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quarta-feira, 2 de março de 2016

Desigualdade vs hierarquia

Desde que tive conhecimento da existência deste tipo de campanhas que sempre fui uma grande apoiante do Princess Free Zone, Pinkstinks, e afins. Tão apoiante quanto uma pessoa sem filhos e sem ideias de os ter no curto-prazo possa ser, pelo menos.  Parece-me muito óbvio que a pressão cada vez mais intensa de empurrar raparigas para tules, princesas, purpurinas, maquilhagem, tiaras e cor-de-rosas não só é redutora de interesses como potencialmente nociva para a formação da pessoa que serão no futuro; o mundo é muito mais vasto e muito mais interessante do que as princesas da Disney o pintam. Ultimamente, e especialmente depois de ter lido o Raising My Rainbow, tenho tido algumas dúvidas. Acho que este tipo de campanhas dá o tiro ao lado. They miss the point, se quisermos.

O Raising My Rainbow - Adventures in Raising a Fabulous, Gender Creative Son conta a história e as reflexões de uma mãe que tem um filho gender creative, como ela o apelida. Logo aos dois anos a criança demonstrou um fascínio tão grande por Barbies, bonecas, purpurinas, princesas e afins que só se intensificou com o tempo, e que os pais acabaram por aceitar e aprender a lidar, não com a criança propriamente dita, mas com as reações de todas as outras pessoas. As festas de aniversário temáticas, sempre uma escolha entre fazer o filho feliz com o tema princesas mas arriscar o gozo ou mesmo insultos das outras crianças ou pais, ou fazer festa com tema neutro (leia-se: masculino) como il faut mas transmitir ao filho que os gostos dele são errados, máscaras de Halloween idem, brinquedos levados para a escola, roupa preferida da criança, etc. Uma necessidade constante de policiamento dos gostos de uma criança ou uma necessidade constante de aguentar a reprovação social de quem não obedece à norma.

Agora imaginem se tivesse sido o contrário: se lhe tivesse calhado uma filha gender creative. Mal daria uma história. Uma rapariga ter interesses 'masculinos' mal é digno de nota. Quanto muito, é motivo de orgulho. Uma rapariga gostar de futebol, de subir às árvores, de brincar com carrinhos, negar Barbies e princesas é uma rapariga empoderada, muito à frente, diferente das outras raparigas*. E a autora do livro está consciente deste facto durante todo o discurso, referindo-o explicitamente várias vezes: 

'If a little girl had been pretending to be a prince, people would have applauded her in their minds for being empowered. How come when girls play with gender it's a sign of strength and when boys play with gender it's a sign of weakness? I could slap whoever made our society that way.'  

Portanto, campanhas que pretendam incentivar raparigas a fugir às princesas parecem-me um bocado redundantes: a penalidade social por fazê-lo não é elevada. Uma rapariga gostar de brinquedos/atividades de rapaz é muito mais aceitável, até aplaudido, do que rapazes brincarem com coisas de rapariga.

A questão é porquê. Porquê? É porque há realmente uma diferença qualitativa nos dois tipos de brinquedos/brincadeiras (tipo, os brinquedos de menina são bastante menos interessantes, só que ver com tomar conta de bebés, que envolvem bonecas, roupas e maquilhagem, etc, enquanto os brinquedos de rapaz estimulam o intelecto, a criatividade, etc)? Isto para mim - e acho que para todos os que apoiam as campanhas que são especificamente dirigidas a raparigas como a Princess Free Zone e a Pinkstinks (diferentes da Let Toys Be Toys ou da 'polémica' - lol - do McDonald's) - estava dado como certo, certinho. As princesas da Disney dão um mau exemplo por serem tão passivas, e terem como único propósito na vida arranjar um príncipe rico e bonito, e ronhonhó, e jogar à bola é que é saudável e estimula a coordenação motora e o espírito de equipa, e os brinquedos mais científicos e os legos e assim são cada vez mais marketizados é para os rapazes e esses é que são brinquedos interessantes.

Entretanto existe outra perspetiva que me tem permeado o pensamento sobre os assuntos de género e de igualdade, do que é realmente o feminismo e o patriarcado, e que me fez ver isto de outra forma: e se é antes porque simplesmente valorizamos as atividades masculinas de forma muito mais elevada do que valorizamos as atividades femininas, e portanto qualquer coisa tradicionalmente associada aos homens é desejável, enquanto as atividades associadas às mulheres são ridicularizadas como superficiais? Quantas mulheres têm orgulho em afirmar 'eu não sou como as outras mulheres!', ou 'eu nem gosto de [inserir atividade/produto de gaja ou que grande parte das mulheres gosta], gosto é de [cerveja/futebol/piadas sexistas/qualquer outra coisa geralmente identificada como masculina]'? Essa é tipicamente considerada uma 'gaja fixe', especialmente nos filmes mais mauzinhos. Mas tenho reparado muito no reflexo inconsciente de tantas mulheres - eu incluída - de constantemente se distanciarem o mais possível dos gostos estereotipados de mulher para serem vistas numa melhor luz. Ora isto é nada mais nada menos que o reflexo muito humano de querer pertencer ao clube dos fixes, de almoçar com os importantes, de estar onde se é valorizado. O que me faz questionar seriamente se o ódio às princesas e ao cor-de-rosa não é mal direcionado.

Porque, vejamos, se é a primeira hipótese - se é realmente uma questão de os brinquedos/atividades femininas serem qualitativamente piores, então não é desejável que ninguém brinque com princesas/bonecas/cozinhas. Nesse caso essas campanhas estão a ir na direção certa e os pais que proíbem os seus filhos rapazes de brincar com brinquedos de gaja estiveram sempres corretos. Só precisamos agora é de elevar as raparigas ao pódio dos brinquedos masculinos e ignorar o cor-de-rosa e as purpurinas para todo o sempre. Mas se é a segunda hipótese - se o problema é o problema do patriarcado em poucas palavras: um problema de hierarquia de géneros, e não de desigualdade - então já temos um problema muito mais colossal. Neste caso, pode ser que campanhas como o Pinkstinks estejam a reforçar a vergonha nas atividades femininas, em vez de empoderar raparigas.

Pode ser uma mistura das duas coisas. Legos e brinquedos mais científicos são muitas vezes direcionados a rapazes, quando antes não era assim, e realmente a Disney com os seus filmes mais antigos de princesas era do mais clichezinho que havia; mas deixem que vos diga que quando eu brincava às Barbies com as minhas primas nós construíamos cidades inteiras com todos os serviços e profissões para manter uma cidade a correr, e representávamos verdadeiras histórias de vida completas ao longo de várias gerações que só podia contribuir para o estímulo da criatividade e do pensamento complexo! E não somos únicas nisto, garanto. 

E agora uma reflexão em jeito de provocação: mesmo que os brinquedos das raparigas conduzam a papéis de cuidados e os de rapazes a papéis científicos, so what? Eu sei qual é o problema: a nossa sociedade valoriza muito mais uma carreira científica do que as tarefas rotineiras de criar uma criança, portanto brinquedos que promovam estes papéis de forma estereotipada são indesejáveis. Mas porque é que continuamos a dar mais valor a uma carreira científica do que às tarefas de criação de um ser humano?**  




*Se há elogio mais pernicioso, que toda a feminista deveria desprezar, é precisamente quando lhe dizem 'tu não és como as outras raparigas'. Evitar afirmar 'eu não sou como as outras raparigas' com sentimento de superioridade pode ser difícil mas é essencial.

** Pista: será porque ciência e fazer coisas no mundo em geral seja tradicionalmente coisa de homens e criar pessoas seja coisa de mulher e portanto desinteressante/subvalorizado? Who Cooked Adam Smith's Dinner é um bom começo.




S.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Os limites da imaginação humana

Ontem, enquanto assistia ao último filme do The Hobbit, estive agudamente consciente de uma coisa: inventam tanto troll, tanto orc, tanto elfo, tanto verme gigante, tanto anão, tanto hobbit, tanto feiticeiro, mundos mágicos com pormenores intrincados, línguas novas que se criam de raiz, criaturas que são misturas de hienas e cavalos, dragões que falam, mas o que não se consegue inventar nem conceber é uma sociedade - nem que seja de anões, de orcs, de feiticeiros ou de elfos - que não seja patriarcal. As relações de género são as mesmíssimas que no nosso mundo real aborrecido.
(Os exércitos são todos de criaturas do sexo masculino, pouquíssimas personagens femininas e as que há é para enfiar histórias de amor no enredo, ou para serem filhas que gritam muito de horror para serem salvas pelo pai e irmão, a companhia que foi reconquistar a montanha era toda de anões homens + hobbit homem + feiticeiro homem, o previsível "women and children" para o abrigo enquanto os homens lutam, etc.)
 
Mulheres no poder e a fazerem coisas que importam, isso é que era ficção científica.
 




S.
 
 
P.S. Os elfos, ainda assim, parecem a sociedade mais igualitária. Mas para uma espécie tão perfeita, deixam muito a desejar nesses campo.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Um dia de um homem numa sociedade matriarcal

Uma autora francesa criou um vídeo sobre um dia na vida de um homem se vivêssemos numa sociedade matriarcal. Uma sociedade com os mesmos vícios para um dos géneros como a em que vivemos, mas ao contrário. Está muito interessante, especialmente nos detalhes:




Pode ser que mudando a personagem se mude a perspetiva sobre o problema.
 
(O vídeo com legendas em inglês, que por alguma razão insondável não consegui incorporar, está AQUI.)


S.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Patriarcado para dummies


"American storytelling is still driven by the assumption that is at the heart of the Western canon: The male experience is the universal human experience, whereas the female experience is specialized, driven by biological factors, the absence of which prevents men from being able to see themselves in female characters."


O que é afinal a igualdade?

Este é um debate fundamental dentro do feminismo e contra o feminismo, e uma palavra que me levou muito tempo a entender. Digo com franqueza e honestidade que ainda não entendo toda a complexidade do seu significado mas há algumas ideias que me parecem já mais ou menos claras. Mas se a emprego constantemente em expressões como "igualdade de género", é bom que tenha alguma ideia do que estou a falar.

Na academia feminista há duas grandes correntes que defendem dois tipos de igualdade diferentes (passo o paradoxo) e que são, de forma simplista:

1. igualdade como "igualdade estrita"

2. igualdade como "sameness"

São uma espécie de rivais e feministas ainda se degladiam entre si sobre qual é a mais desejável e à qual deve o feminismo realmente aspirar. É também uma espécie de luta geracional entre feministas de diferentes vagas, que defendem que a sua luta é melhor e diferente da luta anterior.

1.

A igualdade como "igualdade estrita" é a igualdade mais básica. Foi para ela que lutaram as sufragistas, as feministas da primeira vaga (meados séc XIX - inícios séc XX), e é graças a ela que a mulher na nossa sociedade pode votar, divorciar, não é propriedade do marido, não tem que pedir autorização para viajar para o estrangeiro, pode abrir uma conta bancária, pode abrir um negócio, tem personalidade jurídica, ganha o mesmo que o homem (na teoria), tem as mesmas oportunidades que o homem (na teoria), pode frequentar universidades, etc. Esta é a igualdade de estatuto perante a lei que as mulheres já adquiriram e que portanto leva muita gente a afirmar que a igualdade de géneros está conseguida e a desdenhar do feminismo como consequência.

No fundo, é elevar as mulheres até ao estatuto que os homens gozam perante a lei, é tomar o padrão do que já existe - que é o padrão masculino - e lutar para que as mulheres tenham por direito exatamente tudo igual aos homens. Virtualmente, a ideia é abolir mesmo a questão de género, viver um dia num mundo em que nascer do sexo masculino ou do sexo feminino não implique absolutamente nada de diferente para a vida dessa pessoa. 

Esta igualdade estrita é o que leva tanta gente a interpretar mal o feminismo e a ultrajar-se quando se fala em igualdade entre homens e mulheres. Para estas pessoas, homens e mulheres são biologicamente diferentes, têm papéis sociais diferentes e acham que ainda bem, porque assim o mundo é variado e colorido e interessante. Temem um mundo em que homens e mulheres vistam de forma igual, tenham o mesmo comportamento, os mesmo hábitos e hobbies, gostem todos das mesmas coisas, tenham todos a mesma sensibilidade (ou ausência dela). No fundo, temem um mundo em que as mulheres se transformem em homens. 

Apesar de eu achar que estes receios são infundados, já que as pessoas são todas diferentes entre si, não se vestem todas da mesma maneira, não têm todas o mesmo comportamento, não têm os mesmos hábitos nem hobbies, e não gostam das mesmas coisas nem têm todas o mesmo tipo de sensibilidade, sejam homens ou mulheres, e que o género não devia ter a importância que tem atualmente nem ter uma linha tão marcadamente divisora como ainda tem, comecei a desconfiar que havia alguns buraquinhos nesta teoria. Mas antes de eu o ter sequer sonhado, já há muitas décadas atrás várias feministas o tinham descoberto, analisado, criticado, e teorizado.

2.

Na conferência a que assisti há uns meses sobre o desemprego jovem, houve a apresentação de um estudo interessantíssimo sobre a diferença de níveis de competitividade entre rapazes e raparigas em várias idades de que falei extensivamente aqui. Basicamente, revelava que desde os 5 anos que havia um défice de competitividade nas raparigas, que não era explicado pela sua competência, e mesmo em áreas em que elas até eram melhores do que os rapazes. Resumidamente, parecia haver um caso de overconfidence nos rapazes e underconfidence nas raparigas que não se sabia se era genético ou incutido através de diferentes educações dadas a cada um dos géneros. Na altura, no período das perguntas&respostas, houve uma pergunta que me ficou presa à cabeça e me deixou a matutar (até hoje). Uma eurodeputada húngara levantou-se e perguntou simplesmente: "Mas qual é o mal?" As raparigas são menos competitivas do que os rapazes, mas qual é o problema disso? É assim tão desejável que elas tenham os níveis de competitividade selvagem que pautuam a sociedade atual e que leva a tanta injustiça, stress e rivalidade perniciosa? Porque é que em vez de se lamentar a falta de competitividade das raparigas, não se preza as características de cooperação, diálogo e entre-ajuda que são muitas vezes uma conotação feminina e atribuídas às mulheres em geral? Porquê não lamentar a falta destas características nos homens?

Bom, o apresentador deu uma resposta neutra, qualquer coisa do género que não estava ali a aplaudir ou a criticar a competitividade, o estudo pretendia apenas medir a sua diferença entre rapazes e raparigas desde tenra idade. E que, por pior que fosse a competitividade selvagem e por mais desejável que fosse a cooperação, a verdade é que da forma como o mercado de trabalho está montado, a ausência de competitividade numa pessoa irá prejudicá-la, seja por que a leva a não candidatar a uma vaga de emprego, seja por não exigir uma promoção, seja por não ter a ousadia necessária para criar o seu próprio projeto. Basicamente, competitividade é a essência do capitalismo.

Mas é precisamente aqui que muitas feministas se insurgem. O mundo, tal como está montado, rege-se pelas regras e leis que os homens fizeram e decidiram à sua imagem. A mulher, que entrou nele há relativamente pouco tempo e certamente há menos de um século, que ainda só mais recentemente passou a ser parte ativa na sua construção, teve que conquistar a igualdade segundo as regras já em vigor e segundo o modelo existente, que era - como só podia ser - o modelo masculino. Mas é precisamente por isto que muitas vezes a sua luta e a sua tentativa de conquista falha. Falha porque existem coisas que não estavam previstas, porque não era preciso serem tomadas em conta, no modelo do mundo construído. É por isso que não se sabe ainda bem o que fazer com o aborto, não se sabe bem o que fazer com a licença de maternidade, não se sabe bem o que fazer com o assédio sexual, com os piropos, com o crime da violação, e, durante muito tempo, não se soube bem o que fazer com a violência doméstica. Experiências características do sexo feminino e que foram trazidas para o fórum público a partir do momento em que estas passaram a ser parte ativa do fórum público.

Da frase lá de cima:  "The male experience is the universal human experience, whereas the female experience is specialized, driven by biological factors (...)". 

A experiência masculina é o padrão pelo qual regemos a sociedade, as ideias, o mundo do trabalho, até a linguagem! O Homem, enquanto humanidade, o ele/eles enquanto pronome standard. Imaginem uma multidão de mil mulheres ("elas") e na qual aparece um homem: passam automaticamente a ser "eles". Porquê, se a vasta grande maioria é composta por elas? Pequeno exemplo mas que ilustra muito bem isto do masculino enquanto padrão universal da humanidade. Quando se fala de patriarcado, é disto que se está a falar. O homem como o padrão de "pessoa", "ser humano", e a mulher como, bom, uma "mulher", um ser humano demasiado especializado devido à sua biologia e impossível de ser compreendido pelo "homem" e mais impossível ainda, da sua experiência ser elevada à categoria de padrão.

Isto levar-nos-ia à questão da representação das mulheres nos media, que é generalizadamente tão estereotipada pela sua biologia (ou é como mãe, ou é como objeto sexual, ou é como virgem, tudo muito unidimensional). Mas como não quero ir por aí hoje, fica só aqui isto: 


You go, George. R. R. Martin, you badass story-teller!

É precisamente pela questão do homem como universal, mulher como exceção que muitas feministas reivindicam um outro tipo de igualdade. Uma igualdade que não é "igualdade estrita" mas que é antes "sameness". E eu sei que se formos ao dicionário elas aparecem como sinóminos, mas há uma diferença entre as duas que é crucial. "Sameness" é a minha experiência gozar do mesmo estatuto que a experiência do outro. Entre géneros, isto seria fazer com que a experiência feminina fosse tão válida, tão igual e tão considerada quanto a experiência masculina. A experiência feminina deixar de ser especializada, deixar de ser uma espécie de exceção à regra que é a masculina, e gozar da mesma importância e validade que esta.

Concretamente, um exemplo: a expressão "isso é coisa de gaja!", expelida sempre com o mesmo ar de desdém, deixar de acontecer. Duas coisas estereotipicamente de gajo e de gaja: os mummy blogs e os blogs sobre futebol. Gostos à parte, uns são muitas vezes encarados como coisa de mulheres que não têm mais nada que fazer e portanto nada sérios e motivo de alguma condescendência (mesmo o próprio termo "mummy blogs" transparece esta condescendência), os outros são neutros. Uma coisa ser "de gajo" não é motivo de escárnio nem desdém, é só "de gajo", é neutro.

A Germaine Greer é muitas vezes classificada como uma destas feministas que defendem o "sameness" por oposição à "igualdade com os homens". No seu livro The Female Eunuch ela diz que é ridículo e contra-produtivo a luta pela igualdade de género porque querer que as mulheres sejam iguais aos homens é querer que ela emulem um modelo estragado à partida. E com isto ela não queria dizer que os homens são estragados, queria dizer que a forma como a sociedade foi montada - por homens - tem graves defeitos e que uma mulher tentar vencer nela é obrigada a adotar os vícios e defeitos que a sociedade à partida tem. Acho que isto explica muito sobre as mulheres em altos cargos políticos e porque é que há poucas, e as que há são quase, tão ou piores, que os homens políticos: tiveram que adotar os mesmos comportamentos podres, competitivos e defeituosos para conseguirem vingar nesse boys' club, os mesmos comportamentos que os outros políticos homens adotam e que os fazem ser incompetentes e detestá-los. Ou seja, o problema não seria abrir caminho a que mais mulheres chegassem ao topo (porque depois as que lá chegariam seria as que nunca iriam mudar nada) mas sim transformar o caminho de tal forma que depois as pessoas certas (homens e mulheres) lá chegassem. 

Há mesmo muitas coisas que ainda me intrigam nesta diferença entre "igualdade estrita" e "sameness" e tantas vezes acaba mesmo por me parecer um paradoxo. É um debate que começa a resvalar para a semântica, para a filosofia e para o abstrato, mas é um debate extremamente importante no feminismo e nos estudos de género. Para mim, a igualdade de género é a luta para que não se precise de definir as coisas a partir do género. Ou seja, que uma pessoa possa ser o que quer ser sem o facto de os papéis de "homem" e "mulher" a restringirem nas suas escolhas. (Viram como evitei cobardolamente a questão das igualdades? :P)

Espero que agora este chavão aparentemente tão inócuo e óbvio já faça mais sentido:






S.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O maravilhoso mundo da publicidade sexista

É difícil reparar quando uma coisa está errada se vivemos com ela desde sempre e não conhecemos alternativa. É preciso grande dose de imaginação para envisionar um mundo diferente se esse mundo nunca existiu. Esta dificuldade é elevada ao quadrado se achamos que a nossa realidade não tem mal nenhum; é normal, pois se nunca conhecemos diferente porque haveria de estar errada?

Vivemos num mundo altamente sexualizado. Isto não seria necessariamente mau se essa sexualização fosse natural, igualitária, e acima de tudo saudável. Mas está longe de o ser porque as mensagens com que somos bombardeados diariamente - quase sem notar conscientemente, de tão banais que se tornaram - passam uma imagem de uma ultra-sexualização particularmente violenta para a mulher, em que o que conta é o desejo masculino, e a perfeição do corpo feminino em nome não se sabe muito bem de quê (da juventude, da frescura, da passividade, da mulher tornada boneca...). Hoje confunde-se empowerment da mulher com salto-alto, disponibilidade sexual instantânea, solário, lipo-aspirações, maquilhagem, saias curtas e justas. É o sair de uma gaiola e enfiar noutra, pensando que agora sim, se chegou à liberdade.




N' O Segundo Sexo, a Beauvoir fala disto. Precisamente como a aparência da mulher sempre foi moldada em nome de um ideal que não lhe diz respeito, um ideal de beleza subordinado ao que o homem deseja, variando consoante as épocas mas sempre com o mesmo objetivo comum. Um ideal que é criado tão somente para a render à passividade e à condição de boneca e manequim, embelezá-la o mais diferente possível do homem, mantê-la como o "Outro", a tal coisa para ser admirada, lá alto num pedestal ou no submundo, misteriosa porque diferente, numa vénia perpétua à aparência, nunca à sua humanidade. Daí que os stilettos vertiginosos de hoje não sejam no fundo mais que os enfaixamentos dos pés das meninas chinesas há uns séculos atrás, ou os corpetes do séc. XIX não tivessem um propósito fundamentalmente diferente que as saias-tubo: votar a mulher à imobilidade.

Beauvoir diz:

 "Les coutures, les modes sont souvent apliquées à couper les corps féminin de sa transcendence: la Chinoise aux pieds bandés peut à peine marcher, les griffes vernies de la star d'Hollywood la privent de ses mains, les hauts talons, les corsets, les paniers, les vertugadins, les crinolines étaient destinés moins à accentuer la combrure du corps féminin qu'à en augmenter l'impotence."

"As costuras, os padrões são frequentemente aplicados para privar o corpo feminino da sua transcendência: a chinesa com os pés enfaixados mal podia andar, as unhas envernizadas da estrela de Hollywood privam-na das suas mãos, os saltos altos, os espartilhos, as cestas, a armação dos vestidos, as crinolinas foram destinados menos a acentuar o corpo feminino do que a aumentar a sua impotência."


E continua, nesta crua mas tão clara afirmação:

"L'idéal de la beauté féminine est variable, mais certaines exigences demeurent constantes; entre autres, puisque la femme est destinée à être possédée, il faut que sont corps offre les qualités inertes et passives d'un objet."

"O ideal de beleza feminina é variável, mas alguns requisitos permanecem constantes; entre outros o seguinte, pois como a mulher está destinada a ser propriedade de outrém, é necessário que o seu corpo ofereça as qualidades inertes e passivas de um objeto."



É incrível como tão pouco mudou desde que Simone escreveu isto. Hoje, exemplos desta objetificação da mulher entram-nos casa e olhos adentro diariamente que já mal damos por eles. Mas é quando oiço respostas do género "Eu visto / uso / faço X para agradar a mim mesma, porque gosto, e não para agradar aos homens" que me surpreendo que, porra, a mensagem é mesmo eficaz, tão eficaz que nos chega a convencer que o fazemos por espontânea e livre vontade, e não porque somos condicionadas, todos os dias desde pequeninas, por múltiplos canais, que assim é que é. Esta dialética do inerente/externamente-condicionado é o que me fascina na igualdade de géneros e não é exclusivo dela. No fundo é isto que é a socialização, é assim que aprendemos a viver em sociedade, que interiorizamos as regras, tanto legais como informais, do que é ser pessoa. O feminismo simplesmente contesta muitas das que nos impingem sobre o que é "ser mulher" e "ser homem".

Eu não sou imune a elas, claro está. Não sou uma ermita. No meu guarda-roupa versam alguns saltos-altos, uma ou outra saia-tubo, vestidinhos bonitos e alguns extremamente restritivos à minha mobilidade. Pintei o cabelo durante vários anos, faço depilação como é esperado, pinto as unhas de vez em quando. Mas isto não me impede de questionar qual é o propósito com que calço um sapato que me vai fazer bolhas e impedir de andar rápido, porque é que mudo a cor natural do meu cabelo ou que sinto que se não cortar os pelos que teimam em crescer debaixo dos braços sinto que estou a cometer um crime. É o tentar descobrir sempre se o que estou a fazer é de minha verdadeiramente livre vontade ou se estou apenas a capitular face à poderosíssima mensagem com que sou bombardeada diariamente.

Sobre isto da objetificação da mulher, e ligado também aos posts que já fiz sobre a representação da mulher nos media, deparei-me com este vídeo brilhante sobre a forma como a mulher é mostrada na publicidade. E porque corremos o risco de não perceber onde está o problema, já que - again - isto é no que estamos banalmente imersos, decidiu-se imitar certos anúncios extremamente degradantes mas colocando um homem no lugar da mulher. Isto, mais do que qualquer outra coisa, grita o ridículo que são estes anúncios.

O vídeo faz parte de um projeto que um grupo de alunos da Universidade de Saskatchewan fizeram, no âmbito de uma disciplina de estudos de género. Aqui fica:




No dia da Mulher, andou a circular pela blogosfera um post do mesmo género, extremamente espirituoso e que espelha bem o que é isto do Patriarcado, ao criar um universo paralelo onde governaria um Matriarcado, com as mesmas falhas e degradações para um dos géneros que o primeiro. É o Plano B para a Humanidade. Ide checkar também que é mesmo bom.

O Unas também já lhe apanhou o jeito:




S.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O patriarcado tira-me o sono - literalmente

A minha madrugada foi difícil. Voltas e voltas na cama tentando adormecer e falhando miseravelmente, devido a um misto de não-sono e cabeça a fervilhar. Teria passado melhor o meu tempo a ver os Óscares (e daí talvez não - sou só eu que acho um ultraje que o Argo tenha ganho melhor filme? Que duas horas tão olvidáveis de filme, que coisa tão somente razoavelzinha, credo).

Tenho sempre as minhas melhores ideias antes de adormecer. Como a noite anterior foi propícia à insónia, do ponto de vista das ideias foi muito frutífera. Esbocei todo um post na minha cabeça sobre a representação da mulher na televisão portuguesa, que envolvia alguns filmes norte-americanos que vi há pouco tempo, mais o Vale Tudo, o Odisseia e o Preço Certo. Entretanto, o sono passa por uma pessoa e esvazia-lhe a cabeça de todas as ideias brilhantes e fica antes esta amostra de post. Mas como se diz na loja: "Olhe, é o que há."

Desde que comecei a ler noutras áreas da igualdade de género que não a académica conciliação trabalho-família que a indignação cresce. A ignorância é mesmo uma benção. Fiquei especialmente indignada desde que assisti a uma conferência extremamente informativa e assustadora sobre a over-sexualisation of girls, na qual fiquei a saber que há um número cada vez maior de raparigas a verem o lap-dancing como uma boa profissão, muito porque o que se celebra nos media é o sex-appeal das mulheres, seja em anúncios, programas de televisão, concursos, filmes, jogos de vídeo, revistas. Que todas estas mensagens, uma aqui, uma ali, mas num fluxo constante, todos os dias, as faz associar o seu valor-próprio ao serem sexualmente atrativas.

Não quero enveredar pela questão de quem tem a culpa: se são os paizinhos, se é a televisão má, se são as revistas cor-de-rosa, se é a cabeça oca característica da adolescência - até porque todos, se bem que uns em maior grau que outros, têm a sua dose de culpa. Mas com isto tudo arranjei um jogo novo: descubra-o-estereótipo.

É muito divertido. Passa primeiro por observar os diferentes tipos de formas simplistas com que as mulheres são representadas nos media (vamos focar na TV e cinema). Vou já adiantar um mega spoiler: não são muitas. Ui, disto é que não estavam à espera! Normalmente há:

- a histérica/neurótica, que tem muitas variantes (mãe-histérica, namorada-neurótica, são exemplos), e é muito frequente nas rom-coms hollywoodescas;

- a sedutora, que não serve outro propósito no filme que é estar ali, servir de fantasia aos atores principais e ser um pretexto para as peripécias em que estes se envolvem. É também frequentemente apenas uma espécie de bengala às qualidades do ator principal, assim uma espécie de prémio que este conquistou por ser tão esperto/bonitão/charmoso/astuto (coughJamesBondcough);   

- a virgem, a inocente, a pura, que contrasta fortemente com a sedutora e que merece tudo de bom deste mundo e do outro. No entanto, e especialmente nas comédias de adolescentes, serve o mesmo propósito em relação aos atores principais;

- a mãe, muito semelhante à virgem mas de características dóceis, maternais, self-effacing. Nunca vale por ela própria e é muitas vezes também uma personagem-bengala para outra bem mais importante.

É mais ou menos isto. Claro que estas são personagens-tipo, estereótipos, e normalmente os senhores cinematógrafos conseguem meter uma ou outra variante que tenta dar um toque de originalidade à personagem que, pensam eles, acabaram de inventar. É tentar tapar o sol com uma peneira. E é risível o número de vezes que estas personagens-tipo aparecem e re-aparecem depois de se lhes soprar a camada muito fininha de perlimpimpim de originalidade que tinham. Chega a ser um bocejo.

Por isso ando sempre à cata de filmes, livros, programas e histórias que representem personagens femininas de forma original. Para não me arrancarem fortes bocejos, ou rangeres de dentes demasiado sonoros. O que é curioso é que normalmente encontro-os onde menos espero. E acho que isto agora tinha tudo para dar para rubrica, do género: eu metia aqui de vez em quando um livro ou filme ou série ou programa de TV que tivesse apanhado, e apontava-lhe o dedo envergonhador-do-cliché-feminino, ou aplaudia de pé a originalidade da representação de uma rapariga ou mulher qualquer. Porque tenho-os encravados na garganta aos molhos.

Ontem durante a insónia tinha uns quatro ou cinco programas muito bem explicadinhos na minha cabeça, com argumentos demolidores muito bem alinhavados e tudo; hoje só vejo umas sombras. Mas, bom, lembro-me que um era o Odisseia (e não, nem pensar que vou para a Casa dos Segredos. Demasiado explorado - em muitos sentidos).

Ora bem, o Odisseia. O Odisseia tem a fama - e ganhou-a muito antes de estrear, por ser o novo bebé do Bruno Nogueira - de ser um programa de humor inteligente, muito à frente e muito diferente do resto. E normalmente, é. Já me arrancou boas gargalhadas, é uma meia-horita bem passada; mas sinceramente também já me arrancou muitos bocejos e muita sobrancelha erguida. Mas foi desde que o apanhei com o pé na argola à terceira vez que me encolhi como quando se ouve uma unha a riscar um quadro de ardósia. Então não é que os sacanas conseguiram enfiar as três personagens femininas principais em duas personagens-tipo tão perfeitinhas que chega a ser doloroso jogar ao descubra-o-estereótipo?  A primeira foi a Rita Blanco que, admito, de personagem tão extremamente neurótica tornou-se ridicularmente mas brilhantemente desenhada. Aí estava o tabuleiro de jogo arrumado porque seria a exceção à regra, de uma história até aqui estereótipo-free. Mas depois foi as raparigas-fãs que apareceram e que serviram para o BN achincalhar em apenas uma ou duas linhas de texto, a ex-mulher a chatear o maridão em férias porque decidiu partir numa viagem sem rumo nem duração definidos, tendo dois filhos pequenos (o que eu gostava de ver uma mãe fazer isto...! - a sério, estou a dizê-lo sem sarcasmo nenhum: gostava de ver um filme onde uma data de mães partiam numa road-trip porque a maternidade e os diktats de mulher-perfeita tinham-nas feito dizer "basta! preciso de um intervalo". Isso é que era original...), ou aquelas duas ou três raparigas que apareceram apenas para participar na orgia, e que depois aparecem no barco deles meias-nuas e que mal abriram a boca para falar. Só para sorrir, claro está. Concedo: a parte da novela mexicana foi original e deu para gargalhar, mas logo a seguir veio o grande plano do Nuno Lopes a beijar as bochechas do rabo da Joana Duarte e a mandar uma piada qualquer enquanto ela se ia embora e eu fiz o segundo maior facepalm da vida. "A sério, Bruno Nogueira? A sério?". Se bem que não foi completa surpresa nem out-of-character, esta linha de enredo - afinal eu oiço o Tubo de Ensaio regularmente e, oh se eu ganhasse um euro por cada vez que ele chamou gorda à Merkel ou fez crónicas com a palavra balofa incorporada. Foi apenas uma desapontante constatação. 

Depois temos o Vale Tudo, bem mais popularucho, de humor fácil, dirão muitos, mas que supreendentemente me diverte mais que os episódios da Odisseia. Não está isento de estereótipos - numa palavra: Luciana - e o número de piadinhas brejeiras tem uma correlação positiva com as vezes que o João Ricardo abre a boca. Mas tem jogos de mímica divertidos, histórias inventadas no minuto cuja comicidade varia com a espirituosidade de quem nelas participa, e mulheres participantes witty e originais. Foi uma grande surpresa, acrescento. Dá-me é sempre uma grande tristeza por não ter acompanhado o 5 Para a Meia-Noite na altura em que a Filomena Cautela o apresentava.

Chega por hoje. Ainda queria falar do filme 7 Psicopatas e um Shih-Tzu, e do Sexo e a Cidade, ou do Bridesmaids, do Hunger Games, ou até do We Need to Talk About Kevin, ou até de, haha Harry Potter :D 




mas amanhã é outro dia. E hoje já vou dormir melhor.

S.              


P.S. - E porque hoje  foi dia de Óscares e tem tudo a ver com isto da representação da mulher nos filmes, é ler este artigo sobre a categoria de Best Supporting Actress que dá que pensar ;)

Update: Entretanto, a minha amiga B. mostrou-me este link, também sobre os Óscares, e que é uma amostra fiel do quantidade de sexismo que a TV alberga: 9 Sexist Things That Happened at the Oscars.