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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Vergonha de ser europeia

Isto fala do caso UKiano mas a parte a negrito (minha) também se poderia aplicar ao caso português ou mesmo ao resto dos países europeus:



O post é do blog cyclingeurope.org.

Estava a sentir-me nauseada desde ontem à noite por causa do galope da extrema-direita na Europa, mas afinal eles correspondem a um décimo da população. É pena é que só esses se tenham ido expressar nas urnas e que agora partidos como o UKIP representem mais de um terço dos eleitores europeus. 

A ideia dos abstencionistas de que estão a protestar não indo votar, não compactuando com os partidos instituídos, é muito linda mas na prática resulta é nestas aberrações inflacionistas para os partidos de extrema-direita, os fearmongers desta vida.





Ainda assim Portugal não tem extrema-direita instituída, o que me permite hoje ter só vergonha de ser europeia, mas não de ser portuguesa.




S.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

E você, já mostrou a sua dose de indignação hoje?

Por falar em manifestações:


O projeto de lei do governo espanhol sobre a interrupção voluntária da gravidez está a provocar reações um pouco por toda a Europa.

Esta quarta-feira, cerca de duas mil pessoas, na maioria mulheres, vindas de toda a Europa, participaram numa marcha que começou junto à embaixada espanhola em Bruxelas e terminou junto ao Parlamento Europeu:

“Esta lei não respeita um mínimo de direitos de outras leis na Europa, porque trata as mulheres como se fossem menores”, diz uma manifestante espanhola.

Um cidadão belga explica:
“Pedimos ao governo espanhol que reveja o projeto de lei que tenciona aprovar, para garantir que o direito ao aborto não é restringido como está previsto na proposta de lei”.

Para os manifestantes, o assunto não diz respeito só a Espanha. Uma cidadã lituana fala da situação no seu país:

“Estou aqui porque temos uma situação semelhante na Lituânia, com uma lei que está no parlamento prestes a ser votada”.

No dia 1 de fevereiro está também prevista uma manifestação junto da embaixada de Espanha, em Paris.

O governo espanhol apresentou um projeto de lei que só autoriza o aborto em caso de risco fisico ou psicológico para a mulher ou violação, se tiver sido apresentada queixa."

Copyright © 2014 euronews




Segui o meu próprio argumento do "não fazes lá falta mas se todos pensarem assim ninguém vai" e fui lá marcar presença.

Algumas mulheres levaram cartazes ("Take your rosaries off of my ovaries"; "Church and state, you don't own my body"; "Free women give birth to free sons"; "Procreation is not an obligation"; "Mère quand je veux, si je le veux"; "Droits de l'homme pour les femmes aussi"), algumas levaram chapéus de bruxa (na Idade Média, quem abortava era as gentes que tinham pactos com o diabo). Vi bandeiras do Bloco de Esquerda português, vi a eurodeputada Marisa Matias e a Edite Estrela, cujo relatório sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres na Europa foi chumbado no Parlamento Europeu há umas semanas (mesmo não sendo vinculativo, certos governos europeus têm um medo que se pelam deste assunto. E a tendência, como se vê pelo exemplo da Espanha e da Lituânia, é para regredir.) 




S.

domingo, 26 de maio de 2013

Paralelismos com o mercado de trabalho não são coincidência

Há umas semanas atrás, rumei ao Parlamento Europeu para assistir a uma conferência onde se discutia as vantagens de ter atenção ao género nas políticas de combate ao desemprego jovem. Foi bastante elucidativa porque deu para ver que as razões pelas quais jovens mulheres estão no desemprego e, nalguns casos, deixaram de procurar emprego, são diferentes das razões pelas quais jovens homens estão na mesma situação. Basicamente, deu para concluir que a maternidade e as expectativas de que a mãe será a principal cuidadora dos filhos tem um peso muito grande quer na empregabilidade das jovens mulheres quer nas próprias expectativas destas em relação ao mercado de trabalho, especialmente numa época de profunda crise económica como a que vivemos. A publicação do Parlamento Europeu sobre este tema, que foi basicamente o que os seus investigadores foram apresentar lá à conferência, pode ser consultada aqui: "As Vantagens de uma Estratégia de Género no Combate ao Desemprego Jovem".

Uma das apresentações foi particularmente lúcida e interessante e destacou-se das outras por me ter dado tanto que pensar que achei boa ideia partilhá-la aqui.

O título é "As diferenças de género na vontade de competir" e basicamente foi um estudo que um professor de uma universidade austríaca fez para avaliar a competitividade de rapazes e raparigas em diversas fases da vida. 

Fez 3 experiências com crianças dos 3 aos 18 anos que consistiam em diferentes provas. A 1ª experiência foi feita com crianças dos 3 aos 8 anos na qual tinham que correr 30 metros. Em baixo estão os resultados da performance de rapazes e raparigas por grupos de idades:


Bottomline aqui é que não há diferenças entre sexos na performance da corrida. Ao que parece, as diferenças só surgem a partir da puberdade, em que os homens tornam-se, regra geral, mais rápidos e resistentes do que as mulheres. Entre crianças, é tudo igual.

Na experiência foi depois introduzido um elemento que pretendia medir o nível de competitividade. Foi perguntado a cada criança se queria correr sozinha ou se queria correr em competição com outro/a colega. No caso de escolher a corrida com o/a colega, e se ganhasse, receberia o dobro da recompensa (acho que eram bombons ou assim). O gráfico a seguir mostra o número de rapazes que preferiu a competição e o número de raparigas:


Vemos aqui uma clara diferença da frequência com que os rapazes escolheram a competição em relação às raparigas. Lembremos que a performance é a mesma, portanto a probabilidade de uma rapariga ganhar seria a mesma que um rapaz. No entanto, não é isso que elas pensam.

"Ah, mas é normal que pensem que não são tão boas a correr quanto os rapazes porque corrida e desporto é normalmente uma área onde se considera que os rapazes são melhores." Para tomar em consideração esta espécie de parcialidade que poderia enviesar as conclusões, decidiram fazer outra experiência, desta vez numa área na qual não existe especial parcialidade ou, a haver, poderia pender para o lado das raparigas: arrumar blocos de diferentes formas. Num balde com várias peças de diferentes formatos, as crianças tinham que ir buscar todos os cilindros. Tinham um minuto para meter o máximo de cilindros que conseguissem num copo de plástico. Aqui, as raparigas tiveram uma performance um pouco melhor que os rapazes:


O elemento da competição aqui foi o seguinte: as crianças podiam escolher ganhar uma recompensa por cada peça arrumada ou ganhar duas recompensas por cada peça caso arrumassem mais peças que outra criança que lhes seria emparelhada aleatoriamente. Os resultados da competitividade não variam da prova da corrida:


Novamente, mais rapazes escolhem competir do que raparigas; e o que é mais, a diferença acentua-se com a idade! Isto numa prova que, segundo o investigador, é estereotipicamente associada a raparigas, que estas são melhores do que os rapazes a arrumar os blocos. Esta crescente diferença em competir é-me profundamente assustadora, mas já lá vou. Falta a última experiência.

Desta vez, a experiência consistia em somar números. Prova numérica mas muito simples, apenas adicionar. Aqui, como se sabe há o profundo estereótipo que os homens são naturalmente melhores a matemática do que as mulheres, que as mulheres são bem melhores em matéria de letras e comunicação do que números. Acho que é a maior treta que nos vendem desde pequeninos e que a maior parte das pessoas (eu incluída, até há cerca de um ano atrás) acredita que é mesmo uma diferença entre sexos. Que é o cérebro que é diferente e não sei quê. Os resultados da performance na soma dos números:


Duas conclusões, às quais o investigador chamou à atenção na sua apresentação:

- afinal as crianças aprendem alguma coisa na escola, visto que com a idade ficam melhores a adicionar números (haha!);

- não há diferença entre sexos na adição de números. Zero. Às vezes uma das barras está ligeiramente mais elevada que a outra, mas devido à margem de erro, a diferença desaparece. É tão claro que uma pessoa fica parva a olhar (eu fiquei, ainda que já tivesse lido umas coisas que apontavam neste sentido) e acaba por interrogar-se quem foi a alminha que inventou o mito que as mulheres são de letras e os homens de números. Bom, mas quando se vai para a questão da competição, o padrão continua:


Mais rapazes preferem competir com outro/a colega do que raparigas. E o pior: a diferença aumenta com a idade! (olhem para o grupo dos 17/18 anos, meu deus).

Porquê? Porque é que as raparigas se subtraem à competição muito mais que os rapazes, se têm exatamente as mesmas probabilidades de ganhar? Mais: porque é que se subtraem à competição mesmo quando têm mais probabilidades de ganhar do que os rapazes (na prova dos blocos, ligeira vantagem)? Basicamente, as conclusões do estudo são que as raparigas são mais avessas ao risco que os rapazes, e que os rapazes são mais otimistas em relação à sua performance que as raparigas. Ou seja, as raparigas têm uma perceção de que desempenham pior do que realmente desempenham, enquanto os rapazes têm uma perceção que desempenham melhor do que realmente desempenham. Umas são underconfidents, outros são overconfidents. E, como vimos, os estereótipos só pioram a underconfidence e a overconfidence de umas e outros.

Uma vez que as diferenças entre a vontade de rapazes e raparigas de competir nestas tarefas aumentam com a idade, suspeita-se que a educação e os papéis de género tenham também grande dose de influência nesta vontade de competir.  E faz sentido; das raparigas espera-se que sejam diligentes e aplicadas na escola (e na vida), dos rapazes espera-se que gostem de desporto, que joguem, que compitam, que ganhem (no desporto e na vida). Mas esta vontade de competir não irá ter meras consequências no desporto que se possa praticar ou em competições pontuais que se possa fazer; a vontade de competir é uma característica muito valiosa para se singrar no mundo do trabalho. Para se candidatar a um emprego está-se a entrar em competição com os outros candidatos, para nos tornarmos disponíveis a uma promoção está-se a entrar em competição com outros potenciais candidatos. Nunca tinha percebido a relação entre confiança e competição e mercado de trabalho: só uma pessoa que confia que tem um bom currículo ou que está ao nível do que é pedido em determinado anúncio de emprego se irá candidatar; só uma pessoa com confiança em si irá se propor a uma promoção que envolva qualidades de liderança, gestão, etc. E nisto, ao que parece, os homens ganham-nos aos pontos. É uma questão genética, do tipo os homens são naturalmente mais competitivos? Mas ao que parece é algo que aumenta com a idade. É de educação? De estereótipos de género? Porque de performance, já se viu, não é. 

O investigador disse uma coisa muito interessante, uma espécie de dito: "Um homem vê as especificações de um anúncio de emprego e, se tem uma que condiz, candidata-se; a mulher vê as especificações de um anúncio de emprego e, se tem uma que não condiz, não se candidata." A questão da overconfidence e underconfidence que pelo vistos caracteriza os géneros e que eu vou desconfiando que é mesmo assim.

Este post já vai longo mas há ainda uma coisa que eu queria escrever aqui porque basicamente essa era a finalidade do estudo: a questão das quotas. Não a vou discutir neste post porque dá mesmo muito pano para mangas mas vou só lançar umas ideias.

O que este estudo, na sua segunda parte, pretendia perceber era o efeito que a intervenção de políticas de quotas ou discriminação positiva tem na vontade das mulheres de competir. Já se viu que são no geral pessimistas em relação ao seu próprio desempenho e que se retraem na hora de competir por um lugar. Ou seja, está-se a perder potenciais trabalhadoras competentes em determinadas áreas (engenharias, informática, tecnologias, etc), trabalhadoras já formadas, mas que simplesmente não acreditam que têm hipótese. E portanto nem chegam a candidatar-se a determinadas posições.

No estudo, fizeram mais uma data de experiências, no mesmo molde das outras e com o esquema de sozinho/competição. Desta vez estavam num grupo de seis colegas, 3 homens e 3 mulheres. A tarefa era adicionar números em 3 minutos e podiam escolher: ganhar 50 cêntimos por cada par adicionado corretamente, ou 1,50 euros se fossem um dos dois melhores no grupo a adicionar números. O que os investigadores fizeram foi variar depois o tipo de recompensa para as mulheres que quisessem competir, e no sentido de ver se com ganhos assegurados, as mulheres estavam mais dispostas a competir. No fundo, é simular o efeito que as quotas teriam numa situação real.


Portanto, o CTR é o grupo no qual não era dada qualquer vantagem às mulheres. O que se vê é aquela diferença abismal na predisposição para competir.

No QUO, a regra era que entre os dois vencedores, pelo menos um tinha que ser mulher, o que significa que a mulher com o melhor desempenho venceria decerto. Isto é o equivalente às quotas frequentemente introduzidas nos partidos ou a que a Viviane Reding queria introduzir nos quadros das empresas europeias. Aqui vê-se um claro aumento do interesse das mulheres em entrar em competição, ainda que não supere o dos homens. 

No PT1, era dado às mulheres um ponto extra, que servia como desempate caso elas tivessem um desempenho tão bom quanto os homens. O interesse pela competição aumentou entre as mulheres. 

No PT2, eram dados às mulheres dois pontos extra, o que significa que uma mulher menos qualificada poderia ganhar em relação a um homem com um desempenho melhor. Este é o único em que as mulheres preferem muito mais competir que os homens.

Finalmente, no REP, haveria repetição da competição caso nenhuma mulher ficasse entre os dois vencedores. Na repetição, as regras normais seriam aplicadas. Não convence muito as mulheres a competir, neste caso.

Ou seja, as únicas experiências que nivelam o campo em termos de predisposição para competir são o QUO e o PT1. O único injusto - na minha opinião - é o PT2. É importante frisar mais uma vez que o desempenho das mulheres e dos homens é igual, ou seja, não existe aqui o perigo de estar a favorecer candidatas menos qualificadas do que os candidatos (exceto no PT2). Mesmo com as vantagens favoráveis, quem acaba por ganhar será sempre a mulher mais qualificada. O que as intervenções fazem é aumentar o número de candidatas disponível porque há mais mulheres - igualmente qualificadas que os homens - predispostas a ir à luta. 

Paralelismos com o mercado de trabalho não são coincidência, são intenção. 

Agora o que eu gostava mesmo de descobrir era quanto da pouca vontade de competir é uma questão genética e quanto é socialização do que é "ser mulher".



S.

sexta-feira, 1 de março de 2013

O Parlamento Europeu veste-se a rigor



O Parlamento Europeu prepara-se para assinalar o dia. A grande conferência alusiva à igualdade de género este ano calha no dia 7 e intitula-se: "Women's Response to the Crisis" e conta com apresentadores de várias áreas e países que vão demonstrar de que forma a crise europeia e as medidas de austeridade estão a afetar desproporcionalmente as mulheres e, consequentemente, as crianças europeias. 

Ainda não sei se vou. Muito provavelmente vou estar a trabalhar e, muito honestamente, não é um tema que me suscite especial interesse.

Vou continuar de antena no ar para captar mais eventos do género por Bruxelas.



S.    

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Ele há coisas... #24

Fiquei na dúvida se o Parlamento Europeu já está em meados de fevereiro ou se teve uma crise de identidade...



Num olhar mais atento, descubro que esta é apenas uma homenagem a um artista plástico checo, e que o coração néon foi originalmente feito por ele e colocado em Praga para celebrar a queda do regime totalitário comunista. Celebra-se agora 20 anos desde que o senhor ergueu o coração na capital checa.







Noutra nota, o PE decidiu celebrar o prémio Nobel da Paz colocando nos placards a toda a volta da entrada principal as fases da paz europeia. Bem no centro, e por cima do reflexo sêxtuplo do coração, está o contributo português para uma Europa melhor: a Revolução dos Cravos.






Pedacinhos de casa que vou encontrando...



S.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Das conferências e das chatices das manifestações



Pararam grande parte da cidade? Pararam.

Bloquearam as artérias principais de acesso ao bairro europeu com os seus 500 tratores? Bloquearam.

Deu muita chatice a muita gente que ia trabalhar? Deu.

O Parlamento quase fechou as portas por causa do protesto? Sim.

Íamos ficando sem lugar para a conferência que andámos a preparar durante meses, correndo o risco de mais de cem pessoas ficarem à porta? Pois, e trememos muito durante duas horas.

Metade das pessoas chegaram atrasadas? Chegaram.

Houve muito barulho? Se houve.

Tem razão? Não faço a mínima.

É justo que milhares de pessoas sejam afetadas porque uns quantos agricultores se sentem injustiçados? Absolutamente.

O direito à manifestação é um direito ileanável  dos cidadãos de um país democrático. Independentemente das chatices que possa causar  - e normalmente causa - a terceiros. Acho sempre muita piada a quem é contra as greves pelo incómodo que lhe causa. Estes foram especialmente perspicazes em dirigirem os seus protestos a quem é realmente responsável pela política agrícola europeia - as instituições europeias em Bruxelas. E, desculpem mas borrifar a polícia de choque com jatos de leite é ridicularmente engraçado.


A conferência correu muito bem, obrigada. 



S.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Vou ali, já venho, PE

Hoje é o meu último dia.

Daqui a pouco vou entregar o relatório de estágio e não me apetece. E vou ter que arrumar a secretária e também não me apetece. Mandar papéis fora, devolver canetas, arrumar os saquinhos de chá que entretanto sobraram, lavar a caneca, apagar as minhas pastas deste computador.

Últimos dias são sempre merdosos. Especialmente quando se parte para umas férias indefinidamente longas.

Mas estou confiante. Consegui que a minha supervisora me desse um abraço de despedida, o que, sendo ela alemã, considero um feito e acho que era coisa que devia constar no meu CV ou assim.







S.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O mundo louco da interpretação

Há muito tempo que me intrigavam os intérpretes simultâneos nas cabines das conferências. Foi um dos meus maiores maravilhamentos quando aqui cheguei: o facto de descobrir que o multilinguismo, no Parlamento Europeu, é uma realidade. E constatá-lo todas as vezes em que tinha conferências e reuniões de comissão para assistir.

Hoje, tive a oportunidade de experimentar como era. Numa espécie de palestra organizada pelo serviço de interpretação, e numa tentativa de atrair estagiários das instituições europeias para a carreira linguística, pudemos constatar que línguas mais fazem falta à UE (nativos eslovenos, malteses, romenos e búlgaros), que espécie de treino e educação é preciso obter para ingressar nessa carreira, e as gratificações e frustrações que se obtém quando se interpreta para ganhar a vida.

No final, veio a parte divertida: subir às cabines e fazermos nós próprios a interpretação de um discurso em inglês para a nossa língua nativa.


É... Esquisito. Estávamos três pessoas em cada cabine; ao meu lado tinha a minha amiga M. nativa de esloveno, e do outro lado um nativo de francês. Pusemos os auscultadores, ajeitámos o micro, e esperámos. Assim que o discurso começou ficámos uns 30 segundos sem reação: é suposto começarmos a debitar palavreado agora? Acho que estávamos envergonhados por começar a falar numa língua que nenhum dos outros compreendia e que, por estar ali mesmo ao lado, teria de ouvir. Mas assim que um de nós tomou coragem (não me lembro quem deu o primeiro passo, acho que eu não fui, ainda que estivesse mortinha por começar!), os outros foram atrás e em segundos, além de ouvir a minha voz em português e o discurso original em inglês, havia mais duas línguas faladas naquela cabine.

Falhei várias partes de frases, especialmente porque ao início esperava demasiado até começar a traduzir a frase para português; não se pode. Tem que se ir andando, num verdadeiro exercício de multi-tasking que consiste em ouvir, processar a informação, transformá-la em português, e dizê-la em voz alta. Isto tudo repetidamente, sem parar. 

A mulher da palestra tinha razão: aquilo dá uma adrenalina do caraças. Mesmo ali, a brincar e sem ninguém verdadeiramente a ouvir (com três pessoas a interpretar ao mesmo tempo por cabine torna-se impossível sintonizar num canal e apenas ouvir uma voz!), é um exercício de antecipação que cria um stress daqueles positivos. É como se um novelo estivesse a rolar pelo chão continuamente e nós a tentar apanhar a ponta, que continua a ser conduzida para fora do nosso alcance.

Primeiro estranha-se e depois entranha-se. É sem dúvida uma habilidade que se ganha e se treina. Ao início eu não conseguia acabar as frases mas no segundo ou terceiro discurso já conseguia deixar pouco por traduzir. Fiquei desiludida porque pensava que também conseguia traduzir do francês, por ser tão semelhante a estrutura gramatical e as próprias palavras, mas a minha compreensão auditiva francesa ainda não é ágil e rápida o suficiente para conseguir interpretar simultaneamente para português (no discurso alemão, também não, mas nem sequer tentei). Ainda assim, foi uma experiência única e muito divertida.

Fui-me informar sobre as condições que eles exigem aos portugueses nativos - já que o número de línguas pedido a um candidato depende da sua proveniência linguística e do facto de haver muitos ou poucos candidatos dessa língua. Parece que ficam contentes com duas línguas, sendo que uma delas tem que ser o inglês ou o alemão, e a outra uma qualquer das 23 oficiais (em breve 24, com o croata). O curso recomendado é o da FLUL, de interpretação, que dura um ano. Namorei alguns minutos a ideia de me por nesta aventura... Mas depois deixei-me disso: teria que voltar para Portugal durante um ano, para estudar, e além disso temo não ter personalidade para isto. É preciso ter capacidades comunicativas orais altamente desenvolvidas. Eu é mais escrever, tenho pena.



S.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Por falar em estereótipos

Divirto-me bastante a olhar para os intérpretes nas cabines das salas de conferência. Alguns fazem a interpretação simultânea com a facilidade e o enfado de quem já anda naquilo há muitos anos; outros, de braços cruzados e apoiados sobre a mesa, olham em frente com determinação enquanto falam; outros ainda há que apoiam a cabeça sobre as pontas dos dedos e interpretam o que está a ser dito para a sua língua nativa com uma dedicação e esforço dignos de nota.

Ontem, olho de relance para a cabine IT e o que vejo? O intérprete italiano a gesticular ferverosamente enquanto espalhava palavreado na sua língua, dentro de uma cabine que parecia pequena demais para a sua efusividade.

Mal escondi o riso.





S.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Networking-fobia ou "Porque é que eu nunca irei a lado nenhum"

No geral, não gosto de pessoas. Ou melhor, gosto de observar pessoas, mas desde que elas não queiram interagir e falar comigo e assim.

Pronto. Podia parar por aqui que estas duas frases resumem a minha natureza anti-social. Mas permitam-me elaborar na matéria, até porque hoje foi dia de conferência de empregos para estagiários do PE e a culpa moe-me um bocadinho por dentro. E nada melhor do que uma historieta para ilustrar a primeira afirmação deste post.

O trabalho aqui em Bruxelas mostrou-me, por experiências alheias, que desenvolver uma rede de contactos é crucial para uma pessoa ir a algum lado. Podemos ter o talento e o mérito todo do mundo, mas se ninguém nos conhecer, se não fizermos um esforço por nos promovermos, pouco vale esse talento.

Muitos estagiários levam isto muito a sério e aproveitam cada oportunidade que podem para falarem com pessoas, especialistas, etc, que trabalham nas áreas do seu interesse e ligadas a matérias nas quais gostariam de trabalhar e formar carreira. Muitos têm cartões de visita (literalmente, aqueles business cards com uma espécie de slogan e os contactos da pessoa), outros têm assinatura personalizada nos e-mails. No final das conferências não hesitam em apertar a mão aos experts, apresentam-se com um grande sorriso e sacam do tal business card com um "call me" inscrito na postura e no olhar.

Sim senhora, gente que faz pela vida e não espera que as coisas lhe caíam no colo. (Eu sei que há uma linha ténue entre o networking e a muito familiar e portuguesa cunha, mas para o caso vamos imaginar que isto é tudo legítimo, até porque eu sei que a grande maioria destas pessoas de quem falo não lhes falta mérito académico, linguístico e até profissional.)

Ora, eu vejo estas coisas todas com um misto de surpresa, descrédito e uma pontinha de inveja pela lata que é preciso e que me falta em grande dose. Porque a verdade é que eu sou das pessoas mais socially awkward que conheço. A sério. Odeio conversa de circunstância, tenha brancas com palavras, sou introvertida, ergo uma espécie de barreira invisível à minha volta sempre que conheço pessoas novas e a máxima do "se não tens nada de jeito para dizer mais vale estares calada" é uma espécie de mantra da minha vida. Odeio falar de mim (o blog não conta porque é escrito e não há interação direta). Logo se deduz que o networking seja uma espécie de inferno para uma social misfit como eu.

E no outro dia tive a prova.

Em trabalho, fui assistir a uma conferência aqui ao lado no Comité Económico e Social. Uma coisa muito bem organizada, muito mais populada do que o costume e onde a cada pessoa foi dado um cartão para por ao peito e um papel para meter na ranhura da mesa à nossa frente. Porque, como estão presentes muitas ONGs e outras organizações interessadas, estas conferências funcionam muito como plataformas de ligação para pessoas com os mesmos interesses e a trabalharem nos mesmos assuntos se encontrarem e colaborarem umas com as outras. Para networking, enfim.

Cheguei lá com a minha supervisora e, enquanto esperávamos pelo início, ela meteu conversa com as pessoas da mesa da frente. Em menos de dois minutos, e sem saber bem como, tinha eu três cartões de visita na mão e a outra vazia sem nada para devolver. "Eu sou só estagiária, senhores, parem de olhar para mim como quem espera receber um cartão pomposo de volta!", apetecia-me desabafar. Hoje um dos apresentadores na conferência de empregos ralhou connosco para nunca nos apresentarmos como estagiários, nunca. Que um funcionário também nunca se apresenta como "Estou no grau 86847 e trabalho na Comissão de Justiça". Culpa, culpinha...

À tarde, durante as pausas para café, o networking da sala desenvolvia-se a olhos vistos. Eu, que de manhã tinha apanhado uma crise de fome desgraçada, porque tinha comido às sete da manhã e esta gente acha por bem fazer conferências de cinco horas seguidas sem nenhuns cinco minutos de pausa, decidi aproveitar para sacar da mala e da bolacha e ficar sossegadinha no meu lugar a mirar a míriade de participantes na conferência.

Estava eu a apreciar a minha primeira bolacha, agarradinha à mala e a apaziguar a minha barriga que já gritava "Tu não me faças isto outra vez!... Hipoglicemia não te diz nada, minha menina? Olha que eu digo ao cérebro para se apagar e tu dás um tralho dessa cadeira que nunca mais vais esquecer...", quando um senhor se aproximou da minha mesa e exclama um simpático "Bom dia!".

Juro que tentei não saltar da cadeira e não arregalar muito os olhos de surpresa. Não tenho a certeza que tenha funcionado. Eu repliquei um "Boa tarde" ainda meio surpreso, ao que se seguiu as perguntas da praxe "O que faz aqui em Bruxelas?", "Trabalha para o quê?", etc. No fundo, este senhor viu o meu nome escrito no papel à minha frente, nome portuguezinho da silva, e ficou curioso por saber o que faria uma compatriota naquela conferência.

Ali estava eu, de mala no colo e bolacha na mão, sem saber se me levantava (mala a estorvar), se apertava a mão ao senhor (bolacha na mão, não dá) e a tentar esconder o ar de surpresa por alguém se ter dirigido a mim, ainda mais em português, enquanto respondia às perguntas de introdução a mastigar ainda a primeira dentada da bolacha. Após duas ou três perguntas introdutórias, sem grande seguimento da minha parte, o senhor lá se despediu e foi para o seu lugar. Eu pude acabar a bolacha que entretanto estava a ganhar pó na minha mão e matutar no que se tinha acabado de passar.

No fundo, sou tão má no networking que tem que ser o networking a vir a mim. E ainda assim eu enxoto-o. Sou uma espécie de cúmulo do anti-networking

O à-vontade e a "lata social" são coisas que se treinam. Eu sei disso. Já fui ainda pior e começo a acreditar firmemente que se estivesse mais uns meses aqui no Parlamento desemborrava-se-me a língua a pouco e pouco. No outro dia fiz uma pergunta numa conferência! Está bem que demorei dez minutos até decidir a por o dedo no ar e só estavam umas vinte pessoas na sala, mas o que interessa é que atraí as atenções sobre mim onde elas não foram pedidas, e isso é o mais difícil, como qualquer introvertido sabe.

Próximo passo será uma apresentação de investigação perante plateia de especialistas, quase a chegar. Mas essa será uma hiperventilação para próximo post.







 S.



P.S. Agora é só esperar que o meu futuro empregador, seja ele qual for, não dê de caras com o meu blogue, não perceba um chavelho de português e ignore a existência do Google translate...   

terça-feira, 12 de junho de 2012

Alsácia sem a Lorena

Enquanto janto os melhores bifinhos com cogumelos que já provei na vida (França tem tendência para me brindar com muitos "o melhor *inserir prato* que já provei na vida"...) tento sintetizar as minhas primeiras impressões da Alsácia. 

Se na Normandia se respirava liberdade (historicamente imaginada), aqui respira-se união (fisicamente sentida). E acabaram de me trazer um chá com uma bolacha Speculoos, que coisa tão doce e estranhamente belga! Neste canto francês com tantos nomes acabados em "heim", a pernoitar numa terra demasiado germânica e cujo nome ainda não sei pronunciar, acabo por não conseguir descortinar se Estrasburgo é mais gálico ou germânico. No fundo, pouco importa, pois pertence áquela classe de cidades com qualidade de vida impossivelmente elevada. Dois mundos juntam-se aqui na Alsácia, dando o melhor de si para formar um resultado de louvar: a organização e eficiência germânica com o bom-viver francês.

A França tem também cheiro a casa, descubro agora. O francês palrado de fundo e os "bonjour!"s dados com alegria não fazem parecer que atravessei quatro países para cá chegar. 

Alsácia é a nacionalidade do meu cão, também (do meu ex-cão - pode-se dizer "ex-cão"? Para não confundir com o atual e não dizer "o meu cão que já morreu". Deve-se poder. E este também é o meu blog, portanto, eu é que sei). Alsácia lembra-me sempre "Lobo da Alsácia", vulgo Pastor Alemão (O pai da Merkel é um pastor alemão. Juro. Na altura tive que ler essa frase várias vezes até ela fazer sentido, mas agora faz.). Saudades que fazem sempre cócegas no fundo do estômago e que não têm a distância da Alsácia a Lisboa, mas da Alsácia ao céu.

Gosto deste centro da Europa. Aguça-me a curiosidade por esses dois países imensos que são a França e a Alemanha e ajuda-me a reparar no quanto ainda me falta da Europa para ver com os meus próprios olhos e calcorrear com os meus próprios pés.





S.


P.S. O Kobo já cá canta, sim. Estamos na fase de reconhecimento um do outro, numa relação que se quer duradora e cheia de alegrias.   

P.S.2 E esta vida de quarto de hotel single é esquisita e solitária para caraças. E eu sou a pessoa mais anti-social que conheço...

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A 2ª (ou 1ª?) casa do Parlamento

Amanhã rumarei com a peregrinação parlamentar mensal para Estrasburgo. Diz que é uma cidade incrivelmente bonita e irritantemente organizada e limpa, do tipo Amesterdão, vá.



Cidadezinha medieval e céu azulinho... Até já estou a enjoar a perfeiçãozinha toda e ainda não pus lá os pés... (Isto é só inveja porque Bruxelas não é nem medieval nem tem céu azul)

Mas parlamentos, trabalhos, passeios e medievalidades à parte, estou ansiosa porque finalmente vou buscar o Kobo fónix, já não era sem tempo, mal durmo com a antecipação, agora só falta chegar lá e estar esgotado ou assim, com a sorte que eu tenho, e mais 10 km e aquela cidade era alemã e já não dava porque não havia Fnac nem Kobo para ninguém

Espero, na viagem penosa de cinco horas de comboio de volta, já ter um novo entretém.



S.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Trocando isto por miúdos

Foi perguntado a crianças pelos países europeus o que era para elas a Europa (eu tive uma disciplina inteiramente devotada ao tema durante a licenciatura, chamada "História da Ideia de Europa", e ainda não sei) e que a desenhassem.

O resultado foi uma maravilha misteriosa de pinturas com as mais variadas coisas desenhadas que se pode imaginar. A exposição encontrei-a eu por acaso, num cantinho do Parlamento.


Gostei de ver como há lugares-comuns que são inevitáveis e conceitos partilhados por crianças portuguesas e húngaras: a Itália tem forma de bota e a Sicília de bola, quão docemente previsível é isto? Já a melancia na Grécia confesso que me deixou baralhada... E o barco ali na heartland do continente, idem.


O recreio europeu das crianças britânicas. Gosto do pormenor de algumas estarem a dar as mãos.


O das crianças portuguesas estava um abuso!... Olhem-me para aquele mapa perfeitinho e aquele Galo de Barcelos todo engalanado!


Quando me deparei com o desenho das crianças finlandesas, confesso que fiquei uns bons 5 minutos a admirar e a tentar decifrá-lo. Consiste, portanto, num castelo, com a bandeira finlandesa hasteada, e com crianças lá dentro a acenar adeus a um boneco de neve gigante cá fora. Tudo branco...

Ora, o branco facilmente se associa à neve. Mas é tudo o que consigo decifrar. Acho que a chave aqui é o ato de dizer adeus... Mas a um boneco de neve?? Que será ele? Sugestões aceitam-se.


As crianças belgas, para mim, levam a bicicleta. Temos pássaros de todas as cores e feitios, segurando no bico uma bandeira nacional e portanto representando os diversos estados-membros. Em moldura a toda a volta temos a palavra em várias línguas que melhor representa o cerne, a verdadeira essência da UE: PAZ.


Cheguei ao escritório ainda com largo sorriso de orelha a orelha.

Deixo aqui o mapa mais completo com os símbolos que representam cada país. Desafio-vos a comparar com as vossos próprios estereótipos :D. Bate tudo certo!





S.

domingo, 13 de maio de 2012

Brincar às Uniões Europeias

Fiquei contente por, apesar de estudá-la à exaustão, trabalhar nela diariamente e escrever artigos todas as semanas sobre a mesma, descobrir que me consigo entusiasmar pela União Europeia como quando ainda era um sonho longínquo. Entusiasmar-nos que nem uma criança com o nosso trabalho só pode ser o prelúdio de uma relação saudável com a parte profissional da nossa vida :)

O mapa onde assinalámos, com uma moeda de 1cêntimo a nossa terra natal

Não é todos os dias que se tem a vista do outro lado... (Parlamento Europeu)

Porque 2012 é o Ano Europeu do Envelhecimento Ativo


A cadeira lusitana no Conselho de Ministros


 O segundo país a receber mais fundos europeus, logo a seguir à Espanha...

A parafernália de posters para pendurar na parede ("Growing Stronger Together", indeed)




S.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O futuro é um lugar estranho

Por cada post de observações, de aleatoriedades, de constatações mais leves, há sempre um mais sério que guardo para mim. As dúvidas existenciais são mil vezes mais profundas, provavelmente mais interessantes (para amigos e família, claro), são o triplo do tamanho, mas são infinitamente mais difíceis de escrever. Afinal, não é fácil ser eloquente quando nem nós próprios sabemos o que pensar.

Há um ano estava aqui, neste preciso ponto e com estas mesmas angústias de "o que fazer agora?". As semelhanças são tantas que parece que estou a viver um dejá vu. Estava a acabar uma coisa em que me tinha metido (antes mestrado; agora estágio), enviava currículos atrás de currículos sem obter resposta, encontrava-me num país que não era o meu e as intenções de ficar eram abaladas pela não perspetiva de sustento futuro. O regresso a Portugal estava lá, como plano Z que foi subindo as letras do alfabeto, devagar mas certo, até se tornar o plano A. Terá Bruxelas o mesmo desfecho que Londres? Um mantra repetia-se na minha cabeça "E agora? E agora? E agora?" - desta vez, porque ainda (ou só?) faltam três meses é um "E a seguir? E a seguir? E a seguir?".

Mas depois esforço-me por respirar fundo, largar a preocupação de uma coisa que está fora do meu controlo, e olho para trás. Não, não saltando este último ano para onde me encontrava no início de maio de 2011, mas para o que fiz desde aí e o que me trouxe aqui. O estágio na APAV, a minha primeira verdadeira experiência de trabalho, o estágio que me fez até ansiar por regressar a Portugal, no meio do desânimo que foi desistir do sonho londrino. O que vi e aprendi e o primeiro contacto prático com a UE. As pessoas inesquecíveis que conheci. Desconfio que esta experiência foi a grande responsável pelo sucesso da minha candidatura ao Parlamento Europeu, à realização do meu sonho de trabalhar nas instituições europeias, e se não fosse também por tudo o resto, só por isto a APAV teria a minha gratidão eterna. O projeto de base de dados dos deputados britânicos. O curso sobre o Tratado de Lisboa à noite, na Clássica, que me fez agradecer a todos os anjinhos o facto de ter entrado antes na Nova. Mas que ainda assim me foi muito positivo. As aulas de Inglês aos miúdos, xii... as aulas! O respeito monstro que ganhei por professores a tempo inteiro. O artigo académico que publiquei. Os artigos semanais para a Next Europe, que continuam.

É preciso que esta enumeração substitua o mantra do "E a seguir? E a seguir? E a seguir?" para que eu me lembre do que fiz num ano e no que posso voltar a fazer em mais um. Para acalmar o espírito controlador do destino e do "Para onde? Para onde? Para onde?" e assegurar-me de que, seja onde for que tenha de ir, lá chegarei. Daqui a um ano estarei noutro sítio qualquer a fazer algo que de certeza ainda não faço ideia do que será. Mas as peças irão encaixando, porque é mesmo assim a vida.

Avisaram-me que seria assim, este par de anos a seguir ao término dos estudos. Aliás, continuam a avisar. Entre todos nós, estagiários, vindos de percursos diferentes e de nacionalidades diferentes, uma coisa nos é comum: este não é o primeiro estágio. Para muitos de nós, não será sequer o último. Alguns andam nisto há muitos anos, (demasiados), outros ainda lhe estão a tomar o gosto (muito cedinho ainda). Para alguns, o peso dos sucessivos estágios já chegou ao limite, outros estão agora a começar a experimentar o aborrecimento da vida constantemente temporária. Posto assim em perspetiva, sei que não posso ainda descartar a hipótese de novos estágios nem exigir já um emprego permanente e remunerado. Mas a mesma pessoa que avisou que estes dois anos iriam ser assim também disse algo que eu memorizei e guardei para futuro uso: "You're worth a salary". Chegará o dia em que eu terei de dizer "basta", se não for o emprego a chegar primeiro.

Estas são as agrúras normais e esperadas de quem atingiu a maioridade laboral no meio de uma crise sem precedentes nos últimos 80 anos. Mas há uma dúvida insinuosa, mais incómoda e mais existencial, que torna a incerteza de trabalho futuro mais aguda. Ela prende-se com o desencanto de um sonho, um bocadinho à imagem do desencanto pela América mas não completamente... Porque este não é o desencanto pela UE em si, é antes o desencanto por um trabalho dentro da mesma. E custa admitir, oh, se custa! Persegui este objetivo durante anos, como não há-de custar confessar que talvez não seja bem isto que eu quero fazer?

Escrever isto aqui torna-o mais definitivo. Está cá fora, foi partilhado, não pode ser ignorado. Não é o encerramento do fascínio pela UE, de todo. Mas é o encerramento das ilusões sobre um policy job dentro da UE. Entretanto, a Europa mantém-se um objeto de fascínio para o estudo. E agora, o doutoramento, relegado para o segundo plano da minha mente, começa aos pulos efusivos porque até ele já percebeu, ainda que eu tenha demorado a admitir, que fará parte da minha vida a curto-prazo.

Porque o que me faz mesmo feliz, no que eu sei que sou mesmo boa e que se tem mantido uma constante na minha vida e especialmente neste último ano, é escrever. Debitar palavra no papel, traduzir, rever, editar. Partilhar, seja histórias, seja observações, seja notícias sobre a Europa, seja argumentos para defesa da igualdade de género, seja a construção de artigos sobre estudos de caso, devidamente apoiados por investigação científica. É o único meio em que me sinto à vontade para partilhar e o consigo fazer eficazmente (má, tão má no debate em falatório, credo). As experiências do último ano vieram certificar e selar a certeza do que eu acho que desde sempre soube. Tenho muito que aprender, pois claro que tenho. E muito curso avulso que tirar para sistematizar algo que apenas faço amadoramente. Mas é um percurso no qual me vejo a gostar realmente do que faço, diariamente.

Escrever, seja em forma de artigos seja em pesquisa académica, dar-me-ía outra coisa que eu tenho vindo a valorizar cada vez mais: a gestão autónoma do meu tempo. Os múltiplos projetos do último ano habituaram-me a tal. E, mais importante, fizeram-me ver que é possível. Era voluntária em dois projetos britânicos e nunca desde então pus o pé em solo londrino (graduation não conta). O escritório é irrelevante neste tipo de trabalhos, horário das 9h-17h, idem. 

Por isso, é com o coração um pouco mais leve desde o início deste post - blog catártico, é o que isto é - que eu confesso: o meu nome é S. e o meu futuro já não está nas instituições europeias diretamente, mas na escrita, jornalística e/ou académica. Assim, no máximo que me é possível antever, acho que serei feliz profissionalmente.






S.   

P.S. - E agora meter aqui no meio disto tudo os direitos das mulheres e a igualdade de género, coisa que me toca cada vez mais e me estimula o intelecto? Argh... Fica para outro dia, que neste pedaço de escrita esgotei as confissões todas para um mês!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Ele há coisas... #4


Alguém andou a pedir desejos...

O que é engraçado é que esta não é a única árvore com pulseirinhas; há várias ali no Parlamento cheias de fitas vermelhas e brancas atadas aos ramos.

Espero que o esforço tenha valido a pena...



S. 

terça-feira, 10 de abril de 2012

Ursinhos de goma

A semana passada acabei com o stock de ursinhos de gomas do Parlamento. Desde então não voltaram a repor. Digam-me agora se tenho condições para trabalhar.




S.

terça-feira, 27 de março de 2012

O motoqueiro ateísta

Para quebrar o meu ciclo de conferências/reuniões/pesquisa/trabalho sobre temas relacionados com igualdade de género, lá fui eu hoje assistir a uma reunião sobre separação entre Estado (neste caso, União Europeia) e religião. O vulgo secularismo.

Chego lá, sento-me, fico sossegadita à espera que o resto das pessoas entrem e que aquilo comece. Entrei no meu modo "observação-piloto". E que gente interessante que começou a chegar: ele foi um padre, um - suspeito eu - rabi, entre outros. Mas foi quando entrou um senhor de meia-idade com aspeto de motoqueiro e uma t-shirt preta a dizer ATHEIST que os meus olhos se arregalaram e eu pensei "Ui, isto promete".

Basicamente aquilo foi uma conferência organizada pela Plataforma Europeia pelo Secularismo, constituída por gente muito diversa (ateístas, católicos, judeus, humanistas) que queriam certificar-se que o novo Presidente do Parlamento Europeu vai dar a mesma atenção a todas estas organizações sem favorecer religiões que têm um aparelho administrativo dantesco, como é o caso da Igreja Católica.

Foi um bocado fraquinho. Não houve grande debate nem posições corajosas, sinceramente o falatório do Presidente desiludiu-me e foi um bocado para o diluído e confuso. Se não tivesse sido a intervenção do senhor motoqueiro ateísta no final a exigir uma revisão dos tratados para impedir as organizações religiosas de contactarem com a UE não sei como tinha aguentado o aborrecimento.

P.S. O Arcebispo de Canterbury tem um representante em Bruxelas. !!!






Coisas Com Que Me Deparei Na Minha Demanda Por Imagens Que Ilustrassem Este Post





 



S.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Parabéns a alguém

Hoje alguém fez anos no meu andar.

Não faço ideia de quem tenha sido, apenas descobri um pratinho cheio de bombons Kinder e chocolates Merci. E quando abri o frigorífico estavam lá fatias de bolo de anos.

Alguém fez anos, portanto.

Eu agradeci mentalmente os bombons, mas, como disse, não faço ideia a quem.

Fazem falta lugares para as pessoas conviverem, ali. Não há uma mesita para quem quiser trazer comida de casa e comer ali na copa. Onde as pessoas possam fazer um intervalo e beberem um café/chá sem ser na solidão do seu escritório. Claro que existem vários cafés, esplanadas e a enorme cantina - mas isso fica no edifício principal. Não se faz uma pequena pausa para café nesses sítios, quando se tem que apanhar 3 elevadores e andar pelo menos 5 minutos por intermináveis corredores. Para almoçar, sim, mas mesmo assim é simpático - e amigo da carteira, não há como disfarçar - trazer a nossa própria comida de casa e comer no conforto do nosso departamento, sem termos que nos misturar com centenas de pessoas.

Mas isto sou eu, que fiquei mal habituada com o calor humano dos portugueses e com o ambiente caloroso e mais-amigável-é-impossível da organização onde estagiei estes últimos meses. Se calhar estou mesmo mal habituada.





S.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Conferências Parte II

Hoje foi dia de nova conferência, a conferência MASTER relacionada com os direitos das mulheres (o dia escolhido não foi coincidência).



desta vez há foto!

Desta vez havia português. Aliás, havia todas as línguas, menos "malti" e "gaeilge". Foi com borboletas no estômago que ouvi uma intervenção em português, num hemiciclo do Parlamento Europeu cheio de gente, gente essa, como não podia deixar de ser, com os auscultadores postos. Eu fiz questão de tirar os meus e pousá-los com muito orgulho ao meu lado, enquanto a senhora debitava palavreado na minha língua.




Se eu ontem pensava que tinha havido muita pluralidade linguística, hoje foi o auge. Segui quase tudo em português, mas às tantas começou-me a fazer impressão uma coisa: só havia dois intérpretes portugueses. Ou seja, nas cerca de dez línguas que se falaram ali, estas duas pessoas partilharam entre si a interpretação para português. Como é possível...! Que me lembre, o homem interpretou de alemão, polaco, grego e outra qualquer. A mulher interpretou de italiano, espanhol, inglês, húngaro e sueco. Poliglota, disse eu?...

E porque é o dia que é e tem tudo a ver, aqui vai:




Com imagens atinge-se uma compreensão maior que com milhões de palavras.

S.