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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Primeiras impressões de Sheffield

Agora sou uma pessoa do norte. Tudo o que fica acima de Londres para os ingleses é norte de Inglaterra, de maneira que Sheffield, ainda que sendo South Yorkshire, é norte. As pessoas têm sotaque do norte - fonte de risadas para os habitantes da capital e south-easterners, onde é que eu já vi este filme -, o clima é do norte, as pessoas são incomparavelmente mais afáveis e simpáticas mas, infelizmente para mim, menos compreensíveis. Se os britânicos em geral parece que falam com uma batata dentro da boca, aqui então parece que a têm a meio da garganta e estão a tentar equilibrá-la para que não vá para baixo nem para fora. Não sou novata em sotaques estranhos (nos dois anos passados lidei bastante com o escocês) mas pelos vistos eles são muitos e cada um precisa da sua dose de afinamento do ouvido. Sei que não tarda muito vou andar a dizer "nô", em vez de "nou" e "haiá" em vez de "hai" mas isso será incomparavelmente menos dramático do que começar a tratar toda a gente por love. "Are you alright there, love?", "Cheers, love", "How can I help, love?" são tudo frases já mais do que ouvidas nestes nossos três primeiros dias em Yorkshire. Todos os comerciantes, homens ou mulheres, tratam os seus clientes, homens ou mulheres, por "lôf". Tinha uma vaga noção disto, mas não sabia que era uma expressão utilizada tão assiduamente e tão indiscriminadamente. Só ainda nunca a ouvi ser usada entre comerciante homem - cliente homem... Cá estarei para certificar que ela é mesmo inconsequente quando isso acontecer.
 
Sheffield é uma cidade incrivelmente segura e pacata. Diz que é a quarta maior cidade inglesa e a mais segura em termos de grandes cidades. É muito homogénea. Depois de Londres e Bruxelas, Sheffield faz-nos impressão pela quantidade de caras brancas que a compõem. Temo que precisamente pela falta de diversidade étnica isto seja um daqueles bastiões do velho orgulho nacionalista inglês, do orgulhosamente sós e do desdém pelos estrangeiros e pela União Europeia, ou pior, que grande maioria da população apoie o UKIP. Não sei se conseguirira ser feliz num sítio assim. Acho que o que salva Sheffield é precisamente a universidade, uma realidade omnipresente em toda a cidade a começar pela quantidade enorme de edifícios dispersos pela cidade que ostentam o símbolo da Universidade de Sheffield: departamentos disto, departamentos daquilo, residências aqui e acolá, o gigantesco complexo desportivo frequentado por toda a comunidade. Os milhares de alunos de todos os cantos do mundo garantem que os habitantes de Sheffield têm convivência com outras culturas, uma lufada de ar fresco no que de contrário seria uma aborrecida homogeneidade de white British, como eles categorizam nos censos.
 
Apesar de ser a quarta maior cidade inglesa, depois de Londres, Manchester e Birmingham, o centro de Sheffield é bastante pequeno. Suspeito que sejam os subúrbios populosos de casas de tijolo castanho e arvoredo com fartura os responsáveis pela classificação. A cidade é incrivelmente verde. 90% das vezes não parece que estamos sequer numa cidade. Mais uma vez, depois de Londres e Bruxelas isto é um choque. Não sei se bom ou mau. Estamos surpreendidos pela positiva para já, não sei se há potencial para isto nos aborrecer. Por falar em choques, e a altimetria de montanha-russa desta cidade, senhores? Olha-se para o fundo de uma rua não para a frente, mas sim para cima, ou para baixo. Sei que estamos às portas do Peak District, a Área dos Picos, mas pensei que as palavras-chave aqui eram "às portas do" e não necessariamente "Peak". Vou sair daqui uma corredora com umas pernas e um fôlego que faz favor.
 
A nossa casa tem muitas janelas. Não estou habituada a ter muitas janelas. Até a casa-de-banho tem janela, que coisa rara! E portas. As nossas casas têm sempre só uma porta, a da casa-de-banho. Esta tem demasiadas: no corredor, sala, roupeiros, quarto. Estamos a ficar crescidos, oh, a viver em casas de gente grande. :')
 
Tinha-me esquecido da palidez incrível do céu daqui, que mesmo quando chegámos e quando estava limpo, estivemos uns bons minutos a tentar certificar-nos que estava mesmo limpo ou se não haveria ali uma camada fininha de nuvens brancas a empalidecê-lo (estava mesmo limpo). Entretanto já choveu, já caiu aquela chuvinha molha-patos, o céu limpo nem vê-lo. O verde predominante da vegetação não é por acaso. A cidade é sombria e escura como todas as cidades britânicas, tão diferente de Lisboa, tão diferente de Bruxelas.
 
Entretanto aprendi que Sheffield é a cidade orgulhosamente inventora do aço inoxidável, facto apresentado com honra logo na parede da estação de comboios. Já não olho para os meus talheres de stainless steel da mesma maneira. 



imagem retirada da internet




S

domingo, 14 de setembro de 2014

Este é mais um post sobre malas feitas



Mais uma mudança, mais uma foto de malas feitas. Tinha grandes desígnios de atingir um nível de minimalismo quase perfeito desta vez mas acho que não foi atingido. O volume continua a ser praticamente o mesmo.
 
Com morada já certa - novidade desta mudança! - amanhã vou ter a experiência surreal de enviar encomendas para mim mesma, contando lá chegar primeiro do que elas.





S.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

... e dois atrás

Uma pessoa sabe que afinal ainda não é crescida quando aos 26 anos vai viver pela primeira vez para uma residência de estudantes. E está mesmo feliz com isso.



S.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Senhora e senhor

#
 
Já é a segunda vez que vou à caixa de correio buscar um envelope da Igreja das Testemunhas de Jeová aqui da zona. É um daqueles panfletos de publicidade ("Venha connosco celebrar a morte de Jesus!") mas o especial é que vem dentro de um envelope endereçado à "Família X". Já é a segunda vez que me enganam porque fico sempre entusiasmada a pensar em quem nos terá escrito. Não sei se o que me irrita mais é ter publicidade religiosa camuflada na minha caixa de correio se é que ela venha sempre endereçada ao apelido do macho da casa. Nós somos uma família, sim, mas temos um apelido cada um e na caixa do correio eles figuram os dois. Ou endereçam aos dois apelidos ou metem um envelope para cada um. Como quando fomos abrir a conta de garantia de renda em nome dos dois e, apesar de a conta principal estar apenas em meu nome, o apelido do macho da casa aparece como proprietário por default. Porquê? Ninguém nos perguntou nada. Não se parta de pressupostos.
 
  
 
 
##
 
O ginásio onde ando tem uma modalidade em que com apenas uma inscrição os membros do agregado familiar podem todos frequentar o mesmo ginásio, ainda que não ao mesmo tempo. Quando fui perguntar se podia adicionar o D. à minha inscrição e quais as condições não conseguia dizer a palavra em francês. Posso muito bem ter passado por pessoa-a-quem-dá-quebras-a-meio-da-conversa-como-se-lhe-acabasse-as-pilhas porque fiquei uns 10 segundos a pensar a meio da frase. "Est-ce que je peux ajouter mon... ... ... ... ... ... ... mari à mon abonnement?" Não me saía a palavra francesa para namorado, acho que tem qualquer coisa a ver com "copin" ou "petit ami". Mas a mim não me soava certo (amigo? colega???) e o senhor que me estava a atender não ia perceber. Ia pensar que eu estava a falar de um amigo qualquer e teria que perder o dobro do tempo a explicar-me o que eu já sabia, que isto é só para pessoas do mesmo agregado familiar e que para amigos não dá. E eu tinha que lhe explicar de seguida que não, que ele vive comigo e que portanto somos do mesmo agregado familiar, está tudo bem. E isto é faladura francófona a mais para mim. Parceiro ainda soa pior, companheiro idem. Por isso agarrei na única palavra inequívoca, ainda que não seja a verdadeira, mas que me cortaria caminho na interação. E isto se calhar é precisamente o que o casamento é, poder-se falar para o exterior numa linguagem que toda a gente entende. É apenas esse o único propósito que lhe acho. Como a história do apelido: sinalizar a toda a gente, inequivocamente, que se é da mesma família.




S.   


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

"Who made these rules anyway?"

Desde 2010 que penso muito sobre o que é isto de "casa". Quanto tempo demora a estabelecer uma, do que é ela depende, se podemos ter várias? Se tem que ser sempre onde moramos, se é onde vive quem amamos, se é imutavelmente o sítio onde crescemos ou se é onde ansiamos estar. A sabedoria cibernauta nunca me conseguiu esclarecer -  que choque, não é verdade.
 
Temos então:

 
O meu telemóvel liga automaticamente em vários sítios, nomeadamente na minha morada oficial, no meu trabalho, no aeroporto de Varsóvia, no Workshop Café, em casa dos meus pais, no autocarro do aeroporto em Edimburgo, na lavandaria do bairro. Não me parece que isto os classifique como "minha casa".
 
 

Não gosto de vinho. E também não acho que o supermercado da esquina se classifique como casa.




Eeeeeh... Eu queria perguntar em que sentido? mas tenho medo...

 

Outro... Bom, este vou interpretar no sentido mais light. Sim, é onde estamos mais à vontade, é onde podemos saltar por isso das convenções da vida em sociedade e ser os animais que na verdade somos. Tudo bem. Mas isto é mais quando estamos sozinhos em casa, não apenas quando estamos em casa.
 
 

Nah. Isso é a casa dos meus pais, é a casa da minha infância, é onde mora a minha família. :) A minha casa terá que ser outra coisa qualquer. Senão nunca se criavam casas novas, era sempre a da mãe...
 


Não tenho cão :( . Só o que está em casa dos meus pais. Mas esse não é meu, lá está, é dos meus pais, nunca foi meu porque eu estava lá mas depois já não estava e o bicho é 100% de coração da minha mãe. Quer dizer, ele faz uma grande festa sempre que me vê, nem consegue acreditar que eu voltei, não sei se pensa que eu moro ali à mesma, se entende que eu pertenço à matilha dele, mas acho que não, ele não sofre quando eu me vou embora, não fica a ganir baixinho quando desapareço, ou à chuva sentado de olhos presos no portão por onde saí, como faz com a minha mãe. Por isso, não, não tenho cão realmente. 




Sim, está bem, mas, er... explicação demasiado escatológica.
 


...

Esta nem faz sentido.




Ah, assim está bem. É onde quisermos, é onde a construirmos, está bem. Mas isso significa que pode ser em muitos lados? Mas, e também, o que é realmente preciso para ela ser casa, mesmo "casa" (recuso-me a empregar a palavra "lar", que odeio)? Dá para se tornar casa num instante, só porque eu quero?
 
A sabedoria cibernauta não foi capaz de me satisfazer.
 
Acabei por voltar à sabedoria popular.



Ah, porra. Este é mais complicado.
 
O meu coração está em muitos lugares. Está em todos os sítios onde eu já fui feliz, está no passado ligado às memórias da minha infância, mas também está no futuro, demasiadas vezes no futuro, em coisas que anseio fazer, em pessoas em abstrato que ainda não conheci. Está em sítios que eu nunca vi mas que sinto que conheço, está em sítios que nem existem mas que, segundo a minha cabeça, podiam muito bem existir. Estamos antes a falar de pessoas? Bom, isso aí eleva ainda mais o grau de  complicação. Pode a nossa casa ser uma pessoa? É que as pessoas movem-se. E são muitas, como escolher.
 
Uma amiga, bem mais experiente do que eu nisto das emigrações (aos 26 anos já tinha vivido em 7 países diferentes), disse-me uma vez que a maldição de qualquer emigrante era nunca mais voltar a ter a alma inteira, esteja onde estiver. Se estou em Bruxelas sinto falta da minha família e amigos em Lisboa, se estou em Lisboa sinto falta dos meus amigos de Bruxelas, em Londres deixei uma grande amiga, outra fugiu para a Dinamarca. Para onde quer que um emigrante se mude, vai sentir sempre falta de alguém. Ela disse mais: onde quer que esteja nunca vai conseguir reunir todas as pessoas que ama no mesmo sítio. Seja para festejar os anos, seja numa graduation, seja num casamento. E isto é assustadoramente verdade e irremediavelmente cruel.

Só se... for uma pessoa mesmo muito especial.
 
Eu voltei sem o D. em janeiro. Não estava planeado, mas é temporário, não houve drama. Motivos estritamente profissionais. Eu estou contente por estar de volta a Bruxelas, ansiava pela minha rotina, pelas minhas coisas, voltar aos meus percursos familiares de corrida, estar sossegada no meu canto. Por isso acho que esta é a minha casa. Mas é também a nossa casa e por isso há qualquer coisa estranha no ar, um silêncio que é um bocadinho maior do que eu estar aqui sozinha simplesmente. Parece que está qualquer coisa partida. Não me interpretem mal, eu sou uma criatura que se sente muito bem sossegadinha, quieta no seu canto, que fica feliz por ouvir e ver pessoas à sua volta por aí e se contenta com isso. Os grupos esgotam-me emocionalmente. Mas a minha casa está esquisita. Ainda no outro dia dei por mim a pensar como é que fazem as pessoas que vivem sozinhas e longe da família, por exemplo, para aguentar a falta de carinho físico (não é desse, vá, seriedade), os abraços ou as festinhas de quem nos quer mesmo bem. Depois até arregalei os olhos um bocado horrorizada a pensar que devia estar a começar a bater mesmo mal para pensar naquilo porque eu sou uma pessoa que gosta de guardar as distâncias físicas, mesmo de quem gosto mesmo, mesmo muito. Sou um bocado como aqueles bebés que fogem dos beijos ou limpam a cara a seguir, com a diferença que eu tenho mais vinte e tal anos em cima, por isso sou um coração de pedra. Mas a verdade é que aquilo continuou a preocupar-me durante dez ou vinte minutos. Parece então que há uma parte do meu coração que não está aqui, tente eu racionalizar isto como queira.
 
Porque a verdade é que eu contei os dias todos mentalmente desde que entrei no avião numa Lisboa chuvosa até chegar ao aeroporto da Portela novamente. E eram só 26. Mas passaram um a um, vagarosamente, de uma maneira que não costumam passar. E eu depois nem conseguia ver Family Guy, não achava piada nenhuma aquilo, e não conseguia comer crepes porque era o que fazíamos todos os sábados ao fim da tarde, nem conseguia sentar no pufe porque era o lugar dele. Eram coisas simples que eu evitava, sem grande drama, mas só porque me pareciam desconcertantes. Já está um pouquinho melhor, vi-o há pouco tempo, já não faz mal sentar no pufe.
 
Vi-o, fui radiosamente feliz, mas não estava em casa, mesmo estando com ele em Portugal. A sensação é sempre a do temporário, estou só de passagem, é pena não vires para casa comigo... Esta casa. Daqui. Que é nossa por alguma razão que eu ainda não consegui descortinar completamente e que continua a ser a minha casa mas que está meio errada. É que é possível, claro que é, mas eu não sei construir casas sozinha. Nunca construí sem ele. Por isso casa não é onde quer que ele esteja, mas definitivamente que ele tem que estar lá. É qualquer coisa que construímos os dois de raiz, onde temos rotinas tão aborrecidamente corriqueiras como beber chá a seguir ao jantar nas nossas canecas castanhas do Ikea, ou irmos dobrar e buscar a roupa seca à lavandaria, ou ver o New Girl com um crepe de chocolate no colo (o teu é com açucar. Branco, não mascavado, mesmo à gulosão).
 
Não sei muito bem agora como concluir isto porque eu não gosto de dramatizar. E esta falta de casa é temporária, vamo-nos ver tão regularmente para duas pessoas que estão a dois mil quilómetros uma da outra. E daqui a uns meses vamos construir outra casa de raiz, noutro sítio diferente de Bruxelas, diferente de Lisboa, diferente de Londres, talvez A casa, será? Não vale a pena gritar saudade aos quatro ventos, as coisas são como são e há quem esteja tão pior de saudades do que nós. Ainda assim, percebo agora o que a Helena uma vez disse, de como a pessoa que inventou o estrangeiro devia morrer.



S.


sábado, 14 de setembro de 2013

Amoramoramoramor

Ao fim de oito anos de namoro, descobres que é mesmo, mesmo, mesmo, mesmo amor quando dás por ti a parar o estudo da tua (amada) IG para ir espreitar regularmente o resultado do (odiado) Benfica vs P. Ferreira e informar o parceiro regularmente por sms. 

Há um dito que é:



Eu acabei de inventar outro: "Se uma feminista parar a leitura de um artigo muito interessante sobre representação dos direitos das mulheres para te enviar uma sms com o resultado de um jogo de futebol de um clube rival, casa com ela!"



S.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Minimalismo: nível IV - continuação

Desde que abri os olhos para os grupos de venda de coisas em segunda-mão que passei a olhar para compras de outra maneira. Percebo cada vez menos a vantagem de comprar novo, de entrar em lojas para ver que novidades há, de gastar o triplo para ter o prazer de estrear algo (eu sou muito, muito, muito, muito forreta. Mas muito.) As minhas montras são neste momento dois ou três grupos de Facebook de roupa em segunda mão aqui em Bruxelas, e mais dois ou três de móveis/acessórios/afins também já usados. Na altura que os descobri tinha era pena de ter já feito a triagem em Portugal e tudo o que tinha cá ser apenas o mínimo. Andei a observar tudo o que aqui está que era nosso (a casa foi alugada já mobilada, portanto, tirando roupa, não era muito) com o olhar impiedoso de quem abomina o desperdício e o hoarding para ver se algo estava acima da linha do mínimo*. Sem sucesso.

Entretanto passou um ano. A perspetiva de mudança para um estúdio sem armários está a implicar muitos cálculos de cabeça sobre até onde pode ir um armário de três portas versus uma casa pequenina, mais a tralha roupal de duas criaturas humanas. O total deu: não vai muito longe.

Por isso, numa espécie de fúria minimalista e anti-material, despejei o meu roupeiro em cima da cama e botei olho implacável novamente sobre tudo o que era meu. O resultado foi um saco azul de Ikea a abarrotar pelas costuras e quase metade dos sapatos fora. Fora, salvo seja, porque decidi dar uma segunda oportunidade a toda a roupinha boazita e uploadá-la nos benditos Facebooks de segunda mão. 
   



Já vendi umas coisas - mais do que estava à espera, para dizer a verdade - e estou a fazer figas para que mais algumas lhes sigam o caminho. Daqui a uns dias, o que restar vai direitinho às Oxfams desta terra (onde também já lá comprei roupa). 

Não esqueço o alívio que foi arrumar de volta no roupeiro apenas as coisas que realmente uso e vê-lo tão limpinho e leve. Entretanto o alívio desvaneceu-se quando vi que duas malas grandes não chegaram para arrumar toda a minha tralha tecidal, mas penso sempre pelo meio do desânimo que podia ser pior, três podiam não ter chegado. 

Gosto muito de saber que as nossas mudanças se fazem de um dia para o outro, literalmente, e que raízes não as criamos em lado nenhum, e voar é sempre que apeteça. Materialmente falando, estamos desprendidos de Bruxelas, como estávamos de Portugal, como estivemos de Londres. E agora siga para outro canto da cidade.



S.


* Se bem que, defina-se "mínimo". Temos cá duas mantas que não devem ter custado mais de 5 libras na Primark mas que nos andam a seguir pela Europa fora há três anos... Porquê, não sei bem. São mesmo muito fofinhas, macias, e gostava de dizer que cheiram a casa para isto ficar mais sentimental mas não cheiram; quando muito cheiram a amaciador nos dias imediatamente a seguir a serem lavadas. E por falar em amaciador, há um, o Comfort azul, cujo cheiro nos despoleta a memória de quando começámos a viver juntos em Londres e esse sim, tem cheiro a casa. Mas cá não há, portanto as mantas não cheiram a casa. A última vez que fomos a Londres - e abençoado comboio sem a mariquice dos líquidos - a única coisa que trouxemos da cidade como prenda foi uma embalagem de Comfort azul comprada numa Boots qualquer. É este o nosso nível de loucura pelo dito detergente. 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Volta à Europa em bicicleta

Há muito que o D. me tem vindo a tentar convencer a irmos a Portugal de bicicleta. Ideias mirabolantes é com ele por isso a minha reação standard é olhar para ele muito séria (ele todo sorridente porque sabe que a ideia é extravagante mas está a falar a sério e sabe que eu sei que ele está a falar a sério e sabe o que vai acontecer a seguir), eu desato a rir, reviro os olhos, e lanço uma tirada de razões por que a ideia é impossível: são quase 2000 kms, há Pirinéus pelo meio, eu não tenho resistência assim, ele nem na cidade anda de bicicleta, quanto mais atravessar países. Rimos um bocadinho e o assunto morre por ali. Até à próxima vez em que ele se lembrar.

Por isso foi com enorme surpresa que eu descobri que existe uma iniciativa - já bem adiantada, diga-se de passagem - para tornar o continente europeu ciclável de umas pontas às outras. 

Vejam esta maravilha:


No fundo a ideia é criar estes circuitos de vias rápidas para bicicletas que atravessem a Europa e liguem capitais, costas, etc. De notar que nenhum dos 15 percursos está ainda completo (o nº1, chamado "Costa Atlântica" e que liga o Algarve à Noruega, ainda não está realizado no território português). Segundo o website do EuroVelo, a ideia é que até 2020 a rede que vemos no mapa esteja substancialmente completa.

E uma pessoa começa a ficar com ideias...

Reparem na maravilha da rota 9, "Rota Mediterrânica": partir de Sevilha e ir Espanha acima, fazer a Côte d'Azûr francesa, depois ali um bocado de Alpes, vamos saltar aquilo, depois, Eslovénia, Croácia e Balcãs abaixo até à Grécia... Isto é que é o verdadeiro interRail, o verdadeiro périplo pela Europa.

Não faço bem ideia de quanto tempo demoraria a viagem, sendo que também não é preciso fazer uma rota de uma ponta à outra. Há que contar com paragens e demoras em sítios particulares, especialmente capitais ou outras cidades/vilas interessantes, para se ver o que merece ser visto. Tenho noção que isto seria uma viagem para ser preparada em vários anos - especialmente a parte da resistência - mas tenho perfeita consciência que é possível. Faz-se, não está só ao alcance de atletas de alta competição. Se há dois anos me dissessem que eu passaria a fazer commuting de bicicleta eu rir-me-ia muito na cara dessa pessoa, por isso acredito que isto, sendo a viagem monumental que é, é possível. 

Pensando agora assim um bocado por alto. Por exemplo:

- de Bruxelas a Lisboa são 1800 km. Para fazer o percurso num mês equivaleria a 60 km por dia; 

- tendo em conta que neste momento faço cerca de 8 km por dia de commuting (total ida-e-volta) isso significaria, er... um ou dois anos intensivos de treino?

(Acho que não estou bem a ver o que são 60 km por dia de bicicleta durante um mês...)

Bem, mas a ideia de base aqui é que é possível. Não agora, não para o ano, mas talvez daqui a uns 3-5, se a preparação começasse brevemente. Poderia começar por treinar para o objetivo de fazer Lisboa-Algarve. É tudo razoavelmente plano e tal, podia ser que sim. 

Acabei de descobrir novo objetivo de vida. Há que começar agora por descobrir a bicicleta alma-gémea. Já comecei as pesquisas por aqui.

Umas imagens para dar forçazinha:








Opáá... Tinha-me esquecido do pormenor da bagagem...






S.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Sei o que fizeste o 26 de fevereiro passado

Andei o mês todo a pensar nisto e até fui ver o e-mail da reserva do avião para descobrir o dia certo em que tínhamos chegado a Bruxelas.

Reparei hoje que faz um ano que nos mudámos para Bruxelas. 

É a primeira vez, desde que começámos a morar juntos, que paramos um ano no mesmo sítio. E eu que estava tão convencida que seria Londres a quebrar a marca... 

Não temos intenções de sair daqui tão cedo mas muito menos de ficar aqui muitos anos. Vai-se deixando andar, num misto de ir-se com a corrente do dia-a-dia e ter-se umas imagens esboçadas sobre onde se quer estar no futuro próximo.

Agora, com o ciclo anual fechado, e à medida que os próximos meses se desenrolam, começam as comparações inevitáveis - especialmente com o tempo que faz e o que fez o ano passado. E com o que se estava a fazer há um ano, e onde fomos passear, e com quem estávamos e o que sabíamos, e o francês que falávamos e percebíamos. 

Esta cidade de vez em quando frustra-me, dá-me algumas dores de cabeça, mas também foi ela que me deu o meu primeiro emprego a sério, a possibilidade de me deslocar a pé para o trabalho e a facilidade em lhe escapar quase todos os meses devido à sua centralidade. Por isso as minhas queixas são relativas.






S.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Vida a 2 e a 1+1

Começou quando a nossa vida a dois ainda não tinha começado. 

O laço da imperatividade da presença física foi quebrado quando o D. entrou num avião a caminho de Londres três meses antes de mim. A nossa relação tornou-se "relação à distância" durante esse tempo, com pontuais visitas de parte a parte, e ainda que temporariamente. Mas o mito de que a presença era absolutamente necessária a todo o tempo desfez-se e tornámo-nos duas pessoas com vidas autónomas, que se sobrepõem muitas vezes, que vivem juntas, que se amam e que partilham um desejo enorme de constituir um "nós" verdadeiro, todos os dias e à sua maneira.

Quando parti para Londres, viajei de avião sozinha pela primeiríssima vez. Como o D. o tinha feito três meses antes, aliás. Outra amarra que foi quebrada. Rapidamente ficou inscrito na minha mente que é possível, eu sou capaz, faz-se. O que até aqui estava conotado na minha mente com "férias em família" (necessariamente, para mim, férias eram em família) tornou-se um mero instrumento que me leva do ponto A ao ponto B. O avião perdeu a mística que encerrava.

Estes dois cortes de amarras, da imperatividade da presença física e do avião como parte de férias, deram origem a uma coisa muito curiosa e que eu nunca esperei: vou a qualquer lado sempre que é preciso. Idem com o D., ou a coisa não funcionaria.

Há um jogo em Londres para ver, mete-se o D. num autocarro e vai ver. Surge a ideia de surpreender os meus pais interrompendo-lhes as férias de verão para se me juntar a eles, lá vou eu a voar até Faro. Reunião de trabalho em Lisboa, apanha-se o avião e lá estou eu na Portela passado duas horas. Jogo do Benfica com o Barcelona, segue sr. D. até terras espanholas. Férias de natal na terra-natal, senhor meu parceiro parte uns dias antes de mim.

É tudo muito novo, isto. Ou antes, por razões circunstanciais (o Benfica de repente joga muito fora mas muito perto daqui e o meu emprego é muito dado a reuniões fora de Bruxelas) intensificou-se recentemente. Talvez por isso mesmo o gosto a autonomia e a quebra da presença física esporádica sejam hilariantes e um gosto ainda não decididamente certo como saboroso ou amargo. Por enquanto é isso mesmo, hilariante, exhilarating, libertador, confortável, saudável. E a sensação de "CASA, cheguei a casa" quando se entra pela porta do nosso pequeno apartamento bruxelense e "olha só quem está aqui, a falta que me fizeram estes braços e estes traços familiares e este riso e esta voz e estas piadas reconfortantes, perspicazes e conhecedoras". Mesmo quando se acaba de deixar outra casa que já foi Casa, outras caras familiares, outros braços reconfortantes, e ainda se está a tentar descortinar se o país que se acabou de visitar e já foi o meu país continua a ser o Meu País e, se sim, que lugar no meu coração tem este onde acabei de aterrar cheia de alívio.

A ausência é uma poderosa catarse de sentimentos. Especialmente porque suscita a saudade. Faz-nos sentir vivos e humanos, e permite definir claramente o que é fundamental e importante na nossa vida, como acho que mais nada o consegue.





S.