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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Valentim que se cuide

No One Billion Rising bruxelense deste ano estava muito menos gente do que no ano passado. A greve dos transportes e o facto de ser ao meio-dia não deve ter ajudado.
 
  
 
 
Mas, como se costuma dizer, erámos poucas mas boas :) . E fizémos muito barulho.
 
Ao princípio, como sempre, eu era a imagem perfeita da timidez. Sossegada, de chapéu de chuva na mão, a sondar o sítio e as pessoas presentes sem mexer o pé.
 
Mas depois uma senhora veio ter comigo e deu-me isto:
 
 
 
 
Um apito!
 
E a carnavaleira que há em mim - e que eu nem sabia que existia - acabou por manifestar-se em todo o seu esplendor.
 
Tirei o pé do chão, apitei muito, bati muitas palmas, sorri muito, e acabei por me divertir bastante, tal como no ano passado. Houve "I Will Survive", houve coreografia do One Billion Rising, houve comboínho daqueles extremamente divertidos que ninguém consegue deixar de participar de sorriso rasgado.
 
E pronto, foi isto. Agora estou aqui num café das redondezas, a ouvir Sara Tavares (!!! Música portuguesa em cafés bruxelenses rula muito), a trabalhar de chávena de chá na mão e com as antenas viradas para Lisboa, ansiosa para saber como vai correr o Lisbon V-Day.
 
Boas flash-mobs para logo.
 
 
 
 
S.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

As 6 sombras da persuasão e a Dança do Bilião

Andei alguns dias a remoer este post porque eu queria falar sobre isto, convencer mesmo alguém a ir, mas não sabia por onde começar. Por aqui vê-se logo que não tenho curso de marketing, publicidade ou comunicação, no geral. Fez-me falta conhecer as técnicas para convencer alguém. Não tenho jeito, não me é natural, e acabo por nunca ter paciência nem perserverança suficientes, mesmo em debates. O que é bastante infeliz numa pessoa que se intitula feminista, mas bom, cada um faz o que pode. Ainda assim, ocorreram-me várias maneiras de começar:

Persuasão através da instigação da culpa:

Ler e acenar com a cabeça que sim, coitadinhas, é muito fácil. Meter um like num post indignado, também. Partilhar uma notícia sobre o assunto no Facebook, apesar de envolver um nisquinho mais de compromisso, continua a ser 99,9% de conforto, 0,1% de eficácia. Levantar o rabo do sofá/carro/escritório ao fim de uma tarde de pleno inverno, já não é assim tão fácil. Por isso prova o quanto nos indigna, enoja e o quanto queremos ser parte da solução. Ide ao Lisboa V-Day, mulheres desse Portugal. E homens desse Portugal, ide por quem amam. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da responsabilidade moral:

É por uma causa nobre. Desejar que o flagelo da violência de género tenha fim. Eu sei que causas nobres há muitas, e nós somos e sentimo-nos pequeninos individualmente. Não temos a capacidade de fazer tudo o que é nobre, ou de lutar por tudo aquilo em que acreditamos. Mas isto afeta muita gente, demasiada gente, por todo o mundo. É pela segurança e bem-estar de potencialmente metade da população humana, pelo menos um terço dessa metade. Como ficar indiferente, se toca a tanta gente? Ide mostrar que não são indiferentes. Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da chantagem emocional:

É que é um bilião. Um terço de todas as mulheres do mundo. Uma em três. Isto significa que pelo menos uma mulher próxima de vós (mesmo se forem parcos nos sentimentos e anti-sociais como eu, entre irmã, mãe, avó, cara-metade, haverá sempre três. Se forem mulheres, como eu, podem mesmo ser vós) será agredida ou violada durante a vida. Isto está bem assim? Não vos causa horror, abjeção, sentimento de injustiça? Ide mostrar a vossa indignação. Ide ao Lisboa V-Day, mulheres desse Portugal. E homens desse Portugal, ide por quem amam. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através do testemunho pessoal:

O ano passado, quando a ideia do One Billion Rising surgiu, eu participei na minha primeira manifestação. Bichinho avesso às confusões, aos gritos, aos ajuntamentos e a pessoas a fazerem coisas estranhas, amante das ideias e teorias mas pouco afoito na ação, enfiei-me no meu casaco mais quente e saí para a rua, a temperatura a roçar o zero. Timidamente, encostei-me às colunas da praça a sondar aquela coisa estranha, em que centenas de mulheres e muitos homens cantavam e dançavam pelo fim da violência contra as mulheres no mundo. Acabei a tarde com o nariz a pingar mas com olhos brilhantes e um grande sorriso na cara (os olhos brilhantes podia ser do frio, mas bom, o sorriso não era). Foi a coisa mais sensacional que já fiz fora da minha zona de conforto. O que, tenho noção, não é dizer assiiim tanto. Também tenho a noção que se eu não tivesse lá estado não fazia falta, era só uma entre centenas. Mas se eu não tivesse estado lá, se a rapariga que dançava ao meu lado de sorriso rasgado não tivesse estado lá, se a mãe não tivesse levado a filha de 2/3 anos, se a octagenária que dançou até ao fim não tivesse estado lá, se calhar já começávamos a fazer falta. Pensem que fazem parte de um movimento de milhões, que a esse momento hão-de estar todos a dançar pelo mesmo objetivo. Tem que se começar por algum lado, não é? Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da perspetiva do divertimento:

É uma flash-mob, gente. Tem coreografia e não há muitas coisas tão fixes de se fazer a 500 como movimentos sincronizados. Ninguém vai saber de cor, haverá tempo para ir aprendendo. É libertador, primitivo mas profundamente libertador, e estupidamente divertido balançar o corpo ao ritmo de uma música sem outro propósito que não a diversão. Sem o propósito de agradar, de atrair, de convencer. Só aquele, de estar ali presente, com aquelas pessoas todas que defendem a mesma coisa. Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através do ataque ao cinismo:

"Eh, realmente o mundo há-de mudar assim, com danças. É a dançar nos vossos países riquinhos de primeiro mundo que se acaba com a violência sobre as mulheres no mundo, realmente." Duas respostas a isto, uma curta e outra longa:

Curta: Bardamerda. Cada um faz o que pode. Ao menos importo-me o suficiente para sair à rua por isto. 

Longa: Isto é um bocado como a história do Dia do Pai, Dia da Mãe, Dia da Mulher, não é? É quando se quiser, é todos os dias, blá blá blá, depois nunca é verdadeiramente. Pelo menos arranjou-se uma maneira, um dia, um evento, um ajuntamento, que faz com que as pessoas reflitam na coisa, se importem, e potencialmente que vão mudando a sua maneira de pensar sobre aquilo. Senão, bom, pelo menos um dia no ano lembrar-se-ão. Um em 365 já não é mau. Em relação à questão da dança, a ideia surgiu através da escritora Eve Ensler ("Monólogos da Vagina") depois de uma visita à República Democrática do Congo e de ter visto a forma como muitas mulheres tentavam curar a dor psicológica e emocional da violência. Há qualquer coisa de primordial na música, quase mágica, todos sabemos. Embalamos os bebés para os acalmar, não é? Cantamo-lhes canções de embalar. Dançamos como diversão. Não está assim tão deslocado o ato da intenção.

Vão, a sério. Mostrem que se importam, e divirtam-se pelo meio. Eu cá estarei em Bruxelas, a dançar também.

Lisboa V-Day AQUI.     






S.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A dança do bilião

Quando, há umas semanas, o D. me diz: "Dia 14 vou ver o Benfica a Leverkusen", a minha primeira reação foi "Está bem." Mas depois lembrei-me: "Espera lá, dia 14 é Dia dos..."





"A sério? Vais ao estádio no dia dos namorados? Numa saída de amigos? Quão cliché é isso, pá?"

Mas depois lembrei-me das minhas raízes feministas, e que mais cliché do que ir ver bola com os amigos no Dia dos Namorados é ser a namorada que fica aborrecida com isso, por isso esta foi a minha verdadeira reação:






Entretanto, andava a matutar sobre que iria fazer no Dia da Mulher que se aproxima. Há um ano, graças ao estágio no PE, estava em lugar privilegiado para assistir a todas as conferências e mais alguma sobre o tema. Precisamente no Dia da Mulher, tive a oportunidade de assistir a um debate muito interessante sobre a igualdade salarial entre homens e mulheres na UE. Por isso, e como sei que a as instituições europeias são devotas à igualdade de género, a primeira coisa que me ocorreu foi ir pesquisar o que o Parlamento Europeu tinha agendado para este ano.

Em caminho descobri a campanha do One Billion Rising. O título baseia-se na estimativa de que uma em cada três mulheres será, algures durante a sua vida, violentada, abusada ou violada.

Uma em três.

Isto traduzido em números dá 1 bilião. Não sei o que dá melhor compreensão da extensão do flagelo da violência contra as mulheres, se o número 1 bilião ou se a fração 1 em 3. Uma coisa é certa: são demasiadas.

Pelo que consegui saber, o Lóbi Europeu de Mulheres - aka o meu sonho de emprego - estava a organizar uma flashmob no dia 14 de fevereiro ao fim da tarde em Bruxelas como parte desta campanha mundial contra a violência contra as mulheres. Havia ensaios de coreografia e tudo, e todo um código de vestimenta para participar nessa mobilização.

Quatro coisas conspiraram para que eu considerasse que essa flashmob puderia ser o serão perfeito para o meu Dia de S. Valentim:

1. Estava de folga àquela hora naquele dia;

2. Assim como assim iria estar sozinha em casa sem nada de especial para fazer;

3. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa nesta cidade, porque só assim me consigo integrar;

4. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa no que diz respeito aos direitos das mulheres, porque só assim  consigo conhecer pessoas que partilham a minha visão e os meus interesses e os desenvolvo. A Beauvoir é boa companhia mas também preciso de conviver com gente viva.


Uma coisa conspirou para que a flashmob ao ar livre se tornasse uma má ideia:

1. O tempo.


Depois da hora do almoço começou a chover e no meu boletim meteorológico habitual até figurou um novo tipo de tempo: freezing rain. E que é freezing rain? Portanto, não é neve, não é chuva normal, também não é granizo... O que é? Pode-se sempre contar com Bruxelas para inovar no que aos códigos de meteorologia diz respeito. Comecei a temer que a chuva estragasse os meus planos de manifesto feminista.

Decidi ir. Está a chover, que se lixe. Se não fizer nada porque está a chover bem que posso ficar todos os dias em casa. E se está 1 grau, veste-se mais um casaco e siga.

Quando cheguei à Place Monnaie, o ponto de encontro da campanha e onde iria acontecer a dança, fiquei surpreendida com a quantidade de pessoas. Não estava à espera de ver a sala tão composta:




A minha postura demasiado auto-consciente e mais passiva do que gosto de admitir, levou-me a instintivamente procurar um lugar de observadora, e por isso fugi lá do meio e fui-me posicionar estrategicamente entre as colunas do edifício (também queria estar numa posição privilegiada para fotografar e filmar, confesso).

Entretanto, a música começa e o pessoal começa a coreografar:




Não conhecia os passos, mas a beleza das multidões é que se apanha o ritmo instintivamente, e começa a tornar-se impossível ter os pés quietos. Isso e o frio; não há nada como tirar o pé do chão para evitar que um membro nos caia, de dormente que está.

Foi muito inspirador. E superou as minhas expectativas. Não tanto pela música e pela flashmob propriamente dita, os pretextos para o ajuntamento e o grito de revolta, mas pelos pequenos detalhes que vi: as amigas que vieram juntas e que gritaram mais que todos os outros; os cartazes contra a violência; a mãe que levou a filha de um ano e que encorajava a bebé a dançar ao meu lado, e que foi bem sucedida (mais uma prova de que o ritmo de multidões a dançar é contagiante) e que me trouxe lágrimas aos olhos, porque sim senhora, de pequenino é que se torce o pepino, e assim é que é, educar a filha a ter orgulho em ser mulher, sem ser apenas no mais banal da aparência; na velhota de fartos caracóis loiros que entretanto apareceu lá no meio a bambolear e a curtir a música como as raparigas de 20 anos, e que me levou a um grito interno de "Quando eu for grande quero ser assim!"; os homens que apareceram e que se juntaram ao protesto, numa posição de respeito pelas mulheres da sua vida.

Entretanto a flashmob acabou, começou música para animar e aquecer o pessoal ("Vous êtes CHAUDS?" Então não estamos, senhora apresentadora...) e eu decidi sair do meu poleiro e ir mirar as barraquinhas com informação sobre a campanha. Uma senhora entregou-me isto:




Nada mais nada menos que um panfleto sobre aulas de defesa pessoal, defesa verbal, e grupos de auto-ajuda e aconselhamento sobre como as mulheres se podem sentir mais seguras. Quão bad ass, meu deus!

Isto fez-me lembrar um argumento que a Beauvoir faz n'O Segundo Sexo, sobre a relação entre a passividade a que são devotadas as mulheres e o seu sentimento de fragilidade e insegurança. Segundo ela, é necessário que as mulheres participem em atividades físicas, não lhes seja travado o impulso de subir às árvores em criança, de correr, de saltar, de puxar o limite dos seus corpos. Só experimentando o corpo, mexendo-se e raspando joelhos é que a mulher, tal como o homem, ganha consciência do que é capaz, e que as suas conquistas físicas e a boa relação com o seu corpo lhe dão a auto-estima necessária para dizer na sua vida: "Eu sou capaz" e a colocar-se a si própria objetivos mais altos. Eu vou desconfiando que ela tem razão.

Sem saber muito bem como nem porquê, dei por mim no meio da multidão, e a mexer o pé devagarinho. Passados cinco minutos era ver-me aos saltos como uma maluca, a dançar como raramente aproveito, e com um sentimento de irmandade a invadir-me os sentidos. Fala-se tanto da rivalidade entre mulheres, e como as amizades entre raparigas são sempre tão cheias de intrigas, e como é tão difícil trabalhar com mulheres porque são umas cabras umas para as outras, que foi mesmo bom sentir e presenciar a refutação desse mito: o que ali vi foi mulheres a partilharem a felicidade genuína e o sorriso fácil que vem da dança e do mexer o corpo sem qualquer propósito que não o da diversão: sem o propósito de agradar, sem o propósito de seduzir ou sequer rivalizar. Mexer ritmadamente e ao som de música dançante simplesmente porque é divertido.

Fiquei parva comigo mesma; estava a gostar genuinamente de estar ali a dançar!... De notar que eu fujo da discoteca e da noitada como o diabo da cruz. Fez-se mais uma vez a flashmob e eu entrei rapidamente na coreografia, no meio da multidão e sem qualquer preocupação no mundo.

A sessão de anti-self-consciousness fez-me definitivamente bem à alma.

Agora estou aqui sentada no sofá, no quentinho e no silêncio do lar, de pernas dormentes porque levaram dose puxada de abuso hoje - para além da caminhada habitual de commuting de uma hora, ainda me levaram até à Place Monnaie e aguentaram uma hora a pular como se não houvesse amanhã. Mas estou satisfeita, de sorriso nos lábios e com vontade de me envolver em mais coisas destas. Que venha o dia 8 de março!







S.