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sábado, 3 de novembro de 2012

Comédia à francesa

Depois de muito debate e de muita hesitação, hoje decidimos ir ao cinema. Foi a primeira vez que o fizemos cá, e, como explanarei de seguida, não foi uma decisão fácil.

A ideia começou a pairar com mais intensidade quando estreou o novo Astérix. Dos poucos filmes que vimos em francês - e gostámos - seria sempre mais um que iríamos ver de qualquer forma. Decidimos que seria o filme ideal para nos estrearmos num cinema belga.

Várias coisas constituem um problema em ir ao cinema em Bruxelas. As que já sabíamos:

- som francês: o problema mais óbvio de todos. Nenhum dos dois entende francês tão bem que consiga acompanhar uma história do princípio ao fim, perceber todos os detalhes e piadas como se se tivesse a ver um filme em português ou inglês. Aqui há também a mania de dobrar os filmes americanos, e, ainda que se se procurar bem dê para encontrar versão original, não é fácil. 

- legenda neerlandesa: ah, legendas; as nossas melhores as amigas. NOT. Filme dobrado em francês com legenda em neerlandês é ouro sobre azul, sem dúvida. Não basta uma pessoa estar a esforçar-se para ouvir e perceber um filme numa língua à qual não está habituada a ter numa sala de cinema, como ainda quando aparece o guia visual da tradução, está numa língua ainda mais impercetível para dois pobres portugueses. Há que fazer um esforço consciente para ignorar o palavreado com que somos bombardeados na parte inferior do ecrã.

- o preço: cinema equivale a luxo nestes países do norte e uma pessoa chora internamente enquanto paga vinte euros por dois bilhetes. Ainda que já tenha pago 26 libras.

Foi por isso com um misto de ansiedade e excitação que entrámos hoje na sala de cinema e nos sentámos à espera dos trailers e do filme que sabíamos não poder esperar entender perfeitamente. Por entre risos combinámos que pelo menos isto era um filme de comédia, e portanto saberíamos que os pontos altos das piadas seria quando ouvíssemos gargalhadas do resto da sala, que era só imitar.

Chegaram os trailers e eu fiquei logo com uma dor de cabeça enorme. Uns eram em francês sem legendas, outros em inglês com legendas em francês, outros em francês com legendas em neerlandês. Um houve cujo som era italiano e portanto tinha legendas duplas em francês e neerlandês, a correr em simultâneo. Começou a apetecer-me bater com a cabeça no banco da frente. 

Depois começou o filme e começa-se a ouvir a versão original francesa. A legenda aparece e os olhos descem inconsciente e instintivamente para a ler, mas lá vem a linguagem dos flamengos e uma pessoa respira fundo enquanto se mentaliza que tem que se apoiar apenas nos ouvidos para entender o filme que aí vem.

É um bocadinho triste. Aquela gente fala muito rápido e se há variação de tom, como um murmúrio, lá vai o entendimento para o galheto. E depois começa tudo a rir na sala e nós não captámos a piada e olhamos um para o outro como que a perguntar "...Percebeste?...". Uma pessoa sente-se excluída. Mas ainda assim não foi tão mau. A comédia é uma faca de dois gumes nesta coisa da linguagem: por um lado as ações, sentimentos, etc são muito mais exagerados e portanto chega-se lá facilmente pela linguagem corporal dos atores, ainda que não pelas palavras exatas; por outro lado é feita de piadas e é permeável a trocadilhos, a que só se chega verdadeiramente se se entender a língua muito bem. Por isto mesmo conseguimos perceber muita coisa, definitivamente entendemos a história, apenas algumas cenas cómicas se perderam.

O sentido de humor destes filmes, cheio de nonsense e atravessado de anacronismos conscientes é um que eu prezo muito e muito bem-vindo por ser tão diferente do habitual hollywoodesco, e distinto também do humor britânico (se bem que este filme era sobre aventuras do Astérix na Grã-Bretanha por isso houve uma espécie de mix entre os dois e, claro, festa de estereótipos :D).

Fazía-nos bem ter TV local. É a conclusão que me ocorre tirar.





S. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A bolha eurocrata

Sempre que as pessoas perguntam o que é que eu faço no meu estágio aqui no Parlamento tenho alguma dificuldade em explicar em apenas duas ou três frases curtas. Acabo sempre por dizer "Então... Faço pesquisa relacionada com os direitos das mulheres na Europa." Normalmente as pessoas olham com um misto de admiração, estranheza e incredulidade: "O quê, direitos das mulheres?? Na Europa??". Um ou outro mais curioso persiste e eu então vejo-me à rasca para especificar sem entrar em detalhes infinitamente aborrecidos de como o Parlamento está dividido em comissões temáticas, como para além dessas comissões existem secretariados e departamentos de diferentes políticas, e ainda as famílias políticas que englobam diferentes partidos políticos nacionais.

Felizmente, há aí um grupo qualquer de géniozinhos brilhantes e mordazes em Bruxelas que decidiu resolver o meu problema e criar uma série a satirizar este mundo eurocrata que gira em torno das instituições europeias aqui na capital belga. 

E eu já chorei a rir (e as filmagens ainda nem começaram). Porque aquela porcaria é mesmo certeira.

O nome é EUROBUBBLE e pretende entrar no mundo das instituições da UE através da pele de várias personagens-tipo: o estagiário, o policy officer, o assistente do deputado europeu, o lobbyista, etc.

Neste momento encontram-se no processo de casting para preencher estas personagens, e por isso têm no website dedicado à série satírica uma descrição de cada personagem-tipo que pretendem figurar. Assim temos o policy officer, francês, entre os 25 e os 30 anos com um estágio na Embaixada do não-sei-quê e experiência numa consultoria; o Daniel, alemão, que trabalha numa consultoria para tentar conseguir um emprego na Eurobubble, sempre muito diligente, típico germânico; a Svetlana, rapariga eslovena que frequentou todos os cursos e mais algum, trabalha que se desunha, e é assistente de um eurodeputado. 

O trailer não revela muito - as descrições das personagens e situações é que dão para antever que aquilo vai ser de uma espirituosidade brilhante - mas aqui fica:


Para culminar em beleza, estes senhores produtores deram-se ao trabalho de compilar um gráfico que exemplifica de forma assustadoramente certeira em que consiste a vida de um típico estagiário das instituições europeias:



Para a próxima, quando me perguntarem em que consiste o meu trabalho, já vou saber que:

- 40% passo a drafting stuff
- 10% em Excel stuff
- 10% em random committee meetings
- 10% em complaining not having enough work

(E claro, a parte também importante do visiting cities)

Mas foi esta frase que me conquistou:

"As pessoas na Bolha usam 'Stagiaire' e outras palavras francesas aqui e ali para agradar aos franceses e para os fazer sentir que a língua deles ainda é utilizada, para os manter calados e para dar um certo toque exótico à Bolha. Charmant, não?"

Há o sério risco de eu perder a cabeça e ir participar nas filmagens desta coisa para pura diversão, pá...



S.