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domingo, 1 de setembro de 2013

"It's like a freaking fairy tale!"

*suspiro gigante*

Já estou um bocado farta de escrever estes posts, verdade seja dita. 

Toda a santa cidade que visito me deslumbra os sentidos. Começo a desconfiar que sou uma alma facilmente deslumbrada. Porque ou é isso ou tenho uma pontaria incrível para escolher passeios. Há uma terceira hipótese, que é a Europa ser um continente estupidamente belo e as suas cidades serem capazes de coisas que eu não pensei que eram possíveis, nomeadamente no batimento de records de perfeição. 

Há pouco mais de um ano escrevia eu aqui extasiada com a beleza de Amsterdão. Olhando para trás, sóbria, consigo perceber que a cidade merece toda a ode que lhe foi feita na altura, mas eu claramente nunca tinha sido introduzida à cultura do centro da Europa, o seu núcleo geográfico e cultural. Por isso, ver aquelas casas seculares, em fila, muito bem preservadas, aquela água no meio das ruas, tudo tão limpo e organizado, tanta bicicleta, etc, foi o choque mental e sensorial que se compreende. Mas depois fiquei parva com Bayeux, fiquei parva com Estrasburgo, fiquei parva com Edimburgo (se bem que esta última, num tom completamente diferente das anteriores), e começo a pensar que ou eu tenho é a capacidade ingénua de me fascinar facilmente com as coisas, como as crianças, ou ainda tenho é muito mundo para ver. Começa é a meter raiva porque o meu standard de medida é agora Bruxelas e esta beleza toda alheia deixa-me cada vez mais frustrada: tanta cidade lindíssima por aí e tinha que me calhar esta?!

Bom, há que ser honesta: Bruges é holandesa, sem tirar nem pôr. Convenço-me cada vez mais que a Flandres pertencer à Bélgica é um daqueles acidentes históricos estúpidos e francamente artificiais, do mais forçado que há. A zona flamenga tem um caráter tão de País Baixo que mete dó ver a bandeira vermelha, amarela e preta hasteada ao lado da amarela com o leão preto. Começa na língua, que ainda não estou certa que tenha estatuto de língua per se, mas é sim um dialeto holandês (demasiado preguiçosa para ir agora googlar), passando pela planez daquelas terras, pelos moinhos tipicamente holandeses que também se descortinam aqui e ali, pelas inúmeras bicicletas em todo o lado e pelos numerosos canais, acabando na proximidade geográfica à Holanda. Por isso, Bruges, não me podia surpreender inteiramente visto já conhecer Amsterdão.


Aqui há uns tempos, comecei a ler Game of Thrones. Pus o livro de lado passado umas cem páginas porque a mistura entre inglês americano, nomes que pareciam fruto de uma brincadeira envolvendo bêbados e sopa de letras, e a ausência de balizas históricas, me fez enjoar rapidamente a história. Depois veio a série e toda a gente cujo gosto televisivo confio adorava aquilo, dizia que era um espetáculo, etc, e eu estive cerca de seis meses entre ter o primeiro episódio e me dignar a ver. Parti para a visualização do dito cujo determinada a dar uma oportunidade mas com o nariz no ar e braços cruzados, propositadamente crítica e indisposta a deixar-me seduzir facilmente. Ao quinto episódio ou coisa que o valha rendi-me completamente e admiti sem reservas que foi a melhor história que já vi contada. 

Bruges foi exatamente assim. Cautelosa para não me apaixonar, apesar de saber ao que ia, e determinada a ser crítica com a cidade ex-líbris turístico. "Hah, estas ruas de calçada são tipo Bayeux", "hah, estes canais são lindíssimos mas Amsterdão também tem", "hah, pracetas bonitas com casas altas de vasinhos nas varandas, isso também Estrasburgo tem." Mas foi a porcaria da visita de barco pelos canais que me calou. As pontes em arco, as bicicletas, as margens prazenteiras, tudo isso Amsterdão tem, de facto. Mas Bruges tem canais com recantos, as paredes das casas mergulham na água, as pessoas abrem a janela e quase que molham os pés, não há passeios a separar. E a quantidade de choupos que aquela cidade tem, senhores!... E heras e flores bonitas a tombar pelas paredes. E as ruas calcetadas misturado com as casas medievais, Bayeux também tem, é certo, mas é só umas quatro os cinco ruas mesmo no centro. Em Bruges, TODA a santa cidade é assim. Uma vez passámos numa rua alcatroada e eu notei a diferença porque aquilo destoava... Portanto, o impossível aconteceu e eu achei uma cidade mais bela do que Amsterdão.


É muito mais pequena, há que ser justa, e não tem um quarto da vivacidade e dinâmica de Amsterdão. Mas por isso mesmo tem uma aura de cidade de conto-de-fadas que eu nunca vi em lado nenhum.  

Eu não queria viver ali. É uma cidade calma demais e a perfeição enjoa. Fica para lavar a vista em passeios.

Por falar em passeios, escolhemos mesmo o primeiro dia do meu último ano como "jovem" segundo os transportes belgas, para comprarmos o Go Pass. É um passe de dez viagens, para ser usado entre quaisquer estações belgas, por quantas pessoas quiserem, e onde somos nós que escrevemos a data e o percurso feito. É um desconto extremamente catita que eles dão aos jovens para aproveitarem a sua juventude a viajar por esse país e Europa fora (o Eurostar e os comboios no UK também têm estes descontos para menores de 26). Não percebo bem o critério do número "26" (porque não 25? ou 21?) mas pretendo aproveitar ao máximo o meu último ano de descontos no que aos comboios diz respeito.

Por falar em último ano de descontos, ao contrário de anos anteriores, que ou não me disseram muito ou tive até mini-pânicos nas horas anteriores, estou a gostar muito de ter 25 anos. É uma idade muito a meio-caminho, mas por isso dá-me sensação de equilíbrio, gosto de estar a meio-caminho. Não me vou meter a fazer balanços - as únicas medidas que tenho são para projetar - mas estou satisfeita com a minha vida por isso os 25 não me trouxeram crises de identidade. Correção: não é satisfeita, contente com o rumo, tenho tanta, mas tanta coisa para concretizar que não podia nunca estar satisfeita. 

30, bring it on.



S.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Edimburgo merece muito mais que a referência a um chá de whisky

"Edinburgh is a mad god's dream, fitful and dark". Era assim que começava um dos poemas gravados no muro do novo parlamento escocês. Um de muitos, uns em inglês, outros em gaélico, mas que ficou comigo porque é uma ode à atmosfera mágica, meio impenetrável e milenar desta cidade que, para mim, is the loveliest in the world. 

Não tem a beleza óbvia e por vezes irritante de Amesterdão, nem o rigor, limpeza e ordem germânicos de Estrasburgo; ao invés, é uma cidade escura devido à pedra uniformemente acastanhada, gasta e poluída pelos séculos, com que os seus edifícios são invariavelmente construídos. É escura, mas sem nunca ser sombria. Edimburgo é uma cidade sinuosa, de altos e baixos, de becos e ruelas muito estreitas, mas nunca é duvidosa, assustadora, suspeita. Não há um graffitti nas suas paredes, não obstante a fama estereotipada dos escoceses para a, er... selvajaria. É uma cidade segura, com uma qualidade de vida extremamente invejável não obstante o tempo que faz.

O tempo que fez a semana passada foi extraordinariamente benevolente para connosco. O sol brilhou, durante muitas horas, muito frequentemente, e a chuva manteve-se ao largo. Vi o azul do céu escocês, vi o dia nascer às quatro da manhã e fechar-se às onze da noite. Andei na rua às dez da noite não vendo vivalma, estranhando a ausência de gente e de lojas e cafés abertos, porque a luz do dia dizia-me, enganosa, que eram cinco da tarde. A frase que mais ouvi repetida das bocas dos locais foi "It's hot, isn't it?" porque claramente 18 ou 19 graus no final de maio equivale a vaga de calor na Escócia. Eu encolhia os ombros, sem dizer nada, porque claramente as perceções de calor variam muito na Europa e, francamente, deviam ver o que são 35 graus em Lisboa para conhecerem o calor!

Ganhei um respeito e sobretudo um carinho muito grande pelo povo escocês. Consigo agora entender e distinguir a sua individualidade que me tinha largamente escapado das primeiras vezes que visitei a Escócia de fugida. Os elementos que fazem a minha consciência acenar que sim, que estou no UK, estão lá - a tomada tripla, os carros em contramão, as distâncias em milhas, o volante do lado direito, o semáforo que acende laranja antes de acender verde, os Neros, as Debenhams, Primarks, Marks & Spencer, Tescos, HVMs, o omnipresente inglês, os autocarros de primeiro andar, o dinheiro esquisito, os Look Lefts no alcatrão, a chaleira no quarto de hotel, o omnipresente chá com leite, tudo grita "UK". Mas isso é para quem olha uma vez. Quem olha a segunda, a terceira, a décima, dá-se conta de um laivo muito forte, secular, cultural, subtil mas invariável, de qualquer coisa que não existe em mais lado nenhum. Primeiro são as bandeiras azuis de cruz branca. que marcam presença nas montras de pubs, em edifícios administrativos, em hotéis. Não como que a marcar uma posição desafiante, nacionalista, com cheiro artificial, mas sim a constatação de um facto. A Escócia existe de facto, os escoceses são um povo, têm uma história própria, verdadeira, distinguível dos ingleses. Mas a bandeira desfraldada no topo do Castelo de Edimburgo é a Union Jack...

Uma colega e amiga revelou-me que os escoceses têm uma mentalidade política profundamente diferente dos ingleses. Bem mais comunitária, mais socialista, mais complacente. Ela disse "We want to succeed, of course, but we want to bring everyone along with us." E isto, afirmou, é algo que os seus amigos ingleses simplesmente não entendem. Sim. Não obstante ter sido a terra natal de um pai do pensamento económico liberal (o que muitos protestariam ser um eufemismo para capitalismo selvagem), Adam Smith, a Escócia é muito mais esquerdista que o resto do UK. O partido trabalhista obtém as suas maiorias parlamentares graças aos deputados escoceses, o partido conservador é fraco da muralha de Adriano para cima e a palavra Thatcher é quase uma asneira nas Highlands. O UKIP, esse partido profundamente anti-Europa, assustadoramente anti-imigração e ridicularmente populista como só quem nunca governou pode ser, não consegue ganhar raízes na Escócia como o está alarmamente a conseguir em Inglaterra. No outro dia - e eu juro que queria ter feito um post sobre isto porque me ri tanto e bati tantas palmas sozinha como uma doida - o Nigel Farage foi a Edimburgo e foi corrido à sapatada de um pub porque o empregado atrás do balcão simplesmente se recusou a servir gente da laia dele. E depois o Farage queria vomitar mais um bocadinho de scaremongering numa conferência qualquer e não conseguiu porque os protestos foram tantos que ele teve que, literalmente, fugir a correr. Diziam os protestantes que não queriam escumalha fascista e homofóbica na cidade deles. O Farage, fulo da vida, lá tentou obrigar o Primeiro-Ministro escocês a condenar os protestos,  numa tentativa demasiado falhada de ligar protestos legítimos de quem não tem paciência para gente que gosta de espalhar o ódio e o racismo, à causa nacionalista, mas foi em vão. O Alex Salmond levantou-lhe uma sobrancelha e basicamente disse que cada um tem o que merece. E que não fosse criança e fosse aprender a argumentar, em vez de espalhar ódio sobre os nacionalistas escoceses. 

A Escócia, ao contrário de Inglaterra, tem uma ligação profunda com o Continente. Gosta dos europeus continentais, percebe a ideia de Europa, sabe o que isso é, sente-se parte. Dizem eles que os escoceses passaram a sua história toda a aliar-se ora com os franceses, ora com os espanhóis contra os vizinhos do sul, e que, uns séculos mais tarde enquanto Londres franzia o sobrolho ora à França, ora à jovem Alemanha e tentava equilibrar a balança europeia, os escoceses mantinham trocas comerciais com o Continente, negociando, trocando, vendendo, comprando, com os primos europeus. Na Europa, a Escócia vê uma oportunidade de ter uma voz, de escapar aos laços que a estreitam e regem em Westminster. Percebi, também, e claro como o dia, que a situação de meia autonomia, meia pertença em relação ao UK - a chamada devolution - não é nada mais que uma transição. Entendo que a independência seja o único passo lógico na luta por uma cada vez maior devolução de poderes. Porque é disso que se trata, devolução. A Escócia foi um país durante séculos, tem uma cultura política diferente da Inglaterra, há uma grande vontade de voltar a ser soberana. Dentro da família europeia, em parceria com a Commonwealth. É uma vontade transversal a tudo o que eu vi, senti, ouvi na Escócia, ainda que não seja unânime. O referendo de 2014 vai ser extremamente antecipado por esta outsider.  

Neste momento, Edimburgo está metade em Westminster. A justiça é gerida pela Escócia em Edimburgo, são os membros do parlamento escocês quem dita as leis do sistema penal da terra. Mas nas reuniões de ministros em Bruxelas, quem se senta à mesa é o Ministro da Justiça britânico, quem dá sugestões para a política europeia, quem decide, quem veta ou aprova legislação europeia, que será depois vinculativa em todas as partes do UK, mesmo nas que ele, nacionalmente, não decide nada. Porque é o UK que é país, estado-membro, não a Escócia. Muita especulação já houve também sobre a pertença da Escócia à UE caso se torne independente: entrada automática ou fase de adesão? Obrigada a adotar o euro eventualmente ou pode manter-se na libra? Os novos cidadãos escoceses perdem o direito a movimentar-se livremente pela Europa e só o ganham quando a Escócia voltar a pertencer à UE? Mas pode a UE retirar-lhes um direito, o de livre circulação, apenas por terem eles exercido o seu direito democrático de votar para a independência? Tanta pergunta sem resposta por não haver precedente. 

Sente-se o peso da História nas pedras da calçada das ruas de Edimburgo. E nas casas, seculares e com o mesmo traçado característico desde o centro aos subúrbios mais longínquos. Evidência de uma cidade que escapou às guerras devastadoras do Continente no século passado. Não se encontra uma capital tão medieval e sistematicamente preservada e autêntica na Europa continental. Acasos felizes que não são só acasos mas consequências de uma geografia muito periférica. Uma geografia que, para além disso, se caracteriza por ter mar à volta. Ser ilha e impossível de invadir a pé e a cavalo, basicamente. Apenas o Parlamento escocês destoa, um edifício moderno, sinuoso, e que consta que sem um único ângulo reto na sua arquitetura. Estranho mamarracho que suscita ódios e amores nos corações escoceses. (Mas eu diria mais ódios.)   

Por falar em ilha, vi novamente e por uma série de acasos muito felizes - estar sentada à janela, ter olhado na altura certa e estar um céu limpo - como a Grã-Bretanha é tão "já ali". É mesmo. Quando se vem do norte e estamos a sobrevoar a costa britânica, surge o mar e logo a seguir o Continente. Abarca-se ambas porções de terra no mesmo olhar, com uma língua de mar que parece ínfima da janela de um avião. É maravilhoso.

Quero muito lá voltar. 




S.    

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Scotland, you're doing it wrong



Chá com sabor a whisky?! Oh, mãe do céu. O aeroporto de Edimburgo tem as coisas mais estranhas. Primeiro o man-washer, agora um chá alcoólico. Isto é que é gente que gosta de beber. Tudo. E, de preferência, ao mesmo tempo.



S.

domingo, 24 de março de 2013

Guia para uma viagem de sonho à Escócia

Há vários anos que uma das minhas viagens de sonho é ir à Escócia. Este ano, e por uma agradável coincidência, tive que me deslocar várias vezes a esta região em trabalho. Fiquei maravilhada com Edimburgo, que em nada desapontou e cuja aura de mistério e magia me lançaram num remoinho de lembranças de leituras passadas, visitei Glasgow várias vezes mas um bocado de fugida, e vi da janela minúscula de um avião as montanhas, os lagos e o verde que povoam a imaginação quando se pensa em Escócia.

No entanto, a minha viagem de sonho é muito mais do que isto. Quero conhecer esta parte do UK de uma ponta a outra, quero ir a Inverness, a Aberdeen, à Ilha de Skye, visitar os castelos assombrados, caminhar à beira dos lochs, andar no comboio que diz que tem as melhores vistas daquele campo, palmilhar aquilo de uma ponta à outra. Só assim arrumarei a Escócia no compartimento mental dos sonhos realizados.



Entretanto vou-me apercebendo que aquilo tem mesmo uma identidade própria e singular, diferente de (pelo menos) Londres e arredores, ainda que não sinta que estou noutro lado que não o UK. É complicado, para uma pessoa de fora, entender completamente os meandros da identidade de um povo, e por isso é sempre muito interessante quando se tem oportunidade de falar com insiders. Para além de uma ou outra conversa que já tive com o boss - que por acaso é escocês - tive no outro dia uma conversa curiosa com um senhor em Glasgow, que dizia que se irritava quando as pessoas diziam que o seu inglês era muito bom; "Eu não falo inglês", dizia ele, "Falo escocês, o que não é de todo a mesma coisa". Eu não concordo, inglês é a língua, o que há são depois as variantes. Ninguém diz que fala americano, assim como não se diz que se fala brasileiro; o que existe é o inglês escocês, o inglês indiano, o inglês irlandês, e por aí fora. Português europeu e português do Brasil. Mas não deixa de ser extremamente interessante a veemência com que o senhor disse aquilo, e a forma como ele diferencia a língua que fala, da língua que falam grande parte dos seus concidadãos. Durante a licenciatura, quando fiz o minor em Estudos Ingleses, um dos livros de leitura versava precisamente sobre a identidade dos vários povos das ilhas britânicas. Fascinou-me - e continua a fascinar-me - a complexidade das identidades nacionais dos quatro países. O que é ser britânico? E o que é ser inglês, escocês, welsh? Que um escocês não é inglês mas é britânico (ou pode nem se sentir tal). Mas que um inglês entende Englishness e Britishness como sendo a mesma coisa, e que por vezes um escocês se identifica mais como europeu do que como britânico. Fascina-me profundamente, isto das identidades nacionais. Se não tivesse seguido pela via do género, na minha dissertação, tenho a certeza que teria enveredado por aqui. O referendo para perguntar aos escoceses se querem uma Escócia independente já tem data marcada para setembro de 2014, e eu mal posso esperar pelo resultado. Seria algo inédito nos nossos dias, e, caso vença o "sim", muitas questões ficariam em aberto: Teria a Escócia que se candidatar novamente à UE? Manteria a libra esterlina? Como seria o estatuto dos seus cidadãos? Teriam que pedir visto para visitar outro país europeu? Desatará a abrir embaixadas escocesas pelo mundo fora? É incrivelmente interessante porque abriria um precedente nesta Europa cujas regiões querem mais e mais autonomia: a Catalunha, o Norte de Itália, o País Basco, a Bretanha, a Flandres, a Irlanda do Norte...

Mas divago. Eu queria era vir para aqui sonhar um bocadinho e não meter-me numa discussão sobre nacionalidades.

Dizia eu que a minha viagem de sonho à Escócia é muito mais do que Edimburgo ou Glasgow. Há outra parte crucial, para além de a palmilhar de uma ponta à outra, que é o meio para lá chegar: obrigatoriamente partindo de King's Cross de comboio, atravessando Inglaterra toda até à região nortenha do UK. Para vislumbrar o campo inglês, uma ou outra aldeia lá ao fundo, e ver a paisagem a mudar de forma.

Esta semana, foi mesmo isso que aconteceu. Não parti de King's Cross mas de London Euston (uma vez que para Edimburgo é que eles partem de KC e eu fui para Glasgow) e a atenção à paisagem foi reduzida uma vez que ia a trabalhar (benditos comboios com wi-fi) mas deu sem dúvida para maravilhar os sentidos e espicaçar a curiosidade. Se eu pensava que tal viagem me iria apaziguar o desejo de conhecer a Escócia, enganei-me profundamente; se há coisa que fez foi tornar mais obsessiva esta vontade. 

A viagem dura cinco horas e, a cerca de hora e meia do fim, as planícies verdes inglesas começam a dar lugar a um outro tipo de paisagem bem diferente:





Olhei para o lado e até me assustei com o que passava do outro lado da janela: montes imensos, arredondados e verdes, florestas e vales, pelos quais o comboio passava, indiferente e seguindo o seu curso. Começou-me a dar um bocado de raiva por a máquina fotográfica (ou vulgo telemóvel) não estar à altura para captar a beleza do que os meus olhos viam; e convenhamos que a janela de um comboio em movimento não ajuda. Às tantas desisti e decidi apoiar-me apenas nos olhos e na memória para guardar estas vistas.

Quando parámos em Carlisle e eu vi escrito por debaixo da placa da estação a expressão "Lake District" é que me ocorreu que aquilo ainda não era a Escócia mas sim uma região que já tinha ouvido falar por alto, pautada por lagos (pois), florestas e de grande beleza natural. 

E foi então que a minha lista de "sítios a visitar antes de morrer" adquiriu mais um nome. No fundo, no fundo, o que eu quero é palmilhar o Reino Unido de uma ponta à outra, que aquilo tem tanto sítio para visitar, tanto castelo, manor, palácio, aldeia, vila e parque natural que uma vida inteira não chegava para conhecer como deve ser.

Entretanto comecei a chegar à Escócia. Uma vez que as linhas férreas não têm placas de indicação, como é que eu descobri? Muito simples:








Neve!

Quilómetros e quilómetros de manto branco a tapar aquelas montanhas e aqueles campos, que desconfio tenham outro encanto quando a neve derrete. Mas assim, de uma perspetiva quentinha e confortável, me pareceram muito bonitos na mesma. 

Ainda embriagada pelo que tinha visto na viagem, surripiei da receção do hotel uns três ou quatro panfletos de excursões pela Escócia. Só para me darem umas ideias... Entre eles havia uma revista grátis totalmente devotada a roteiros a pé pela região. Páginas e páginas com percursos de vários quilómetros, com respetivos mapas, distâncias e fotos do que se pode ver em cada um. Fiquei pasmada com a devoção que aquele povo parece ter pelas paisagens incrivelmente belas com que a natureza os brindou. De notar que este é um país onde em meados de março apanhei neve e ventos gelados, e onde no inverno anoitece às três da tarde. E não é plano, de todo. Nada convidativo a atividades exteriores, portanto. 

No meio da coleção, encontrei o que andava à procura: excursões de um, dois e três dias por sítios emblemáticos da Escócia. Ouro sobre azul: são excursões pequeninas, em carrinhas de 7/9 lugares, muito personalizadas e com guias apaixonados pelo que fazem. Desde a experiência na Normandia, onde fizemos uma destas excursões muito pessoais pelas praias e cemitérios de guerra, que acredito ser a melhor maneira de conhecer verdadeiramente uma região. Alugar um carro é aventureiro mas para quando se tem muito tempo e, arrisco, dinheiro. Há que contar com muito desvio, enganos no caminho, fails em aldeias ou vistas que não são assim tão bonitas porque na foto pareciam diferentes. Partir com um guia é ter a certeza do que se vai ver, de que vamos visitar o que há de mais bonito e historicamente relevante. E além disso, é completamente diferente acompanhar as vistas com relatos apaixonados e cheios de detalhes que só quem conhece pode dar. 

Trouxe o panfleto das excursões. O grupo chama-se Timberbush Tours e é exatamente o que pretendo no dia em que a roadtrip pela Escócia acontecer. Espantou-me os preços em conta (excursões de um dia inteiro por volta de £30 por pessoa) e a diversidade de percursos por onde escolher. Comecei logo a maquinar fazer dela a nossa escapatória deste verão, mas por mais que deseje esta viagem sei que não vou poder privar-me de verdadeiro calor e sol uma vez no ano e ir mais para o norte em vez de rumar ao sul. Este inverno extraordinariamente rigoroso não me deixa sentir bem em desperdiçar a semana estival anual numa viagem à Escócia. Cá ficará a marinar por mais uns aninhos. Entretanto, vou-me babando com as fotos do folheto.



S.


quarta-feira, 20 de março de 2013

Sexismo onde menos se espera

Entretanto, numa Boots algures em Edimburgo:



Manwasher.

Esta espécie de esfregão cinzento é nada mais nada menos que uma esponja especialmente desenhada e construída para homens. É uma esponja? Não, não, é um "manwasher".

What the fuck, pergunto eu. Quem foi a cabeça brilhante que achou que havia qualquer coisa de errado com uma esponja normal para que esta pudesse ser usada por homens? Mas porquê a diferenciação forçada? O que tem uma esponja de tão feminino que tenha havido alguém que se tenha lembrado que o que fazia falta era adaptar um esfregão ao banho, para os homens se sentirem mais confortáveis a lavar a pele.

Estou a imaginar o slogan: "Manwasher. Because using a sponge is too girly." É só a porcaria de uma esponja! Usa-se para esfregar a pele, algo comum a todos os seres humanos, tenham eles pipi ou pilinha.

De reparar na cor que foi escolhida, o cinzento, uma cor muito máscula, e naquela pega de plástico, para tornar todo o objeto o mais parecido possível com uma ferramenta de construção - isso sim, de homem - e o menos possível com uma esponja, essas coisas fofinhas usadas pelas gajas com todas as suas mariquices de beleza, tipo lavar a pele como deve ser, e o caraças.

A minha questão é: será que este objeto apareceu porque foi descoberto um nicho de mercado, ou seja, há homens que realmente têm vergonha de usar uma esponja porque esponjas são coisas de gaja, ou será que o produto surgiu e criou ele próprio uma necessidade que não existia? Se calhar depois de verem este manwasher num supermercado, há homens que passaram a ter vergonha de usar uma esponja normal, porque claramente são femininas e não sabiam, porque, oh, aqui está a prova*.

O mundo do marketing e da publicidade é um poço de inspiração para a luta feminista e eu só agora me apercebi.



S.

* No fundo esta é a questão de base do feminismo: saber o que são as diferenças intrínsecas e as que são construídas por influências externas. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Haggis a quanto obrigas

Embora seja muito picuinhas com a comida e a bebida, demore a habituar a novos paladares e só agora me esteja a habituar aos legumes não cozinhados, gosto de provar novos pratos. Lendo muito atentamente as descrições dos ingredientes que contém e fazendo cálculos mentais complexos no sentido de apurar a probabilidade de aquela nova comida ser satisfatória às minhas papilas gustativas, consigo aventurar-me por sabores diferentes.

Claro que a Escócia não tem paladares fundamentalmente diferentes do que uma portuguesa está habituada. Há carne, há. Há batata frita, há. Há puré, há. Há legumes cozidos, há. Daí que a probabilidade de eu gostar do que provaria já era à partida de 50%.

Só havia um prato escocês que me saltava à memória como especificamente tradicional: o haggis. O que eu já tinha ouvido por alto e os bleurcs quase instantâneos ao proferir da palavra "haggis" não me deixaram muito confiante. Tinha ideia que aquilo era uma espécie de iscas, fígado de porco ou vaca ou assim misturado com mais qualquer coisa. Quando a fome apertou e após várias horas de andar de um lado para o outro, decidi entrar num pub e espreitar o menú. Li a tal descrição detalhada e pensei: "tem puré, quão mau pode ser isto? Se não gostar como a batata, pronto". Nervosita, esperei que me trouxessem um prato de iscas a fumegar. Qual não foi o meu espanto quando me trouxeram isto:



Não estava à espera de gostar. Tanto. Esperava tolerar, ir comendo e não aguentar mais o sabor estranho/nojento, mas nunca pensei gostar mesmo. Ou isso ou estava mesmo com muita fome. De qualquer forma, aquilo era-me familiar. Sabia a sheperd's pie, um prato que comi várias vezes em terras da rainha e que é muito parecido com o vulgo empadão.

Dito isto, fico contente por não ter lido antes de comer a descrição de haggis que a wikipédia apresenta: "Haggis is a savoury pudding containing sheep's pluck (heart, liver and lungs); minced with onion, oatmeal, suet, spices, and salt, mixed with stock, and traditionally encased in the animal's stomach and simmered for approximately three hours."

Coração, fígado e pulmão de ovelha?? Cebola?? Suet?? (não sei o que é e temo ir procurar...) Fechado dentro do estômago da ovelha??? 

... Pensando bem não é muito pior que chouriço.

No dia seguinte foi a vez de uma ale pie. Mais uma vez, a presença de puré deu-me coragem para provar. O facto de ser uma espécie de empada alegrou-me a vista e o paladar pois fez-me lembrar as adoradas cornish pasties, empadas maravilhosas que funcionam ótimamente como fast food alternativa. A ale pie tinha carne picada por dentro, muito saborosa. Com o molho aconteceu o que é normal: provo, é satisfatório ainda que diferente, e depois acaba-se a embalagem a meio porque aquilo começa a ficar desagradável. Acho que é ali que entra o ale. Porque aquele molho sabia ao cheiro dos pubs. Ainda bem que vinha separado.



Ainda provei uma sopa que era um cruzamento entre peixe e tomate, muito espessa e saborosa, mas que não teve direito a fotografia. Acho que é o que eles chamam o broth, um caldo que parece que tem pão lá dentro.

Não provei whisky mas isso dispenso. Provei chá mas não foi nada de especial (cada vez mais difícil de contentar neste campo).



S. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Edimburgo a meia luz

Desta vez não comprei chá.

Perdi um bocado a cabeça nas lojas de tecidos tartan, cachemira, lã pura e trouxe mais roupa aos quadrados do que é sensato mas não me arrependo - e só não trouxe mantas e ponchos porque ainda assim só levei uma mochila e eu não tenho dotes mágicos para a fazer alargar.

Por falar em dotes mágicos: Edimburgo, hã... Sim senhora, Rowling. Bem escolhido o sítio. Nunca tinha eu visitado uma cidade que me relembrasse a toda a hora aquele universo mágico. As ruas de calçada, os edifícios de pedra escura, mais o anoitecer típico de inverno às 16h, somado à palidez do céu e ao cinzento das nuvens que normalmente o cobrem (ontem aprendi que os escoceses tem mesmo uma expressão para esse tempo: Scottish dreich) fazem com que não seja mesmo nada difícil imaginar que por detrás daquelas portas de madeira preta vivem confortavelmente feiticeiros que usam cloaks de lã e compram ingredientes para poções na loja da esquina. É a estranheza de entrar num Starbucks que mais parece um Leaky Cauldron, ou numa Topshop que lembra o Gringotts.





Edimburgo é uma cidade de elevações, colinas e o dominante castelo no topo de uma delas. Por vezes, e inesperadamente, vê-se o mar lá ao fundo, relembrando que esta é uma cidade costeira. Não o fiz, mas tenho a certeza que se tivesse subido ao castelo, teria deleitado a vista com a paisagem circundante. E daí talvez não, que o dreich escocês não é muito dado a vistas panorâmicas.


A sensação é de vila, não de cidade, mas uma vila com todas as lojas, serviços e museus (visitei o National Gallery - grátis, claro) que despoletam o estupidamente familiar sentimento de coração quente sempre que estou em território britânico. Aqui, o gaélico não é muito usado e por isso mesmo, aliado à minha curta estadia e não obstante as conhecidas pretensões de país, não senti estar num sítio fundamentalmente diferente do resto do UK. Daqui a ano e meio o referendo ditará se tal continuará assim...

Desta vez não trouxe chá e o arrependimento continua a moer-me a consciência. 



S. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Gaitas-de-foles e salsichas

Assim num instantinho e muito de repente, fiquei a saber que dentro de uma semana vou concretizar duas viagens de sonho.

Agora fiquei com um bocadinho de vergonha de dizer quais são, sob pena de quem me lê ficar a pensar que os meus sonhos são bem modestos, eu que sou uma valente defensora do aim high e blá blá blá, mas odeio o calor de fazer vómitos e a Europa é neste momento o que me faz cócegas na curiosidade, não tenho viagens de sonho fora daqui...

Bom.

A primeira será Frankfurt. Há alguns anos que ando com uma vontade imensa de visitar a Alemanha. Sei que é tudo menos um sítio popular neste momento, mas sinto que a Alemanha é neste momento um grande buraco negro no meu conhecimento da minha casa europeia e na minha construção identitária do que é ser europeu. E eu gosto de ser do contra, por isso é quando ela é menos popular que me dá mais vontade de a conhecer, um bocado como quando embirrei com o Avatar porque toda a gente viu e dizia que era maravilhoso e por isso mesmo não o fui ver. 

Não sei como ainda não calhou, já que estive muito perto de pisar solo germânico várias vezes: Estrasburgo ficava a uns 10 km da fronteira (de qualquer forma, aquilo é mais germânico que gálico); depois, a conferência de Passau em setembro, que estive a ansiar desde o início do ano mas que acabei por não poder ir por calhar mesmo na minha primeira semana de trabalho (pedir férias antes de começar a trabalhar se calhar não fica muito bem...). Além disso, Bruxelas fica a uma hora e meia de comboio de Colónia e de meia dúzia de outras cidades alemãs, de maneira que o espectro da possibilidade de uma viagem à Alemanha há vários meses que paira por aí.

Calhou agora, e será apenas um cheirinho. Ida e volta no mesmo dia não deixa muito tempo para cirandar mas confio que a minha estreia germânica será interessante de qualquer forma. E farei tudo para lhe tirar o melhor partido. Além disso, consta que Frankfurt não é aqueeela beleza arquitetónica, por isso uma voltita chegará.



Uns dias depois será Edinburgh. Esta está-me encravada desde que vivia em Londres. Planos foram feitos para lá ir, várias vezes, mas nove meses não é assim tanto tempo e a minha vida não é só passear. Abandonei solo britânico com a sensação de missão não-cumprida, de um "não fui à Escócia" que me continuou a moer a cabeça irritantemente. Designei todo um plano na minha cabeça sobre esta viagem que queria muito especial: partiria de Londres, de King's Cross, até Edinburgh ou Glasgow e visitaria a outra cidade porque as duas são pertinho. Depois, seguiria num daqueles comboios que fazem viagens cénicas pelas Highlands para ver as colinas verdejantes, daquele verde mesmo verde, os lochs cristalinos e os castelos fantasmagóricos e centenários. E ali deixaria a imaginação rolar e acredito que não seria nada difícil ter a miragem de um Hogwarts, de uma Forbidden Forest, de um Great Lake. Porque para mim Escócia tem o sabor a Harry Potter, mas também a druidas, a celtas, a palavras esquisitas gaélicas e a Alba.

Não será nada disto que irei fazer, não nesta estreia. Conhecerei apenas Edinburgh, mas diz quem o sabe que planar por cima das Terras Altas, de avião, é uma das melhores maneiras de ficar a conhecer as suas colinas verdejantes, os lochs cristalinos, e um ou outro castelo fantasmagórico. E que Edinburgh tem o suficiente para me entreter na minha curta estadia. 



Fiquei profundamente aliviada por não ter que fazer escala em Londres, seja de avião seja de comboio. A minha sanidade mental agradece, já que Londres está a chatear-me que a visite há meses - desde que a vi da última vez, em janeiro - sempre a ser relegada para segundo plano e cada vez mais furiosa com o facto. Estar lá e não ter tempo de sair da estação/aeroporto é tudo o que eu não preciso neste momento - já basta viver a duas horas de comboio da senhora cidade e ainda não lá ter ido.

Estou portanto um bocado surpresa mas muito entusiasmada com o que me calhou na rifa do Destino próximo. Entretanto, há que pensar insistentemente se há algo que eu precise do território britânico, e qual seria a melhor lembrança para trazer de terras germânicas. Em último caso, as memórias serão mais do que suficientes.



S.