terça-feira, 27 de março de 2012

O motoqueiro ateísta

Para quebrar o meu ciclo de conferências/reuniões/pesquisa/trabalho sobre temas relacionados com igualdade de género, lá fui eu hoje assistir a uma reunião sobre separação entre Estado (neste caso, União Europeia) e religião. O vulgo secularismo.

Chego lá, sento-me, fico sossegadita à espera que o resto das pessoas entrem e que aquilo comece. Entrei no meu modo "observação-piloto". E que gente interessante que começou a chegar: ele foi um padre, um - suspeito eu - rabi, entre outros. Mas foi quando entrou um senhor de meia-idade com aspeto de motoqueiro e uma t-shirt preta a dizer ATHEIST que os meus olhos se arregalaram e eu pensei "Ui, isto promete".

Basicamente aquilo foi uma conferência organizada pela Plataforma Europeia pelo Secularismo, constituída por gente muito diversa (ateístas, católicos, judeus, humanistas) que queriam certificar-se que o novo Presidente do Parlamento Europeu vai dar a mesma atenção a todas estas organizações sem favorecer religiões que têm um aparelho administrativo dantesco, como é o caso da Igreja Católica.

Foi um bocado fraquinho. Não houve grande debate nem posições corajosas, sinceramente o falatório do Presidente desiludiu-me e foi um bocado para o diluído e confuso. Se não tivesse sido a intervenção do senhor motoqueiro ateísta no final a exigir uma revisão dos tratados para impedir as organizações religiosas de contactarem com a UE não sei como tinha aguentado o aborrecimento.

P.S. O Arcebispo de Canterbury tem um representante em Bruxelas. !!!






Coisas Com Que Me Deparei Na Minha Demanda Por Imagens Que Ilustrassem Este Post





 



S.

2 comentários:

  1. Uma das sugestões no seu post do chá era este post ateu. Muito bom, espero que faça mais posts ateus!
    Mas não percebo porque é que o Blogger acha que uma pessoa que goste do post do chá poderá também gostar de um post ateu... lol
    Mas não é que acertou? :P

    Que pena eu não ter participado.
    Gostava de perguntar ao Presidente do Parlamento Europeu Martin Schulz porque é que no século XXI ainda é permitida na Europa a burla religiosa (alguém que me diga que não é burla prometer a vida eterna e a ressureição dos mortos, por exemplo, ao mesmo tempo que se recolhe dinheiro ou se cobram dízimos).

    Gostava ainda de perguntar porque é que as igrejas não pagam impostos enquanto o povo é esmagado pelo fisco.

    E gostava de perguntar, meio a sério meio a brincar, como é que o Vaticano, que baseia a ideia do seu Estado na existência de um ser que tem infernos algures onde pecadores são torturados após a morte e por toda a eternidade, ou seja, um deus que domina pelo terror, como é que o Vaticano que subscreve a tortura das almas, e mantém os seus fiéis através da ideia de "pecado", não está na lista de Estados terroristas?

    E para quando um Joaquim António de Aguiar europeu, que proponha uma diretiva europeia mais ou menos assim:

    "Senhor: Está hoje extinto o prejuízo que durou séculos, de que a existência das Ordens Regulares é indispensável à Religião Católica e útil ao Estado, e a opinião dominante é que a Religião nada lucra com elas, e que a sua conservação não é compatível com a civilização e luzes do século, e com a organização política que convém aos povos"."

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Extin%C3%A7%C3%A3o_das_ordens_religiosas

    Para finalizar, gostava de perguntar quando é que a União Europeia, tão preocupada com os direitos humanos, impõe sanções económicas aos países muçulmanos que tratam as mulheres como animais cuja posse pertence aos homens da família. Sim, quando é que a União Europeia enfrenta corajosamente o Islão e a sua Sharia criminosa? Ou os "direitos humnaos" só servem para importunar os ditadores africanos? Os "direitos humanos" não se aplicam ao Islão? E a igualdade de género só se aplica às mulheres europeias? Achará o Presidente do parlamento Europeu que as mulheres muçulmanas são animais, inferiores portanto às europeias?

    E gostaria de perguntar mais coisas mas para já seria isto.

    P.S.: Também sou "um senhor de meia-idade" e por acaso tenho carta de mota (já tive várias) mas iria de impecável fato e gravata, very british. Não sei, acho que ideias revolucionárias e fato e gravata são uma mistura desconcertante. :)

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  2. Just José,

    O laicismo, ou a falta dele, é uma coisa que me mexe com os nervos. Quase tanto como a igualdade de género, ou a falta dela. Quando se combinam as duas é particularmente grave.

    O relativismo cultural tem sido um valor que tem sido demasiado absoluto e muitas vezes levado ao extremo. Muito se desculpa em seu nome, particularmente a situação animalesca em que vivem as mulheres em vários países muçulmanos. Pense que só há muito pouco tempo é que se começou a falar contra a mutilação genital feminina; até há pouco era desculpável como uma prática cultural. Falar de uma possível proibição da burqa é ainda hoje altamente controverso também... Porque é que o valor liberdade religiosa tem que estar acima da igualdade entre géneros (não vejo homens a "escolherem" usar burqa)?

    Noutra nota, o poder implícito e de vez em quando explícito, que a Igreja Católica enquanto aparelho administrativo ainda tem na Europa é uma vergonha. Veja-se o que se passou em Portugal com a exigência da Igreja ao Governo de retirar 2 feriados civis se quisesse retirar 2 católicos. Escrevi sobre isso aqui: http://emterrasdarainha.blogspot.be/2011/11/pobres-papa-padres.html

    Enfim, muito mais haveria para dizer. De notar também que não são só os países muçulmanos aos quais a UE fecha os olhos nos abusos de direitos humanos, a China é outro exemplo gritante. Mas as sanções económicas podem nem sempre ser o instrumento mais eficaz.

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