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quarta-feira, 23 de julho de 2014

O encantamento da maternidade

Every year we set aside
A very special day
To remind you, Martyr Dear,
That home is where you stay.

Your family wants do thank you
For your martyrdom
After all, without you
No real work would get done.

While Hubby challenges the world
His wonders to perform
You cook his meals, clean his home
And keep his bedside warm.

Your children are your challenge,
In them your dreams are sown,
You've given up your own life
And live for them alone.

Now look upon your daughter
Will she too be enslaved
To a man, a home, a family
Or can she still be saved?

This is your real challenge -
Renounce your martyrdom!
Become a liberated mother
A woman, not a "mom".

Mother's Day Incantation, by WITCH (Women Interested in Toppling Consumer's Holidays), submovimento da segunda vaga feminista de finais da década de 60, inícios de 70.

Tirado do incrível abre-olhos que está a ser o livro The Mommy Myth - The Idealization of Motherhood and How It Has Undermined All Women (das autoras Susan J. Douglas e Meredith M. Michaels). 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Egocêntrica, much?

Ontem tomei duas decisões, com potencial de mudança de vida, que me fizeram constatar que eu não me conheço. Ou não me conheço, ou estou a evoluir* para outra coisa qualquer mais depressa do que o meu ego consegue desvendar.

- Inscrevi-me na Meia-Maratona de Lisboa. Vou em março a Portugal, de propósito correr uma prova que insisti durante uma hora, ainda há dias, nunca me meter. Em retrospetiva, após os últimos meses de treinos continuados nem sei bem em nome de quê, faz todo o sentido. Do ponto de vista de quem eu sou (era? sempre fui?), juro que não faz. Não foi preciso a Gralha me espicaçar muito para ficar com o bichinho desta prova, depressa anui. O que revela, mais uma vez, que eu não me conheço.

- Recusei uma perspetiva profissional em Londres. Ainda não acredito. Não acredito é no alívio que senti após o decidir, sabendo, aqui algures mas que não era só na cabeça, que tomei a decisão correta. Afinal tenho instinto ou coisa que o valha... (Mentira, a lista dos prós e contras também esteve presente e foi o teste final. Se bem que o alerta veio das entranhas.) Eu amo Londres, eu fui lá tão feliz, eu cheguei a sentir-lhe mais a falta, tantas vezes, do que a pátria materna, e recusei conscientemente, livremente e aliviadamente me mudar para lá, trocando esta cidade pela qual não tenho carinho especial pela minha amada Londres. 

Desculpem-me os clichés mas isto é aquilo do rio não passar duas vezes pelo mesmo sítio? Ou do outro que dizia que o difícil não é ir atrás dos nossos sonhos, é saber e ter a coragem de largá-los quando já não são os nossos sonhos? 

É por estas e por outras que eu tenho um medo terrível de ter filhos. Não é pelas mudanças do corpo, não é pelos vómitos, não é pelos horrores do parto, não é pela alteração do ritmo de vida, não é por ter que cuidar de outro ser humano, não é pelas manhãs a dormir até ao almoço que se acabam, não é pelo aperto financeiro, não é pelo We Need To Talk About Kevin, não é pelo fim do tempo e espaço pessoais, não é pela adolescência da prole, não é pelo mudar de fraldas, não é pela incerteza do futuro. É simplesmente porque o meu eu de hoje não sabe que eu vai encontrar do outro lado da maternidade. E eu ainda tenho tanta coisa que quero concretizar neste estado mental do presente.






S. 

*Atenção que quando digo evoluir não é como sinónimo de progresso, é mais no sentido de como os Pokémons evoluíam: chegavam a determinada altura, após não sei quantas batalhas e skills adquiridos tinham a possibilidade de evoluir para uma criatura diferente. Mas quantas vezes o estádio anterior não era bem mais poderoso...

terça-feira, 10 de setembro de 2013

É muito isto

"But justifying having children as “you’ll feel different when it’s your own” or The Worst “you’ll never know what true love is until you have a child” makes me want to stab someone. You can’t devalue someone for not having given birth. No one remembers Sylvia Plath for her kids (she fucking messed them up with her repeated attempts to gas herself) they remember her for her poetry and writing. Having children or not having children should not ultimately define you as a person. It changes you, but it is not finally you."

Especialmente as duas últimas frases.

Daqui.




S.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A maternidade como (não) projeto


Nunca ninguém me deu uma razão convincente sobre o porque é que se tem filhos. Para todas as explicações sobejamente conhecidas, ou prós, consigo arranjar outras tantas que as anulam, os contras. A do amor (já tenho pessoas na minha vida para amar, para quê acrescentar mais), a da construção da família (dois não são uma família?), a da descendência (o mundo já está sobrepopulado, para quê botar mais gente), a do continuar a nossa obra (gerar e criar um ser humano para massajar o ego sempre me pareceu duvidoso), a do "porque é mesmo assim a vida" (quem disse?), etc. Eu tenho uma teoria muito própria sobre o porquê que as pessoas têm filhos, mas como é muito parcial, muito fruto da minha não-maternidade, extremamente politicamente incorreta, e não me apetece ser linchada em praça pública, guardo-a só para mim. Um bocadinho do género como quando a Fátima Lopes, farta de as entrevistas que lhe faziam rondarem sempre a pergunta do "Mas não quer ter filhos porquê?" respondeu que as mulheres que tinham filhos era porque não se conseguiam realizar de outra maneira. Assim, muito à bruta e sem rodeios.

Minto; uma vez uma amiga deu-me uma razão que me convenceu de certa maneira ou, pelo menos, deu-me que pensar. Disse ela que as pessoas têm filhos porque isso lhes permite ver tudo de olhos frescos. As pequeninas coisas do dia-a-dia, as coisas maiores como as festas e as férias, o mundo, passa a ser visto como que pela primeira vez. É como quando eu vou no autocarro a chegar a Mafra e esforço-me para olhar para o Convento como se fosse uma turista, ou quando releio um post após saber que determinada pessoa já o leu, tentando avaliá-lo pelos olhos de outrém. É o renovar do mundo, vá.

Mas depois penso em toda a chatice que toda a gente que já passou pela parentalidade está sempre a enumerar, desde as birras, os choros, o cocó, o parto, a adolescência e as respostas rosnadas, o deixar de sermos donos do nosso tempo, o custo financeiro, etc, e penso que quem se devia ter que justificar seriam os que queriam ser pais, não os que não querem. Porque os que não querem ser pais é só o continuar da situação em que já vivem, os outros é que estão ativamente a mudar a sua. E que o "porque sempre foi assim" nunca justificou nada.

É por isso que quando leio na Beauvoir aquela concisa frase do:


"Gerar, amamentar, não são atividades, são funções naturais; nenhum projeto é aqui empenhado; é por isso que a mulher nunca encontrou aí motivo de uma afirmação superior da sua existência; ela apenas se submete passivamente o seu destino biológico."

"Engendrer, allaiter ne sont pas des activités, ce sont des fonctions naturelles; aucun projet n'y est engagé; c'est pourquoi la femme n'y trouve pas le motif d'une affirmation hautaine de son existence; elle subit passivement son destin biologique."


eu penso: "Oh porra, acertou na muche".

A frase ressoou comigo por tudo o desabafado acima, mas não só. Ela vem no encadeamento da análise do que é ser humano. Que característica/transcendência/atividade nos eleva acima de meros animais, da "besta sadia / cadáver adiado que procria"? A Beauvoir explica que:


"É arriscando a vida que o homem se eleva acima do animal."

"Se en risquant sa vie que l'homme s'élève ao dessus de l'animal." 


E aqui homem entende-se como Homem, a humanidade. Ou seja, é desbravando o mundo que tanto homens como mulheres se realizam como seres humanos, é no trabalho produtivo, na contribuição para um mundo melhor, no desenvolvimento de projetos, na sua superação enquanto indivíduos e enquanto sociedade. Mas para Beauvoir, a maternidade não é nenhuma destas coisas, porque é tão-somente uma atividade biológica, tão corriqueiramente animal como comer, dormir, crescer, caçar, copular, defecar, urinar, envelhecer, morrer. E é precisamente por isto que a História dos dois géneros humanos não é uma História de divisão natural de esferas de atividade, nem tampouco de igual valor. Enquanto os homens - desta vez os seres humanos de género masculino - conquistavam e moldavam o mundo, descobriam os limites do pensamento, da natureza e da capacidade humana, as mulheres estavam confinadas ao seu destino biológico de procriar:


"Mas as vozes femininas calaram-se sempre onde começava a ação concreta: puderam suscitar guerras, nunca sugerir a tática de uma batalha; nunca orientaram a política exceto quando esta se reduzia a intriga; os verdadeiros comandos do mundo nunca estiveram nas mãos de mulheres; estas nunca agiram sobre as técnicas nem sobre a economia, nunca fizeram nem desfizeram Estados, elas não descobriram mundos. É por sua causa que certos eventos se desenrolaram, mas as mulheres sempre foram pretextos, muito mais do que agentes."


"Mais en fait, les voix féminines se taisent là où commence l'action concrète: elles ont pu susciter la guère, non suggérer la táctique d'une bataille; elles n'ont guère orienté la politique que dans la mesure où la politique se réduisait à l'intrigue; les vraies commandes du monde n'ont jamais été aux mains des femmes; elles n'ont pas agi sur les techniques ni sur l'économie, elles n'ont pas fait ni défait des États, elles n'ont pas découvert des mondes. C'est par elles que certaines événements ont été déclenchés; mais elles ont été prétextes beaucoup plus qu'agents." 


Isto está tudo muito bem e explica em poucas palavras a origem da inferioridade da condição da mulher ao longo dos tempos. Encaixa tão bem com as minhas dúvidas sobre a parentalidade e tudo, perfeito.

Mas não consegui evitar o cisma na frase "Gerar não é um projeto"...

Desde que a li que se tornou na frase que mais me deu que pensar em todo O Segundo Sexo. Não é um projeto porque é uma atividade biológica... Não é um projeto porque qualquer animal o faz... Ter filhos não é um projeto...

Mas que raio...?

Mas ter filhos atualmente equivale realmente a procriar como quando vivíamos nas cavernas? Não há nada na atividade de gerar pessoas de hoje em dia que lhe acrescente um valor que esta não tinha há milénios atrás? E todo o trabalho que envolve educar um pequeno ser humano para viver saudavelmente em sociedade, o que os ingleses chamam de "raise a child"? Não se diz "raise a dog"... E se o que uma mãe e um pai humanos fazem é intrinsecamente o mesmo que o que uma mãe gata faz, então onde ficam os professores e, especialmente, os educadores de infância? O que eles fazem não é o mesmo que um pai? Então se é, não conta como projeto, também? Se não é, onde está a diferença: no serem remunerados? No facto de os filhos não serem deles?

Ainda não consegui desembrulhar este novelo.

Está pois visto que nem a Beauvoir me consegue esclarecer nas questões da parentalidade e descendência. 

Não deixa de ser curioso que precisamente hoje tenha nascido um bebé muito aguardado na família, de duas pessoas quase da minha idade e da do D. e que esteja a rebentar de curiosidade sobre todos os detalhes, dos mais animalescos e infímos aos mais transcendentes e sentimentais. Acho que é um bocadinho parecido com o fascínio que eu tenho pelo mundo das maquilhagens: leio quem é apaixonado por tal, surpreendo-me com a dedicação, paixão e perseverança que é preciso para sermos bons naquilo, mas depois no meu dia-a-dia fujo a sete-pés. É um fascínio ao longe*, portanto.




S.


*Ouviram, mãe e pai? Ao longe. Este post não é nenhum reflexo de qualquer relógio biológico, podem respirar fundo . O único relógio que toca nesta casa é o alarme às 7h45.