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sexta-feira, 6 de junho de 2014

E você, onde estava há 70 anos?

Nesta última semana, os canais belgas, franceses e britânicos andaram a emitir uma quantidade incrível de documentários, filmes e reportagens sobre o Dia D. Eu andei no sétimo céu.
 
Há cerca de 2 anos estivemos na Normandia numa espécie de viagem de romaria e de aprendizagem sobre o início da libertação da Europa ocidental do domínio Nazi. Não me lembro de alguma vez me ter sentido tão pequenina e tão cheia de gratidão. Pequenina pelos mares de cruzes naqueles cemitérios de guerra e tão cheia de gratidão pelas pessoas que arriscaram e deram a sua vida para que gerações futuras pudessem viver em liberdade.
 
Mas para além dos sentimentos esmagadores e de assombro, o desembarque na Normandia e o Dia-D em particular foram manobras estratégicas e de logística incrivelmente interessantes em si mesmos. E é isso que me continua a puxar para isto.
 
Como o exército completo de insufláveis que os ingleses criaram de forma extremamente realista e meticulosa em Dover, apelidado mais tarde de 'Ghost Army', só para que os alemães pensassem que o desembarque seria em Pas de Calais. (O que seria lógico por ser a parte mais próxima entre o continente e a Grã-Bretanha.)




Ou o facto de os Aliados, face à impossibilidade de tomar um porto francês na Normandia, terem decidido construir um no sul de Inglaterra, desmanchá-lo, transportá-lo por partes através do Canal da Mancha, e voltarem a montá-lo em Arromanches. Um porto. Não um barco, nem sequer um porta-aviões, nem um armazém. Um porto inteiro, do tamanho do porto de Dover e ao qual chamaram 'Mulberry Harbour'.




Igualmente incrível o facto de a armada que zarpou a 4 de junho de 1944 do sul de Inglaterra em direção à Normandia ter sido a maior armada que o mundo já viu.


E que 150 000 Aliados desembarcaram na Normandia em 24 horas.



Mas mesmo assim, dias depois do desembarque, o Hitler continuava convencido que aquilo era uma manobra de diversão e que a verdadeira invasão ainda estava para vir, em Calais como ele estava convencido (a des-informação que envolveu não só o exército de insufláveis, mas toda uma operação de dissimulação completa com especialistas cinematográficos para enganar os aviões alemães de recomhecimento, construção de barracões militares e barcos a zarparem para Calais ao mesmo tempo que os da Normandia, enviando sinais como se fossem muitos aos radares alemães.) Ainda assim, não sei quantos homens é que o Hitler achava que os Aliados estavam a esconder e onde, se o Dia-D (formalmente conhecido como Operação Overlord) foi a maior operação anfíbia que o mundo já havia visto.
 
Outra coisa espetacularmente previsível, mas ainda assim espetacular, foi o facto de a tal Operação Overlord estar originalmente marcada para o dia 5 de junho mas assim que zarpou da costa inglesa, no dia anterior, ter estalado uma tempestade terrível no Canal da Mancha. Não dá. É o líder militar a marcar as coisas para junho para ver se o verão ajuda na probabilidade de o tempo se portar bem e é esta zona climatericamente parva a furar-lhes os planos. Já o Napoleão foi assim que se lixou em Waterloo.
 
Finalmente, o facto mais trivial destes todos mas igualmente curioso: os franceses chamarem ao Dia-D: 'Jour-J'. Não sabia que a letra tinha tradução.




S.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Vergonha de ser europeia

Isto fala do caso UKiano mas a parte a negrito (minha) também se poderia aplicar ao caso português ou mesmo ao resto dos países europeus:



O post é do blog cyclingeurope.org.

Estava a sentir-me nauseada desde ontem à noite por causa do galope da extrema-direita na Europa, mas afinal eles correspondem a um décimo da população. É pena é que só esses se tenham ido expressar nas urnas e que agora partidos como o UKIP representem mais de um terço dos eleitores europeus. 

A ideia dos abstencionistas de que estão a protestar não indo votar, não compactuando com os partidos instituídos, é muito linda mas na prática resulta é nestas aberrações inflacionistas para os partidos de extrema-direita, os fearmongers desta vida.





Ainda assim Portugal não tem extrema-direita instituída, o que me permite hoje ter só vergonha de ser europeia, mas não de ser portuguesa.




S.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

"You're so dark but I want you hard"

Escrevo num comboio algures nas Midlands. Vou visitar a minha futura potencial casa.
 
Sinceramente ainda não sei ao certo qual foi a minha ideia em meter-me nesta viagem. Decerto que a beleza ou fealdade de uma cidade não deveriam ser critérios prioritários na escolha da universidade para se estudar. Mas a viagem foi pensada numa altura em que a angústia da escolha que brevemente terei que fazer estava a pesar especialmente e, por isso, cá estou eu. Sendo o resto igual, pode ser que a beleza seja um bom critério de desempate. E qualquer pretexto para voltar à Inglaterra é sempre bom.
 
Isto faz-me lembrar que amo comboios. Se pudesse não trabalhava a partir de casa, trabalhava a partir de comboios. Metia-me num comboio qualquer e, ala por essa Europa fora. Era capaz de sair um bocado caro, ao fim do mês, mas provavelmente nem tanto como alugar um escritório. E a vista móvel compensaria grandemente.
 
Ainda não tenho a certeza absoluta de que mudar-me para Inglaterra seja a melhor coisa a fazer. Tenho um fascínio enorme por este país, misturado com muito carinho, mas ele tem coisas que me irritam profundamente. A mania de que não é Europa é a maior. Seria extremamente irónico para uma europeia convicta vir estudar coisas europeias para um país que parece estar a descascar a sua europeanidade aos poucos. Se os Tories vencerem as eleições para o ano e no referendo de 2017 os britânicos abandonarem a UE, não sei como vou reconciliar as minhas duas paixões. Se a Escócia se for embora em setembro então seria o cúmulo. A Inglaterra a resvalar cada vez mais para a periferia, cada vez mais isolada. Burros do caraças. O “orgulhosamente sós” não vos serviria, acreditem.
 
Viver em Bruxelas tem muitas desvantagens e eu nunca me cansei de as enumerar, muitas vezez com lamúria desnecessária. Mas se há coisa que soa incrivelmente a privilégio em viver nesta cidade é a centralidade. Não só por ser o centro político europeu e tudo o que isso gera, mas por estar no centro geográfico da Europa. Ter tanta cidade a uma hora de avião, ter mais ainda a duas, e ter umas consideráveis a duas horas de comboio, incluindo Londres, Paris e Amesterdão. É uma sortuda geográfica, a cidade.
 
A geografia influencia muito do resto, claro, incluindo história, fronteiras, mentalidade e relações. As fronteiras belgas não existem fisicamente há mais de 20 anos, como no resto da Europa, mas também não existem mentalmente. É tão fácil e tão perto ir ali a França, ir ali à Alemanha, ir ali ao Luxemburgo, ir ali à Holanda. Lembro-me de na viagem que fiz para Estrasburgo, uma rota quase reta para sul de comboio, ter tido que desativar as mensagens automáticas de roaming porque o meu telemóvel parecia um alarme, sempre a apitar com info “Chegou à Alemanha! Chamadas custam X, mensagens custam Y.”, “Chegou à França! Chamadas custam X, mensagens custam Y.”, e depois as fronteiras não são retas, enquanto a rota ferroviária é, por isso o comboio estava sempre a entrar e a sair desses dois países. A geografia está-se bem marimbando para as decisões humanas políticas e por isso aqui eu aprendi a fluidez das nações e senti-me sempre na Europa, onde quer que tenha ido. E isso foi mesmo fixe.
 
Por isso voltar à ilha será voltar à periferia, tanto geográfica como mental. E isso deixa-me um bocado desconfortável.
 
Voltar à Inglaterra é também um bocado triste por razões linguísticas. Vivendo no continente tem-se sempre a língua materna, a língua franca internacional e a língua do país hospedeiro com que lidar. E ainda que eu não tenha dado a atenção e cultivado o meu francês como seria suposto, e ir embora da Bélgica com a vergonha linguística que cabe a alguém que viveu aqui dois anos e meio e não consegue ter uma conversa prolongada em francês, gostei muito de ter tido que lidar com uma língua estrangeira que não o inglês. Voltar à Inglaterra será voltar a ser preguiçosa linguisticamente. Não sei como vou gerir este regresso à zona de conforto com a minha curiosidade cultural e linguística para com o resto da Europa (a última tentativa, com o alemão, não correu assim tão bem). Talvez o futuro daqui a uns anos me lance outra vez para a mainland. De preferência, de comboio.

 
 
 
 
S.        

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Volta à Europa em bicicleta

Há muito que o D. me tem vindo a tentar convencer a irmos a Portugal de bicicleta. Ideias mirabolantes é com ele por isso a minha reação standard é olhar para ele muito séria (ele todo sorridente porque sabe que a ideia é extravagante mas está a falar a sério e sabe que eu sei que ele está a falar a sério e sabe o que vai acontecer a seguir), eu desato a rir, reviro os olhos, e lanço uma tirada de razões por que a ideia é impossível: são quase 2000 kms, há Pirinéus pelo meio, eu não tenho resistência assim, ele nem na cidade anda de bicicleta, quanto mais atravessar países. Rimos um bocadinho e o assunto morre por ali. Até à próxima vez em que ele se lembrar.

Por isso foi com enorme surpresa que eu descobri que existe uma iniciativa - já bem adiantada, diga-se de passagem - para tornar o continente europeu ciclável de umas pontas às outras. 

Vejam esta maravilha:


No fundo a ideia é criar estes circuitos de vias rápidas para bicicletas que atravessem a Europa e liguem capitais, costas, etc. De notar que nenhum dos 15 percursos está ainda completo (o nº1, chamado "Costa Atlântica" e que liga o Algarve à Noruega, ainda não está realizado no território português). Segundo o website do EuroVelo, a ideia é que até 2020 a rede que vemos no mapa esteja substancialmente completa.

E uma pessoa começa a ficar com ideias...

Reparem na maravilha da rota 9, "Rota Mediterrânica": partir de Sevilha e ir Espanha acima, fazer a Côte d'Azûr francesa, depois ali um bocado de Alpes, vamos saltar aquilo, depois, Eslovénia, Croácia e Balcãs abaixo até à Grécia... Isto é que é o verdadeiro interRail, o verdadeiro périplo pela Europa.

Não faço bem ideia de quanto tempo demoraria a viagem, sendo que também não é preciso fazer uma rota de uma ponta à outra. Há que contar com paragens e demoras em sítios particulares, especialmente capitais ou outras cidades/vilas interessantes, para se ver o que merece ser visto. Tenho noção que isto seria uma viagem para ser preparada em vários anos - especialmente a parte da resistência - mas tenho perfeita consciência que é possível. Faz-se, não está só ao alcance de atletas de alta competição. Se há dois anos me dissessem que eu passaria a fazer commuting de bicicleta eu rir-me-ia muito na cara dessa pessoa, por isso acredito que isto, sendo a viagem monumental que é, é possível. 

Pensando agora assim um bocado por alto. Por exemplo:

- de Bruxelas a Lisboa são 1800 km. Para fazer o percurso num mês equivaleria a 60 km por dia; 

- tendo em conta que neste momento faço cerca de 8 km por dia de commuting (total ida-e-volta) isso significaria, er... um ou dois anos intensivos de treino?

(Acho que não estou bem a ver o que são 60 km por dia de bicicleta durante um mês...)

Bem, mas a ideia de base aqui é que é possível. Não agora, não para o ano, mas talvez daqui a uns 3-5, se a preparação começasse brevemente. Poderia começar por treinar para o objetivo de fazer Lisboa-Algarve. É tudo razoavelmente plano e tal, podia ser que sim. 

Acabei de descobrir novo objetivo de vida. Há que começar agora por descobrir a bicicleta alma-gémea. Já comecei as pesquisas por aqui.

Umas imagens para dar forçazinha:








Opáá... Tinha-me esquecido do pormenor da bagagem...






S.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O Napoleão é um ovo podre

O Napoleão não fez o trabalho de casa. Ainda não li Os Miseráveis até ao fim, mas sei que esta será a conclusão mais importante que deles vou poder tirar.

Estava eu muito bem a ler o livro quando o Vítor Hugo decide começar a contar a história da batalha de Waterloo. Fiquei muito contente: Waterloo é mais um daqueles grandes virar de página da História Europeia e portanto um marco da identidade partilhada do velho continente. Além disso, fica a uns 40 km aqui de Bruxelas e diz que todos os junhos, no dia da batalha, lá fazem uma recriação histórica muito bonita e cheia de figurantes e tal. Já não me lembro por que é que não fomos lá o ano passado, mas havemos de ir este ano. Em princípio.

De qualquer forma, dizia eu que o Vítor Hugo começou a contar a batalha de Waterloo. Como é que foi, como é que não foi, de onde é que veio um batalhão, por onde é que entrou a infantaria e a cavalaria e não sei quê. Às tantas, diz ele:

"If it had not rained in the night between the 17th and the 18th of June, 1815, the fate of Europe would have been different." 

Arrebitei logo o ouvido (não obstante o facto de estar a ler. Mas adiante):

"A few drops of water, more or less, decided the downfall of Napoleon."

Olha que curioso, ironias do destino, hein, como os acasos deitam abaixo super-homens como o Napoleão...

"All that Providence required in order to make Waterloo the end of Austerlitz was a little more rain, and a cloud traversing the sky out of season sufficed to make a world crumble."

Foi quando eu li este "a cloud traversing the sky out of season" que se fez luz e eu desatei às gargalhadas. Porque, a sério, isto é tão caracteristicamente belga e tão igualzinho ao que eu penei o ano passado que só pude comiserar. Ora então, o grande Generalíssimo, super-mestre-génio-militar senhor Napoleão é derrotado por uma chuvada fora de época. Na Bélgica. 

Hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha!

O senhor Napoleão devia saber que na Bélgica não há chuvadas fora de época. Qualquer altura do ano é boa para cair chuva - e não interessa que nos quinze dias anteriores tenha estado um calor de morrer (o que também é muito difícil). Não interessa que tenha estado um sol magnifíco MEIA-HORA antes do acontecimento: há sempre, a toda a hora, em todos os dias de todo o ano, a forte probabilidade de desatar a chover. Exceto em janeiro, que por causa do frio é mais provável que neve.

Eu sei que ele deve ter escolhido muito bem o dia e o mês para reduzir fortemente as probabilidades da água a cair do céu, embalado lá pela noção da terra dele de que as estações fazem sentido e que o tempo se comporta normalzinho e que no verão não chove. Errou foi no território, pronto. 

Diz que depois aquilo era só lama e a artilharia não conseguia avançar e que depois havia um vale que, por causa da chuva, estava meio inundado e os soldados não repararem que, bom, era um vale, e caiu tudo por ali abaixo. 

Ora então, parece que o tempo bipolar belga livrou a Europa de ser dominada por um déspota. (O Vítor Hugo discorda; diz que quem ganhou Waterloo foi a contra-revolução, as monarquias, o conservadorismo, e quem perdeu foi a Revolução Francesa e a Liberdade. Mas que raio de liberdade é que pode haver com ditadores que se auto-intitulam "Emperator", pergunto eu. E o Vítor Hugo também diz que o Napoleão só perdeu a guerra porque Deus não queria rivais, e o Universo estava a ficar demasiado desequilibrado, de tão divino e maravilhoso que o Napoleão era, e não por mérito do Wellington, que era só razoavelzinho. Por isso o seu juízo é claramente enviesado).

Espero que no dia 18 de junho em que eu vá a Waterloo, seja de que ano for, esteja a chover, que é para a experiência ser completa e extremamente hilariante. Só assim a recriação histórica estará completa.


 

S.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Ele há coisas... #24

Fiquei na dúvida se o Parlamento Europeu já está em meados de fevereiro ou se teve uma crise de identidade...



Num olhar mais atento, descubro que esta é apenas uma homenagem a um artista plástico checo, e que o coração néon foi originalmente feito por ele e colocado em Praga para celebrar a queda do regime totalitário comunista. Celebra-se agora 20 anos desde que o senhor ergueu o coração na capital checa.







Noutra nota, o PE decidiu celebrar o prémio Nobel da Paz colocando nos placards a toda a volta da entrada principal as fases da paz europeia. Bem no centro, e por cima do reflexo sêxtuplo do coração, está o contributo português para uma Europa melhor: a Revolução dos Cravos.






Pedacinhos de casa que vou encontrando...



S.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O maravilhoso mundo do rastreio aéreo

Há uns anos, o meu pai apresentou-me ao mundo do rastreio online de aviões. Nunca eu havia imaginado que seria possível seguir o curso de um voo, qualquer voo, em tempo real pela internet. Fiquei maravilhada com a possibilidade de poder acompanhar o percurso de qualquer avião, ao vivo (só não a cores) e a qualquer momento. Todo um novo mundo se abriu para mim. Foi o que me acalmou o pânico irracional e desmedido de que alguma coisa má estava para acontecer no dia em que o D. partiu para Londres. É ainda o que me sossega sempre que lá vai ele a planar pelos céus. 

Não gosto de deslocações. Afligem-me os nervos. Nem das minhas nem dos meus entes queridos. A possibilidade de ver, num mapa, o pontinho minúsculo por onde eles vão, dá uma sensação de calma estranha. E poder saber exatamente quando eles aterram é estupidamente aliviador.

Hoje, dia de deslocação, cá me encontro eu nos rastreios. Mas hoje deparei-me com um rastreador ainda mais fabuloso:


Este, ao contrário do normal, não mostra apenas o voo que se quer acompanhar: mostra todos. São os olhos esbugalhados a constatar o congestionamento aéreo europeu. A maravilha que é ver os minúsculos aviões a deslocarem-se em tempo real sobre o mapa da Europa e imaginar que milhares de aparelhos voadores de toneladas sobrevoam os nossos céus, levando consigo uma centena de humanos cada um. Passar o cursor por cima e ver o número de voo e a companhia, carregar na figura e saber de onde ele vem e para onde vai...

Isto é melhor que a Casa dos Segredos, melhor que o Big Brother, melhor que revistas da fofoca (se bem que não é preciso muito para qualquer dos três); isto é cordelhice pura e dura, da boa e da verdadeira.

Estou fascinada. Ide e fascinai-vos também: http://www.flightradar24.com/#!/2012-12-17/19:02

P.S. É impressão minha ou isto roça a linha do stalking, também?

domingo, 22 de julho de 2012

As mal-disfarçadas saudades de Inglaterra

Diz muito sobre a cidade onde vivo o facto de chegar a um pub inglês e salivar por tudo o que encontro na ementa, incluindo quando me apresentam isto:


Os preços - tudo abaixo das cinco libras e portanto metade do normal aqui em Bruxelas para qualquer refeição fora - quase acrescentaram lágrimas de felicidade aos pensamentos de vegetable and chicken pies, English breakfasts, seafood paellas, e outras bombas calóricas semelhantes.

E água engarrafada que não sabe a água da torneira.

E carros a circular pela esquerda.

E libras e pennies na carteira.

E sotaque cerrado Manchurian.

E adaptadores para tomadas novamente precisos (mas que ficaram em casa).

E chá servido com leite.

E Boots, Primarks, Tescos, Sainsburies, River Islands, Topshops, lojas da Disney, Debenhams...

E estações chamadas Piccadilly e Victoria.

E autocarros vermelhos de primeiro andar.

E maçanetas que rodam para a esquerda para abrir portas.

E chocolate quente do Costa.

E hotéis e pubs alcatifados até à entrada da casa de banho, onde dá para ir de pantufas até à receção.

E chuva e 14 graus de máxima em pleno julho, ansiando por um cachecol.

E uma viagem de regresso de céu incrivelmente limpo que me permitiu atravessar o Canal da Mancha e ver, pequeninas mas distinguíveis lá embaixo, as White Cliffs of Dover.

E saber, porque vi com estes dois que a terra há-de comer (adoro a expressão) quão perto estamos mas quão claramente separada a ilha está da Europa-mãe.



Inglaterra, como me fazias falta!



S.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Alsácia sem a Lorena

Enquanto janto os melhores bifinhos com cogumelos que já provei na vida (França tem tendência para me brindar com muitos "o melhor *inserir prato* que já provei na vida"...) tento sintetizar as minhas primeiras impressões da Alsácia. 

Se na Normandia se respirava liberdade (historicamente imaginada), aqui respira-se união (fisicamente sentida). E acabaram de me trazer um chá com uma bolacha Speculoos, que coisa tão doce e estranhamente belga! Neste canto francês com tantos nomes acabados em "heim", a pernoitar numa terra demasiado germânica e cujo nome ainda não sei pronunciar, acabo por não conseguir descortinar se Estrasburgo é mais gálico ou germânico. No fundo, pouco importa, pois pertence áquela classe de cidades com qualidade de vida impossivelmente elevada. Dois mundos juntam-se aqui na Alsácia, dando o melhor de si para formar um resultado de louvar: a organização e eficiência germânica com o bom-viver francês.

A França tem também cheiro a casa, descubro agora. O francês palrado de fundo e os "bonjour!"s dados com alegria não fazem parecer que atravessei quatro países para cá chegar. 

Alsácia é a nacionalidade do meu cão, também (do meu ex-cão - pode-se dizer "ex-cão"? Para não confundir com o atual e não dizer "o meu cão que já morreu". Deve-se poder. E este também é o meu blog, portanto, eu é que sei). Alsácia lembra-me sempre "Lobo da Alsácia", vulgo Pastor Alemão (O pai da Merkel é um pastor alemão. Juro. Na altura tive que ler essa frase várias vezes até ela fazer sentido, mas agora faz.). Saudades que fazem sempre cócegas no fundo do estômago e que não têm a distância da Alsácia a Lisboa, mas da Alsácia ao céu.

Gosto deste centro da Europa. Aguça-me a curiosidade por esses dois países imensos que são a França e a Alemanha e ajuda-me a reparar no quanto ainda me falta da Europa para ver com os meus próprios olhos e calcorrear com os meus próprios pés.





S.


P.S. O Kobo já cá canta, sim. Estamos na fase de reconhecimento um do outro, numa relação que se quer duradora e cheia de alegrias.   

P.S.2 E esta vida de quarto de hotel single é esquisita e solitária para caraças. E eu sou a pessoa mais anti-social que conheço...

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Trocando isto por miúdos

Foi perguntado a crianças pelos países europeus o que era para elas a Europa (eu tive uma disciplina inteiramente devotada ao tema durante a licenciatura, chamada "História da Ideia de Europa", e ainda não sei) e que a desenhassem.

O resultado foi uma maravilha misteriosa de pinturas com as mais variadas coisas desenhadas que se pode imaginar. A exposição encontrei-a eu por acaso, num cantinho do Parlamento.


Gostei de ver como há lugares-comuns que são inevitáveis e conceitos partilhados por crianças portuguesas e húngaras: a Itália tem forma de bota e a Sicília de bola, quão docemente previsível é isto? Já a melancia na Grécia confesso que me deixou baralhada... E o barco ali na heartland do continente, idem.


O recreio europeu das crianças britânicas. Gosto do pormenor de algumas estarem a dar as mãos.


O das crianças portuguesas estava um abuso!... Olhem-me para aquele mapa perfeitinho e aquele Galo de Barcelos todo engalanado!


Quando me deparei com o desenho das crianças finlandesas, confesso que fiquei uns bons 5 minutos a admirar e a tentar decifrá-lo. Consiste, portanto, num castelo, com a bandeira finlandesa hasteada, e com crianças lá dentro a acenar adeus a um boneco de neve gigante cá fora. Tudo branco...

Ora, o branco facilmente se associa à neve. Mas é tudo o que consigo decifrar. Acho que a chave aqui é o ato de dizer adeus... Mas a um boneco de neve?? Que será ele? Sugestões aceitam-se.


As crianças belgas, para mim, levam a bicicleta. Temos pássaros de todas as cores e feitios, segurando no bico uma bandeira nacional e portanto representando os diversos estados-membros. Em moldura a toda a volta temos a palavra em várias línguas que melhor representa o cerne, a verdadeira essência da UE: PAZ.


Cheguei ao escritório ainda com largo sorriso de orelha a orelha.

Deixo aqui o mapa mais completo com os símbolos que representam cada país. Desafio-vos a comparar com as vossos próprios estereótipos :D. Bate tudo certo!





S.

sábado, 19 de maio de 2012

Normandia, a sagrada

Os últimos dias têm sido de elevada dose de maravilhamento. Por isso mesmo, tem sido difícil pôr o que vai nesta cabeça em palavras coerentes. E, verdade seja dita, sou daquela espécie de gente que acha que muita coisa boa é mau sinal e que não se deve falar dela, pois está-se sempre à espera que a vida nos pregue uma grande partida e aconteça uma desgraça qualquer para equilibrar. "Ah-ha! Enganei-te!", é o que se desconfia que mais tarde ou mais cedo nos diga a vida.

Mas o maravilhamento mais recente pode ser falado porque já está feita a experiência e essa ninguém me tira. Maravilhamento esse que se chama Normandia e tem cheiro a 1944, mais precisamente o dia 6 de junho.

Esta era uma viagem que me estava a moer a parte de trás da cabeça (que é onde se guarda os desejos, acabei de inventar confirmar cientificamente): visitar a Normandia e as praias onde se deu o desembarque das tropas Aliadas no tão afamado Dia D. Não é uma viagem típica, exótica ou particularmente glamourosa. Mas faz parte do meu fascínio com os pontos de viragem que tornaram a Europa no que ela é hoje. E o que a Europa é hoje, a muito deve à Segunda Guerra Mundial.

Aquelas praias gritam "Liberdade" muito mais do que qualquer sítio que conheço. Conhecendo-se a História e tendo-se uma guia que aviva a memória, explica os pormenores intricados da estratégia e que conhece cada cratera de bala como as linhas da palma da sua mão, é só deixar a imaginação voar e quase conseguimos ver as silhuetas dos navios Aliados ao fundo, ouvir os gritos alemães em terra e os soldados americanos, britânicos e canadianos a pisar solo europeu pela primeira vez desde 1940 para libertar uma Europa temente sob o jugo alemão. Se esforçasse a vista como deve ser, estava certa que conseguiria ver a costa inglesa do outro lado do Canal... (não consegui, não é assim tão perto)

Fiquei a conhecer pormenores deste fatídico dia 6 de junho de 1944 que me fizeram compreender realmente o quanto na guerra é improviso, cabeça fria e boas decisões. Que apenas metade se deve a uma boa, planeada ao milímetro, estratégia, e que o resto está nas mãos do acaso.

Ondas de gratidão invadiam-me à medida que pisava estes lugares e que pormenores eram desvendados dos quais uma pessoa ou não faz ideia, ou não significam grande coisa revelados numa sala de aula. O mar de cruzes brancas que é o Cemitério Americano é um bom exemplo; vastidão de cruzes e cruzes, polvilhado de estrelas de David aqui e ali, nunca um local me conseguiu inspirar tanto respeito e horror como aquele.

Gratidão e maravihamento (não me ocorre melhor palavra em português para descrever isto) perante aqueles milhares de seres humanos que deram a vida por uma causa que não era a deles, que não tinha que lhes dizer respeito, que não lhes tocava pessoalmente. Dar a vida, literalmente, para que o resto do continente pudesse respirar livre. Só me apetecia ajoelhar, rastejar naquele solo tão fortemente carregado de simbolismo, e em toda a humildade agradecer a estes desconhecidos terem dado as suas vidas para que a Europa que conheço hoje possa existir. 

Há lugares sagrados, de facto. Um deles é a costa da Normandia. Não creio que os nossos outros companheiros de viagem, todos americanos e com mais de 50 anos, tenham compreendido por que estávamos naquela excursão. "São estudantes de História?" Não, senhora. "Então e que papel teve Portugal na Segunda Guerra Mundial?" Neutro. A razão do nosso interesse permaneceu um mistério para eles. 

Porque grande parte das pessoas que ingressam neste reconhecimento das praias da Normandia são americanas. A História do seu país liga-as àquele local, compatriotas seus morreram e mostraram bravura sublime ali, quem sabe alguns familiares seus também. Agora, nós, dois portugueses jovens, sem nenhum vínculo nacional ou familiar que nos ligasse ali, o que nos motivava? Além da curiosidade aguda de duas pessoas profundamente fascinadas pela Segunda Guerra Mundial, há uma outra razão: uma razão chamada Europa. Porque eu não sou só portuguesa, sou europeia. E a minha educação como europeia passa pelo reconhecimento dos locais que fazem a minha terra ser Europa, mesmo que tenham ocorrido a milhares de quilómetros do pedaço de terra retangular a que chamamos Portugal. Ali, a nossa europeanidade sobressai, explícita quando pensamos "Uau, a quantidade de americanos que morreram para nos libertar", ao invés de "Uau, a quantidade de americanos que morreram para libertar os franceses". 

A identidade é uma coisa engraçada.

A peregrinação acabou. Amanhã partiremos para algo mais descontraído mas que vai elevar o pico do maravilhamento a níveis impossíveis (assim o espero). O Mont Saint-Michel espera-nos. 




S.

sábado, 21 de abril de 2012

Para a Veneza do Norte

A tradição vai ser mantida e o dia 22 de abril, anos do D., vai ser passado fora do país. Pensando bem ela já iria ser mantida de qualquer das formas, mas enfim. Aproveitando vivermos agora no Carrefour d'Europe, faremos amanhã a nossa primeira viagem ao estrangeiro desde que chegámos à Bélgica. E que melhor sítio para começar que Amesterdão, a Veneza do Norte, essa cidade estrangeira cliché para todos os bruxelenses. A três horas daqui (duas, de TGV), com comboios que partem de hora a hora todos os dias da semana, percebe-se bem porquê.

É uma cidade que pertence aos nórdicos/germânicos, essa gente evoluída e com sociedades ordeiras quase-perfeitas que às vezes metem um bocado de raiva. Vai ser portanto a minha estreia na parte civilizada da Europa (uuuuh). Espero muita florinha, muito moinho, muita água (nos canais e a cair do céu, infelizmente), muita rua bonita, muita bicicleta. Tudo muito limpinho e ordenado.

Sinceramente não tenho qualquer expetactiva sobre o que vou encontrar, tirando os clichés acima mencionados. Pesquisei apressadamente um ou outro sítio obrigatório para ver, imprimi o mapa da área do hotel, escrevinhei o número do tram que teremos de apanhar da estação central até ao hotel, e pronto. Acho que será a primeira vez que partirei sem guia ou sequer mapa da cidade que vou visitar. Vamos deixar os pés e a vista conduzir-nos por lá. Isto para alguém que escreve planos de três ou quatro dias, divididos em "manhã" e "tarde" com todos os sítios a visitar, respetivas paragens/estações, percursos a pé, mais preços de cada museu/monumento de cada vez que viaja, é pura rebeldia. 

Mais uma vez, vai ser um prazer viajar de comboio em vez de avião, esperando ver as alterações da paisagem denunciarem que estou noutro país. E, pelo menos só por isso, a antecipação já é muito grande.





S.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O comboio da grande vitesse

O intuito deste blog sempre foi o de registar impressões, sentimentos e episódios que de uma forma ou de outra me tocaram, fossem eles completamente aleatórios e insignificantes ou grandes decisões e mudanças de futuro. Seria uma espécie de diário, mas um diário partilhado com as pessoas que me são mais queridas sobre as minhas experiências noutro país. A função de diário ainda não teve muito; não é muito normal eu ler posts antigos. É preciso deixar passar mais tempo.

Mas porque isto tem a intenção de diário partilhado, é importante registar aqui impressões frescas, sem muita dissecação e sem muita erosão do tempo. E é por isso mesmo que não podia adiar mais o registo do episódio que eu mais ansiava do dia 26: a minha primeira viagem de TGV.

A escala em Paris pressupunha uma viagem até Bruxelas em TGV, em vez de avião. Sendo que uma das coisas que mais gostava de fazer era viajar pela Europa de comboio, o entusiasmo foi mais que muito. Seria o meu primeiro cheirinho do que é correr o meu continente pelo chão, em vez de pelo ar.

Assim, depois de umas 6 horas apressadas a correr o centro de Paris, foi com alguma excitação que nos apresentámos no balcão de embarque para iniciar a nossa viagem de comboio. Foi um bocado estranho porque aquilo parecia o embarque para um avião. As malas foram deixadas num carrinho que depois as levaria até ao comboio e que as depositaria, à chegada, na plataforma. 15 minutos antes da hora de partida, lá fomos nós para a plataforma esperar pelo senhor TGV (15 minutos! o que no avião implica cerca de uma hora).

Depois foi esperar que ele chegasse, carregado já de pessoas desde Marselha. E depois foi maravilhar com aqueles bancos - poltronas - cheios de conforto e com almofadinha mesmo a jeito para encostar a cabecinha e adormecer... Mas apesar de ter dormido duas horas na noite anterior, ter acordado às 3h da madrugada e ter palmilhado Paris durante horas, e do conforto abusado dos referidos bancos e do pormenor da almofadinha anti-torcicolo, esforcei as pálpebras para se manterem abertas. Queria ver França, queria ver Bélgica, queria ver Bruxelas a aproximar-se.

A verdade é que, apesar de estas viagens se fazerem sempre mais por descampados do que próximas de localidades, o TGV não desiludiu. Desliza como faca sobre manteiga derretida, rápido, desfocando um pouco a paisagem, mas suficientemente rápido para não fartar a duração da viagem e suficientemente lento para se poder descortinar o que passa fora da janela.

E o que é que se passou fora da janela? Verde. Campos e campos planos e verdejantes, daquele verde impossível de encontrar em Portugal, que faz desconfiar que ali se cultiva com uma facilidade tremenda. Uma fábrica ao longe, uma localidade de vez em quando, fios elétricos de alta tensão a atravessar os tais campos verdejantes. Não desiludiu. Eu só pensava "É esta a minha Europa, quero explorar este meu continente de uma ponta à outra desta forma, num comboio que não se sente a deslizar e com bancos que têm almofadinhas anti-torcicolo". Acho - mas isto pode ter sido a pedrada de sono e as pernas dormentes a falar, atenção - que a certa altura me pus a magicar que maravilhoso seria percorrer aqueles campos a pé. Havia um senhor que dizia que a Europa era um continente diferente de todos os outros porque se pode palmilhar a pé - queria-lhe testar a teoria. Mas depois passou-me.

Infelizmente, da estação de Lille, onde o comboio parou, até começar a abrandar com Bruxelas a aproximar-se, não vi nada porque o corpo e a curiosidade sucumbiram ao cansaço. A mente já estava contentada na sua curiosidade.

A Bruxelas foi chegar, pegar a mala deitada na plataforma e apanhar o metro na mesma estação. Que diferença da logística cansativa e demorada dos aeroportos!

Já ganhei um novo transporte favorito.





S. 

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Auf Wiedersehen, London

Visitar sítios e questionar se será a última vez que ali passamos não é uma sensação agradável. Mas não está a ser tão dolorosa como pensei.

No fim de maio voltamos para Portugal, o que significa que tenho um mês para me despedir de Londres. Não sei bem o que sinto a respeito disto, mas pânico já não é e dor acho que também não. Mas tal deve ter muito que ver com mais uma mudança que tenho no horizonte. 

A verdade é que Londres já foi explorada à exaustão e não irei embora com a sensação de que não vi o que devia ver. Se vi tudo? Claro que não. Londres é a maior cidade da Europa, dá para viver aqui uma vida inteira e continuar a ser surpreendido uma e outra vez. Agora, Inglaterra, isso já é outra história. Irei embora daqui com a sensação de que não conheço, nem de perto nem de longe, o que gostava do Reino Unido. Não fui à Escócia, não fui ao País de Gales, não fui à Cornualha... Mas se há coisa que aprendi neste último ano foi a não achar que conheço o meu futuro. Porque há um ano ainda nem sabia que estaria a viver aqui, a estudar na King's e a preparar uma dissertação em igualdade de género. Por isso quem sabe onde estarei daqui a um ano.

Não pareço a mesma rapariga que escreveu sobre o seu pânico de voltar a Portugal há uns posts atrás. Mas tal em muito se deve ao facto de não ficar lá indefinidamente. Viena espera-me em setembro e 6 meses lá nos aguentaremos. O entusiasmo ainda não bateu verdadeiramente mas acho que também nunca estive extrovertidamente entusiasmada antes de vir para Londres. Começo a pensar que sou mesmo assim, não acredito subsconscientemente nas coisas até as viver e continuo desconfiada até ao último minuto. É um 'viver de pé atrás', uma ação natural de proteção contra desilusões na vida. Sei que uma das primeiras coisas em que pensei quando soube que ir para a Viena era uma forte possibilidade foi: 'Áustria tem reis? Se tivesse posso continuar a escrever neste blog sem lhe alterar o título...' Nunca escondi o meu apego à insignificância.

O que já pesa é a certeza de mais uma aventura, um sítio diferente a fazer algo de diferente, e isso para a minha paz de espírito neste último mês em Londres é fundamental. O regresso a Portugal é assim não mais do que um interregno entre duas emigrações, um respirar fundo antes de novo mergulho no desconhecido. Porque já percebi como estes mergulhos são viciantes, oh, se são... Só custa o primeiro, porque envolve cortar as raízes e isso é o mais difícil. Uma vez cortadas, e depois de uma experiência bem sucedida, o que nos impede de voltar a repetir? Nada. O mundo passa a ser visto como um espaço de possibilidades e, haja vontade, a mudança torna-se sempre possível. No meu caso não o mundo, mas sim a Europa. A Europa é o meu espaço de conforto, de familiaridade e de felicidade. Porque sei que estando na Europa, tenho tudo o que preciso, conheço as regras, aceito os costumes, estou em casa. Eurocêntrica? Muito. Apenas porque é o meu espaço civilizacional, é onde me sinto bem e em casa. É onde quero estar. 

É recomendado que faça uma lista de sítios que quero (re)visitar antes de abandonar Londres e o Reino Unido. Não. Tenho medo de me voltar a apaixonar por Londres e a saída ser dolorosa. Por isso este último mês não vai ser gasto a ir a todo o lado que nem uma maluca, a visitar o que falta, a revisitar museus, parques e monumentos, a ver musicais e peças só porque é suposto e porque posso já não voltar a ter hipótese. Porque não é assim que quero relembrar Londres (como turista histérica). Quero que as memórias desta cidade sejam naturais e espontâneas, e que não seja através deste último mês que me vá lembrar da cidade no futuro. E porque despedir-me de todos estes locais seria admitir que não vou voltar mais e isso para mim é inconcebível. Por isso este último mês será passado entre casa e a biblioteca porque tenho uma dissertação em que pensar e que escrever antes de setembro e portanto muito trabalho que fazer. 

E que melhor maneira de me despedir da cidade do que passar tempo numa das suas bibliotecas, o único sítio no mundo verdadeiramente universal, onde consigo flutuar num limbo maravilhoso onde nem espaço nem tempo contam, só o livro que tenho na mão?...






S.