Volta e meia lá aparece um estudo que afirma que finalmente se descobriu que os cérebros de homens e mulheres são diferentes. Os anglófonos têm uma expressão muito interessante: hard-wired differently. Ou seja, os cérebros aparentemente não são apenas diferentes em tamanho e peso, mas sim nas conexões que os neurónios fazem uns com os outros.
A reação dos autores destes estudos é mais ou menos a mesma de todas as vezes. Alguma surpresa, genuína ou não, isso agora não é comigo, por os resultados confirmarem de forma tão clara antigos estereótipos nos quais está baseada toda a cultura ocidental, e alguns suspiros de bravura e pioneirismo, de quem conseguiu conduzir uma investigação tão polémica neste mundo dominado pelas feministas e a sua politicamente correta igualdade.
A reação dos jornalistas é também mais ou menos a mesma de todas as vezes. Ouvem as palavras "diferenças entre sexos" e "estudo científico" na mesma frase e toca a fazer títulos sensacionais. Se há coisa que vende são velhos estereótipos ressuscitados por investigações académicas e revestidos da película sagrada do científico.
A reação dos comentários nos sites dos artigos ou em páginas de Facebook onde estes títulos são publicados também é sempre a mesma. Uns mais trolleiros, outros com pozinhos de sofisticação, resumem-se todos assim: TOMAAAAA, FEMINISTAS! SOMOS DIFERENTES, INCHAAAA!
Foi por isso com uma sensação de impending doom que eu cliquei num desses títulos que me havia aparecido no Feedly através do the Guardian (!). Precisamente por ter surgido neste jornal que dei crédito à coisa: não podia descartar isto como mais um sensacionalismo sexista da direita conservadora. Eu tenho uma genuína confiança na ciência e que a investigação feita nas universidades bem rankiadas é de qualidade e rigorosíssima. E eu não sou de ciências naturais, eu não sei, portanto dei o benefício da dúvida. Como já aqui disse antes, eu gosto das premissas do feminismo, mas não gosto de dogmas. E a investigaçao pura, rigorosa, metódica e peer-reviewed é o melhor sistema que temos contra os dogmas. Por isso contemplei a hipótese de isto da igualdade de capacidades estar errada e continuei a ler. As conclusões mas sobretudo as inferências que os autores faziam pareciam-me um bocado rebuscadas portanto não liguei mais e decidi que só poderia formar uma opinião se lesse o artigo original.
Não me lembrei mais do caso até hoje, quando o the Economist lançou um post para o feed de notícias do Facebook falando do assunto. A maneira segura, como quem afirma o óbvio, com que descreviam o estudo naquele post fez-me temer o pior: et tu, Economist? Também tu não resistes embarcar na polémica e nos estereótipos-virados-ciência?
Diz o post:
"Trending: Men and women do not think in the same ways. Few would disagree with that."
Er... A sério? Muitos discordariam.
"And science has quantified some of those differences. Suggesting why this is true in evolutionary terms is a game anyone can play. Finding out why sex differences are true in neurological terms is another matter altogether".
E o que é mais triste é que o
próprio artigo, que eles próprios escreveram, prova estas linhas erradas. Os comentários, especialmente os iniciais, não desiludem: o pessoal salta de alegria ao ler a frase "
Men and women do not think in the same ways" escrita em relação a um estudo neurológico e os "TOMAAAA, FEMINISTAS!" não se fazem esperar.
Mas, e o que diz afinal o artigo sobre o estudo?
Foi feito o mapeamento de cérebros de homens, mulheres e crianças de ambos os sexos para se descobrir como é que os neurónios se conectavam entre si e que zonas do cérebro ativam mais frequentemente em cada categoria de humanos. Isto foi o resultado médio:
Com as imagens resultantes foi só fazer a ligação aos estereótipos comuns e voilá, ligação perfeita. E o problema foi exatamente este (que é quase sempre o mesmo nos estudos deste tipo, para uma boa explicação sobre isto ver
The Delusions of Gender da Cordelia Fine): a interpretação que a autora do estudo fez dos resultados é subjetiva e condicionada pelos próprios estereótipos. Eles estão explicados no artigo, mas resumindo: mulheres são melhores na intuição, na comunicação e no
multi-tasking, homens são melhores na coordenação espacial e motora.
Pondo de parte as fortes suspeitas de que o cérebro humano é ainda um grande mistério para os cientistas e muito pouco é consensual sobre como ele funciona, a própria autora acaba por dar um grande pontapé nas inferências que acabou de fazer através da sua seguinte grande descoberta:
"Dr Verma’s other main finding is that most of these differences are not congenital. Rather, they develop with age."
Mau. Mas são hard-wired differently inerentemente ou as diferenças começam a manifestar-se com a adolescência? É que isto muda tudo. Se o cérebro é um grande mistério, no que há consenso alargado é na plasticidade do mesmo e na forma como o conseguimos modelar através do uso. E aqui entra a história das profecias auto-realizáveis: se é expectável que uma rapariga será melhor na linguagem do que na orientação espacial então essa habilidade será mais estimulada, ela investirá mais aí porque é esperado que seja capaz de exprimir as emoções por palavras, tornar-se-á melhor nisso e, pelos vistos, o seu cérebro modelar-se-á de acordo através do treino. Chama-se condicionamento social, papéis de género, socialização, o que quer que queiram, e não devia ter sido descartado tão rapidamente pela autora. Há também a possibilidade de a puberdade desencadear aqui alguma alteração hormonal que afete o cérebro e os torne diferentes, não se sabe. Mas por isso mesmo a ligação que tanta gente, incluindo a autora, já fez entre os resultados e os porquês não só é falsa como apressada e irresponsável. Para não dizer que é má ciência.
O que me desilude profundamente foi o Economist se ter juntado à onda sensacionalista e ter dado tempo de antena a um artigo com interpretações tão duvidosas. Tinha-o como último reduto do bom jornalismo de investigação e que, apesar de algumas vezes conotado com uma visão económica neo-liberal, era francamente original e questionador da norma, e não lhe vislumbrava uma agenda política definida. Acima de tudo, era rigoroso e de qualidade. Nesta peça fez uma cedência ao bom jornalismo que era impensável ao alinhar no estereótipo virado ciência. E fico contente que a maioria do comentários ao tal post, por entre os sexistas do costume, seja a chamar à atenção para a falta de qualidade jornalística do artigo em questão (e falta de rigor científico no original).
Será esta fraqueza do jornal a exceção que confirma a regra? Vou confiar que sim mas, daqui para a frente, de olho bem aberto.
S.