a gostar muito de ter 25 anos. É uma idade muito a meio-caminho, mas por isso dá-me sensação de equilíbrio, gosto de estar a meio-caminho. Não me vou meter a fazer balanços - as únicas medidas que tenho são para projetar - mas estou satisfeita com a minha vida por isso os 25 não me trouxeram crises de identidade. Correção: não é satisfeita, contente com o rumo, tenho tanta, mas tanta coisa para concretizar que não podia nunca estar satisfeita. 

30, bring it on.



S.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Tempo belga: 2 D.S.: 0

Meu querido chapéu azul das doze estrelas amarelas:

Vivemos um ano muito feliz, eu e tu. Acompanhaste-me sempre na mala, todos os dias, a fornecer-me a força e confiança necessária para caminhar debaixo de chuva interminável. Foste-me oferecido com muito carinho e no auge da minha paixão por todas as coisas união-europeanas. Ao início até andava cheia de tristeza por o inverno lisboeta de 2011-2012 ter sido tão seco e nunca me dar oportunidade de te usar. Por isso foi com muita alegria que vim viver para o paraíso do aguaceiro. 

A tua flexibilidade sempre me maravilhou. Cabías na minha mala mais pequena mas não eras como os outros chapéus desdobráveis; não senhora. Eras resistente, abanavas muito essas varetas mas nunca nenhuma se partia e, entretanto, eu também aprendi a jogar ao chapéu-de-chuva-e-vento.  Afastaste água, neve e granizo, incluindo aquele temporal de pedras de gelo que nunca mais vou esquecer e que até deu ao céu uma cor meio roxa, muito assustador. Nunca mais fechaste muito bem, mas isso estou em crer que se devia à tua felicidade em me proteger da chuva, mais do que ao teu historial de lutas contra a ventania bruxelense e contra a precipitação do demo. Foste um fiel companheiro nas viagens deste ano louco, e mais do que uma vez voltei atrás para te salvar de um esquecimento que quase era completo.

Mas ontem a ventania foi forte demais. Nem o melhor do chapéus rijos aguentaria aquilo, e tu eras melhor que muitos desses. Eras o melhor dos chapéus. Sei que parei no meio do passeio  porque o vento nos impediu de progredir e agarrei-me com força a ti, na esperança que fosses também o mais bravo dos chapéus e te aguentasses, mas depressa descobri que era em vão. Saltou-te uma vareta, saltou-te duas, e eu pensei "Olha, já foi", enquanto continuava de pé fincado e a fazer força para não ser arrastada para o meio da estrada. Ainda te tentei abrir, como se nada fosse, mas tinhas a asa partida. Tentei concertar-te, mas estava para lá de arranjo. Despedi-me de ti.

Foste um bom chapéu. Só quero que o teu sucessor tenha metade da tua força e aguente metade do que tu aguentaste. Conseguindo-o, já será um grande chapéu.

Um adeus do fundo do meu coração partido,

S. 






P.S. - Isto foi para eu não me armar em esperta a gozar com a queda do Napoleão. Ninguém goza com o tempo belga e sai impune.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O Napoleão é um ovo podre

O Napoleão não fez o trabalho de casa. Ainda não li Os Miseráveis até ao fim, mas sei que esta será a conclusão mais importante que deles vou poder tirar.

Estava eu muito bem a ler o livro quando o Vítor Hugo decide começar a contar a história da batalha de Waterloo. Fiquei muito contente: Waterloo é mais um daqueles grandes virar de página da História Europeia e portanto um marco da identidade partilhada do velho continente. Além disso, fica a uns 40 km aqui de Bruxelas e diz que todos os junhos, no dia da batalha, lá fazem uma recriação histórica muito bonita e cheia de figurantes e tal. Já não me lembro por que é que não fomos lá o ano passado, mas havemos de ir este ano. Em princípio.

De qualquer forma, dizia eu que o Vítor Hugo começou a contar a batalha de Waterloo. Como é que foi, como é que não foi, de onde é que veio um batalhão, por onde é que entrou a infantaria e a cavalaria e não sei quê. Às tantas, diz ele:

"If it had not rained in the night between the 17th and the 18th of June, 1815, the fate of Europe would have been different." 

Arrebitei logo o ouvido (não obstante o facto de estar a ler. Mas adiante):

"A few drops of water, more or less, decided the downfall of Napoleon."

Olha que curioso, ironias do destino, hein, como os acasos deitam abaixo super-homens como o Napoleão...

"All that Providence required in order to make Waterloo the end of Austerlitz was a little more rain, and a cloud traversing the sky out of season sufficed to make a world crumble."

Foi quando eu li este "a cloud traversing the sky out of season" que se fez luz e eu desatei às gargalhadas. Porque, a sério, isto é tão caracteristicamente belga e tão igualzinho ao que eu penei o ano passado que só pude comiserar. Ora então, o grande Generalíssimo, super-mestre-génio-militar senhor Napoleão é derrotado por uma chuvada fora de época. Na Bélgica. 

Hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha!

O senhor Napoleão devia saber que na Bélgica não há chuvadas fora de época. Qualquer altura do ano é boa para cair chuva - e não interessa que nos quinze dias anteriores tenha estado um calor de morrer (o que também é muito difícil). Não interessa que tenha estado um sol magnifíco MEIA-HORA antes do acontecimento: há sempre, a toda a hora, em todos os dias de todo o ano, a forte probabilidade de desatar a chover. Exceto em janeiro, que por causa do frio é mais provável que neve.

Eu sei que ele deve ter escolhido muito bem o dia e o mês para reduzir fortemente as probabilidades da água a cair do céu, embalado lá pela noção da terra dele de que as estações fazem sentido e que o tempo se comporta normalzinho e que no verão não chove. Errou foi no território, pronto. 

Diz que depois aquilo era só lama e a artilharia não conseguia avançar e que depois havia um vale que, por causa da chuva, estava meio inundado e os soldados não repararem que, bom, era um vale, e caiu tudo por ali abaixo. 

Ora então, parece que o tempo bipolar belga livrou a Europa de ser dominada por um déspota. (O Vítor Hugo discorda; diz que quem ganhou Waterloo foi a contra-revolução, as monarquias, o conservadorismo, e quem perdeu foi a Revolução Francesa e a Liberdade. Mas que raio de liberdade é que pode haver com ditadores que se auto-intitulam "Emperator", pergunto eu. E o Vítor Hugo também diz que o Napoleão só perdeu a guerra porque Deus não queria rivais, e o Universo estava a ficar demasiado desequilibrado, de tão divino e maravilhoso que o Napoleão era, e não por mérito do Wellington, que era só razoavelzinho. Por isso o seu juízo é claramente enviesado).

Espero que no dia 18 de junho em que eu vá a Waterloo, seja de que ano for, esteja a chover, que é para a experiência ser completa e extremamente hilariante. Só assim a recriação histórica estará completa.


 

S.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O inverno não tarda aí, e eu mortinha

Nada me podia ter aquecido melhor o coração (e a barriga, especialmente a barriga) do que isto, após uma semana particularmente esgotante e eventful, e de um dia inteirinho de formação em contabilidade na língua dos gauleses:


Que maravilha! Um chocolate quente que sabe mesmo a chocolate derretido, e não a leite com chocolate, que é só o que eu sei fazer. Com o copinho a escaldar entre as mãos geladas, com a previsão de neve para este fim-de-semana a pairar na minha mente e o mercado de Natal bruxelense que se avizinha, deixei de arrastar os pés cansada e foi quase com saltos de alegria que entrei em casa.

Os mercados de Natal alemães bem que podem ficar para outro ano. Agora tenho é que aproveitar enquanto a prospetiva de uma Bruxelas natalícia ainda é uma fonte de grande entusiasmo e surpresa para mim.



S. 

sábado, 20 de outubro de 2012

Cabelo comprido, por que me abandonaste

Ao enviar os e-mails para a organização dos extras da White Queen, pondero duas coisas que não deixam de ser irónicas. 

A primeira é que eles exigem pelo menos cabelo pelos ombros e eu, depois de uns dois ou três anos com cabelo compridão e cortado a direito, tenho-o agora e desde agosto escadeado e mais ou menos pelos ombros. Mega desilusão se não for chamada por causa disto. Bom, pelo menos deixei-me das minhas manias de usar reflexos ruivos e o cabelinho está na sua santa cor natural, como é exigido. 

A segunda ironia é senhor D. estar há boas semanas a querer rapar o cabelo e ainda não o ter feito; exigem que os homens tenham pelo menos três centímetros de cabelo. Sim, entretanto arrastei senhor meu parceiro para o mundo das medievalidades.

Vamos ver se somos chamados. As filmagens decorrem até março e mesmo que não sejamos escolhidos para participar quero ir lá lançar um olhinho. 

Os dedos já estão em figas.




S.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Bruges me espera!

Durante este verão descobri duas notícias de uma assentada só que me deixaram bastante entusiasmada:

- a BBC iria começar a filmar em setembro uma série de 10 episódios baseada na série Cousins' War da Philippa Gregory entitulada "The White Queen", e homónima de um dos meus livros preferidos da autora (e curiosamente o tema do 1º post deste blog :'); 

- as filmagens vão ser inteiramente em Bruges, aqui na Bélgica, e andavam à procura de figurantes.

Depois de bater muitas palminhas de contente e de muita promessa convicta de "É desta que vou à cidade medievaleca da Bélgica que toda a gente tanto gaba!", comecei uma pesquisa muito incisiva e muito ansiada tentando descobrir quando começavam mesmo as filmagens (setembro tem muitos dias...) e onde me teria de inscrever se quisesse, por acaso, enfiar-me num vestido daqueles de veludo muito comprido e muito luxuoso e brincar um bocadinho às Idades Médias.

Mas não encontrei nada.

Ia descobrindo notícias sobre os atores, à medida que iam sendo escolhidos, mas nada sobre os locais e dias de filmagens. 

Entretanto releguei para segundo plano da minha mente esta série. Talvez fosse a Bruges um dia destes... Mas sem saber os dias das filmagens nem locais especificos ou horários, seria mesmo muita sorte se apanhasse precisamente um "corta!" (como se dirá "corta!" em francês...?).

Hoje, mesmo por acaso, apanhei um artigo que falava sobre como a Bélgica estava a ser muito requisitada como local para filmagens de produções de Hollywood e outros filmes e séries. E, como não podia deixar de ser, mencionar a The White Queen. Dizendo que as filmagens já tinham começado. O entusiasmo regressou e decidi voltar a pesquisar.

Tive a sorte de encontrar num blog fotos e contacto de uma mulher que já tinha assistido às tão ansiadas filmagens e decidi perguntar-lhe se tinha mais informações. 

Pois então parece que de momento as filmagens de exterior estão paradas mas que regressarão daqui a duas semanas. E que os transeuntes são muito encorajados a assistir. A senhora deu-me até o contacto da organização de figurantes da série, que talvez ainda aceitassem extras.

Os meus dedos já estão a fazer figas! Seria qualquer coisa de espetacular ser parte de uma série baseada num dos meus livros favoritos! E já me decidi: é mesmo desta que vou a Bruges, que toda a gente gaba, nem que seja só para ver preciosidades como esta:







Mal posso esperar! :D



S.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

E já vão três...

O meu cartão da segurança social chegou. Há ano e meio chegava outro bem diferente...

Agora só me apetece é ir tirar análises e ir ao dentista e essas coisas todas, só para o ir estrear. Nunca pensei, em todo o meu quase quarto de século, vir a dizer uma coisa destas.


Enquanto não me aventuro a procurar um médico e investigar como funcionam cá os check-ups médicos, vou estreando o meu seguro de saúde com o reembolso da inscrição no ginásio.

Diz que é medicina preventiva. Eu digo "muito obrigada".



S. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Preparava-me para desancar na burocracia portuguesa mas depois saiu-me isto

Parece que agora sou uma contribuinte belga e, portanto, estes primeiros dias da rentrée tem sido passados a tentar encaixar tudo o que é inscrição nisto e naquilo para me tornar oficialmente parte do sistema. 

Primeiro foi a inscrição na comuna, já bastante atrasada, mas só agora com sentido para nós. O sistema varia consoante a comuna, e no caso de Ixelles é bem esquisito. Há que telefonar para um determinado número entre as 8h e as 10h da manhã (que raio de horário é este...?), dar nome (mais um bocadinho de soletramento), nacionalidade, morada, data de nascimento. E... pronto. Depois a polícia vem cá verificar o nome na campainha e caixa do correio (???? e apanhar criminosos, não?) e deixa um papel com a data em que temos que ir à comuna entregar comprovativos de residência, identificação, fotos e mais não sei o quê. E o que é que isto nos dá direito? A votar nas europeias e nas locais e a pagar um imposto municipal anual (que felicidade :') ...). Deve estar quase...

Depois, foi o seguro de saúde. Ao que parece, na Bélgica, do ordenado é descontado uma percentagem para a segurança social mas para ter direito a ela é preciso filiar num seguro de saúde e pagar um extra. Segundo consta, é os seguros são todos a mesma coisa, e os serviços básicos cobertos, bem como a mensalidade, pouco variam. De maneira que foi um bocado um-dó-li-tá, a escolha.

Mas o passo que eu mais temia era a mudança de morada fiscal para aqui para a Bélgica. Quando comecei a pesquisar na net como se fazia, só encontrei histórias de terror de pessoas que tinham perdido horas e horas em repartições de finanças para lhes dizerem que era impossível, que tinham que manter a morada em Portugal e pagar impostos no país à beira mar plantado, ainda que não trabalhem nem residam lá, e um que tinha tido que recorrer ao parecer do tribunal europeu para provar aos gajos das finanças que não, que cada cidadão paga imposto onde trabalha e vive. Parece mesmo que o Estado português foi multado pela União Europeia por ter instaurado a idiota figura do "representante legal junto das finanças" de todo o português que mude a sua morada fiscal para o estrangeiro. Que violava o princípio fundamental da livre circulação de pessoas e capital.

Eu comecei a suar suores frios e a preparar discursos e reclamações inflamadas caso me dissessem que tinha que pagar impostos em Portugal e aqui, preparada para invocar os santos princípios do espaço comum europeu, se me dissessem que não seria possível cortar esta raiz com as finanças portuguesas e chimpar dinheiro duplamente.

Como descobri rapidamente, não é possível alterar a morada no Portal das Finanças para o estrangeiro, devido à obrigação de meter lá um código postal português. Decidi então enviar e-mail às finanças, esperando o pior.

Passado um dia, responderam. Mas mais do que isso, disseram que eu podia alterar por e-mail. Era só enviar o meu NIF e a minha morada nova e o senhor alterava logo ali. ... O meu nariz estava mais torcido do que o rabo de um porco... "Só assim, e já está?! Naaah...". Passados quinze minutos de ter enviado os meus dados, recebo resposta a dizer que já estava. Torci o nariz ainda mais um bocadinho - "Será?!..." - impedindo-me de me iludir tão rapidamente.

Há pouco, consultei o Portal das Finanças e lá estava ela: Rue não-sei-quê-não-sei-quê, Bélgica. 

:O 

Não queria acreditar. Então e o outro senhor que teve que pedir o parecer ao tribunal, que teve que telefonar tanta vez zangado, e esperou não sei quantos anos pela alteração? Achei que estava perante o super-funcionário-público. Agradeci-lhe efusivamente, porque é profundamente aliviante quando as coisas burocráticas são feitas num estalar de dedos, e ver que no meio da tão vilipendiada administração pública portuguesa, há coisas que correm bem.



E agora vou bater na madeira porque ainda vou ter que me registar no consulado português, por isso nunca se sabe...



S.


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Tempo belga: 1 - D.S.: 0

Chegámos à praia, uma hora depois começa a chuviscar. Acabei por ter de me vestir, casaco incluído.

...




É preciso dizer mais alguma coisa sobre o tempo belga?


S.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Alsácia sem a Lorena

Enquanto janto os melhores bifinhos com cogumelos que já provei na vida (França tem tendência para me brindar com muitos "o melhor *inserir prato* que já provei na vida"...) tento sintetizar as minhas primeiras impressões da Alsácia. 

Se na Normandia se respirava liberdade (historicamente imaginada), aqui respira-se união (fisicamente sentida). E acabaram de me trazer um chá com uma bolacha Speculoos, que coisa tão doce e estranhamente belga! Neste canto francês com tantos nomes acabados em "heim", a pernoitar numa terra demasiado germânica e cujo nome ainda não sei pronunciar, acabo por não conseguir descortinar se Estrasburgo é mais gálico ou germânico. No fundo, pouco importa, pois pertence áquela classe de cidades com qualidade de vida impossivelmente elevada. Dois mundos juntam-se aqui na Alsácia, dando o melhor de si para formar um resultado de louvar: a organização e eficiência germânica com o bom-viver francês.

A França tem também cheiro a casa, descubro agora. O francês palrado de fundo e os "bonjour!"s dados com alegria não fazem parecer que atravessei quatro países para cá chegar. 

Alsácia é a nacionalidade do meu cão, também (do meu ex-cão - pode-se dizer "ex-cão"? Para não confundir com o atual e não dizer "o meu cão que já morreu". Deve-se poder. E este também é o meu blog, portanto, eu é que sei). Alsácia lembra-me sempre "Lobo da Alsácia", vulgo Pastor Alemão (O pai da Merkel é um pastor alemão. Juro. Na altura tive que ler essa frase várias vezes até ela fazer sentido, mas agora faz.). Saudades que fazem sempre cócegas no fundo do estômago e que não têm a distância da Alsácia a Lisboa, mas da Alsácia ao céu.

Gosto deste centro da Europa. Aguça-me a curiosidade por esses dois países imensos que são a França e a Alemanha e ajuda-me a reparar no quanto ainda me falta da Europa para ver com os meus próprios olhos e calcorrear com os meus próprios pés.





S.


P.S. O Kobo já cá canta, sim. Estamos na fase de reconhecimento um do outro, numa relação que se quer duradora e cheia de alegrias.   

P.S.2 E esta vida de quarto de hotel single é esquisita e solitária para caraças. E eu sou a pessoa mais anti-social que conheço...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A saga do Kindle

Há coisa de ano, ano e meio, comecei a cobiçar suavemente o Kindle da Amazon. A flirtar seriamente com a ideia de poder ter os meus livros todos num aparelho do tamanho de um livro e tão fino como uma revista. Conheço de ginjeira o argumento principal de quem é contra estes aparelhos: o "e o cheiro a livro novo que a tecnologia nunca pode imitar, e o virar a página que nunca mais vais poder experienciar?". Ao que eu respondo: "Por favor, eu compro quase todos os meus livros em segunda mão pela Amazon, não sinto o  cheiro-a-livro-novo há anos e não é dele que sinto falta: é de ler." O que conta não é a forma, é o conteúdo.  E para isso tanto me dá que as histórias estejam num aparelho eletrónico ou em papel. A qualidade de escrita não se mede pelo meio onde está impressa. Para mim, o maior entrave no ler livros é o espaço que me ocupam antes e depois de estarem lidos. O peso que me ocupam na mala quando tenho de mudar de casa na nossa vida ainda tão temporária. Para mim, a possibilidade de carregar, no melhor e mais leve dos sentidos, mil livros num aparelhinho que pesa menos do que uma chavena de chá é a característica mais valiosa.

Dizia eu que há ano e meio começava a flirtar com o Kindle. Na altura, porque tentava arranjar um método sério e consistente que me permitisse aproveitar as duas horas diárias que passava no metro com estudo, e porque queria levar comigo as leituras, apontamentos e rascunhos da dissertação para a biblioteca, para a universidade, para casa e para o metro, decidi que um notebook seria um investimento consideravelmente mais útil que um Kindle que só me permitiria ler. Acertei, sim senhora. O pequenino computador que encomendei pelo eBay (não tive coragem de dar mais de cem libras por um; chegou impecável a casa, ainda que com teclado inglês) foi o melhor investimento que já fiz ao nível de gadgets. É pequenino e cabe na minha mala pessoal. Levo-o para férias na mochila misturado com a roupa. Serviu o seu especial propósito de me ser a ferramenta indispensável na leitura e escrita para a tese. Não suporta jogos nem cds; mas quem precisa de qualquer um dos dois? Eu cá não.

Só numa coisa ele me falhou: na leitura. É um defeito totalmente meu, assumo-o; o pobre coitado cumpre a sua função com diligência e se eu quisesse poderia ler e-livros aqui como li tanto artigo para a tese há um ano (oh meu deus, está a fazer um ano... para onde é que foi o tempo?!). Tentei, uma vez. Temo não ter funcionado como gostaria. Porque o computador, devido à sua inerente multifuncionalidade e ao meu cada vez mais curto attention span, torna-se o pior sítio possível para ler algo que se pretende saborear. Artigos, funciona; sou obrigada a prestar atenção porque preciso de tirar notas e são relativamente curtos. Mas ler um livro, que se pretende que seja um momento de relaxamento, a dois, só eu e o autor, é impossível. Aprendi isso à custa da experiência, e o interesse pelo Kindle renasceu.

Entretanto voltei para Portugal. Qual não foi o meu grande espanto quando descobri que é impossível encomendar o Kindle para o nosso território! Ou melhor, ser possível, é, mas apenas dos Estados Unidos e a custar mais uns 50 euros do que se comprasse em Inglaterra pela Amazon.co.uk. Como já tive uma muito má experiência com produtos importados dos EUA e presos na alfândega, encomendar coisas americanas é coisa que me recuso a fazer. Fool me once, shame on you, fool me twice, shame on me.

Tentei todas as Amazons europeias, nada. Nenhuma exportava para Portugal, ou mesmo para fora do seu território nacional. Num mercado europeu que se quer livre e único, a honrar a máxima da "livre circulação de bens e serviços", esta é uma das maiores aberrações com que me deparei. Mas adiante.

Quando soube que viria morar para a Bélgica, tive a brilhante ideia de esperar e encomendar pela Amazon francesa. Pensava eu que, tendo a mesma língua, sendo um território contíguo e tão pequeno que as tarifas de expedição de livros normais são as mesmas que para o território continental francês, seria de certo possível encomendar o Kindle francês. Faz de conta que isto ainda era França, xiu, ninguém ía notar. 

Já se deve estar a ver que não foi o caso... Caiu-me o queixo de incredulidade quando vi que Bélgica tinha o mesmo estatuto que Portugal em termos de Kindle: ostracizado. Revoltei-me. Estava fula com a Amazon e comecei a ver outros e-readers. Nenhum me parecia tão bom como o Kindle, no entanto.  Ou tão bom e tão barato, vá. A dois passos de casa descobri uma loja da Sony que tem insistente e irritantemente os bonitinhos e-readers na montra mas que custam o dobro do da Amazon. Recuso-me a pagar mais por um substituto.

Entretanto, descobri que a Fnac tem o seu próprio e-reader também. E que neste momento está com uma promoção que o põe um niquinho mais barato ainda do que o Kindle. As boas características continuam lá - especialmente o ecrã que eles chamam e-ink, que imita a textura de uma folha de papel impressa, tornando a leitura de um livro num e-reader exatamente igual à leitura em papel - e melhor: tem ecrã tátil. Apenas um senão: o Kobo (nome do aparelhozinho) custa mais 30 euros na Fnac belga, neste momento. Segundo momento de frustração com a porcaria do mercado único, ARGH! Nem na mesma empresa, chiça! 

30 euros pode não parecer muito mas há que entender que eu sou uma pessoa com uma relação muito difícil com o dinheiro na medida em que me custa largá-lo. Sou amante possessiva e ciumenta, controladora. Penso sempre "X custa 100 euros, oh! O que eu podia fazer com 100 euros!...". E depois acabo por nunca fazer nada. (Exceto viajar. Não compro uma única peça de roupa desde que cheguei a Bruxelas, mas viajar, ah senhores, isso ninguém me tira!)

Por isso, é com muita antecipação e em meia-voz (com medo que o universo oiça e eu chegar lá e aquela porcaria já não estar em promoção) que eu conto os dias até voltar a solo francês, mais propriamente solo Fnac-francês, para poder finalmente adquirir um e-reader sem pesos financeiros na consciência. E desfrutar dele já no comboio de volta. 






S.


P.S. Entretanto descobri que praticamente todos os clássicos são grátis em formato e-livro, presumo que por razões de direitos de autor expirados ou assim, o que redobrou o meu entusiasmo pelo Kobo e a minha antecipação por voltar a França.

sábado, 26 de maio de 2012

Ele há coisas... #12

O calor chegou à nossa rua. E eu, pela primeira vez, coincidência ou não, noto que uma bandeira belga ondula alegremente numa das varandas vizinhas.


Isto não seria uma observação tão peculiar se os belgas fossem dados a nacionalismos, o que não são. De todo.



S.