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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

'L'Europe est plus féministe que chacun de ses États membres'

'L'Europe est une chance pour les femmes, ce que peu comprennent. Il y a un nivellement par le haut grâce aux pays du Nord de l'Europe, la Commission européene fait passer des textes ambitieux, et la Commission des droits de la femme est fortement féministe, tous partis politiques confondus. L'Europe ne peut pas faire régresser la condition des femmes, au contraire, elle fait pression sur les gouvernements pour qu'ils ne fassent pas reculer la condition des femmes.'

Geneviève Fraisse, filósofa francesa e historiadora do pensamento feminista, numa entrevista em 2005 à autora do estudo Le Lobby Européen des Femmes: la voie institutionnelle du féminisme européen.

Não sei se ela teria a mesma opinião neste momento, visto que isto foi dito antes da crise financeira e da crise das dívidas públicas europeia, e dos consequentes cortes que foram feitos a nível nacional a muitos serviços de apoio e abrigo a mulheres vítimas de violência, a cortes de salários públicos que afetam desproporcionalmente as mulheres (há mais mulheres no serviço público do que homens), e à pioria (isto é palavra?) geral de condições de vida que afeta os mais pobres que, mais uma vez, são desproporcionalmente mulheres.

Tendo dito isto, penso que a ideia se mantém. A União Europeia é francamente mais sensível a questões feministas e aos direitos das mulheres do que a grande maioria dos seus membros, e está documentado na literatura que foi ela um dos grandes impulsionadores para a adoção de legislação para igualdade entre mulheres e homens nas décadas de 70 e 80 na Europa, numa altura em que nenhum Estado-membro exceto a França tinha salvaguardado a máxima de salário igual para trabalho igual (fica aqui um texto curtinho sobre a história da igualdade de género na UE). Acho que isto é notável para uma organização que ainda tem um pendor bem mais estritamente económico do que seria desejável e do que muitos gostaríamos. 

Aliás, lembro-me de há dois ou três anos ter havido mobilização da parte de académicas especialistas em UE e questões de género, e de oficiais das instituições europeias, para mostrarem a metade da população britânica o que esta ganha com o facto de o Reino Unido pertencer ao clube: é graças à obrigatoriedade de implementar todas as diretivas europeias que as mulheres britânicas obtiveram licença de maternidade e os pais britânicos podem gozar de licença parental, por exemplo. Portanto, quando os britânicos se queixam da red tape bruxelense, elas que pensem bem a quem uma saída do clube mais poderia prejudicar. (Os britânicos foram aliás um dos grandes opositores e portanto motivadores do bloqueio da nova diretiva sobre a licença de maternidade que visava aumentar o mínimo europeu de providências para novas mães a nível laboral.)




Isto para dar um exemplo do nivelamento por cima que Geneviève fala na citação lá de cima. Não obstante as críticas que podem ser - e são - lançadas à UE em matéria de interesses das mulheres, não há dúvida que ela tem um pendor feminista que às vezes parece um paradoxo se tomarmos em conta o racional neo-liberal que permeia o pensamento europeu. E é precisamente por isso que o tema me apaixona.




S. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A minoria que importa

Que o feminismo também traz benefícios aos homens não deveria ser espanto para ninguém. Mas certamente que um movimento que tem como objetivo a melhoria das condições de vida de mais de metade da população não deveria necessitar de mais nenhuma validação que essa mesma.
 
A constante necessidade de se tentar demonstrar que os homens também ganham com o feminismo torna-se a prova de que um movimento de mulheres para mulheres é insuficiente, imperfeito, pequenino. Não importa quão grande seja a percentagem da população beneficiada.   







S.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

E você, já mostrou a sua dose de indignação hoje?

Por falar em manifestações:


O projeto de lei do governo espanhol sobre a interrupção voluntária da gravidez está a provocar reações um pouco por toda a Europa.

Esta quarta-feira, cerca de duas mil pessoas, na maioria mulheres, vindas de toda a Europa, participaram numa marcha que começou junto à embaixada espanhola em Bruxelas e terminou junto ao Parlamento Europeu:

“Esta lei não respeita um mínimo de direitos de outras leis na Europa, porque trata as mulheres como se fossem menores”, diz uma manifestante espanhola.

Um cidadão belga explica:
“Pedimos ao governo espanhol que reveja o projeto de lei que tenciona aprovar, para garantir que o direito ao aborto não é restringido como está previsto na proposta de lei”.

Para os manifestantes, o assunto não diz respeito só a Espanha. Uma cidadã lituana fala da situação no seu país:

“Estou aqui porque temos uma situação semelhante na Lituânia, com uma lei que está no parlamento prestes a ser votada”.

No dia 1 de fevereiro está também prevista uma manifestação junto da embaixada de Espanha, em Paris.

O governo espanhol apresentou um projeto de lei que só autoriza o aborto em caso de risco fisico ou psicológico para a mulher ou violação, se tiver sido apresentada queixa."

Copyright © 2014 euronews




Segui o meu próprio argumento do "não fazes lá falta mas se todos pensarem assim ninguém vai" e fui lá marcar presença.

Algumas mulheres levaram cartazes ("Take your rosaries off of my ovaries"; "Church and state, you don't own my body"; "Free women give birth to free sons"; "Procreation is not an obligation"; "Mère quand je veux, si je le veux"; "Droits de l'homme pour les femmes aussi"), algumas levaram chapéus de bruxa (na Idade Média, quem abortava era as gentes que tinham pactos com o diabo). Vi bandeiras do Bloco de Esquerda português, vi a eurodeputada Marisa Matias e a Edite Estrela, cujo relatório sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres na Europa foi chumbado no Parlamento Europeu há umas semanas (mesmo não sendo vinculativo, certos governos europeus têm um medo que se pelam deste assunto. E a tendência, como se vê pelo exemplo da Espanha e da Lituânia, é para regredir.) 




S.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

As 6 sombras da persuasão e a Dança do Bilião

Andei alguns dias a remoer este post porque eu queria falar sobre isto, convencer mesmo alguém a ir, mas não sabia por onde começar. Por aqui vê-se logo que não tenho curso de marketing, publicidade ou comunicação, no geral. Fez-me falta conhecer as técnicas para convencer alguém. Não tenho jeito, não me é natural, e acabo por nunca ter paciência nem perserverança suficientes, mesmo em debates. O que é bastante infeliz numa pessoa que se intitula feminista, mas bom, cada um faz o que pode. Ainda assim, ocorreram-me várias maneiras de começar:

Persuasão através da instigação da culpa:

Ler e acenar com a cabeça que sim, coitadinhas, é muito fácil. Meter um like num post indignado, também. Partilhar uma notícia sobre o assunto no Facebook, apesar de envolver um nisquinho mais de compromisso, continua a ser 99,9% de conforto, 0,1% de eficácia. Levantar o rabo do sofá/carro/escritório ao fim de uma tarde de pleno inverno, já não é assim tão fácil. Por isso prova o quanto nos indigna, enoja e o quanto queremos ser parte da solução. Ide ao Lisboa V-Day, mulheres desse Portugal. E homens desse Portugal, ide por quem amam. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da responsabilidade moral:

É por uma causa nobre. Desejar que o flagelo da violência de género tenha fim. Eu sei que causas nobres há muitas, e nós somos e sentimo-nos pequeninos individualmente. Não temos a capacidade de fazer tudo o que é nobre, ou de lutar por tudo aquilo em que acreditamos. Mas isto afeta muita gente, demasiada gente, por todo o mundo. É pela segurança e bem-estar de potencialmente metade da população humana, pelo menos um terço dessa metade. Como ficar indiferente, se toca a tanta gente? Ide mostrar que não são indiferentes. Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da chantagem emocional:

É que é um bilião. Um terço de todas as mulheres do mundo. Uma em três. Isto significa que pelo menos uma mulher próxima de vós (mesmo se forem parcos nos sentimentos e anti-sociais como eu, entre irmã, mãe, avó, cara-metade, haverá sempre três. Se forem mulheres, como eu, podem mesmo ser vós) será agredida ou violada durante a vida. Isto está bem assim? Não vos causa horror, abjeção, sentimento de injustiça? Ide mostrar a vossa indignação. Ide ao Lisboa V-Day, mulheres desse Portugal. E homens desse Portugal, ide por quem amam. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através do testemunho pessoal:

O ano passado, quando a ideia do One Billion Rising surgiu, eu participei na minha primeira manifestação. Bichinho avesso às confusões, aos gritos, aos ajuntamentos e a pessoas a fazerem coisas estranhas, amante das ideias e teorias mas pouco afoito na ação, enfiei-me no meu casaco mais quente e saí para a rua, a temperatura a roçar o zero. Timidamente, encostei-me às colunas da praça a sondar aquela coisa estranha, em que centenas de mulheres e muitos homens cantavam e dançavam pelo fim da violência contra as mulheres no mundo. Acabei a tarde com o nariz a pingar mas com olhos brilhantes e um grande sorriso na cara (os olhos brilhantes podia ser do frio, mas bom, o sorriso não era). Foi a coisa mais sensacional que já fiz fora da minha zona de conforto. O que, tenho noção, não é dizer assiiim tanto. Também tenho a noção que se eu não tivesse lá estado não fazia falta, era só uma entre centenas. Mas se eu não tivesse estado lá, se a rapariga que dançava ao meu lado de sorriso rasgado não tivesse estado lá, se a mãe não tivesse levado a filha de 2/3 anos, se a octagenária que dançou até ao fim não tivesse estado lá, se calhar já começávamos a fazer falta. Pensem que fazem parte de um movimento de milhões, que a esse momento hão-de estar todos a dançar pelo mesmo objetivo. Tem que se começar por algum lado, não é? Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através da perspetiva do divertimento:

É uma flash-mob, gente. Tem coreografia e não há muitas coisas tão fixes de se fazer a 500 como movimentos sincronizados. Ninguém vai saber de cor, haverá tempo para ir aprendendo. É libertador, primitivo mas profundamente libertador, e estupidamente divertido balançar o corpo ao ritmo de uma música sem outro propósito que não a diversão. Sem o propósito de agradar, de atrair, de convencer. Só aquele, de estar ali presente, com aquelas pessoas todas que defendem a mesma coisa. Ide ao Lisboa V-Day. 14 fevereiro. 18h30.

Persuasão através do ataque ao cinismo:

"Eh, realmente o mundo há-de mudar assim, com danças. É a dançar nos vossos países riquinhos de primeiro mundo que se acaba com a violência sobre as mulheres no mundo, realmente." Duas respostas a isto, uma curta e outra longa:

Curta: Bardamerda. Cada um faz o que pode. Ao menos importo-me o suficiente para sair à rua por isto. 

Longa: Isto é um bocado como a história do Dia do Pai, Dia da Mãe, Dia da Mulher, não é? É quando se quiser, é todos os dias, blá blá blá, depois nunca é verdadeiramente. Pelo menos arranjou-se uma maneira, um dia, um evento, um ajuntamento, que faz com que as pessoas reflitam na coisa, se importem, e potencialmente que vão mudando a sua maneira de pensar sobre aquilo. Senão, bom, pelo menos um dia no ano lembrar-se-ão. Um em 365 já não é mau. Em relação à questão da dança, a ideia surgiu através da escritora Eve Ensler ("Monólogos da Vagina") depois de uma visita à República Democrática do Congo e de ter visto a forma como muitas mulheres tentavam curar a dor psicológica e emocional da violência. Há qualquer coisa de primordial na música, quase mágica, todos sabemos. Embalamos os bebés para os acalmar, não é? Cantamo-lhes canções de embalar. Dançamos como diversão. Não está assim tão deslocado o ato da intenção.

Vão, a sério. Mostrem que se importam, e divirtam-se pelo meio. Eu cá estarei em Bruxelas, a dançar também.

Lisboa V-Day AQUI.     






S.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Patriarcado para dummies


"American storytelling is still driven by the assumption that is at the heart of the Western canon: The male experience is the universal human experience, whereas the female experience is specialized, driven by biological factors, the absence of which prevents men from being able to see themselves in female characters."


O que é afinal a igualdade?

Este é um debate fundamental dentro do feminismo e contra o feminismo, e uma palavra que me levou muito tempo a entender. Digo com franqueza e honestidade que ainda não entendo toda a complexidade do seu significado mas há algumas ideias que me parecem já mais ou menos claras. Mas se a emprego constantemente em expressões como "igualdade de género", é bom que tenha alguma ideia do que estou a falar.

Na academia feminista há duas grandes correntes que defendem dois tipos de igualdade diferentes (passo o paradoxo) e que são, de forma simplista:

1. igualdade como "igualdade estrita"

2. igualdade como "sameness"

São uma espécie de rivais e feministas ainda se degladiam entre si sobre qual é a mais desejável e à qual deve o feminismo realmente aspirar. É também uma espécie de luta geracional entre feministas de diferentes vagas, que defendem que a sua luta é melhor e diferente da luta anterior.

1.

A igualdade como "igualdade estrita" é a igualdade mais básica. Foi para ela que lutaram as sufragistas, as feministas da primeira vaga (meados séc XIX - inícios séc XX), e é graças a ela que a mulher na nossa sociedade pode votar, divorciar, não é propriedade do marido, não tem que pedir autorização para viajar para o estrangeiro, pode abrir uma conta bancária, pode abrir um negócio, tem personalidade jurídica, ganha o mesmo que o homem (na teoria), tem as mesmas oportunidades que o homem (na teoria), pode frequentar universidades, etc. Esta é a igualdade de estatuto perante a lei que as mulheres já adquiriram e que portanto leva muita gente a afirmar que a igualdade de géneros está conseguida e a desdenhar do feminismo como consequência.

No fundo, é elevar as mulheres até ao estatuto que os homens gozam perante a lei, é tomar o padrão do que já existe - que é o padrão masculino - e lutar para que as mulheres tenham por direito exatamente tudo igual aos homens. Virtualmente, a ideia é abolir mesmo a questão de género, viver um dia num mundo em que nascer do sexo masculino ou do sexo feminino não implique absolutamente nada de diferente para a vida dessa pessoa. 

Esta igualdade estrita é o que leva tanta gente a interpretar mal o feminismo e a ultrajar-se quando se fala em igualdade entre homens e mulheres. Para estas pessoas, homens e mulheres são biologicamente diferentes, têm papéis sociais diferentes e acham que ainda bem, porque assim o mundo é variado e colorido e interessante. Temem um mundo em que homens e mulheres vistam de forma igual, tenham o mesmo comportamento, os mesmo hábitos e hobbies, gostem todos das mesmas coisas, tenham todos a mesma sensibilidade (ou ausência dela). No fundo, temem um mundo em que as mulheres se transformem em homens. 

Apesar de eu achar que estes receios são infundados, já que as pessoas são todas diferentes entre si, não se vestem todas da mesma maneira, não têm todas o mesmo comportamento, não têm os mesmos hábitos nem hobbies, e não gostam das mesmas coisas nem têm todas o mesmo tipo de sensibilidade, sejam homens ou mulheres, e que o género não devia ter a importância que tem atualmente nem ter uma linha tão marcadamente divisora como ainda tem, comecei a desconfiar que havia alguns buraquinhos nesta teoria. Mas antes de eu o ter sequer sonhado, já há muitas décadas atrás várias feministas o tinham descoberto, analisado, criticado, e teorizado.

2.

Na conferência a que assisti há uns meses sobre o desemprego jovem, houve a apresentação de um estudo interessantíssimo sobre a diferença de níveis de competitividade entre rapazes e raparigas em várias idades de que falei extensivamente aqui. Basicamente, revelava que desde os 5 anos que havia um défice de competitividade nas raparigas, que não era explicado pela sua competência, e mesmo em áreas em que elas até eram melhores do que os rapazes. Resumidamente, parecia haver um caso de overconfidence nos rapazes e underconfidence nas raparigas que não se sabia se era genético ou incutido através de diferentes educações dadas a cada um dos géneros. Na altura, no período das perguntas&respostas, houve uma pergunta que me ficou presa à cabeça e me deixou a matutar (até hoje). Uma eurodeputada húngara levantou-se e perguntou simplesmente: "Mas qual é o mal?" As raparigas são menos competitivas do que os rapazes, mas qual é o problema disso? É assim tão desejável que elas tenham os níveis de competitividade selvagem que pautuam a sociedade atual e que leva a tanta injustiça, stress e rivalidade perniciosa? Porque é que em vez de se lamentar a falta de competitividade das raparigas, não se preza as características de cooperação, diálogo e entre-ajuda que são muitas vezes uma conotação feminina e atribuídas às mulheres em geral? Porquê não lamentar a falta destas características nos homens?

Bom, o apresentador deu uma resposta neutra, qualquer coisa do género que não estava ali a aplaudir ou a criticar a competitividade, o estudo pretendia apenas medir a sua diferença entre rapazes e raparigas desde tenra idade. E que, por pior que fosse a competitividade selvagem e por mais desejável que fosse a cooperação, a verdade é que da forma como o mercado de trabalho está montado, a ausência de competitividade numa pessoa irá prejudicá-la, seja por que a leva a não candidatar a uma vaga de emprego, seja por não exigir uma promoção, seja por não ter a ousadia necessária para criar o seu próprio projeto. Basicamente, competitividade é a essência do capitalismo.

Mas é precisamente aqui que muitas feministas se insurgem. O mundo, tal como está montado, rege-se pelas regras e leis que os homens fizeram e decidiram à sua imagem. A mulher, que entrou nele há relativamente pouco tempo e certamente há menos de um século, que ainda só mais recentemente passou a ser parte ativa na sua construção, teve que conquistar a igualdade segundo as regras já em vigor e segundo o modelo existente, que era - como só podia ser - o modelo masculino. Mas é precisamente por isto que muitas vezes a sua luta e a sua tentativa de conquista falha. Falha porque existem coisas que não estavam previstas, porque não era preciso serem tomadas em conta, no modelo do mundo construído. É por isso que não se sabe ainda bem o que fazer com o aborto, não se sabe bem o que fazer com a licença de maternidade, não se sabe bem o que fazer com o assédio sexual, com os piropos, com o crime da violação, e, durante muito tempo, não se soube bem o que fazer com a violência doméstica. Experiências características do sexo feminino e que foram trazidas para o fórum público a partir do momento em que estas passaram a ser parte ativa do fórum público.

Da frase lá de cima:  "The male experience is the universal human experience, whereas the female experience is specialized, driven by biological factors (...)". 

A experiência masculina é o padrão pelo qual regemos a sociedade, as ideias, o mundo do trabalho, até a linguagem! O Homem, enquanto humanidade, o ele/eles enquanto pronome standard. Imaginem uma multidão de mil mulheres ("elas") e na qual aparece um homem: passam automaticamente a ser "eles". Porquê, se a vasta grande maioria é composta por elas? Pequeno exemplo mas que ilustra muito bem isto do masculino enquanto padrão universal da humanidade. Quando se fala de patriarcado, é disto que se está a falar. O homem como o padrão de "pessoa", "ser humano", e a mulher como, bom, uma "mulher", um ser humano demasiado especializado devido à sua biologia e impossível de ser compreendido pelo "homem" e mais impossível ainda, da sua experiência ser elevada à categoria de padrão.

Isto levar-nos-ia à questão da representação das mulheres nos media, que é generalizadamente tão estereotipada pela sua biologia (ou é como mãe, ou é como objeto sexual, ou é como virgem, tudo muito unidimensional). Mas como não quero ir por aí hoje, fica só aqui isto: 


You go, George. R. R. Martin, you badass story-teller!

É precisamente pela questão do homem como universal, mulher como exceção que muitas feministas reivindicam um outro tipo de igualdade. Uma igualdade que não é "igualdade estrita" mas que é antes "sameness". E eu sei que se formos ao dicionário elas aparecem como sinóminos, mas há uma diferença entre as duas que é crucial. "Sameness" é a minha experiência gozar do mesmo estatuto que a experiência do outro. Entre géneros, isto seria fazer com que a experiência feminina fosse tão válida, tão igual e tão considerada quanto a experiência masculina. A experiência feminina deixar de ser especializada, deixar de ser uma espécie de exceção à regra que é a masculina, e gozar da mesma importância e validade que esta.

Concretamente, um exemplo: a expressão "isso é coisa de gaja!", expelida sempre com o mesmo ar de desdém, deixar de acontecer. Duas coisas estereotipicamente de gajo e de gaja: os mummy blogs e os blogs sobre futebol. Gostos à parte, uns são muitas vezes encarados como coisa de mulheres que não têm mais nada que fazer e portanto nada sérios e motivo de alguma condescendência (mesmo o próprio termo "mummy blogs" transparece esta condescendência), os outros são neutros. Uma coisa ser "de gajo" não é motivo de escárnio nem desdém, é só "de gajo", é neutro.

A Germaine Greer é muitas vezes classificada como uma destas feministas que defendem o "sameness" por oposição à "igualdade com os homens". No seu livro The Female Eunuch ela diz que é ridículo e contra-produtivo a luta pela igualdade de género porque querer que as mulheres sejam iguais aos homens é querer que ela emulem um modelo estragado à partida. E com isto ela não queria dizer que os homens são estragados, queria dizer que a forma como a sociedade foi montada - por homens - tem graves defeitos e que uma mulher tentar vencer nela é obrigada a adotar os vícios e defeitos que a sociedade à partida tem. Acho que isto explica muito sobre as mulheres em altos cargos políticos e porque é que há poucas, e as que há são quase, tão ou piores, que os homens políticos: tiveram que adotar os mesmos comportamentos podres, competitivos e defeituosos para conseguirem vingar nesse boys' club, os mesmos comportamentos que os outros políticos homens adotam e que os fazem ser incompetentes e detestá-los. Ou seja, o problema não seria abrir caminho a que mais mulheres chegassem ao topo (porque depois as que lá chegariam seria as que nunca iriam mudar nada) mas sim transformar o caminho de tal forma que depois as pessoas certas (homens e mulheres) lá chegassem. 

Há mesmo muitas coisas que ainda me intrigam nesta diferença entre "igualdade estrita" e "sameness" e tantas vezes acaba mesmo por me parecer um paradoxo. É um debate que começa a resvalar para a semântica, para a filosofia e para o abstrato, mas é um debate extremamente importante no feminismo e nos estudos de género. Para mim, a igualdade de género é a luta para que não se precise de definir as coisas a partir do género. Ou seja, que uma pessoa possa ser o que quer ser sem o facto de os papéis de "homem" e "mulher" a restringirem nas suas escolhas. (Viram como evitei cobardolamente a questão das igualdades? :P)

Espero que agora este chavão aparentemente tão inócuo e óbvio já faça mais sentido:






S.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Volta man-washer*, estás perdoado

Desta vez foi numa montra insuspeita de uma loja de fotografia algures em Portugal. Vendia também daquelas t-shirts com ditos engraçadolas, e apanhou-me desprevenida. A modos que me gelou o sangue:



Gosto do pormenor de terem escolhido o vermelho para as letras e para o fundo da camisola e o preto para o punhal. Não deixa escapar nenhuma associação com o real. Eu sei que a comicidade deste tipo de t-shirts por vezes é um bocadinho discutível mas isto parece-me que vai longe de mais. Há ainda demasiadas mulheres a morrer às mãos dos maridos/ex-companheiros, a violência doméstica (tanto física como psicológica) ainda faz parte de demasiadas vidas de mulheres, a ciumeira e os comportamentos obsessivos ainda são levados demasiadamente como normais de quem gosta (tanto no casamento como no namoro) para que isto possa ser uma piadinha bem disposta. E, a sério, quem é que usaria isto? Provavelmente não um verdadeiro assassino mas provavelmente alguém que se sentisse bem na pele de um controlador obsessivo (para lhe dar um eufemismo bonito).

Comédia inteligente e negra é uma coisa extremamente fabulosa mas que tem que ser feita com mestria. Há uma linha demasiado ténue entre comédia negra e a básica ofensa gratuita**. Esta t-shirt não conseguiu alcançar a primeira. 




S.

*para quem não sabe, o man-washer é esta preciosidade
**apetece-me muito fazer um post sobre a diferença já há um tempo. Pode ser que esteja para breve.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A política ainda é um gigantesco boys' club


Por ocasião da Primeira-Ministra australiana ser incluída no menu de uma festa da oposição, o the Guardian compilou um Top 10 de momentos estupidamente sexistas da política. Sempre casos em que se vilipendia mulheres no poder por duas razões maiores:

- ou porque são bonitas demais e é um desperdício;

- ou porque são umas cabras do pior e deviam estar caladas/na cozinha/em casa onde ninguém as veja envelhecer.

Tal como nas personagens-tipo dos media, há aqui variações nos insultos dirigidos a estas mulheres. Mas no fundo, são apenas nuances destas duas categorias. Assim, e seguindo a lista do artigo:

- temos o Cameron a lançar um arrogante e condescendente "calm down, dear" a uma deputada da oposição no meio de uma tirada desta. A velha ideia do histerismo de que padecem as mulheres e que foi considerado doença psiquiátrica até à década 50 do séc. XX (curiosamente era uma doença de que só as mulheres podiam padecer). A atitude profundamente condescendente com que muita gente trata mulheres quando estas levantam a voz irrita-me solenemente, particularmente quando se está numa discussão/debate. A mulher como histérica, o homem como assertivo. Atitude direitinha à 2ª categoria;

- ... tenho algumas dúvidas se não devia saltar este. É sobre o Berlusconi. Ora bem, de um "senhor" que organiza bunga-bunga parties e contrata prostitutas adolescentes não se pode esperar respeito pelas mulheres. No entanto, é incrível as coisas que este homem vomita sob a forma de palavras. Entre sugerir que empresas deviam investir na Itália porque lá têm secretárias muito bonitas (que, como toda a gente sabe, são parte da decoração de um escritório; e ainda tiram uns cafés e mandam uns mails como bónus, que catita!), ou que o Zapatero, por ter no seu governo uma maioria de mulheres teria o dobro do trabalho a controlar o seu Executivo (as mulheres são emotivas por natureza, claro está, imaginem umas quantas a governar um país...! Dupla dificuldade de controlo uma vez por mês porque... hormonas!), o Berlusconi oscila em diarreias de "mulheres são eye-candy" e "irra, que cabras!". É um homem que encerra todo um fenómeno sociológico em si mesmo, uma espécie de micro-clima da sociologia.

- entretanto, na África do Sul, a líder da oposição recebe bocas sobre o facto de ser gordinha, interrompem-na no Parlamento para dizer - de forma muito pertinente, claro está - que devia fazer qualquer coisa ao cabelo, e durante o debate do orçamento, e relativamente ao que levava vestido, acusam-na de não respeitar as regras de decoro daquela casa. "Feia, gorda, cala-te, vai para casa, pára de tentar discutir política ao nosso nível." Foi também acusada de ser uma ninguém, uma "tea girl" (se é para arrasar, é para arrasar).

- na mesma nota, a Ministra da Habitação francesa teve que aguentar piropos em forma de assobios (mas está tudo doido?! Mas em que mundo é que vivemos?!) durante o seu discurso na Assembleia Nacional francesa. As desculpas dos assobiadores - que são as mesmas sejam os assediadores homens de fatinho e gravata, líderes de uma nação, sejam homens das obras (querendo isto dizer que não é uma questão nem de educação, nem de classe, nem de idade, é de papéis de género masculino gone wrong) - foram que ela estava a pedi-las porque levou de propósito um vestido que os distraía do que ela estava a dizer e que os assobios eram um tributo a ela, e que portanto, inferindo destas afirmações, ela devia era estar grata e sentir-se muito lisonjeada. Novamente, pergunto: mas que porra de mundo é este?!

- um tweet sobre como uma ex-deputada devia estar caladinha e ser uma boa esposa em vez de responder aos meninos crescidos da Câmara dos Comuns; 

- outra sobre como uma mulher indiana, após 20 anos de andanças na política de alto-nível, ainda tem que ouvir coisas como "fiquei engasgado com a beleza dela" ou como supostos colegas de Câmara não se conseguem controlar e que depois lá fora revelam o que não podem revelar ali dentro. Tudo isto porque foi, em jovem, vencedora de uma concurso qualquer de beleza. Claro exemplo de categoria 1.

- depois, a Presidente sul-coreana, acusada de não ter qualquer espécie de "feminidade" por não ter filhos, nunca ter dado à luz, etc. Mas acusada de não estar à altura de ser comandante das forças armadas por ser mulher e não ter experiência na matéria. (Ou seja, cabra mas não cabra o suficiente, aparentemente.)

- na mesma nota, a famigerada Primeira-Ministra australiana, vilipendiada por não ter filhos e que portanto é uma pessoa fria, coração de pedra, e que como pode uma mulher assim ter empatia suficiente para governar um país. A ideia pelos vistos ainda extremamente enraizada de que uma mulher que escolhe deliberadamente entre filhos e carreira é uma aberração.

- entretanto, piadinha no Chile sobre como as mulheres não sabem o que querem, e que quando dizem "não" querem dizer "sim", umas indecisas. (Acho, de todos os mitos sobre géneros, este o mais perigoso. É ele que vai perpetuando o que muitos apelidam de "rape culture", e de que a vítima tem sempre qualquer dose de culpa, porque estava a pedi-las, porque tinha uma mini-saia justa, porque estava bêbeda, porque foi por aquele caminho sozinha, porque mandava supostos "sinais". "Não" significa "não", não significa "talvez", nem é um convite para mudança de ideias. Mas esta conversa leva-me por um caminho muito extenso, que não é para percorrer hoje).

- finalmente, a Hillary Clinton. Essa teve que ouvir repetidos gritos de "vai-me passar a camisa a ferro!" durante um comício durante a corrida às presidenciais norte-americanas de 2008 e é constantemente apelidada de histérica, estridente, e cabra. Mesmo assim, com as letras todas: b-i-t-c-h. Pessoas tipo Glenn Beck e Rush Limbaugh (que eu não sei como ainda estão autorizadas a respirar) que dizem sem vergonha nem escrúpulos nenhuns que ela é "o estereótipo de cabra" e que seria um inferno para todos os homens americanos durante quatro anos se ela ganhasse as eleições para Presidente. Mais: que era uma coisa horrorosa ver uma mulher envelhecer diariamente à frente da nação toda. ... E é nestes momentos que uma pessoa chega a conclusão que quais sexismos subtis quais quê, o machismo violento e desavergonhado está bem e recomenda-se neste nosso mundo ocidental. E que estas criaturas podem não ser representativas dos EUA mas que têm uma base de fãs demasiado alargada para que eu possa restaurar a minha fé na Humanidade a 100%.

Acho que isto dava uma investigação de doutoramento tão frutífera, estudar de que forma a misoginia está infiltrada no debate político. Mas depois talvez quatro anos não fossem suficientes para o levantamento de exemplos.





S. 


terça-feira, 23 de abril de 2013

Essas cobras que só pensam é na carreira

Baseado neste artigo do The Guardian "Doubts over childcare 'expert' feted by Tories"

A lengalenga do costume de que as mães que trabalham nem são dignas desse nome. Mas desta vez com um twist muito giro: o tiro saiu-lhes pela culatra.

A sério, velhos preconceitos revisitados tiram-me do sério.

O governo britânico está com sérias e aplaudíveis intenções de reformar profundamente o sistema britânico de childcare. Considerando que li há pouco tempo - ainda que não me lembre onde - que Inglaterra, e mais propriamente Londres, era o sítio da Europa onde o peso financeiro de ter uma criança na creche era mais elevado, parece-me uma intenção de louvar. Ao que parece, querem reformular totalmente o sistema de licenças de maternidade/paternidade/parental e, inspirando-se no modelo nórdico, criar uma única licença, chamada parental, em que as primeiras semanas seriam para a mãe e o resto do tempo seria para ser dividido como os pais bem entenderem. Pessoalmente, e em nome de uma verdadeira reconciliação trabalho-família que inclua também os homens, fiquei muito satisfeita. Se bem que, se o passado ensinar alguma coisa, é que os meses de licença parental para serem divididos como os pais bem entenderem vai ser código para "mulheres tiram o resto dos meses e aquilo passa na prática a ser licença de maternidade na mesma". Mas isso é outra linha de discussão que não queria seguir hoje.

Hoje é sobre as creches, ATLs, atividades extra-curriculares, etc. O compreensivo e muito útil termo "childcare". Esta é também uma das áreas cruciais nisto da conciliação trabalho-família que o governo britânico almeja alterar. E os fazedores-de-políticas, quando querem mudar alguma coisa, encomendam estudos de impacto, estudos de benefício-prejuízo, ouvem especialistas, são pressionados por grupos de interesse disto e daquilo, decidem. Gosto mesmo muito deste processo, foi sobre ele que versou a minha tese-bebé e continua-me a intrigar e a fazer cócegas a inteligência. E foi precisamente a escolha terrivelmente má de um "especialista" que me deixou a espumar durante algum tempo após ler uma notícia.

Uma deputada Conservadora, sem dúvida lobbyada pelo grupo Mothers at Home Matter (os verdadeiros patrocinadores do evento) organizou uma espécie de conferência no Parlamento britânico sobre os males que as creches provocam nas crianças. Para tal convidou um "especialista" sobre o assunto, o senhor Jonas Himmelstrand, para botar faladura sobre como as creches estão a destruir a sanidade mental dos adolescentes suecos. Porque o senhor é sueco - vejam bem o brilhantismo da estratégia, levar ali um insider para dizer como afinal um dos países com o melhor sistema de childcare do mundo (entre tantos outros indicadores sociais) não passa afinal de um grande embuste - portanto sabe, claro. 

Claro que os jornais conservadores, como o Daily Mail e o Daliy Telegraph, bateram todos muitas palmas, louvando este senhor e os seus achados (que não são seus mas já lá vamos), apontando o dedo acusador a essas estúpidas mulheres modernas que querem ter tudo e fazê-las ver que, oh! estão a fazer mal aos vossos filhos, suas cabras insensíveis, e que os males todos da sociedade estão na sua ausência de instinto maternal e nos vossos corações de pedra, porque querem é laurear a pevide em vez de voltar a casa e à cozinha, como é vosso destino inevitável.

Só que entretanto, houve um ou outro jornalista que se deve ter lembrado de googlar o senhor especialista, e o "instituto" a que este pertencia. Se calhar até houve um jornalista mais maluco que se atreveu a ler o estudo original que o senhor "especialista" tão mal citou. E depressa descobriu que era só trafulhice atrás de trafulhice. O autor do estudo - o VERDADEIRO especialista e quem devia ter sido convidado em primeiro lugar, já agora - veio logo negar que houvesse alguma ligação entre creches e menor saúde mental na adolescência. Disse até que essa foi uma causalidade particularmente investigada no estudo em questão e que não tinham descoberto qualquer relação. E outro psicólogo, também mal citado pelo "especialista", quando contactado pela imprensa britânica, referiu que, aliás, tinham era comprovado - mais uma vez - que tempo passado em creches de qualidade é benéfico para o desenvolvimento cognitivo/comportamental/social da criança, mesmo de tenra idade. E que um "especialista" ir a público debitar dados ao calhas e tirá-los do contexto e do estudo era extremamente não-cientifico e irresponsável. Eu acrescentaria perigoso também, já que a deputada que o organizou é a conselheira sobre infância e parentalidade do David Cameron e o Ministro do Trabalho estava na audiência. 

Ao que parece o "especialista" diz que não tem curso superior nenhum, que foi "self-taught" (isto faz-me lembrar a piada do "aprendi com a Escola da Vida") mas que também nunca disse que tinha curso. Mas que se apresentou como pertencente ao Mireja Institute, que por acaso só tem um membro e que é ele próprio. 

A sério, isto consegue tornar-se mais ridículo?

Entretanto lá contactaram o Mothers at Home Matter para comentarem estes achados, já que o evento foi deles e o convidado também. Depois de uns protestos muito informados, que nã, nã, a investigação do "especialista" era "all based on proper scientific figures" lá acabaram por balbuciar um  "He travels the world speaking on these issues, so I guess there must be some credibility to these figures," que é o equivalente a "se ele diz é porque deve ser". Argumento à prova de bala, como se sabe.

Entretanto eu fui ao website do Mothers at Home Matter e aquilo parece tudo muito razoavelzinho. Insistem em que o ficar em casa devia ser considerado uma opção válida na sociedade de hoje, que queriam dar voz às mães que escolhem ficar em casa com os filhos, etc. Mas é a insistência na palavra "mãe" (em vez de parent. Se é de amor que elas falam que a criança precisa, porque é que tem que ser a mãe a ficar? O pai não tem o mesmo amor incondicional?), é o nome do grupo, é o demonizar das mães que têm emprego através destas conferências pseudo-cientfícas, é o trazer de volta o velho argumento de que as mulheres, simplesmente não podem ter tudo. Não podem. E quando tentam, dão-se mal. E estragam os filhos pelo caminho. Fazem isto tentando provar aos fazedores-de-políticas que as creches são más para as crianças, que ao invés de se encorajar as mulheres a manterem-se no mercado de trabalho deve-se é aconselhá-las a parar duas décadas e não pensar em mais nada que no bem-estar de outrém durante esse tempo porque, convenhamos, no fundo, no fundo, é esse o seu destino biológico.

Eu podia citar aqui um sem-fim de estudos que mostram que o investimento nas creches é fator decisivo na escolha que as mulheres fazem de continuar a carreira profissional ou ir para casa após o nascimento dos filhos. Porque, sejamos realistas, com creches a 1500 libras por mês por filho, como é que uma mãe escolher ficar em casa com os filhos é uma verdadeira escolha? É somente racionalidade financeira.

A flexibilização de horários também seria fundamental, e da mudança de mentalidades de uma vez por todas de que mais horas de presença física no escritório equivalem a mais trabalho feito. Mas isto, na minha opinião, só tem o efeito desejado se for flexibilização para todos os trabalhadores, quer sejam homens quer sejam mulheres. Senão as consequências negativas caem todas em cima das mulheres: são elas que são olhadas de lado por sairem mais cedo do escritório, por trabalharem menos horas (sem mencionar o facto de que trabalho part-time significa menos descontos sociais, logo menos benefícios de segurança social em caso de doença, desemprego e menos pensão a receber na velhice), por terem que tirar mais um dia para ir com a criança ao médico. E se continua a ser a mulher a alombar com o trabalhinho doméstico, em cima do horário de expediente que já leva profissionalmente, voltamos à conversa de que um dia ela mandar um berro e decidir ficar mas é em casa com os filhos se calhar não é verdadeiramente uma escolha livre.

O texto já vai longo e eu sinto que só toquei na pontinha do iceberg e havia tão mais para ter dito. A questão da conciliação trabalho-família apaixona-me e estou mesmo convencida que nas sociedades europeias, é um dos grandes problemas a acertar para corrigir isto da desigualdade entre géneros. É onde as mulheres ainda perdem por tanto e as impede de se realizarem em ambas as frentes. É onde tantas vezes maldizem o feminismo e as feministas da 2a vaga, por lhes terem feito acreditar que podiam ter tudo e ser tudo, e afinal é impossível. Para mim, as feministas deixaram a luta incompleta, ao terem levado a mulher para o mercado de trabalho mas esquecendo-se de trazer o homem para dentro de casa. E por terem lutado apenas para que a mulher singrasse na sociedade sem lhe mudar as regras. O mercado de trabalho, como está organizado, simplesmente não foi pensado para que os dois pais sejam ganha-pão. O seu modelo ideal é o ganha-pão + dona-de-casa, ou quando muito, ganha-pão + part-timer

Eu não tenho estas preocupações de conciliação portanto acredito que haja muita mãe que possa estar a pensar "quando fores mãe vais ver" ou "não cuspas para o ar que te acerta na testa" ou "eu também pensava assim mas quando o meu mai' novo nasceu mudei completamente de mentalidade". Pois, está bem. Logo veremos. O que não suporto é que se demonize uma política que funciona, e que ainda por cima parece que até tem é benefícios para a criançada, para validar um estilo de vida que escolhemos (escolheram mesmo, livremente?) e nos sentirmos superiores.

Sinceramente, desejo muita clarividência e boas escolhas aos fazedores-de-políticas Conservadores britânicos, que se deitaram ao caminho tortuoso de modificar tão complexa parte do welfare state. Eu cá acompanharei com atenção os desenvolvimentos. Quem sabe, podem-me dar ideias com cheiro académico...




S.

sexta-feira, 8 de março de 2013

M de quê, mesmo?

Estava preparada para chegar a casa, ligar o computador e escrever um post meio-zangado, meio-irónico sobre tudo o que não é o dia internacional da mulher. Mas depois li isto, pousei a minha caneta virtual e pensei "Caraças, nunca vou conseguir escrever coisa tão aproximada à minha perspectiva deste dia como isto!..." 

Aqui fica, por isso:


Não para todas, felizmente, mas para muitas mulheres este é o dia em que finalmente conseguem aqueles miminhos extra. Terão andado nos últimos quinze dias a fazer referências subtis a pulseiras, anéis, sapatilhas, relógios e até a fins de semana completos nos paraísos da Terra. É o dia em que confirmam que os seus mais-que-tudo não se esquecem delas, seria imperdoável não as recompensarem como deve ser por fazerem pequenos-almoços soberbos com o que não lhes falta no frigorífico, por manterem limpos e saudáveis os filhos que puderam escolher ter, por terem corrido mais de cinco quilómetros por dia e assim terem abatido as calorias dos bombons e outras iguarias pecaminosas que facilmente adquirem numa lojinha gourmet, por conseguirem aguentar o emprego que conseguiram e (apre, que fantásticas!) ainda assim se manterem bonitas, bem vestidas, com o cabelo arranjado e sempre prontas para uma noite de amor.
Outras há a quem bastaria, ainda que por um dia, não serem apedrejadas por pintarem as unhas. Seria um mimo, um grande mimo, uma recompensa por andarem o resto do ano a tentar sobreviver ao inferno. Não podemos mudar isso, é certo, mas podíamos, ao menos, fazer um esforço por não ofender nem insultar com esta opulência em que nos viciámos e que nos tolda as vistas. Calarmo-nos caladinhas e não adulterarmos o sentido e o princípio da homenagem. O dia da Mulher não existe para masturbação. Existe para dignificar. 


De um dos meus blogs absolutamente favoritos: Mãe Preocupada.



S.

sexta-feira, 1 de março de 2013

O Parlamento Europeu veste-se a rigor



O Parlamento Europeu prepara-se para assinalar o dia. A grande conferência alusiva à igualdade de género este ano calha no dia 7 e intitula-se: "Women's Response to the Crisis" e conta com apresentadores de várias áreas e países que vão demonstrar de que forma a crise europeia e as medidas de austeridade estão a afetar desproporcionalmente as mulheres e, consequentemente, as crianças europeias. 

Ainda não sei se vou. Muito provavelmente vou estar a trabalhar e, muito honestamente, não é um tema que me suscite especial interesse.

Vou continuar de antena no ar para captar mais eventos do género por Bruxelas.



S.    

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A dança do bilião

Quando, há umas semanas, o D. me diz: "Dia 14 vou ver o Benfica a Leverkusen", a minha primeira reação foi "Está bem." Mas depois lembrei-me: "Espera lá, dia 14 é Dia dos..."





"A sério? Vais ao estádio no dia dos namorados? Numa saída de amigos? Quão cliché é isso, pá?"

Mas depois lembrei-me das minhas raízes feministas, e que mais cliché do que ir ver bola com os amigos no Dia dos Namorados é ser a namorada que fica aborrecida com isso, por isso esta foi a minha verdadeira reação:






Entretanto, andava a matutar sobre que iria fazer no Dia da Mulher que se aproxima. Há um ano, graças ao estágio no PE, estava em lugar privilegiado para assistir a todas as conferências e mais alguma sobre o tema. Precisamente no Dia da Mulher, tive a oportunidade de assistir a um debate muito interessante sobre a igualdade salarial entre homens e mulheres na UE. Por isso, e como sei que a as instituições europeias são devotas à igualdade de género, a primeira coisa que me ocorreu foi ir pesquisar o que o Parlamento Europeu tinha agendado para este ano.

Em caminho descobri a campanha do One Billion Rising. O título baseia-se na estimativa de que uma em cada três mulheres será, algures durante a sua vida, violentada, abusada ou violada.

Uma em três.

Isto traduzido em números dá 1 bilião. Não sei o que dá melhor compreensão da extensão do flagelo da violência contra as mulheres, se o número 1 bilião ou se a fração 1 em 3. Uma coisa é certa: são demasiadas.

Pelo que consegui saber, o Lóbi Europeu de Mulheres - aka o meu sonho de emprego - estava a organizar uma flashmob no dia 14 de fevereiro ao fim da tarde em Bruxelas como parte desta campanha mundial contra a violência contra as mulheres. Havia ensaios de coreografia e tudo, e todo um código de vestimenta para participar nessa mobilização.

Quatro coisas conspiraram para que eu considerasse que essa flashmob puderia ser o serão perfeito para o meu Dia de S. Valentim:

1. Estava de folga àquela hora naquele dia;

2. Assim como assim iria estar sozinha em casa sem nada de especial para fazer;

3. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa nesta cidade, porque só assim me consigo integrar;

4. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa no que diz respeito aos direitos das mulheres, porque só assim  consigo conhecer pessoas que partilham a minha visão e os meus interesses e os desenvolvo. A Beauvoir é boa companhia mas também preciso de conviver com gente viva.


Uma coisa conspirou para que a flashmob ao ar livre se tornasse uma má ideia:

1. O tempo.


Depois da hora do almoço começou a chover e no meu boletim meteorológico habitual até figurou um novo tipo de tempo: freezing rain. E que é freezing rain? Portanto, não é neve, não é chuva normal, também não é granizo... O que é? Pode-se sempre contar com Bruxelas para inovar no que aos códigos de meteorologia diz respeito. Comecei a temer que a chuva estragasse os meus planos de manifesto feminista.

Decidi ir. Está a chover, que se lixe. Se não fizer nada porque está a chover bem que posso ficar todos os dias em casa. E se está 1 grau, veste-se mais um casaco e siga.

Quando cheguei à Place Monnaie, o ponto de encontro da campanha e onde iria acontecer a dança, fiquei surpreendida com a quantidade de pessoas. Não estava à espera de ver a sala tão composta:




A minha postura demasiado auto-consciente e mais passiva do que gosto de admitir, levou-me a instintivamente procurar um lugar de observadora, e por isso fugi lá do meio e fui-me posicionar estrategicamente entre as colunas do edifício (também queria estar numa posição privilegiada para fotografar e filmar, confesso).

Entretanto, a música começa e o pessoal começa a coreografar:




Não conhecia os passos, mas a beleza das multidões é que se apanha o ritmo instintivamente, e começa a tornar-se impossível ter os pés quietos. Isso e o frio; não há nada como tirar o pé do chão para evitar que um membro nos caia, de dormente que está.

Foi muito inspirador. E superou as minhas expectativas. Não tanto pela música e pela flashmob propriamente dita, os pretextos para o ajuntamento e o grito de revolta, mas pelos pequenos detalhes que vi: as amigas que vieram juntas e que gritaram mais que todos os outros; os cartazes contra a violência; a mãe que levou a filha de um ano e que encorajava a bebé a dançar ao meu lado, e que foi bem sucedida (mais uma prova de que o ritmo de multidões a dançar é contagiante) e que me trouxe lágrimas aos olhos, porque sim senhora, de pequenino é que se torce o pepino, e assim é que é, educar a filha a ter orgulho em ser mulher, sem ser apenas no mais banal da aparência; na velhota de fartos caracóis loiros que entretanto apareceu lá no meio a bambolear e a curtir a música como as raparigas de 20 anos, e que me levou a um grito interno de "Quando eu for grande quero ser assim!"; os homens que apareceram e que se juntaram ao protesto, numa posição de respeito pelas mulheres da sua vida.

Entretanto a flashmob acabou, começou música para animar e aquecer o pessoal ("Vous êtes CHAUDS?" Então não estamos, senhora apresentadora...) e eu decidi sair do meu poleiro e ir mirar as barraquinhas com informação sobre a campanha. Uma senhora entregou-me isto:




Nada mais nada menos que um panfleto sobre aulas de defesa pessoal, defesa verbal, e grupos de auto-ajuda e aconselhamento sobre como as mulheres se podem sentir mais seguras. Quão bad ass, meu deus!

Isto fez-me lembrar um argumento que a Beauvoir faz n'O Segundo Sexo, sobre a relação entre a passividade a que são devotadas as mulheres e o seu sentimento de fragilidade e insegurança. Segundo ela, é necessário que as mulheres participem em atividades físicas, não lhes seja travado o impulso de subir às árvores em criança, de correr, de saltar, de puxar o limite dos seus corpos. Só experimentando o corpo, mexendo-se e raspando joelhos é que a mulher, tal como o homem, ganha consciência do que é capaz, e que as suas conquistas físicas e a boa relação com o seu corpo lhe dão a auto-estima necessária para dizer na sua vida: "Eu sou capaz" e a colocar-se a si própria objetivos mais altos. Eu vou desconfiando que ela tem razão.

Sem saber muito bem como nem porquê, dei por mim no meio da multidão, e a mexer o pé devagarinho. Passados cinco minutos era ver-me aos saltos como uma maluca, a dançar como raramente aproveito, e com um sentimento de irmandade a invadir-me os sentidos. Fala-se tanto da rivalidade entre mulheres, e como as amizades entre raparigas são sempre tão cheias de intrigas, e como é tão difícil trabalhar com mulheres porque são umas cabras umas para as outras, que foi mesmo bom sentir e presenciar a refutação desse mito: o que ali vi foi mulheres a partilharem a felicidade genuína e o sorriso fácil que vem da dança e do mexer o corpo sem qualquer propósito que não o da diversão: sem o propósito de agradar, sem o propósito de seduzir ou sequer rivalizar. Mexer ritmadamente e ao som de música dançante simplesmente porque é divertido.

Fiquei parva comigo mesma; estava a gostar genuinamente de estar ali a dançar!... De notar que eu fujo da discoteca e da noitada como o diabo da cruz. Fez-se mais uma vez a flashmob e eu entrei rapidamente na coreografia, no meio da multidão e sem qualquer preocupação no mundo.

A sessão de anti-self-consciousness fez-me definitivamente bem à alma.

Agora estou aqui sentada no sofá, no quentinho e no silêncio do lar, de pernas dormentes porque levaram dose puxada de abuso hoje - para além da caminhada habitual de commuting de uma hora, ainda me levaram até à Place Monnaie e aguentaram uma hora a pular como se não houvesse amanhã. Mas estou satisfeita, de sorriso nos lábios e com vontade de me envolver em mais coisas destas. Que venha o dia 8 de março!







S.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Beauvoir explica

Com muita pena minha e após muita pesquisa, descobri que a obra-prima da Simone de Beauvoir não existe em livro eletrónico - nem para fazer download nem para comprar. Teria sempre que comprá-lo em papel, portanto. Primeiro decidi que o iria requisitar numa biblioteca aqui da cidade; estou num país francófono, ora que bolas! (bom, parcialmente, pelo menos). Mas depois cheguei à conclusão que teria mesmo que o comprar já que este é um livro que tenho que ter, para ler, voltar a reler, folhear, ir clarificar qualquer coisa.

Por altura do Natal, deparei-me com isto, que me alertou para uma livraria de livros em segunda mão, a caminho do meu trabalho:



Ali estava uma boa oportunidade para obter o livro de forma baratinha.

A livraria era enorme - o que não deixou antever antes de entrar - e tinha filas e filas de prateleiras cheias até ao teto. Pus logo de parte a ideia de procurar o livro sozinha e assim que perguntei ao livreiro se tinha obras da Beauvoir, ele encaminhou-me para uma estante tão insuspeita quanto as outras todas (maravilha-me o facto de os livreiros saberem sempre exatamente onde estão os livros, qualquer um que se peça, mesmo quando o sistema de organização das obras não é nada explícito).


Eram dois volumes e estavam agarrados por um elástico. E custaram 5 euros, os dois. Que achado!

Devo confessar que a minha excitação por ir começar a ler esta obra-prima do feminismo era de equivalente proporção ao meu medo que isto fosse um livro ideológico, dogmático, um manifesto. Eu gosto mesmo muito do feminismo, mas não gosto de bíblias. Aceito as premissas do feminismo, essa da igualdade entre géneros, mas gosto de saber porquê, que me expliquem as coisas, que me as argumentem logica e racionalmente, sem dogmas e sem credos. Por isso mesmo parti um bocadinho de pé atrás para esta leitura que esperava muito que fosse elucidatória.

Digo agora de consciência muito tranquila e até aliviada que os meus receios eram completamente infundados. Beauvoir antes de ser feminista é filósofa e portanto todo O Segundo Sexo é um discorrer lógico de pensamento. Não há uma pontinha de dogma na obra que muitos apelidam de a Bíblia do Feminismo.

O ponto central da obra é descobrir porque é que a mulher, em toda a História e em todas as sociedades humanas, foi invariavelmente subjugada pelo homem, relegada para um papel secundário, inferior, como segundo sexo, arredada da construção do mundo. A autora explora várias teorias que se debruçaram sobre este fenómeno, como a psicanálise e a inveja do pénis, o materialismo histórico e a importância da produção no valor do homem, etc. Nenhuma delas, no entanto, consegue explicar na totalidade a subjugação da mulher. Todas parecem incompletas. Até a História, por não conseguir apontar o momento ou o acontecimento que relegou a mulher para segundo sexo, não consegue dar uma resposta satisfatória. Mas depressa Beauvoir chega à conclusão que:

"Sempre houve mulheres; elas são mulheres pela sua estrutura fisiológica; tão longe quanto a História consegue alcançar, elas foram sempre subordinadas ao homem; a sua dependência não é a consequência de um acontecimento ou de algo que surgiu."

"Il y a toujours eu des femmes; elles sont femmes par leur structure physiologique; aussi loin que l'histoire remonte, elles ont toujours été subordinées à l'homme; leur dépendence n'est pas la conséquence d'un événement ou d'un devenir, elle n'est pas arrivée." 

Ou seja, isto deixa antever que há algo inerente à fêmea humana que explica a sua condição subalterna. E foi aqui que eu tremi. Não estava bem a compreender onde é que a Simone ia parar indo por esta linha de pensamento abaixo. Fraqueza inerente? Isto cheira precisamente à misogenia que durante séculos manteve a mulher subjugada: "A mulher é naturalmente mais fraca que o homem, tem perturbações de humor, é histérica, é emotiva, é uma incapaz, é melhor deixá-la lá estar sossegadinha no lar. É para bem dela."

Simone envereda pois pela biologia. Vai tentar descobrir onde está a característica que terá que ser comum a todas as fêmeas humanas e que explica o "ser mulher". Rapidamente descobre que só o facto de ser fêmea não explica que a mulher tenha que ter uma posição subalterna ao homem; na Natureza e entre as outras espécies tal não se verifica. Sim, geralmente as fêmeas são mais pequenas do que os machos, menos fortes, e têm obviamente uma função importante na continuação da espécie. Mas estão par a par com os machos; ou seja, funções diferentes sim mas equivalentes. O que não acontece com as sociedades humanas: a mulher, relegada para o lar e para a função reprodutora, tem um papel manifestamente secundário na sociedade (de notar que o livro foi lançado em 1949, e enquanto toda a argumentação é perfeitamente válida hoje, o papel da mulher mudou bastante nestes últimos 60 anos).

Então o que é que a autora descobre? Uma coisa surpreendente na nossa biologia. Nenhuma outra fêmea, na Natureza, está tão escravizada à sua função reprodutora, à sua espécie, portanto, quanto a fêmea humana. Beauvoir enumera: 

- nenhuma outra espécie tem a possibilidade de engravidar todos os meses - se pensarmos nos cães e nos gatos, estes têm, o quê? dois ou três cios por ano, enquanto uma mulher está condicionada pela sua função reprodutora doze vezes por ano; 

- nenhuma outra espécie tem uma semana de relativa alteração hormonal todos os meses fruto do seu ciclo reprodutor que é, lá está menstrual, e que, consoante a intensidade é mais ou menos incapacitante;

- nenhuma outra espécie dá tanto de si, biologicamente, durante a gestação. A gravidez é nas humanas uma condição que lhe suga literalmente elementos indispensáveis à vida;

- nenhuma outra espécie sofre tanto com o parto como a fêmea humana.

Daqui a Simone retira que a mulher é, fisiologicamente, uma escrava da espécie. E que esta escravidão constitui o busílis da questão da sua inferioridade na sociedade:


"A razão profunda que no advento da História relegou a mulher ao trabalho doméstico e a interdiu de tomar parte na construção do mundo, é a sua escravização à função geradora."

"La raison profonde qui à l'origine de l'histoire voue la femme au travail domestique et lui interdit de prendre part à la construction du monde, c'est son asservissement à la fonction génératrice."


Isto era tudo muito bonito, diz ela, na altura em que o homem caçava para comer, esculpia as suas ferramentas, e sobrevivia apenas. Aí a mulher tinha, como qualquer outra fêmea na Natureza, a tarefa de gerar. Mas esta era tão válida quanto a da caça, já que ambas se destinam à perpetuação automática da espécie. É a partir do momento em que o homem começa a modelar o mundo, a explorá-lo, a domá-lo, a desbravar terras e a cultivá-las, que o seu papel ganha uma transcendência impossível até aqui e que a fêmea humana, pela dupla razão da sua escravização à função reprodutora e por ser geralmente mais fraca que o macho humano, é relegada para a caverna de forma definitiva:

"A fecundidade absurda da fêmea impede-a de participar ativamente no crescimento dos recursos uma vez que ela (a fecundidade) cria indefinidamente novas necessidades."

"La fécondité absurde de la femme l'empêchait de participer activement  à l'acroissement de ses ressources tandis qu'elle créait indéfinemant de nouvelles besoins."


Beauvoir chega a interrogar-se no entanto porque é que mesmo assim a mulher não gozou de uma posição igual ou mesmo superior ao homem precisamente pela sua capacidade de gerar vida; se há coisa mágica e geradora de inspiração e maravilhamento é a capacidade de onde só havia um, passar a haver dois. Mas ela depressa descobre porquê:

"É arriscando a vida que o homem se eleva acima do animal." - Ou seja, o homem adquire o seu valor enquanto Homem quando arrisca a vida, quando empreende, quando desbrava o mundo.

"Se en risquant sa vie que l'homme s'élève ao dessus de l'animal." 

"Gerar, amamentar, não são atividades, são funções naturais; nenhum projeto é aqui empenhado; é por isso que a mulher nunca encontrou aí motivo de uma afirmação superior da sua existência; ela apenas se submete passivamente o seu destino biológico."

"Engendrer, allaiter ne sont pas des activités, ce sont des fonctions naturelles; aucun projet n'y est engagé; c'est pourquoi la femme n'y trouve pas le motif d'une affirmation hautaine de son existence; elle subit passivement son destin biologique."

Isto é quase como levar uma chapada na cara. Tão acutilante, tão sem-misericórdia, tão cru, tão racional, tão... controverso. Mas tão lógico e tão clarificador. Explica duas coisas fundamentais da condição da mulher:

1. O historial de subalternidade, desde sempre e em todas as sociedades sem exceção;

2. Porque é que só agora, há pouco mais de 50 anos, é que se tem assistido a uma verdadeira alteração no papel fundamental da mulher. Numa palavra: pílula.

Pela primeira vez na História, a mulher domina o destino a que a espécie a devotou ao controlar quando, como e onde será (ou não) mãe. Só agora a sua participação ativa no mundo, na produção e no conhecimento é possível:

"Um dos problemas essenciais que se colocam à mulher é a conciliação do seu papel reprodutor com o seu trabalho produtor."

"Un des problèmes essentiels qui se posent  à propos de la femme, c'est la conciliation de son rôle reproducteur et de son travail producteur."


Dei pulos de contente quando desenredei todo este pensamento; eu sabia que a minha suspeita de que a conciliação trabalho-família é o grande obstáculo para a igualdade de género na Europa era fundada!

E pronto, chega assim ao fim o ponto central e fundamental d' O Segundo Sexo. Não é o único, bem entendido: falta o papel da religião, a explicação da sexualidade diferente, e as consequências que séculos de relegação para papel inferior tiveram (e ainda têm) no que é "ser mulher" e em como a mulher se vê a si própria. E ainda há todo o papel fundamental que o Cristianismo teve nisto tudo.

Fica para futuros posts.

Por agora, ficarei muito contente se tiver feedback, seja ele do género "isto não faz sentido nenhum" ou "sim senhora, muita lógica" ou ainda "faz sentido mas discordo aqui e aqui". Como diz o outro, é a falar que a gente se entende.



S. 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Agarra que é feminista

Ainda mal o comecei, mas a avaliar pelo tempo que tem estado a marinar na minha mente e pelo número de vezes que já tive ganas de o lançar, este post vai levar tempo a ser escrito. Por mim, tudo bem; tenho o fim-de-semana todo pela frente.

Já por duas ou três vezes toquei no assunto, quase sempre relacionado com os meus estudos. Mas a igualdade de género tem vindo a adquirir uma parte demasiado grande dos meus pensamentos, da minha perspetiva da vida e do mundo, e do que eu quero fazer no futuro. Merece, pois, ocupar um espaço maior na minha escrita. 

Este blog é por vezes demasiado ligeiro, com mais aleatoriedades, reviews de chás e baboseiras sobre chocolates quentes do que eu me atrevo a admitir e, tirando um ou outro post sobre considerações mais profundas sobre o futuro - o meu futuro, entenda-se - não relata nenhuma das minhas lutas interiores de convicções. E o feminismo, como já se viu, é talvez a maior delas. Não era, mas de há uns anos para cá tem vindo a rastejar sorrateiro pelos meus sentidos, fazendo cócegas à minha inteligência, suscitando mais dúvidas do que esclarecimentos, mas trazendo à baila uma lógica muito diferente do senso comum mas que faz tão mais sentido ao que observo à minha volta todos os dias.

Já aqui tinha dito uma vez como as questões de igualdade de género me suscitaram interesse pela primeira vez. Lembro-me perfeitamente de em 2007, por altura da assinatura do Tratado de Lisboa e quando Portugal detinha a presidência do Conselho Europeu, me ter vindo parar às mãos uma capa com panfletos sobre a Presidência, com um cd pequenino que continha as prioridades políticas de Portugal para a Europa, e uma delas ser distintamente a continuação da luta pela igualdade de género. E lembro-me de achar aquilo surpreendente e maravilhoso ao mesmo tempo, sem saber ainda explicar bem porquê. Uma espécie de gut feeling me dizia que aquela era a direção certa a seguir.

Entretanto, a minha paixão, curiosidade e ambição pela União Europeia definiu-se e apurou-se, e numa das minhas leituras anteriores ao ingresso na King's, descobri logo que a minha dissertação final de Mestrado teria que versar sobre direitos das mulheres. E versou. Desde então, vi-me obrigada a ler muito na área, aprender ainda mais, descobrir os variados campos onde a igualdade de género ainda não é uma realidade (todos. Menos o da lei, talvez. Mas os hábitos, como se sabe, são sempre os últimos a mudar) e conciliar a minha visão académica com a minha visão feminista.

Agora que olho para trás é que me apercebo como os dois campos da igualdade de género que sempre me fizeram borbulhar mais o sangue foram precisamente os que escolhi como trabalho/estudo: 

- a violência, doméstica mas não só, contra as mulheres, que foi o que impulsionou a minha intenção de estagiar na APAV. Normalmente, eu sou uma pessoa muito serena, controladinha nas suas emoções e ações, no domínio sobre mim, e por isso mesmo lembro-me perfeitamente de ver o Bordertown, e acabar o filme a soluçar, cheia de calafrios e um horror que me abanou até à alma. E pensar: "Isto não é normal. Se eu não tenho nenhum trauma de violência, como é que é possível isto me afetar desta maneira?". E chegar à conclusão que ali estava a única e verdadeira causa com a qual eu alguma vez me podia indignar a sério, ao ponto de agir.

- a divisão do trabalho doméstico. Esta agora metida assim por baixo da da violência até parece um bocado mal, pontos diferentes de gravidade, se calhar... Mas se há coisa que sempre me mexeu com os nervos foi a questão de levar a roupa, fazer o jantar, fazer a cama, ir às compras, mudar fraldas, dar biberões, ir pôr à escola, passar a ferro, etc etc serem coisas de mulher. Como é que num casal onde ambas as pessoas trabalham fora de casa continua a ser da responsabilidade da mulher? Como é que isto parece justo seja a quem for? Também a propósito disto, lembro-me agora de uma professora de História no 10º ano, que não tinha mais de 30 anos e dona de uma energia contagiante, relatar muito bem-disposta que não senhor, lá em casa fazia-se tudo a meias, ela cozinhava, o marido passava a ferro; ela punha roupa a lavar, ele aspirava o chão. E eu ganhar uma admiração daquelas do género inalcançáveis, "quando for grande quero ser assim" mas ter-se toda a certeza que é preciso muita sorte para calhar com um homem daqueles. Hoje já penso bem diferente, e que não passa pela sorte mas sim pelo bom senso e não espero menos que a sua quota-parte do trabalho doméstico feito. Que - surpresa! - é pelo menos metade: 2 a dividir por 2 dá 1. Que é metade de 2 (ok, acho que já se percebeu). Mas porque entendo que enquanto não houver divisão perfeita neste campo as mulheres nunca vão poder escolher livremente carreira ou família ou ambas, e porque surpreendentemente a UE já legislou sobre isto, foi o tema da minha dissertação de Mestrado.

Estas são duas boas razões para uma pessoa ser feminista. A palavra está conotada com um sentido pejorativo que leva muitas mulheres a afirmarem que acreditam que há ainda muito a fazer no campo da liberdade das mulheres "mas eu não sou feminista". Pensa-se em mulheres histéricas, zangadas com o mundo e com os homens, de cabelo rapado e a queimar sutiãs. É do género da ideia de que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço. Eu não tenho nada contra feministas radicais que gritam muito, rapam o cabelo e queimam sutiãs; pelo contrário. Tenho uma profunda admiração por este grupo, por exemplo, que cultiva ódios um pouco por todo o lado mas que chocam e abanam o establishment até às entranhas, com a noção muito radical de que o corpo da mulher lhe pertence a ela somente:



Só tenho pena de não ter a coragem delas. Mas ser feminista não é nada mais do que acreditar que todas as pessoas devem ter os mesmos direitos, a mesma liberdade, as mesmas oportunidades e o mesmo tratamento, tenham elas uma pilinha ou um pipi. Mas depois entra-se no campo da grande frase "mas os homens e as mulheres são diferentes, ponto." Aparentemente são, sim. Mas quanta dessa diferença é biológica e quanta é socialmente construída? Aqui é que reside a verdadeira questão: saber separar as diferenças fisiológicas e óbvias, das que são assimiladas desde a nascença, pela convivência em sociedade, e que se traduzem em todo um conjunto de regras que ditam o que é "ser mulher" e o que é "ser homem". E as diferenças fisiológicas, tenho-me vindo a aperceber que são pouco mais do que as diferenças que há de um indivíduo para outro.

O post já vai longo e por isso reservo a crítica do livro O Segundo Sexo da Simone de Beauvoir, o verdadeiro instigador deste post, para outro dia. E este blog vai decididamente tomar um caráter mais discutidor porque ele sempre foi catártico e meter as ideias em texto ajuda a desenrolar o novelo emaranhado chamado FEMINISMO que reside na minha cabeça e que todos os dias adquire um novo nó.




S.