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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Media, é assim mesmo #5

Há meses e meses que andava para falar sobre esta série mas demorou até formar uma opinião mais ou menos duradoura sobre ela daí que o post só apareça agora. 

                           

Sexo e a Cidade mas com personagens tridimensionais. E sem o bling-bling ofuscante. E com outros tópicos de conversa que não homens. E tão, mas tão mais realista. 

Não é uma série fácil de se gostar. Diria mesmo que é daquelas coisas que ou se adora ou se odeia, e eu oscilei durante a primeira temporada toda entre o ódio e a profunda admiração. Até que estabilizei, pouco a pouco, na profunda admiração. 

Ora, o que tem o Girls para odiar? Muito fácil. A personagem principal não é nenhuma modelo, não é convencionalmente bonita, não é boazinha, nem é mázinha, ou seja, é extremamente difícil de caracterizar e de enquadrar numa das personagens-tipo convencionais. Surge, tipo, como uma pessoa normal, de personalidade complexa e cheia de defeitos e contradições - aliás, como as outras três personagens principais - e isso não é muito usual. Esta foi uma das razões por que eu demorei tanto a decidir-me pela admiração: não conseguia gostar do raio das raparigas. Eram demasiado reais e com defeitos que me tocavam pessoalmente e às vezes só me apetecia era gritar-lhes que não era assim que se fazia/dizia/comportava. Como se fossem mesmo pessoas que eu conhecesse e que me exasperassem as suas atitudes. 



Depois é a ausência de glamour. Estas raparigas vivem em Nova York, profundamente glamourizada nas mentes dos seres femininos que se habituaram demasiado ao Sexo e a Cidade, mas vivem em apartamentos pequenos, partilhando casa, sem nunca lhes vermos o closet a abarrotar de Chanéis, Diors e Loubotins, e - pasme-se! - têm dificuldades enormes em sobreviver na Grande Maçã! Fala-se inclusive em dinheiro, falta dele, eternos estágios não-remunerados, empregos precários, dificuldade em saber que rumo dar à vida profissional, tanta coisa que ressoa demasiado à minha geração que tenta dar os primeiros passos no mundo ingrato do trabalho em plena crise económica. Quando tentei explicar a uma amiga o teor desta nova série, ela respondeu-me, um bocado desiludida, qualquer coisa do género: oh, mas se é parecido com a vida real, qual é o interesse de ver? Fiquei a matutar naquilo. Realmente, se é para ver a desgraça da precariedade uma pessoa liga a tv no telejornal, escusa de estar a ver desgraça ficcionalizada. O Sexo e a Cidade era por isso uma espécie de escape para muito mulherio, a vida de trintonas Diorizadas numa das cidades mais fixes do planeta, cujos problemas mais prementes eram o que vestir para a inauguração do novo bar na zona mais trendy da cidade e se algum dos seus 50 pares de sapatos combinava com o outfit escolhido. A roupa de alta costura, o sapato de marca e os restaurantes ultra-gourmet onde as protagonistas se encontravam para falar invariavelmente de quem haviam comido na noite anterior, ou quem iriam comer na próxima, enchiam os olhos às espectadoras e criaram padrões demasiado altos e irrealistas sobre o que é ser uma mulher bem-sucedida. (E não me venham com merdas, as amizades femininas não são assim.) O Girls virou ao contrário este mundo glamourizado nova yorkino e apresenta-lo-nos numa travessa de plástico, sem se importar em tirar os podres da vida na Big Apple. É demasiado cru e comum, não enche olhos de estrelas a ninguém.






Mas eu diria que o maior pecado desta série, para muita gente pecado capital, é a protagonista ser tão normal. Ter um corpo normal, excesso de peso, e não ter vergonha. Não só não ter vergonha, como ainda ter o desplante de aparecer nua em tantas cenas, inclusive cenas íntimas, ou apenas de tronco destapado, mamas ao léu e barriga redonda em toda a sua glória. E isto foi algo que eu demorei algum tempo a habituar. Ali estava uma rapariga normal, com uns quilos a mais e com um corpo que desobedece aos padrões impossíveis de beleza feminina (como aliás, 99,9999% dos das mulheres desobedece) e sem qualquer pudor em mostrá-lo no pequeno ecrã. Ao início, olhava aquilo com um misto de estupefação e admiração embasbacada, com um leve traço de inveja pelo à-vontade e coragem desta rapariga, mas com muito rebolar de olhos por me parecer que havia ali pelo meio gratuitidade nas cenas de nudez/sexo. Mas à medida que a série avançava, e eu ia tendo noção que aquela moça que ronda a minha idade era a escritora, produtora e protagonista de uma história que desafiava cada vez mais os padrões do que uma pessoa está habituada a esperar de uma produção americana, a admiração cresceu e eu venci a preguiça que me tinha dado para avançar para a segunda temporada e recomecei a ver a série que de tão realista se havia tornado dura de ver. 




Os temas tratados são também extremamente interessantes e uma raridade na tv. Há stalking, há doença obsessivo-compulsiva, há desemprego, há incerteza sobre o que fazer após a univ e os primeiros estágios, há a falta de dinheiro, há a dependência emocional, etc. Nunca com uma nota de moralidade, nem com um final feliz, nem com drama despropositado. Apenas pessoas a cometer erros e às vezes sem qualquer noção, como se fossem, er... pessoas. Muitas vezes me interroguei se muita coisa não seria baseada em situações reais vividas pela Lena Dunham porque simplesmente me parecia impossível alguém conseguir imaginar tal coisa tão intrincada mas tão plenamente realista. Entretanto descobri que sim, muita coisa é baseada na vida real da escritora/protagonista o que explicou também para mim o facto de ela ser um bocado má atriz. Parece mesmo que está a fazer de si própria (e pelos vistos está). 

Há uns dias, quando finalmente me tinha decidido pela admiração profunda, fui pesquisar mais sobre a série e a Lena e descobri rapidamente que ela se intitula de feminista. Não foi choque nem surpresa nenhuns; alguém que tem a ousadia de fazer uma série como esta só poderia ter uma sensibilidade apurada para as questões de género. A coragem de desafiar os padrões-espartilho de beleza e o des-pudor em mostrar o corpo feminino tal como ele realmente é é apenas mais um pormenor dessa consciência feminista. Claro que o que para mim é visto como audácia, para muitos é visto como exibicionismo puro. Mas não é o exibicionismo que incomoda os haters, é a lata que uma mulher sem corpo esbelto tem de aparecer nua na televisão tantas vezes. 



Incha, haters.

Que não fiquem os mais céticos com a ideia que isto é uma série cheia de lições de moral e que as mulheres são grandes heroínas e cheias de auto-confiança e desprezo pelos homens: nada disso. Os temas não são realmente "temas" a ser tratados em cada episódio e com uma moral da história feminista no final; é antes a complexidade e a forma como as personagens caem em certas situações que revela um veio feminista muito subtil mas omnipresente, se se o quisermos notar
.  
Não recomendo a série a ninguém porque compreendo perfeitamente que se possa não gostar. Ela não é fácil e mesmo com todas as suas inovações e "recomendações" feministas a minha paixão por ela não foi imediata e demorei a admitir o brilhantismo da coisa. Mas se gostarem de algo diferente e a vida banal da casa dos 20 não vos aborrecer, ide espreitar. 

Só deixar aqui uma cena do primeiro episódio e que me arrebitou a orelha logo para o potencial feminismo da série:


  


S.

P.S. Uma vez uma delas apareceu sentada na sanita a fazer xixi :O E eu que achava que as mulheres da tv não faziam xixi nem cocó!...

sábado, 2 de março de 2013

Disney redimida

Por falar em representação de mulheres nos media: Disney. A Disney deve ser uma das marcas mais conhecidas e amadas no mundo inteiro. Há muito que deixou de ser apenas uma empresa de filmes de animação; desconfio mesmo que hoje em dia o filme anual de desenhos animados que a Disney lança seja apenas o pau de lenha com que atiça a enorme fogueira do seu sucesso. Ou seja, é apenas o que inicia uma nova explosão de peluches, bonecos, fatos de mascarar, copos, toalhas, canecas, pijamas, canetas, mochilas, babetes, legos, etc, etc. Toda a parafernália de merchandise que toda a gente que já visitou uma loja da Disney sabe. Um novo filme de animação gera também novos bonecos, diversões temáticas e desfiles para acrescentar em todo o parque que a Disney tem espalhado pelo mundo. Resumindo e concluindo, a Disney é uma mega-marca mundial que gera milhões e milhões todos os anos, e que é hoje muito mais do que os filmes.

E o que é facto é que a Disney deve ser das marcas mais bem-amadas deste mundo: não há pessoa que eu conheça que não goste dos filmes da Disney, que não olhe para aquele castelo branco sobre fundo azul com olhos sonhadores e um sorriso estúpido nos lábios, e que sinta uma nostalgia da infância a descer sobre si. Mesmo quando a pessoa em causa não cresceu com aqueles filmes; em Portugal, pelo menos, só as crianças de finais da década de 80 - eu incluída - é que cresceram a ver os filmes da Disney. Isso não impede que pessoas da geração dos meus pais amem os filmes da Disney menos do que nós. Só aqui está bem refletido o sucesso da Disney em associar-se com a própria ideia de infância: até pessoas que não a tiveram durante os seus anos de criança a associam fortemente a essa fase da vida. 

Eu, estando ciente de todo este poderio de marketing e da máquina geradora de milhões, culpada me confesso: adoro a Disney. A minha evolução nos anos foi proporcional com o número de cassetes de vídeo da Disney que eu tinha, passei boas horas da minha infância colada a um ecrã a ver os mesmos filmes repetidamente, a primeira máscara de Carnaval que me lembro era da Branca de Neve, o primeiro filme que vi no cinema foi o Rei Leão, sei-lhe as falas todas de cor, e continuei a acompanhar os filmes da Disney - ainda que intermitentemente - durante a minha adolescência e idade adulta. Apetece-me dar gritinhos de histeria sempre que entro numa loja Disney e começo a ver peluches do Bambi, da Nala, do Nemo, do Timon, da Marie, do Sebastião. O meu primeiro gato chamava-se Tulose em honra ao gato mais rebelde dos Aristogatos e - confesso com vergonha - fiz um dia uma jura de quando tiver um filho (e for rica, só pode) só o vestir com as roupas mais-que-fofinhas para recém-nascido que se vendem nas lojas Disney. Entretanto, e em minha defesa, voltei a pôr os pés na terra e deixei-me de parvoíces. Acho que o facto de se pôr o pé fora dessas malditas lojas ajuda; aquilo a modos que droga uma pessoa e faz-nos alucinar e jurar estas coisas absurdas.

Entretanto, comecei a ler sobre estas coisas da representação de mulheres na TV, nos filmes, nas revistas, nos anúncios, e a chama-Disney foi-se apagando um bocado. Numa rápida pesquisa mental sobre as histórias Disney duas personagens (e aqui nem são personagens-tipo, são mesmo personagens dos filmes, tal e qual) aparecem distintivamente: a princesa em apuros e o príncipe encantado. Convenhamos: esta é uma dualidade que está tão enraizada na cultura ocidental que até na lógica das relações entre os dois géneros ela se entranha. Não foi a Disney que a inventou, é bom que seja esclarecido. Cheira-me que esta dualidade vem do tempo dos trovadores, dos castelos e das conquistas, dos reis, príncipes, cavaleiros e princesas, dos vestidos longos de veludo e do tempo das trevas (vulga Idade Média. Uma professora de história do liceu tentou provar-nos que a Idade Média não tinha nada sido idade das trevas como por vezes é apelidada, que não tinha nada sido uma época de estagnação ou mesmo de retrocesso no conhecimento, isto por causa dos mosteiros e dos monges que copiavam os livros e porque tinha sido na Idade Média que se inventaram os óculos (??). A mim nunca me convenceu. Entalada entre a época Clássica dos gregos e romanos e o Renascimento, com as suas descobertas do mundo, da matemática, da física e da astronomia, a invenção dos óculos torna-se risível.). Vem da altura em que os homens e as mulheres tinham papéis muito bem distintos e definidos, segregados, e com diferenças extremamente exacerbadas. As mulheres queriam-se passivas, dóceis, puras, os homens queriam-se valentes, ativos, corajosos. O casamento era a salvação da mulher e a sua máxima aspiração; daí que todos os contos de fadas acabem dessa forma, o final feliz que não é mais que a abençoada paz matrimonial.

Pensem em todas as personagens femininas disneyanas: essa tropa de princesas de sorriso sonso e muito cor-de-rosa que invade os corredores das lojas de brinquedos, secção menina. Personagens tão unidimensionais que nem a grande diversidade de cor de cabelo, cor de pele e vestidos consegue disfarçar o facto de serem todas uma só. O argumento que os defensores da Disney atiram é que filmes como a Branca de Neve e os Sete Anões, a Bela Adormecida, a Cinderella e afins são todos muito antigos, feitos numa época em que as mulheres tinham outros deveres e a única expectativa era que agradassem ao seu futuro marido, fossem boazinhas e não levantassem a voz. Hoje os filmes da Disney já são um bocadinho diferentes, já há Mulans que salvam a China e Pocahontas que ficam na sua terra junto do seu povo enquanto o seu amor parte para Inglaterra. 

Certo, é verdade que a Disney tem as suas heroínas que fogem ao estereótipo da dama indefesa. Mas é das suas princesas que a marca mais lucro tira. Ainda há poucos anos a Disney criou as "Princesas Disney", um sub-merchandising que junta todas as princesas de personalidade mais diluída e as transforma em "amigas" das meninas apanhadas de surpresa, sob a forma de diários (o que elas possam ter de interessante para contar sobre as suas vidas pós-casamento-com-príncipe-encantado supera-me), fatos de Carnaval, roupa cheia de lantejoulas, kits de maquilhagem, varinhas mágicas carregadas de brilhantes, muita boneca tipo Barbie, e muito, muito cor-de-rosa. Isto, muito honestamente, faz-me ter pavor perante a ideia de vir a ter uma filha.


E a Ariel é quem mais odeio, porra. A gaja é uma sereia e mete-se em drogas para ficar humana, só porque um homem com quem ela nunca falou na vida é giro e tal. E depois abandona o seu mundo, o pai, as irmãs e os amigos para ir viver com o camafeu. A Pequena Sereia: a ensinar desde 1989 a todas as meninas que por um homem se deve abandonar não só tudo o que temos e quem mais amamos mas também - e literalmente - QUEM somos. Ela era uma sereia e transformou-se em humana para poder viver com o seu amor. Todo o sacrifício é pequeno para agradar a um homem. 

Mesmo tendo em conta a Mulan, a tal heroína da Disney que se disfarçou de homem para tomar o lugar do pai doente no exército e acabou por salvar a vida do seu capitão e da própria China, já depois de ter sido descoberta como mulher. Bad-ass, sim senhora. Dizem-me também que o Entrelaçados é um bocadinho assim, uma espécie de twist ao conto da Rapunzel e cuja personagem principal não é a típica princesa submissa e dócil. Ou o Rei Leão II, cuja história se centra na cria do dito cujo, a Kiara, e também é uma princesa rebelde. Mas ainda assim, há sempre qualquer coisa de repetitivo nestas histórias: tudo tem que acabar num apaixonamento e consequente casamento. Ou seja, não importa o quão rebelde ou ousada a personagem feminina tenha sido, a sua história só é validada na medida em que acaba bem - e aqui o acabar bem é a eterna felicidade conjugal. Sabe a pouco. Reparem que com personagens principais masculinas isto não é assim; o Toy Story, por exemplo, não tem por base nenhum apaixonamento nem casamento. É apenas a história de dois brinquedos rivais e depois amigos e a fidelidade ao seu dono.




Foi por isso que quando hoje me sentei finalmente a ver o Brave (ou devo antes dizer "a" Brave), o último filme animado da Disney, e aquilo ia superando as expectativas que eu tinha para filme-de-Disney-que-quebra-os-estereótipos-de-personagem-femina a cada minuto que a fita rolava, eu decidi exclamar: "Disney, estás perdoada!". E porque este post já vai longo e o meu rant sobre a Disney foi mais comprido do que eu esperava, aproveito para inaugurar uma nova rubrica chamada "Media, é assim mesmo". O primeiro post é sobre a Brave e vem já, já a seguir. Tenho mais uns quantos já esboçados mas ideias e sugestões sobre personagens, filmes ou programas são muito benvindas ;)




S.