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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Um minuto de silêncio...

... pelas pessoas que, seis anos depois, ainda acham que o novo AO as vai obrigar a escrever fato, em vez de facto, e cagado, em vez de cágado.

Em querendo enxovalhar, enxovalhem com conhecimento de causa.




S.

P.S. Lamento rebentar a bolha de quem se acha muito rebelde por estar contra o novo AO porque, 'ah e tal, não é o Sócrates e afins que mandam na língua': andam a escrever sob as regras de um outro AO, o de 1990. A língua evolui naturalmente, sim senhora, mas em determinadas alturas é preciso fixar as regras oficiais de gramática e ortografia, senão cada um escrevia como lhe apetecia, numa lógica de 'isto não é um erro, o meu português é que evoluiu mais rápido do que o teu'.

Update: como muito bem apontou a Ceridwen, o acordo ortográfico que ditou a ortografia da língua portuguesa até ontem foi a Convenção Luso-Brasileira de 1945. O AO de 1990 (!) é o que entra definitivamente em vigor hoje. Mais pormenores aqui, na abertura de 14/05/2015.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A torre de Babel a desmoronar-se

Já sou oficialmente uma aluna de alemão. 

Mas antes de o ser estava sentada numa carteira de sala de aula, com mais 20 outros pré-alunos de línguas, à espera que nos viessem entregar os testes de aferição das respetivas línguas para nos meterem nas turmas corretas. Olho de soslaio para o papel de inscrição da pessoa ao meu lado. Descortino as palavras "test: portugais" escrevinhadas à pressa no topo da folha. O meu estômago dá uma cambalhota. Já sabia que naquela escola também havia um curso de português, tinha até visto que o primeiro nível já estava completo, mas estas coisas só vendo para crer. Começo a sentir-me a recetora de olhares de soslaio também, lançados a mim e à minha folha com o seu "test: DE". Até que a senhora se me dirige em alemão. Um bocadinho de pânico misturado com um bocadinho de alegria, polvilhado de frustração por ver que dos nove meses de aulas há três anos só me resta a capacidade de compreender a palavra "deutsche" no meio de uma frase que deve ter sido muito simples. Dirijo-me a ela em francês. Dá-se um clique e eu percebo que numa sala de vinte e poucos alunos, ela, alemã, que estava ali para testar o seu português, se sentou ao lado da única portuguesa que estava ali para testar o seu alemão. Coincidência maravilhosa. Não sei qual das duas ficou com o coração mais quente por a outra desconhecida ter o interesse suficiente em se dedicar à sua língua materna, que não é especialmente popular nem tem os glamours de um italiano ou espanhol, ou as exoticidades de um árabe ou mandarim. Começou a falar-me num português enferrujado mas assustadoramente correto, e eu perguntei quanto tempo tinha ela vivido em Portugal, para justificar tal competência. Nunca tinha ido a Portugal (sequer! Como é possível falar tão bem...) mas gostava mesmo muito de lá ir um dia. Tudo isto em português, a minha língua materna. Fiquei triste de não lhe poder retribuir a mesma gentileza. No fim do teste, recebi um "Gut Glück!" e sussurrei um "Boa sorte!" de volta. 

Parece-me um ótimo prenúncio. 




S. 

P.S. O que também me parece um ótimo prenúncio é a quantidade de faíscas que a parte linguística do meu cérebro fez naqueles dois ou três minutos. Ouvi alemão, respondi francês, devolveram-me português, continuei num português self-conscious porque queria muito que ela me continuasse a entender, depois acho que mudei a meio para francês novamente, mas inglês era o que me estava a soar melhor mentalmente já que é território neutro, espécie de acordo subentendido sempre que duas pessoas que não partilham a língua materna nem a língua de acolhimento devem falar. Mas depois lembrei-me que não era preciso porque ela falava português, e depois fiquei triste por não poder falar-lhe em alemão. Prenúncio das mindfucks que me esperam nas aulas de alemão em francês, foi o que isto foi.




sexta-feira, 19 de abril de 2013

Na dúvida, afrancesa-se

Palavras que, contra todas as minhas suspeições, os franceses entendem:

- tossir (tousser)
- muco (moco)
- catarro (catarrhe) !

Palavras que eu pensei que eram internacionais e vai-se a ver e não são:

- Mebocaína


A minha estratégia de afrancesar palavras portuguesas e esperar pelo melhor resulta melhor do que o que eu julgava.





S.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Literalmente isto e literalmente aquilo

Se há coisa que me tira do sério, é o uso generalizado da palavra "literalmente". A sério, é uma praga. Raras vezes é empregue como deve ser e, porque se generalizou, perdeu o significado para muita gente. "Literalmente" é agora usado como um sinónimo de "mesmo", uma palavra descuidadamente usada quando meramente se quer enfatizar uma ideia. Mas se "literalmente" é uma praga, então o "literally" tomou conta da língua inglesa e é hoje tão irritantemente frequente quanto o "like" (não é o do Facebook, é o "tipo". Tipo isto, tipo aquilo).

Razão para a irritação ter transbordado agora e neste momento? Esta frase que acabei de ler:

"My heart literally sank."

Não. O teu coração não se afundou ou caiu literalmente coisa nenhuma. Se o teu coração tivesse literalmente caído não estavas cá para contar que ele tinha caído, porque estavas morta. Literalmente.

Há uma coisa muito bonita na linguagem humana, seja ela qual for, que se chama metáfora. E depois há o literalmente, o que é quando se quer que as palavras sejam lidas à letra, exatamente como estão escritas e sem floreados. Ora, a metáfora é o floreado por excelência. É o explicar de uma ação, sentimento, pensamento, é o descrever qualquer coisa, através de uma expressão que nos ajuda a chegar mais rapidamente ao significado do que queremos dizer. Coisas como "tenho borboletas na barriga" ou "estou a morrer de fome!" ou "andou a meter-lhe macaquinhos na cabeça" ou "o meu coração parou naquele momento" ou "I'm falling for you" ou "este pão está pedra" ou "estou contigo pelos cabelos" ou "isto é areia a mais para a tua camioneta". Nenhuma destas expressões se pode usar com literalmente, nunca, nunca, nunca. A não ser que a pessoa tenha engolido borboletas a sério, ou não coma mesmo nada há uma semana, ou alguém lhe meta um macaco verdadeiro em cima da cabeça, ou tenha um ataque cardíaco, ou esteja a cair por uma falésia abaixo em honra de outrém, ou o pão esteja fossilizado, ou tenha a outra pessoa emaranhada nos seus cabelos, ou esteja em frente a um monte de areia e ele não caiba na camioneta da pessoa. De contrário, são formas de expressão, não são para serem levadas à letra, logo, nada de literalmente!  

Recupere-se o sentido das frases, pá.





S.   

sábado, 9 de março de 2013

Feira do Livro: versão indoor

Continuando no tema dos livros, hoje foi dia de visitar a Foire du Livre de Bruxelas. Não estava com expectativas de comprar nada, já que a língua em questão, aliada ao meu cada vez mais especializado gosto e à preferência pelos e-books, tornava a tarefa de encontrar algo que me fizesse puxar da carteira mesmo muito díficil. Da carteira tive que puxar na mesma, uma vez que para meu enorme espanto e indignação a entrada era paga. Sim senhora. Autoridades bruxelenses sempre a promover a cultura. Deu-me logo uma grande pontada de saudade no coração da maravilhosa Feira do Livro de Lisboa, aquele Parque Eduardo VII cheio de filas e filas de barraquinhas de livros, muito sol, muita luz, muito calor, ar livre, um passeio anual que não falhava. Levantei o queixo do chão, engoli a indignação e puxei da nota sem reclamar. 



"Um dia o Obama pediu ao Harry Potter para transformar o seu inimigo em sapo." Quem terá sido este inimigo de que eles falam, hum? Será que o Mitt Romney passou a pertencer à classe dos anfíbios e ninguém deu por nada?

A certa altura ainda pensámos que o bilhete de entrada podia ser como nas discotecas e tivesse livro incluído (não tinha). Paga-se mesmo só pelo privilégio de poder ir ver e comprar livros. Hahahaha, está boa, esta.

Tinha muitos livros interessantes e originais para crianças, algo que desconfio que os belgas são bons, uma vez que já tinha reparada na livraria do aeroporto umas coisas engraçadas. Não sei se tem alguma coisa que ver com a tradição de bandas-desenhadas e ilustrações. Isto trouxe-me um sorriso aos lábios:




Tenho que confessar que me senti muito deslocada, naquela feira. É mesmo muito estranho percorrer quatro pavilhões enormes (ao jeito da FIL de Lisboa) e não encontrar um único livro que se conheça, nenhum nome de autor que ressoe. Ali dei de caras com o quão superficialmente conheço o meu país de acolhimento, a sua literatura contemporânea e clássica, essa parte tão fundamental da cultura e identidade de um povo. É uma coisa que me incomoda, põe-me desconfortável e, ao invés de me fazer querer ler mais sobre a Bélgica, agarrar numa História deste país, faz-me ter vontade de fugir daqui a sete-pés, enroscar-me nos braços da cultura britânica, numa língua que eu conheço não só as palavras mas também e fundamentalmente o tom. Não me é nativa como a visceralmente portuguesa, mas precisamente por estar a meio caminho entre a belga que desconheço e a lusitana que me está entranhada, dá vontade de profundar mais e mais.

Nunca lá fui a feira do livro alguma.

A União Europeia tinha uma secção num dos pavilhões, onde figurava uma imagem gigante da sala do plenário de Estrasburgo, uma imagem com quase todos os atuais deputados e com sinais a indicar que grupo político se senta onde.   



Os 20 deputados europeus belgas tinham direito a fotos maiores, e a senhora responsável pela secção deu-me placas com os nomes deles todos para eu tentar adivinhar quem era quem. Fiquei ainda mais desanimada por ver que nenhum deles me ressoava na memória, muito menos seria capaz de juntar nome e cara. Lá acertei um que me lembrava de ver nas reuniões de igualdade de género no PE, nem tudo esteve perdido.

Saí de lá de mãos a abanar, um niquinho triste pelo sentimento de alienação mas de bons espíritos. Afinal, a experiência foi partilhada com quem mais importa e portanto os risos somados e a tarde diferente pesaram bem mais na balança das experiências. E uma História da Bélgica pode já vir a caminho...



S.  

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A 1ª belga e o combate ao desperdício

Hoje, por ocasião de uma venda de roupa em segunda mão, conheci uma rapariga belga muito simpática. Mas apercebi-me que, em seis meses, foi a primeira pessoa local que conheci. 

Ora, não sei bem o que isto diz de mim (bicho anti-social, será?), sobre o meu local de trabalho até agora (no PE conheci gente de muito país europeu mas nenhuma belga, curiosamente), ou sobre esta capital, onde um terço dos seus habitantes são imigrantes. 

A rapariga em questão, a quem cheguei através do grupo Brussels Expats do Facebook, delirou quando soube que eu era portuguesa, porque ama Portugal de paixão (afirma ser um dos seus países favoritos...) e anda a estudar as diferenças entre a língua portuguesa e o galego. A visita foi de negócio mas aqueceu o coração, claro está. :)


...


Agora, sobre as vendas em segunda mão. 

Aventurei-me pela primeira vez nisto do já-usado há quase dois anos, quando comprei o meu computador e o iphone do D. pelo eBay porque não queria dar por eles o dinheiro que custam novinhos em folha. Cheguei a vender também. Correu tudo às mil maravilhas (exceto uma tentativa de venda da minha parte, mas isso é outra história). Mais recentemente, uma blogger que eu seguia regularmente abriu outro blog para vender roupas/acessórios/sapatos que já não usava e eu, vendo uma coisita que me agradava, decidi comprar.

Entretanto descobri o maravilhoso mundo dos expats bruxelenses, grupos facebookianos onde pessoal faz perguntas e lhes respondem, sobre tudo o que se possa imaginar sobre a vida cá, e põem móveis, roupa, eletrodomésticos à venda porque vão voltar para a terra. E eu rendi-me ao culto do aproveitamento e do combate ao desperdício. Em forma de pechinchas.

Aqui há uns tempos, precisava de uma impressora, puseram uma impressora à venda (por menos de metade do preço!). Lá fui eu, de trolley de compras atrás para trazer a bicha, a pé, até à casa da rapariga que a anunciou (que por acaso era portuguesa!). Hoje, foi a vez de ir buscar um colar, um lenço e um chapéu à anos 60 (acho que nunca me apaixonei tanto por uma peça de roupa como com esta... e acho que nem na Primark conseguiria tão barato), à casa da rapariga belga, que tinha virado a sala em atelier de roupa em segunda mão.

De caminho para casa, passei na loja da Oxfam e olhei com outros olhos para as roupas que ali se vendem. E descobri que, indo de olho bem aberto, se encontram coisas muito boas a preços irrisórios. E ali há o benefício de se estar a contribuir para uma boa causa.

Já pensei seriamente em me tornar vendedora e livrar-me eu também de coisas que já não uso e que podem ser interessantes para outras pessoas. Mas a verdade é que, na nossa vinda para Bruxelas, a triagem do que não se gosta/usa/veste já foi feita, e só cá estão coisas úteis... Cheira-me que terei de esperar algum tempo até ter material para venda.




S.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O teste da compreensão numérica (sim, é tão mau quanto soa)

A uma semana de ir fazer o exame de admissão à função pública da UE, e depois de algumas horas de volta de exercícios de racionalidade numérica (medo... ou terror!) compreendo perfeitamente o que há uns posts atrás mencionei: por mais que nos tornemos excelentes numa segunda língua, nunca atingiremos o nível da nossa língua materna.

Sim, compreensão numérica ou problemas cheios de números, gráficos, tabelas e percentagens são uma porcaria. Mas são uma porcaria maior em inglês. E isto porquê... Porque eu não aprendi matemática em inglês, aprendi-a em português. O raciocínio matemático, o que subiu, o que decresceu, a percentagem do não-sei-quê, são tudo coisas tão viscerais e tão primárias que não se trata simplesmente de traduzir na nossa cabeça. É sempre possível traduzir, mas para o raciocínio rápido que se precisa nestes casos - que envolve compreender exatamente o que nos pedem - não é útil. Até a simples contagem! Já não é a primeira vez que observo a minha supervisora, que fala impecavelmente e do pé para a mão francês e inglês, a contar baixinho as colunas de uma tabela em alemão, a sua língua nativa.

Os números e as relações entre eles são algo demasiado primário e que muito raramente temos a oportunidade de treinar a fundo noutra língua, por mais que nos aproximemos do nível dos nativos. É isto que eu digo a mim mesma nas vezes mais que muitas em que nem com a solução e a explicação de como chegar àquele resultado eu percebo o problema. É um esforço quase físico - juro que consigo sentir o cérebro a aquecer! É excesso de trabalho em neurónios que não estão habituados a correr desde há muito, muito tempo.

Tenho o pequenino conforto de ter escolhido fazer o exame em português para não largar num pranto.





S.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

"Um dia vou levar-te à América..."

A nossa língua materna reserva para nós sensações que mais nenhuma língua consegue despertar, por melhor que a conheçamos, por melhor que a falemos e compreendamos. A nossa língua materna desperta-nos sentimentos crus e vivos precisamente porque está associada às experiências que vivemos no nosso passado. E isso é algo que nenhuma língua estrangeira pode igualar.




Uma das músicas mais românticas que conheço. Fiquei apaixonada desde que a ouvi pela primeira vez na rádio, sem fazer ideia nenhuma de quem era.

Continuo sem fazer ideia nenhuma de quem é ("Os Azeitonas", não faço a mínima) e continuo apaixonada por ela.

Só em português podia esta letra fazer sentido e ser considerada romântica: "Anda comigo ver os aviões levantar voo / A rasgar as nuvens / Rasgar o céu".

Uma vénia a quem ainda tem a coragem de escrever e cantar em língua portuguesa.



S.